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sábado, 30 de março de 2013
s/t
hebdomadário - domingo
...
Desde as últimas horas do sábado, minuto a minuto eu espero o domingo acontecer. Então arrasto do sótão o o baú das fantasias e me visto de palhaço, de deus ou de odalisca, dependendo da posição dos astros ou do meu estado de humor. Ao amanhecer, e ainda disfarçado, eu percorro a rua distribuindo confetes, purpurina e milagres pelas caixas de correio, antes que a vizinhança acorde. Eu me afasto quando os cães ladram por detrás das grades ou quando o gato grande e branco surge, de repente, equilibrando-se sobre o muro. Espero o galo cantar três vezes para me recolher e tentar dormir até o sol raiar.
Quando acordo, sol já alto, já passou da hora da missa. Penso, quem sabe, em ligar a televisão ou aspirar o pó dos tapetes. Abro e fecho o livro de cabeceira, levanto-me para urinar e volto a dormir. Confirmando o previsível, e completados os seis dias da criação, eu dedico o sétimo dia ao descanso. Fico por ali, no quarto, entre a cama e a poltrona, sob as cobertas quando faz frio, ou pelado, coberto com a colcha de chenile no verão, vendo pela janela as lagartixas riscando rápidas o áspero do muro, os faisões dourados e os pavões brancos de mil olhos sobre a grama, o revoo dos pavorosos pássaros-roca contra o céu sem nuvens. Ouvindo o barulho, o grasnado das harpias devoradoras de vísceras humanas, os abutres da discórdia à espreita, o crepitar das fênix. Sentindo esvair-se, incontrolada, entre os dedos, gotas cada vez mais escassas da gosma espessa da existência.
Até o anoitecer e, de novo, a próxima segunda-feira.
Desde as últimas horas do sábado, minuto a minuto eu espero o domingo acontecer. Então arrasto do sótão o o baú das fantasias e me visto de palhaço, de deus ou de odalisca, dependendo da posição dos astros ou do meu estado de humor. Ao amanhecer, e ainda disfarçado, eu percorro a rua distribuindo confetes, purpurina e milagres pelas caixas de correio, antes que a vizinhança acorde. Eu me afasto quando os cães ladram por detrás das grades ou quando o gato grande e branco surge, de repente, equilibrando-se sobre o muro. Espero o galo cantar três vezes para me recolher e tentar dormir até o sol raiar.
Quando acordo, sol já alto, já passou da hora da missa. Penso, quem sabe, em ligar a televisão ou aspirar o pó dos tapetes. Abro e fecho o livro de cabeceira, levanto-me para urinar e volto a dormir. Confirmando o previsível, e completados os seis dias da criação, eu dedico o sétimo dia ao descanso. Fico por ali, no quarto, entre a cama e a poltrona, sob as cobertas quando faz frio, ou pelado, coberto com a colcha de chenile no verão, vendo pela janela as lagartixas riscando rápidas o áspero do muro, os faisões dourados e os pavões brancos de mil olhos sobre a grama, o revoo dos pavorosos pássaros-roca contra o céu sem nuvens. Ouvindo o barulho, o grasnado das harpias devoradoras de vísceras humanas, os abutres da discórdia à espreita, o crepitar das fênix. Sentindo esvair-se, incontrolada, entre os dedos, gotas cada vez mais escassas da gosma espessa da existência.
Até o anoitecer e, de novo, a próxima segunda-feira.
sexta-feira, 29 de março de 2013
hebdomadário - sexta-feira e sábado
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Sexta-feira eu não estou para ninguém. Não atendo telefone, não respondo mensagens, não abro a porta para o carteiro ou para o funcionário da companhia de eletricidade. Não leio o jornal nem assisto televisão. É o dia de aplicar rodelas de pepino nas olheiras, lixar as unhas, escovar a língua, clarear as gengivas com limão e gengibre e aparar o excesso de pêlos do nariz e das sobrancelhas. Preparo salada de pétalas, fatias de carne fria temperada e arroz negro para o jantar. Retiro da cristaleira a louça e as taças que pertenceram à vovó e os talheres de prata comprados na Sears Roebuck. Resfrio o vinho moscatel e pingo uma gota de água de rosas na jarra de água gelada. Para esperar o grande amor que ainda não veio, mas, tenho certeza, tocará a campainha qualquer dia desses.
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Sábado eu acordo cedo. Frustrado por não ter vindo, ontem, o grande amor. A cabeça estourando por causa do vinho doce e dos cigarros fumados depois do jantar. Ávido para colocar a conversa em dia. Telefono para a amiga com nome de flor e para a amiga com nome de erva aromática mas nenhuma atende àquela hora da manhã. Vou ao mercado com chapéu e óculos escuros. Preencho o carrinho com sorvete e bobagenzinhas para passar o tempo. Guardo tudo na geladeira e me espicho na espreguiçadeira, lendo Dostoievski, ouvindo música clássica ou eletroacústica e observando, de rabo-de-olho, a perfeição dos traços do rosto e do corpo torneado e bronzeado do limpador da piscina. Durmo em meio a pesadelos lúbricos e acordo lá pelas 2, morto de fome e com os ombros em carne viva pelo excesso de sol.
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Sexta-feira eu não estou para ninguém. Não atendo telefone, não respondo mensagens, não abro a porta para o carteiro ou para o funcionário da companhia de eletricidade. Não leio o jornal nem assisto televisão. É o dia de aplicar rodelas de pepino nas olheiras, lixar as unhas, escovar a língua, clarear as gengivas com limão e gengibre e aparar o excesso de pêlos do nariz e das sobrancelhas. Preparo salada de pétalas, fatias de carne fria temperada e arroz negro para o jantar. Retiro da cristaleira a louça e as taças que pertenceram à vovó e os talheres de prata comprados na Sears Roebuck. Resfrio o vinho moscatel e pingo uma gota de água de rosas na jarra de água gelada. Para esperar o grande amor que ainda não veio, mas, tenho certeza, tocará a campainha qualquer dia desses.
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Sábado eu acordo cedo. Frustrado por não ter vindo, ontem, o grande amor. A cabeça estourando por causa do vinho doce e dos cigarros fumados depois do jantar. Ávido para colocar a conversa em dia. Telefono para a amiga com nome de flor e para a amiga com nome de erva aromática mas nenhuma atende àquela hora da manhã. Vou ao mercado com chapéu e óculos escuros. Preencho o carrinho com sorvete e bobagenzinhas para passar o tempo. Guardo tudo na geladeira e me espicho na espreguiçadeira, lendo Dostoievski, ouvindo música clássica ou eletroacústica e observando, de rabo-de-olho, a perfeição dos traços do rosto e do corpo torneado e bronzeado do limpador da piscina. Durmo em meio a pesadelos lúbricos e acordo lá pelas 2, morto de fome e com os ombros em carne viva pelo excesso de sol.
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quarta-feira, 27 de março de 2013
hebdomadário - quarta e quinta-feira
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Quarta-feira eu me atualizo na internet. Pesquiso sobre o novo papa, a morte do caudilho, o avanço da ala conservadora e do lixo não reciclável. Parabenizo, via e-mail, aniversariantes do dia. Divulgo eventos culturais, campanhas solidárias e piadas de gosto duvidoso. Adquiro bens supérfluos via cartão de crédito. Busco amigos incomunicáveis. Leio sobre morte e transformação, etc, (como no texto da segunda-feira). Tento contactar inteligências alienígenas. Procuro corpos de puro desejo, luxúria e êxtase pervertido para satisfazer a minha sofreguidão.
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Quinta-feira é o dia de me redimir. Tomo um copo d'água em jejum e como apenas uma fruta amarela no desjejum. Troco a água-com-açúcar dos bebedouros dos beija-flores antes de limpar as cinzas de incenso do templo dos antepassados. Lavo as contas e me banho com sal grosso e água de pétalas de rosas. Leio versículos dos livros sagrados em geral e pronuncio mantras em voz baixa. Evito carne vermelha no almoço e faço voto de silêncio até o entardecer. Quando assisto ao sol se pôr ou ao nascer da lua sentado em posição de lótus, diante da claraboia do sótão.
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Quarta-feira eu me atualizo na internet. Pesquiso sobre o novo papa, a morte do caudilho, o avanço da ala conservadora e do lixo não reciclável. Parabenizo, via e-mail, aniversariantes do dia. Divulgo eventos culturais, campanhas solidárias e piadas de gosto duvidoso. Adquiro bens supérfluos via cartão de crédito. Busco amigos incomunicáveis. Leio sobre morte e transformação, etc, (como no texto da segunda-feira). Tento contactar inteligências alienígenas. Procuro corpos de puro desejo, luxúria e êxtase pervertido para satisfazer a minha sofreguidão.
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Quinta-feira é o dia de me redimir. Tomo um copo d'água em jejum e como apenas uma fruta amarela no desjejum. Troco a água-com-açúcar dos bebedouros dos beija-flores antes de limpar as cinzas de incenso do templo dos antepassados. Lavo as contas e me banho com sal grosso e água de pétalas de rosas. Leio versículos dos livros sagrados em geral e pronuncio mantras em voz baixa. Evito carne vermelha no almoço e faço voto de silêncio até o entardecer. Quando assisto ao sol se pôr ou ao nascer da lua sentado em posição de lótus, diante da claraboia do sótão.
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terça-feira, 26 de março de 2013
hebdomadário - segunda e terça-feira
Segunda-feira eu leio sobre morte e transformação; sobre novos gêneros, novos sexos, novos
parâmetros, novas orientações; sobre ética e estética contemporâneas e política do
mundo antigo. Folheio imagens exóticas: animais das profundezas
oceânicas, anatomia das vísceras, paisagens sublulnares, retratos de
homens ilustres, desenhos de orquídeas, insetos e ursos polares.
Ouço música de vários gêneros e vejo filmes cult & trash fora do circuito.
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Terça-feira eu pulverizo formicida debaixo da pia da cozinha. Espalho adubo orgânico aos pés das árvores frutíferas e fertilizantes químicos nos arbustos e touceiras ornamentais. Arranco ervas daninhas do gramado. Podo as roseiras na lua nova, retiro as folhas e as flores secas das angélicas, umedeço as orquídeas, replanto as bromélias e as suculentas próximas ao mandacaru, no fundo do quintal. Redireciono os brotos das trepadeiras boas e arranco as espinhentas da cerca-viva, com cuidado para não atingir os ninhos escondidos nem furar as pontas dos dedos ou os olhos.
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Terça-feira eu pulverizo formicida debaixo da pia da cozinha. Espalho adubo orgânico aos pés das árvores frutíferas e fertilizantes químicos nos arbustos e touceiras ornamentais. Arranco ervas daninhas do gramado. Podo as roseiras na lua nova, retiro as folhas e as flores secas das angélicas, umedeço as orquídeas, replanto as bromélias e as suculentas próximas ao mandacaru, no fundo do quintal. Redireciono os brotos das trepadeiras boas e arranco as espinhentas da cerca-viva, com cuidado para não atingir os ninhos escondidos nem furar as pontas dos dedos ou os olhos.
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segunda-feira, 25 de março de 2013
fim-de-semana
1. música
Ouço, sem parar, a nova, estranha, compenetrada, contida, densa, atonal, técnica, orgânica, visceral e às vezes saudosista Gal Costa. Tão diferente dos agudos de outras épocas. Senhora mergulhada na contemporaneidade, renovada, sem perder a paixão, o romântico, o ardente, a quase-breguice que fez dela única. Apaixonante, sempre. Cada vez mais diva.
2. projetos
Final de semana de embate interior: entre tentar me concentrar nos objetos-objetivos dos novos projetos - e não fazer nada, descansar, acumular energia para realizá-los. Hora após hora, atravessando as 3 noites, e nada materializado no domingo à noite. Só um cansaço desproporcionado, provocado pela inércia e ao mesmo tempo ânsia de realização.
3. Chuva de diamantes
Eu me arrasto até o shopping sem um pingo de vontade, no meio da tarde de sábado. Para almoçar e comprar o presente de aniversário da sobrinha. No caminho eu ligo o rádio (MEC AM) e uma valsa invade o carro. Daquelas empolgantes, longas, repletas de timbres, intensidades texturas e harmonias ricas. Daquelas que a gente fecha os olhos e se transporta no tempo, espaço, existência. Daquelas que melhoram o ânimo, elevam o estado de espírito.
Estaciono. Espero a música acabar. Saio do carro. Outro eu. Encharcado da felicidade dos fragmentos brilhantes da valsa nos meus poros.
(Pluie de diamants, valsa opus 160, Emile Waldteufel, 1879. Ouça aqui:)
Ouço, sem parar, a nova, estranha, compenetrada, contida, densa, atonal, técnica, orgânica, visceral e às vezes saudosista Gal Costa. Tão diferente dos agudos de outras épocas. Senhora mergulhada na contemporaneidade, renovada, sem perder a paixão, o romântico, o ardente, a quase-breguice que fez dela única. Apaixonante, sempre. Cada vez mais diva.
2. projetos
Final de semana de embate interior: entre tentar me concentrar nos objetos-objetivos dos novos projetos - e não fazer nada, descansar, acumular energia para realizá-los. Hora após hora, atravessando as 3 noites, e nada materializado no domingo à noite. Só um cansaço desproporcionado, provocado pela inércia e ao mesmo tempo ânsia de realização.
3. Chuva de diamantes
Eu me arrasto até o shopping sem um pingo de vontade, no meio da tarde de sábado. Para almoçar e comprar o presente de aniversário da sobrinha. No caminho eu ligo o rádio (MEC AM) e uma valsa invade o carro. Daquelas empolgantes, longas, repletas de timbres, intensidades texturas e harmonias ricas. Daquelas que a gente fecha os olhos e se transporta no tempo, espaço, existência. Daquelas que melhoram o ânimo, elevam o estado de espírito.
Estaciono. Espero a música acabar. Saio do carro. Outro eu. Encharcado da felicidade dos fragmentos brilhantes da valsa nos meus poros.
(Pluie de diamants, valsa opus 160, Emile Waldteufel, 1879. Ouça aqui:)
sábado, 23 de março de 2013
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