quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

pequenos assassinatos (*)


Passo o dia inteiro na rua.

Chego em casa à noite. O cão só falta ter um piripaque de felicidade. Nem sinal da gata.

Fervo água para o chá. Como os restos da geladeira com pão de abóbora. Tomo banho. Procuro a gata no quintal. Nem sombra. Vou trabalhar.

Cena 1:

O chão do escritório forrado de algo que não consegui identificar. Penugens e penas cinzentas. Muitas. Sobre a cadeira a cena hitchcockiana: um pardal. Depenado e estripado, vísceras expostas, ainda mole. Na prateleira mais alta, sobre os Caldas Aulete, cintilam os olhos amarelos, redondos da gata. Observando a minha reação.

Retribuo o olhar. Pura censura e reprovação. Enquanto eu recolho o cadáver e as provas do crime ela desaparece.

Cena 2:

Silêncio sepulcral (adoro esse clichê) na casa. Só rompido pelo telecoteco do teclado. Meia hora depois vou buscar água. Quem eu vejo? a gata. Onde? na cozinha. Fazendo o quê? torturando uma microlagartixa. Já sem rabo e perninhas.

Travessura tem limite. Desconsidero tudo o que sei sobre compaixão, zoologia e psicologia dos animais domésticos. Incorporo o pior dos pedagogos. Dou um berro. Só não acerto a vassourada porque ela é mais esperta e se escafede pela área de serviço.

Cena 3:

Pra lá das 3 da manhã. Vou dormir. A gata na cama, miúda, linda, pura inocência e fofura, ressonando aninhada sobre o cobertor. Deito-me de lado, sem interromper-lhe os sonhos de futuros assassinatos.


(*) mesmo título do filme de Alan Arkin

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (intervalo 2)

(de: http://www.folhadoes.com)

Como foi dito no primeiro capítulo da minissérie, Plutarco menciona várias versões sobre a origem de Roma. A maioria trata os gêmeos Rômulo e Remo como história da carochinha. Dentre as mais plausíveis, Roma teria sido fundada por famílias dos derrotados da guerra de Troia: Uma vez salvos da espada, embarcaram em navios ocasionalmente encontrados no porto e foram lançados pelos ventos à costa da Toscana, onde puseram âncoras perto do rio Tibre.

...

A visão de futuro das mulheres é incomparavelmente mais abrangente que a dos homens. As troianas estavam exaustas de navegar sem rumo, ao sabor dos ventos. O local onde estavam acampados, à margem do rio Tibre, era aprazível; a terra era fértil; os vizinhos eram dóceis e obsequiosos; os negócios prosperavam. Lugar perfeito para criar os filhos e os netos em paz, segurança e tranquilidade.

Elas ousaram. Arriscaram. Piraram de vez. Enquanto os maridos dormiam, atearam fogo aos navios.

Os maridos ficaram muito putos. Afinal, eram eles que mandavam. Afinal, como desbravariam terras desconhecidas, guerreariam, conquistariam povos, saqueariam tesouros e estuprariam as mulheres dos vencidos? Afinal, como descarregariam a testosterona? No cabo da enxada? na foice, no forcado, na sega do arado? Afinal, plantar e colher era coisa de mulherzinha ou de gente desqualificada. Afinal... Rapazes limitados aqueles troianos.

Então veio o golpe de mestre das moças. Adivinhem o que inventaram para sossegar os pobrezinhos maridos que se sentiam emasculados? As troianas mães do futuro império romano inventaram o beijo na boca. Sério. Plutarco confirma:

E dizem que daí começou o costume, que ainda hoje dura em Roma, de saudarem as mulheres seus parentes e maridos beijando-os na boca, porque então essas damas troianas saudavam e acariciavam os maridos, depois de lhes haverem queimado os navios, pedindo-lhes que acalmassem sua cólera e má disposição contra elas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

ensaios para te confessar algo

Era para te dizer que ficou tarde. Que a chuva escorreu pelo ralo e que minha pele continua seca. Que a coruja-harpia rascou o escuro com o bico e as garras cravadas no teu nome. Que a sombra da morte é do tamanho da noite. Sorte haver ainda lua entre as nuvens.

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Fechei as cortinas e acendi a luz. Joguei no lixo as agulhas, os vidrilhos, as lantejoulas, as fitas coloridas, os fios de aço e seda com os quais bordávamos nossa presunção. Mesmo assim eu não me senti mais leve.

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Borrei com algodão umedecido o contorno das palavras. Amoleci a certeza dos sentidos. Raspei com a lixa de pé a dureza dos significados. Só para não ter o que dizer. Doem-me os ombros e a unha encravada do dedão do pé.

...

Exorcizo demoniozinhos raquíticos do que restou de você em mim. Esmago insetos, répteis e ratazanas enquanto abro bem os olhos ando firme na direção da porta principal.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

rené descartes na piscina

Hoje de manhã, enquanto descansava entre um educativo e outro na piscina, na raia ao lado da minha estavam pai e filha franceses.

O pai ensinava a garota a nadar. Porém, ao invés de demonstrar a flutuação, a braçada, a respiração, a batida das pernas - ele falava e falava e falava, explicando e repetindo detalhada e enfaticamente cada movimento que a menina deveria fazer.

Era um privilégio assistir ao Discurso do Método sendo colocado em prática. Entusiasta do oposto empirismo, recoloquei os tampões de ouvido e os óculos, calcei as nadadeiras e iniciei uma sequência de pernadas sem esperar o fim da explanação e ver a menina dar as primeiras milagrosas e racionais braçadas.

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (episódio 4)

(de: http://www.librosmalditos.com)

Começaram os trabalhos da construção de Roma. Sob a proteção de Apolo, que a toda hora metia o bedelho, via oráculo. Por exemplo: ordenou que se construísse um templo de refúgio para [abrigar] todos os afiltos e fugitivos, indiscriminadamente. Não precisava RG, CPF, atestado de bons antecedentes, curriculum vitae, entrevista, ficha de inscrição, nada. Era chegar e ficar. Boa estratégia. Mão-de-obra abundante. Desqualificada, porém barata.

Construir Roma era um sonho desenvolvimentista grandioso dos gêmeos. Necessitava-se de investimentos vultuosos, participação de capital internacional, empréstimos ao FMI da época, articulações políticas, concessões dúbias. 50 anos em 5, como se disse muito tempo depois.

Foi quando surgiu a primeira querela entre os gêmeos. Com resultado catastrófico.

Diz-se que o motivo era que Rômulo queria construir uma cidade plana, em forma de quadrado. Remo queria uma circular, sobre o o monte Aventino.

Ao invés de perguntar ao oráculo, consultar o agrimensor, o urbanista, o engenheiro ambiental ou decidir no par-ou-ímpar, escolheram decidir a pendenga pelo voo dos pássaros. Mais especificamente dos abutres. Quem enxergasse o maior número deles escolheria o local.

...

Para os romanos da época o abutre era o animal menos malfazejo, que não prejudica nem arruina coisa nenhuma que os homens semeiam, plantam ou nutrem; visto como se alimenta somente de carniça e não fere nem mata jamais o que tenha vida; do mesmo modo não toca nos pássaros mortos pela conformidade do gênero existente entre eles.

...

A sede de poder tira qualquer um do sério. Devia rolar também alguma questão relacionada à grana. Sabe-se lá. Nesses casos é sempre como no samba: Irmão desconhece irmão.

Remo era ingênuo. Falou primeiro. Tinha visto 6 abutres. Rômulo nem pensou duas vezes. Imaginou rápido: governar sozinho o futuro maior império da terra. Trapaceou. Afirmou ter visto o dobro. Remo duvidou. Rômulo jurou pela mãe mortinha atrás da porta. Discutiram. Brigaram feio. Rômulo segurou Remo de jeito. Fincou-lhe a peixeira no bucho. Matou Remo. Colocou a culpa em um tal de Céler, que sumiu do mapa celeremente sem deixar rastro.

(continua amanhã: o rapto das sabinas)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (episódio 3)

imagem de: http://www.picstopin.com
O episódio passado terminou na parte em que o porqueiro e a esposa Larência pegaram os meninos para criar.

Rômulo e Remo cresceram. Eram belos de corpo. Somente de se lhes verem o talhe e os traços do rosto, deduzia-se a sua origem real. 

Eram a dupla mais legal da vizinhança. Líderes natos de uma galera da pesada, composta de grande número de vagabundos sem lar nem lugar, e servos fugitivos que eles próprios incitavam a escaprem dos senhores.

Rômulo era mais do intelecto. Líder nato. Remo, puro impulso e emotividade. Um dia Rômulo estava ocupado, sacrificando a algum nume. Foi a deixa para Remo meter-se em encrenca. Briga de gangue. Levou a pior. Foi preso e conduzido a justificar-se ao ex-rei Numitor, dono do pedaço (mesmo destronado não perdeu a realeza).

Vou pular os quiproquós até vir à tona o segredo da origem dos gêmeos. Eram os netos de Numitor sequestrados por Amúlio que todo mundo pensava estarem mortos.

Amúlio foi morto pelos comparsas dos dois irmãos. Restituíram Numitor ao trono. Não receberam recompensa, agradecimento ou cargos importantes no novo governo. Quando anunciaram que partiriam para novas terras, o povo de Alba não insistiu para que ficassem. Aliás, ficaram aliviados. Imagine, quanto maior a distância daquela turma de banidos, vagabundos, criminosos impunes, ladrõezinhos, fugitivos, etc, melhor.

Então os gêmeos partiram. Dispostos a construr uma cidade no lugar onde primeiramente haviam sido nutridos. Isto é, às margens do rio Tibre. Essa cidade seria Roma.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e roma (intervalo comercial)

(Detalhe de vaso. Hetaira. De um site erótico russo intraduzível)
Plutarco conta uma história divertida sobre outra Larência, homônima e colega de profissão da mulher do porqueiro do episódio 2 (leia aqui).

...

O movimento estava fraco no templo de Hércules, em Roma. O sacristão não tinha o que fazer. Por pilhéria, convidou o semideus para jogar damas (dados, no original). Falando sozinho, apostou que se ganhasse, Hércules teria de enviar-lhe alguma felicidade, sem explicitar qual. Se perdesse, prepararia um jantar chique e conduziria uma bela mulher para deitar-se com ele [com o herói divinizado].

Hércules ganhou a disputa imaginária. Melhor seria não arriscar o castigo divino, pensou o sacristão. Cumpriu a promessa. Mesmo sabendo ser uma pândega. Preparou para Hércules pasta com molho funghi, cordeiro assado com molho de hortelã, serviu vinho chileno de uma boa safra e musse de chocolate na sobremesa. Pra completar o pagamento da aposta, alugou essa cortesã Larência, que era muito bela, mas ainda não famosa.

O sacristão fez faxina, arrumou a mesa, a cama de casal e o banho na suíte do templo. Trancou lá a moça lá e foi para casa dormir. Assim que saiu, Hércules materializou-se. Fartou-se de comer. Elogiou o tempero da comida e as novidades eróticas de Larência. Ficaram juntos até de madrugada. Na despedida, Hércules ordenou que Larência cumprimentasse o primeiro homem que encontrasse na rua.

A moça não entendeu mas obedeceu. Afinal, era ordem de uma criatura divina. Cumpimentou o madrugador Tarrúcio, homem já muito idoso, que havia acumulado muitos bens e não tinha filhos, bem como nunca fora casado. Foi amor à primeira vista. Com a bênção de Hércules. Casaram-se e viveram felizes para sempre.

Sortuda Larência. Herdou a fortuna do idoso Tarrúcio, que bateu as botas no primeiro ano do casamento. Larência tornou-se uma senhora muito famosa e honrada. Ainda por cima Hércules no topo da lista de antigos clientes.

Quando Larência morreu, deixou a fortuna para o povo romano. Foi enterrada no mesmo lugar da xará, colega de profissão de outros tempos, e mãe postiça dos fundadores de Roma.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (episódio 2)

Picanço barateiro. Guache. http://historiasalapis.blogspot.com.br
Agora a emenda. Foram feitos pequenos ajustes às versões contadas por Plutarco. Para melhor entendimento, substitua o nome de Tarquécio do primeiro episódio (leia aqui) para Amúlio.

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Amúlio e Numitor eram descendentes do conhecidíssimo rei troiano Enéias. Herdaram um reino e certa quantia de ouro e dinheiro. Amúlio era malandro. Na divisão, ficou com o ouro e o dinheiro. Numitor com o reino. Com dinheiro e ouro Amúlio equipou um exército e conquistou o reino de Numitor.

Para garantir que a descendência do rei deposto não vingasse, Amúlio enviou a única filha de Numitor, chamada Reia Sílvia, para ser freira-sacerdotisa no templo-convento das Vestais. Não se sabe como (terá sido o caralho voador da primeira história?) Reia Sílvia engravidou.

Foi condenada à morte por isso (as sacerdotisas de Vesta eram virgens). Mas a prima Anto (filha de Amúlio) intercedeu. Escondeu a grávida em uma torre inacessível.

Quando nasceram os gêmeos maravilhosamente belos e grandes, Amúlio fez igual à madrasta de Branca de Neve. Entregou os meninos para o capataz matar. Exigiu que lhes arrancassem os coraçõezinhos e os trouxesse como prova do assassinato.

O capataz ficou com dó. Ajeitou os bebês em uma tina e jogou no rio. A tina flutuou na correnteza até encalhar. Ao invés dos 7 anões, uma loba encontrou e amamentou os pimpolhos. Um picanço colocava migalhas nas boquinhas deles.

Um porqueiro (vaqueiro na história anterior) encontrou e recolheu e adotou os gêmeos.

A mulher do porqueiro chamava-se Larência. Era daquelas profissionais que abandonam o corpo a todos os que aparecem, sob remuneração. Larência e o porqueiro criaram os meninos como se fossem seus filhos. Batizaram-nos Rômulo e Remo. Deram-lhe educação. Ensinaram-lhes todas as outras coisas honestas que se constuma mandar ensinar às crianças de boa e nobre casa.

(continua amanhã)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (parte 1)

Rômulo e Remo mamando na loba. Imagem da wikipedia.

Na vida de Rômulo, Plutarco menciona várias versões sobre a fundação de Roma. A do rei Tarquécio e a dos irmãos Amúlio e Numitor são as minhas preferidas. O motivo? não passarem de fábulas e contos recreativos, onde não há nenhuma verossimilitude. O início das duas é idêntico (mudam os nomes dos personagens). A segunda história acrescenta o desfecho da primeira. Por isso tomei a licença poética de juntá-las.

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Era uma vez um rei cruel chamado Tarquécio. Certo dia apareceu no palácio uma forma de membro viril que ficou por ali, de bobeira, por vários dias. Parecia inofensivo, mas incomodava sobremaneira quando roçava em Tarquécio. Foi então o rei consultar o oráculo. Era um falo milagroso. A princesa transaria com ele. Geraria um filho valente e famoso que superaria todos de seu tempo.

Tarquécio obrigou a filha a ficar com monstruoso membro viril. Ou a cantada do falo era ruim ou não rolou química entre eles. A moça não estava a fim e pronto. Mandou uma serviçal representá-la. Tarquécio ficou pê da vida. Prendeu a filha e a empregada na torre mais alta do castelo e condenou-as à morte.

À noite, Vesta (deusa do fogo dos lares) apareceu em sonho a Tarquécio. Proibiu-o de matar as moças.

Tarquécio era mesmo muito malvado. Enganou a deusa. Determinou que as moças fossem libertadas com a condição de lhe tecerem um manto. As bobinhas acreditaram. Teciam o dia inteiro. Mas enquanto dormiam o serviço era desfeito por outras tecelãs, sob ordem de Tarquécio.

9 meses depois a criada deu à luz gêmeos. Filhos do membro viril sobrenatural. Tarquécio arrancou os bebês do peito da mãe. Entregou-os ao empregado Terácio, para que este os matasse. Terácio teve pena dos meninos. Abandonou-os à margem do rio Tibre. Onde uma loba e pássaros os alimentaram.

Passava pelo local um boiadeiro. O boiadeiro ficou maravilhado com a cena. Aproximou-se. Carregou consigo os meninos.

(continua amanhã)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

apontamentos dispersos sobre heróis

Recapitulo meus heróis. O primeiro foi Pedro Malazarte de um livro com ilustrações que lembravam Brueghel. Rei Artur e Robin Hood, via Walt Disney. Os super-televisivos Batman, Thor, Príncipe Namor. Tiradentes esquartejado nas aulas de Estudos Sociais e Educação Moral e Cívica. Além dos mitológicos Teseu e Ulisses.

Já maiorzinho eu me identificava com o desmiolado Hamlet e o idiota Príncipe Michkin das leituras escondidas. Dom Quixote. Macunaíma-Grande-Otelo. Lampião do Cinema Novo.

Ao final da adolescência, e por muito tempo, veio Gregor Samsa, metamorfoseado em barata. Lado a lado com os revolucionários Che Guevara e Sandino. E o aterrorizante Zaratustra.

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O herói é assim considerado por realizar feitos extraordinários, extra-humanos. Essa característica é devida a diversos fatores, surgidos em doses excessivas, quase sempre antagônicas, todos juntos ou agrupados em combinações. Tais como: ascendência divina; origem humilde; força física sobrenatural; fragilidade aparente; beleza e harmonia de feições; feiúra e desajeito; destreza; inteligência; liderança; carisma; cavalheirismo; grosseria; impulsividade; ira; descontrole; idealismo; egoísmo; ambição desmedida; despreendimento; fé e/ou convicções inabaláveis; astúcia; estupidez; rigor exgerado de caráter; doses variáveis de desonestidade.

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Grande parte dos heróis já nasce herói. Porque ser herói é atributo divino. O nascimento do herói é cercado de fatos ou indícios sobrenaturais, predições, profecias. Os que não nascem heróis acreditam e desejam e inventam para si o posto: Virgolino, o Lampião, por vingança. Alonso Quijano, o aldeão manchego, de tanto amar romances de cavalaria, autonomeou-se um.

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O anti-herói é a negação do herói. É fraco, escuso, inseguro, apagadinho, comum. Porém possui o mesmo poetencial de loucura do herói. Quer pessoa mais normal que Michkin? o caixeiro-viajante Gregor Samsa? o estudante Raskolnikov?

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Os heróis superam provas variadas. Envidam muita energia para atravessar e superar missões impossíveis. Os anti-heróis por sua vez atravessam (ou tentam atravessar) heroicamente os infernos interiores próprios. Por isso ambos tornam-se seres egocêntricos e individualistas e incompreendidos.

A morte, tanto para o herói quanto para o anti-herói, não é um tabu.

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Além dos atributos pessoais, ser herói depende da oportunidade. Estar no lugar certo, no momento certo. Devem existir testemunhas para o seus atos. Que garantirão a publicidade e o registro dos feitos para a posteridade. A ocasião faz o herói.

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Mesmo quando arrebata multidões o herói é solitário.

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A maioria dos meus heróis encontrou final sangrento. Ou mergulhou na escuridão e na loucura. Não me lembro de nenhum que tenha morrido de overdose, como os da música, os da geração que viveu a virada do século XX. Aliás, meus heróis nunca foram de carne e osso. Poucos tiveram registro histórico.

Na proporção direta da maturidade, da consciência, da desilusão e do desengano da condição humana, a pureza e a sobre-humanidade dos meus heróis reduziu-se. Cedeu espaço aos anti-heróis. Que também enfraqueceram. Até restar ninguém.

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Meus heróis habitavam o mundo caótico do papel, da película e da imaginação.