quarta-feira, 1 de maio de 2013

avós (11)

A avó paterna Mãe-Tiana era filha do bisavô Pai-Totó e da bisavó Mariquinha. Tinha muitos irmãos, mas eu só me lembro dos nomes de tia Nhazita e tio Somiro, pai de Benzica, minha primeira babá, no tempo em que as vacas eram gordas.

Mãe-Tiana nasceu em um lugar chamado Goiabal. Mas morou muito tempo em São Domingos do Prata, de onde lhe veio o apelido abreviado.

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Mãe-Tiana parecia-se com uma índia velha. Ou uma cigana de algum filme registrado no inconsciente. Sobressaíam-lhe em todas as fotos e na memória os olhos vivazes, quase pretos, sob a testa alta, de um lado e do outro do narigão adunco, a pele morena toda enrugada. Sempre vestida com o mesmo vestido cor-de-rosa apagado, cinto e fivela, e sapatinhos de meio-salto, fechados, pouco mais escuros que o vestido.

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Ela era a própria alegria de viver. Quando não havia ninguém por perto, ou quando ninguém (a não ser eu) prestava a atenção, ela arregalava os olhos e fazia um movimento rápido com a língua, projetava a dentadura para fora da boca e a recolocava no lugar. Concluía o gesto com uma piscada marota, que só nós dois entendíamos. Aquilo constrangia e ao mesmo tempo me fazia me acabar de rir.

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Mãe-Tiana acordava antes do sol nascer. Para lavar (por dentro e por fora) o táxi de Padrinho, preparar-lhe o café da manhã, e só então acordá-lo. Todos os dias, inclusive aos domingos. Anos seguidos. Décadas. Frio ou sol, chuva ou calor, saúde ou doença, até que a morte os separasse.

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Para ela, abaixo da autoridade divina só havia o marido. Padrinho era tudo. Para ele era tudo: o prato servido, enquanto ela comia de pé, entre a mesa e o fogão; as coxas, a moela e o fígado do frango ao molho-pardo (o coração era meu, primeiro neto); a fatia mais grossa do queijo com goiabada; o canal do telejornal ao invés do da novela; o insuportável futebol no rádio de pilha no volume máximo. De Padrinho era, para todo o sempre, a poltrona mais confortável para o jogo de damas, a cadeira de balanço, o último cigarro do maço, o crédito para as desculpas esfarrapadas, a palavra final em quaisquer situações.

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Ningém picava couve mais fina do que ela. O angu com taioba ou ora-pro-nobis era dos deuses. Leitoa à pururuca no natal estalava ao ser mordida. Recheada com farofa dourada de fubá de milho. Bife acebolado. Feijão amassado. Rabada. Canjiquinha com linguiça e costela de porco. Até o ovo que ela fritava tinha gosto diferente. Eu me lembro dela toda vez que sinto o cheiro de alho frito e ouço o chiado da água fervente despejada no arroz que ela me ensinou a refogar.

Foi com Mãe-Tiana que comi pela primeira (e última) vez miolo de boi tostado (antigamente não se usava a palavra grelhado) na frigideira. E gostei.

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feriado



 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

domingo, 28 de abril de 2013

é tudo verdade (versão 2)

Era um churrasco. Sábado à tarde. À beira da piscina, moderna, com hidromassagem e uma espécie de mesa de granito no centro, circundada por banquinhos azulejados e separada da borda por um espelho d'água de imperceptíveis 20 cm de profundidade, onde bebia-se e conversava-se sem sair da água.

Tudo era muito: a euforia, as carnes, o samba, a cerveja, as cores das bermudas e das sungas, o céu azul sem nuvens, a beleza.

Na piscina estavam as pessoas mais animadas. Dentre elas o Giovanni-Michele, recém-chegado ao Brasil (por causa da crise europeia), tão lindo quanto um modelo de capa de revista gay. E que, nas palavras do anfitrião, ao nos apresentar, estava solteiro e queria muito conhecer meu trabalho.

Eu tinha saído de uma reunião. Por isso as roupas e o sapato inadequados ao evento vespertino. Sentei-me à borda da piscina. Tomado de uma inspiração apolínea, minha fala fluía na mesma proporção em que caía a água da cascata. Com o auxílio dos dionisíacos goles de cerveja.

Eu explicava detalhes dos novos projetos. Separado de Giovanni-Michele pelo espelho d'água. Giovanni-Michele correspondia à minha empolgação. Interessou-se pelos desdobramentos econômicos e sociais. Sugeriu até uma possível segunda etapa, a ser apresentada para uma ONG cultural italiana.

Sublinarmente (só mesmo na minha mente carente) enquanto o papo rolava, eu criava um subtexto afetivo ao interesse, os olhares e sorrisos polidos de Giovanni-Michele. 10 minutos após o início de nossa primeira conversa eu já nos via, os dois, velhinhos, cachecóis de lã enrolados no pescoço e bonés xadrezes com abas para proteger as orelhas, cultivando vinhedos em uma idílica paisagem toscana.

Quando, iludido pela miragem acima, e que fisgar Giovanni-Lucca era questão de minutos, avancei para encher-lhe o copo de cerveja. Eu me desequilibrei, e tchibum - enfiei o pé, até a canela, no líquido invisível do espelho dágua.

Além do estrago do sapato novo, o final feliz do filminho romântico que minha cabeça rodava, com trilha sonora de Ennio Moricone, esvaiu-se junto com a fumaça do cigarro que Giovanni-Michele acendeu, certamente para reprimir o riso.

Recolhi as migalhas de dignidade flutuando no espelho dágua, tirei o pé da água, pisquei para Giovanni-Michele (como se aquilo tivesse sido uma performance para quebrar o gelo), enchi o copo de cerveja dele, engoli de um gole o resto que estava na lata, pedi licença e fui atrás do dono da casa, para que me emprestasse um chinelo.

Depois, durante o resto do churrasco, mantive distância segura da piscina e evitei olhar na direção onde supunha estar Giovanni-Michele. Qualquer gargalhada que ouvia, de qualquer direção que viesse, me reportava de imediato ao incidente trágico que protelou por mais 100 anos a minha solteirice.

sábado, 27 de abril de 2013

só acontece comigo

Cheguei agora de um jantar daqueles de filme. Convidados chiquérrimos nos vários ambientes, vinho espumante e cool jazz tocado por uma banda quase invisível entre as folhagens, muitas luzes, mesas espalhadas pela varanda e jardim.

Em uma espécie de ilha, no centro da piscina iluminada de azul-escuro havia mesas. Em uma delas sentavam-se alguns amigos, animados, quebrando um pouco a formalidade da festa.

Dentre eles um francês que, segundo o dono da casa, estava solteiro e queria muito me conhecer.

Comecei uma conversa fiada, eu à margem da piscina e eles na tal ilha, separados por uns 50 cm de água. A conversa foi se animando, eu me empolgando na proporção direta dos olhares, dos sorrisos e do interesse crescente do francês.

Quando, iludido pela crença que fisgar Jean-Michel era questão de minutos, calculei errado o bote. Gesticulei mais do que devia, dei um passo em falso, perdi o equilíbrio e tchibum - engoli a frase pelo meio, mergulhei pateticamente e espirrei água em todo mundo da ilha.

Me ergui na borda da piscina, pisquei para Jean-Michel (como tivesse ensaiadao a cena), concluí a frase, pedi licença e fui atrás do dono da casa, para que me emprestasse uma toalha, bermuda, camiseta e sandália havaiana e me tirasse dali, o mais rápida e discretamente possível.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

gata

4 lugares preferidos para as sonecas da gata:

Enquanto trabalho:
1. Sobre os envelopes contendo a papelada dos projetos em andamento.
2. Sobre o scanner de mesa.
3. Entre o teclado e a tela do computador.

Quando estou ausente:
4. Sobre o forno micro-ondas, na bancada da cozinha (descobri pelos vestígios de pêlos marrons e cinzentos boiando no leite depois de aquecido).

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Logo que acordo, abro a porta da cozinha. Ela escapole para o quintal sem nem fazer o desjejum. Só volta quando ouve o barulho das panelas - hora do almoço - ou das portas da casa sendo fechadas - sinal inequívoco de que sairei.

Hoje eu descobri o que ela faz, por dias e dias, no período da manhã. Fica no fundo do quintal, na cerca, tocaiando 2 filhotes de sagui que ensaiam o equilíbrio, de um lado para outro, no arame.

Nem quero imaginar o que acontecerá se um deles tropeçar e cair...