Já devo ter escrito várias vezes antes: acho um saco as festividades do fim de ano. Principalmente o natal. Não entendo como a maioria das pessoas se deixa levar pela euforia histérica das compras de presentes, das comidas exageradas, das confraternizações nos bares, dos amigos-ocultos. Do ano novo, os ingressos a preços exorbitantes das festas sem-graça de reveion, das roupas brancas, as homenagens alcoólicas às divindades afro-brasileiras nas praias, beiras de rio, de lago, etc, os fogos de artifício, a cueca amarela para atrair dinheiro ou a calcinha vermelha para o amor (e/ou vice-versa).
Normalmente eu tenho pânico de shoppings. Enfeites e luzes não me agradam, músicas pior ainda, papais-noéis, decorações com duendes, renas, fitas verdes, vermelhas, douradas, cartões de natal on line, lojas abarrotadas, filas nos caixas, disputa de vagas nos estacionamentos, empurra-empurra, crianças berrando - quando sou obrigado enfrentar isso, se eu demorar mais que 15 minutos, é o verdadeiro desespero.
...
Não, leitor(a), não é trauma de infância. Na infância os meus natais foram mágicos.
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No começo de dezembro íamos com a mãe em excursão ao cerrado. Colhíamos uma árvore seca, daquelas bem retorcidas, o enfiávamos em uma lata com areia, envolta por papel laminado vermelho e estrelinhas douradas coladas em volta. Cobríamos os galhos com algodão e dependurávamos os enfeites - lindas bolas de vidro coloridas, muito antigas, a maioria não maiores que uma uva. Tinha também um papai-noel maiorzinho, meio descascado, também de vidro, que disputava com a estrela (essa sim, era o máximo) o galho mais alto da árvore.
Aos pés da lata de areia montávamos o presépio, forrado com limo colhido no quintal. Meus pendores artísticos revelaram-se cedo - eu construía uma gruta com papel kraft amassado (sacos de pão), culminando com um cometa meio torto recortado na cartolina, fazendo as vezes de estrela dos reis magos.
Os presentes eram poucos e sóbrios. Pequenos embrulhos repousando sob a árvore: carrinhos de plástico, canetas hidrocor e cadernos de desenho e - sempre detestávamos - camisetas, cuecas, meias e/ou sapatos.
Houve um ano, talvez de vacas mais gordas, que eu ganhei um carro de bombeiros com reservatório de água e mangueiras, o irmão do meio um transatlântico com botes salva-vidas e tudo, e o caçula um velocípede em forma de jipe.
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O melhor do natal daquela época, e só agora eu percebo, era a festa. Além dos parentes de Minas, com muitos primos, vinha tia Madalena e tio Zeca, de Goiânia (traziam um saco de bala toffee coberta com chocolate). Vinham também os vizinhos libaneses - Seu Mohamed com a esposa e os filhos Nasser e duas meninas que não me lembro os nomes, Youssuf, que deixara a esposa no Líbano e Abdel, o mais novo, solteiro, bonito - cabelos castanhos e cacheados como os do anjo do presépio. Traziam arak e pratos esquisitos, que para o meu paladar inculto sabiam a terra.
O mais legal porém era o povo da roça. Começavam a chegar 1 semana, 10 dias antes. Vinham para consultas médicas, resolver problemas de cartório, heranças, partilhas, demarcações, etc, e ficavam para o natal ou até o dia de reis. Os mais velhos e velhas dormiam nas nossas camas. Os mais novos, em colchões. E a criançada toda misturada, irmãos, primos, roceiros - em um grande dormitório de colchonetes estendidos na sala.
Traziam de tudo: pequi, jaboticaba, guariroba, farinha, carne, feijão, biscoitos, queijo, galinhas vivas, ovos de pata, leitão, até um cabrito. A casa ficava com um aroma peculiar, que até hoje me lembro, mistura dos suores, do perfume de tia Madalena, da loção de barba do tio Zeca, dos temperos do oriente, das comidas sendo preparadas, dos assados, o arroz com pequi, os bifes, da cachacinha do avô antes do almoço, do cheiro de galinha depenada.
Era tanta farra nos dias antecedentes ao natal que a ceia propriamente dita era quase frugal. Os mais velhos ou mais beatos iam à missa do galo, celebrada pelos capuchinhos (padre Luiz e irmão Miguel) na igreja de tábuas devotada a São Sebastião. As crianças ficavam acordadas, farreando, ou esperando a comida.
Enquanto isso, eu (e meus precoces pendores artísticos) arrebanhava alguns figurantes (geralmente contra a vontade deles), cobria-lhes com lençóis, colchas e cobertores à guisa de véus e túnicas para encenar um presépio vivo, para a plateia menos religiosa: o pai, o avô e os tios socialistas, tia Hemicênia intelectual, os roceiros sonolentos que não tinham ido à missa, e Bilô, a empregada.
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Com o passar dos anos o ardor da festa foi diminuindo. O povo da roça deixou de vir. Os tios e primos vinham cada vez menos. Os libaneses mudaram-se. As crianças cresceram. Tio Zeca morreu. Mas meu pai fazia questão de reunir o máximo de parentes possível. Passou-se a ligar a TV (Roberto Carlos, retrospectiva do Fantástico, depois Xuxa) ao invés do teatrinho e das histórias e das conversas.
Depois morte do pai, o natal em família acabou de vez. A gente ainda se reúne - irmãos, cunhadas, sobrinhos e primos mais próximos. Fazemos um almoço tardio - cada um traz um prato, refrigerante, vinho, cerveja. A avó distribui envelopes com dinheirinho (acho que notas de R$ 20 para cada neto) e panos de prato para as noras. O irmão monta a mesa de pingue-pongue e frita espetinhos. Joga-se um pouco de conversa fora. Às 8 da noite acaba. Cada um vai para casa se preparar para as verdadeiras festas de natal nas casas das respectivas sogras.
E eu vou dormir. Enfeitando a lembrança de tempos que talvez só na minha memória tenham sido tão luminosos e mágicos.
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E esperando que o próximo fim-de-ano capitalista e consumista demore muito a chegar.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
diário da paraíba - dia 4
Tomamos o café da manhã na pousada do toboágua. Carapibus e toda a região cresceram. Prédios, pousadas, onde antes (há 5, 6 anos atrás era pedra e areia e umas poucas casas). Bom e ruim o progresso. Em Jacumã uma agência de terminais eletrônicos do Banco do Brasil quase pronta com o seguinte cartaz: "sem previsão para funcionamento".
Chuva na estrada para João Pessoa. Paramos na Estação Cabo Branco, uma maravilhosa exposição: O corpo na arte africana. Patrocinada pela Fiocruz. Montagem simples, textos claros, curtos e sintéticos, me esbaldei de fotografar, sem problemas.
Depois levei o amigo para compras no mercado de artesanato. Muitas lojas fechadas, porque era hora de almoço. Acho chato o lugar, tudo parecido, quase tudo industrializado. O único lugar em João Pessoa onde o freguês é atendido quase sempre de má vontade pelo comerciante. Exceção a uma senhora e seu discurso eloquente sobre a possível catástrofe provocada pela poluição e extinção das grandes nascentes - na Serra da Capivara!
Comprei meus poucos presentinhos (bolos de rolo) em uma das lojas de produtos do sertão, na rua do mercado, atendido por uma simpaticíssima vendedora.
Foi o dia da morte do cantor brega Reginaldo Rossi. Comoção geral em Pernambuco e na Paraíba, provavelmente em todo o Nordeste. A faxineira da Eudirce faltou o serviço em JP para ir ao velório, em Recife.
Seguimos em direção ao Bessa, à procura infrutífera das barracas - a do Golfinho. Eu tinha me esquecido que havia, da última vez que fui lá, um projeto para a retirada delas da orla. Depois do banho de mar (com muito sargaço), uma moqueca de camarão meia-boca, e cervejinha pra relaxar.
E a visita à Eudirce. Que nos recebeu, como sempre, muito bem Forte, cheia de vida, apesar das dores na coluna. Contou ao amigo sua história, como ressurgiu, após a grande crise, os estudos - supletivo, depois a Faculdade Dulcina, a pós-graduação e o projeto de mestrado abortado por causa da crise de artrose; a experiência em sala de aula, o constante apoio dos filhos, a volta para JP, as sincronicidades (ou sincronismos) da compra do apartamento maravilhoso. Deu pra gente ler um esboço de suas memórias e poemas, mostrou orgulhosa o álbum de formatura e uma toalha, que está bordando, trabalho dificílimo, cuja técnica ela resgatou dos aprendizados do colégio de freiras, em Campina Grande, há 50 anos atrás. Visita inesquecível. Com ela sempre aprendemos.
Volta tranquila, cansaço e tensão de ter dirigido tanto na cidade.
Chuva na estrada para João Pessoa. Paramos na Estação Cabo Branco, uma maravilhosa exposição: O corpo na arte africana. Patrocinada pela Fiocruz. Montagem simples, textos claros, curtos e sintéticos, me esbaldei de fotografar, sem problemas.
Depois levei o amigo para compras no mercado de artesanato. Muitas lojas fechadas, porque era hora de almoço. Acho chato o lugar, tudo parecido, quase tudo industrializado. O único lugar em João Pessoa onde o freguês é atendido quase sempre de má vontade pelo comerciante. Exceção a uma senhora e seu discurso eloquente sobre a possível catástrofe provocada pela poluição e extinção das grandes nascentes - na Serra da Capivara!
Comprei meus poucos presentinhos (bolos de rolo) em uma das lojas de produtos do sertão, na rua do mercado, atendido por uma simpaticíssima vendedora.
Foi o dia da morte do cantor brega Reginaldo Rossi. Comoção geral em Pernambuco e na Paraíba, provavelmente em todo o Nordeste. A faxineira da Eudirce faltou o serviço em JP para ir ao velório, em Recife.
Seguimos em direção ao Bessa, à procura infrutífera das barracas - a do Golfinho. Eu tinha me esquecido que havia, da última vez que fui lá, um projeto para a retirada delas da orla. Depois do banho de mar (com muito sargaço), uma moqueca de camarão meia-boca, e cervejinha pra relaxar.
E a visita à Eudirce. Que nos recebeu, como sempre, muito bem Forte, cheia de vida, apesar das dores na coluna. Contou ao amigo sua história, como ressurgiu, após a grande crise, os estudos - supletivo, depois a Faculdade Dulcina, a pós-graduação e o projeto de mestrado abortado por causa da crise de artrose; a experiência em sala de aula, o constante apoio dos filhos, a volta para JP, as sincronicidades (ou sincronismos) da compra do apartamento maravilhoso. Deu pra gente ler um esboço de suas memórias e poemas, mostrou orgulhosa o álbum de formatura e uma toalha, que está bordando, trabalho dificílimo, cuja técnica ela resgatou dos aprendizados do colégio de freiras, em Campina Grande, há 50 anos atrás. Visita inesquecível. Com ela sempre aprendemos.
Volta tranquila, cansaço e tensão de ter dirigido tanto na cidade.
diário de recife / carapibus - dia 3
A saída de Recife beirou ao caótico. Só por que choveu à noite. Pistas inundadas, ruas, calçadas, pessoas tendo que atravessar verdadeiros riachos de enxurrada. Falta infraestrutura de águas e esgotos. O motorista de táxi estava estacionado na mesma altura do hotel, porém do outro lado da avenida que atravessa Piedade (4 ou 5 pistas, automóveis em alta velocidade. Pois ele atravessou a rua perpendicularmente, para entrar no saguão externo do hotel, fazendo o trânsito parar, só para não ter que retornar o quarteirão. Parecia um clipe daqueles americanos de gente que faz extravagâncias no trânsito e provoca acidentes espetaculares.
O motorista era bonitinho. Com aquele sotaque recifense tão gostosos que arrepia os pelos da nuca. O amigo encantou-se. Conversou com o rapaz o tempo todo. Era filho do dono do táxi. Estava tirando as férias de um motorista. Tanto que perdemos o rumo da locadora de automóveis, rodamos mais uns 15 reais, mas valeu a pena pela companhia.
A locação do carro foi outra novela. A locadora era um muquifo, escondida no estacionamento de um posto de gasolina, em frente ao aeroporto antigo. A recepção era um puxadinho, com bancos e mesa de cimento, daqueles tipo de praça. O carro era velho, duro, meio caindo aos pedaços. Pelo mesmo preço dos legais e novinhos das locadoras grandes.
Minha paciência e ânimo estavam no limite. A ponto de rodar a baiana ou a pernambucana. O amigo contemporizou. Esperei que ele desse o piti e saíssemos dali, até a loja do concorrente. Não rolou.
Demoramos a sair de Recife por causa dos engarrafamentos em Olinda e cidades vizinhas. Depois, um acidente invisível. A estrada é ótima. Já na Paraíba paramos em uma churrascaria para almoçar. Carne de bode, contrafilé e maminhas macias como solas de sapato. Por R$ 15,90.
Saímos da locadora às 11h e só chegamos a Carapibus às 16h. Tempo nublado mas agradável. Instalamo-nos na casa de Lucinha e fomos à praia. Anoitece cedo no Nordeste. A maré subindo, ondas descontroladas. Mesmo assim brinquei bastante. Caminhamos pela praia.
À noite fomos a Jacumã fazer compras e jantar. Peixe grelhado chamado meka, que pesa cerca de 600kg, salada e macaxeira frita.Tomamos 1 garrafa de vinho em casa, conversando abobrinhas sobre MPB, cinema, teatro, etc.
Na parede da casa em frente surgiu uma barata gigante, com cerca de 10 cm. Ficou paradinha, observando (antenas perscrutando), prestando atenção ao papo. Ficou lá até a hora de dormir. Pela primeira vez na vida eu tive pena de exterminá-la com uma chinelada.
Tenho tido muitos sonhos, cinematográficos, que não me lembro ao acordar.
(pensando na Divina Comédia - o pecado da gula no Inferno e no Purgatório).
O motorista era bonitinho. Com aquele sotaque recifense tão gostosos que arrepia os pelos da nuca. O amigo encantou-se. Conversou com o rapaz o tempo todo. Era filho do dono do táxi. Estava tirando as férias de um motorista. Tanto que perdemos o rumo da locadora de automóveis, rodamos mais uns 15 reais, mas valeu a pena pela companhia.
A locação do carro foi outra novela. A locadora era um muquifo, escondida no estacionamento de um posto de gasolina, em frente ao aeroporto antigo. A recepção era um puxadinho, com bancos e mesa de cimento, daqueles tipo de praça. O carro era velho, duro, meio caindo aos pedaços. Pelo mesmo preço dos legais e novinhos das locadoras grandes.
Minha paciência e ânimo estavam no limite. A ponto de rodar a baiana ou a pernambucana. O amigo contemporizou. Esperei que ele desse o piti e saíssemos dali, até a loja do concorrente. Não rolou.
Demoramos a sair de Recife por causa dos engarrafamentos em Olinda e cidades vizinhas. Depois, um acidente invisível. A estrada é ótima. Já na Paraíba paramos em uma churrascaria para almoçar. Carne de bode, contrafilé e maminhas macias como solas de sapato. Por R$ 15,90.
Saímos da locadora às 11h e só chegamos a Carapibus às 16h. Tempo nublado mas agradável. Instalamo-nos na casa de Lucinha e fomos à praia. Anoitece cedo no Nordeste. A maré subindo, ondas descontroladas. Mesmo assim brinquei bastante. Caminhamos pela praia.
À noite fomos a Jacumã fazer compras e jantar. Peixe grelhado chamado meka, que pesa cerca de 600kg, salada e macaxeira frita.Tomamos 1 garrafa de vinho em casa, conversando abobrinhas sobre MPB, cinema, teatro, etc.
Na parede da casa em frente surgiu uma barata gigante, com cerca de 10 cm. Ficou paradinha, observando (antenas perscrutando), prestando atenção ao papo. Ficou lá até a hora de dormir. Pela primeira vez na vida eu tive pena de exterminá-la com uma chinelada.
Tenho tido muitos sonhos, cinematográficos, que não me lembro ao acordar.
(pensando na Divina Comédia - o pecado da gula no Inferno e no Purgatório).
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
diário de recife - dia/noite 2
Acordei tarde. No café da manhã eu evitei o charque e o escondidinho de carne seca. Fazendo a linha saudável no início - frutas, iogurtes, granola. Em compensação me acabei nos bolos. Depois, enrolação para sair. Lendo, cochilando, jogando conversa fora. O amigo queria ficar por aqui mesmo, nas belas mas tediosas praias da Piedade. Eu o convenci a irmos para o agito de BVG (Boa Viagem, na gíria gls local).
Encontramos de cara uma grande tenda, onde ficamos protegidos do sol, acompanhados somente de um trio - enfermeira, mãe inválida e filho gay. Estreei a sexy-sunga-nova sob a bermuda com estampa neoconcreta. A única caipirinha depois das 12:30 derramou-se na areia. 1 cerveja, abacaxi, troca de olhares oblíquos (de novo a imagem) com um tritão belo e jovem e tão distante como se estivesse do outro lado do oceano.
Decidimos almoçar no Centro. Depois de uma longa e infrutífera caminhada (fotografada pelo celular), acabamos por comer em um fast food afrancesado no shopping da Alfândega. Apesar do arroz piamontês morno e do molho de tomate invadindo o sabor dos camarões, a fome era tanta que parecia delicioso. Depois café e torta de limão.
A partir de certa hora baixou o psicólogo das multidões anônimas. Primeiro, um avô e seus neto e neta, no café. A menina toda cheia de poses e gestos, como se estivesse sendo educada pela Socyla (?) dos anos 70/80. A perfeita futura-mulher-esposa-exemplar. O garoto, mais novo, visivelmente o xodó do avô, lendo e comentando o livro As aventuras de um banana - uma série que, pelo que entendi, estava incompleta na livraria. Crianças perfeitas. Bonitos, ricos, bem sucedidos em um shopping elegante, fino e elitista. Teve uma hora que o avô deixou os dois sozinhos na mesa do café para tentar encontrar os livros faltantes. Achei estranhíssimo - neura de grandes centros urbanos - se sequestrassem as crianças certamente o avô morreria de desgosto.
Depois, apareceu um cara que sentou-se em uma mesa ao lado do piano e ficou horas conversando com o pianista. Que também conversava, sem interromper a música.
Eu, prestando atenção. Adoro o sotaque pernambucano.
Cena estranha: um senhor, vestido de veludo vermelho com detalhes dourados, atravessa o café. Seguido de duas princesas. Depois do almoço (quase 17h) fomos ao Marco Zero. No caminho, o encontro inusitado, só possível aqui: aquele senhor-príncipe e as duas princesas faziam parte de um dos muitos grupos de pastorinhas, que desfilariam pelas ruas do centro até o Marco Zero, como eventos comemorativos do natal.
Fiquei emocionado (até às lágrimas verdadeiras) com a cena das meninas e adolescentes, vestidas em cores fortes e vibrantes, cantando e dançando pelas ruas, ao entardecer, por entre as fachadas dos casarões do Recife antigo.
Chegarem a uma praça, subiram ao palco cheio de luzes e dançaram sob os holofotes e microfones. Assim tudo perdeu a graça.
Outra emoção: ver de perto o maestro Marlos Nobre e esposa, velhinhos, acompanhando os compassos do canto e dança das pastoras. Não tive coragem de pedir autógrafo. Valeu pela noite. Pena que não levei a máquina fotográfica. e o celular descarregou.
(Entre o almoço e as pastorinhas, a visita ao centro de artesanato no Marco Zero e a vista do monumento de Brennand. Muito belo.
Depois a volta para casa, de ônibus. Circulamos por toda a cidade, sacolejos e engarrafamento. Impressionante ver o bom astral do motorista e cobrador, no caos do trânsito no horário de rush recifense. E a quantidade de garotas de programa - 4 no mesmo ônibus - provavelmente indo para o trabalho. Estranhas relações.
Ao meu lado havia um casal. Uma senhora, aparência de uns 70 anos, colar de contas vermelhas, brincos com pingente também vermelho, uma enorme verruga na bochecha, que lhe dava aparência de bruxa, e um homem, aparentemente bem mais novo - talvez uns 40, 45 anos. Os dois dormiram todo o trajeto. Ela reclinada no ombro dele e ele segurando firme a mão dela.
Paramos no bar em frente ao hotel para tomar uma cerveja para relaxar. Ao lado da nossa mesa havia uma outra, grande, só com homens. Homens maduros, que chegaram em seus carrões, com 2 ou 3 garotos, bonitos, entediados, gostosos e deslocados. Dando o que pensar.
Agora, tentando vencer o sono, escrevendo esse texto e tentando transferir as poucas fotos feitas pelo celular, que nunca carrega.
Teclando mensagens quase telegráficas com saudades deixadas longe.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
diário do recife - noite 1
Fomos de ônibus, porque o hotel é longe pra caramba e o táxi fica uma fortuna. Como nos trens de Portugal (e talvez no resto do mundo), as pessoas falam ao celular o tempo todo. Um cara no banco de trás contava piada, cantava trechos de música, imitava animais. Descemos no Cais de Santa Rita e fomos à pé até o encontro, em uma temakeria na Rua da Moeda. Lugares esquisitos, o sinal de alerta ligado. Turista, sim, mas sem dar bobeira.
Ruínas e ratazanas à beira do rio Capiberibe.
Recife antiga à noite refletida no rio é ainda mais linda.
Elogiei (pasmem, eu que detesto natal!) até a sofisticada decoração natalina da ponte Maurício de Nassau.
Os bares do centro são animadíssimos. Do lado de fora de um deles havia um Dj tocando vinis das antigas. Duas portas além, uma banda cantando sucessos dos anos 80. Uma guerra de potências sonoras. Por sorte, próximo à nossa temakeria só havia, próximo, um grupo de adolescentes incansáveis ensaiando (dançando e percutindo) ritmos folclóricos pernambucanos. Necessário conversar mais alto, porém desonerando o cérebro de filtrar as informações sonoras conflitantes entre o Dj e a banda cover.
Hoje é terça-feira, amanhã é quarta, os turistas somos nós e as amigas trabalharão cedo amanhã. Assim, o encontro só durou até às 22 horas. Lucinha ainda tentou nos levar para o bar mais cult, mas o companheiro de viagem estava chumbado. R$ 50 de táxi até o hotel, mais uma cerveja choca e caldo de peixe no bar em frente.
O amigo está simplesmente torrado. Tomou mormaço demais, logo ele, pele branca e pouco acostumada aos raios ultravioletas. E nem passou filtro solar! Não foi por falta de aviso.
E eu sem sono, tentando estabelecer contatos quase imediatos com seres dos mundos paralelos ao som do mar e do vento cheiro da maresia vindo da janela.
Ruínas e ratazanas à beira do rio Capiberibe.
Recife antiga à noite refletida no rio é ainda mais linda.
Elogiei (pasmem, eu que detesto natal!) até a sofisticada decoração natalina da ponte Maurício de Nassau.
Os bares do centro são animadíssimos. Do lado de fora de um deles havia um Dj tocando vinis das antigas. Duas portas além, uma banda cantando sucessos dos anos 80. Uma guerra de potências sonoras. Por sorte, próximo à nossa temakeria só havia, próximo, um grupo de adolescentes incansáveis ensaiando (dançando e percutindo) ritmos folclóricos pernambucanos. Necessário conversar mais alto, porém desonerando o cérebro de filtrar as informações sonoras conflitantes entre o Dj e a banda cover.
Hoje é terça-feira, amanhã é quarta, os turistas somos nós e as amigas trabalharão cedo amanhã. Assim, o encontro só durou até às 22 horas. Lucinha ainda tentou nos levar para o bar mais cult, mas o companheiro de viagem estava chumbado. R$ 50 de táxi até o hotel, mais uma cerveja choca e caldo de peixe no bar em frente.
O amigo está simplesmente torrado. Tomou mormaço demais, logo ele, pele branca e pouco acostumada aos raios ultravioletas. E nem passou filtro solar! Não foi por falta de aviso.
E eu sem sono, tentando estabelecer contatos quase imediatos com seres dos mundos paralelos ao som do mar e do vento cheiro da maresia vindo da janela.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
diário do recife - dia 1
Aeroporto de Brasília pior que a rodoviária: vozes estridentes, altissonantes e ininterruptas anunciando voos, mudanças de portão de embarque, convocando a cada 30 segundos uma excêntrica senhora Katiângela que nunca apareceu. Embarque tumultuado. Comissários de bordo meio tontos. Resultado: gente embarcando em avião errado, gente embarcando muito depois do horário, gente brigando por lugar. Atraso de + de 1 hora, sem qualquer explicação. Isso é TAM.
Por causa das minhas pernas compridas e da bunda seca eu sempre escolho corredor. Pois no meu lugar já havia um homem sentado. Todo bonzinho, todo educadinho, todo meloso. No corredor oposto estava a esposa. Ele queria ficar perto dela, para que ela o beliscasse de vez em quando (palavras dele). Meu solícito e social companheiro de viagem cedeu o MEU lugar para o cara. Ou seja: ao invés de o docinho e a esposa sentarem-se na fila do meio/janela e deixarem os corredores para mim e para meu amigo, viajei espremido, na fila do meio.
A sorte foi ter trazido (ou levado?) o Safran Foer (Extremamente alto e incrivelmente perto). Li mais da metade do livro na viagem. (Falar sobre ele em postagem próxima).
O aeroporto de Recife está um luxo. Espaçoso, corredores bem iluminados, pessoal bem treinado. A bagagem chegou rápido à esteira e pela primeira vez na vida minha mala veio na primeira leva.
R$ 33 de táxi até o hotel que, ao contrário do que informava o Booking, não é em Boa Viagem, mas em Piedade (tecnicamente uma extensão de Boa Viagem, mas já no município vizinho) - Jaboatão dos Guararapes. Entendi a razão do preço da diária ser tão mais baixo que os demais hotéis pesquisados. Mas é ajeitadinho. Predião modernoso, com muitos vãos e poucos móveis, quadros abstratos legais nas paredes, elevador panorâmico. O quarto e ventilado e possui a janela mais bonita da região (vide foto acima).
Dormi com o barulho do mar e o vento de maresia. (E os roncos do amigo de quarto). Acordei de madrugada enjoado e entre pesadelos. Levíssimo jetleg (parece texto da Danuza Leão) por causa do horário de verão, que aqui não tem.
Café da manhã farto. Bolo de milho e de mandioca, bolo de coco, bolo de chocolate, bolo de puba, os tradicionais ovos mexidos com salsicha e até macaxeira e charque. Não arrisquei os últimos. Preferi deixar para o dia 2.
Depois, praia. Tempo nublado, mas quente. Sol até às 10 horas (só pra fazer companhia ao amigo. Fosse por vontade própria eu ficaria sob o guarda-sol para todo o sempre). Água-de-coco e papo esquisito do vendedor, finalmente guarda-sol e cadeiras reclináveis, mais água-de-coco, cochilo, papo diversificado (política brasiliense, presos do mensalão, crimes bombardeados na mídia, ataque às torres gêmeas - influência do Safran -, etc), deliciosa ducha do hotel e saída para o almoço.
O amigo desejando que o taxista descobrisse o restaurante (que não lembrávamos o nome) onde comemos há pelo menos uns 3 anos atrás. Aquele silêncio constrangedor no táxi, o motorista sugerindo outros lugares, o amigo impassível e irredutível. Por fim eu o convenci a descer no primeiro que passamos à porta.
Havia uma mesa de confraternização de fim de ano só de mulheres. Imagina a gritaria. Por sorte havia mesas na área interna, separadas das harpias (desculpem-me as leitoras, mas as moças da mesa comportavam-se como tais) - separadas das harpias por vidro blindado à prova de som. Um self-service bacana, com vários pratos de frutos-do-mar. Só não estava bom o cozido de lagosta.
De volta ao hotel o amigo demandou 3 horas de descanso. Vim para o deck, defronte ao mar, sob um pinheiro (!) enquanto escrevo este diário e me preparo para encontrar as queridas e adoradas amigas pernambucanas.
sábado, 7 de dezembro de 2013
curiosidades do mundo antigo: numa pompílio
Com tanta literatura moderna e contemporânea à mão nas prateleiras das melhores livrarias, eu mergulhando na leitura dos clássicos de sebos.
Como diz um amigo: perda de tempo. O mundo de hoje não tem nada a ver com essas velharias mortas e enterradas há mais de 2 mil anos.
(Note-se: o amigo incongruente que me critica é estudioso das tragédias gregas, deleita-se em ouvir Sófocles e Eurípides em grego arcaico e faz suas abluções secretas a Dionisos).
...
Concordo com o amigo. A Problemática Humana (com maiúsculas mesmo) é infinitamente mais complexa e variada do que na época de Plutarco.
Mas dane-se. Trata-se de História. Eu gosto. Mesmo sendo taxado de anacrônico e alienado. Mesmo gastando um tempo enorme em decifrar inversões e elipses, na linguagem caduca de alguns trechos. Mesmo perdendo o bonde expresso da contemporaneidade.
...
A Vida dos homens ilustres, em 15 volumes, foi adquirida por uma pechincha. Encadernação em capa dura azul marinho com apliques em dourado, ilustrações como as acima, folhas quebradiças, lombadas empoeiradas e costuras roídas pelas traças.
...
A ideia inicial era uma postagem para cada uma das celebridades. Escrevi 3 textos: sobre Teseu, Rômulo e Licurgo. Abandonei o projeto por constatar que em parte o amigo acima tinha razão. Há pouco a dizer sobre eles no nosso mundo-vórtex de informação.
Mas, como exercício para romper o bloqueio criativo, prosseguirei. Vale como uma aulinha. Como se estivéssemos Leitor(a) e eu em uma sala de curso pré-vestibular.
Chega de justificativas.
...
Hoje falaremos sobre o chato do Numa Pompílio. Conforme qualquer enciclopédia física ou virtual, Numa governou Roma entre 754 e 671 a.C. Sucedeu a Rômulo, o fundador e primeiro governante romano (Rememore ou saiba mais clicando aqui).
Numa foi responsável por uma grande reforma político-religiosa. Pelo que entendi, elementos dessa reforma serviram de esteio para o cristianismo primitivo surgido alguns séculos depois.
Nasceu no dia da fundação de Roma, em 21 de abril. Era tão perfeitamente disposto a toda virtude que não precisou de mestres para governar. Além disso, sendo naturalmente inclinado e dedicado a toda virtude, poliu-se ainda mais pelo estudo das boas disciplinas (quais seriam elas?) e pelo estudo da paciência e da filosofia.
Após a morte da esposa Tácia, com quem viveu por 13 anos, Numa isolou-se dos homens. Mudou-se para o campo e passou a frequentar as florestas e bosques consagrados aos deuses, nas terras dos sabinos. Lá (Plutarco afirma com uma certa ironia) conheceu a ninfa e deusa Egéria, que o recebeu como marido e o proveu de insights sobre o amor e o conhecimento das coisas celestes.
...
O prudente Plutarco estende-se no tema para isentar-se ou justificar o descrédito. Lista fatos e evidências que poderiam reger o relacionamento entre humanos e divindades na época.
Exemplos:
1. As divindades preferem os homens aos pássaros ou os cavalos;
2. As divindades sentem prazer inenarrável em um papo cabeça com humanos. Desde que estes sejam perfeitamente bons ou os santos e religiosos;
3. Quanto ao relacionamento carnal propriamente dito, é bem difícil acreditar que as divindades sintam tesão nos humanos;
4. É plausível que uma divindade masculina se aproxime de uma mortal e a emprenhe. Mas um homem coabitar com uma divindade feminina e ter comistão corporal com ela é impossível (ele não explica a razão).
(Segundo o velho Caldas Aulete:
Comistão, s.f. (ant.) mistura // F. lat. Commixtio.)
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Depois de arrazoar sobre a literalidade das relações deuses/deusas/homens /mulheres, Plutarco afirma que era tudo metáfora: as divindades trazem amizade aos homens puros e virtuosos; dessa amizade nasce o amor intelectual; por isso a dúbia denominação de amantes.
Ok, Plutarco, você me convenceu. Mas poderia ter parado aí. Para qual era a tua intenção em voltar à literalidade, enumerando os pouco espiritualizados e às vezes apimentados casos gays de deuses greco-romanos - Apolo e seus garotos Forbante, Jacinto, Admeto e Hipólito; Pã e seu boy-poeta Píndaro; Sófocles e Esculápio; et-cétera?
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A falsa prudência era firula estilística. No capítulo IX, Plutarco explica que os capítulos anteriores sobre sexualidade eram uma espécie de parêntesis. Uma pausa de efeito. A fim de criar impacto para a revelação bombástica humana demasiado humana:
Na verdade Numa era uma raposa velha. Aproveitou-se politicamente do diz-que-diz sobre seu envolvimento com a ninfa-desusa para obter vantagens políticas que propiciaram as reformas político-religiosas e o conduziram às páginas amareladas de Plutarco.
Veremos o assunto na próxima postagem.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
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