A brincadeira da gata pular a janela acabou de maneira traumática. Há algumas noites ela subiu na mesa, caminhou pelo teclado, pulou a janela, deu a volta pela casa, como sempre faz, 2 vezes seguidas.
Na terceira vez ouvi aquele barulho peculiar de briga de gatos.
O gatão branco, manso e espaçoso, andarilho das redondezas, estava escondido na moita de gravatás. Zildinha não viu e pulou bem na direção dele. Então ele apareceu na frente dela, gaiato - surpresa! convidando para brincar. Ela quase morreu de susto. Zuniu feito um corisco em volta da casa, entrou no escritório e pulou para trás dos livros. Passou o resto da noite escondida lá.
Agora, quando eu escancaro a janela, ela olha de longe, fareja o ar com o focinho de veludo, dá a volta e se aninha atrás da porta, o mais afastada possível de outro possível sobressalto.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
quarta-feira, 17 de abril de 2013
avós (8) - errata
Retifico dois trechos do texto anterior. O primeiro, por justiça à memória das personagens. O segundo, por pura retórica:
1. Sobre os bisavós Pai-Totó e Mariquinha: onde se lê: "Encarnavam o arquétipo do casal de caipiras nos filmes de Mazzaropi", leia-se: "Transitavam entre o arquétipo dos veredeiros das histórias de Guimarães Rosa e o estereótipo de caipiras nos filmes de Mazzaropi".
2. Sobre a manta de linho bordada por bisavó Mariquinha: onde se lê: "Tenho até hoje uma manta de linho, com bainha em em bico de renda, bordada por bisavó Mariquinha, para ser usada no meu batizado", leia-se: "Tenho até hoje uma manta de linho, com bainha em em bico de renda, bordada por bisavó Mariquinha, para ser usada no meu batizado. Recentemente eu flagrei a faxineira enxugando a louça com ela. Pensou que era um pano de prato".
...
De agora em diante falarei de gente viva. Por isso deverei trocar nomes, omitir passagens, entortar fatos. Ludibriar o texto de forma a não expor certos acontecimentos. Transformar o cascalhoso do real em areia dourada de ficções.
1. Sobre os bisavós Pai-Totó e Mariquinha: onde se lê: "Encarnavam o arquétipo do casal de caipiras nos filmes de Mazzaropi", leia-se: "Transitavam entre o arquétipo dos veredeiros das histórias de Guimarães Rosa e o estereótipo de caipiras nos filmes de Mazzaropi".
2. Sobre a manta de linho bordada por bisavó Mariquinha: onde se lê: "Tenho até hoje uma manta de linho, com bainha em em bico de renda, bordada por bisavó Mariquinha, para ser usada no meu batizado", leia-se: "Tenho até hoje uma manta de linho, com bainha em em bico de renda, bordada por bisavó Mariquinha, para ser usada no meu batizado. Recentemente eu flagrei a faxineira enxugando a louça com ela. Pensou que era um pano de prato".
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De agora em diante falarei de gente viva. Por isso deverei trocar nomes, omitir passagens, entortar fatos. Ludibriar o texto de forma a não expor certos acontecimentos. Transformar o cascalhoso do real em areia dourada de ficções.
terça-feira, 16 de abril de 2013
avós (7)
Do lado paterno eu conheci 3 bisavós. E toda a parentada. Quando meu irmão caçula foi levado para ser batizado em uma cidade chamada Carneirinhos.
...
O bisavô João era filho do sinhô e da sinhá de escravos da história anterior. Era casado pela segunda vez com Dona Mariana, que não era minha bisavó, pois meu avô Olindo era o primogênito do primeiro casamento.
...
Reais ou projeções misturadas, não importa, as lembranças que tenho da bisavó Mariquinha e de bisavô Pai-Totó (pais de Mãetiana, minha avó paterna) são muito nítidas. Encarnavam o arquétipo do casal de caipiras nos filmes de Mazzaropi.
...
Moravam em uma casa grande, na roça. A casa foi construída de forma a acompanhar o aclive de um morro. Por isso, um lado era suspenso por pilares de madeira. No vão formado sob a casa dormiam porcos, cabritos, galinhas, cachorros sarnentos, máquinas agrícolas e uma bicicleta enferrujada. Foi onde peguei carrapatos e o meu primeiro bicho-de-pé.
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Tenho até hoje uma manta de linho, com bainha em em bico de renda, bordada por bisavó Mariquinha, para ser usada no meu batizado.
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O bisavô João era filho do sinhô e da sinhá de escravos da história anterior. Era casado pela segunda vez com Dona Mariana, que não era minha bisavó, pois meu avô Olindo era o primogênito do primeiro casamento.
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Reais ou projeções misturadas, não importa, as lembranças que tenho da bisavó Mariquinha e de bisavô Pai-Totó (pais de Mãetiana, minha avó paterna) são muito nítidas. Encarnavam o arquétipo do casal de caipiras nos filmes de Mazzaropi.
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Moravam em uma casa grande, na roça. A casa foi construída de forma a acompanhar o aclive de um morro. Por isso, um lado era suspenso por pilares de madeira. No vão formado sob a casa dormiam porcos, cabritos, galinhas, cachorros sarnentos, máquinas agrícolas e uma bicicleta enferrujada. Foi onde peguei carrapatos e o meu primeiro bicho-de-pé.
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Tenho até hoje uma manta de linho, com bainha em em bico de renda, bordada por bisavó Mariquinha, para ser usada no meu batizado.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
domingo, 14 de abril de 2013
avós (6)
Dependurado junto do avô Manoel de Beda, na sala pouco frequentada, até há uns anos atrás encontrava-se, também colorida e emoldurada em prata, a fotografia dos trisavós paternos. O trisavô de fraque e gravata-borboleta torta. A trisavó, um vestido preto, tipo corpete, a gola de renda branca fechada até o pescoço, mal desenhada. Defeitos certamente causados pela adulteração artística dos retoques.
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Contam que os trisavós eram ricos e poderosos. Donos de fazendas, mina de ouro e escravos. Contam que a mina de ouro ainda está lá, no sopé de alguma montanha em Minas Gerais, a boca lacrada e intocada, aguardando o desfecho de insolúveis pendengas inventariais que atravessam as gerações, os séculos, a história.
...
Contam que o trisavô era um sinhô mau, cruel, impiedoso e mulherengo. Teve casos e deve ter feito filhos em dezenas de escravas. Inclusive na mucama da trisavó.
A trisavó não ficava atrás no que se refere a ruindade. Vingativa e ciumenta, mandou o feitor furar os olhos da mucama.
...
Quando tio Aprígio (irmão do avô paterno Olindo) contou a história da trisavó a meu pai moribundo, ele, que tanto se orgulhava da ascendência, levantou-se da cama, foi até a sala e retirou o retrato da parede. Nem minha mãe sabe onde o retrato dos trisavós foi parar.
...
Dos trisavós paternos eu não herdei as fazendas, os escravos, a mina de ouro. Nem o sobrenome ou a soberba. Serei eu um descendente direto dos Marques ou trisneto torto de alguma bastardice?
...
Contam que os trisavós eram ricos e poderosos. Donos de fazendas, mina de ouro e escravos. Contam que a mina de ouro ainda está lá, no sopé de alguma montanha em Minas Gerais, a boca lacrada e intocada, aguardando o desfecho de insolúveis pendengas inventariais que atravessam as gerações, os séculos, a história.
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Contam que o trisavô era um sinhô mau, cruel, impiedoso e mulherengo. Teve casos e deve ter feito filhos em dezenas de escravas. Inclusive na mucama da trisavó.
A trisavó não ficava atrás no que se refere a ruindade. Vingativa e ciumenta, mandou o feitor furar os olhos da mucama.
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Quando tio Aprígio (irmão do avô paterno Olindo) contou a história da trisavó a meu pai moribundo, ele, que tanto se orgulhava da ascendência, levantou-se da cama, foi até a sala e retirou o retrato da parede. Nem minha mãe sabe onde o retrato dos trisavós foi parar.
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Dos trisavós paternos eu não herdei as fazendas, os escravos, a mina de ouro. Nem o sobrenome ou a soberba. Serei eu um descendente direto dos Marques ou trisneto torto de alguma bastardice?
terceiro e último desejo
Que venha lento como o orvalho. Que encha a alma de relâmpagos e tempestades. Que traga desertos grudados na pele e nos cabelos. Que seja doce e exótico e arrebate. Que resvale nos silêncios das palavras.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
gata
Agora a moda de Zildinha é subir na mesa do escritório, andar sobre o teclado do computador, armar o bote e saltar pela janela que dá para o jardim. Ontem, a janela estava fechada. Ela bateu a cara no vidro. Como nos desenhos-animados. Porém, a chique manteve a pose. Nenhum miado, nenhum pio, nenhum gemido. Disfarçou o vexame. Ficou parada, em pé sobre a mesa e apoiada no vidro. Simulando, sei lá, uma nova brincadeira. Fingiu que não ouviu a minha gargalhada. Desceu à francesa. Desapareceu.
De repente eu a vejo sobre o beiral, do lado de fora da janela ainda fechada. Olhando pra mim. Desafiadora. Só pra me mostrar que um reles vidro não é obstáculo para o ir-e-vir em seu reino-território.
De repente eu a vejo sobre o beiral, do lado de fora da janela ainda fechada. Olhando pra mim. Desafiadora. Só pra me mostrar que um reles vidro não é obstáculo para o ir-e-vir em seu reino-território.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
avós (5)
Do avô materno eu sei pouco. Era calado e nunca levantou a mão nem a voz para os filhos.
Conduzia o carro puxado por 2 parelhas de bois pelo sertão, viagens que duravam meses, levando arroz, milho, feijão e couro de Goiás e trazendo sal para as vacas, arame farpado para as cercas, tijolos de marmelada de Poços de Caldas e cortes de vestidos para a avó Maria de Beda e para as meninas. Apesar de bucólica, poética, idílica, a vida devia ser dura.
Só vi um retrato do avô Manoel, apelidado Beda. Foto antiga ampliada, retocada e colorida por outro Manoel, prenome Zé. Emoldurada em prata, dependurada em um canto de uma sala onde quase ninguém visita.
O olhar era do avô Beda era bovino de tão doce. Expressão secular de cansaço. Usava um bigode espesso, castanho, bem penteado. Além da testa alta encimada por topete estranho. Acredito que o exagero do bigode e a altura do topete não era uso do avô roceiro. Provavelmente foram os retoques artísticos ao retrato desbotado, feitos por Zé Manoel.
...
(Zé Manoel é fotógrafo e marido de tia Cleu, cujas histórias virão quando chegar a vez dos tios).
Conduzia o carro puxado por 2 parelhas de bois pelo sertão, viagens que duravam meses, levando arroz, milho, feijão e couro de Goiás e trazendo sal para as vacas, arame farpado para as cercas, tijolos de marmelada de Poços de Caldas e cortes de vestidos para a avó Maria de Beda e para as meninas. Apesar de bucólica, poética, idílica, a vida devia ser dura.
Só vi um retrato do avô Manoel, apelidado Beda. Foto antiga ampliada, retocada e colorida por outro Manoel, prenome Zé. Emoldurada em prata, dependurada em um canto de uma sala onde quase ninguém visita.
O olhar era do avô Beda era bovino de tão doce. Expressão secular de cansaço. Usava um bigode espesso, castanho, bem penteado. Além da testa alta encimada por topete estranho. Acredito que o exagero do bigode e a altura do topete não era uso do avô roceiro. Provavelmente foram os retoques artísticos ao retrato desbotado, feitos por Zé Manoel.
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(Zé Manoel é fotógrafo e marido de tia Cleu, cujas histórias virão quando chegar a vez dos tios).
quarta-feira, 10 de abril de 2013
avós (4)
(Esqueci de dizer: completava a vestimenta de Maria Preta uma saia comprida, muito desbotada, um casaquinho de lã puído e um forro de guarda-chuva que ela usava sobre os ombros, como estola. Daí talvez a imagem do morcego).
...
O nome verdadeiro de Maria Preta era Maria de Mônica. Mônica era a mãe escrava. O sinhô de Mônica era bom. Quando morreu, deixou no testamento a alforria, o lote e uns cobres para Mônica e as filhas. Os cobres eram poucos. O terreno valia quase nada. Por necessidade, elas foram vendendo frações. Até restar só o casebre e um quintalzinho, quase todo ocupado por um algodoeiro velho cujos galhos entravam pela janela.
...
Rosalina morreu uma morte horrível. Minha mãe conta: Maria Preta tinha ido à casa da avó Maria de Beda pedir emprestado uma xícara de arroz para fazer o almoço. De repente, ouvem os gritos. Rosalina foi tocar fogo em nas bananeiras no fundo do quintal, despejando o querosene da lamparina. O querosene derramou na roupa dela e o fogo se alastrou.
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O nome verdadeiro de Maria Preta era Maria de Mônica. Mônica era a mãe escrava. O sinhô de Mônica era bom. Quando morreu, deixou no testamento a alforria, o lote e uns cobres para Mônica e as filhas. Os cobres eram poucos. O terreno valia quase nada. Por necessidade, elas foram vendendo frações. Até restar só o casebre e um quintalzinho, quase todo ocupado por um algodoeiro velho cujos galhos entravam pela janela.
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Rosalina morreu uma morte horrível. Minha mãe conta: Maria Preta tinha ido à casa da avó Maria de Beda pedir emprestado uma xícara de arroz para fazer o almoço. De repente, ouvem os gritos. Rosalina foi tocar fogo em nas bananeiras no fundo do quintal, despejando o querosene da lamparina. O querosene derramou na roupa dela e o fogo se alastrou.
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