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| (imagem do blog: www.historianaval.tripod.com) |
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
curiosidades do mundo antigo - sofisma existencial
curiosidades do mundo antigo - teseu e o minotauro (2)
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| Ilustração de N. Mengden para a 1a. edição em português de As Vidas dos Homens Ilustres, de Plutarco. |
a) qualquer pessoa com letramento básico estaria careca de saber a história de Teseu e do minotauro;
b) o resumo do mito é confuso, incompleto e deixa a desejar em termos estilísticos;
c) é uma forçação (sic) de barra resgatar a realidade e as necessidades literárias de Plutarco (mortas com ele há pelo menos 2.000 anos) para os tempos atuais;
d) que é básico para um autor saber contar várias versões da mesma história sem perder o senso de veracidade.
e) que Plutarco foi esperto, tirando o c* da reta ao apresentar as várias interpretações sem em nenhum momento defender a sua própria visão dos fatos;
f) o texto é extenso, prolixo ao extremo e carece de conclusão.
Leitora Impaciente conclui com conselhos, advertências e admoestações:
g) que eu redirecionasse os investimentos financeiros - das velharias corroídas de traça e cheirando a mofo dos sebos físicos ou virtuais para a nova e novíssima produção literária, nacional e estrangeira (anexou à mensagem uma lista intitulada: 100 livros contemporâneos para se ler antes de morrer);
h) que eu me abstivesse de encher as caixas postais e as redes sociais dos milhões de leitores com esse tipo de pseudo-literatura cansativa e demodê.
i) caso eu insistisse em remexer e publicar aquela velharia sem sentido, em atualizar essas histórias arcaicas que nada ou quase nada interessariam às novas e novíssimas gerações digitais, eu perderia parcela considerável dos milhões de leitores arrebanhados nessas quase 3 décadas dedicadas à literatura e às artes em geral.
Tive a impressão de não uma ponta, mas um iceberg inteiro de ironia nas metáforas e nos superlativos de Leitora Impaciente. Não fosse a dúvida eu me magoaria com a contundência dos apontamentos. Porém compreendi-lhe o intuito. Puro e desinteressado desejo de ajudar a me libertar de amarras, do lastro inútil que me prende e me arrasta, como uma corrente subaquática, às profundezas do passado.
Agradeço-vos de coração e alma abertos, Leitora Impaciente. Envidarei todos os esforços a seguir-lhe os conselhos sábios e publicar de hoje em diante, apenas coisas novas. Permita-me no entanto um único pedido: sua condescendência em postar de vez em quando um comentário ou outro, até concluir a leitura dos 12 volumes do ensebado Plutarco. Prometo caprichar nas ilustrações...
curiosidades do mundo antigo - teseu e o minotauro
O tradutor de As vidas dos homens ilustres, de Plutarco, enumera as vantagens de conhecer o passado histórico, seja pela leitura dos relatos fidedignos de fatos, seja pelo prazer de escutar viajantes que retornam de uma longínqua viagem, seja ouvindo a conversa de um sábio ou as histórias contadas pelos mais velhos, de cujas bocas surgem um fluxo de linguagem mais doce do que o mel.
...
Plutarco era um historiador (além de ensaísta e filósofo). Viveu em Roma, no início da era cristã. Escreveu centenas de livros. Dentre eles, os Homens Ilustres. Ele prezava pela veracidade dos fatos. Traçou paralelos entre as vidas de 46 personalidades do mundo antigo, sempre um grego e outro romano. Uma obra de fôlego.
...
Um pouco de mitologia:
Havia na ilha de Creta um ser, metade homem, metade touro, chamado Minotauro. Sua mãe era a rainha Pasífae, esposa do rei Minos. Pasífae apaixonou-se por um touro maravilhoso, que Posídon (deus dos mares) presenteou a Minos. Pasífae pediu a Dédalo, o arquiteto da corte, que constuísse uma vaca de madeira, na qual pudesse entrar e se posicionar de tal forma que o touro a possuísse. Dessa paixão nasceu o Minotauro.
O mesmo Dédalo foi encarregado pelo rei Minos de construir um labirinto (espécie de prisão, cheia de corredores, de onde ninguém conseguia encontrar a saída) onde pudesse encerrar o filho monstruoso de Pasífae. Minos (que tinha vencido uma guerra contra Atenas) exigia dos atenienses o tributo anual de 12 jovens (6 rapazes e 6 moças) que serviriam de alimento ao Minotauro.
Teseu era filho do rei de Atenas. Era um herói, como Hércules. Juntou-se aos jovens atenienses que seguiam para Creta, com o intuito de pôr fim ao castigo imposto por Minos.
Ariadne, filha de Minos, apaixonou-se por Teseu. Deu-lhe um novelo de lã que o ajudaria a marcar o caminho e encontrar a saída do labirinto. Teseu matou o minotauro, libertou os jovens atenienses e sequestrou Ariadne, para logo em seguida abandoná-la (não se sabe o motivo, ou a pedido de Dionisos) grávida, em uma praia da ilha de Naxos.
...
Plutarco ficou tentado. Queria iniciar a obra grandiosa com a biografia de Rômulo, pretenso fundador de Roma. Como espelho grego, havia o mitológico Teseu. Arriscou. Tentou espremer o mito na caixinha redutora da ciência.
Para Plutarco, deuses, monstros, vaca de madeira, labirinto - era tudo balela. Iria relatar fatos duvidosos. Por isso justificou-se, utilizando uma linda imagem: comparou aqueles fatos obscuros, anteriores à História, às regiões desconhecidas que eram deixadas em branco nos mapas desenhados pelos cartógrafos. Regiões essas onde havia senão profundos areais sem água, cheios de animais venenosos.
Com a ajuda de outros historiadores menos fabulosos, que prezavam a veracidade dos fatos, Plutarco contou a vida de Teseu no limite entre a realidade conhecida e a ficção estranha, arbitrariamente delimitada pelos poetas, que inventavam fábulas monstruosas onde não há certeza nem qualquer aparência de verdade.
O labirinto não passava de uma cadeia na qual não havia outro mal senão o de que não podiam dali sair os que ali eram encerrados. Ao invés de janta do monstro, os jovens atenienses seriam dados como escravos aos vencedores de jogos atléticos instituídos por Minos.
O Minotauro nunca teria existido. O primeiro vencedor dos jogos (e de vários jogos subsequentes) era um general grosseiro, revesso e desgracioso de natura chamado Tauro. Que era amante da rainha Pasífae. Por esse motivo Minos queria se ver livre do general Tauro, custasse o que custasse. Assim, fez com que Teseu o enfrentasse nos jogos e o matasse. Como prêmio pela vitória, Teseu e os jovens atenienses foram libertados e Atenas foi liberada de continuar pagando o tributo anual a Creta.
...
Plutarco encontrou uma boa saída. Não deu o braço a torcer aos poetas fantasiosos, cuja criatividade extrapolava a realidade com seus deuses, touros mágicos, monstros e personagens ficcionais. Contou uma história lógica, vivida por personagens humanos normais. Uma história baseada em fatos pretensamente reais. Uma História plausível, com "H" maiúsculo.
...
A versão certinha contada por Plutarco é boa. Tentativa de dar uma cara séria a um fato que pertence aos poetas, aos ficcionistas, aos fantasistas, àqueles que habitam os areais desconhecidos, repletos de animais exóticos e peçonhentos.
Eu sou um desses. Ainda prefiro encontrar a saída desenrolando o novelo de lã. Correr o risco, o sobressalto de imaginar o Minotauro em cada canto, no fundo de cada beco sem saída. Ouvir seu berro, sentir sua fúria aproximando-se e depois se afastando. A possibilidade dupla de mortalmente o ferir ou de ser ferido por ele - a acreditar que era apenas uma fofoca sem-graça, diz-que-diz de alcoviteiros contada por escrivões burocratas e carimbada e autenticada por tabeliões excessivamente ciosos dos deveres. E que sobreviveu somente nos arquivos empoeirados, cujas gavetas emperradas não foram abertas desde os tempos de Plutarco.
...
Plutarco era um historiador (além de ensaísta e filósofo). Viveu em Roma, no início da era cristã. Escreveu centenas de livros. Dentre eles, os Homens Ilustres. Ele prezava pela veracidade dos fatos. Traçou paralelos entre as vidas de 46 personalidades do mundo antigo, sempre um grego e outro romano. Uma obra de fôlego.
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Um pouco de mitologia:
Havia na ilha de Creta um ser, metade homem, metade touro, chamado Minotauro. Sua mãe era a rainha Pasífae, esposa do rei Minos. Pasífae apaixonou-se por um touro maravilhoso, que Posídon (deus dos mares) presenteou a Minos. Pasífae pediu a Dédalo, o arquiteto da corte, que constuísse uma vaca de madeira, na qual pudesse entrar e se posicionar de tal forma que o touro a possuísse. Dessa paixão nasceu o Minotauro.
O mesmo Dédalo foi encarregado pelo rei Minos de construir um labirinto (espécie de prisão, cheia de corredores, de onde ninguém conseguia encontrar a saída) onde pudesse encerrar o filho monstruoso de Pasífae. Minos (que tinha vencido uma guerra contra Atenas) exigia dos atenienses o tributo anual de 12 jovens (6 rapazes e 6 moças) que serviriam de alimento ao Minotauro.
Teseu era filho do rei de Atenas. Era um herói, como Hércules. Juntou-se aos jovens atenienses que seguiam para Creta, com o intuito de pôr fim ao castigo imposto por Minos.
Ariadne, filha de Minos, apaixonou-se por Teseu. Deu-lhe um novelo de lã que o ajudaria a marcar o caminho e encontrar a saída do labirinto. Teseu matou o minotauro, libertou os jovens atenienses e sequestrou Ariadne, para logo em seguida abandoná-la (não se sabe o motivo, ou a pedido de Dionisos) grávida, em uma praia da ilha de Naxos.
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Plutarco ficou tentado. Queria iniciar a obra grandiosa com a biografia de Rômulo, pretenso fundador de Roma. Como espelho grego, havia o mitológico Teseu. Arriscou. Tentou espremer o mito na caixinha redutora da ciência.
Para Plutarco, deuses, monstros, vaca de madeira, labirinto - era tudo balela. Iria relatar fatos duvidosos. Por isso justificou-se, utilizando uma linda imagem: comparou aqueles fatos obscuros, anteriores à História, às regiões desconhecidas que eram deixadas em branco nos mapas desenhados pelos cartógrafos. Regiões essas onde havia senão profundos areais sem água, cheios de animais venenosos.
Com a ajuda de outros historiadores menos fabulosos, que prezavam a veracidade dos fatos, Plutarco contou a vida de Teseu no limite entre a realidade conhecida e a ficção estranha, arbitrariamente delimitada pelos poetas, que inventavam fábulas monstruosas onde não há certeza nem qualquer aparência de verdade.
O labirinto não passava de uma cadeia na qual não havia outro mal senão o de que não podiam dali sair os que ali eram encerrados. Ao invés de janta do monstro, os jovens atenienses seriam dados como escravos aos vencedores de jogos atléticos instituídos por Minos.
O Minotauro nunca teria existido. O primeiro vencedor dos jogos (e de vários jogos subsequentes) era um general grosseiro, revesso e desgracioso de natura chamado Tauro. Que era amante da rainha Pasífae. Por esse motivo Minos queria se ver livre do general Tauro, custasse o que custasse. Assim, fez com que Teseu o enfrentasse nos jogos e o matasse. Como prêmio pela vitória, Teseu e os jovens atenienses foram libertados e Atenas foi liberada de continuar pagando o tributo anual a Creta.
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Plutarco encontrou uma boa saída. Não deu o braço a torcer aos poetas fantasiosos, cuja criatividade extrapolava a realidade com seus deuses, touros mágicos, monstros e personagens ficcionais. Contou uma história lógica, vivida por personagens humanos normais. Uma história baseada em fatos pretensamente reais. Uma História plausível, com "H" maiúsculo.
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A versão certinha contada por Plutarco é boa. Tentativa de dar uma cara séria a um fato que pertence aos poetas, aos ficcionistas, aos fantasistas, àqueles que habitam os areais desconhecidos, repletos de animais exóticos e peçonhentos.
Eu sou um desses. Ainda prefiro encontrar a saída desenrolando o novelo de lã. Correr o risco, o sobressalto de imaginar o Minotauro em cada canto, no fundo de cada beco sem saída. Ouvir seu berro, sentir sua fúria aproximando-se e depois se afastando. A possibilidade dupla de mortalmente o ferir ou de ser ferido por ele - a acreditar que era apenas uma fofoca sem-graça, diz-que-diz de alcoviteiros contada por escrivões burocratas e carimbada e autenticada por tabeliões excessivamente ciosos dos deveres. E que sobreviveu somente nos arquivos empoeirados, cujas gavetas emperradas não foram abertas desde os tempos de Plutarco.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
pequenas resoluções para o dia que se foi
Não gastar dinheiro com bobagem.
Não gastar dinheiro a não ser com um café expresso.
Devolver o café morno e exigir outro quente.
Tomar um porre de torta-brigadeiro.
Chorar no cinema.
Acreditar que aquilo é fantasia.
Acreditar que as coisas são mais belas do que parecem.
Segurar a gata no colo, mesmo que por alguns segundos.
Resistir até o final o documentário-entrevista com Carl Jung.
Dormir à meia-noite em ponto.
Beber muita água antes.
Encontrar alguém pra compartilhar o kit-preservativo carnavalesco.
Assistir Elza Soares desfilar na escola-de-samba Bola Preta.
Fingir que nada esquisito acontece.
Não achar as pessoas esquisitas.
Não me achar esquisito.
Conviver em harmonia com a minha e a esquisitice alheia.
E me guardar pra quando o carnaval chegar.
Não gastar dinheiro a não ser com um café expresso.
Devolver o café morno e exigir outro quente.
Tomar um porre de torta-brigadeiro.
Chorar no cinema.
Acreditar que aquilo é fantasia.
Acreditar que as coisas são mais belas do que parecem.
Segurar a gata no colo, mesmo que por alguns segundos.
Resistir até o final o documentário-entrevista com Carl Jung.
Dormir à meia-noite em ponto.
Beber muita água antes.
Encontrar alguém pra compartilhar o kit-preservativo carnavalesco.
Assistir Elza Soares desfilar na escola-de-samba Bola Preta.
Fingir que nada esquisito acontece.
Não achar as pessoas esquisitas.
Não me achar esquisito.
Conviver em harmonia com a minha e a esquisitice alheia.
E me guardar pra quando o carnaval chegar.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
postagem confessional antes do juízo final
Não bastasse o sentimento de culpa e de inadequação, a frivolidade, a soberba, a inconsequência e a pretensão e a ressaca dos últimos dias, uma cigarra ou um grilo ou um bicho qualquer dos infernos de voz potente resolveu de chiar em algum canto da casa. O som ininterrupto ocupa todo o espaço e se posiciona no alto da minha cabeça, reverberando nas paredes internas do discernimento.
...
Passei o dia deitado. Dormitando, coçando, ouvindo a chuva, pensando em nada que valesse a pena, tentando não pensar, folheando uns livros, olhando para as manchas de mofo do teto. Fiz chamadas e mandei mensagens pelo celular, mas ninguém atendeu ou respondeu. A televisão estragou. A faxineira faltou. O casal vizinho viajou. O sinal da internet falhou. Nem o barulho dos pássaros, dos carros da rua, nem a musiquinha do caminhão do gás. O mundo acabou durante a madrugada e eu sou o único sobrevivente do cataclisma.
...
Talvez seja hora do crustáceo se recolher à concha emprestada até a maré voltar a subir.
...
Passei o dia deitado. Dormitando, coçando, ouvindo a chuva, pensando em nada que valesse a pena, tentando não pensar, folheando uns livros, olhando para as manchas de mofo do teto. Fiz chamadas e mandei mensagens pelo celular, mas ninguém atendeu ou respondeu. A televisão estragou. A faxineira faltou. O casal vizinho viajou. O sinal da internet falhou. Nem o barulho dos pássaros, dos carros da rua, nem a musiquinha do caminhão do gás. O mundo acabou durante a madrugada e eu sou o único sobrevivente do cataclisma.
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Talvez seja hora do crustáceo se recolher à concha emprestada até a maré voltar a subir.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
continuação da nota esclarecedora
A nota esclarecedora postada dia 2 de fevereiro (referente à serventia de um dicionário analógico) pouco dirimiu a dúvida da leitora
indócil. Segundo ela, o emérito professor ali citado falou muito e pouco disse. Dessa vez, sem representar ou mencionar os milhões de leitores, a leitora solicitou mais esclarecimentos. E, se possível, ao menos um exemplo:
Atendendo à demanda, transcreverei agora as palavras do Autor (ou do Editor?), na apresentação do livro:
Um dicionário analógico, ou de ideias afins (...) parte de um pressuposto siméttico àquele que rege a função de um dicionário de língua, como oconhecemos. Este é uma ferramenta de busca de significados e informações de uso para palavras que conhecemos; ou seja, partimos de uma palavra conhecida para buscar-lhe as acepções e usos possíveis. O dicionário analógico (...) pressupõe que, ao contrário, temos noção de um significado, temos uma intenção de uso, mas não nos ocorre uma palavra satisfatória. O [dicionário] thesaurus, a partir de um contexto de possíveis significados, oferece uma nuvem de palavras em torno desse significado, ou seja, palavras análogas num maior ou menor grau de proximidade e exatidão, para que nessa nuvem possamos achar a palavra - ou expressão - que melhor nos convém, em qualquer de suas mais prováveis funções gramaticais.
Exemplo (escolhido de forma aleatória):
857. (Objeto ou causa de riso) Anedota, piada, 1o. de abril, gracejo, besteirol, bexiga, pilhéria, tirada, gag, mogiganga, pantomima, espetáculo, chocarrice, palhaçada, gracinha, graçola,comédia, farsa, rabo-leva, bonecos de engonço, trejeito, esgares, careta, macaquice, bobice, truanice, bugiaria, bufão, marzoco, truão, catimbau, palhaço, totó, mascarado, xexé, figura de presepe, bobo alegre, bobo do rei, pessoa ridícula e desfrutável = petisco, piegas, ratazana, bugio, mono, macaco, carniça, chalaça (espírito) 842, arre-burrinho (853).
...
Leitora indócil, admitamos, consultar o dicionário analógico é difícil pra caramba. Os termos não vêm em ordem alfabética, como em um dicionário comum. São precedidos de números, como o negritado no exemplo acima. Números esses que nos transportam a outros números, a outras nuvens de similitudes.
O dicionário analógico pode ser consultado de duas formas distintas:
1) Na primeira, deve-se identificar a área conceitual na qual se encaixa a palavra ou expressão que se quer encontrar. Depois de identificada, busca-se nessa área o grupo analógico mais próximo daquele que provavelmente conteria o termo procurado. Nesse caso, a busca é realizada pela árvore classificatória dos grupos analógicos, ou seja, utilizar-se de uma tabela de classificação das palavras (classes: relações abstratas, espaço, matéria, etc; e divisões: existência, ordem, quantidade, forma, pessoais, etc). Cada categoria ou subcategoria dessas é numerada e reporta um termo ou expressão no corpo do dicionário.
2) A segunda maneira de consultar o dicionário analógico é buscar no(s) grupo(s) analógicos o local do termo ou expressão conhecida. Nesse caso utiliza-se o índice geral, que relaciona cada um dos quase 100 mil termos e expressões do dicionário ao(s) grupo(s) em que se encontra. Esses termos estão catalogados em um Quadro Sinóptico de Categorias, que detalha todos os grupos, por área de conceito. No quadro, existem classes (relações abstratas, espaço, matéria, vontade individual, etc); divisões (a classe das afeições é compartimentada em divisões: afeições em geral, afeições pessoais, simpáticas, morais, religiosas, etc) que, por sua vez, fragmentam-se em subdivisões (obrigações, sentimentos, condições, práticas, etc). Cada um desses grupos têm seu âmbito definido por uma palavra-chave.
...
Ufa! O Autor (ou o Editor?) exemplifica e simplifica a aparente complexidade acima. Porém, confesso, leitora ansiosa, tenho queimado dúzias de neurônios sem ainda compreender. Não se pega o jeito, o traquejo, da noite para o dia. Assim que a desenvoltura permitir, asseguro-vos, exemplificarei com próprias (e enriquecidas, potencializadas) palavras.
Atendendo à demanda, transcreverei agora as palavras do Autor (ou do Editor?), na apresentação do livro:
Um dicionário analógico, ou de ideias afins (...) parte de um pressuposto siméttico àquele que rege a função de um dicionário de língua, como oconhecemos. Este é uma ferramenta de busca de significados e informações de uso para palavras que conhecemos; ou seja, partimos de uma palavra conhecida para buscar-lhe as acepções e usos possíveis. O dicionário analógico (...) pressupõe que, ao contrário, temos noção de um significado, temos uma intenção de uso, mas não nos ocorre uma palavra satisfatória. O [dicionário] thesaurus, a partir de um contexto de possíveis significados, oferece uma nuvem de palavras em torno desse significado, ou seja, palavras análogas num maior ou menor grau de proximidade e exatidão, para que nessa nuvem possamos achar a palavra - ou expressão - que melhor nos convém, em qualquer de suas mais prováveis funções gramaticais.
Exemplo (escolhido de forma aleatória):
857. (Objeto ou causa de riso) Anedota, piada, 1o. de abril, gracejo, besteirol, bexiga, pilhéria, tirada, gag, mogiganga, pantomima, espetáculo, chocarrice, palhaçada, gracinha, graçola,comédia, farsa, rabo-leva, bonecos de engonço, trejeito, esgares, careta, macaquice, bobice, truanice, bugiaria, bufão, marzoco, truão, catimbau, palhaço, totó, mascarado, xexé, figura de presepe, bobo alegre, bobo do rei, pessoa ridícula e desfrutável = petisco, piegas, ratazana, bugio, mono, macaco, carniça, chalaça (espírito) 842, arre-burrinho (853).
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Leitora indócil, admitamos, consultar o dicionário analógico é difícil pra caramba. Os termos não vêm em ordem alfabética, como em um dicionário comum. São precedidos de números, como o negritado no exemplo acima. Números esses que nos transportam a outros números, a outras nuvens de similitudes.
O dicionário analógico pode ser consultado de duas formas distintas:
1) Na primeira, deve-se identificar a área conceitual na qual se encaixa a palavra ou expressão que se quer encontrar. Depois de identificada, busca-se nessa área o grupo analógico mais próximo daquele que provavelmente conteria o termo procurado. Nesse caso, a busca é realizada pela árvore classificatória dos grupos analógicos, ou seja, utilizar-se de uma tabela de classificação das palavras (classes: relações abstratas, espaço, matéria, etc; e divisões: existência, ordem, quantidade, forma, pessoais, etc). Cada categoria ou subcategoria dessas é numerada e reporta um termo ou expressão no corpo do dicionário.
2) A segunda maneira de consultar o dicionário analógico é buscar no(s) grupo(s) analógicos o local do termo ou expressão conhecida. Nesse caso utiliza-se o índice geral, que relaciona cada um dos quase 100 mil termos e expressões do dicionário ao(s) grupo(s) em que se encontra. Esses termos estão catalogados em um Quadro Sinóptico de Categorias, que detalha todos os grupos, por área de conceito. No quadro, existem classes (relações abstratas, espaço, matéria, vontade individual, etc); divisões (a classe das afeições é compartimentada em divisões: afeições em geral, afeições pessoais, simpáticas, morais, religiosas, etc) que, por sua vez, fragmentam-se em subdivisões (obrigações, sentimentos, condições, práticas, etc). Cada um desses grupos têm seu âmbito definido por uma palavra-chave.
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Ufa! O Autor (ou o Editor?) exemplifica e simplifica a aparente complexidade acima. Porém, confesso, leitora ansiosa, tenho queimado dúzias de neurônios sem ainda compreender. Não se pega o jeito, o traquejo, da noite para o dia. Assim que a desenvoltura permitir, asseguro-vos, exemplificarei com próprias (e enriquecidas, potencializadas) palavras.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
nota esclarecedora
Uma leitora, que preferiu não se identificar e, segundo ela, porta-voz de milhões de leitores, encaminhou uma mensagem:
O que é um dicionário analógico?
Transcreverei aqui as palavras do professor emérito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia, acadêmico correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e autor do prólogo do Dicionário Analógico mencionado no post passado, o professor Leodegário A. de Azevedo Filho:
O Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, como todo dicionário analógico, tem função inversa à de um dicionário comum, o qual, a partir de uma palavra conhecida informa seus significados. Neste, busca-se uma palavra, entre muitas análogas, em uma área de significados conhecida e classificada numa frondosa árvore de classificações. (...) No caso em questão, vai-se, além disso [da lexicologia] analisando-se o relacionamento de um conjunto de palavras semanticamente agrupadas, levando-se em conta todas as categorias gramaticais do idioma.
O que é um dicionário analógico?
Transcreverei aqui as palavras do professor emérito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia, acadêmico correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e autor do prólogo do Dicionário Analógico mencionado no post passado, o professor Leodegário A. de Azevedo Filho:
O Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, como todo dicionário analógico, tem função inversa à de um dicionário comum, o qual, a partir de uma palavra conhecida informa seus significados. Neste, busca-se uma palavra, entre muitas análogas, em uma área de significados conhecida e classificada numa frondosa árvore de classificações. (...) No caso em questão, vai-se, além disso [da lexicologia] analisando-se o relacionamento de um conjunto de palavras semanticamente agrupadas, levando-se em conta todas as categorias gramaticais do idioma.
mais sobre sincronia
À tarde eu trabalhava em uma ilustração na qual o personagem tinha mania de arrancar os cílios diante dos colegas de escola. À noite, no teatro, a protagonista arrancava os cílios durante a encenação de uma sessão psicanalítica.
dicionários
Em um post de novembro do ano passado (sobre gripe e cinema) comentei sobre o documentário "Raízes do Brasil", dirigido por Nelson Pereira dos Santos, sobre a vida do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Chamou a atenção a parte em que Chico Buarque (filho do cinebiografado) conta como ganhou do pai o Dicionário Analógico e de Ideias Afins.
Invejei na hora. Perdi o sono desejando o tal dicionário. Procurei na internet, nos sebos virtuais e só encontrei um, aparentemente interessante, porém por preço astronômico, muito além do meu poder aquisitivo.
...
Alguns dias depois, em uma conversa sobre outros assuntos, sem mais nem menos, meu filho (que, duvido muito, acompanha este blog), me falou que tinha encontrado, por preço razoável, em uma megalivraria - adivinhem o quê? - o Dicionário Analógico e de Ideias Afins, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Com apresentação de Chico Buarque.
Só não encerrei a conversa na hora e corri para a livraria porque estávamos em uma expedição, no meio do nada, a pelo menos 1000 quilômetros de qualquer civilização.
...
Assim que desembarquei em Brasília, mal desfiz as malas, descambei para a livraria. Estava lá, ele, novinho em folha, 2a. edição. Meu coração disparou.
A apresentação de Chico Buarque conta a mesma história narrada no documentário citado acima. Porém com detalhes engraçados. Transcrever as primeiras frases é o mais eficaz para descrever a emoção boba que me tomou:
"Pouco antes de morrer, meu pai me chamou no escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferrreira dos Santos Azevedo. Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete (...). Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido".
...
Na mesma prateleira, ao lado do "Ideias Afins" (ah, as armadilhas do capitalismo selvagem!) estava o Dicionário de Sinônimos e Antônimos, de Antônio Houaiss.
Não resisti ao impulso consumista. Comprei os dois. Ok, em 10 vezes, sem juros, no cartão.
Ainda na fila para pagar o estacionamento do shopping eu não disfarçava o estado de beatitude. Manuseava os livros como se fossem relíquias.
...
Fiz como o pai do Chico. Coloquei o Francisco Ferreira ao lado dos 5 volumes (capa azul-marinho e letras douradas desbotadas na lombada) do Caldas Aulete. Junto, os sinônimos e antônimos do Houaiss. Como se estivessem em um altar.
É ridículo, mas vou confessar. Possuir o Dicionário Analógico me fez sentir como se tivesse compartilhado aquele momento, quando o carrancudo pai-Sérgio passasse um bastão que de alguma forma o filho-Francisco tivesse que levar adiante. Como se nele, no dicionário, eu pudesse encontrar chaves que destrancariam (e destrancarão) portas insondáveis.
...
(Não acabou. Bisbilhotando, de bobeira, um sebo virtual, encontrei e encomendei, em capa preta e dura, com relevo, por inacreditáveis 4 reais [acrescidos de 16 reais de frete], a 1a. edição (em bom estado de conservação, páginas e lombadas amareladas pelo tempo). Que, permitam os deuses, chegará nos próximos dias, para se juntar ao meu tesouro inofensivo de representações.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
reescrevendo o passado (ode assimétrica)
Passei toda a tarde trabalhando um texto que me acompanha há mais de 30 anos, nunca concluído. Ou melhor, concluido, sim. Em etapas, períodos de vida específicos. Superado e vivido o período, o texto, como se fosse vivo, passava a exigir ajustes, reformulações de pensamento que se adequassem ao novo período iniciado. Perdi a conta das versões e revisões definitivas. Por sorte ou azar eu perdi as versões intermediárias, entre a original e a atual.
Trata-se de um poema. Longo. Escrito entre o final dos anos 70 e o comecinho dos anos 80. Até ganhou um concurso de poesia. Foi publicado no jornal do Departamento de Letras da universidade. Ficou guardado durante anos. Ressurgiu algumas vezes, inteiro ou aos pedaços, em concursos perdidos ou antologias que ninguém leu. Voltou para a gaveta. Finalmente foi publicado (e modificado) logo nas primeiras postagens deste blog.
Era o final da adolescência tardia. Eu vivia em uma espécie de limbo mental e emocional, esquizofrenia branda e inofensiva. Estava na universidade. Integrava um grupo de teatro. Era virgem. Tímido. Estava apaixonado. Pela primeira vez. Paixão platônica. Daquelas de se jogar da torre, cortar os pulsos ou beber formicida com refrigerante.
Convidei a pessoa amada (tecnicamente o melhor amigo) para visitarmos outro amigo, poeta, que se mudara para o Maranhão. A viagem foi intensa. Dias e noites insones, enlouquecidos, vivendo, sentindo, experenciando. Eu escrevia cadernos e cadernos, desenhava blocos e blocos de papel canson A3. Um dia tomei coragem: enchi a cara de cachaça misturada com guaraná Jesus, e me declarei. O cara era hetero, enrustido, babaca, fazia charme, me esnobava, ou, sei lá, simplesmente não estava a fim. Não rolou.
Como diz o lugar-comum, só o tempo para cicatrizar as feridas. Depois de uns 3 anos (!) a paixão padeceu, foi crucificada, morta e sepultada. Os cadernos-testemunhos foram queimados em um surto posterior. Os desenhos sobreviveram e hoje estão protegidos em pastas, no quartinho de depósito.
Sobreviveu também o poema. Uma ode. Inspirada no Poema Sujo (Ferreira Gullar), que na época eu sabia quase todo decorado.
No blog, a ode mudou várias vezes. As construções iam tornando-se mais elaboradas. O vocabulário mais caprichado. As imagens da paixão e do tesão adolescente permaneciam, pulsantes ainda, porém mais depuradas, pretensiosamente requintadas, sofisticadas. Era ainda bruto, porém reescrito sob o crivo da maturidade e da consciência dos fatos e dos motivos. O que se distiguia era outra paixão, mais ampla e intensa, pela vida vivida na cidade de São Luís.
Estava escuro (às 20h30 no horário de verão) quando eu desempaquei a última parte. Manca, disforme, incompatível, assimétrica, aquém das versões anteriores. Me perdi no final. Perdi o sentido daquilo. Conclusão? Fechamento? nenhuns. Afinal, São Luís está irreconhecível hoje. A praia deserta do Calhau virou bairro nobre. O casario azulejado desmoronando. A pobreza expandiu-se, cercou a cidade. O objeto da paixão virou executivo de uma empresa de mineração na África do Sul. Só o amigo poeta continua poeta.
Gastei tanto tempo e energia ao reviver e recuperar aquilo tudo. Eu estava exausto. E faminto. Desliguei o computador. Juntei todos os restos de comida da geladeira: arroz com açafrão, feijão, salada de batata com cenoura, mini-beterrabas pré-cozidas, um tomate, tirada a parte podre e carne moída. Juntei 2 ovos, molho barbecue, farinha, azeite e pimenta. Levei ao fogo mexendo sempre. E me empanturrei. Até quase explodir. Até não caber mais o poema.
(clique aqui para ler a Ode Assimétrica)
Trata-se de um poema. Longo. Escrito entre o final dos anos 70 e o comecinho dos anos 80. Até ganhou um concurso de poesia. Foi publicado no jornal do Departamento de Letras da universidade. Ficou guardado durante anos. Ressurgiu algumas vezes, inteiro ou aos pedaços, em concursos perdidos ou antologias que ninguém leu. Voltou para a gaveta. Finalmente foi publicado (e modificado) logo nas primeiras postagens deste blog.
Era o final da adolescência tardia. Eu vivia em uma espécie de limbo mental e emocional, esquizofrenia branda e inofensiva. Estava na universidade. Integrava um grupo de teatro. Era virgem. Tímido. Estava apaixonado. Pela primeira vez. Paixão platônica. Daquelas de se jogar da torre, cortar os pulsos ou beber formicida com refrigerante.
Convidei a pessoa amada (tecnicamente o melhor amigo) para visitarmos outro amigo, poeta, que se mudara para o Maranhão. A viagem foi intensa. Dias e noites insones, enlouquecidos, vivendo, sentindo, experenciando. Eu escrevia cadernos e cadernos, desenhava blocos e blocos de papel canson A3. Um dia tomei coragem: enchi a cara de cachaça misturada com guaraná Jesus, e me declarei. O cara era hetero, enrustido, babaca, fazia charme, me esnobava, ou, sei lá, simplesmente não estava a fim. Não rolou.
Como diz o lugar-comum, só o tempo para cicatrizar as feridas. Depois de uns 3 anos (!) a paixão padeceu, foi crucificada, morta e sepultada. Os cadernos-testemunhos foram queimados em um surto posterior. Os desenhos sobreviveram e hoje estão protegidos em pastas, no quartinho de depósito.
Sobreviveu também o poema. Uma ode. Inspirada no Poema Sujo (Ferreira Gullar), que na época eu sabia quase todo decorado.
No blog, a ode mudou várias vezes. As construções iam tornando-se mais elaboradas. O vocabulário mais caprichado. As imagens da paixão e do tesão adolescente permaneciam, pulsantes ainda, porém mais depuradas, pretensiosamente requintadas, sofisticadas. Era ainda bruto, porém reescrito sob o crivo da maturidade e da consciência dos fatos e dos motivos. O que se distiguia era outra paixão, mais ampla e intensa, pela vida vivida na cidade de São Luís.
Estava escuro (às 20h30 no horário de verão) quando eu desempaquei a última parte. Manca, disforme, incompatível, assimétrica, aquém das versões anteriores. Me perdi no final. Perdi o sentido daquilo. Conclusão? Fechamento? nenhuns. Afinal, São Luís está irreconhecível hoje. A praia deserta do Calhau virou bairro nobre. O casario azulejado desmoronando. A pobreza expandiu-se, cercou a cidade. O objeto da paixão virou executivo de uma empresa de mineração na África do Sul. Só o amigo poeta continua poeta.
Gastei tanto tempo e energia ao reviver e recuperar aquilo tudo. Eu estava exausto. E faminto. Desliguei o computador. Juntei todos os restos de comida da geladeira: arroz com açafrão, feijão, salada de batata com cenoura, mini-beterrabas pré-cozidas, um tomate, tirada a parte podre e carne moída. Juntei 2 ovos, molho barbecue, farinha, azeite e pimenta. Levei ao fogo mexendo sempre. E me empanturrei. Até quase explodir. Até não caber mais o poema.
(clique aqui para ler a Ode Assimétrica)
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