sábado, 7 de setembro de 2013

diário gerúndio da saída do claustro

ouvindo tomzé & cozinhando manivas da roça do mano manaape. polvilhando o acepipe com sal rosa & gergelim negro do deserto de kalahari. degustando arnaldo batista & paulo moura & rock`nroll & samba de raiz. cê tá pensando que eu sou loki, bicho? sou malandro velho não tenho nada com isso. 

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ouvindo histórias escalafobéticas pra lá de roseanas. encarnando o guia espiritual por necessidade. tomando floral de resgate. manobrando a fobia social. murchando os excessos abdominais. fazendo a linha. atirando no escuro. matando cachorro a grito. acertando cajadadas nem que seja no preá assustadiço.

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ouvindo david bowie & prestando atenção na letra. aparando as unhas da gata. aguando a grama e as comigo-ninguém-pode. consertando as tiras da sandália franciscana. tirando o pó do passado irresolvido. falando um pouquinho mal da vida alheia porque na sexta-feira ninguém é de ferro.

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ouvindo elza soares & cauby peixoto. levando altos papos com o caboclinho das matas. raspando os pêlos do sovaco. reinvestindo no affair com o loiro. desejando o ruivo. sendo menosprezado pelo moreno. açoitado de afagos os flancos do negro. sonhando acordado com o brother interétnico.

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ouvindo o silêncio da madrugada. preparando a receita de miojo com bacon no mircroondas. tingindo o topete e as sobrancelhas. invocando augusto dos anjos & roberto piva  & glauco mattoso & os principais heterônimos de fernando pessoa. ainda escapulindo pela tangente.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

luxúria

Suspendeu-se ontem o interdito. Tomei ímpetos e arrulhos, prometi mundos e fundos, invoquei forças telúricas, aticei a kundalini, desembainhei a lança, encetei em vão a espada na carne da luxúria. Mas mesmo assim hesitei em atravessar os portões do segundo círculo do inferno.

bela adormecida

A princesinha picou-se no fuso envenenado da roca que se encontrava na sala mais isolada do castelo. Desceu escadarias em espiral de três em três degraus. O roçar da seda das saias da princesinha nas paredes de pedra da escadaria deslocou o ar parado e desencadeou uma ventania de coincidências.

A princesinha esbarrou logo em mim e me pediu socorro. Mesmo tendo tanto o que fazer eu sosseguei-lhe o desespero. Eu me fiz todo dela e a conduzi ao salvamento.

Enquanto aguardávamos na antessala da fada-madrinha nós conversávamos. Sobre os amores irreais e irrealizados dela e meus.

Mal eu nomeei, à toa, um que há tempos me tirava do sério, aproximou-se, vindo do fundo do corredor e materializou-se à nossa frente - tão surpreso quanto nós - o antagônico, o complemento, o amante dele.

Uma gargalhada tripla ecoou uníssona pelos paredões do purgatório.

Em 7 segundos a fada-madrinha curou a picada da princesinha. Tirou de mim e devolveu ao amante aquele que me atazanava a alma.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

balança mas não cai - final

(Na primeira parte foram apresentados os personagens e introduzida a cena, ocorrida em um edifício em bairro nobre de uma cidade litorânea. Na segunda parte descreveu-se uma festa na cobertura desse edifício. A seguir a narrativa desenrola-se até o desfecho. Leia as partes iniciais clicando nos links em vermelho acima).

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Era o fogo cruzado. Tentarei descrever de forma menos chata possível.


Primeiro foram as cantadas da condessa de Z para com a minha pessoa. (Na verdade a condessa de Z nem queria nada concreto. Era mais para impressionar a dona da casa). Eu fazia questão de negar e recusar categoricamente, em alto e bom tom (querida, eu adooooro você, mas só como amiga).

Frustrada, a condessa passou a atacar Marilu. com piadas cáusticas sobre a falta de grana, o saudosismo das pompas, a ousadia exagerada no decote e nos ajustes da roupa, dúvidas sobre o comparecimento nas obrigações conjugais de Otavinho - enfim - sobre a decadência da elite da cidade de R.


Marilu perdeu as estribeiras. Com o dedo encostado no nariz da condessa de Z, intimou-a a mudar de conversa. Estava exausta e não aturava mais aquela horda de bêbados, desde o começo da tarde até àquela hora da noite. Além disso, que a condessa de Z  pagasse os 50 reais devidos desde tempos remotos ou se retirasse dali imediatamente.

Inconsolada por ninguém tomar-lhe as dores e injustiçada pela cobrança pública da dívida, a condessa de Z telefonou para a condessinha. Mal passados 15 minutos chega a condessinha para defender a mãe. Veio acompanhada de um grupo de funkeiros e uma caixa de isopor repleta de cervejas geladérrimas.

A outra frente de combate era comandada por Carmencita. O alvo éramos o amante Claudinho e eu, a celebridade do momento.

O ódio de Carmencita embananou-lhe a razão. Explodiu de ciúmes. Sem se preocupar se o barraco revelava a todos (principalmente a Benzinho) seus amores extraconjugais com Claudinho.  Metralhou o bofe de impropérios - que ela nunca tinha imaginado aquilo (impressionante ela não saber que Claudinho era gay); que ele devia dar-se ao respeito, fazer aquelas safadezas (segurar a minha mão?) na frente de gente da laia dele, que ela não era qualquer uma, para ser desfrutada, chupada como uma laranja, até o bagaço e depois jogada fora - etc.

Os olhos do marido-síndico Benzinho arregalavam-se à medida em que compreendia a fala da esposa. Ah, Carmencita... É efeito do álcool... seu fígado é fraquinho, bastam 2 copos pra você perder a noção (Carmencita tinha bebido pelo menos 2 dúzias de copos).

Paulo César era o único com o juízo no lugar. Finérrimo, contemporizava. Mudava de assunto. Pena que de modo cada vez mais desastrado. Por exemplo: achava um absurdo todas aquelas obras de arte importantíssimas para a história da arte brasileira escondidas do grande público, dependuradas nas paredes da cobertura.  Ou: que poderia colaborar com Otavinho em trechos árduos da tradução de Hannah Arendt. Ou ainda: Que concordava com a taxa extra astronômica, pois somente assim o condomínio poderia fazer as reformas do salão de jogos.

Piorou quando (equivocado e desnecessário) entrou no tema: o amor que não ousa dizer seu nome. Que concordava com os direitos iguais de pessoas do mesmo sexo, mas casamento na igreja e no papel era demais. Que ele mesmo, nos bons tempos (olhando para Claudinho e eu), gostava de escandalizar a sociedade, mas agora o certo era esse tipo de coisas ficar entre quatro paredes, no recôndito do lar.

Era demais. Ao invés de seguir Claudinho com a desculpa de ver uma Tarsila na sala, eu soltei os bichos para cima de Paulo César. Aquele discurso era incongruente. Ainda mais saído da boca de um intelectual de esquerda. Ele era preconceituoso, burguês elitista decadente. Na verdade ele estava roendo-se de ciúmes. Que o refrão feito em parceria com Chico Buarque era sofrível e que a música era uma das piores do repertório dele. Etc.

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Quando tudo parecia caminhar para o caos, os amigos da condessinha ligaram Mc Daleste na maior altura: Mais amor, menos recalque / Sai do pé morre pra lá.

Foi a salvação. A música (deixemos de lado as considerações estéticas e sociológicas) era contagiante.

A primeira a entrar na roda foi Marilu. Sabia os passos mais complicados, até aquele de descer rebolando até quase encostar a bundinha no chão. Aos 70 anos!

Claudinho me puxou. Mesmo sem o mínimo jeito eu me deixei levar. Em seguida Benzinho conseguiu arrastar Carmencita para a pista improvisada na varanda.

A condessa de Z, amuada e com o orgulho ferido, sentada sozinha, depois de colocar e tirar a bolsa e o casaco para ir embora umas 3 vezes, cedeu aos encantos do ritmo do morro. Ela, Carmencita e Marilu disputavam com as funkeiras amigas da condessinha requebros e remelexos mais provocantes.

Só Otavinho não se deixou arrebatar. Roncava alto, alheio ao barulho, certamente misturando nos sonhos de Rivotril o gosto duvidoso das letras do funk e os trechos dificílimos e intraduzíveis da filósofa alemã.

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E a balada rolou na cobertura mais chique da cidade de R até o dia raiar.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

diário sobrenatural

No marasmo que se instalava dia adentro bastou um telefonema recebido para desenrolar-se o enredo. Com direito à introdução inusitada, sobressalto no desenvolvimento e sincronicidade no desfecho. Aquilo beirava ao absurdo, mistério banal, ficção desengonçada, quase-sonho. Ou sacudidela na existência?

domingo, 1 de setembro de 2013

balança mas não cai - parte 2

Resumo da parte 1, postada em 05 de agosto (leia aqui):

Eu estava hospedado em casa da condessa de Z, em um edifício chamado Balança mas não cai - em bairro classe-média-alta-decadente, em uma linda cidade litorânea. Fomos convidados para um happy hour na cobertura babilônica do edifício. A cobertura pertencia a Marilu Venegas, filha de um famoso pintor modernista já falecido e casada com um autor e tradutor. Havíamos bebido muitas cervejas durante a tarde no apartamento da condessa de Z e já chegamos bastante calibrados na festinha.

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Mas não havia mais festa. Ou, melhor, já tinha acontecido. Ou, melhor ainda, tinha sido um brunch  iniciado às 13 horas.

Mesmo assim Marilu, depois de um suspiro e de um olhar desesperado para o bando de bêbados à porta, convidou-nos a entrar. Pura cortesia.

Marilu era lourérrima. Plásticas visíveis no rosto e pescoço e muito botox aplicado nas rugas dos seus prováveis setenta anos. Vestia um macacão de piloto de fórmula 1 em couro vermelho muito justo e decotadíssimo.

Apresentou-nos Otavinho, o marido. Que, segundo ela, traduzia um texto inédito de Hannah Arendt.

Enorme de gordo era o Otavinho. Ocupava todos os 4 lugares do sofá da sala. Mergulhado na penumbra. Iluminado apenas pela luz da tevê ligada no Faustão. Deitado estava, deitado Otavinho ficou. Sem nos olhar, emitiu uma espécie de grunhido como cumprimento generalizado.

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Enquanto Marilu foi até a cozinha para buscar cerveja, a condessa de Z, fofoqueira que era, desmentiu a história da tradução. Otavinho vivia em estado semi-letárgico. Mal articulava uns gemidos além daqueles grunhidos. Passava dia e noite deitado no sofá rabiscando ziguezagues em resmas e resmas de papel A4. Tudo isso provocado pelas doses cavalares de remédios controlados ministrados a bel prazer de Marilu. 

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Sentamo-nos à varanda. Onde já estavam o quadrângulo amoroso formado por Claudinho (o bofe gostosão), Carmencita (a esposa do síndico e amante de Claudinho), Benzinho (o síndico) e Paulo César (a tia velha intelectual podre de rica e amante-patrocinadora de Claudinho).

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Claudinho ofereceu-se para me mostrar os jardins suspensos da cobertura. Mal saímos do campo de visão das pessoas na varanda - não entrarei em detalhes. Retornarmos meia hora depois - levemente despenteados, amarrotados, riso bobo na cara, sob uma chuva de zombarias e o olhar fuzilante de Carmencita.

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Eu era uma espécie de celebridade no Balança mas não cai: tinha lançado um livro na mesma livraria onde Clarice Lispector costumava autografar. E conseguido uma minúscula resenha (10 linhas distribuídas em 5 cm2) no caderno 2 do Jornal do Brasil da segunda-feira. Por isso, a Condessa de Z enchia minha bola mais que o merecido, diante de gente tão ilustre como Marilu e de Paulo César que, além de podre de rico, compusera o refrão de uma música com Chico Buarque.

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Marilu conduzia a conversa. Falava sobre os velhos tempos: quando o pai era vivo; quando era recebida pelo prefeito, cortejada pelo governador, deputados e senadores, até por um vice-presidente americano; quando foi aplaudida de pé no Municipal (não me lembro mais o motivo); etc, etc.

A condessa de Z, a essa altura sob os efeitos de altíssimo grau etílico, todo o tempo atravessava a conversa. Primeiro tentou me promover à sua mais recente conquista amorosa.

Ao perceber que ninguém deu bola (vide a cena anterior, da visita guiada aos jardins suspensos de Babilônia), ela passou a agredir Marilu: tanta pompa antigamente e hoje (pobre Marilu) alimentando-se às custas de salgadinhos de vernissagens e cafezinhos das salas-de-espera dos gabinetes de vereadores. Assim por diante

Enquanto isso, Claudinho segurava minha mão e me fazia cafuné independentemente do olhar furibundo de Carmencita. Que estava a ponto de explodir com a nossa pouca-vergonha.

Para piorar a situação eu, também semi-alcoolizado, falei mal do ChicoBuarque. Critiquei sem piedade logo a música feita em parceria com Paulo César (a tia velha intelectual podre de rica).

 Ou seja: o clima social em ebulição e o pandemônio instalado.

(continua)

canção de temporadas antigas: bijouterias

Em setembro
Se Vênus me ajudar
Virá alguém
Eu sou de Virgem
E só de imaginar
Me dá vertigem
Minha pedra é ametista
Minha cor, o amarelo
Mas sou sincero
Necessito ir
Urgente ao dentista
Tenho alma de artista
E tremores nas mãos
Ao meu bem mostrarei
No coração
Um sopro e uma ilusão
Eu sei
Na idade em que estou
Aparecem os tiques
As manias
Transparentes
Transparentes
Feito bijuterias
Pelas vitrines
Da Slopper da alma

(João Bosco / Aldir Blanc)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

cenário improvável


balança mas não cai - parte 1

Nos primórdios televisivos (lá pelos anos 60) havia um programa humorístico semanal chamado Balança mas não cai. Tratava-se de um edifício residencial onde os comediantes mais exóticos contracenavam, cada cena ou quadro correspondendo aos moradores dos apartamentos. A velha fórmula de teatro-chanchada, cujos personagens, alguns, sobreviveram até pouco tempo, nos decadentes Escolinhas do professor Raimundo, Praça da Alegria, Sai de baixo, e tantos outros.

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A história de hoje é longa. Por isso será contada em várias partes. Tem a ver com o Balança mas não cai e com o texto do outro dia, sobre hospedar, hospedagem, etc. Para não ser obrigado a usar aquele velho chavão - qualquer semelhança com fatos e acontecimentos reais é mera coincidência - que seria só meia verdade, serei chique como Flaubert: aconteceu em 19...,  na cidade de R... na rua de M... com a condessa de Z... assim por diante.

Pois bem. Aconteceu em 19.... Eu estava hospedado no apartamento 10... de em um prédio residencial elegante, em um bairro classe média alta, na cidade de R. A hospedeira era a condessa de Z e sua única filha, a condessinha de M.

A condessa de Z é uma figura exótica e engraçadíssima, Voz meio rouca, fala gingada, puxada nos esses chiados e nos jeitos e trejeitos do falar das transformistas. Apesar de mais tímida, a condessinha de M herdara a simpatia da mãe. Além de mim havia outra hóspede, a marquesa de C.

Em pleno verão, na maior farra, enchendo a cara de manhã à noite, comendo os deliciosos pratos preparados pela condessa de Z e morrendo de rir das histórias que ela contava.

O apartamento da condessa era frequentado por quase todos os moradores do prédio, a qualquer hora do dia ou da noite. A seguir, os principais:

1. Carmencita, espanhola de nome, carioca de coração, maranhense de nascença. Balzaqueana, corpo em cima, loira tinturada. Esposa do síndico e amante de Claudinho.

2. Zé Maria, conhecido por Benzinho, síndico do prédio, inocente esposo de Carmencita.

3. Claudinho, trinta-e-tantos anos, bonitão, bronzeado de praia, corpo sarado, apesar da barriguinha de cerveja. Pernambucano, funcionário público, amante de Carmencita e de Paulo César, uma tia velha intelectual chiquérrima e podre de rica, moradora do apartamento 20...

4. Paulo César, a tia velha intelectual chiquérrima, e nem mais tão podre de rica assim, amante de Claudinho e dona de pelo menos meia dúzia de apartamentos no prédio.

5. Marilu Venegas, moradora da cobertura, tradicionalérrima, filha de um pintor modernista, herdeira do acervo desse pintor, esposa de Otavinho.

6. Otavinho, tradutor, desempregado, vivendo de rendas, esposo de Marilu Venegas.

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Os 2 últimos andares do prédio eram um apartamento tipo cobertura. Não uma simples. Uma puta cobertura. Tipo jardins suspensos de Babilônia: pitangueiras, amoreiras, jaboticabeiras - até um abacateiro frutificavam lá. Fora os bichos - pássaros engaiolados, um casal de jabutis, marrecos, uma arara. Inacreditável. Um paraíso perdido com vista para o mar, em plena avenida de N..., no coração da cidade de R.

A cobertura pertencera ao pintor modernista, pai de Marilu Venegas. Por isso estavam dependurados nas paredes da sala quase a metade de um acervo de museu de arte brasileira de médio porte. Na biblioteca do mezanino, milhares de livros. O projeto arquitetônico da cobertura era do Oscar Niemeyer e o paisagismo (sim, havia até projeto paisagístico na cobertura) era do Burle Marx. Falecido o pintor, habitavam ali a filha herdeira e seu esposo Otavinho.

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Enquanto esperávamos a hora da festa, desde as 10 da manhã nós bebíamos as dezenas de cervejas geladas que a condessa de Z mandava vir pelo tele-entrega. Assim, às 20 horas (o horário presumido do início do evento), colocadíssimos (totalmemente bêbados), tocamos a campainha da cobertura.


(continua)

sábado, 3 de agosto de 2013

cauby, palmilhas ortopédicas e preconceito

O ortopedista resolveu melhorar minha postura. Receitou uma palmilha para ser usada no pé esquerdo. Assim o eixo do quadril mudará, não entendi bem como, redistribuindo o peso entre as pernas, uma delas sobrecarregada. Esse desequilíbrio reflete-se, por uma série de cruzamentos musculares e de terminais nervosos, na escápula e ombro direitos, onde sinto dores horrorosas nas últimas semanas.

O fabrico da palmilha é especialidade de um único profissional confiável em Brasília. Pensei que era só ligar e encomendar: número 42, 1 cm de altura. Mas não. Fazer palmilhas é arte e ciência combinadas.

O fabricante de palmilha atende em um consultório longe pra caramba, em horário super restrito (menos de meio expediente), por ordem de chegada.

Pois bem, hoje eu fui lá.

Fazia as vezes de secretária uma menina de uns 8 ou 9 anos. Que me mandou aguardar na sala de espera, cheia de idosos.

Mal eu me sentei, chegou um homem acompanhado de um senhor bem velhinho, barbudo, lembrando um mestre de kung-fu. O homem sentou-se em uma extremidade da sala e o velhinho na outra.

O homem puxava assuntos com o velhinho. Falava alto, a conversa atravessando a sala.

O homem usava artifícios retóricos para atrair ou mesmo forçar os outros pacientes a entrarem na conversa. Tentava ser engraçado, espirituoso, inteligente e bem-informado ao mesmo tempo. Primeiro falou sobre tecnologias exóticas: computadores-caneta, baterias de celular feitas com água e açúcar. Enumerou orgulhoso as vantagens do seu aparelho celular comprado há 15 anos atrás, comparando com a ineficiência e descartabilidade (?) dos celulares atuais. Etc.

Ninguém deu bola. Nem o velhinho que acompanhava o homem. Eu nem olhava. Todos entretidos com suas próprias mazelas ortopédicas, iguais ou piores que as minhas.

Então, vendo frustradas as tentativas iniciais, o homem resolveu falar mal dos políticos brasileiros. Das manifestações populares. Da Presidenta. Temas que certamente arrebanhariam adeptos. Mas não ali, perto do meio-dia, todo mundo impaciente, faminto.

Aí o homem apelou. Falou da aberração que era a união estável e a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo. Na hora eu olhei para ele. Ostentei uma expressão profunda de desprezo e desaprovação. Um dos pacientes levantou-se, também visivelmente irritado.

Parecia que o homem tinha percebido inconveniência.

Passaram-se uns 30 segundos de silêncio. O tempo de aparecer, na TV, uma entrevista com maravilhoso Cauby Peixoto.

Pois não é que o idiota voltou à carga, fazendo piada do Cauby?

Ninguém riu. Ou o homem murchou ou eu deixei de prestar atenção ao que ele ainda tentava dizer.

Eu estava fascinado por aquele idoso na tela, ícone de várias gerações gays, peruca basta, vestido com um blazer de lantejoulas vermelhas. Cauby cantava

Granada, tierra soñada por mi

e cantava e cantava e cantava outras músicas, vozeirão como que em resposta àquele poço de imbecilidade, preconceito e ignorância que alugava os nossos ouvidos.

Fiquei hipnotizado por Cauby. Até ser despertado pela atendente-mirim. Que me conduziu à sala do avô-palmilheiro. Que anotou meus dados. Desenhou na mesma folha o contorno do meu pé esquerdo. Acrescentou setas, riscos transversais e sinais parecidos com hieróglifos. E despediu-se prometendo que, depois de experimentar a palmilha fabricada por ele, meu caminhar nunca mais será o mesmo.

O homem preconceituoso era o próximo. Ao cruzar com ele no corredor, ao invés de desprezo eu desejei que a palmilha operasse nele o mesmo a mim prometido. Que o caminhar daquele homem trilhasse destinos menos obtusos. Que as paisagens surgidas no caminho lhe abrissem o pensamento. E que Cauby continuasse cantando a plenos pulmões a trilha sonora da minha e da caminhada do homem.