Ela nasceu em berço de ouro. Presenteada por um príncipe da Pérsia. Filha de pai e mãe com pedigree e árvore genealógica remontante ao medievo. Raça pura, tipicamente caseira, cor rara, nome e sobrenome de socialaite, a mais linda da ninhada.
Ou seja, tinha tudo para ser uma gata très chic, peluda, macia, de companhia, daquelas preguiçosas que se arqueiam em câmera lenta, roçam e se entrelaçam nas pernas do dono, ronronando, manhosas. Daquelas dormem no colo, na poltrona ao lado ou aos pés, sobre o tapete do escritório, enquanto o dono lê ou escreve. Uma gata delicada, que gostasse de carinho e cafuné. Enfim, uma gata de artista.
No entanto, inexplicavelmente, como se diz em Portugal, ela deu para o torto. Nunca vi gata mais tosca.
Arredia ao extremo. Só aceita carinho na hora de comer, e olhe lá. Quando eu consigo pegá-la desprevenida, ela se liberta à unha. Sacode o pêlo, com asco da carícia indesejada. Nunca atende quando eu a chamo. Sempre um graveto, uma folha seca grudada no pêlo, um tufo emaranhado. Escovar? Pago os pecados, ascendo ao menos a um degrau do karma a cada tentativa.
Rejeita a água colocada em seu próprio vasilhame de inox para beber a água babada do cão. Não dá a mínima para o arranhador, para os brinquedos, as bolinhas, os guizos. Só pula para a minha cama de madrugada, e se enrosca bem afastada, o mais longe possível, para estar próxima e ao mesmo tempo protegida de qualquer contato.
Ao invés do tapete do escritório, o território dela é o quintal e o telhado. Passa a manhã inteira emaranhada nas moitas, camuflada nas touceiras, tocaiando pássaros. Também à noite, tentando deslocar as telhas para alcançar os morcegos. É raro o dia que não me presenteia com um pardal, um bem-te-vi, um joão-de-barro, um anu dos grandes ou um beija-flor. Também lagartixas, baratas, besouros e muitas mariposas.
Às vezes, muito raro, ela fica carente. Me segue pra todo lado, me olha com o olhar mais sapeca e inocente do mundo. Propõe brincadeiras, deita-se de barriga pra cima, facilita ser pegada. Aí eu dou o troco. Finjo que não vejo. Passo batido, ao lado dela, sem dar bola. Então ela fica à espreita, disfarçando, sem-graça, rabo-de-olho.
É óbvio que eu não resisto, o carente-mor. Pego a bichinha no colo, afio as unhas no tapete com ela, entro debaixo da mesa, puxo-a pelo rabo, corro atrás da bolinha de papel, aperto-a no colo, seguro pelo pescoço, coço-lhe os ouvidos, os bigodes, deixo-a me lamber e mordiscar os dedos. Uma farra total.
Que não dura nem 5 minutos. Pois cai a ficha dela. E ela retoma a fleuma, a adultice, a independência e a superioridade. Geralmente com uma unhada mais incisiva. Abandona a brincadeira, como se tivesse sido um lapso, um ato falho freudiano. Como se nunca tivesse acontecido. E nunca fosse acontecer de novo.
Imagina minha cara de tacho.
Mas se não fosse assim talvez eu não gostasse tanto. Não seria ela um espelho do dono?
terça-feira, 2 de abril de 2013
segunda-feira, 1 de abril de 2013
cinema domiciliar
Passei o domingo diante da tela. Pausando as tarefas, os projetos, as responsabilidades. Permitindo-me a entrega à sensação e à emoção. Enfrentando a culpa injustificada pelo ócio, pela vagabundagem, pelo fazer nada, o laissez-faire.
Vendo filmes. Entre soluços descontrolados, crítica ao mesmo tempo política e emotiva, atenção média ou tédio avassalador. Entre surpresas (o filme mais incrível dos últimos tempos) e decepções (qual a razão daquilo ter-se tornado clássico?).
Antes do almoço foi a vez do Beasts of the southern wild (Indomável sonhadora, em tradução equivocada e comercial). Independentemente da crítica (uso e abuso de temática infantil). Beasts..., é grandioso. Imagens pré-apocalípticas, futuristas, contundentes, surreais, tão poéticas e políticas. Texto e subtexto essencial (literatura sulista de Faulkner, Flannery O'Connor, Alice Walker, etc), iterpretação irrepreensível da menina, do pai, das crtianças, dos demais coadjuvantes. Uma América, americanos aos quais nunca antes eu tinha visto ou estava acostumado. Êxtase (e choro) durante quase todas as cenas.
...
Depois de ver o Beasts..., convenhamos, leitor, a gente fica exigente.
...
Em seguida, a produção nacional-global Gonzaga, de pai para filho (Breno Silveira, 2011), sobre a vida do rei do baião Luiz Gonzaga e de seu filho Gonzaguinha. Filme bem-feito, bem dirigido, com atuações surpreendentes (e arrancadoras de lágrimas furtivas) de Chambinho do Acordeão (Nivaldo da Costa Filho), como Luiz Gonzaga jovem, Adélio Lima (Gonzaga velho) e o convincente Júlio Andrade (como Gonzaguinha. Apesar do formato televisivo, do final teledramático, de apelo popular previsível das produções globais, o filme é delicado e arrebatador.
...
Depois do almoço e do cochilo foi a vez do clássico requentado À boute de souffle (Acossado, Jean Luc Godard, 1959). Li na Wikipedia: Foi o primeiro filme de Godard. Foi rodado em poucas semanas. Aproveitou-se dos imporovisos e da espontaneidade e talento dos atores e da beleza das locações em uma Paris de cartão postal. Jean Seberg faz a linda e charmosa mocinha americana controversa; o gostosão (que boca, que pernas!) Jean-Paul Belmondo faz o anti-herói. O filme me fez constatar que a nouvelle vague é chata. Para aguentar até o final insosso, só intercalando o joguinho no celular e as atualizações nas redes sociais.
...
Intervalo: a gata trouxe na boca, aos meus pés, um pardal. Ao qual consegui salvar sem anular o brio da conquista da bichana.
...
Por fim, o filme dinamarquês concorrente ao Oscar O amante da rainha (Nicolaj Arcel, 2012). Baseado em fatos históricos. Figurino e cenários impecáveis. Mas roteiro previsível. Que me perdoem a ignorância (ou prepoência), mas o filme é muito clichê. Desde a caracterização dos personagens (o rei louco, a rainha progressista, a madrasta má, as artimanhas da corte, o amante, entre idealista e oportunista) ao roteiro previsível e entediante do meio para o final - à canastrice (proposital no Acossados do bloco anterior, mas deslocada aqui). Contemporaneidade forçada, entretenimento.
...
O cão sonha e ronca. A gata dorme entre as toalhas, no banheiro. Para concluir a páscoa cinematográfica experimentarei o trash nacional A fuga da mulher-gorila (Felipe Bragança e Marina Meliande), o cult político Hunger (Steve McQueen) ou quem sabe, um drama-comédia gls bem alienado, que me anestesie ou desencave novas lágrimas, soluços ou excitamentos durante as poucas horas entre o fim do domingo e as primeiras horas da segunda-feira.
Vendo filmes. Entre soluços descontrolados, crítica ao mesmo tempo política e emotiva, atenção média ou tédio avassalador. Entre surpresas (o filme mais incrível dos últimos tempos) e decepções (qual a razão daquilo ter-se tornado clássico?).
Antes do almoço foi a vez do Beasts of the southern wild (Indomável sonhadora, em tradução equivocada e comercial). Independentemente da crítica (uso e abuso de temática infantil). Beasts..., é grandioso. Imagens pré-apocalípticas, futuristas, contundentes, surreais, tão poéticas e políticas. Texto e subtexto essencial (literatura sulista de Faulkner, Flannery O'Connor, Alice Walker, etc), iterpretação irrepreensível da menina, do pai, das crtianças, dos demais coadjuvantes. Uma América, americanos aos quais nunca antes eu tinha visto ou estava acostumado. Êxtase (e choro) durante quase todas as cenas.
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Depois de ver o Beasts..., convenhamos, leitor, a gente fica exigente.
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Em seguida, a produção nacional-global Gonzaga, de pai para filho (Breno Silveira, 2011), sobre a vida do rei do baião Luiz Gonzaga e de seu filho Gonzaguinha. Filme bem-feito, bem dirigido, com atuações surpreendentes (e arrancadoras de lágrimas furtivas) de Chambinho do Acordeão (Nivaldo da Costa Filho), como Luiz Gonzaga jovem, Adélio Lima (Gonzaga velho) e o convincente Júlio Andrade (como Gonzaguinha. Apesar do formato televisivo, do final teledramático, de apelo popular previsível das produções globais, o filme é delicado e arrebatador.
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Depois do almoço e do cochilo foi a vez do clássico requentado À boute de souffle (Acossado, Jean Luc Godard, 1959). Li na Wikipedia: Foi o primeiro filme de Godard. Foi rodado em poucas semanas. Aproveitou-se dos imporovisos e da espontaneidade e talento dos atores e da beleza das locações em uma Paris de cartão postal. Jean Seberg faz a linda e charmosa mocinha americana controversa; o gostosão (que boca, que pernas!) Jean-Paul Belmondo faz o anti-herói. O filme me fez constatar que a nouvelle vague é chata. Para aguentar até o final insosso, só intercalando o joguinho no celular e as atualizações nas redes sociais.
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Intervalo: a gata trouxe na boca, aos meus pés, um pardal. Ao qual consegui salvar sem anular o brio da conquista da bichana.
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Por fim, o filme dinamarquês concorrente ao Oscar O amante da rainha (Nicolaj Arcel, 2012). Baseado em fatos históricos. Figurino e cenários impecáveis. Mas roteiro previsível. Que me perdoem a ignorância (ou prepoência), mas o filme é muito clichê. Desde a caracterização dos personagens (o rei louco, a rainha progressista, a madrasta má, as artimanhas da corte, o amante, entre idealista e oportunista) ao roteiro previsível e entediante do meio para o final - à canastrice (proposital no Acossados do bloco anterior, mas deslocada aqui). Contemporaneidade forçada, entretenimento.
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O cão sonha e ronca. A gata dorme entre as toalhas, no banheiro. Para concluir a páscoa cinematográfica experimentarei o trash nacional A fuga da mulher-gorila (Felipe Bragança e Marina Meliande), o cult político Hunger (Steve McQueen) ou quem sabe, um drama-comédia gls bem alienado, que me anestesie ou desencave novas lágrimas, soluços ou excitamentos durante as poucas horas entre o fim do domingo e as primeiras horas da segunda-feira.
sábado, 30 de março de 2013
s/t
hebdomadário - domingo
...
Desde as últimas horas do sábado, minuto a minuto eu espero o domingo acontecer. Então arrasto do sótão o o baú das fantasias e me visto de palhaço, de deus ou de odalisca, dependendo da posição dos astros ou do meu estado de humor. Ao amanhecer, e ainda disfarçado, eu percorro a rua distribuindo confetes, purpurina e milagres pelas caixas de correio, antes que a vizinhança acorde. Eu me afasto quando os cães ladram por detrás das grades ou quando o gato grande e branco surge, de repente, equilibrando-se sobre o muro. Espero o galo cantar três vezes para me recolher e tentar dormir até o sol raiar.
Quando acordo, sol já alto, já passou da hora da missa. Penso, quem sabe, em ligar a televisão ou aspirar o pó dos tapetes. Abro e fecho o livro de cabeceira, levanto-me para urinar e volto a dormir. Confirmando o previsível, e completados os seis dias da criação, eu dedico o sétimo dia ao descanso. Fico por ali, no quarto, entre a cama e a poltrona, sob as cobertas quando faz frio, ou pelado, coberto com a colcha de chenile no verão, vendo pela janela as lagartixas riscando rápidas o áspero do muro, os faisões dourados e os pavões brancos de mil olhos sobre a grama, o revoo dos pavorosos pássaros-roca contra o céu sem nuvens. Ouvindo o barulho, o grasnado das harpias devoradoras de vísceras humanas, os abutres da discórdia à espreita, o crepitar das fênix. Sentindo esvair-se, incontrolada, entre os dedos, gotas cada vez mais escassas da gosma espessa da existência.
Até o anoitecer e, de novo, a próxima segunda-feira.
Desde as últimas horas do sábado, minuto a minuto eu espero o domingo acontecer. Então arrasto do sótão o o baú das fantasias e me visto de palhaço, de deus ou de odalisca, dependendo da posição dos astros ou do meu estado de humor. Ao amanhecer, e ainda disfarçado, eu percorro a rua distribuindo confetes, purpurina e milagres pelas caixas de correio, antes que a vizinhança acorde. Eu me afasto quando os cães ladram por detrás das grades ou quando o gato grande e branco surge, de repente, equilibrando-se sobre o muro. Espero o galo cantar três vezes para me recolher e tentar dormir até o sol raiar.
Quando acordo, sol já alto, já passou da hora da missa. Penso, quem sabe, em ligar a televisão ou aspirar o pó dos tapetes. Abro e fecho o livro de cabeceira, levanto-me para urinar e volto a dormir. Confirmando o previsível, e completados os seis dias da criação, eu dedico o sétimo dia ao descanso. Fico por ali, no quarto, entre a cama e a poltrona, sob as cobertas quando faz frio, ou pelado, coberto com a colcha de chenile no verão, vendo pela janela as lagartixas riscando rápidas o áspero do muro, os faisões dourados e os pavões brancos de mil olhos sobre a grama, o revoo dos pavorosos pássaros-roca contra o céu sem nuvens. Ouvindo o barulho, o grasnado das harpias devoradoras de vísceras humanas, os abutres da discórdia à espreita, o crepitar das fênix. Sentindo esvair-se, incontrolada, entre os dedos, gotas cada vez mais escassas da gosma espessa da existência.
Até o anoitecer e, de novo, a próxima segunda-feira.
sexta-feira, 29 de março de 2013
hebdomadário - sexta-feira e sábado
...
Sexta-feira eu não estou para ninguém. Não atendo telefone, não respondo mensagens, não abro a porta para o carteiro ou para o funcionário da companhia de eletricidade. Não leio o jornal nem assisto televisão. É o dia de aplicar rodelas de pepino nas olheiras, lixar as unhas, escovar a língua, clarear as gengivas com limão e gengibre e aparar o excesso de pêlos do nariz e das sobrancelhas. Preparo salada de pétalas, fatias de carne fria temperada e arroz negro para o jantar. Retiro da cristaleira a louça e as taças que pertenceram à vovó e os talheres de prata comprados na Sears Roebuck. Resfrio o vinho moscatel e pingo uma gota de água de rosas na jarra de água gelada. Para esperar o grande amor que ainda não veio, mas, tenho certeza, tocará a campainha qualquer dia desses.
...
Sábado eu acordo cedo. Frustrado por não ter vindo, ontem, o grande amor. A cabeça estourando por causa do vinho doce e dos cigarros fumados depois do jantar. Ávido para colocar a conversa em dia. Telefono para a amiga com nome de flor e para a amiga com nome de erva aromática mas nenhuma atende àquela hora da manhã. Vou ao mercado com chapéu e óculos escuros. Preencho o carrinho com sorvete e bobagenzinhas para passar o tempo. Guardo tudo na geladeira e me espicho na espreguiçadeira, lendo Dostoievski, ouvindo música clássica ou eletroacústica e observando, de rabo-de-olho, a perfeição dos traços do rosto e do corpo torneado e bronzeado do limpador da piscina. Durmo em meio a pesadelos lúbricos e acordo lá pelas 2, morto de fome e com os ombros em carne viva pelo excesso de sol.
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Sexta-feira eu não estou para ninguém. Não atendo telefone, não respondo mensagens, não abro a porta para o carteiro ou para o funcionário da companhia de eletricidade. Não leio o jornal nem assisto televisão. É o dia de aplicar rodelas de pepino nas olheiras, lixar as unhas, escovar a língua, clarear as gengivas com limão e gengibre e aparar o excesso de pêlos do nariz e das sobrancelhas. Preparo salada de pétalas, fatias de carne fria temperada e arroz negro para o jantar. Retiro da cristaleira a louça e as taças que pertenceram à vovó e os talheres de prata comprados na Sears Roebuck. Resfrio o vinho moscatel e pingo uma gota de água de rosas na jarra de água gelada. Para esperar o grande amor que ainda não veio, mas, tenho certeza, tocará a campainha qualquer dia desses.
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Sábado eu acordo cedo. Frustrado por não ter vindo, ontem, o grande amor. A cabeça estourando por causa do vinho doce e dos cigarros fumados depois do jantar. Ávido para colocar a conversa em dia. Telefono para a amiga com nome de flor e para a amiga com nome de erva aromática mas nenhuma atende àquela hora da manhã. Vou ao mercado com chapéu e óculos escuros. Preencho o carrinho com sorvete e bobagenzinhas para passar o tempo. Guardo tudo na geladeira e me espicho na espreguiçadeira, lendo Dostoievski, ouvindo música clássica ou eletroacústica e observando, de rabo-de-olho, a perfeição dos traços do rosto e do corpo torneado e bronzeado do limpador da piscina. Durmo em meio a pesadelos lúbricos e acordo lá pelas 2, morto de fome e com os ombros em carne viva pelo excesso de sol.
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quarta-feira, 27 de março de 2013
hebdomadário - quarta e quinta-feira
...
Quarta-feira eu me atualizo na internet. Pesquiso sobre o novo papa, a morte do caudilho, o avanço da ala conservadora e do lixo não reciclável. Parabenizo, via e-mail, aniversariantes do dia. Divulgo eventos culturais, campanhas solidárias e piadas de gosto duvidoso. Adquiro bens supérfluos via cartão de crédito. Busco amigos incomunicáveis. Leio sobre morte e transformação, etc, (como no texto da segunda-feira). Tento contactar inteligências alienígenas. Procuro corpos de puro desejo, luxúria e êxtase pervertido para satisfazer a minha sofreguidão.
...
Quinta-feira é o dia de me redimir. Tomo um copo d'água em jejum e como apenas uma fruta amarela no desjejum. Troco a água-com-açúcar dos bebedouros dos beija-flores antes de limpar as cinzas de incenso do templo dos antepassados. Lavo as contas e me banho com sal grosso e água de pétalas de rosas. Leio versículos dos livros sagrados em geral e pronuncio mantras em voz baixa. Evito carne vermelha no almoço e faço voto de silêncio até o entardecer. Quando assisto ao sol se pôr ou ao nascer da lua sentado em posição de lótus, diante da claraboia do sótão.
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Quarta-feira eu me atualizo na internet. Pesquiso sobre o novo papa, a morte do caudilho, o avanço da ala conservadora e do lixo não reciclável. Parabenizo, via e-mail, aniversariantes do dia. Divulgo eventos culturais, campanhas solidárias e piadas de gosto duvidoso. Adquiro bens supérfluos via cartão de crédito. Busco amigos incomunicáveis. Leio sobre morte e transformação, etc, (como no texto da segunda-feira). Tento contactar inteligências alienígenas. Procuro corpos de puro desejo, luxúria e êxtase pervertido para satisfazer a minha sofreguidão.
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Quinta-feira é o dia de me redimir. Tomo um copo d'água em jejum e como apenas uma fruta amarela no desjejum. Troco a água-com-açúcar dos bebedouros dos beija-flores antes de limpar as cinzas de incenso do templo dos antepassados. Lavo as contas e me banho com sal grosso e água de pétalas de rosas. Leio versículos dos livros sagrados em geral e pronuncio mantras em voz baixa. Evito carne vermelha no almoço e faço voto de silêncio até o entardecer. Quando assisto ao sol se pôr ou ao nascer da lua sentado em posição de lótus, diante da claraboia do sótão.
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terça-feira, 26 de março de 2013
hebdomadário - segunda e terça-feira
Segunda-feira eu leio sobre morte e transformação; sobre novos gêneros, novos sexos, novos
parâmetros, novas orientações; sobre ética e estética contemporâneas e política do
mundo antigo. Folheio imagens exóticas: animais das profundezas
oceânicas, anatomia das vísceras, paisagens sublulnares, retratos de
homens ilustres, desenhos de orquídeas, insetos e ursos polares.
Ouço música de vários gêneros e vejo filmes cult & trash fora do circuito.
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Terça-feira eu pulverizo formicida debaixo da pia da cozinha. Espalho adubo orgânico aos pés das árvores frutíferas e fertilizantes químicos nos arbustos e touceiras ornamentais. Arranco ervas daninhas do gramado. Podo as roseiras na lua nova, retiro as folhas e as flores secas das angélicas, umedeço as orquídeas, replanto as bromélias e as suculentas próximas ao mandacaru, no fundo do quintal. Redireciono os brotos das trepadeiras boas e arranco as espinhentas da cerca-viva, com cuidado para não atingir os ninhos escondidos nem furar as pontas dos dedos ou os olhos.
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Terça-feira eu pulverizo formicida debaixo da pia da cozinha. Espalho adubo orgânico aos pés das árvores frutíferas e fertilizantes químicos nos arbustos e touceiras ornamentais. Arranco ervas daninhas do gramado. Podo as roseiras na lua nova, retiro as folhas e as flores secas das angélicas, umedeço as orquídeas, replanto as bromélias e as suculentas próximas ao mandacaru, no fundo do quintal. Redireciono os brotos das trepadeiras boas e arranco as espinhentas da cerca-viva, com cuidado para não atingir os ninhos escondidos nem furar as pontas dos dedos ou os olhos.
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