1. Fazer beiju de tapioca.
2. Deixar para amanhã o que não deu pra fazer hoje.
3. Ouvir histórias da vida alheia sem pensar em literatura.
4. Mesmo os sedentários gatos persas são caçadores.
5. O passado é o presente já vivido. O futuro é o presente que acontecerá.
6. Os heróis são receptáculos vazios onde depositamos as nossas incapacidades.
7. Amigos são para sempre. Sempre é sempre o presente.
8. Mesmo o cão mais educado terá seu dia de transgressão.
9. Esperar não significa estagnar (vide item 2).
10. Preciso acreditar na grandeza das insignificâncias.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
o elogio
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| (imagem de: http://blog.implantecapilar.med.br) |
Conta a lenda que ficamos reféns incondicionais do Grande Irmão de George Orwell assim que acessamos a internet. Uma entidade abstrata, onisciente, onipotente e onipresente, representada aqui na terra por hackers mefistofélicos, decodifica as nossas senhas, lê os nossos textos privados, desbrava nosso HD, divulga nossas fotos em poses ou trajes comprometedores, descobre os sites que acessamos depois da uma garrafa e meia de vinho durante a madrugada, etc.
Não entendo os mecanismos de contagem de acessos do blog. Quando há na postagem do dia termo, nome ou expressão de popularidade (personalidade da mídia, título de filme ou best-seller, termos como igreja, governo do PT, casamento gay, etc) a quantidade de acessos quadriplica. Quando isso acontece, chegam comentários-spams mais absurdos, anônimos.
No dia seguinte à crítica desfavorável ao texto sobre Teseu (se ainda não leu, clique aqui) chegou um comentário desses. Divertido. Criativo. Transcrevo:
I'm amazed, I have to admit. Rarely do I encounter a blog that's both еquаlly eduсative аnԁ intеresting, аnԁ without a doubt, уou've hit the nail on the head. The problem is something which too few people are speaking intelligently about. I am very happy that I came across this in my hunt for something regarding this.
De quem seria essa cantada tão bem dada? Quase caí. Mentira, caí como um pato: cliquei no link discreto, ao rodapé da mensagem. Era um site que oferecia similares de marcas famosas de relógios, aparelhos para upgrade de atributos sexuais, para incrementar a quantidade de acessos ao blog e produtos para evitar a queda de cabelos.
Não era ainda a alma-gêmea estético-filosófico-cultural. Mesmo assim eu ganhei o dia. O ego sorriu de orelha a orelha. A auto-estima subiu. O elogio massificado (ele diz isso para todas) até me fez esquecer da crítica desfavorável do dia anterior.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
desenganos
Ela conta: que as araras são monogâmicas. Que os casais permanecem juntos até o fim da vida. Que apareceu uma arara sozinha. Que a arara voava alto. Ou pousava nos galhos do eucaliptal. Chamando o parceiro. Azul e amarelo sobre a mesa. Morto pelo estilingue do menino.
...
Eu disse: o dia de hoje não foi engraçado. A cabeça doía quando eu abro os olhos na claridade. O zumbido no ouvido. O medo de abrir a porta da cozinha e dar de cara com o olhar vazio de um morto-vivo olhando para o nada através da sombra do meu olhar.
...
Você usou a palavra arrebatador. Para dizer que o vivido foi grande e intenso e profundo. Mas que não adiantava relembrar. Por que não havia jeito de voltar. Você saiu. Trancou a porta. Me deixou sozinho no escuro. Arrastando pelos cômodos o saco de lona pesado onde eu guardava os teus ossos.
...
Ele sabe muito. Descreveu a anatomia do vôo de um morcego. Disse que os gatos são responsáveis pela extinção de 70% de espécies de animais de pequeno porte. Enumerou os estágios da transformação de larva em mariposa. Mas não explicou a razão de ainda estar ali. Cheio de conhecimento e de barriga vazia.
...
Eu disse: o dia de hoje não foi engraçado. A cabeça doía quando eu abro os olhos na claridade. O zumbido no ouvido. O medo de abrir a porta da cozinha e dar de cara com o olhar vazio de um morto-vivo olhando para o nada através da sombra do meu olhar.
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Você usou a palavra arrebatador. Para dizer que o vivido foi grande e intenso e profundo. Mas que não adiantava relembrar. Por que não havia jeito de voltar. Você saiu. Trancou a porta. Me deixou sozinho no escuro. Arrastando pelos cômodos o saco de lona pesado onde eu guardava os teus ossos.
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Ele sabe muito. Descreveu a anatomia do vôo de um morcego. Disse que os gatos são responsáveis pela extinção de 70% de espécies de animais de pequeno porte. Enumerou os estágios da transformação de larva em mariposa. Mas não explicou a razão de ainda estar ali. Cheio de conhecimento e de barriga vazia.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
a crítica
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| Rainha de Copas. Do filme Alice, de Tim Burton. Imagem retirada de ego.globo.com |
Crítica desfavorável é como chute no saco. Se você receber um em público, deixe a alma se contorcer mas mantenha a pose: corpo ereto, expressão neutra, se possível um sorriso. Finja (aproveitando o bordão infame) que nada vindo de baixo te atinge.
Aconteceu comigo. Hoje pela manhã. Ao abrir a internet. Não acreditei. Alguém indignado com minha versão engraçadinha da vida de Teseu. E não era a Leitora Impaciente.
Em 2011, vivi uma experiência semelhante. Eu era fã de um autor brasileiro contemporâneo, prolífico, novinho, bonitinho, inteligentérrimo e gay. Li os livros dele em pouco mais de uma semana. Louvava o rapaz aos 4 ventos. Criei um link do blog dele aqui. Enviava comentários elogiosos (ou apaixonados?). Assistia às entrevistas em talkshows gravados de canais alternativos. Seguia-lhe os passos e curtia até os puns que publicava nas redes sociais.
No dia da morte de Amy Winehouse o escritor do nariz empinado postou um comentário de mau-gosto no Facebook. Seus 25 mil seguidores curtiram. Menos eu. Eu nem era aficcionado pela Amy. Mas estava meio surtado. Retruquei. Em público. Chamei o autor de imaturo.
Eu sou mesmo muito errado.
Provoquei um pandemônio. 24.996 seguidores indignados. O autor detestou o puxão de orelha (eu também odiaria). Subiu nas tamancas. Me chamou de cafona. De velho gagá. Apagou o comentário. Excluiu da lista de amizades a mim e aos 4 gatos pingados apoiadores da celeuma. Ainda me xingou e me desejou a morte em privado.
A adrenalina subiu. Perdi o sono. Apaguei o link dele do HD. Redigi uma tréplica irada (publicada na mesma madrugada e sabiamente retirada do ar no dia seguinte). Vendi a obra completa dele para um sebo. A indignação não era pelos xingamentos. Era por ele impedir que a opinião diversa criasse (ou não) polêmica. Ele agiu como a Rainha Copas da história de Alice. Ao primeiro sinal de contrariedade esperneou: cortem-lhes as cabeças!
...
Tá, eu não sou santo. Engoli em seco o sapo matutino. Subiu aquela indignação. Aquela raiva básica (caraca, velho, eu fiquei escrevendo até as 4 da manhã e o cara não entendeu nada!) Li, reli e treli a crítica avessa. Justifiquei educadamente. (Por trás da atitude Polyanna havia o lado interesseiro: nada melhor que uma polêmica para aumentar a quantidade de acessos ao blog).
Ao invés de deletar o instigador (como o bonitinho fez comigo) eu respirei fundo. Zen. Me coloquei no lugar do crítico. Para entender as razões, os argumentos dele. Admirei a coragem de se expor. Inclusive me alegrei: se ele se deu ao trabalho de materializar a crítica foi por que o texto o sensibilizou de alguma forma.
A discussão estava aberta. Pena que o crítico retraiu-se. Pena que ninguém aderiu para se solidarizar ou para atacar. Pena que a minha resposta (e a necessidade de explicações) restou soando no vazio da indiferença. Ou no oceano das inutilidades virtuais.
curiosidades do mundo antigo: últimos apontamentos sobre Teseu
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| Friso do Partenon representando cena da centauromaquia (extraído da Wikipedia) |
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Em Atenas sacrificava-se pra caramba. Quase sempre ao oráculo de Apolo: para vencer uma batalha; depois da batalha vencida; para pedir conselho; para agradecer ao conselho dado; até para encontrar uma noiva ou se desfazer dela valia a pena um sacrificiozinho. Para alegria dos atenienses, depois do sacrifício rolava uma festança pauleira. Contei 26 sacrifícios e a mesma quantidade de festas nas 100 páginas da biografia de Teseu, por Plutarco.
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Como já foi dito (postagem de 08/02), Plutarco rebolou para transformar mitologia em fatos críveis. Por exemplo, trata Hércules (semideus filho de Zeus com uma mortal) como personagem de carne-e-osso. Narra (sem entrar em detalhes comprometedores) batalhas contra as amazonas (mulheres guerreiras que só tinham um peito) ou contra os centauros, seres metade superior humana e corpo de cavalo.
Da mesma forma ele trata Helena (futura de Troia). Para quem não sabe, Helena era filha de Zeus (o senhor do Olimpo) e Leda. Leda era esposa do rei Tíndaro, de Esparta. Para seduzir Leda Zeus se disfarçou de cisne. Ao invés de parir como qualquer mortal, Leda botou 2 ovos: de um deles nasceram Clitemnestra e Cástor, filhos de Tíndaro; e Helena e Pólux, filhos de Zeus. Plutarco encontrou uma saída elegante. Gastou poucas linhas no tema e mencionou somente o padrasto terreno da moça.
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Todo mundo também sabe que os gregos eram sexualmente bem resolvidos. Por isso vale a pena resumir outra passagem gay (clique aqui para ler a primeira) da vida de Teseu:
Pirítoo era rei dos Lápitas. Bem-humorado, bonitão, sangue-bom e um pouquinho estourado. Queria porque queria conhecer Teseu pessoalmente. Roubou gado ateniense só para provocar uma guerra. Na hora do vamos-ver, logo que [Teseu e Pirítoo] se entreviram, ficaram ambos assombrados com a beleza e a ousadia um do outro, de tal maneira que não tiveram vontade de combater. Plutarco preserva a privacidade do par. Não revela a real vontade que tiveram. Pula para a parte hetero: os dois deram-se as mãos e juraram amizade eterna.
Muito tempo e aventuras depois, Teseu, já cinquentão, enviuvou-se pela enésima vez. Sentiu saudade dos velhos tempos vividos com o amigão Pirítoo. Beberam todas e resolveram raptar umas minas da região. A primeira foi Helena.
Tiraram par-ou ímpar. Teseu ganhou a prenda-Helena. Pirítoo foi mais exigente. Pra ele só servia a deusa Prosérpina (também conhecida como Perséfone), a namorada de Hades, o rei dos infernos. Bêbados como estavam, não pensaram nas consequências. Baixaram no reino dos mortos.
Hades era feio mas não era bobo. Recebeu os pândegos com um banquete. Pirítoo fartou-se. Teseu, mais esperto, declinou. Conhecia a regra: quem comesse no reino de Hades, nem que fosse uma pitanga, era condenado a permanecer lá por toda a eternidade. Pobre e guloso Pirítoo. Ficou sem namorada. Perdeu o pau-amigo Teseu. Virou ração para Cérbero, o cão de 3 cabeças que vigiava o portão do palácio de Hades.
(Plutarco apresenta uma versão plausível ao mito. Nem uma palavra sobre Hades. Retira qualquer característica divina de Prosérpina (ou Perséfone). Era filha de Edoneu, rei dos Molóssios. Cérbero era um cão feroz contra o qual [Edoneu] fazia combater aqueles que lhe vinham pedir a filha em casamento).
...
O pior estava por acontecer. Quando Teseu retornou a Atenas, os adversários políticos armaram-lhe uma pegadinha fatal. Espalharam um monte de fofocas e boatos difamatórios (alguns com fundo de verdade) denegrindo irreversivelmente a imagem do velho rei.
Cabe lembrar que Atenas era uma democracia. Em uma democracia quem manda é o povo. O povo é imprevisível. Com base na boataria o povo ateniense condenou Teseu ao exílio.
Teseu partiu para a ilha de Ciros, onde possuía terras. Licômedes, o rei local, não estava a fim de concorrência. Convidou Teseu para um passeio sobre altos rochedos. Com a desculpa de mostrar a extensão da propriedade do exilado. Aproveitou um descuido do velho rei destronado e precipitou-o de alto a baixo e assim o fez desgraçadamente morrer.
...
Assim acaba a história. Não perca, leitor(a), os resumos de passagens pitorescas dos próximos 45 biografados por Plutarco. A seguir: Rômulo, irmão de Remo e fundador de Roma.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
manhã da quarta-feira de cinzas
De tanta saudade ela pagou quase o preço de outra passagem para antecipar o voo, chegar em casa um dia antes e fazer uma surpresa pra ele.
Mas a supresa foi dela: um pandemônio de garrafas de long-neck, cinzeiros cheios guimbas, cuecas, latas de cerveja e embalagens de pizza sobre o sofá e a luminária indiana derrubada no canto da sala.
Como reagiria ao abrir a porta do quarto e desse de cara com o Duda, daquele tamanho, dormindo, pelado, de conchinha, com o personal-trainer do andar de baixo?
Mas a supresa foi dela: um pandemônio de garrafas de long-neck, cinzeiros cheios guimbas, cuecas, latas de cerveja e embalagens de pizza sobre o sofá e a luminária indiana derrubada no canto da sala.
Como reagiria ao abrir a porta do quarto e desse de cara com o Duda, daquele tamanho, dormindo, pelado, de conchinha, com o personal-trainer do andar de baixo?
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
mensagem de voz
Deixei comida suficiente pros 4 dias. A cerveja não coube no freezer. Tem colado na porta da geladeira o telefone do delivery.
Aproveita pra descansar, ouvir as tuas músicas alto, ver os teus filmes de madrugada e ler aquele livrão de 600 páginas. Só não faz muita bagunça. Se der, assista ao desfile pela tevê. Quem sabe eles me filmam... Agora eu vou desligar, a Cecília tá buzinando lá embaixo.
Me esqueci: estamos indo pro Rio, eu, ela, o namorado e um amigo deles. Não fica triste, benzinho, talvez a gente volte na quarta ou no domingo, se tiver sol. Prometo que me comporto. Beijo!
Aproveita pra descansar, ouvir as tuas músicas alto, ver os teus filmes de madrugada e ler aquele livrão de 600 páginas. Só não faz muita bagunça. Se der, assista ao desfile pela tevê. Quem sabe eles me filmam... Agora eu vou desligar, a Cecília tá buzinando lá embaixo.
Me esqueci: estamos indo pro Rio, eu, ela, o namorado e um amigo deles. Não fica triste, benzinho, talvez a gente volte na quarta ou no domingo, se tiver sol. Prometo que me comporto. Beijo!
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
fragmentos de autobiografias anônimas: o professor C
Eu caminho todos os dias. Cedo ou à noite. Caminho e penso. Não no sentido restrito do verbo. Ideias. Dispersas. Misturadas. Insights. Atiçados por estímulos externos: luminosidade, tons de verde, pôr-do-sol, etc.
De manhã passos acelerados e pensamentos grandiosos. À noite pensamentos relacionados ao lado safado do sexo.
Não as tinha visto. 4 cadáveres. De pombos. Eletrocutados nos fios de alta tensão. Dispostos matematicamente em 4 pontos do trajeto. Minutos de distância uns dos outros. Em sequência cronológica de óbito.
(Como a capa de um disco antigo: um ramo com uma flor branca representando a primavera; uma maçã verde, o verão; outra, vermelha, o outono; a maçã podre, o inverno). Assim eram o cadáver e as carcaças dos pombos.
O primeiro não parecia morto. Havia brilho no olho vermelho-escuro. Sangue escorrendo pelo bico. Corpo ainda mole. Talvez ainda morno.
O segundo pombo estava intacto. Asas rígidas. Penas desbotadas. Como se sempre fosse: bolo de barro e cinza em forma grosseira de ave morta.
O terceiro era carcaça. Entranhas achatadas. Movimento dos milhões de vermes amontoados. Pequenos e brancos. No côncavo do corpo. Na moldura das elipses das penas das asas.
O quarto era um desenho. Anatomia perfeita dos esqueleto sobre uma mancha escura. Ainda em forma de ave.
Então voltei por outro caminho. Sem pombos vivos ou mortos. Só pessoas desejando bom-dia.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
fragmentos autobiográficos de gente anônima: R
Dias quentes e de céu azul brilhante e brisa balançando as cortinas. Permaneço a maior parte do tempo deitado, ouvindo música, conversando no chat, olhando os e-mails, comprando óculos importados e suplemento alimentar, lendo jornais ou baixando filmes pra assistir quando perco o sono de madrugada, esperando o osso colar.
Desenhei uma mandala do yin & yang rodeada dos trigramas do i-ching com pincel atômico no gesso da perna até quase a virilha e ficou bem bacana. Lembro de ligar para a repartição na quarta-feira, só para não perder o hábito. Confiro o extrato e a planilha de gastos. Presto atenção ao barulho da faxineira arrastando os móveis e aspirando o apartamento de cima, em pleno domingo de carnaval.
Me arrasto até o banheiro com um pré-socrático debaixo do braço. Envolvo a perna em saco de lixo preto de 100 litros, com cheiro de borracha queimada. Busco palavras difíceis para significar bobagens sentado no vaso sanitário. Improviso, de brincadeira, no banho, estrofes para baladas pop ou sambas-meio-bossa-nova que dão vergonha mas transcrevo assim mesmo no computador.
Depois eu descanso. Às vezes cochilo e até sonho. Com imagens da internet ou dos filmes ou dos livros ou dos filósofos ou sei-lá-de-onde. Tipo: escada que sobe e desce ao mesmo tempo; bichos exóticos das profundezas do mar; romãs das Hespérides; mistérios de Eleusis; com a folia e a sacanagem e a putaria do carnaval em Salvador, no Rio de Janeiro, em Recife e Olinda. Ou, meio acordado, fico imaginando a pele, os bicos dos peitos, o(a) púbis cobertos por lantejoulas das mulatas gostosas da tevê.
Ou nos efebinhos, nos fauninhos, nos pierrozinhos, nos eunuquinhos sambando serelepes, quase pelados, urinando no meio da rua, enchendo a cara de cerveja, jogando confete, esfregando os corpinhos suados, vomitando e gozando nos muros ou entre as pernas uns dos outros.
Até ouvir o toque pontual, as 3 batidas de leve na porta: mamãe chamando para o almoço.
Desenhei uma mandala do yin & yang rodeada dos trigramas do i-ching com pincel atômico no gesso da perna até quase a virilha e ficou bem bacana. Lembro de ligar para a repartição na quarta-feira, só para não perder o hábito. Confiro o extrato e a planilha de gastos. Presto atenção ao barulho da faxineira arrastando os móveis e aspirando o apartamento de cima, em pleno domingo de carnaval.
Me arrasto até o banheiro com um pré-socrático debaixo do braço. Envolvo a perna em saco de lixo preto de 100 litros, com cheiro de borracha queimada. Busco palavras difíceis para significar bobagens sentado no vaso sanitário. Improviso, de brincadeira, no banho, estrofes para baladas pop ou sambas-meio-bossa-nova que dão vergonha mas transcrevo assim mesmo no computador.
Depois eu descanso. Às vezes cochilo e até sonho. Com imagens da internet ou dos filmes ou dos livros ou dos filósofos ou sei-lá-de-onde. Tipo: escada que sobe e desce ao mesmo tempo; bichos exóticos das profundezas do mar; romãs das Hespérides; mistérios de Eleusis; com a folia e a sacanagem e a putaria do carnaval em Salvador, no Rio de Janeiro, em Recife e Olinda. Ou, meio acordado, fico imaginando a pele, os bicos dos peitos, o(a) púbis cobertos por lantejoulas das mulatas gostosas da tevê.
Ou nos efebinhos, nos fauninhos, nos pierrozinhos, nos eunuquinhos sambando serelepes, quase pelados, urinando no meio da rua, enchendo a cara de cerveja, jogando confete, esfregando os corpinhos suados, vomitando e gozando nos muros ou entre as pernas uns dos outros.
Até ouvir o toque pontual, as 3 batidas de leve na porta: mamãe chamando para o almoço.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
curiosidades do mundo antigo - teseu no carnaval
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| (réplica de bronze pompeiano obtida em http://www.neh.gov/humanities) |
Teseu matou o Minotauro, encontrou a saída do labirinto, salvou os jovens, liberou Atenas do compromisso, raptou e engravidou Ariadne, para em seguida abandoná-la em Naxos (sem razão aparente - dizem que por conselho de Dionisos), etc. Estava tão eufórico com tantos acontecimentos que, ao se aproximar de Atenas, esqueceu-se de içar a vela branca anunciadora de boas novas.
Egeu desesperou-se ao ver as velas negras. Imaginando a derrota e a perda do filho, jogou-se de um precipício. A alegria do retorno misturou-se ao luto pela morte de Egeu.
Teseu foi então coroado. Sua primeira resolução como rei (antes mesmo de unificar as províncias e os burgos da Ática, centralizando o poder em Atenas) foi instituir uma festa estranha, en honra a Baco/Dionisos e Ariadne, conhecida como festa dos ramos ou Oscofórias:
Escolheu dois belos meninos [rapazes] de semblantes doces e delicados como de virgens, conquanto fossem ficando ousados e prontos para a ação; mas tanto os fez banhar com água quente, manterem-se cobertos sem sair ao mormaço nem ao sol, tanto lavar, untar e esfregar com óleos próprios para amolecer a pele, conservar a tez fresca e alourar os cabelos, e tanto os ensinou a contrafazer [fingir ser, disfarçar, dissimular] a palavra, a continência e a maneira das moçoilas, que eles mais se pareciam com elas do que com jovens rapazes, pois não havia diferença que se pudesse perceber.
Esses rapazes eram uma espécie de sacerdotes da festa das Oscofórias. A festa em si contava com uma procissão, onde desfilavam as moças atenienses e os garotos acima citados, levando ramos e frutos, provavelmente semelhante ao carnaval, uma vez ser dedicada a Dionisos.
Quem nos conta essa fofoca é o circunspecto Plutarco: pois não é que o másculo e fortão Teseu, rei recém-empossado e coroado, chefe-de-estado da maior potência do mundo antigo - vestiu-se de mulher, enfeitou os cabelos, perfumou-se (e provavelmente se depilou) para cair na gandaia da festa, em um tipo de Bloco das Piranhas, acompanhado dos garotos da citação anterior?
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