domingo, 10 de março de 2013

Umberto Boccioni, Head and House and Light, 1912 (de:http://minimumfuck.tumblr.com)

sábado, 9 de março de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (epílogo e conclusão)

O assassinato de Rômulo. De: Makers of History - Romulus, By J. Abbot.
(www.gutenberg.org)
O divórcio era proibido às mulheres romanas. No entanto, o marido tinha licença para largar a esposa por qualquer motivo. Se a mulher envenenasse os filhos, falsificasse chaves ou cometesse adultério, era abandonada na rua da amargura, com a roupa do corpo. Falsificar chaves? plagiando o gaulês Asterix, esses romanos eram muito esquisitos.

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Finda a guerra, Rômulo compartilhou o governo de Roma com Tácio, rei dos sabinos. Tudo ia bem. Até ocorrer um incidente internacional: o assassinato de diplomatas laurentinos. Culparam Tácio. Pura armação. Como bom político, Rômulo fez cara de paisagem. Instigou a vingança dos parentes dos embaixadores. Que mataram Tácio e deixaram o caminho livre para que ele assumisse de novo, sozinho, o pedaço.

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À medida em que o poder crescia, Rômulo tornava-se mais e mais presunçoso, soberbo, odioso e tirânico. Aquilo tomava proporções incontroláveis. A ponto dos senadores intervirem. 

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A morte de Rômulo é envolta em mistério. Simplesmente sumiu. Existem pelo menos 3 versões. A primeira é sem-graça. A segunda, mórbida. A terceira, fantástica:

1. Os senadores aproveitaram um descuido da guarda pessoal. Enquanto Rômulo banhava-se, afogaram-no no rio Tibre. Amarraram uma pedra ao corpo para que afundasse.

2. Enquanto fazia um sacrifício no templo de Vulcano, os senadores se precipitaram juntos sobre ele. Após esquartejarem o corpo, cada qual levou um pedaço dentro da dobra da própria túnica.

3. Rômulo discursava ao povo em um local chamado Brejo da Cabra. Subitamente o tempo virou. Começou uma ventania. O sol escureceu. O dia virou noite. As trevas não foram doces nem tranquilas, antes houve trovões horríveis, ventos impetuosos e borrascas de todos os lados, que fizeram sumir o poviléu.

Quando a tempestade passou e o dia ficou de novo claro, o poviléu reuniu-se para ouvir o fim do discurso. Mas Rômulo tinha sumido. O poviléu ficou indócil. Exigiu explicações. Os senadores então inventaram que Rômulo tinha sido visto vagando pelas redondezas, maior e mais belo, [...] vestido de branco com armaduras claras e luzentes como fogo. Mandara um recado: que o poviléu se acalmasse, porque ele tinha cumprido sua missão e se aposentaria, mudando-se para junto dos deuses. Não é que o poviléu acreditou?

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Plutarco acha essa história de mortal morar com os deuses conversa pra boi dormir. Cita versos de Píndaro:

O corpo morre, certamente:
Viva fica a alma, tão somente,
Como sinal de eternidade.

Em seguida, discorre sobre o tema. Transcrevo um trecho:

[A alma] veio do céu e para lá retorna, não com o corpo, mas antes quando, mais distanciada e separada do corpo, está nítida e santa, nada mais possuindo da carne. [cita Heráclito:] A alma seca é a melhor alma, que se evola fora do corpo, nem mais nem menos que o raio fora da nuvem; mas aquela que se destempera com o corpo, cheia de paixões corporais, é como um vapor grosseiro, pesado e tenebroso, que não pode inflamar nem elevar. Portanto, não há necessidade de querer, contra a natureza, enviar ao céu os corpos dos homens virtuosos, juntamente com as almas; mas é preciso estimar e crer firmemente que suas virtudes e suas almas, segundo a natureza e segundo a justiça dos deuses, os tornam, de homens, santos; e de santos, semideuses; [...] estando livres de toda possibilidade e de toda mortalidade, tornam-se, não por nenhuma ordenança civil, mas em verdade e segundo razão verossímil, deuses completos e perfeitos.

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Conclusão:

De Roma viemos nós, os latinos. Nossos avôs Rômulo e Remo nasceram de um caralho voador que, por artimanhas femininas, engravidou uma serva ao invés da filha do rei. Foram abandonados, amamentados por uma loba e criados por uma prostituta. Lideraram uma gangue de adolescentes de rua. Por disputa de poder, Rômulo trapaceou e assassinou o próprio irmão. Junto com a galera da adolescência, promovida a fundadores do império, raptou as mulheres dos vizinhos gente-boa. Fez acordos vantajosos, muita demagogia e poucos escrúpulos para alcançar objetivos: mais trapaças, mais assassinatos, mais agrados ao povo. Teve o destino dos tiranos: assassinado à traição. Seguido de endeusamento popular.

Não fica mais fácil entender o mundo em que vivemos?

derviche

Derwisj, Jean Baptiste Vanmour, 1700 - 1737 
(https://www.rijksmuseum.nl/en)

sexta-feira, 8 de março de 2013

meninas

Marta tinha a postura de quem sempre soube mandar. Usava roupas finas e brincos de pérolas. Gostava de gritar de madrugada. Xingava a torto e a direito, invocava satanás, fazia o sinal da cruz de cinco em cinco minutos. As filhas levaram-na embora, a contragosto.

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Toninha passa o dia sentadinha. Penteadinha, cheirosinha, carinha de bruxinha boazinha das histórias infantis. Fraseava ditongos, tritongos e hiatos ininteligíveis, coçava as mãos, apontava para o nada. O tempo todo levantava a saia, procurando o calor das brasas de um fogo apagado sabe-se lá há quantas eras.

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Dulcina, como o próprio nome, era a mais cordata de todas. Velha como um pajé, magra como um grilo, enrugada como um maracujá. Confundia qualquer visitante masculino com o neto. Convidava-os invariavelmente para um chope com batata frita e bolinho de bacalhau em um botequim de Copacabana.

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Potira era a mais esperta. Pra lá e pra cá, bolsinha preta debaixo do braço, cheia de contas para pagar. Coordenava o abrir e o fechar do portão eletrônico. Conversadeira, alegre, bem-disposta, negociava o imóvel com as visitas. Com o dinheiro da venda compraria uma casinha em Manaus.

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Aos 100 anos Zulmira continuava lúcida e independente. Dicção perfeita, os erres e esses dos plurais e das concordâncias. Só conversava com a enfermeira, a cozinheira e a diretora. Passava o tempo todo no quarto, só dela, bordando panos de prato. Esperando o filho que prometeu tirá-la dali assim que terminasse a interminável reforma do apartamento.

terça-feira, 5 de março de 2013

sábado, 2 de março de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (último episódio antes do epílogo)

Jacques-Louis David, A Intervenção das Sabinas. 1799.

Os romanos raptaram as sabinas. Afugentaram os sabinos. Casaram-se com as raptadas e a vida seguiu na recém-fundada Roma.

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Os sabinos eram perfeccionistas. E lerdos. Enquanto preparavam-se para resgatar as filhas, esposas e mães, os romanos expandiam o império em velocidade vertiginosa.

Depois de longos anos, o exército dos sabinos ficou pronto. Era um exército grande, vistoso, bem treinado. No entanto havia um problema: como entrariam na inexpugnável Roma?


A solução foi a sabina Tarpéia. Ela estava até o pescoço com os romanos. Marcou um encontro secreto com o alto-comando do exército sabino. Tarpéia ficou fascinada com os braceletes de ouro que eles usavam. Negociou: abriria os portões, à traição, em troca do que os soldados traziam nos braços esquerdos.

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Tarpéia percebeu tarde a ambiguidade do acordo. Não sabia (ou não se lembrava) de que o que os sabinos amavam a traição enquanto ela era-lhes útil; odiavam-na logo que atingissem o objetivo.

Vale a pena ler a cena direto da fonte:

Assim fez então Tácio [o general]: pois, quando se viu dentro da fortaleza, ordenou aos sabinos que, de acordo com a promessa que fizera a Tarpéia, não lhe poupassem nem retivessem nada de tudo quanto traziam nos braços esquerdos; e tirando primeiro ele próprio de seu braço o bracelete que levava, atirou-lho, assim como depois o escudo: todos os outros fizeram outro tanto, de sorte que, lançada por terra a golpes de braceletes e de paveses, ela morreu sufocarda pelo fardo.

Corações de pedra o desses sabinos.
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O bicho pegou. A batalha no interior das muralhas foi difícil e demorada. Houve centenas de mortos de ambos os lados. Mesmo com Zeus-Júpiter encorajando os romanos.

De repente aconteceu o inesperado. As sabinas entraram no campo de batalha. Ensandecidas. Descabeladas. Aos prantos, aos gritos e aos clamores. Umas levando entre os braços filhinhos que ainda mamavam. Posicionavam-se diante das lanças e espadas, abraçavam os mortos e feridos.

Síntese do discurso delas: que já tinham sofrido horrores quando foram raptadas violentamente e contra as leis. Que os sabinos demoraram muito a resgatá-las. Que já tinham se acostumado e afeiçoado aos raptores. Que inclusive eram mães de filhos romanos. Que voltar para os sabinos e abandonar Roma seria mais doloroso que o rapto inicial. Enfim, que os sabinos aceitassem seus genros, cunhados e netos romanos e que os romanos fizessem as pazes com seus sogros e cunhados e acabassem de vez com a palhaçada.

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Sábias sabinas. Politizadas. Das primeiras defensoras dos direitos femininos. Pacificaram os litigiantes. Conquistaram o direito de ir-e-vir. A isenção de serviços domésticos chatos, exceto o de fiar. Dali em diante só usariam vestidos bordados (ou pintados?) de púrpura. Os cidadãos do sexo masculino seriam obrigados a ceder-lhes o assento nos transportes e lugares públicos. Foram proibidos de assediá-las, dizer piadinhas, palavrões, ou quaisquer coisas sujas e desonestas na presença delas.

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Epílogo:

O texto ficou comprido demais. Deixemos para amanhã o epílogo.



gata

(hoje ela trouxe um beija-flor).

sexta-feira, 1 de março de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (penúltimo episódio)

(http://www.zazzle.com.br)

A história parou quando Rômulo fundou Roma após a morte do irmão Remo.

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O grosso da população da nova cidade era composta de todo tipo de  undergrounds da sociedade. Maioria esmagadora de homens. A escassez de mulheres era o abacaxi maior para o novo administrador Rômulo descascar. A velha questão da família célula da sociedade. Como vingaria a cidade sem o fenômeno da procriação?

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Os sabinos eram vizinhos dos romanos. Povo pacífico. Corria a boca larga a fama da beleza das mulheres sabinas. Junto com os estereótipos machistas de todas as épocas: boas mães, boas tecelãs, boas donas-de-casa, boas parideiras, boas de cama - umas Amélias.

Rômulo teve uma ideia. Tosca. Raptar as filhas, esposas e mães dos vizinhos do-bem. Inventou uma balela que só mesmo os crédulos sabinos caíram: que foi descoberto um novo deus nos subterrâneos de Roma; que haveria sacrifícios a esse deus; que depois dos sacrifícios, dar-se-ia uma festança, open-bar, três dias seguidos. Foi distribuída grande quantidade de ingressos grátis para todos os sabinos. Mulheres tinham direito a brinde-surpresa.

Compareceram em massa. Enquanto os sabinos enchiam a cara, Rômulo fez um sinal para que os romanos iniciassem uma balbúrdia. Corriam para todos os lados, aos gritos, lanças e espadas empunhadas. Puseram os sabinos pra correr e raptaram as sabinas.

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Plutarco era romanófilo. Justifica a gafe (eufemismo!) dos romanos com desculpas esfarrapadas:

Começa afirmando que foram raptadas apenas 30 sabinas, cujos nomes foram dados às 30 linhagens do povo Romano. Diz que Rômulo pegou apenas uma para si. Casou-se com ela para demonstrar que não teve intenção de injuriar os vizinhos. Que o rapto não era para satisfazer nenhum desordenado apetite, mas para conjugar os dois povos entre si com os mais estreitos laços existentes entre os homens. Por fim menciona, en passant, estatísticas comprometedoras: foram raptadas entre 527 e 783 mulheres.

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O rapto gerou o costume ocidental (que a gente só vê em filme) de o noivo atravessar pela primeira vez a porta da casa carregando a noiva no colo. O gesto seria um simulacro do rapto ancestral.



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

pequenos assassinatos (*)


Passo o dia inteiro na rua.

Chego em casa à noite. O cão só falta ter um piripaque de felicidade. Nem sinal da gata.

Fervo água para o chá. Como os restos da geladeira com pão de abóbora. Tomo banho. Procuro a gata no quintal. Nem sombra. Vou trabalhar.

Cena 1:

O chão do escritório forrado de algo que não consegui identificar. Penugens e penas cinzentas. Muitas. Sobre a cadeira a cena hitchcockiana: um pardal. Depenado e estripado, vísceras expostas, ainda mole. Na prateleira mais alta, sobre os Caldas Aulete, cintilam os olhos amarelos, redondos da gata. Observando a minha reação.

Retribuo o olhar. Pura censura e reprovação. Enquanto eu recolho o cadáver e as provas do crime ela desaparece.

Cena 2:

Silêncio sepulcral (adoro esse clichê) na casa. Só rompido pelo telecoteco do teclado. Meia hora depois vou buscar água. Quem eu vejo? a gata. Onde? na cozinha. Fazendo o quê? torturando uma microlagartixa. Já sem rabo e perninhas.

Travessura tem limite. Desconsidero tudo o que sei sobre compaixão, zoologia e psicologia dos animais domésticos. Incorporo o pior dos pedagogos. Dou um berro. Só não acerto a vassourada porque ela é mais esperta e se escafede pela área de serviço.

Cena 3:

Pra lá das 3 da manhã. Vou dormir. A gata na cama, miúda, linda, pura inocência e fofura, ressonando aninhada sobre o cobertor. Deito-me de lado, sem interromper-lhe os sonhos de futuros assassinatos.


(*) mesmo título do filme de Alan Arkin

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (intervalo 2)

(de: http://www.folhadoes.com)

Como foi dito no primeiro capítulo da minissérie, Plutarco menciona várias versões sobre a origem de Roma. A maioria trata os gêmeos Rômulo e Remo como história da carochinha. Dentre as mais plausíveis, Roma teria sido fundada por famílias dos derrotados da guerra de Troia: Uma vez salvos da espada, embarcaram em navios ocasionalmente encontrados no porto e foram lançados pelos ventos à costa da Toscana, onde puseram âncoras perto do rio Tibre.

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A visão de futuro das mulheres é incomparavelmente mais abrangente que a dos homens. As troianas estavam exaustas de navegar sem rumo, ao sabor dos ventos. O local onde estavam acampados, à margem do rio Tibre, era aprazível; a terra era fértil; os vizinhos eram dóceis e obsequiosos; os negócios prosperavam. Lugar perfeito para criar os filhos e os netos em paz, segurança e tranquilidade.

Elas ousaram. Arriscaram. Piraram de vez. Enquanto os maridos dormiam, atearam fogo aos navios.

Os maridos ficaram muito putos. Afinal, eram eles que mandavam. Afinal, como desbravariam terras desconhecidas, guerreariam, conquistariam povos, saqueariam tesouros e estuprariam as mulheres dos vencidos? Afinal, como descarregariam a testosterona? No cabo da enxada? na foice, no forcado, na sega do arado? Afinal, plantar e colher era coisa de mulherzinha ou de gente desqualificada. Afinal... Rapazes limitados aqueles troianos.

Então veio o golpe de mestre das moças. Adivinhem o que inventaram para sossegar os pobrezinhos maridos que se sentiam emasculados? As troianas mães do futuro império romano inventaram o beijo na boca. Sério. Plutarco confirma:

E dizem que daí começou o costume, que ainda hoje dura em Roma, de saudarem as mulheres seus parentes e maridos beijando-os na boca, porque então essas damas troianas saudavam e acariciavam os maridos, depois de lhes haverem queimado os navios, pedindo-lhes que acalmassem sua cólera e má disposição contra elas.