sábado, 21 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
diário gerúndio especular
repetindo padrões comportamentais. burlando o jogo. aguardando a lenta transformação dos sapos em príncipes. derramando as esperanças enxurrada abaixo. catalogando autoenganos. constrangendo. entrando em quase-pânico.
...
esbanjando prodigalidade. dilapidando o patrimônio. dando uma de otário.
...
telefonando para os mortos. invocando os mortos pelas redes sociais. resgatando os mortos da enxurrada de sangue fervente &/ou dos cães raivosos. arrancando galhinhos secos dos mortos-árvore. sabendo que os mortos não retornarão jamais.
...
discorrendo a língua sobre as partes menos íntimas. lambendo dindim & chupando sacolé. subindo degrau a degrau a escada dos prazeres carnais. boicotando a luxúria. gozando horrores.
lendo dante & um clássico latino. buscando inspiração em glauco mattoso. chupando roberto piva até os ossos. corporificando. transubstanciando.
...
publicando antes de virar o novo dia.
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esbanjando prodigalidade. dilapidando o patrimônio. dando uma de otário.
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telefonando para os mortos. invocando os mortos pelas redes sociais. resgatando os mortos da enxurrada de sangue fervente &/ou dos cães raivosos. arrancando galhinhos secos dos mortos-árvore. sabendo que os mortos não retornarão jamais.
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discorrendo a língua sobre as partes menos íntimas. lambendo dindim & chupando sacolé. subindo degrau a degrau a escada dos prazeres carnais. boicotando a luxúria. gozando horrores.
lendo dante & um clássico latino. buscando inspiração em glauco mattoso. chupando roberto piva até os ossos. corporificando. transubstanciando.
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publicando antes de virar o novo dia.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
piano
Dona Cilene era professora de piano. Clara, óculos grossos, cabelo liso e farto preso em um coque. Esposa do pastor Otávio.
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Os livros de exercício eram grandes (do tamanho A4) e eram chamados métodos. Havia também as peças musicais com 2 ou 3 páginas impressas em tinta azul-escuro. Mais os cadernos pautados encapados, os gatinhos, cães, pássaros e flores que decalcávamos no topo de cada exercício do método ou ao lado dos títulos das peças. Tudo, inclusive os lápis-de-cor e a pasta de elástico Dona Cilene encomendava de São Paulo.
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Depois das aulas eu estudava horas seguidas em um piano de brinquedo que pertencia à Fabiane, a filha da vizinha Dona Marli.
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Aprender piano era uma tarefa árdua. Dona Cilene ensinava também notação musical, solfejo e história da música.
Cada nota tinha uma cor, cada linha da pauta era da cor da nota correspondente. O dó era vermelho; o ré, verde; o mi-amarelo; fá, roxo; sol, laranja; lá, azul-claro; si, marrom.
Breves e semibreves (as notas vazadas) eram preenchidas. Mínimas, semínimas, colcheias, semicolcheias, fusas e semifusas (as notas pretas com hastes) recebiam, cada uma, na parte inferior, um ponto na cor devida. Grande parte do horário da aula era gasto em colorir as notas e as pautas musicais.
Solfejo era outra dificuldade. Especificamente para mim, canhoto e desprovido de coordenação motora. Enquanto cantávamos no tom da nota, marcávamos os ritmos - binário (1-2), terciário (1-2-3) e quaternário (1-2-3-4) - com movimentos da mão/braço direitos cruzando o ar nas 4 direções.
História da música era a parte mais chata. Bach, Berlioz, Brahms, Chopin eram nomes impronunciáveis de seres além da nossa compreensão. Percebendo isso, Dona Cilene falava deles por alto. Para nosso deleite, a certa altura da aula ela desistia do bla-bla-blá. Sentava-se ao piano e exemplificava, tocando trechos das obras de um ou outro.
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Toquei pela primeira vez em público a peça musical Minha jangada de vela/que o vento pode levar/de dia vento de terra/de noite vento de mar. Só isso mesmo. Foi em um culto especial da igreja do Pastor Otávio. Usei o terno xadrês marrom e uma gravata-borboleta, roupa usada no casamento da Tia Madalena.
Eu, ainda católico (aos 9 anos!), estava terrificado com o pecado de participar do culto da igreja concorrente. E morto de sono. Aquilo era aborrecidíssimo. Tão diferente da missa. Aleluias! e exclamações extáticas vindas da plateia interrompiam o tempo todo a interminável pregação do pastor Otávio.
A apresentação era depois do culto. Nem é preciso dizer que eu errei duas vezes. Travei. Quis desistir. Mas o olhar fuzilante de Dona Cilene por trás da cortina do templo me obrigou a continuar. Terminei debulhado em lágrimas.
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A segunda e última apresentação foi na televisão. No programa do Titio Darlan, na TV Brasília. Titio Darlan comandava um programa infantil, ao vivo. Fomos nós, os melhores alunos da escola da Dona Cilene, do Gama. Eu tocaria a dificílima A vendedora de flores. Tinha ensaiado dia e noite (no pianinho da Fabiane ou em um teclado de papel, em tamanho natural, que acompanhava um dos métodos).
Quando chegou a minha vez, mal comecei os acordes, Titio Darlan interrompeu o programa para os comerciais.
Foi a primeira pá de cal jogada sobre as minhas pretensões artístico-musicais.
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A última pá foi logo depois. Com a transferência do Pastor Otávio (que também era missionário) para outra cidade. Foram-se Dona Cilene, os 2 pianos e as cançonetas marteladas nas tardes de canícula. Nunca mais aulas de piano. Nunca mais solfejar, desenhar claves de sol, colorir métodos. Nunca mais os exercícios dos deveres-de-casa.
Para alívio de Dona Marli, ouvidos finalmente libertados dos meus estudos no pianinho estridente da Fabiane.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
3 imagens da internet
itaúnas
![]() | |
| foto obtida em: http://paixaocapixaba.com.br |
Itaúnas é um povoado, originalmente de pescadores, no norte do Espírito Santo, quase divisa com a Bahia. Pertence ao município de Conceição da Barra. A vila antiga erguia-se entre as dunas e o rio. Foi coberta pela areia nos anos 1960/70. Construíram outra, mais afastada do mar, na outra margem do rio, próxima aos manguezais.
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Era uma epopeia chegar a Itaúnas. 2 dias dentro de ônibus interestaduais (Brasília/BH/Vitória) ou trem (BH/Vitória) e mais a metade de outro dia no pinga-pinga (Vitória/Conceição da Barra ou São Mateus). Dependendo dos atrasos, arriscava-se ainda passar uma noite na rodoviária de Conceição, até pegar carona ou a primeira jardineira às 6:30 da manhã.
A estrada entre Conceição e a vila era de areia e terra batida. Atravessava uns 30 quilômetros de eucaliptais que se estendiam por todo o Espírito Santo até o sul da Bahia. Tudo propriedade da Aracruz e/ou poderosas multinacionais produtoras de celulose.
Quando chovia a estrada era intransponível. Naquela época os carros 4x4 eram raros. Por isso, ficava-se isolado. O único a fazer era esperar a estiada. Podia demorar dias.
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Mas valia a pena. O lugar era paradisíaco. A água do rio era escura e transparente, da cor de caramelo. As margens e o fundo eram de areia. Atravessava-se o rio por uma ponte estreita de madeira ou a nado. Depois, mais ou menos menos 1 km de caminhada pelas dunas (brancas ou às vezes amareladas) até chegar à praia de areia grossa, escura, que se estendia por 18 (ou 12?) quilômetros, ondas fortes. Na volta, ao final da tarde, o banho de água doce na lagoa entre as dunas e o rio.
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A praia era local de desova de tartarugas. Ao caminhar pelas dunas podia-se encontrar cacos de cerâmica, ossos, fragmentos de roupas, botões - provavelmente da vila soterrada ou de civilizações precolombianas.
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Além de nós, mochileiros riporongas, com o passar dos anos vieram hordas de turistas convencionais, chamados pelos nativos de paulistas.
Junto com eles a degradação acelerada do ecossistema e dos sítios arqueológicos, a poluição (da última vez que estive lá a lagoa estava imprópria para banho devido à concentração elevada de coliformes fecais), a especulação imobiliária, a proliferação de pousadas, campings e casas chiques, as diferenças sociais, e a exclusão gradativa (alcoolismo e crack) dos nativos economicamente inviáveis, enfim, a violência.
Além de um forró universitário misturado com dance e axé music ensurdecedores que varava as noites de quinta-feira a domingo.
Os inevitáveis bens e males do progresso.
(Tive notícias que o forró virou tradição e as coisas melhoraram depois da criação do Parque Estadual e de associações de moradores).
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Certa vez fomos ver a lua cheia nascer nas dunas. Na volta sentimos o chão tremer. O tremor aumentava, e com ele o barulho crescente de um tropel. Mal tivemos tempo de nos proteger entre as moitas da restinga. Era um estouro de boiada. No meio da areia, saído do nada. Surreal, fantasmagórico, assustador. A boiada desapareceu da mesma forma: no nada.
No dia seguinte nenhum vestígio - rastros, bosta, galhos quebrados. Quando comentávamos, os nativos misteriosamente disfarçavam e mudavam de assunto. Nunca descobrimos se fora real ou alucinação coletiva.
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De outra vez estive lá (ainda nos anos 1980), no período dos festejos natalinos. Presenciei (e participei de) uma das mais lindas manifestações culturais brasileiras - o ticumbi, no dia-de-reis.
Começou bem cedo. Na igreja, pequena, caiada, plantada em um descampado no centro da vila, que servia de praça. Não havia padre. A missa era celebrada pelos membros mais antigos da comunidade. O sol raiava e a luz entrava pelas janelas abertas, misturando-se com a luz das velas.
As mulheres cobriam as cabeças com lenços desbotados, uma ou outra com mantilha. Os homens estavam descalços, camisas com mangas arregaçadas, olhos baixos, compenetrados. Homens e mulheres cantavam forte, com fé, hinos religiosos muito antigos, esquecidos.
Depois saíram em procissão, levando um menino Jesus esculpido em madeira, tosco, depositado com toda delicadeza em uma manjedoura acolchoada com tiras de papel crepom verde e amarelo. A procissão levava o menino Jesus de casa em casa, na rua principal. Onde se rezava o terço, tomava-se água, um gole de cachaça, às vezes um copo de cerveja, e cantava-se.
Lá pelas 10 horas os tambores e a cantoria do ticumbi irromperam no fim da vila. Os homens vinham vestidos com roupas coloridas de chita, chapéus com fitas. As mulheres vestiam de branco, turbantes ou lenços nos cabelos e/ou saias coloridas. Cantavam e dançavam, menos sacras, mais dionisíacas. Uma delas levava o estandarte bordado não me lembro mais com qual santo. E o batuque contagiante, ensurdecedor, catártico, dionisíaco.
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Pirei geral. O ritmo me pegava pela alma. Era a ancestralidade do escravo, o caboclo de penas, das pedreiras e das matas, o bacante, os bisavôs mulatos, o exu-legbara, os mártires cristãos, tudo junto. Diluídos nos borbotões de lágrimas e soluços descontrolados. Catarse pura brotada das vísceras.
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Estive em Itaúnas pela última vez lá há uns 15 anos. Já maduro e careta. Mais para paulista que para riporonga. Em viagem familiar: a mãe, eu e o filho. Foi outra, a última talvez, experiência fundamental lá. Depois eu me esqueci. (Como se a areia tivesse soterrado as lembranças).
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Itaúnas foi o que São Tomé das Letras, Penedo, Macchu-Picchu, Canoa Quebrada, Jericoacoara, Ilha do Mel, Arembepe, etc foram para a geração anterior à minha. Lugares iniciáticos, sagrados, locais onde ocorriam ritos de passagem, fundamentais. Uma espécie de limiar. Portal de mudanças, transformações, crescimento.
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Enquanto escrevo cai uma chuva fora de época. Com intensidade, trovões e relâmpagos. Semelhantes aos das chuvas dos verões em Itaúnas. A luz acaba. Acendemos velas no lugar das lamparinas daquele tempo. Uma boiada silenciosa estoura nas dunas, à luz embaçada da lembranças.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
dois poemas portugueses
O amor
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos teus rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma vidros.
Estou a rodear de agulhas
a tua boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
(Eugénio de Andrade, Antologia Breve, 1972)
---
Soneto
Sebento abrigo, em fumo de manejo
até à sombra quente afeiçoada
ao brilho lento e vasto em que te vejo,
até a tarde atrás da madrugada,
até à noite porta sobre um tejo
distante na memória, onde encrespada
uma palavra morre e vive um beijo
que a boca não sabia ensinada
foi por calados ventos e desejo
- em fumo, em fome súbita e molhada
te sigo, te revisto e te protejo,
até o fim dos olhos ou da estrada,
amor possível, tacto, nó de ensejo,
destemida ternura resguardada.
(Pedro Tamen, Os Quarenta e Dois Sonetos, 1973)
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos teus rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma vidros.
Estou a rodear de agulhas
a tua boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
(Eugénio de Andrade, Antologia Breve, 1972)
---
Soneto
Sebento abrigo, em fumo de manejo
até à sombra quente afeiçoada
ao brilho lento e vasto em que te vejo,
até a tarde atrás da madrugada,
até à noite porta sobre um tejo
distante na memória, onde encrespada
uma palavra morre e vive um beijo
que a boca não sabia ensinada
foi por calados ventos e desejo
- em fumo, em fome súbita e molhada
te sigo, te revisto e te protejo,
até o fim dos olhos ou da estrada,
amor possível, tacto, nó de ensejo,
destemida ternura resguardada.
(Pedro Tamen, Os Quarenta e Dois Sonetos, 1973)
domingo, 15 de setembro de 2013
nasci para bailar
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| Bonecos de Olinda. Foto: Teresa Maia. (Obtida em: http://basilio.fundaj.gov.br) |
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| Duda da Boneca (foto obtida em: http://informativomipibu.blogspot.com.br) |
Seja em festinha na casa de amigos, seja na balada, seja no pagode, no ensaio da escola de samba, no forró de Campina Grande, na gira de caboclo, no frevo do Galo da Madrugada ou em casa, sozinho - meu repertório limita-se a meia-dúzia de passos duros, partindo do ombro - rigorosamente os mesmos para qualquer ocasião.
Falta coordenação motora. Falta ritmo, molejo, requebro, soltura. Falta tudo. Sabe aqueles bonecos gigantes do carnaval de Olinda? Dançam mil vezes melhor que eu.
Mesmo assim (com o perdão do trocadilho) eu não perco o rebolado. Sempre que posso eu estou lá, com meu desengonço. Se puder, até o dia raiar.
...
Nos tempos de balada meu bailado era meio místico, meio orgiástico, meio biodança, meio hospital psiquiátrico. Eu fechava os olhos e me deixava levar pela música, movimentos catárticos, mistura de butoh e dança-de-são-guido. Como se não houvesse (ou tivesse?) mais ninguém na pista. Quando tocava música com aqueles harpejos indianos, aí sim, o bicho pegava!
Não me preocupava o que os outros pensassem. Não tinha expectativa quanto a pegar ou não alguém. Só importava a performance interiorizada. Vantagem: por mais lotada que estivesse a casa, sempre abria-se em torno de mim um espaço circular - as pessoas evitando levarem um safanão, esbarrão ou bofetada provocada pela movimentação desconjuntada dos meus membros superiores.
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Outro dia foi em uma festa. Tinha lá um sujeito pé-de-valsa. Mistura de Carlinhos de Jesus com Antônio Nóbrega. O cabra era tão bom mas tão bom que a fama dele na Paraíba era a de levantar cadáver, só no sapatinho.
O cabra resolveu que era questão de honra me ensinar a dançar forró.
Tinha toda uma técnica. Inclusive com preliminares. Entre uma cerveja e outra eu deveria tomar um copito de cachaça. Mas com método, para não embebedar. Segundo ele, servia para amolecer as juntas. Depois (sob o efeito da pinga e da cerveja) eu fechasse os olhos e deixasse o ronco da sanfona me entrar pelos bofes, o tinir do triângulo na corrente sanguínea, a batida da zabumba chegar no coração. Que eu entregasse a alma ao diabo pois o corpo eu tinha que entregar pra ele.
Beleza, eu entreguei sem ressalvas. Invoquei Terpsicore pra garantir. Meio tonto, nem senti quando o cabra me agarrou pela cintura e me arrastou para o meio do salão. Sussurrando no meu cangote: é só contar 1 e 2 e 1 e 2 e 1 e 2.
Alguém se lembra de ter visto, na infância, na feira, aqueles caras que prendiam uma boneca de pano na cintura e dançavam horrores, criando a ilusão de que a boneca era viva? Pois eu estava me sentindo a própria nega maluca. Só que feita de pau e cimento ao invés de feltro recheado com algodão.
Eu, aplicadíssimo. A primeira, a segunda, a terceira música. Trocando os pés, errando na conta, tropeçando nos próprios pés ou nos do parceiro, pagando mico geral. Na quarta, o cabra arretou-se: caraca, velho, eu desisto. Você nasceu com duas pernas canhotas! E me largou sozinho no salão. A fama do cabra nunca mais foi a mesma...
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Mas mesmo assim eu insisto. Dançar é bom pra caramba! De qualquer jeito. No ritmo ou fora dele, com molejo ou sem, requebrado ou varapau - não importa - vale a intenção. Dançar libera as couraças, a energia ruim acumulada, ativa a kundalini, o erotismo, traz felicidade. Dançar prolonga a vida e suaviza a existência.
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Por falar nisso, sexta-feira eu fui pro samba. Só não sambei até o dia raiar (com os 6 passinhos partindo do ombro) porque minha carona quis ir embora antes das 3 da manhã. Mas isso é assunto para outra postagem.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
jaca
| Matriarca trazendo uma jaca-mole pequena (foto do Gabriel) |
Segundo a internet, a jaca (para quem não conhece, o fruto da jaqueira) é o maior fruto cultivado do mundo, podendo pesar até 60 quilos e 90 cm de diâmetro. É originária da África (outros dizem Sudeste Asiático) e foi trazida pelos portugueses no período da colonização. A jaca é rica em carboidratos, cálcio, ferro, fósforo, iodo, vitaminas A, B e C e etc.
A casca da jaca é dura e áspera, formada por pequenas saliências pontiagudas, na cor verde-amarelada. O interior é formado por uma polpa viscosa e fibrosa, amarela, onde aninham-se os bagos e as sementes.
No Brasil são conhecidos pelo menos 3 tipos de jaca: a jaca-dura, a jaca-mole e e a jaca-manteiga.
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Apesar do tamanho gigantesco, somente 30 a 40% dela é aproveitado. Os bagos (a polpa) podem ser saboreados in-natura, frescos. Deles fazem-se também suco, geleia, compota e uma espécie misteriosa de aguardente. Depois de cozidas e descascadas, o sabor das sementes lembra o das castanhas portuguesas. Podem ser servidas como tira-gosto ou por exemplo, esfareladas sobre uma salada verde e tomates-cereja, regada com azeite e ervas.
Outro dia descobri também (receita do médico homeopata) que o talo interno (branco e mole, de onde prendem-se os bagos) - pode ser temperado e levado ao forno como se fosse carne assada, tipo lagarto recheado.
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Há uma técnica para abrir a jaca sem ficar dias com as mãos grudando, por causa da resina que ela expele no caule, na casca e nas fibras onde se aninham os bagos e as sementes. A técnica é passar óleo de cozinha na faca e estripar a bicha sem tocá-la. Ou então usar luvas de borracha.
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Considero abrir uma jaca uma experiência sensorial única. Erótica mesmo. Acredito que todo mundo deveria abrir uma jaca pelo menos uma vez na vida. Motivo?
Porque a jaca é muito orgânica. Visceral. A viscosidade e a umidade faz a jaca parecer um ser ser vivo. A forma externa e o conjunto interior formado pelas fibras, talo, bagos e sementes lembram as entranhas de um ser extraterrestre.
Abrir uma jaca e retirar os bagos remete à sensação de fazer um parto. Uma cirurgia. Ou uma autópsia.
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Eu prefiro fazer o serviço com as próprias mãos. Sem o auxílio de faca, óleo ou luva.
Primeiro, forço até romper a membrana da casca. É incrível a sensação da aspereza cedendo. E o aroma doce que exala da ferida aberta no fruto-barriga. Depois enfio a mão na carne, por entre as fibras, para localizar os bagos. Com uma leve pressão, retiro cada semente, redonda e pegajosa. Como a cabecinha de um recém-nascido. Até restar só os tufos de fibras aderidos aos pedaços de casca, cujo destino é o lixo.
Separo os bagos em porções pequenas. Lavo bem os caroços, cozinho-os, descasco-lhes e também os congelo. Para comer um ou outro fora da temporada das jacas.
(Hoje eu guardei o talo interno para experimentar a receita do doutor no almoço de amanhã).
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Nas religiões afro-brasileiras a jaqueira é uma das árvores de Loko ou Iroko, a divindade-árvore. Em alguns terreiros os filhos não podem comer jaca ou mesmo aproximar-se dela. Em outros, a quizila (restrição) é só para os filhos de Oxum.
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Além da fascinação pela forma, aroma e textura, e antes de saber da presença dela no candomblé (conforme parágrafo acima) eu sempre achei a jaca um fruto sagrado. A jaqueira não necessita de muitos cuidados. Cresce rápido, desde que o solo possua um mínimo de umidade. A árvore adulta é exuberante. Frutifica generosamente. Os frutos nutritivos são capazes de alimentar de forma variada uma família inteira (seja indiana, coreana, tailandesa, vietnamita, africana, nordestina) nos períodos de escassez.
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Plagiando uma amiga: façamos uma campanha pela disseminação da jaca. Levemos a jaca para a Ana Maria Braga e para a Regina Cazé na Rede Globo e para todos os lares brasileiros. Exportemos jaca fresca, jaca em conserva, sementes de jaca enlatadas, suco de caixinha de jaca, jaca sem agrotóxicos. Fabriquemos roupas, calçados, telhas, peças para automóveis, submarinos e aviões com fibras de jaca. Votemos na jaca, libertemo-nos pela jaca, oremos pela jaca, ó jaca-mole, jaca-manteiga, jaca-dura, livrai-nos do Malamém (*), só a jaca poderá nos salvar.
(*) frase de um mamulengo assistido no domingo
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