Era um churrasco. Sábado à tarde. À beira da piscina, moderna, com hidromassagem e uma espécie
de mesa de granito no centro, circundada por banquinhos azulejados e separada da borda por um espelho d'água de imperceptíveis 20 cm de profundidade, onde bebia-se e conversava-se sem sair da
água.
Tudo era muito: a euforia, as carnes, o samba, a cerveja, as cores das bermudas e das sungas, o céu azul sem nuvens, a beleza.
Na piscina estavam as pessoas mais animadas. Dentre elas o Giovanni-Michele, recém-chegado ao Brasil (por causa da crise europeia), tão lindo quanto um modelo de capa de revista gay. E que, nas palavras do anfitrião, ao nos apresentar, estava solteiro e queria muito conhecer meu trabalho.
Eu tinha saído de uma reunião. Por isso as roupas e o sapato inadequados ao evento vespertino. Sentei-me à borda da piscina. Tomado de uma inspiração apolínea, minha fala fluía na mesma proporção em que caía a água da cascata. Com o auxílio dos dionisíacos goles de cerveja.
Eu explicava detalhes dos novos projetos. Separado de Giovanni-Michele pelo espelho d'água. Giovanni-Michele correspondia à minha empolgação. Interessou-se pelos desdobramentos econômicos e sociais. Sugeriu até uma possível segunda etapa, a ser apresentada para uma ONG cultural italiana.
Sublinarmente (só mesmo na minha mente carente) enquanto o papo rolava, eu criava um subtexto afetivo ao interesse, os olhares e sorrisos polidos de Giovanni-Michele. 10 minutos após o início de nossa primeira conversa eu já nos via, os dois, velhinhos, cachecóis de lã enrolados no pescoço e bonés xadrezes com abas para proteger as orelhas, cultivando vinhedos em uma idílica paisagem toscana.
Quando, iludido pela miragem acima, e que fisgar Giovanni-Lucca era questão de minutos, avancei para encher-lhe o copo de cerveja. Eu me desequilibrei, e tchibum - enfiei o pé, até a canela, no líquido invisível do espelho dágua.
Além do estrago do sapato novo, o final feliz do filminho romântico que minha cabeça rodava, com trilha sonora de Ennio Moricone, esvaiu-se junto com a fumaça do cigarro que Giovanni-Michele acendeu, certamente para reprimir o riso.
Recolhi as migalhas de dignidade flutuando no espelho dágua, tirei o pé da água, pisquei para Giovanni-Michele (como se aquilo tivesse sido uma performance para quebrar o gelo), enchi o copo de cerveja dele, engoli de um gole o resto que estava na lata, pedi licença e fui atrás do dono da
casa, para que me emprestasse um chinelo.
Depois, durante o resto do churrasco, mantive distância segura da piscina e evitei olhar na direção onde supunha estar Giovanni-Michele. Qualquer gargalhada que ouvia, de qualquer direção que viesse, me reportava de imediato ao incidente trágico que protelou por mais 100 anos a minha solteirice.
domingo, 28 de abril de 2013
sábado, 27 de abril de 2013
só acontece comigo
Cheguei agora de um jantar daqueles de filme. Convidados chiquérrimos nos vários ambientes, vinho espumante e cool jazz tocado por uma banda quase invisível entre as folhagens, muitas luzes, mesas espalhadas pela varanda e jardim.
Em uma espécie de ilha, no centro da piscina iluminada de azul-escuro havia mesas. Em uma delas sentavam-se alguns amigos, animados, quebrando um pouco a formalidade da festa.
Dentre eles um francês que, segundo o dono da casa, estava solteiro e queria muito me conhecer.
Comecei uma conversa fiada, eu à margem da piscina e eles na tal ilha, separados por uns 50 cm de água. A conversa foi se animando, eu me empolgando na proporção direta dos olhares, dos sorrisos e do interesse crescente do francês.
Quando, iludido pela crença que fisgar Jean-Michel era questão de minutos, calculei errado o bote. Gesticulei mais do que devia, dei um passo em falso, perdi o equilíbrio e tchibum - engoli a frase pelo meio, mergulhei pateticamente e espirrei água em todo mundo da ilha.
Me ergui na borda da piscina, pisquei para Jean-Michel (como tivesse ensaiadao a cena), concluí a frase, pedi licença e fui atrás do dono da casa, para que me emprestasse uma toalha, bermuda, camiseta e sandália havaiana e me tirasse dali, o mais rápida e discretamente possível.
Em uma espécie de ilha, no centro da piscina iluminada de azul-escuro havia mesas. Em uma delas sentavam-se alguns amigos, animados, quebrando um pouco a formalidade da festa.
Dentre eles um francês que, segundo o dono da casa, estava solteiro e queria muito me conhecer.
Comecei uma conversa fiada, eu à margem da piscina e eles na tal ilha, separados por uns 50 cm de água. A conversa foi se animando, eu me empolgando na proporção direta dos olhares, dos sorrisos e do interesse crescente do francês.
Quando, iludido pela crença que fisgar Jean-Michel era questão de minutos, calculei errado o bote. Gesticulei mais do que devia, dei um passo em falso, perdi o equilíbrio e tchibum - engoli a frase pelo meio, mergulhei pateticamente e espirrei água em todo mundo da ilha.
Me ergui na borda da piscina, pisquei para Jean-Michel (como tivesse ensaiadao a cena), concluí a frase, pedi licença e fui atrás do dono da casa, para que me emprestasse uma toalha, bermuda, camiseta e sandália havaiana e me tirasse dali, o mais rápida e discretamente possível.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
gata
4 lugares preferidos para as sonecas da gata:
Enquanto trabalho:
1. Sobre os envelopes contendo a papelada dos projetos em andamento.
2. Sobre o scanner de mesa.
3. Entre o teclado e a tela do computador.
Quando estou ausente:
4. Sobre o forno micro-ondas, na bancada da cozinha (descobri pelos vestígios de pêlos marrons e cinzentos boiando no leite depois de aquecido).
...
Logo que acordo, abro a porta da cozinha. Ela escapole para o quintal sem nem fazer o desjejum. Só volta quando ouve o barulho das panelas - hora do almoço - ou das portas da casa sendo fechadas - sinal inequívoco de que sairei.
Hoje eu descobri o que ela faz, por dias e dias, no período da manhã. Fica no fundo do quintal, na cerca, tocaiando 2 filhotes de sagui que ensaiam o equilíbrio, de um lado para outro, no arame.
Nem quero imaginar o que acontecerá se um deles tropeçar e cair...
Enquanto trabalho:
1. Sobre os envelopes contendo a papelada dos projetos em andamento.
2. Sobre o scanner de mesa.
3. Entre o teclado e a tela do computador.
Quando estou ausente:
4. Sobre o forno micro-ondas, na bancada da cozinha (descobri pelos vestígios de pêlos marrons e cinzentos boiando no leite depois de aquecido).
...
Logo que acordo, abro a porta da cozinha. Ela escapole para o quintal sem nem fazer o desjejum. Só volta quando ouve o barulho das panelas - hora do almoço - ou das portas da casa sendo fechadas - sinal inequívoco de que sairei.
Hoje eu descobri o que ela faz, por dias e dias, no período da manhã. Fica no fundo do quintal, na cerca, tocaiando 2 filhotes de sagui que ensaiam o equilíbrio, de um lado para outro, no arame.
Nem quero imaginar o que acontecerá se um deles tropeçar e cair...
quinta-feira, 25 de abril de 2013
terça-feira, 23 de abril de 2013
avós (10)
Padrinho fumou até os quase 80 anos. Depois que meu pai morreu de câncer, ele procurou um médico. Diagnosticou-se o efisema pulmonar. Viveu mais uns 6 anos. Outra vez só com o salário-mínimo do INPS, foi morar com tia Clêu, única e última filha, o genro e as netas, minhas primas.
Deixou de tingir o cabelo, passou a usar um boné pavoroso, com a marca de fabricante de produtos esportivos ou de universidade americana, tênis surrados descombinando com a calça social marrom claro e camisa de gola abotoada até o pescoço.
Parou de implicar com minha mãe. Vinha uma vez por semana e passava a tarde sentado com ela, na varanda, tentando compreender a doutrina do espiritismo, rememorando o passado, chupando tangerinas ou carambolas. Os dois evitando diplomaticamente lembranças espinhosas.
Eu o vi algumas vezes. Indo embora ao final de tarde, caminhando na direção da parada de ônibus: vacilante, abatido, pouco mais que a sombra da altivez, da elegância e do orgulho do patriarca que ditava as regras de conduta para toda a família.
Tendo feito tudo (ou quase tudo) o que quis na vida, acho que morreu em paz.
Deixou de tingir o cabelo, passou a usar um boné pavoroso, com a marca de fabricante de produtos esportivos ou de universidade americana, tênis surrados descombinando com a calça social marrom claro e camisa de gola abotoada até o pescoço.
Parou de implicar com minha mãe. Vinha uma vez por semana e passava a tarde sentado com ela, na varanda, tentando compreender a doutrina do espiritismo, rememorando o passado, chupando tangerinas ou carambolas. Os dois evitando diplomaticamente lembranças espinhosas.
Eu o vi algumas vezes. Indo embora ao final de tarde, caminhando na direção da parada de ônibus: vacilante, abatido, pouco mais que a sombra da altivez, da elegância e do orgulho do patriarca que ditava as regras de conduta para toda a família.
Tendo feito tudo (ou quase tudo) o que quis na vida, acho que morreu em paz.
sábado, 20 de abril de 2013
(parêntesis)
Estranhei o blog estar bombando nos últimos dias. Tipo 150, 170 acessos diários, quando o pico não passava de 5. A ilusão egoica do escritor piscava intermitentemente junto com o contador de acessos no rodapé da página: caraca, velho, finalmente as pessoas estão te reconhecendo. De uma hora para outra arrebatando uma horda de leitores!
Doce e passageira ilusão. Desvendei o mistério. Ou, pelo menos, encontrei o fio da meada: um site-spam (isso existe?) americano (ao invés dos grotescos russos vendedores de relógios falsificados) abduziu meu endereço eletrônico e o replica para deus e o mundo.
Ainda não entendi a razão, mas o site abdutor (que oferece desde remédios para perder a barriga até encontros virtuais com garotas sexy vestidas com biquinis da minha avó) fez quase 500 internautas americanos incautos acessarem minhas incríveis, surpreendentes e maravilhosas Histórias Desagradáveis.
Imagino a reação desses 500 novos leitores quando se deparam, na tela, ao invés da pílula para aumentar o pênis, com a esquisita história dos avós. Seria como a reação de Champolion diante dos hieroglifos da Pedra da Roseta? Ou Édipo diante do enigma da Esfinge? Vai que um dentre eles descarte o merchandising duvidoso e decifre 2 ou 3 metáforas...
Doce e passageira ilusão. Desvendei o mistério. Ou, pelo menos, encontrei o fio da meada: um site-spam (isso existe?) americano (ao invés dos grotescos russos vendedores de relógios falsificados) abduziu meu endereço eletrônico e o replica para deus e o mundo.
Ainda não entendi a razão, mas o site abdutor (que oferece desde remédios para perder a barriga até encontros virtuais com garotas sexy vestidas com biquinis da minha avó) fez quase 500 internautas americanos incautos acessarem minhas incríveis, surpreendentes e maravilhosas Histórias Desagradáveis.
Imagino a reação desses 500 novos leitores quando se deparam, na tela, ao invés da pílula para aumentar o pênis, com a esquisita história dos avós. Seria como a reação de Champolion diante dos hieroglifos da Pedra da Roseta? Ou Édipo diante do enigma da Esfinge? Vai que um dentre eles descarte o merchandising duvidoso e decifre 2 ou 3 metáforas...
sexta-feira, 19 de abril de 2013
gata
Será que Zildinha anda seguindo o blog?
Pois na postagem do dia 18/04, sobre o susto que o gatão branco deu nela, quando escrevi "entrou no escritório e pulou para trás dos livros", o trecho era a parte ficcional da anedota. Não é que a malandra, sem mais nem menos, materializou a cena? E ela nunca tinha feito isso antes.
avós (9)
Padrinho e Mãe-Tiana eram os joviais avós paternos. Padrinho, por vaidade: o nome era Olindo, mas detestava o cargo de avô. Mãe-Tiana, por corruptela: Prateana/Tiana por ter nascido no Prata, Zona da Mata de Minas Gerais; Mãe (ao invés de vó) pelas mesmas razões de Padrinho.
Parece trocadilho: o avô Olindo era lindo. Alto, corpulento, traços romanos e fulminantes olhos azuis-esverdeados. Músico, ainda por cima. Com esses atributos, e outros que posso inferir, era o próprio Don Juan. Mãe-Tiana sofria para trazê-lo na linha. Nem sempre conseguia.
...
Padrinho fez na vida de tudo um pouco. Andou foragido por razões de política no Estado Novo. Tocou em bandinha de coreto. Aventurou-se com a família no meio da floresta boliviana, trabalhando em construção da estrada-de-ferro. Migrou para São Paulo e estabeleceu comércio no Sumaré.
...
Alvoroçou-se com a notícia da construção de Brasília e nem pensou duas vezes: fechou as portas do armazém, juntou a família e a tralha e ganhou muito dinheiro vendendo mantimentos, panelas, ferramentas, velas, botinas, querosene, etc para os candangos do Núcleo Bandeirante, W3 Sul, Taguatinga e Gama. Com o pomposo nome de Casa Prateana.
Perdeu tudo do mesmo jeito que ganhou. Aposentou-se pelo INPS, virou motorista de táxi e jogador profissional de damas e dominó.
...
Depois que Mãe-Tiana morreu, Padrinho, com mais de 70 anos, vendeu de novo o que tinha, comprou um barraco no Gama e foi morar com Hecilda, gorducha e risonha, 18 anos de idade. Viveram felizes por uns 5 anos.
...
Aos 80 anos nasceu-lhe o primeiro bisneto. Insistiu que a criança perpetuasse o nome Olindo. O pedido virou piada familiar. Ateu até o leito de morte, Padrinho não se conformou com o desrespeito nem com o nome de arcanjo dado ao menino em batismo.
...
Patriarca destronado, meio Rei Lear, meio Simão Bacamarte, o último projeto de Padrinho foi reformar a Língua Portuguesa. Cheguei a ler algumas anotações e a carta de encaminhamento do projeto a ser realizado, para a Academia Brasileira de Letras. Sem saber, Padrinho reinventava rudimentos de um esquisito Esperanto.
Parece trocadilho: o avô Olindo era lindo. Alto, corpulento, traços romanos e fulminantes olhos azuis-esverdeados. Músico, ainda por cima. Com esses atributos, e outros que posso inferir, era o próprio Don Juan. Mãe-Tiana sofria para trazê-lo na linha. Nem sempre conseguia.
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Padrinho fez na vida de tudo um pouco. Andou foragido por razões de política no Estado Novo. Tocou em bandinha de coreto. Aventurou-se com a família no meio da floresta boliviana, trabalhando em construção da estrada-de-ferro. Migrou para São Paulo e estabeleceu comércio no Sumaré.
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Alvoroçou-se com a notícia da construção de Brasília e nem pensou duas vezes: fechou as portas do armazém, juntou a família e a tralha e ganhou muito dinheiro vendendo mantimentos, panelas, ferramentas, velas, botinas, querosene, etc para os candangos do Núcleo Bandeirante, W3 Sul, Taguatinga e Gama. Com o pomposo nome de Casa Prateana.
Perdeu tudo do mesmo jeito que ganhou. Aposentou-se pelo INPS, virou motorista de táxi e jogador profissional de damas e dominó.
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Depois que Mãe-Tiana morreu, Padrinho, com mais de 70 anos, vendeu de novo o que tinha, comprou um barraco no Gama e foi morar com Hecilda, gorducha e risonha, 18 anos de idade. Viveram felizes por uns 5 anos.
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Aos 80 anos nasceu-lhe o primeiro bisneto. Insistiu que a criança perpetuasse o nome Olindo. O pedido virou piada familiar. Ateu até o leito de morte, Padrinho não se conformou com o desrespeito nem com o nome de arcanjo dado ao menino em batismo.
...
Patriarca destronado, meio Rei Lear, meio Simão Bacamarte, o último projeto de Padrinho foi reformar a Língua Portuguesa. Cheguei a ler algumas anotações e a carta de encaminhamento do projeto a ser realizado, para a Academia Brasileira de Letras. Sem saber, Padrinho reinventava rudimentos de um esquisito Esperanto.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
gata
A brincadeira da gata pular a janela acabou de maneira traumática. Há algumas noites ela subiu na mesa, caminhou pelo teclado, pulou a janela, deu a volta pela casa, como sempre faz, 2 vezes seguidas.
Na terceira vez ouvi aquele barulho peculiar de briga de gatos.
O gatão branco, manso e espaçoso, andarilho das redondezas, estava escondido na moita de gravatás. Zildinha não viu e pulou bem na direção dele. Então ele apareceu na frente dela, gaiato - surpresa! convidando para brincar. Ela quase morreu de susto. Zuniu feito um corisco em volta da casa, entrou no escritório e pulou para trás dos livros. Passou o resto da noite escondida lá.
Agora, quando eu escancaro a janela, ela olha de longe, fareja o ar com o focinho de veludo, dá a volta e se aninha atrás da porta, o mais afastada possível de outro possível sobressalto.
Na terceira vez ouvi aquele barulho peculiar de briga de gatos.
O gatão branco, manso e espaçoso, andarilho das redondezas, estava escondido na moita de gravatás. Zildinha não viu e pulou bem na direção dele. Então ele apareceu na frente dela, gaiato - surpresa! convidando para brincar. Ela quase morreu de susto. Zuniu feito um corisco em volta da casa, entrou no escritório e pulou para trás dos livros. Passou o resto da noite escondida lá.
Agora, quando eu escancaro a janela, ela olha de longe, fareja o ar com o focinho de veludo, dá a volta e se aninha atrás da porta, o mais afastada possível de outro possível sobressalto.
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