segunda-feira, 11 de novembro de 2013

set 1981

Ana, Camila, eu e o camburão da PM. Setor Comercial Sul. 1981

estado de coma


Estado de Coma foi meu primeiro livro. De poesias e desenhos. Ambos hoje sofríveis, mas com a força e a vida de um adolescente confuso, perdido e no mínimo corajoso. Isso foi em 1979.

Era uma tiragem ambiciosa: 500 exemplares. Parte do livro foi impressa em mimeógrafo. Outra, clandestina, nas máquinas xerox da empresa onde eu trabalhava como office-boy. A única edição esgotou-se. Alguns exemplares foram vendidos nas mesas do Beirute e do Arabeske. A grande maioria foi distribuída para a multidão de pedestres, camelôs, hippies, travestis, funcionários públicos, vagabundos, etc que circulavam no calçadão da plataforma superior da rodoviária.

O lançamento foi uma quase-performance (naquela época eu nem sabia que isso existia): eu, cabeleira à la Doces Bárbaros, vestido de bata indiana e calçado com sandálias de corda, declamando e lançando folhas dos poemas ao vento, no mirante da Torre de Televisão. Nem é preciso dizer que fui retirado à força, pelo segurança do local, por parecer menos um performer e poeta promissor que um suicida potencial.

Que eu saiba, ainda existem 2 exemplares. Um deles foi colorido à mão e transmitido como herança intelectual ao filho. O outro (descobri outro dia), está com um amigo artista plástico que, à época da publicação, trabalhava como escriturário na mesma empresa onde eu era boy, e que em algum momento foi espelho para a minha trajetória artística.

Mas a grande surpresa foi o bilhete acima. Minha mãe me entregou, emocionadíssima, outro dia. Quase 35 anos depois de escrito. Eu nunca soube dele, ocultado por ela sabe-se lá os motivos. Só elogios, em linguagem simples, coloquial, carinhosa. Não conheci o autor (Antônio Geraldo Ramos Jubé, poeta goiano falecido em 2010) e nem faço ideia de quem seja o destinatário Edison.

A primeira crítica será muito bem guardada. Pois, além do conteúdo histórico-afetivo, foi datilografada por tia Hemicênia, que sempre deu todo o apoio às manifestações canhestras do sobrinho.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

o erro, a mea culpa, a insônia e lewis carroll

Por pândega (meu pai adorava dizer isso) fiz um teste de vocabulário na internet. (em: http://www.interney.net/testes/teste001.php) O teste consiste em acertar o significado de 30 palavras. Fiz, crente que era moleza. Mas errei. 4 palavras - 2 delas difíceis e outras 2 ridículas de fáceis. Mesmo assim fui elogiado na mensagem que acompanhava o resultado:

Parabéns! Você está acima da média e prova com isso que é uma pessoa amante da literatura e que domina muito bem a língua portuguesa. Pessoas como você se expressam bem em qualquer meio e não têm praticamente dificuldade alguma em entender textos considerados eruditos. Continue praticando. Quem sabe um dia você não se torna um filólogo?

Divulguei o resultado nas redes sociais. E me arrependi. Eram erros imperdoáveis para alguém autonomeado escritor. Era dar a cara à tapa, admitir publicamente a fragilidade, a ignorância assim, para deus e o mundo para os 40 e poucos amigos, os 3 seguidores, por brincadeira, falta do que fazer?

Porém era tarde para excluir a postagem. Em poucos minutos havia meia dúzia de curtidas e 2 comentários. O jeito era assumir.

...

Dormi mal por causa e do possível escárnio do público. Por causa das 4 palavras : hálux, enxu (as difíceis); carcaça, compilação (as fáceis). Tive pesadelos. Prestes a amanhecer e eu não conseguia grudar os olhos. Até que veio o insight: na forma de uma das epígrafes apostas na Rapunzel, meu primeiro livro. Diálogo entre Humpty Dumpty e Alice:

 - Quando uso uma palavra - disse Humpty Dumpty em tom de escarninho - ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique... nem mais nem menos.
 - A questão - ponderou Alice - é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
 - A questão - replicou Humpty Dumpty - é saber quem manda. É só isso.
 
Só então eu descansei. Juntei as pestanas, como também dizia meu pai. Sob os auspícios do definitivo (e doido) Humpty Dumpty. Que provavelmente tem mais o que fazer além de se preocupar com o que os outros pensam de si ou responder testes de conhecimento vocabular online.

domingo, 3 de novembro de 2013

diário gerúndio de amor & de paixão

folheando david hockney & te enxergando em cada imagem. sentindo a tua ausência. esperando ansioso a mensagem que não vem. perdendo o sono. antecipando cataclismos interiores. pensando em nós dois numa banheira de espuma. fazendo declarações de amor desnecessárias. cortando os pulsos com uma faca de plástico. ouvindo ângela maria & vovó rita lee.

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tropeçando nas 16 direções da rosa-dos-ventos. acendendo incenso pelos 4 cantos. fumando todos os cigarros da casa inclusive o charuto-oferenda aos pés de ganesha. bebendo a pinga da garrafada. rodopiando no centro da estrela de 7 pontas. gargalhando. indo com deus e nossa senhora & o capeta atrás tocando a viola. engolindo em seco. pedindo aos deuses que você venha nas próximas 24 horas. ouvindo roberto carlos & liga-tripa.

...

lendo roberto piva em voz alta até a gata cochilar. lendo sobre sonhos. sonhando com escrever. pesquisando sobre a vida dos amantes quase ilustres ou pouco mais que anônimos. tocando acordeão. controlando a acidez estomacal. evitando a flatulência & a turbulência. escovando os dentes e empastando o rosto com creme antirrugas. desejando sonhar com você. ouvindo shirley horn.