terça-feira, 5 de novembro de 2013

o erro, a mea culpa, a insônia e lewis carroll

Por pândega (meu pai adorava dizer isso) fiz um teste de vocabulário na internet. (em: http://www.interney.net/testes/teste001.php) O teste consiste em acertar o significado de 30 palavras. Fiz, crente que era moleza. Mas errei. 4 palavras - 2 delas difíceis e outras 2 ridículas de fáceis. Mesmo assim fui elogiado na mensagem que acompanhava o resultado:

Parabéns! Você está acima da média e prova com isso que é uma pessoa amante da literatura e que domina muito bem a língua portuguesa. Pessoas como você se expressam bem em qualquer meio e não têm praticamente dificuldade alguma em entender textos considerados eruditos. Continue praticando. Quem sabe um dia você não se torna um filólogo?

Divulguei o resultado nas redes sociais. E me arrependi. Eram erros imperdoáveis para alguém autonomeado escritor. Era dar a cara à tapa, admitir publicamente a fragilidade, a ignorância assim, para deus e o mundo para os 40 e poucos amigos, os 3 seguidores, por brincadeira, falta do que fazer?

Porém era tarde para excluir a postagem. Em poucos minutos havia meia dúzia de curtidas e 2 comentários. O jeito era assumir.

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Dormi mal por causa e do possível escárnio do público. Por causa das 4 palavras : hálux, enxu (as difíceis); carcaça, compilação (as fáceis). Tive pesadelos. Prestes a amanhecer e eu não conseguia grudar os olhos. Até que veio o insight: na forma de uma das epígrafes apostas na Rapunzel, meu primeiro livro. Diálogo entre Humpty Dumpty e Alice:

 - Quando uso uma palavra - disse Humpty Dumpty em tom de escarninho - ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique... nem mais nem menos.
 - A questão - ponderou Alice - é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
 - A questão - replicou Humpty Dumpty - é saber quem manda. É só isso.
 
Só então eu descansei. Juntei as pestanas, como também dizia meu pai. Sob os auspícios do definitivo (e doido) Humpty Dumpty. Que provavelmente tem mais o que fazer além de se preocupar com o que os outros pensam de si ou responder testes de conhecimento vocabular online.

domingo, 3 de novembro de 2013

diário gerúndio de amor & de paixão

folheando david hockney & te enxergando em cada imagem. sentindo a tua ausência. esperando ansioso a mensagem que não vem. perdendo o sono. antecipando cataclismos interiores. pensando em nós dois numa banheira de espuma. fazendo declarações de amor desnecessárias. cortando os pulsos com uma faca de plástico. ouvindo ângela maria & vovó rita lee.

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tropeçando nas 16 direções da rosa-dos-ventos. acendendo incenso pelos 4 cantos. fumando todos os cigarros da casa inclusive o charuto-oferenda aos pés de ganesha. bebendo a pinga da garrafada. rodopiando no centro da estrela de 7 pontas. gargalhando. indo com deus e nossa senhora & o capeta atrás tocando a viola. engolindo em seco. pedindo aos deuses que você venha nas próximas 24 horas. ouvindo roberto carlos & liga-tripa.

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lendo roberto piva em voz alta até a gata cochilar. lendo sobre sonhos. sonhando com escrever. pesquisando sobre a vida dos amantes quase ilustres ou pouco mais que anônimos. tocando acordeão. controlando a acidez estomacal. evitando a flatulência & a turbulência. escovando os dentes e empastando o rosto com creme antirrugas. desejando sonhar com você. ouvindo shirley horn.

sábado, 2 de novembro de 2013

(2 trechos para sempre perdidos)

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Paralelo ao reinado das mulheres na cozinha havia o desgoverno das crianças e do cachorro, desde muito cedo até bem tarde da noite, em todas as partes da casa (só nos era proibido o quarto dos pais), no jardim, entre as galinhas, com os pombos, o cabrito no quintal, a leitoa no chiqueiro improvisado, em volta dos pés de tangerina, na goiabeira, a gameleira em frente ao portão, no muro alto dos fundos ou na mureta baixa da rua, nas casas dos vizinhos.

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Livres da escola, dos cadernos e dos livros, éramos completamente soltos. Comíamos aos grupos, depois das mães, tias, agregadas se esgoelarem de tanto nos chamar. Havia tombos, machucados, brigas, amores secretos e até segurar, fortuito, a mão da prima ou do primo. Havia dois tonéis de metal, quase da nossa altura (acho que eram usados como reservatórios de combustível), cheios de água, onde, em fila, tomávamos banho. Dormíamos todos em colchões espalhados pela sala, os meninos e meninas da roça, os primos e primas maiores e os menores, os irmãos e os amigos que se juntavam à festa.

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divina comédia - inferno - sétimo círculo (2)

David Carroll and Daniel Heald. Em: http://www.tabula-rasa.info/Horror/Inferno.html
A Divina Comédia foi escrita a partir de conceitos filosóficos avançados para o século XIII. É estruturada em elementos do imaginário cristão medieval. O Inferno e está repleto de personagens e elementos da mitologia grega. Para atravessar a fantástica geografia do inferno e compartilhar com Dante e Virgílio da riqueza das imagens e símbolos é necessário abstrair daqueles conceitos primitivos do pecado e da culpa cristãos e considerar pecados e pecadores como espelhos das nossas falhas e defeitos, demasiado humanos.

A entrada do inferno dantesco era próxima a Jerusalém, onde Lúcifer caiu quando foi expulso do céu. A queda abriu um enorme buraco afunilado, formando 9 círculos (uma espécie de vales ou degraus), sendo o último deles no centro do planeta onde Lúcifer está enterrado, de cabeça para baixo, mastigando por toda a eternidade Judas, Brutus e Cássio, os 3 traidores mais famosos de todos os tempos.

Transposto o portal de entrada do inferno (onde encontra-se inscrito: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”), chega-se a uma espécie de vestíbulo, onde os tíbios, os ignavos, os covardes e os indecisos

Vegetam como os sáurios indolentes;
eu os via desnudos, aguilhoados
por vespas e por moscas renitentes.


Então chega-se às margens do rio Aqueronte, onde aguarda-se o barqueiro Caronte para a travessia.

O primeiro círculo chama-se Limbo. Nele habitam aqueles que não foram batizados e os que nasceram antes de Cristo. Ali encontram-se os filósofos Sócrates, Platão, Demócrito, Empédocles, Anaxágoras e tantos outros; os poetas Homero, Ovídio, Lucano, Horácio e o próprio Virgílio, o guia de Dante naquelas paragens.

Do segundo ao quinto círculo encontram-se os pecadores cujos pecados foram cometidos sem culpa, pela inconsciência humana. No segundo círculo são punidos os luxuriosos, jogados num turbilhão de vento violento. No terceiro, o cão tricéfalo Cérbero espanca os gulosos jogados na lama sob uma chuva incandescente. O quarto círculo é defendido por Plutão. Ali são punidos os avaros e pródigos, condenados a empurrar enormes pesos. Prosseguindo a descida chega-se ao rio Estige, de sangue fervente, que banha o quinto círculo. Os irados estão nele mergulhados. No sexto círculo está a cidade de Dite. Ela divide os pecados sem culpa e os realizados com consciência. Ali são queimados os hereges, dentro de tumbas desprovidas de tampas.

O sétimo círculo é guardado pelo Minotauro de Creta. É banhado pelo rio Flegetonte. O sétimo círculo é dividido em três vales, onde estão os pecadores por violência. No primeiro vale estão os homicidas, no segundo os suicidas e no terceiro os violentos contra Deus.

O oitavo círculo é onde são punidos os fraudulentos. Ele é dividido em dez fossos, ligados por meio de pontes. São eles: 1) os rufiões e sedutores, açoitados pelos demônios; 2) os aduladores mergulhados em fezes; 3) os simoníacos (que traficaram com as coisas sagradas) enterrados de cabeça para baixo, os pés para fora, envolvidos por chamas; 4) os mágicos, adivinhos e outros embusteiros e intrujões do mesmo gênero, condenados a não olhar para a frente, caminhando com o rosto virado para as costas; 5) os corruptos, prevaricadores e trapaceiros, mergulhados em betume fervente; 6) os hipócritas, vestindo  pesadas capas de chumbo revestidas de ouro; 7) os ladrões picados por enormes serpentes; 8) os maus conselheiros ou fraudulentos imersos em chamas; 9) os promotores de cismas religiosos, os semeadores de ódios, divisões e discórdia entre pessoas e povos, sendo mutilados por terríveis golpes de espada; e  por fim 10), os falsários, subdivididos em alquimistas (falsificaram metais preciosos) - cobertos de lepra, os impostores, tomados de loucura, os falsificadores de dinheiro, atacados por hidropsia e os de palavra - consumidos pela febre.

Na parte mais funda está o nono círculo, onde são punidos os traidores.Ali desaguam os rios Estige, Flegetonte e Aqueronte, formando o rio Cocito. É um local frio ao extremo. O nono círculo é dividido em quatro esferas: a Caína (onde estão os traidores do próprio sangue), Antenora (para os traidores da pátria), a Ptoloméia (os traidores dos amigos) e Judeca (para os que atraiçoaram os chefes ou benfeitores). Na Judeca encontra-se Lúcifer, como já dito, aprisionado da cintura para baixo.

Nas próximas postagens: sobre o terceiro vale do sétimo círculo e o sexto fosso  do círculo oitavo.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

diário gerúndio em belo horizonte

digerindo imoralidade & degenerescência senil & síndrome do pânico & outras cositas más em doses homeopáticas até o fim da existência / contando os segundos para a derrocada final / viajando aos trancos e barrancos pela estrada que vai dar na imortalidade da alma / aceitando a transformação da carne / acreditando na transcendência & na evolução do espírito

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faltando um nanossegundo para transpor o portal da realidade paralela / o umbral / as mônadas / as moradas do ser / perguntando se a eternidade já é na próxima esquina / implorando valei-me giordano bruno / valei-me kierkegaard / valei-me leibniz nesse momento de provação / porque kant é meio árduo

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corujas cegas do pântano da china / ratazanas albinas do banhado / trajetória monitorada dos leões marinhos / abutres & hienas incandescidos / elefantes famintos devastando as plantações de cânhamo / tartarugas geneticamente modificadas / narinas tipo snorkel / peixe-cabeça-de-cobra / existe vida nos salares a mais de mil metros de altitude / hipogrifos // serpes bicéfalas / mulas acéfalas lançando chamas pelas ventas / cabeça de dinossauro pança de mamute / rãs comedoras de tomilho / dragões lagartos sob a lança de são jorge / dominados pelos pés sagrados de isabel / vacas / veados / zebras / antílopes / gnus / guepardos na savana / fornicando como coelhos nos intervalos de animal planet

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lendo sutras / lendo sobre alarico e a queda do império romano / incorporando mal roberto piva / ouvindo aretha franklin enquanto o vento & a chuva fustigam os vidros da janela /  trovejando no coração & relampejando na alma