Cedo, outro dia, mal abri a porta, a gata escapuliu para o jardim. Voltou com um pássaro vivo na boca. Enfiaram-se debaixo da mesa. Puxei-a pelo rabo. Tirei-lhe o brinquedo. Era mínimo. Asas cinzentas e penugem esverdeada no peito. Unhas delicadíssimas agarradas à pele da minha mão. Mais morto que vivo.
Depositei-o no alto, entre as folhas da trepadeira. Esqueci dele enquanto preparava o café da manhã. Depois de algum tempo voltei para olhá-lo. Ele ainda estava enganchado nas folhas. Mexeu-se ao ser tocado. Pensei: outra criatura salva pelas minhas mãos.
Minutos depois ouvi o farfalhar de asas. O pássaro tinha caído da folhagem. Debatia-se descontrolado no chão. A inevitável luta interna final. Nada a fazer.
Constatei então que participávamos - a gata, o pássaro, eu - de um jogo, no mínimo, estúpido. O pássaro era a vítima. O perdedor irreversível. Morria sem motivo. Talvez por um descuido, vacilo de fração de segundos.
A gata - pretensa vitoriosa - pobre coitada!, estava à mercê do irracional e do mero instinto - para nós, humanos, adjetivado de "assassino". Inocente, a gata regozijava-se com o troféu estrebuchando no chão.
E eu? inteligente? consciente? racional? Mais que testemunha - naquela manhã luminosa de verão (parafraseando Clarice) eu era também juiz. Parcial. Pior: meu papel na brincadeira era o papel do deus onipotente (mas não onisciente) que tanto aprendi a questionar. Um deus pretensioso e babaca.
Por interferir, sem medir consequências, na existência dos seres e das coisas.
Primeiro, simplesmente por criar um felino (exterminador de pássaros). Segundo, como se a dupla tentativa de salvar aquele pássaro minúsculo me redimisse da culpa de sua morte. Ou amenizasse, desculpasse, perdoasse o instinto assassino da gata.
Constatado o irreversível, havia duas opções:
a) Deixar o pássaro agonizar até a morte natural.
b) abreviar com uma pedrada certeira o sofrimento do bicho.
(Caramba, adentrei pelos caminhos insondáveis da metafísica e filosofia).
"A" ou "b" eram únicas opções possíveis. Eram a própria regra do jogo do deus cruel. Regras ridículas. Melhor dizer: falácias.
Escolhi "b". Por compaixão. Sadismo. Covardia. Curiosidade.
A agonia do pássaro era delicada. Só o farfalhar descontrolado das asas contra o cimento.
A gata, saciada, observava de longe.
Eu, deus-canastrão, observava o tédio da gata contraposto ao desespero do pássaro.
Por fim o pássaro morreu. A gata - a mais esperta do jogo - há muito tinha encontrado outro interesse, dentre tantos, no quintal: grilos, folhas secas, lagartixas, besouros - ou a própria sonolência de existir.
Eu - deus ridículo - naquela hora, sem saber, o mais inferior - ali parado, só de cueca, arrotando o café-com-leite, humano, demasiado humano, tirando com a língua os restos de pão grudados nos dentes, vassoura e pá de lixo a postos, diante do minúsculo cadáver do pássaro que obscurecia a luminosidade da manhã. A luz e a alegria de todas as manhãs futuras da minha existência.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
diário gerúndio de atualização
lidando com a morte. conversando com espíritos. não compreendendo os sinais. esboroando por dentro. apreendendo a finitude. cavando buracos. inumando. plantando lírios para ela. sentindo saudades. confundindo tudo.
...
nadando de cachorrinho nos clássicos. visitando com o romano e o florentino os círculos mais animados do inferno. demorando a sair das vidas dos primeiros homens ilustres. comparando a caretice de numa com a porralouquice de sólon. contrabalançando com roberto piva e apimentados mexicanos contemporâneos.
...
cavoucando a terra. colhendo pitangas. ajudando no parto das jacas. rastelando toneladas de folhas secas. arrancando plantas velhas pela raiz. ceifando textos antigos. morrendo de calor. suando em bicas. aspirando o perfume da laranjeira em flor.
...
rodando a saia & segurando o turbante & entrando no ritmo. tomando todas só em ocasiões especiais. vulgarizando. pegando quase sem distinção. deixando vir a padilha. parafraseando caio. tendo jogo de cintura para evitar lidar com a dama de negro que eu sei um dia virá e encostará a mão gelada no meu joelho mas agora não.
...
nadando de cachorrinho nos clássicos. visitando com o romano e o florentino os círculos mais animados do inferno. demorando a sair das vidas dos primeiros homens ilustres. comparando a caretice de numa com a porralouquice de sólon. contrabalançando com roberto piva e apimentados mexicanos contemporâneos.
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cavoucando a terra. colhendo pitangas. ajudando no parto das jacas. rastelando toneladas de folhas secas. arrancando plantas velhas pela raiz. ceifando textos antigos. morrendo de calor. suando em bicas. aspirando o perfume da laranjeira em flor.
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rodando a saia & segurando o turbante & entrando no ritmo. tomando todas só em ocasiões especiais. vulgarizando. pegando quase sem distinção. deixando vir a padilha. parafraseando caio. tendo jogo de cintura para evitar lidar com a dama de negro que eu sei um dia virá e encostará a mão gelada no meu joelho mas agora não.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
domingo, 6 de outubro de 2013
diário fotográfico. cenografia (m)eu caio:
| dia 1: maquete |
| dia 2:início da montagem |
| dia 3: afinação da luz |
| dia 3: afinação da luz |
| dia 3: afinação da luz |
| dia 3: afinação da luz |
| dia 3: saída do teatro |
| banner com a velha olivetti |
| dia 5: detalhes do cenário pintados à mão |
| dia 5: detalhes do cenário pintados à mão |
| dia 5: detalhes do cenário pintados à mão |
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
espaço elefante
São muitas lembranças da infância. Havia mangueiras, abacateiros frondosos e um pé de cagaita na rua dos fundos. Havia também um trio de moradores de rua: João (uma espécie de Arthur Bispo), que produzia e vestia acessórios feitos de lixo (hoje chamado reciclado); Zé, torcedor fanático do time de futebol do Ceub e Maria Preta, negra, bêbada sempre, uma espécie de princesa decaída, e namorada do Zé e do João ao mesmo tempo. Dona Mariazinha, do terreiro de umbanda. Beijos furtivos nos terrenos baldios. E tantas outras.
Passados alguns anos, casamento e paternidade recentes, voltei a morar na casa. Diversas vezes. Outros rumos, mudanças, filho, separações, reuniões, mais casamentos - Outros anos passados e lá estava eu, morando na casa de novo. Definitivamente daquela vez (ou quase): herança paterna.
A casa localiza-se em um beco em plena região comercial da Asa Norte conhecida pela impronunciável sigla SCLRN. (Para a velha geração: pertinho do histórico Bom Demais). O lugar sempre foi underground, desvalorizado por causa da vizinhança: as eternas oficinas mecânicas, lojas de autopeças, revendas de carros, sinucas, botecos, restaurantes a quilo.
Já havia funcionado nela um restaurante natureba, um bar-livraria-casa-de-shows anarquista louquérrimo, um ateliê coletivo, uma quase-escolinha de arte e por fim ateliê individual (onde, dentre outras coisas eu pintava elefantes).
Devido ao aluguel mais barato, foram aparecendo outros artistas nas redondezas. Madame E., pioneira dos tempos da fundação da cidade, artista plástica, desenhista, performer. Um grupo de artistas multimídia (início dos anos 2000) que projetava filmes experimentais ao ar livre, sob a marquise. Grafiteiros itinerantes. Uma companhia de teatro que morava, montava e apresentava espetáculos na casa ao lado. Um arquiteto doidão na esquina. Assim por diante.
A certa altura a casa foi reformada. Ou melhor, transformada. Com projeto intuitivo e ideias de amigos. Abrimos varandas, derrubamos paredes, furamos lajes, erguemos escada, cobogós, claraboias, telhado isotérmico, ducha, impermeabilização, revestimento, pintura branca - linda, ousada, contemporânea - verdadeiro milagre estético com o pouquíssimo dinheiro disponível.
Há uns 3 anos fechou-se um ciclo de vida. O destino deu uma reviravolta. Vendi a casa. Nunca mais voltei lá.
...
Há pouco recebi uma mensagem no celular. Com foto. Do filho. Estava emocionado:
Ele tinha sido convidado para a abertura de um novo espaço cultural na Asa Norte. Escritório e galeria de arte, ateliê, novos artistas. Mais especificamente na 706 Norte. O espaço era projeto de uma amiga da namorada dele. Ele mal pôde acreditar: era nossa antiga casa.
O lugar se chama Espaço Elefante.
...
Eu fiquei mais emocionado ainda. Sensação de um sonho alheio realizado que de certa forma eu participei.
Que as divindades de todas as dimensões venham e derramem boas energias e proporcionem longa vida para o lugar que foi e será sempre parte essencial de mim.
(agradecimentos à Bruna e Gabriel)
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
domingo, 29 de setembro de 2013
o pedreiro e a chuva
A casa estava com infiltrações. Para consertar, me indicaram um pedreiro. Competente, rápido e de confiança. Com pressa por causa da temporada de chuva próxima eu aceitei o preço sem questionar.
Apesar de alguns estresses ele cumpriu o prazo estipulado. Não com tanto critério e qualidade como o propalado, mas aparentemente a contento. Arrancou o piso antigo, impermeabilizou com manta asfáltica, fez contrapiso, colocou novo piso, garantiu o serviço por 1 ano, recebeu e foi-se embora.
Na primeira chuva o problema voltou.
...
O pedreiro veio na semana passada para dar garantia ao serviço malfeito. Descobriu (ou reinventou) outro problema, por suposto nada a ver com o que ele tinha entregue (e cobrado os olhos da cara). Garantiu (pela enésima vez) rapidez e eficácia. Dessa vez a infiltração estaria definitivamente debelada.
...
Para orçar o novo serviço ele teria que quebrar a parede. Para quebrar a parede ele tiraria a porta-janela. E me deixar ao relento.
...
Na quarta-feira ele tirou a porta-janela. Colocou no vão uma lona plástica colada com fita crepe. Afirmou com toda convicção que aguentaria até o dia seguinte, quando começaria o quebra-quebra.
Não aguentou. Na mesma tarde o vento jogou longe o plástico. Ele veio, refez a proteção improvisada. E lançou a bomba na maior cara-de-pau: somente poderia iniciar o serviço na segunda-feira (estava terminando outra obra). Mas que não choveria até lá. Se chovesse, a gambiarra aguentaria.
Eu me sentindo otário exponencial. Era mais que óbvio que estava sendo enrolado. O trabalho do pedreiro excepcional era medíocre, irresponsável e demasiado porco.
...
Hoje à tarde veio a chuva. Felizmente, apesar de persistente, não muito forte. O suficiente para arrancar de novo a lona-plástica.
Evacuei o local às pressas. Tirei a aparelhagem de som, os CDs, uns livros. Ainda arranjei o plástico de forma que se a chuva não engrossar demais, não inunde o resto da casa.
...
Depois, a vontade era ligar para o pedreiro, mandar recolocar a porta imediatamente, assumir o prejuízo e demiti-lo por telefone mesmo.
Mas seria um pitaco inócuo. Ele não viria mais, eu teria que arcar com os gastos da recolocação da porta-janela e do futuro conserto das calhas. Sem condições.
Dizer diplomaticamente poucas e boas ao profissional irresponsável (se ele vier mesmo amanhã) e negociar para que ele volte no próximo ano, quando a chuva acabar.
Ou começar tudo do zero. Alguém conhece um pedreiro?
Apesar de alguns estresses ele cumpriu o prazo estipulado. Não com tanto critério e qualidade como o propalado, mas aparentemente a contento. Arrancou o piso antigo, impermeabilizou com manta asfáltica, fez contrapiso, colocou novo piso, garantiu o serviço por 1 ano, recebeu e foi-se embora.
Na primeira chuva o problema voltou.
...
O pedreiro veio na semana passada para dar garantia ao serviço malfeito. Descobriu (ou reinventou) outro problema, por suposto nada a ver com o que ele tinha entregue (e cobrado os olhos da cara). Garantiu (pela enésima vez) rapidez e eficácia. Dessa vez a infiltração estaria definitivamente debelada.
...
Para orçar o novo serviço ele teria que quebrar a parede. Para quebrar a parede ele tiraria a porta-janela. E me deixar ao relento.
...
Na quarta-feira ele tirou a porta-janela. Colocou no vão uma lona plástica colada com fita crepe. Afirmou com toda convicção que aguentaria até o dia seguinte, quando começaria o quebra-quebra.
Não aguentou. Na mesma tarde o vento jogou longe o plástico. Ele veio, refez a proteção improvisada. E lançou a bomba na maior cara-de-pau: somente poderia iniciar o serviço na segunda-feira (estava terminando outra obra). Mas que não choveria até lá. Se chovesse, a gambiarra aguentaria.
Eu me sentindo otário exponencial. Era mais que óbvio que estava sendo enrolado. O trabalho do pedreiro excepcional era medíocre, irresponsável e demasiado porco.
...
Hoje à tarde veio a chuva. Felizmente, apesar de persistente, não muito forte. O suficiente para arrancar de novo a lona-plástica.
Evacuei o local às pressas. Tirei a aparelhagem de som, os CDs, uns livros. Ainda arranjei o plástico de forma que se a chuva não engrossar demais, não inunde o resto da casa.
...
Depois, a vontade era ligar para o pedreiro, mandar recolocar a porta imediatamente, assumir o prejuízo e demiti-lo por telefone mesmo.
Mas seria um pitaco inócuo. Ele não viria mais, eu teria que arcar com os gastos da recolocação da porta-janela e do futuro conserto das calhas. Sem condições.
Dizer diplomaticamente poucas e boas ao profissional irresponsável (se ele vier mesmo amanhã) e negociar para que ele volte no próximo ano, quando a chuva acabar.
Ou começar tudo do zero. Alguém conhece um pedreiro?
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
diário repetitivo
Finalmente (às 22:53) a sexta-feira chegou para ficar. Saiba as razões da demora a seguir:
1.
Lembram-se do post sobre a crise convulsiva da cadela? Que eu pensava serem-lhe aqueles os derradeiros dias de vida? (se não se lembram, releiam aqui). Pois a situação inverteu-se. É como se aquilo nunca tivesse acontecido. Pandora, aos 12 anos, retomou a integral e irrestrita disposição da juventude.
Mais uma vez a lição reaprendida com ela: viver vale a pena. Sempre. A qualquer instante. A todo custo.
2.
As infiltrações apareceram logo na primeira chuva após terminada a reforma da casa nova. Deixei passar. Até o limite do suportável. Ou seja, 2 anos de goteiras, manchas de mofo no teto do quarto e cascas de pintura caindo na cabeça dos convidados.
Então pedi indicação de mão-de-obra confiável.
Veio o Kleyton. Alardeando o tempo todo a própria honestidade e a qualidade do serviço. Oferecendo garantia irrestrita. Prometendo mundos e fundos.
Kleyton quebrou, descascou, impermeabilizou, sujou, substituiu. Me fez gastar em material pelo menos 2 vezes o dinheiro que eu não tinha. Faltou, atrasou, me enrolou e me infernizou a vida por 30 dias. Como de praxe, 2 dias após a entrega do serviço (e consequente pagamento), choveu a primeira chuva da primavera no cerrado - e com ela a mesmíssima infiltração.
Kleyton detectou novos problemas. Na quarta-feira arrancou as portas e as janelas do local afetado. Na quinta-feira, após os meus pedidos desesperados, mandou o ajudante cobrir os vãos com lona plástica. Pois que estava a terminar outra obra e viria me socorrer assim que pudesse.
A lona plástica foi mal colocada. O vento arrancou-a na madrugada. Liguei ao Kleyton hoje cedo. Receando a chuva prometida para o final de semana. Ele veio ao final do dia. Prometendo solução definitiva até, no máximo, a segunda-feira próxima. Mas o plástico - ouço o farfalhar ao vento agora, na madrugada - descolou (talvez irremediavelmente) de novo.
Que os deuses e as iabás velhas segurem a chuva prometida pelo menos até segunda-feira cedo.
3.
Ainda tem a praga dos besouros. Como no Egito bíblico. É impossível acender a luz sem o ataque da horda desses coleópteros (do tamanho de uma mosca) cuja razão de existir resume-se a uma noite esvoaçando em torno de qualquer foco de luz, seguido de uma manhã de estertor com as perninhas pra cima, uma vassoura e uma pá de lixo que os varram à primeira claridade do alvorecer e um sepultamento coletivo (milhares de semelhantes ainda vivos e esperneantes) na lixeira da cozinha.
Mais as baratas voadoras que me perseguem desde a ancestralidade remota.
4.
Há também o cenário. E a burocracia infinda e kafkiana do projeto cultural. Preencho recibos, guias, cheques, formulários. Visito o teatro, converso com o técnico, pechincho, negocio, compro material, devolvo, peço notas fiscais, penso e repenso, abandono, retomo soluções. Como no diário-gerúndio de ontem:eu não vejo a hora de acabar.
5.
Os meses de julho e agosto próximos-passados (adoro essa expressão) foram punks. Jet-leg, gripe, inércia e depressão prolongadas (vide a escassa produção no blog).
A cura deu-se à base da milagrosa homeopatia do Dr. Basílio, do floral anti-pânico-social e da atividade física beirando à neurastenia. Cujas consequências são um possível cancro de pele em decorrência do excesso de sol, o latejar constante da musculatura das costas, o ombro prestes a travar de vez e o desgaste da articulação do fêmur.
6.
Adquiri uma panificadora doméstica. Daquelas que é só despejar os ingredientes e acordar na manhã seguinte com um super-pão quentinho e perfumado esperando para ser devorado.
Fazer o próprio pão é uma experiência ancestral. Sagrada.
Experimento. Invento. Subverto as regras das receitas. Pão da aveia, pão integral, pão de gergelim, pão caseiro, pão rápido, pão demorado, pão que cresce, pão que sola, pão de goiaba, pão com besouro para ser jogado fora. Ad infinitum.
Por isso eu me esmero nas atividades físicas descritas no item anterior para compensar os possíveis excessos.
7.
Para completar, o convite para participar da antologia.
Confesso: sem tempo, pique ou disposição para produzir textos novos e consistentes. Dignos dos demais autores. Apesar de toda a compreensão e condescendência do organizador do projeto. Propus o caminho aparentemente fácil: resgatar textos do blog.
Levei adiante. Acha que é fácil escolher 25 entre quase 1.200 postagens ao longo dos 3 últimos anos?
(Resultado da primeira repescagem: 159).
8.
Ia me esquecendo do projeto Saia-da-solidão-e-tire-o-atraso-em-2-cliques-e-uma-carinha.sorridente-no-skype (para bom entendedor, meia-palavra basta). Projeto este adiado indefinidamente. Por falta de quorum.
9.
Por tudo isso dei um tempo. Comprei um espumante agora há pouco. Bebido até a última gota no exato instante em que te escrevo.
Sei que falta fazer uma infinidade de coisas. Ligar para a amiga operada. Para a que iria operar. Para a amiga cujo pai está doente. Para o provável e quase impossível namorado. Para a futura nora. Para a diretora da peça. Para seduzir o protagonista da peça. Para organizar o almoço de aniversário dos 90 anos da mãe. Para adiar a aula de alemão da próxima terça-feira. Para marcar a vistoria no Detran. Renovar o seguro. Procurar receitas na internet. Preparar o material da montagem. Agradecer à veterinária. Pedir nova receita ao homeopata. Marcar a acupunturista.O massagista. O dentista. O acompanhante.
10.
Na repescagem dos textos para a antologia encontrei um que se encaixa perfeitamente no momento atual (são 0h07min). O título é "Libações". Para quem não leu ou quiser reler, clique aqui.
1.
Lembram-se do post sobre a crise convulsiva da cadela? Que eu pensava serem-lhe aqueles os derradeiros dias de vida? (se não se lembram, releiam aqui). Pois a situação inverteu-se. É como se aquilo nunca tivesse acontecido. Pandora, aos 12 anos, retomou a integral e irrestrita disposição da juventude.
Mais uma vez a lição reaprendida com ela: viver vale a pena. Sempre. A qualquer instante. A todo custo.
2.
As infiltrações apareceram logo na primeira chuva após terminada a reforma da casa nova. Deixei passar. Até o limite do suportável. Ou seja, 2 anos de goteiras, manchas de mofo no teto do quarto e cascas de pintura caindo na cabeça dos convidados.
Então pedi indicação de mão-de-obra confiável.
Veio o Kleyton. Alardeando o tempo todo a própria honestidade e a qualidade do serviço. Oferecendo garantia irrestrita. Prometendo mundos e fundos.
Kleyton quebrou, descascou, impermeabilizou, sujou, substituiu. Me fez gastar em material pelo menos 2 vezes o dinheiro que eu não tinha. Faltou, atrasou, me enrolou e me infernizou a vida por 30 dias. Como de praxe, 2 dias após a entrega do serviço (e consequente pagamento), choveu a primeira chuva da primavera no cerrado - e com ela a mesmíssima infiltração.
Kleyton detectou novos problemas. Na quarta-feira arrancou as portas e as janelas do local afetado. Na quinta-feira, após os meus pedidos desesperados, mandou o ajudante cobrir os vãos com lona plástica. Pois que estava a terminar outra obra e viria me socorrer assim que pudesse.
A lona plástica foi mal colocada. O vento arrancou-a na madrugada. Liguei ao Kleyton hoje cedo. Receando a chuva prometida para o final de semana. Ele veio ao final do dia. Prometendo solução definitiva até, no máximo, a segunda-feira próxima. Mas o plástico - ouço o farfalhar ao vento agora, na madrugada - descolou (talvez irremediavelmente) de novo.
Que os deuses e as iabás velhas segurem a chuva prometida pelo menos até segunda-feira cedo.
3.
Ainda tem a praga dos besouros. Como no Egito bíblico. É impossível acender a luz sem o ataque da horda desses coleópteros (do tamanho de uma mosca) cuja razão de existir resume-se a uma noite esvoaçando em torno de qualquer foco de luz, seguido de uma manhã de estertor com as perninhas pra cima, uma vassoura e uma pá de lixo que os varram à primeira claridade do alvorecer e um sepultamento coletivo (milhares de semelhantes ainda vivos e esperneantes) na lixeira da cozinha.
Mais as baratas voadoras que me perseguem desde a ancestralidade remota.
4.
Há também o cenário. E a burocracia infinda e kafkiana do projeto cultural. Preencho recibos, guias, cheques, formulários. Visito o teatro, converso com o técnico, pechincho, negocio, compro material, devolvo, peço notas fiscais, penso e repenso, abandono, retomo soluções. Como no diário-gerúndio de ontem:eu não vejo a hora de acabar.
5.
Os meses de julho e agosto próximos-passados (adoro essa expressão) foram punks. Jet-leg, gripe, inércia e depressão prolongadas (vide a escassa produção no blog).
A cura deu-se à base da milagrosa homeopatia do Dr. Basílio, do floral anti-pânico-social e da atividade física beirando à neurastenia. Cujas consequências são um possível cancro de pele em decorrência do excesso de sol, o latejar constante da musculatura das costas, o ombro prestes a travar de vez e o desgaste da articulação do fêmur.
6.
Adquiri uma panificadora doméstica. Daquelas que é só despejar os ingredientes e acordar na manhã seguinte com um super-pão quentinho e perfumado esperando para ser devorado.
Fazer o próprio pão é uma experiência ancestral. Sagrada.
Experimento. Invento. Subverto as regras das receitas. Pão da aveia, pão integral, pão de gergelim, pão caseiro, pão rápido, pão demorado, pão que cresce, pão que sola, pão de goiaba, pão com besouro para ser jogado fora. Ad infinitum.
Por isso eu me esmero nas atividades físicas descritas no item anterior para compensar os possíveis excessos.
7.
Para completar, o convite para participar da antologia.
Confesso: sem tempo, pique ou disposição para produzir textos novos e consistentes. Dignos dos demais autores. Apesar de toda a compreensão e condescendência do organizador do projeto. Propus o caminho aparentemente fácil: resgatar textos do blog.
Levei adiante. Acha que é fácil escolher 25 entre quase 1.200 postagens ao longo dos 3 últimos anos?
(Resultado da primeira repescagem: 159).
8.
Ia me esquecendo do projeto Saia-da-solidão-e-tire-o-atraso-em-2-cliques-e-uma-carinha.sorridente-no-skype (para bom entendedor, meia-palavra basta). Projeto este adiado indefinidamente. Por falta de quorum.
9.
Por tudo isso dei um tempo. Comprei um espumante agora há pouco. Bebido até a última gota no exato instante em que te escrevo.
Sei que falta fazer uma infinidade de coisas. Ligar para a amiga operada. Para a que iria operar. Para a amiga cujo pai está doente. Para o provável e quase impossível namorado. Para a futura nora. Para a diretora da peça. Para seduzir o protagonista da peça. Para organizar o almoço de aniversário dos 90 anos da mãe. Para adiar a aula de alemão da próxima terça-feira. Para marcar a vistoria no Detran. Renovar o seguro. Procurar receitas na internet. Preparar o material da montagem. Agradecer à veterinária. Pedir nova receita ao homeopata. Marcar a acupunturista.O massagista. O dentista. O acompanhante.
10.
Na repescagem dos textos para a antologia encontrei um que se encaixa perfeitamente no momento atual (são 0h07min). O título é "Libações". Para quem não leu ou quiser reler, clique aqui.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
diário gerúndio real
secretariando. agendando reuniões. cancelando compromissos. imprimindo guias. preenchendo formulários. redigindo relatórios. separando. recuperando. guardando & retirando papelada das pastas. copiando. rasgando. grampeando. prendendo com clipes. esperando que acabe.
...
vendendo o carro. monitorando à distância. aguardando a vez. pagando tarifas. vistoriando. autenticando firmas. transferindo. despachando. sendo educado mas cobrando posicionamentos.
...
trabalhando. criando. pensando em hipóteses, possibilidades & resultado. criticando. emitindo opiniões. ouvindo críticas & fofocas & comentários nem sempre edificantes. esquivando de comprometimentos ideológicos. torcendo para que tudo dê certo.
...
relendo. escolhendo. repescando. elaborando. editando. planejando. contando com a boa vontade & a paciência alheia.
...
sendo simpático. sendo otimista. varrendo besouros. ouvindo sem querer a conversa dos vizinhos. fazendo pães. estudando inglês. comendo na rua. tomando chá de boldo. nadando dia sim dia não. exercitando. dormindo tarde & acordando cedo. dormindo mal. cuidando da vida. procurando príncipes. desencantando. lendo meia-dúzia de linhas. pensando em escrever. desistindo por falta de tempo. assistindo seriados antigos. caindo em sono profundo.
...
vendendo o carro. monitorando à distância. aguardando a vez. pagando tarifas. vistoriando. autenticando firmas. transferindo. despachando. sendo educado mas cobrando posicionamentos.
...
trabalhando. criando. pensando em hipóteses, possibilidades & resultado. criticando. emitindo opiniões. ouvindo críticas & fofocas & comentários nem sempre edificantes. esquivando de comprometimentos ideológicos. torcendo para que tudo dê certo.
...
relendo. escolhendo. repescando. elaborando. editando. planejando. contando com a boa vontade & a paciência alheia.
...
sendo simpático. sendo otimista. varrendo besouros. ouvindo sem querer a conversa dos vizinhos. fazendo pães. estudando inglês. comendo na rua. tomando chá de boldo. nadando dia sim dia não. exercitando. dormindo tarde & acordando cedo. dormindo mal. cuidando da vida. procurando príncipes. desencantando. lendo meia-dúzia de linhas. pensando em escrever. desistindo por falta de tempo. assistindo seriados antigos. caindo em sono profundo.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
poemas portugueses - casimiro de brito
![]() |
| Caverna. Praia do Benagil. Portugal. De: http://jp-lugaresfantasticos.blogspot.com.br |
Ao cimo da Fóia
Lá muito ao longe os olhos decifram
o perfil dos rios a gramática
ora suntuosa ora
seca
das praias
enquanto na memória se concentram
páginas de areia armas
sem gume símbolos da noite
Branca desesperada
...
Templo submerso
(Benagil)
O mar descobre em seu tempo
de aridez
Templo onde brilha a lenta
madrugada do mundo pedras desprendidas de
formadas
pelos elementos em isita
vigilante
Pedras ou pássaros gravados na sombra barcos
de rosto humano
Essa é a outra face da ferida
talhada no centro da terra no centro
do sol pelo fulgor das marés pela ternura
de armas marítimas
O mar o alimenta com seus frutos
de plena infinitude
O tempo a paciência
...
Os três castelos
(Praia da Rocha)
O perfil sereno o metal desprendido esculpido
nestas rochas a desolada confiança
no tempo no vínculo da morte
em movimento
A ternura generosa do
silêncio
Depuram
O nosso orgulho desmedido os nossos passos
de cinza as nossas guerras
em círculo
Dentro do pó
...
(Casimiro de Brito, de Mesa do Amor, 1977)
(Fóia é o nome do ponto mais alto do Algarve, na serra de Monchique, em Portugal. É acessível por estrada a partir de Monchique. Tem 902 m de altitude e uma proeminência topográfica de 739 m. Nos dias claros é possível ver o oceano Atlântico. Fonte: Google maps).
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