quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

diário gerúndio apolíneo de férias

reabilitando dons & recuperando capacidades. psicografando mensagens do além-poético. desenterrando apetrechos do rito esquecido de elêusis que por sua vez originou as orgias das mênades & de dionisos segundo mircea eliade ou outro helenista que o valha. devorando a ilíada & a odisseia & vomitando ditirambos abestalhados. abrindo a boca e dizendo ah! na alvorada dos trópicos.

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vestindo um parangolé neoconcreto estampado de losangos verdes & pretos & brancos da cintura para baixo. caminhando de pés descalços. assando as solas dos pés sobre a areia quente. espargindo ambrosia & néctar sobre boquitas pintadas & botõezinhos de rosa-chá dos banhistas. esfregando as nalgas dos caretas com esponja do mar & água de lavanda. polemizando o mínimo possível & evitando diatribes. polinizando aqui & acolá. ouvindo reginaldo rossi.

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cantando pra descer o caboclo-pombinha na sessão de terecô nos afogados. fumando com o saci & a caipora. sentindo o bafo quente dos trópicos na nuca & arrepiando os pelos da pudicícia. batucando pontos de macumba no piano da patroa. exercitando conjugações verbais conspícuas e de gosto duvidoso. cravejando frases-feitas na bijouteria grosseira deste texto. inventando artifícios para desconectar os controles. ativando o piloto automático. acordando a tempo de assistir de camarote o final dos tempos.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

diário de férias - carapibus e recife - dias 6 e 7

Acordei cedo depois da noite intercalada de sono e leituras. Para arrumar a mala. Poucas palavras na manhã de mau-humor. Café da manhã na pousada lotada, pois era domingo. Moscas pousadas em um bolo com cobertura de glacê branco e cor-de-rosa meio derretidas. Praia cheia e sol. Segunda vez no mar tranquilo de Carapibus. Os pregões bem-humorados dos picolezeiros: criança não paga, quem paga são os pais ou os avós. Criança que compra picolé tem direito a passeio de barco. Surreal o tal passeio: o vendedor de picolé leva o carrinho para dentro da água, até flutuar. Coloca a criança sobre ele e sai puxando.

Adolescentes sensualizados e olhares atravessados de pais e mães de família. Bebês vestidos com fraldas descartáveis. Filtro solar por causa do sol.

Juntamos o lixo, fechamos a casa, entregamos a chave ao filho do zelador do condomínio. Encomendamos uma faxina por R$ 50.

Viagem rápida e tranquila e sem paradas, até Recife. Caminho certo: conforme previsto, desembocamos na Agamenon Magalhães. Fácil também encontrar o hotel, pequeno, charmoso e confortável, agora em Boa Viagem.

Coincidentemente o almoço foi no mesmo self-service do primeiro dia. Com direito a brinde de caipiroska, pela indicação do hotel. Restaurante lotado.

Depois a feirinha de Boa Viagem. Muito parecida com a similar de Copacabana. No fim da tarde, caminhada pelo calçadão. Grande movimento das pessoas desmontando as barracas, recolhendo as cadeiras e guarda-sóis de aluguel. Gente bonita correndo ou caminhando. Maré alta, quase chegando à calçada. Muitos gays. E malas também. Não dava pra descuidar. Uma linda tarde.

Descanso no hotel.

E Anjo Solto, para o amigo ter uma noção da noite recifense. Ele queria mesmo era ir ao Ponto G, em Afogados, que eu tinha elogiado muito, pela peculiaridade. Vimos na internet, era um show de pagodeiros-sertanejos, convenci o amigo a desistir da ideia.

Não havia mesas no Anjo, sentamo-nos no mexicano contíguo. Música boa mas serviço péssimo. Caipirinhas. O amigo não gostou da tortilla morna. Mesmo assim fomos ficando. Acho que nossa tolerância mútua estava chegando no limite.

Acordamos de madrugada para embarcar às 06h00. Tudo tranquilo. Só um cara chato puxando conversa ao meu lado. Minha cara fechada bloqueou rapidamente o canal. O cara mudou de lugar. No final, ainda encrencou com o amigo por causa da mochila, que o amigo retirou do porta-bagagens. O cara encanou que a mochila do amigo era a dele.

Chegada em Brasília no horário. Ônibus executivo até o Setor Hoteleiro Norte, com direito a tour pela esplanada e papos grosseiros entre o motorista e o cobrador. Na hora de chamar o táxi, os créditos do meu celular PÓS PAGO, tinham acabado. Ódio mortal da Tim e do engabelamento do plano.

Fim das férias. A vida retomando o ritmo cotidiano.


diário de viagem (parêntesis literário)

Para não fazer peso na bagagem só levei 3 livros: "Extremamente alto, incrivelmente perto", de Jonathan Safran Foer; "Itinerância dos artistas - a construção do campo das artes visuais em Brasília - 1958-2008", de Angélica Madeira; e "Mala na mão & asas pretas" - vol. 2 das Obras reunidas, de Roberto Piva.

(Extremamente alto, incrivelmente perto. Jonathan Safran Foer. Editora Rocco. 2011. Tradução de Daniel Galera)

Safran Foer surpreende. Eu já tinha lido dele (e gostado) o "Tudo se ilumina", sobre um jovem americano que a partir de uma foto antiga, vai procurar suas origens na Ucrânia.  "Extremamente alto" é a história de um garoto, judeu, que perdeu o pai no ataque às torres gêmeas, no histórico 11 de setembro. Talvez seja politicamente incorreto dizer isso: o livro, como em 99,9% da literatura feita por judeus, dedica um longo capítulo sobre o holocausto (o bombardeio de Dresden). Muito bem escrito, por sinal, mas meio forçado.

O que mais me impressionou foi a estrutura do romance. Por onde a narrativa flui, sem bloqueios. Creio que a estrutura sólida faça uma analogia, contraponto (consciente ou inconsciente) à sólida e ao mesmo tempo frágil dos edifícios gêmeos destruídos por Osama Bin Laden.

O autor utiliza com grande propriedade de vários recursos gráficos - textos sublinhados em vermelho, sequências de imagens, fontes sobrepostas, etc, como se fosse um caderno de diário. Há 3 personagens-narradores: Oskar, o garoto de 9 anos que perdeu o pai no 11/09; a avó; e o avô mudo que só se comunica escrevendo frases em um caderno ou longas cartas para o filho (abandonado antes de nascer e depois morto). Sendo que os avós são uma espécie de  desdobramento do personagem Oskar.

Me pareceu que o livro é uma homenagem ou referência a "O Tambor", filme de Volker Schlöndorf (Polônia, Alemanha, França, Ioguslávia, 1979). Os personagens principais possuem muitas semelhanças e o mesmo nome: Oskar. O Oskar de "Extremamente alto toca um pandeiro nos momentos de tensão interna; o de "O Tambor" toca tambor. O Oskar de Foer não quer que a mãe se relacione com outro homem. Oskar de "O Tambor" parou de crescer por ter descoberto o amante da mãe. O universo interno dos dois é infinitamente rico e angustiado. Há nos dois Oskar um impulso ou necessidade de busca de sentido existencial. As duas histórias referem-se ou se desenrolam sob o pano de fundo do nazismo. Assim por diante.

O capítulo final de "Extremamente alto" é impressionante. Talvez fosse mais adequado chamá-lo de sequência, por sua proximidade do cinema. Foer/Oskar mergulham em uma vertiginosa sequência, como o efeito de inverter o rolo do filme e consequentemente inverter a sequência natural dos acontecimentos - a queda transforma-se em ascensão, a destruição em construção, o fim em começo, o começo em fim.



(Itinerância dos artistas - a construção do campo das artes visuais em Brasília 1958-2008. Angélica Madeira. Editora UnB, 2013)
A segunda leitura da noite e madrugada foi "Itinerância dos artistas", de Angélica Madeira. O livro conta a história das artes visuais na cidade. Angélica escreve de uma forma erudita e ao mesmo tempo muito agradável de ler. Começa, como os textos acadêmicos, apresentando a metodologia de pesquisa, as fontes de referência, as opções de direcionamento. Para em seguida abandonar esse formalismo (necessário) e embarcar em um texto fluente e agradabilíssimo de ler.

Os primeiro capítulo fala dos primeiros tempos, anteriores à inauguração da cidade até o final da década de 1960. Angélica transforma fatos históricos em um texto quase literário, de tão imagético. Sem abrir mão do rigor histórico, da análise estética e sociológica e da elegância da escrita.

É como se estivéssemos lá, no descampado de uma cidade em construção, presenciando fatos históricos - as encomendas oficiais de monumentos/esculturas para os espaços públicos, o preparo da terra para o plantio dos jardins e espelhos d'água de Burle Marx, Athos Bulcão coordenando a disposição dos cubos da fachada do Teatro Nacional, Ferreira Gullar organizando a festa do primeiro aniversário da cidade, o encontro das grandes arte-educadoras Mirtes Macdowell, Renee Simas, Laís Aderne e Ana Mae Barbosa, a Escola-Parque, os ateliês nos barracões de obra na construção da Universidade de Brasília, as palestras do Congresso da Aica (Associação Internacional dos Críticos de Arte) - enfim, pura História - e viva.

"Itinerância dos artistas", juntamente com "Entre poéticas e políticas", de Renata Azambuja são os livros pioneiros em organizar, definir, registrar e delimitar os fatos dispersos e às vezes quase perdidos da história da arte brasiliense.


(Mala na mão & asas pretas. Obras reunidas. Volume 2. Roberto Piva. Editora Globo. 2006)
Por fim, o deslumbramento dos poemas de Roberto Piva. "Mala na mão" reúne "Abra os olhos e diga ah!", "Coxas", "20 poemas com brócoli"e "Quizumba", escritos entre 1976 e 1983.

Ler Piva é gozar (metaforicamente talvez) a cada poema. É puro tesão deixa-se levar pela sequência vertiginosa das palavras, dos versos truncados, sincopados. Das imagens improváveis, eróticas, pornográficas, sonoras, contundentes, intergaláticas. Piva cria sentidos inusitados, desloca o tempo todo o sentido dos conceitos, rompe qualquer possibilidade de interpretação de significados preestabelecidos.

Muito além do surrealismo ou da escrita automática, a poesia de Piva é mística e primordial. Extremamente erudito - mistura milhares de referências clássicas, filosóficas, textos sagrados - Dante da Divina comédia à frente - à pornografia dos michês e de garotos sodomizados em saunas de periferia, praticando várias modalidades de sexo em praças públicas, ninhos-de-amor-quitinetes ou coberturas de edifícios da Avenida Paulista, etc.

Para além da escrita automática dos surrealistas, a poesia de Piva aciona os mecanismos internos do inconsciente, impulsionando o leitor, como se estivesse no primeiro carro de uma montanha russa radical a se conectar com o telúrico, o dionsíaco, a kundalini, energia sexual, a ejaculação cósmica.

(Como brinde, as análises da obra de Piva por Alcir Pécora no prefácio e Eliane Robert Moraes, no posfácio).

diario de viagem - paraíba, litoral sul, dia 5


Acordamos. Ao abrir a porta, havia uma gata na varanda. Deitada na espreguiçadeira. Vira-latas, novinha, branca com manchas acinzentadas, olhos verdes, grávida. Carinhosa e amigável. Elas entram em êxtase quando são acariciadas na nuca, quando se puxa a pele do pescoço. Talvez se lembrem dos carinhos maternos. Acho que a gatinha queria entrar para parir dentro de casa. Fiquei apaixonado.

A ideia inicial era apresentar ao amigo as praias próximas: Tabatinga, Coqueirinho e Tambaba. Invertemos a ordem. Na praia naturista de Tambaba homem só entra acompanhado de mulher ou então com "passaporte naturista". Regra compreensível mas caduca, ridícula e preconceituosa. Não evita a entrada dos tarados de plantão e impede que gente legal aproveite uma das mais lindas praias brasileiras. Como ficam os gays nessa história?

Ficamos na barraca, em frente às formações rochosas e piscinas naturais. Água de coco, depois cerveja com macaxeira frita e alguns colírios. Eu preocupado com o tom arroxeado das queimaduras de pele nas pernas do amigo. Ofereci para levá-lo ao hospital. Mas, como diz a amiga NEH, o amigo é um bruxo. Inacreditável. Sabe quem aparece na barraca? Dr. Paiva, o dermatologista do amigo. Coisas do além.

Dr. Paiva sentou-se conosco. Tranquilizou-nos quanto à gravidade da situação. Receitou menos sol e muito hidratante. Falamos sobre arte (ele é colecionador), livros (ele é leitor) e viagens ao interior do Brasil, ao Vietnã. Viajante solitário, chegava de um longo tour pelo interior do Nordeste e Fernando de Noronha. Quando Dr. Paiva pediu o cardápio, repentinamente o amigo quis ir embora. Devia estar cansado da conversa.

Fomos então para Coqueirinho. Cheio de banhistas. Dois homens abraçados caminhando pela praia, trejeitos exagerados,provavelmente não-gays, provavelmente satirizando os gays para as mocinhas gostosas. Encenação com direito até a bitoca (colocando em dúvida as verdadeiras intenções da dupla). Coqueirinho é (ou virou) farofada. Um "shopping" ajeitado que reuniu algumas das barracas de sapé existentes anteriormente e um restaurante meio "metido", com cadeiras grosseiras e incômodas de espaldar alto, mesas forradas de feltro e cobertas de vidro. Cara de lugar evangélico, não fosse a venda de bebidas alcoólicas. Peixe frito bom, com quase uma tonelada de macaxeira frita - pelo dobro do preço que seria pago na barraca de Tambaba.

A essa altura (e da terceira ou quarta cerveja), na volta para casa eu já estava em pleno bode. Ainda abrimos outro vinho para dar sequência à conversa da noite anterior, mas eu não aguentei nem a primeira taça. Fui dormir.

Uma noite engraçada, diferente. Períodos de sono reparador intercalados por leituras: terminei o Safran Foer (Extremamente alto e incrivelmente perto), avancei no primeiro e segundo capítulos do livro da Angélica Madeira (arte em Brasília - os primeiros períodos - de 1958 aos anos 70) e na vertiginosa poesia de Roberto Piva (Obra reunida, vol. 2).

Detalhes na próxima postagem.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

pedido ao papai-noel na noite de natal

o pior de tudo é a sensação de solidão que se sucede ao fastio da gula, que se sobrepõe aos abraços, às conversas adiadas o ano todo, às vezes sérias e profundas, diluídas na cerveja, nos vinhos especiais ou na cidra cereser, os afetos sublimados na gordura do pernil, no mel karo do tender, na pele tostada do chester, na calda de açúcar queimado dos pudins, nos cremes de chocolate e abacaxi do pavê, nos presentes de R$1,99, nos abraços, nos votos de feliz natal & próspero ano novo, que só se repetirão (felizmente) daqui a 365 dias. o que eu queria mesmo era dormir com você.

crônica de natal da infância

Já devo ter escrito várias vezes antes: acho um saco as festividades do fim de ano. Principalmente o natal. Não entendo como a maioria das pessoas se deixa levar pela euforia histérica das compras de presentes, das comidas exageradas, das confraternizações nos bares, dos amigos-ocultos. Do ano novo, os ingressos a preços exorbitantes das festas sem-graça de reveion, das roupas brancas, as homenagens alcoólicas às divindades afro-brasileiras nas praias, beiras de rio, de lago, etc, os fogos de artifício, a cueca amarela para atrair dinheiro ou a calcinha vermelha para o amor (e/ou vice-versa).

Normalmente eu tenho pânico de shoppings. Enfeites e luzes não me agradam, músicas pior ainda, papais-noéis, decorações com duendes, renas, fitas verdes, vermelhas, douradas, cartões de natal on line, lojas abarrotadas, filas nos caixas, disputa de vagas nos estacionamentos, empurra-empurra, crianças berrando - quando sou obrigado enfrentar isso, se eu demorar mais que 15 minutos, é o verdadeiro desespero.

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Não, leitor(a), não é trauma de infância. Na infância os meus natais foram mágicos.

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No começo de dezembro íamos com a mãe em excursão ao cerrado. Colhíamos uma árvore seca, daquelas bem retorcidas, o enfiávamos em uma lata com areia, envolta por papel laminado vermelho e estrelinhas douradas coladas em volta. Cobríamos os galhos com algodão e dependurávamos os enfeites - lindas bolas de vidro coloridas, muito antigas, a maioria não maiores que uma uva. Tinha também um papai-noel maiorzinho, meio descascado, também de vidro, que disputava com a estrela (essa sim, era o máximo) o galho mais alto da árvore.

Aos pés da lata de areia montávamos o presépio, forrado com limo colhido no quintal. Meus pendores artísticos revelaram-se cedo - eu construía uma gruta com papel kraft amassado (sacos de pão), culminando com um cometa meio torto recortado na cartolina, fazendo as vezes de estrela dos reis magos.

Os presentes eram poucos e sóbrios. Pequenos embrulhos repousando sob a árvore: carrinhos de plástico, canetas hidrocor e cadernos de desenho e - sempre detestávamos - camisetas, cuecas, meias e/ou sapatos.

Houve um ano, talvez de vacas mais gordas, que eu ganhei um carro de bombeiros com reservatório de água e mangueiras, o irmão do meio um transatlântico com botes salva-vidas e tudo, e o caçula um velocípede em forma de jipe.

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O melhor do natal daquela época, e só agora eu percebo, era a festa. Além dos parentes de Minas, com muitos primos, vinha tia Madalena e tio Zeca, de Goiânia (traziam um saco de bala toffee coberta com chocolate). Vinham também os vizinhos libaneses - Seu Mohamed com a esposa e os filhos Nasser e duas meninas que não me lembro os nomes, Youssuf, que deixara a esposa no Líbano e Abdel, o mais novo, solteiro, bonito - cabelos castanhos e cacheados como os do anjo do presépio. Traziam arak e pratos esquisitos, que para o meu paladar inculto sabiam a terra.

O mais legal porém era o povo da roça. Começavam a chegar 1 semana, 10 dias antes. Vinham para consultas médicas, resolver problemas de cartório, heranças, partilhas, demarcações, etc, e ficavam para o natal ou até o dia de reis. Os mais velhos e velhas dormiam nas nossas camas. Os mais novos, em colchões. E a criançada toda misturada, irmãos, primos, roceiros - em um grande dormitório de colchonetes estendidos na sala.

Traziam de tudo: pequi, jaboticaba, guariroba, farinha, carne, feijão, biscoitos, queijo, galinhas vivas, ovos de pata, leitão, até um cabrito. A casa ficava com um aroma peculiar, que até hoje me lembro, mistura dos suores, do perfume de tia Madalena, da loção de barba do tio Zeca, dos temperos do oriente, das comidas sendo preparadas, dos assados, o arroz com pequi, os bifes, da cachacinha do avô antes do almoço, do cheiro de galinha depenada.

Era tanta farra nos dias antecedentes ao natal que a ceia propriamente dita era quase frugal. Os mais velhos ou mais beatos iam à missa do galo, celebrada pelos capuchinhos (padre Luiz e irmão Miguel) na igreja de tábuas devotada a São Sebastião. As crianças ficavam acordadas, farreando, ou esperando a comida.

Enquanto isso, eu (e meus precoces pendores artísticos) arrebanhava alguns figurantes (geralmente contra a vontade deles), cobria-lhes com lençóis, colchas e cobertores à guisa de véus e túnicas para encenar um presépio vivo, para a plateia menos religiosa: o pai, o avô e os tios socialistas, tia Hemicênia intelectual, os roceiros sonolentos que não tinham ido à missa, e Bilô, a empregada.

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Com o passar dos anos o ardor da festa foi diminuindo. O povo da roça deixou de vir. Os tios e primos vinham cada vez menos. Os libaneses mudaram-se. As crianças cresceram. Tio Zeca morreu. Mas meu pai fazia questão de reunir o máximo de parentes possível. Passou-se a ligar a TV (Roberto Carlos, retrospectiva do Fantástico, depois Xuxa) ao invés do teatrinho e das histórias e das conversas.

Depois morte do pai, o natal em família acabou de vez. A gente ainda se reúne - irmãos, cunhadas, sobrinhos e primos mais próximos. Fazemos um almoço tardio - cada um traz um prato, refrigerante, vinho, cerveja. A avó distribui envelopes com dinheirinho (acho que notas de R$ 20 para cada neto) e panos de prato para as noras. O irmão monta a mesa de pingue-pongue e frita espetinhos. Joga-se um pouco de conversa fora. Às 8 da noite acaba. Cada um vai para casa se preparar para as verdadeiras festas de natal nas casas das respectivas sogras.

E eu vou dormir. Enfeitando a lembrança de tempos que talvez só na minha memória tenham sido tão luminosos e mágicos.

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E esperando que o próximo fim-de-ano capitalista e consumista demore muito a chegar.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

diário da paraíba - dia 4

Tomamos o café da manhã na pousada do toboágua. Carapibus e toda a região cresceram. Prédios,  pousadas, onde antes (há 5, 6 anos atrás era pedra e areia e umas poucas casas). Bom e ruim o progresso. Em Jacumã uma agência de terminais eletrônicos do Banco do Brasil quase pronta com o seguinte cartaz: "sem previsão para funcionamento".

Chuva na estrada para João Pessoa. Paramos na Estação Cabo Branco, uma maravilhosa exposição: O corpo na arte africana. Patrocinada pela Fiocruz. Montagem simples, textos claros, curtos e sintéticos, me esbaldei de fotografar, sem problemas.

Depois levei o amigo para compras no mercado de artesanato. Muitas lojas fechadas, porque era hora de almoço. Acho chato o lugar, tudo parecido, quase tudo industrializado. O único lugar em João Pessoa onde o freguês é atendido quase sempre de má vontade pelo comerciante. Exceção a uma senhora e seu discurso eloquente sobre a possível catástrofe provocada pela poluição e extinção das grandes nascentes - na Serra da Capivara!

Comprei meus poucos presentinhos (bolos de rolo) em uma das lojas de produtos do sertão, na rua do mercado, atendido por uma simpaticíssima vendedora.

Foi o dia da morte do cantor brega Reginaldo Rossi. Comoção geral em Pernambuco e na Paraíba, provavelmente em todo o Nordeste. A faxineira da Eudirce faltou o serviço em JP para ir ao velório, em Recife.

Seguimos em direção ao Bessa, à procura infrutífera das barracas - a do Golfinho. Eu tinha me esquecido que havia, da última vez que fui lá, um projeto para a retirada delas da orla. Depois do banho de mar (com muito sargaço), uma moqueca de camarão meia-boca, e cervejinha pra relaxar.

E a visita à Eudirce. Que nos recebeu, como sempre, muito bem Forte, cheia de vida, apesar das dores na coluna. Contou ao amigo sua história, como ressurgiu, após a grande crise, os estudos - supletivo, depois a Faculdade Dulcina, a pós-graduação e o projeto de mestrado abortado por causa da crise de artrose; a experiência em sala de aula, o constante apoio dos filhos, a volta para JP, as sincronicidades (ou sincronismos) da compra do apartamento maravilhoso. Deu pra gente ler um esboço de suas memórias e poemas, mostrou orgulhosa o álbum de formatura e uma toalha, que está bordando, trabalho dificílimo, cuja técnica ela resgatou dos aprendizados do colégio de freiras, em Campina Grande, há 50 anos atrás. Visita inesquecível. Com ela sempre aprendemos.

Volta tranquila, cansaço e tensão de ter dirigido tanto na cidade.


o corpo na arte africana 2, estação cabo branco, joão pessoa, paraíba










o corpo na arte africana (estação cabo branco, joão pessoa, paraíba) - 1











diário de recife / carapibus - dia 3

A saída de Recife beirou ao caótico. Só por que choveu à noite. Pistas inundadas, ruas, calçadas, pessoas tendo que atravessar verdadeiros riachos de enxurrada. Falta infraestrutura de águas e esgotos. O motorista de táxi estava estacionado na mesma altura do hotel, porém do outro lado da avenida que atravessa Piedade (4 ou 5 pistas, automóveis em alta velocidade. Pois ele atravessou a rua perpendicularmente, para entrar no saguão externo do hotel,  fazendo o trânsito parar, só para não ter que retornar o quarteirão. Parecia um clipe daqueles americanos de gente que faz extravagâncias no trânsito e provoca acidentes espetaculares.

O motorista era bonitinho. Com aquele sotaque recifense tão gostosos que arrepia os pelos da nuca. O amigo encantou-se. Conversou com o rapaz o tempo todo. Era filho do dono do táxi. Estava tirando as férias de um motorista. Tanto que perdemos o rumo da locadora de automóveis, rodamos mais uns 15 reais, mas valeu a pena pela companhia.

A locação do carro foi outra novela. A locadora era um muquifo, escondida no estacionamento de um posto de gasolina, em frente ao aeroporto antigo. A recepção era um puxadinho, com bancos e mesa de cimento, daqueles tipo de praça. O carro era velho, duro, meio caindo aos pedaços. Pelo mesmo preço dos legais e novinhos das locadoras grandes.

Minha paciência e ânimo estavam no limite. A ponto de rodar a baiana ou a pernambucana. O amigo contemporizou. Esperei que ele desse o piti e saíssemos dali, até a loja do concorrente. Não rolou.

Demoramos a sair de Recife por causa dos engarrafamentos em Olinda e cidades vizinhas. Depois, um acidente invisível. A estrada é ótima. Já na Paraíba paramos em uma churrascaria para almoçar. Carne de bode, contrafilé e maminhas macias como solas de sapato. Por R$ 15,90.

Saímos da locadora às 11h e só chegamos a Carapibus às 16h. Tempo nublado mas agradável. Instalamo-nos na casa de Lucinha e fomos à praia. Anoitece cedo no Nordeste. A maré subindo, ondas descontroladas. Mesmo assim brinquei bastante. Caminhamos pela praia.

À noite fomos a Jacumã fazer compras e jantar. Peixe grelhado chamado meka, que pesa cerca de 600kg, salada e macaxeira frita.Tomamos 1 garrafa de vinho em casa,  conversando abobrinhas sobre MPB, cinema, teatro, etc.

Na parede da casa em frente surgiu uma barata gigante, com cerca de 10 cm. Ficou paradinha, observando (antenas perscrutando), prestando atenção ao papo. Ficou lá até a hora de dormir. Pela primeira vez na vida eu tive pena de exterminá-la com uma chinelada.

Tenho tido muitos sonhos, cinematográficos, que não me lembro ao acordar.

(pensando na Divina Comédia - o pecado da gula no Inferno e no Purgatório).