domingo, 16 de dezembro de 2012

samba-canção da exumação

Ao invés de transformar a casa em templo para cultuar a ausência eu tirei tuas fotos dos porta-retratos, queimei teus bilhetes, cartões apaixonados do início, comprovantes de pagamento e as faturas pagas dos cartões de crédito e da conta conjunta, juntei os presentes, as lembrancinhas, os teus ternos, sapatos, cintos, perfumes, as tuas camisas, gravatas, meias e cuecas do armário, enfiei tudo em sacos plásticos, daqueles pretos, reforçados - como se exumasse os teus restos mortais - para doar, amanhã mesmo, ao bazar beneficente de natal. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

abolerado

Depois que você saiu eu perdi o sono. Quando dormi, lá pelas 3 da madrugada, vieram os pesadelos: de perseguição, de objetivos inalcançáveis, de flutuação, de personagens mutantes. Daqueles sonhos que a gente acorda exausto.

O dia se resumiu aos milhares de minutos mal digeridos grudando no céu-da-boca. Na espera do melhor momento para te telefonar.

No fim da tarde, calhou de Aretha Franklin cantar no rádio algo como: "nenhuma dor, nenhuma lágrima depois que você me deixou". Aumentei o volume ao máximo e me derreti de chorar.

As entranhas reviraram quando te vi na praça de alimentação. O coração pulsava como se um alien fosse romper da caixa torácica. A pele era toda florezinhas arrepiadas brotadas dos poros.

Por falar em flores, esqueci os copos-de-leite, idênticos aos de Frida Kahlo, no banco traseiro do carro.

Amanhã sem falta eu recolherei os farrapos de discernimento e te olharei nos olhos e te perguntarei, na bucha, o quanto ainda você quer ver sangrar em mim.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

visita

Comprei mini-pizzas. Coloquei a coca zero no freezer. Dei ração e água aos bichos. Varri os tufos de pêlo do cão espalhados pela casa. Recolhi as roupas do varal. Tomei banho, fiz a barba, escovei os dentes e gargarejei com cepacol. Em exatos 30 minutos. O tempo da visita chegar.

Depois que a visita chegou, gastei mais 30 minutos para reduzir os batimentos cardíacos. Esforço enorme para desengasgar a voz e concatenar as palavras sem gaguejar. Para dar sentido às frases. Para encolher o riso de felicidade idiota que me rasgava a cara de orelha a orelha.

A pizza esturricou no forno. A coca zero congelou. Os pêlos do cão grudaram na roupa escura da visita. Cuidei para aparentar naturalidade. Suprimi comentários íntimos e lembranças. Para não impor à visita o constrangimento da minha saudade.

Falamos de bichos e de aparelhos eletrônicos. Da quantidade de meses que não nos víamos. De reformas e de projetos de vida. Do calor, da chuva, de falta de dinheiro. De doenças e de esportes radicais. Eu contei da viagem. A visita falou da velhice. Por mais de 3 horas nós arrodeamos diplomaticamente evitando o cerne.

Despediu-se com um abraço desajeitado. Eu, com um beijo que demorou a sair. Recendeu na sala, vindo de onde a visita sentou-se, misturado ao cheiro de cigarro, de grama cortada recente e de bicho, o perfume inconfundível dos dias passados que, pelo não dito e subentendido, eu tanto quis reviverem.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

mais sobre televisão

imagem de http://dtxmcclain.tumblr.com/
Hoje me xingaram de tudo quanto foi nome: velho rabugento, pessimista, careta, negativo, saudosista, nostálgico e retrógrado. Só porque ontem falei mal da televisão em geral e do programa da Regina Casé.

Até que o(a) xingador(a) tinha razão. Tenho reclamado, resmungado, arengado, criticado, apontado defeitos demais em tudo - no Cinema Nacional, na obra de Niemeyer, em quem escreve errado, nos programas da televisão e até na presidenta Dilma.

Nunca neguei. Sou da geração que aprendeu que a televisão (ou a religião?) era o ópio do povo. Ela promoveu a alienação utilizada pelo Dragão-Vampiro da Maldade para sugar a última gota do sangue do proletariado e engordar a pança da insaciável Classe Dominante.

Exagero. Mas eu nunca fui porta-voz da unanimidade. Muitas vezes, como diz o chavão, fui bandeira solitária contra a corrente. Nasci com olho virado, ou seja, olho que enxerga além do bom das coisas. O típico fleumático da homeopatia. O depressivo da psiquiatria. O inconveniente dos eventos sociais. O chato da cervejada da sexta-feira.

Talvez pela falta de costume, enxerguei isolado do contexto. Achei belo, intenso e profundo o que vi no programa do domingo: a passista sambando impecável com uma perna de prótese tatuada e de salto alto. O pai que inventou um mecanismo para jogar futebol com o filho com problemas de locomoção. A moça que não gosta de ser chamada de anã vestida de lantejoulas e sambando com o filho e o namorado. A simplicidade da arremessadora de disco agradecendo a deus por ter perdido a perna e com isso conseguido dar uma casa para a mãe. Gostei também da sinceirdade otimista da presidenta. Mesmo que exagerada. E da seriedade com que a diretora do Sarah conduz o trabalho no hospital.

O que me incomodou no programa Esquenta - e por extensão, na Televisão foi (e é) a massificação. A pasteurização. A carnavalização excessiva.

A televisão tem o poder de potencializar. De bombardear informação e imagem. Isso neutraliza, pulveriza qualquer boa intenção. E me deixa tonto, me exaspera, me hipnotiza, me dispersa e não me faz pensar. Definitivamente eu não tenho vocação para telespectador.

...

Agora só falta o texto para reclamar das festas natalinas. Depois eu prometo ficar de boca fechada.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

televisão

Não gosto de televisão. Acho barulhento, me dá tonteira, me suga a atenção, me hipnotiza. Porém, nos últimos dias, contra a vontade, tenho dedicado atenção à telinha.

Malhação eu vejo 2 vezes por semana na sala de espera do dentista: um almanaque de advertências e boas práticas para adolescentes. Depois, na cadeira, com a boca anestesiada, assisto a quase toda a novela de época com Camila Pitanga (não vou me dar ao trabalho de pesquisar o nome no Google), que trata de preconceitos sociais, raciais, sexuais e ensina história do Brasil em língua carioquesa. Durante a visita diária ao hospital eu vejo as polêmicas em tons pastéis da tímida e esforçada Fátima Bernardes. Domingo passado, durante um almoço com amigos, vimos Ellen Oléria cantar Milton Nascimento, no The Voice. Ontem assistimos ao Esquenta, de Regina Casé.

O Esquenta recria atualiza a Discoteca e o Cassino do Chacrinha. Só que, ao invés do caos antropofágico abelardo-barboseano, a confusão do Esquenta é organizada. Muito bem ensaiado, o público se mistura aos contrarregras, passistas, coristas, figurantes, jogadores de futebol, cantores de pop rock, pagodeiros, atletas paraolímpicos, pessoas com necessidades especiais, formandos, garis, a diretora do Sarah (para quem não conhece, um hospital que trata de pessoas com problemas graves de mobilidade), e a presidenta Dilma - sem ninguém esbarrar em ningúem.

O programa apregoava insistentemente o Brasil Melhor. O país onde a classe C (denominada "desfavorecidos" no governo anterior) aumentou o poder aquisitivo, tem acesso à saúde, educação, superou os preconceitos e participa democraticamente do programa. Várias vezes se disse, no ar, que o Brasil é lindo porque é o país da diversidade, o país que respeita a diferença, o país de um povo pra frente, feliz, que enfrenta miséria e a adversidade com pensamento positivo, um povo que minimiza seus problemas com pensamento positivo e alegria de viver.

Lindo. Emocionante. Contagiante. Quase me convenci.

Cheguei em casa incomodado. O programa colorido, que escrachava seriedades, dançante, pra-cima, tratando temas contundentes com requebro e jogo-de-cintura era mesmo o retrato do Brasil? Seria eu então um estrangeiro, de olhar míope, excessivamente crítico, pessimista, depressivo, olhar obscurecido, que só vê o lado negativo das coisas, que me recuso descer do pedestal para ligar o controle remoto e compartilhar aquela simplicidade da vida?

Daí eu li nas redes sociais a tradução perfeita para o meu estranhamento:

Fiquei pensando em como deve ser esse país maravilhoso, onde Regina Casé e Dilma Rousseff vivem. Deve ser legal morar num lugar assim, sem intolerância religiosa e no qual todos os problemas nascidos do convivio entre as diferenças são facilmente resolvidos com simpatia, otimismo e bom humor.

Ufa, Vera Gangorra, você sabe. Você também viu. Eu não estou doido. Eu não enxergo torto. Não basta samba no pé, flor no cabelo e sorriso na cara para superar limitações. O mundo não é só Rede Globo. Ginga, oba-oba, silicone, batidão e carnaval é essencial. Mas o sujeito que ignora o ladinho obscuro condena-se ao raso e à planura da telinha da existência.

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Revendo tanta informação absorvida em tempo tão reduzido (a plástica e o discurso irretocável da presidenta, a catarse beirando à paranóia da galera, o biquini de lantejoulas da moça portadora de nanismo, a arremessadora de discos que deu graças a deus por ter perdido uma perna, a malandragem do-bem dos pagodeiros, a moça sambando com uma perna de prótese e a brejeirice das bundas das mulatas) perdi o sono de madrugada. Aproveitei para ler Flannery O'Connor. Uma daquelas sábias que escreve com humor e crueza as desgraças da nossa existência sem travesti-las com a purpurina da hipocrisia.


domingo, 9 de dezembro de 2012

necrológio atrasado

Praça da Soberania

Todo mundo escreveu sobre Niemeyer no dia da sua morte. Toneladas de elogios.

Eu também escrevi. Um texto ranzinza, implicante, do-contra, chato, estraga-prazer, reclamão. Por isso eu o guardei nos rascunhos. Agora que o assunto deixou de ser manchete, aí vai.

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Niemeyer foi um dos grandes homens do século. Um herói brasileiro. Humanista. Comunista. Ateu. Sua arquitetura monumental é pura poesia de formas e linhas curvas. Trabalhou até os últimos momentos, aos quase 105 anos de existência. Levou a arquitetura brasileira, junto com o samba, a bossa-nova e o futebol para o resto do mundo admirar.

Isso foi dito e redito, escrito e reescrito, até a exaustão. No rádio. Na tevê. Na internet. Nas revistas e nos jornais: do Le Figaro ao Washington Post, do El País ao Corriere Della Sera, do Estadão ao Diário de São Raimundo Nonato.

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Meu pai foi candango. Veio trabalhar na construção de Brasília, em 1957. Na certa trabalhou em algum dos edifícios-monumentos de Niemeyer. Meu tio perdeu a mão em outro deles. Assim, sou daqueles brasilienses que, como disse um político daqui, respiro Niemeyer, tenho Niemeyer no sangue.

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100% das matérias que li (e ouvi) elogiavam a arquitetura poética de Niemeyer. Citando: Palácio da Alvorada, 3 Poderes, Catedral, Igreginha, em Brasília; Pampulha, em Belo Horizonte; Ministério da Educação (hoje Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro; Edifício Copan em São Paulo; e inúmeros outros.

Mas todos calaram-se sobre as obras polêmicas. É natural. Os defeitos dos mortos são rapidamente esquecidos e as qualidades ressaltadas.

Admito, leitor: a partir daqui eu me exponho aos impropérios e ao apedrejamento estético-ideológico. Por entrar no campo do gosto pessoal.

Niemeyer (como humano que foi) também teve seus defeitos. Também criou obras de estética duvidosa. Ruins mesmo.

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Algumas obras polêmicas de Niemeyer têm sua graça. Transitam no grupo das grandes citadas acima. Exemplos? a Passarela do Samba, no limite do aceitável; o Museu da República, pesadão, mas integrado à paisagem sci-fi de Brasília: (Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente  para aquele mundo. - Clarice Lispector); o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, ferindo ou harmonizado com a paisagem; o Museu de Arte de Curitiba, olhão desajeitado, tanto por dentro quanto por fora, mas instigante.

No entanto, tem muita obra que, mesmo com boa vontade, pouca gente consegue defender: os "vulcões"do Centro Cultural de Le Havre, na França; a mão sangrando do Memorial da América Latina, em São Paulo; a "tulipa do cerrado" da Torre Digital; as linhas retas destoantes, hoje encobertas pelas árvores, do hotel em Ouro Preto; e basta.

(Ia me esquecendo do projeto da grotesca Praça da Soberania, contendo, dentre outros, o memorial dos presidentes e um obelisco de 100 metros que, graças a um grupo de arquitetos e cidadãos brasilienses, teve sua construção vetada).

Não que seja culpa do arquiteto. A fama internacional, a competência, a maestria, a produção incessante, as articulações políticas, o discurso, a respeitabilidade da idade, a ocasião, a demagogia, tudo foi motivo para Niemeyer projetar. Foi convidado pelos governantes e aceitou. Quem não aceitaria?

Mas, em se tratando de obra pública, de monumento para a posteridade, de patrimônio histórico, a hegemonia Niemeyer não se justifica. Por que sempre ele? não se deveria consultar antes especialistas? trazer a discussão a público? chamar gente nova? promover concursos, como o próprio, junto com Lúcio Costa ganharam para construir Brasília? perguntar se a população quer e concorda?

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Não quis em nenhum momento denegrir Niemeyer. Reafirmo sua genialidade. O arquiteto foi o máximo. E, humano, além de maravilhas, também legou criações infelizes.

Passear pela primeira ou milionésima vez, à noite, no Eixo Monumental, da Rodoviária até a Praça dos 3 Poderes é um deleite para o olhar. Uma epifania clariceana. Porém, é uma agressão para o mesmo olhar tropeçar, até o fim dos tempos, na feiosa e desproporcional Torre Digital.

Concluo, então, com uma prece agnóstica aos deuses (?): que Oscar Niemeyer descanse em paz. Que seja eterna e que inspire as gerações futuras a beleza e a harmonia das curvas dos edifícios-esculturas dele. E que livrem Brasília do desengavetamento do projeto da Praça da Soberania.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

apontamentos para o retorno do herói

O herói largou a mochila no meio da sala. As mãos vazias, como se diz, uma à frente, a outra atrás. Constava, única riqueza, o único despojo, o único espólio, as próprias histórias, talvez menos vividas que inventadas, tanto tempo longe, e que lhe sugeriam um rumo à existência.

Sozinho ele partira. Sozinho retornara.

Não houve para o herói cão, velho servo, ama-de-leite, filho imberbe, esposa, pretendentes, artimanhas ou lutas sangrentas para reaver a casa. Somente a correspondência entupindo a caixa do correio e a fresta sob a porta.

E, amontoada por sobre o sofá e a mesa-de-centro, e se espalhando sobre o tapete, escorrendo pelo chão da sala e do resto da casa, a teia áspera de cada dia, cada hora, cada minuto tecida pela ausência.

sábado, 1 de dezembro de 2012

o herói diante do espelho

é estúpido eu me ver nu no espelho grande do banheiro logo cedo
o riso de quem bebeu demais
o olhar de quem cheirou demais
a pança de quem jantou demais
de quem fodeu demais depois do jantar
de quem bebeu, cheirou, fodeu
depois dos jantares dos últimos dez anos

eu quem frequentava palestras, seminários, workshops
cursos à distância e os presenciais
quem reaquecia o ânimo da galera desatenta
e concluía discursos motivacionais com uma piada inteligente
quem distribuía charutos, os brindes
e servia espumante na festa de confraternização dos subgerentes

eu que até ontem, depois do jantar
fui simpático, engraçado, bem-humorado, de-bem-com-a-vida
eu que sempre contribuí, facilitei
viabilizei projetos
propus soluções
superei metas
sem nunca perder o foco

eu quem cedo ou tarde galgarei o melhor cargo
que sentarei na cabeceira da mesa de reuniões
que estacionarei o carro na vaga privativa
que serei imprescindível e terei direito às melhores comissões
não sou eu o idiota refletido no espelho grande do banheiro

não é minha a cara frágil
o olhar apavorado
de quem teme uma congestão
uma doença venérea
um ataque cardíaco
um avc
uma congestão intestinal 
um mau jeito na coluna
uma gastrite, uma úlcera, um câncer no estômago

não é minha essa cara aparvalhada
de quem teme novos desafios
a contenção de gastos
a redução do quadro
a reestruturação do plano de saúde
as variações da bolsa
a apólice do seguro de vida
o complemento da aposentadoria por invalidez
a prestação da casa própria
a demissão 
o processo por danos morais
(afinal, nunca se sabe, essas putas, esses filhos das putas)
depois do jantar

eu ligo a torneira de água quente e espero o vapor embaçar o vidro
eu espero o vapor embaçar a ridícula imagem refletida

antes de qualquer coisa eu devia fazer a barba
tomar um anti-ácido
pedir suco de melancia com laranja e adoçante
um energético

e vestir o terno, a camisa branca e a gravata dependurados no cabide dos bem-sucedidos

definitivamente não sou eu esse parvo, esse gordo ridículo
úmido, peludo, recurvado
coçando a bunda e mal reprimindo um peido
cintura larga, a barriga escondendo
o pau murcho, encolhido
inútil como o pau de um menino velho

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

instinto natural

Chego em casa tarde. Estranho os bichos não estarem à espera quando abro a porta. O cão velho dá sinal de vida. Abana o rabo contra as paredes da casinha.

Nada da gata.

Coloco a ração, troco a água. Quando estou tirando os sapatos, ouço um chiado esquisito, longo, doloroso. Repetido alguns instantes depois. Procuro. Um rato?

Era um pardal. Debaixo da cama. Semi-morto. Vigiado pela gata. Orgulhosa e assustada com a primeira caça de grande porte.

Alguém me disse que não se deve repreender o animal. Ela agiu por puro instinto. A caça debaixo ou sobre a cama é uma oferenda ao dono.

Ajo psicológica e pedagogicamente. Agradeço à gata com um afago. Controlo a repulsa. Seguro o pardal ainda vivo. Que dá outro grasnado, chiado, sei lá - agonizante.

O que fazer? Abreviar o sofrimento dele? Anestesiá-lo com um pano embebido em álcool e torcer-lhe o pescocinho? Quem disse que dou conta?

Depositei o moribundo no vaso de gerânios, do lado de fora da casa. Esperando, covarde, que ele se recuprere milagosamente com o toque da vara de condão da fada-do-luar. Ou que uma coruja buraqueira termine o serviço iniciado pela gata.

Assim, direta, crua, objetiva é a natureza.

...

Meia hora depois. Enquanto escrevo esta história, a coruja pia na janela. Em seguida mais chiados do pardal. Interrompidos, talvez, por garras afiadas e bico adunco. Ou envolvido pelo edredon de nuvens da fada-do-luar.

...

De manhã o pardal não estava mais entre os gerânios. Sem sinal de penas. Sinal que não foi comido pela coruja. Fico feliz por ter-lhe salvo (mesmo covardemente) a vida.

Chega o cão, todo feliz. Abanando o rabo. Com algo na boca. Deposita com toda delicadeza o "algo" aos meus pés. Era o pardal. Morto, óbvio. Todo babado, meio depenado. O cão o lambia como se fosse um pirulito.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

o neurologista, a tia e o atentado

1.
No início dos anos 90, o neurologista inglês Oliver Sacks ficou conhecido no Brasil por conta do filme Tempo de Despertar (sobre o tratamento revolucionário de pacientes catatônicos em um hospital psiquiátrico nova-iorquino).

Na onda do filme, foram publicados vários livros dele, dos quais li “Um antropólogo em Marte”. O texto acessível e envolvente discorre sobre patologias esquisitas provocadas por disfunções cerebrais. Por exemplo: um pintor que, após um acidente automobilístico, passa a enxergar o mundo em preto-e-branco; um cirurgião que só se alivia de tiques nervosos ao pilotar seu monomotor; um cego que, ao recuperar a visão, percebe que não sabe ver; uma professora autista que ama os animais, mas sente-se perplexa diante das emoções humanas, como um antropólogo em Marte.

2.
Tia Hemicênia (nome que nunca descobrimos a origem) era professora. Das boas. Das antigas. Alfabetizou, educou e ensinou pelo menos 3 gerações de alunos. Famosa no tempo dela pela capacidade de incutir nos alunos, com carinho, ou a ferro e fogo, as agruras, os espinhos, os mistérios da língua portuguesa e a escapar de suas inúmeras armadilhas.

Tia Hemicênia me ensinou a ler. Apresentou-me, aos 7 anos, a obra completa de Monteiro Lobato, infinitos volumes de capa dura, verde, com os títulos e vinhetas prateados. Depois, José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Maria Clara Machado, José Mauro de Vasconcelos, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Bernardo Élis, Cassiano Ricardo e tantos outros.

Tia Hemicênia vivia 24 horas atenta aos erros ortográficos e gramaticais: nos trabalhos escolares, no rádio, novelas e telejornais, nas manchetes de revistas, placas de anúncios, embalagens - nada escapava ao seu crivo. Ficava possessa, furiosa quando os encontrava. Escrevia às redações, telefonava às emissoras, às empresas, ou, quando ocorria ao vivo, ela pagava um sermão didático ao infrator.

3.
Quando eu os encontro na leitura, broxo na hora. Execro o autor. Mando e-mail. Envio torpedo. Mensagem privada. Intolerância herdada de tia Hemicênia.

No entanto, condescendo aos erros relacionados às armadilhas da língua. Ou às confusões da pressa. Principalmente quando nos escritos efêmeros da internet. Afinal, atire a primeira pedra quem nunca os cometeu.

Busco o bom senso: alguns são menos erros que desvios da Norma, que como todo mundo sabe, pode variar quando visitada pelo falante comum ou pela elite dominante (como afirmam os estudiosos). A língua é dinâmica e a gramática é burocrática.

4.
Porém, escrever “flecha” com “x”? “xingar” com “ch”? “Texto” com “s”? Fulano e sicrano “chegou”? dói na alma. É demais. Me dá (Dá-me) tonteira, ânsia de vômito e faz tia Hemicênia se revirar no túmulo.

5.
Admitir o erro é o primeiro passo no caminho do acerto.

Pois eu, herdeiro direto da intolerância de Tia Hemicênia, admito. Expio. Bato no peito três vezes: minha culpa, minha tão grande culpa (adoro essa construção). Nos últimos 10 dias eu pequei os 4 pecados do item 4: escrevi “flecha” com “x” em uma correspondência oficial. Por duas vezes, escrevi “xingar” e “xinguei” com “ch”; e emendei a concordância absurda em um mesmo texto publicado no blog. Ontem - horror dos horrores! - escrevi “texto” com “s” em pleno compartilhamento do facebook.

Perdi o sono. Erro de digitação? Corretor ortográfico do programa desativado? Pressa? Displicência? Desatenção? Estresse? Dor de dente? Dor de cotovelo? Lapso senil? Ignorância? Desculpas sempre haverá.

Então surgiu a lembrança do Dr. Sacks da parte 1. Será que fui acometido de alguma síndrome neurológica ainda não descoberta, que apaga momentaneamente a atenção? Que cega o senso crítico? Que converte, de uma hora para outra, um pretenso autor em monstro capaz das piores taras e atrocidades, assassino da própria língua-mater?

6.
Depois de tia Hemicênia eu aprendi a ler o texto 2, 3, 20 vezes antes de torná-lo público. De preferência, passar pelo revisor. Aprendi que, depois de publicado, não se volta atrás, não se corrige de forma digna. Que erratas são atestados de negligência. Que, por mais anuentes, os leitores não perdoarão jamais. Que, por mais banais, os erros fragilizam o autor, expondo-o à chacota, ao apedrejamento, às feras, à pena capital.

Por isso, peço: ao leitor (se é que ainda haja algum), desculpas pelo indesculpável. Aos críticos, vista grossa, ao menos essa vez. Ao Dr. Oliver Sacks, please, encontrar a cura dessa patologia hodienda. À tia Hemicênia, por amor ao vernáculo, que interceda junto às Musas pela salvação da minha  alma (atrofiada) de escritor.