Tomamos o café da manhã na pousada do toboágua. Carapibus e toda a região cresceram. Prédios, pousadas, onde antes (há 5, 6 anos atrás era pedra e areia e umas poucas casas). Bom e ruim o progresso. Em Jacumã uma agência de terminais eletrônicos do Banco do Brasil quase pronta com o seguinte cartaz: "sem previsão para funcionamento".
Chuva na estrada para João Pessoa. Paramos na Estação Cabo Branco, uma maravilhosa exposição: O corpo na arte africana. Patrocinada pela Fiocruz. Montagem simples, textos claros, curtos e sintéticos, me esbaldei de fotografar, sem problemas.
Depois levei o amigo para compras no mercado de artesanato. Muitas lojas fechadas, porque era hora de almoço. Acho chato o lugar, tudo parecido, quase tudo industrializado. O único lugar em João Pessoa onde o freguês é atendido quase sempre de má vontade pelo comerciante. Exceção a uma senhora e seu discurso eloquente sobre a possível catástrofe provocada pela poluição e extinção das grandes nascentes - na Serra da Capivara!
Comprei meus poucos presentinhos (bolos de rolo) em uma das lojas de produtos do sertão, na rua do mercado, atendido por uma simpaticíssima vendedora.
Foi o dia da morte do cantor brega Reginaldo Rossi. Comoção geral em Pernambuco e na Paraíba, provavelmente em todo o Nordeste. A faxineira da Eudirce faltou o serviço em JP para ir ao velório, em Recife.
Seguimos em direção ao Bessa, à procura infrutífera das barracas - a do Golfinho. Eu tinha me esquecido que havia, da última vez que fui lá, um projeto para a retirada delas da orla. Depois do banho de mar (com muito sargaço), uma moqueca de camarão meia-boca, e cervejinha pra relaxar.
E a visita à Eudirce. Que nos recebeu, como sempre, muito bem Forte, cheia de vida, apesar das dores na coluna. Contou ao amigo sua história, como ressurgiu, após a grande crise, os estudos - supletivo, depois a Faculdade Dulcina, a pós-graduação e o projeto de mestrado abortado por causa da crise de artrose; a experiência em sala de aula, o constante apoio dos filhos, a volta para JP, as sincronicidades (ou sincronismos) da compra do apartamento maravilhoso. Deu pra gente ler um esboço de suas memórias e poemas, mostrou orgulhosa o álbum de formatura e uma toalha, que está bordando, trabalho dificílimo, cuja técnica ela resgatou dos aprendizados do colégio de freiras, em Campina Grande, há 50 anos atrás. Visita inesquecível. Com ela sempre aprendemos.
Volta tranquila, cansaço e tensão de ter dirigido tanto na cidade.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
diário de recife / carapibus - dia 3
A saída de Recife beirou ao caótico. Só por que choveu à noite. Pistas inundadas, ruas, calçadas, pessoas tendo que atravessar verdadeiros riachos de enxurrada. Falta infraestrutura de águas e esgotos. O motorista de táxi estava estacionado na mesma altura do hotel, porém do outro lado da avenida que atravessa Piedade (4 ou 5 pistas, automóveis em alta velocidade. Pois ele atravessou a rua perpendicularmente, para entrar no saguão externo do hotel, fazendo o trânsito parar, só para não ter que retornar o quarteirão. Parecia um clipe daqueles americanos de gente que faz extravagâncias no trânsito e provoca acidentes espetaculares.
O motorista era bonitinho. Com aquele sotaque recifense tão gostosos que arrepia os pelos da nuca. O amigo encantou-se. Conversou com o rapaz o tempo todo. Era filho do dono do táxi. Estava tirando as férias de um motorista. Tanto que perdemos o rumo da locadora de automóveis, rodamos mais uns 15 reais, mas valeu a pena pela companhia.
A locação do carro foi outra novela. A locadora era um muquifo, escondida no estacionamento de um posto de gasolina, em frente ao aeroporto antigo. A recepção era um puxadinho, com bancos e mesa de cimento, daqueles tipo de praça. O carro era velho, duro, meio caindo aos pedaços. Pelo mesmo preço dos legais e novinhos das locadoras grandes.
Minha paciência e ânimo estavam no limite. A ponto de rodar a baiana ou a pernambucana. O amigo contemporizou. Esperei que ele desse o piti e saíssemos dali, até a loja do concorrente. Não rolou.
Demoramos a sair de Recife por causa dos engarrafamentos em Olinda e cidades vizinhas. Depois, um acidente invisível. A estrada é ótima. Já na Paraíba paramos em uma churrascaria para almoçar. Carne de bode, contrafilé e maminhas macias como solas de sapato. Por R$ 15,90.
Saímos da locadora às 11h e só chegamos a Carapibus às 16h. Tempo nublado mas agradável. Instalamo-nos na casa de Lucinha e fomos à praia. Anoitece cedo no Nordeste. A maré subindo, ondas descontroladas. Mesmo assim brinquei bastante. Caminhamos pela praia.
À noite fomos a Jacumã fazer compras e jantar. Peixe grelhado chamado meka, que pesa cerca de 600kg, salada e macaxeira frita.Tomamos 1 garrafa de vinho em casa, conversando abobrinhas sobre MPB, cinema, teatro, etc.
Na parede da casa em frente surgiu uma barata gigante, com cerca de 10 cm. Ficou paradinha, observando (antenas perscrutando), prestando atenção ao papo. Ficou lá até a hora de dormir. Pela primeira vez na vida eu tive pena de exterminá-la com uma chinelada.
Tenho tido muitos sonhos, cinematográficos, que não me lembro ao acordar.
(pensando na Divina Comédia - o pecado da gula no Inferno e no Purgatório).
O motorista era bonitinho. Com aquele sotaque recifense tão gostosos que arrepia os pelos da nuca. O amigo encantou-se. Conversou com o rapaz o tempo todo. Era filho do dono do táxi. Estava tirando as férias de um motorista. Tanto que perdemos o rumo da locadora de automóveis, rodamos mais uns 15 reais, mas valeu a pena pela companhia.
A locação do carro foi outra novela. A locadora era um muquifo, escondida no estacionamento de um posto de gasolina, em frente ao aeroporto antigo. A recepção era um puxadinho, com bancos e mesa de cimento, daqueles tipo de praça. O carro era velho, duro, meio caindo aos pedaços. Pelo mesmo preço dos legais e novinhos das locadoras grandes.
Minha paciência e ânimo estavam no limite. A ponto de rodar a baiana ou a pernambucana. O amigo contemporizou. Esperei que ele desse o piti e saíssemos dali, até a loja do concorrente. Não rolou.
Demoramos a sair de Recife por causa dos engarrafamentos em Olinda e cidades vizinhas. Depois, um acidente invisível. A estrada é ótima. Já na Paraíba paramos em uma churrascaria para almoçar. Carne de bode, contrafilé e maminhas macias como solas de sapato. Por R$ 15,90.
Saímos da locadora às 11h e só chegamos a Carapibus às 16h. Tempo nublado mas agradável. Instalamo-nos na casa de Lucinha e fomos à praia. Anoitece cedo no Nordeste. A maré subindo, ondas descontroladas. Mesmo assim brinquei bastante. Caminhamos pela praia.
À noite fomos a Jacumã fazer compras e jantar. Peixe grelhado chamado meka, que pesa cerca de 600kg, salada e macaxeira frita.Tomamos 1 garrafa de vinho em casa, conversando abobrinhas sobre MPB, cinema, teatro, etc.
Na parede da casa em frente surgiu uma barata gigante, com cerca de 10 cm. Ficou paradinha, observando (antenas perscrutando), prestando atenção ao papo. Ficou lá até a hora de dormir. Pela primeira vez na vida eu tive pena de exterminá-la com uma chinelada.
Tenho tido muitos sonhos, cinematográficos, que não me lembro ao acordar.
(pensando na Divina Comédia - o pecado da gula no Inferno e no Purgatório).
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
diário de recife - dia/noite 2
Acordei tarde. No café da manhã eu evitei o charque e o escondidinho de carne seca. Fazendo a linha saudável no início - frutas, iogurtes, granola. Em compensação me acabei nos bolos. Depois, enrolação para sair. Lendo, cochilando, jogando conversa fora. O amigo queria ficar por aqui mesmo, nas belas mas tediosas praias da Piedade. Eu o convenci a irmos para o agito de BVG (Boa Viagem, na gíria gls local).
Encontramos de cara uma grande tenda, onde ficamos protegidos do sol, acompanhados somente de um trio - enfermeira, mãe inválida e filho gay. Estreei a sexy-sunga-nova sob a bermuda com estampa neoconcreta. A única caipirinha depois das 12:30 derramou-se na areia. 1 cerveja, abacaxi, troca de olhares oblíquos (de novo a imagem) com um tritão belo e jovem e tão distante como se estivesse do outro lado do oceano.
Decidimos almoçar no Centro. Depois de uma longa e infrutífera caminhada (fotografada pelo celular), acabamos por comer em um fast food afrancesado no shopping da Alfândega. Apesar do arroz piamontês morno e do molho de tomate invadindo o sabor dos camarões, a fome era tanta que parecia delicioso. Depois café e torta de limão.
A partir de certa hora baixou o psicólogo das multidões anônimas. Primeiro, um avô e seus neto e neta, no café. A menina toda cheia de poses e gestos, como se estivesse sendo educada pela Socyla (?) dos anos 70/80. A perfeita futura-mulher-esposa-exemplar. O garoto, mais novo, visivelmente o xodó do avô, lendo e comentando o livro As aventuras de um banana - uma série que, pelo que entendi, estava incompleta na livraria. Crianças perfeitas. Bonitos, ricos, bem sucedidos em um shopping elegante, fino e elitista. Teve uma hora que o avô deixou os dois sozinhos na mesa do café para tentar encontrar os livros faltantes. Achei estranhíssimo - neura de grandes centros urbanos - se sequestrassem as crianças certamente o avô morreria de desgosto.
Depois, apareceu um cara que sentou-se em uma mesa ao lado do piano e ficou horas conversando com o pianista. Que também conversava, sem interromper a música.
Eu, prestando atenção. Adoro o sotaque pernambucano.
Cena estranha: um senhor, vestido de veludo vermelho com detalhes dourados, atravessa o café. Seguido de duas princesas. Depois do almoço (quase 17h) fomos ao Marco Zero. No caminho, o encontro inusitado, só possível aqui: aquele senhor-príncipe e as duas princesas faziam parte de um dos muitos grupos de pastorinhas, que desfilariam pelas ruas do centro até o Marco Zero, como eventos comemorativos do natal.
Fiquei emocionado (até às lágrimas verdadeiras) com a cena das meninas e adolescentes, vestidas em cores fortes e vibrantes, cantando e dançando pelas ruas, ao entardecer, por entre as fachadas dos casarões do Recife antigo.
Chegarem a uma praça, subiram ao palco cheio de luzes e dançaram sob os holofotes e microfones. Assim tudo perdeu a graça.
Outra emoção: ver de perto o maestro Marlos Nobre e esposa, velhinhos, acompanhando os compassos do canto e dança das pastoras. Não tive coragem de pedir autógrafo. Valeu pela noite. Pena que não levei a máquina fotográfica. e o celular descarregou.
(Entre o almoço e as pastorinhas, a visita ao centro de artesanato no Marco Zero e a vista do monumento de Brennand. Muito belo.
Depois a volta para casa, de ônibus. Circulamos por toda a cidade, sacolejos e engarrafamento. Impressionante ver o bom astral do motorista e cobrador, no caos do trânsito no horário de rush recifense. E a quantidade de garotas de programa - 4 no mesmo ônibus - provavelmente indo para o trabalho. Estranhas relações.
Ao meu lado havia um casal. Uma senhora, aparência de uns 70 anos, colar de contas vermelhas, brincos com pingente também vermelho, uma enorme verruga na bochecha, que lhe dava aparência de bruxa, e um homem, aparentemente bem mais novo - talvez uns 40, 45 anos. Os dois dormiram todo o trajeto. Ela reclinada no ombro dele e ele segurando firme a mão dela.
Paramos no bar em frente ao hotel para tomar uma cerveja para relaxar. Ao lado da nossa mesa havia uma outra, grande, só com homens. Homens maduros, que chegaram em seus carrões, com 2 ou 3 garotos, bonitos, entediados, gostosos e deslocados. Dando o que pensar.
Agora, tentando vencer o sono, escrevendo esse texto e tentando transferir as poucas fotos feitas pelo celular, que nunca carrega.
Teclando mensagens quase telegráficas com saudades deixadas longe.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
diário do recife - noite 1
Fomos de ônibus, porque o hotel é longe pra caramba e o táxi fica uma fortuna. Como nos trens de Portugal (e talvez no resto do mundo), as pessoas falam ao celular o tempo todo. Um cara no banco de trás contava piada, cantava trechos de música, imitava animais. Descemos no Cais de Santa Rita e fomos à pé até o encontro, em uma temakeria na Rua da Moeda. Lugares esquisitos, o sinal de alerta ligado. Turista, sim, mas sem dar bobeira.
Ruínas e ratazanas à beira do rio Capiberibe.
Recife antiga à noite refletida no rio é ainda mais linda.
Elogiei (pasmem, eu que detesto natal!) até a sofisticada decoração natalina da ponte Maurício de Nassau.
Os bares do centro são animadíssimos. Do lado de fora de um deles havia um Dj tocando vinis das antigas. Duas portas além, uma banda cantando sucessos dos anos 80. Uma guerra de potências sonoras. Por sorte, próximo à nossa temakeria só havia, próximo, um grupo de adolescentes incansáveis ensaiando (dançando e percutindo) ritmos folclóricos pernambucanos. Necessário conversar mais alto, porém desonerando o cérebro de filtrar as informações sonoras conflitantes entre o Dj e a banda cover.
Hoje é terça-feira, amanhã é quarta, os turistas somos nós e as amigas trabalharão cedo amanhã. Assim, o encontro só durou até às 22 horas. Lucinha ainda tentou nos levar para o bar mais cult, mas o companheiro de viagem estava chumbado. R$ 50 de táxi até o hotel, mais uma cerveja choca e caldo de peixe no bar em frente.
O amigo está simplesmente torrado. Tomou mormaço demais, logo ele, pele branca e pouco acostumada aos raios ultravioletas. E nem passou filtro solar! Não foi por falta de aviso.
E eu sem sono, tentando estabelecer contatos quase imediatos com seres dos mundos paralelos ao som do mar e do vento cheiro da maresia vindo da janela.
Ruínas e ratazanas à beira do rio Capiberibe.
Recife antiga à noite refletida no rio é ainda mais linda.
Elogiei (pasmem, eu que detesto natal!) até a sofisticada decoração natalina da ponte Maurício de Nassau.
Os bares do centro são animadíssimos. Do lado de fora de um deles havia um Dj tocando vinis das antigas. Duas portas além, uma banda cantando sucessos dos anos 80. Uma guerra de potências sonoras. Por sorte, próximo à nossa temakeria só havia, próximo, um grupo de adolescentes incansáveis ensaiando (dançando e percutindo) ritmos folclóricos pernambucanos. Necessário conversar mais alto, porém desonerando o cérebro de filtrar as informações sonoras conflitantes entre o Dj e a banda cover.
Hoje é terça-feira, amanhã é quarta, os turistas somos nós e as amigas trabalharão cedo amanhã. Assim, o encontro só durou até às 22 horas. Lucinha ainda tentou nos levar para o bar mais cult, mas o companheiro de viagem estava chumbado. R$ 50 de táxi até o hotel, mais uma cerveja choca e caldo de peixe no bar em frente.
O amigo está simplesmente torrado. Tomou mormaço demais, logo ele, pele branca e pouco acostumada aos raios ultravioletas. E nem passou filtro solar! Não foi por falta de aviso.
E eu sem sono, tentando estabelecer contatos quase imediatos com seres dos mundos paralelos ao som do mar e do vento cheiro da maresia vindo da janela.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
diário do recife - dia 1
Aeroporto de Brasília pior que a rodoviária: vozes estridentes, altissonantes e ininterruptas anunciando voos, mudanças de portão de embarque, convocando a cada 30 segundos uma excêntrica senhora Katiângela que nunca apareceu. Embarque tumultuado. Comissários de bordo meio tontos. Resultado: gente embarcando em avião errado, gente embarcando muito depois do horário, gente brigando por lugar. Atraso de + de 1 hora, sem qualquer explicação. Isso é TAM.
Por causa das minhas pernas compridas e da bunda seca eu sempre escolho corredor. Pois no meu lugar já havia um homem sentado. Todo bonzinho, todo educadinho, todo meloso. No corredor oposto estava a esposa. Ele queria ficar perto dela, para que ela o beliscasse de vez em quando (palavras dele). Meu solícito e social companheiro de viagem cedeu o MEU lugar para o cara. Ou seja: ao invés de o docinho e a esposa sentarem-se na fila do meio/janela e deixarem os corredores para mim e para meu amigo, viajei espremido, na fila do meio.
A sorte foi ter trazido (ou levado?) o Safran Foer (Extremamente alto e incrivelmente perto). Li mais da metade do livro na viagem. (Falar sobre ele em postagem próxima).
O aeroporto de Recife está um luxo. Espaçoso, corredores bem iluminados, pessoal bem treinado. A bagagem chegou rápido à esteira e pela primeira vez na vida minha mala veio na primeira leva.
R$ 33 de táxi até o hotel que, ao contrário do que informava o Booking, não é em Boa Viagem, mas em Piedade (tecnicamente uma extensão de Boa Viagem, mas já no município vizinho) - Jaboatão dos Guararapes. Entendi a razão do preço da diária ser tão mais baixo que os demais hotéis pesquisados. Mas é ajeitadinho. Predião modernoso, com muitos vãos e poucos móveis, quadros abstratos legais nas paredes, elevador panorâmico. O quarto e ventilado e possui a janela mais bonita da região (vide foto acima).
Dormi com o barulho do mar e o vento de maresia. (E os roncos do amigo de quarto). Acordei de madrugada enjoado e entre pesadelos. Levíssimo jetleg (parece texto da Danuza Leão) por causa do horário de verão, que aqui não tem.
Café da manhã farto. Bolo de milho e de mandioca, bolo de coco, bolo de chocolate, bolo de puba, os tradicionais ovos mexidos com salsicha e até macaxeira e charque. Não arrisquei os últimos. Preferi deixar para o dia 2.
Depois, praia. Tempo nublado, mas quente. Sol até às 10 horas (só pra fazer companhia ao amigo. Fosse por vontade própria eu ficaria sob o guarda-sol para todo o sempre). Água-de-coco e papo esquisito do vendedor, finalmente guarda-sol e cadeiras reclináveis, mais água-de-coco, cochilo, papo diversificado (política brasiliense, presos do mensalão, crimes bombardeados na mídia, ataque às torres gêmeas - influência do Safran -, etc), deliciosa ducha do hotel e saída para o almoço.
O amigo desejando que o taxista descobrisse o restaurante (que não lembrávamos o nome) onde comemos há pelo menos uns 3 anos atrás. Aquele silêncio constrangedor no táxi, o motorista sugerindo outros lugares, o amigo impassível e irredutível. Por fim eu o convenci a descer no primeiro que passamos à porta.
Havia uma mesa de confraternização de fim de ano só de mulheres. Imagina a gritaria. Por sorte havia mesas na área interna, separadas das harpias (desculpem-me as leitoras, mas as moças da mesa comportavam-se como tais) - separadas das harpias por vidro blindado à prova de som. Um self-service bacana, com vários pratos de frutos-do-mar. Só não estava bom o cozido de lagosta.
De volta ao hotel o amigo demandou 3 horas de descanso. Vim para o deck, defronte ao mar, sob um pinheiro (!) enquanto escrevo este diário e me preparo para encontrar as queridas e adoradas amigas pernambucanas.
sábado, 7 de dezembro de 2013
curiosidades do mundo antigo: numa pompílio
Com tanta literatura moderna e contemporânea à mão nas prateleiras das melhores livrarias, eu mergulhando na leitura dos clássicos de sebos.
Como diz um amigo: perda de tempo. O mundo de hoje não tem nada a ver com essas velharias mortas e enterradas há mais de 2 mil anos.
(Note-se: o amigo incongruente que me critica é estudioso das tragédias gregas, deleita-se em ouvir Sófocles e Eurípides em grego arcaico e faz suas abluções secretas a Dionisos).
...
Concordo com o amigo. A Problemática Humana (com maiúsculas mesmo) é infinitamente mais complexa e variada do que na época de Plutarco.
Mas dane-se. Trata-se de História. Eu gosto. Mesmo sendo taxado de anacrônico e alienado. Mesmo gastando um tempo enorme em decifrar inversões e elipses, na linguagem caduca de alguns trechos. Mesmo perdendo o bonde expresso da contemporaneidade.
...
A Vida dos homens ilustres, em 15 volumes, foi adquirida por uma pechincha. Encadernação em capa dura azul marinho com apliques em dourado, ilustrações como as acima, folhas quebradiças, lombadas empoeiradas e costuras roídas pelas traças.
...
A ideia inicial era uma postagem para cada uma das celebridades. Escrevi 3 textos: sobre Teseu, Rômulo e Licurgo. Abandonei o projeto por constatar que em parte o amigo acima tinha razão. Há pouco a dizer sobre eles no nosso mundo-vórtex de informação.
Mas, como exercício para romper o bloqueio criativo, prosseguirei. Vale como uma aulinha. Como se estivéssemos Leitor(a) e eu em uma sala de curso pré-vestibular.
Chega de justificativas.
...
Hoje falaremos sobre o chato do Numa Pompílio. Conforme qualquer enciclopédia física ou virtual, Numa governou Roma entre 754 e 671 a.C. Sucedeu a Rômulo, o fundador e primeiro governante romano (Rememore ou saiba mais clicando aqui).
Numa foi responsável por uma grande reforma político-religiosa. Pelo que entendi, elementos dessa reforma serviram de esteio para o cristianismo primitivo surgido alguns séculos depois.
Nasceu no dia da fundação de Roma, em 21 de abril. Era tão perfeitamente disposto a toda virtude que não precisou de mestres para governar. Além disso, sendo naturalmente inclinado e dedicado a toda virtude, poliu-se ainda mais pelo estudo das boas disciplinas (quais seriam elas?) e pelo estudo da paciência e da filosofia.
Após a morte da esposa Tácia, com quem viveu por 13 anos, Numa isolou-se dos homens. Mudou-se para o campo e passou a frequentar as florestas e bosques consagrados aos deuses, nas terras dos sabinos. Lá (Plutarco afirma com uma certa ironia) conheceu a ninfa e deusa Egéria, que o recebeu como marido e o proveu de insights sobre o amor e o conhecimento das coisas celestes.
...
O prudente Plutarco estende-se no tema para isentar-se ou justificar o descrédito. Lista fatos e evidências que poderiam reger o relacionamento entre humanos e divindades na época.
Exemplos:
1. As divindades preferem os homens aos pássaros ou os cavalos;
2. As divindades sentem prazer inenarrável em um papo cabeça com humanos. Desde que estes sejam perfeitamente bons ou os santos e religiosos;
3. Quanto ao relacionamento carnal propriamente dito, é bem difícil acreditar que as divindades sintam tesão nos humanos;
4. É plausível que uma divindade masculina se aproxime de uma mortal e a emprenhe. Mas um homem coabitar com uma divindade feminina e ter comistão corporal com ela é impossível (ele não explica a razão).
(Segundo o velho Caldas Aulete:
Comistão, s.f. (ant.) mistura // F. lat. Commixtio.)
...
Depois de arrazoar sobre a literalidade das relações deuses/deusas/homens /mulheres, Plutarco afirma que era tudo metáfora: as divindades trazem amizade aos homens puros e virtuosos; dessa amizade nasce o amor intelectual; por isso a dúbia denominação de amantes.
Ok, Plutarco, você me convenceu. Mas poderia ter parado aí. Para qual era a tua intenção em voltar à literalidade, enumerando os pouco espiritualizados e às vezes apimentados casos gays de deuses greco-romanos - Apolo e seus garotos Forbante, Jacinto, Admeto e Hipólito; Pã e seu boy-poeta Píndaro; Sófocles e Esculápio; et-cétera?
...
A falsa prudência era firula estilística. No capítulo IX, Plutarco explica que os capítulos anteriores sobre sexualidade eram uma espécie de parêntesis. Uma pausa de efeito. A fim de criar impacto para a revelação bombástica humana demasiado humana:
Na verdade Numa era uma raposa velha. Aproveitou-se politicamente do diz-que-diz sobre seu envolvimento com a ninfa-desusa para obter vantagens políticas que propiciaram as reformas político-religiosas e o conduziram às páginas amareladas de Plutarco.
Veremos o assunto na próxima postagem.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
sábado, 30 de novembro de 2013
inferno de dante - o sexto fosso do círculo oitavo
Para finalizar o tema do Inferno dantesco falta falar do sexto fosso do círculo oitavo. Onde eu mais me identifiquei.
...
Como dito anteriormente, o sexto fosso do círculo oitavo é destinado aos hipócritas.
Como nos outros sítios, o sexto fosso é povoado por gente importante e famosa da época. Gente que usou e abusou da hipocrisia para alcançar Fama, Glória e Poder.
Mas não nos iludamos. A hipocrisia não é privilégio das altas esferas. Ela também (e como!) grassa entre nós, reles mortais. Sabe aquela maledicênciazinha inconsequente? tipo fofoca? apontar os defeitos do melhor amigo para o segundo melhor amigo, sem que o primeiro melhor amigo saiba? utilizar-se de um discurso e comportamento legal, compreensivo, contemporizador, mas no fundo desejando que o circo pegue fogo? manipular sentimentos alheios? Como no ditado: usar 2 pesos e 2 medidas em benefício próprio? Ou, no popular: dar uma de santinho, de bom moço (ou moça) só para se dar bem na fita?
Pois isso é pecado. Dos graves. Isso é hipocrisia.
Se você, Leitor(a), se enquadra em um ou mais dos exemplos acima e não se arrepender - o nosso destino será o sexto fosso do oitavo círculo. Estaremos condenados a vestir por toda a eternidade uma linda capa dourada com capuz - cujo forro de chumbo pesará toneladas e tornará qualquer movimento ou deslocamento nosso um verdadeiro suplício.
...
A imagem usada por Dante para a expiação dos pecados dos hipócritas é das mais sutis em sua tragicidade. Ali não há as óbvias lacerações de tridentes dos capetas, chuva de fogo, caldeiras de piche ardente, serpentes peçonhentas, cães ou diabos estraçalhando a carne. Só a lentidão, o peso dos movimentos. Por toda a eternidade
...
À primeira vista o personagem Dante não compreende o martírio. A visão da multidão de almas cobertas de elegantes mantos dourados andando muito lentamente, devido ao peso do chumbo, compunge (mais uma vez) o poeta:
Gente encontramos, fúlgida, dourada,
a desfilar em torno, lentamente
mostrando a face triste e macerada.
Capas trajava, de capuz à frente
dos olhos, (...)
(...)
Ah, manto eterno, fatigante e rico!
(Conforme a nota explicativa do tradutor, Cristiano Martins: O manto que revestia os hipócritas era eterno, porque eterno é o castigo do Inferno; fatigante, porque seu peso deixava extenuados os seus portadores; e rico, porque, dourado externamente, parecia de ouro).
Dante ainda duvida do suplício. Mas prosseguem os versos, para deixar indubitável o sofrimento:
Mas vós, quem sois, que aos olhos vos estila
o pranto, na aflição desesperada?
E que castigo é o vosso, que cintila?
E um deles: Esta túnica dourada,
de chumbo que é, pesou-nos tanto às vezes
que fez ranger, pendente, a nossa ossada.
...
A hipocrisia, talvez seja o pecado mais acessível, mais genérico a nós, mortais. Talvez seja o que tenhamos mais consciência e ao mesmo tempo maior dificuldade em nos livrarmos.
...
Vejamos o que o velho Caldas Aulete impresso tem a dizer sobre:
Hipocrisia. s. f. vício pelo qual se manifesta uma piedade, virtude ou sentimento que se não tem; afetação de qualidades que se não possuem; fingimento, falsidade.
O Dicionário Priberam virtual é mais liberal. Hipocrisia vem do grego Hupokrísia, que significa desempenho de um papel. Depois segue o convencional: fingimento de bondade de ideias ou opiniões apreciáveis; devoção fingida.
"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
Quem de vós, Leitor, por exemplo, elogiou fingida, desabrida ou educadamente a estreia sofrível de uma atriz amiga (com segundas sedutoras intenções); ou um pintor bonitinho mas ordinário em sua primeira exposição; ou um jantar mal temperado mas oferecido por alguém influente que lhe promoverá no trabalho, uma roupa, uma maquiagem desconjuntada do(a) acompanhante, um texto confuso e repleto de incorreções gramaticais - só para se eximir da crítica honesta, só por interesse próprio, ou para evitar ser colocado em uma berlinda ou incômodo desnecessários?
...
(Arrependei-vos, ou nos encontraremos em breve...)
"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
...
Há alguns dias terminei de tresler o apoteótico Inferno. Impressionado, sempre, com tudo o que acontece lá. Certo de me arrepender, qualquer hora dessas, e me livrar de qualquer motivo ser conduzido àquelas paragens.
Meu propósito era encerrar a releitura da Divina Comédia no Inferno. Só para sentir de novo na pele os infortúnios dos pecadores.
Mas prossegui. Acompanhei Dante e Virgílio na complicada passagem para o Purgatório.
O Purgatório é o lugar onde as almas que se arrependeram expiam seus pecados. É um lugar de imagens belíssimas (o mar ao alvorecer, revoadas de anjos, painéis pintados na rocha pelo próprio Deus, etc - mas é bastante chatinho - repleto de longos discursos morais relativos ao arrependimento.
A penitência no Purgatório dura o tempo em que as almas viveram em pecado, antes de se arrependerem - ou seja - viveu até os 80 anos? Serão mais 80 de expiação. Convenhamos, tempo curtíssimo se tomarmos como parâmetro a Eternidade.
Há ali muitas outras possibilidades de alojamento pós-mortem. Talvez numa próxima pós-tagem. Em breve.
E depois, quem sabe, um ou outro sobressalto que possa vir a ocorrer no Paraíso (que não seja o exagero de anjos, o encontro com um santo a cada esquina ou amor extático e às vezes repetitivo, do poeta por Beatriz).
...
Como dito anteriormente, o sexto fosso do círculo oitavo é destinado aos hipócritas.
Como nos outros sítios, o sexto fosso é povoado por gente importante e famosa da época. Gente que usou e abusou da hipocrisia para alcançar Fama, Glória e Poder.
Mas não nos iludamos. A hipocrisia não é privilégio das altas esferas. Ela também (e como!) grassa entre nós, reles mortais. Sabe aquela maledicênciazinha inconsequente? tipo fofoca? apontar os defeitos do melhor amigo para o segundo melhor amigo, sem que o primeiro melhor amigo saiba? utilizar-se de um discurso e comportamento legal, compreensivo, contemporizador, mas no fundo desejando que o circo pegue fogo? manipular sentimentos alheios? Como no ditado: usar 2 pesos e 2 medidas em benefício próprio? Ou, no popular: dar uma de santinho, de bom moço (ou moça) só para se dar bem na fita?
Pois isso é pecado. Dos graves. Isso é hipocrisia.
Se você, Leitor(a), se enquadra em um ou mais dos exemplos acima e não se arrepender - o nosso destino será o sexto fosso do oitavo círculo. Estaremos condenados a vestir por toda a eternidade uma linda capa dourada com capuz - cujo forro de chumbo pesará toneladas e tornará qualquer movimento ou deslocamento nosso um verdadeiro suplício.
...
A imagem usada por Dante para a expiação dos pecados dos hipócritas é das mais sutis em sua tragicidade. Ali não há as óbvias lacerações de tridentes dos capetas, chuva de fogo, caldeiras de piche ardente, serpentes peçonhentas, cães ou diabos estraçalhando a carne. Só a lentidão, o peso dos movimentos. Por toda a eternidade
...
À primeira vista o personagem Dante não compreende o martírio. A visão da multidão de almas cobertas de elegantes mantos dourados andando muito lentamente, devido ao peso do chumbo, compunge (mais uma vez) o poeta:
Gente encontramos, fúlgida, dourada,
a desfilar em torno, lentamente
mostrando a face triste e macerada.
Capas trajava, de capuz à frente
dos olhos, (...)
(...)
Ah, manto eterno, fatigante e rico!
(Conforme a nota explicativa do tradutor, Cristiano Martins: O manto que revestia os hipócritas era eterno, porque eterno é o castigo do Inferno; fatigante, porque seu peso deixava extenuados os seus portadores; e rico, porque, dourado externamente, parecia de ouro).
Dante ainda duvida do suplício. Mas prosseguem os versos, para deixar indubitável o sofrimento:
Mas vós, quem sois, que aos olhos vos estila
o pranto, na aflição desesperada?
E que castigo é o vosso, que cintila?
E um deles: Esta túnica dourada,
de chumbo que é, pesou-nos tanto às vezes
que fez ranger, pendente, a nossa ossada.
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A hipocrisia, talvez seja o pecado mais acessível, mais genérico a nós, mortais. Talvez seja o que tenhamos mais consciência e ao mesmo tempo maior dificuldade em nos livrarmos.
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Vejamos o que o velho Caldas Aulete impresso tem a dizer sobre:
Hipocrisia. s. f. vício pelo qual se manifesta uma piedade, virtude ou sentimento que se não tem; afetação de qualidades que se não possuem; fingimento, falsidade.
O Dicionário Priberam virtual é mais liberal. Hipocrisia vem do grego Hupokrísia, que significa desempenho de um papel. Depois segue o convencional: fingimento de bondade de ideias ou opiniões apreciáveis; devoção fingida.
Fingimento de bondade de .ideias ou de opiniões apreciáveis.
2.
Devoção fingida.
"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
hi·po·cri·si·a
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)
"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
...(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)
"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
Quem de vós, Leitor, por exemplo, elogiou fingida, desabrida ou educadamente a estreia sofrível de uma atriz amiga (com segundas sedutoras intenções); ou um pintor bonitinho mas ordinário em sua primeira exposição; ou um jantar mal temperado mas oferecido por alguém influente que lhe promoverá no trabalho, uma roupa, uma maquiagem desconjuntada do(a) acompanhante, um texto confuso e repleto de incorreções gramaticais - só para se eximir da crítica honesta, só por interesse próprio, ou para evitar ser colocado em uma berlinda ou incômodo desnecessários?
...
(Arrependei-vos, ou nos encontraremos em breve...)
hi·po·cri·si·a
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)
substantivo feminino
1.
Fingimento de bondade de .ideias ou de opiniões apreciáveis.
2.
Devoção fingida.
Palavras relacionadas:
.
.
"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
hi·po·cri·si·a
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)
substantivo feminino
1.
Fingimento de bondade de .ideias ou de opiniões apreciáveis.
2.
Devoção fingida.
Palavras relacionadas:
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"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
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Há alguns dias terminei de tresler o apoteótico Inferno. Impressionado, sempre, com tudo o que acontece lá. Certo de me arrepender, qualquer hora dessas, e me livrar de qualquer motivo ser conduzido àquelas paragens.
Meu propósito era encerrar a releitura da Divina Comédia no Inferno. Só para sentir de novo na pele os infortúnios dos pecadores.
Mas prossegui. Acompanhei Dante e Virgílio na complicada passagem para o Purgatório.
O Purgatório é o lugar onde as almas que se arrependeram expiam seus pecados. É um lugar de imagens belíssimas (o mar ao alvorecer, revoadas de anjos, painéis pintados na rocha pelo próprio Deus, etc - mas é bastante chatinho - repleto de longos discursos morais relativos ao arrependimento.
A penitência no Purgatório dura o tempo em que as almas viveram em pecado, antes de se arrependerem - ou seja - viveu até os 80 anos? Serão mais 80 de expiação. Convenhamos, tempo curtíssimo se tomarmos como parâmetro a Eternidade.
Há ali muitas outras possibilidades de alojamento pós-mortem. Talvez numa próxima pós-tagem. Em breve.
E depois, quem sabe, um ou outro sobressalto que possa vir a ocorrer no Paraíso (que não seja o exagero de anjos, o encontro com um santo a cada esquina ou amor extático e às vezes repetitivo, do poeta por Beatriz).
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