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| (imagem de: www.jornaldebrasilia.com.br) |
sábado, 11 de janeiro de 2014
da série resenhas. bertha ruck. amor inconsciente
Clover Elphinstone é diretora e proprietária da Irmãos Elphinstone, uma empresa de importações. É viúva e virgem, pois John Elphinstone, o marido, teve um piripaco e morreu no carro que trazia o jovem casal da igreja, logo após o casamento. Linda, rica, inteligente, e jovem, Clover não suporta mais o assédio da horda de pretendentes, pois para ela os homens são apenas para os negócios.
O Major Harry Carmichael é inventor, além de oficial da Marinha Britânica, na reserva. Tem os cabelos castanhos, os olhos azuis profundos, o porte atlético - resumindo, um gato. A única preocupação de Carmichael é uma espécie de guindaste revolucionário que eu não entendi bem o funcionamento. O Major não tem dinheiro para levar adiante o projeto. Carmichael só pensa no invento.
Clover tem uma ideia mirabolante para livrar-se do problema do assédio dos playboys londrinos: casar-se com o Major Carmichael. Não por amor ou paixão: casamento de fachada, com contrato e tudo. Em troca, mexerá os pauzinhos junto ao governo britânico para apoiar e financiar o projeto do Major.
Primeira incongruência: como um homem íntegro aceitaria essa proposta infame? Inicialmente o Major rejeita e despreza Clover. Porém, em páginas e páginas de argumentação (em forma de monólogo interior), a autora faz com que o Major aceite casar-se com Clover.
Até 2/3 do livro Bertha Ruck descreve as desventuras do contrato de casamento.
A certa altura Carmichael descobre que está apaixonado pela esposa. Ele a deseja. Ela também, mas secretamente. Ambos mantêm a pose, a rigidez do objeto do contrato. Nenhum dos dois dá o braço a torcer. A situação torna-se insuportável. Acabam por separar-se. Cada um para o seu lado. Irreversivelmente.
Mas Cupido já atingira com suas flechas os coraçõezinhos dos amantes. E contra o veneno de Cupido não há antídoto.
Devido a sua impulsividade e confiança, Clover faz um péssimo negócio para a firma. Empobrece da noite para o dia. Carmichael, ao contrário, ganha muito dinheiro depois que o guindaste foi aprovado e fabricado pelo governo.
Passam-se alguns meses.
Em um momento de desespero apaixonado no escritório da firma prestes a falir, Clover escreve uma carta ao marido, declarando seu amor. A intenção de Clover ao escrever a carta era só um desabafo. Destruiria a missiva reveladora depois de escrita. Porém, em um laivo sadomasoquista (ato falho ou outra artimanha da autora para desenrolar o enredo?), ela envelopa e sobrescreve a carta. Nesse exato momento Clover recebe um telefonema do banco credor e abandona a carta sobre a escrivaninha.
A secretária eficiente posta a carta junto com outras comerciais.
Carmichael recebe a carta e fica louco para encontrar Clover. Porém é verão. Há uma animada regata no rio Tâmisa, frequentada por toda a elite londrina. São milhares de barcos apinhados. Clover é convidada a hospedar-se no barco-casa do cunhado. Clover só pensa no sumido Carmichael.
Lá pelo terceiro dia da regata, Clover cai na água. Teria sido massacrada pelos barcos, colados uns nos outros se, por uma inacreditável coincidência, o barco que vinha logo atrás não fosse o de Carmichael. E era.
Em uma manobra rápida e precisa, Carmichael (não entendi como) afunda o próprio barco para não atropelar Clover, salvando-lhe a vida.
Assim, equívocos desfeitos, Carmichael reclinou a cabeça de Clover sobre seu peito e beijou-a, primeiro suavemente e logo impetuosamente, na boca, no pescoço. E viveram felizes para sempre.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
biblioteca para moças
Essa foto é parte da "Biblioteca para moças". São 15 volumes (de um coleção com 180 títulos) de romances água-com-açúcar ingleses publicados pela Editora Companhia Nacional nos anos 1950. A coleção era barata, os títulos e as capas interessantíssimas, o estado dos livros razoável (eufemismo para "deplorável") e os nomes e/ou pseudônimos dos autores (Bertha Ruck, Elinor Glynn, Concordia Merrell, etc) me seduziram. Comprei.
...
Por exemplo, o parágrafo mais picante de "Amor Subconsciente", é:
Colocou-a sobre o coração, cujo pulsar ela sentia através do seu próprio peito. Reclinou a cabeça dela sobre seu peito e beijou-a, primeiro suavemente e logo impetuosamente na boca, no pescoço.
A ideia inicial era criar versões gays para as histórias.
Para quê? Como vários outros, o projeto morreu na origem. Ainda tentei, mas ficou ridículo.
Imagine leitor(a) a dificuldade de transformar isso acima em uma cena entre 2 homens? Só apelando para sadomasoquismo explícito.
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São livros para formar as mocinhas, nossas mães ou avós, provavelmente. Ali elas aprenderiam a lutar e conquistar os seus futuros maridos, de preferência bonitos, ricos, gentis e inteligentes. A serem esposas lindas, charmosas, cheirosas e submissas à autoridade do esposo. A se comportarem bem nos ambientes sociais sofisticados. A se vestirem de acordo com sua posição social, a lidar com amigas menos favorecidas ou invejosas, com reviravoltas relacionadas ao dinheiro perdido pelo marido, com chantagens de tias recalcadas ou com mal-entendidos com sogras renitentes.
O machismo e a misantropia pululam a cada página. Os personagens são estereotipados: o mocinho rico mas desiludido com as mulheres; o mocinho fútil que descobre o sentido da vida ao se apaixonar pela mocinha pobre; a mocinha pobre mas inteligente e honesta; a mocinha rica a procurar um homem bom e desinteressado; além das tias solteironas parasitas, das confidentes traidoras, dos galãs coadjuvantes maus-caracteres, do amigo ou da amiga feios, assim por diante.
O cenário é sempre londrino, exceto as luas-de-mel, que acontecem em Paris. O escritório ou o ateliê de costura onde a mocinha pobre trabalha é na City. O restaurante do pedido de noivado é em West End. Os namorados (ou a mocinha desiludida e solitária) passeiam no Hyde Park. A casa da família do moço rico é em Southwark. Há sempre uma aldeia ou uma casa de campo ou um passeio de iate.
As peripécias até o desfecho são mirabolantes. Há sempre uma carta providencial, um acidente despropositado, um encontro no restaurante ou no elevador, - acasos às vezes absurdos para amarrarem, bem ou mal, a frouxidão do enredo e o final feliz: o casamento da mocinha com o mocinho.
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Como o projeto das versões gays picantes não vingou, resolvi (quando não houver assunto ou tema interessante para a postagem do dia) - para vossa alegria e deleite leitor(a), publicarei resenhas dos romances lidos. Em breve: Amor Subconsciente, de Berta Ruck, volume 128.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
das estrelas
sirius. canopus. canis. eu nunca saberei onde se escondem onde se formam as tuas constelações na noite pontilhada de estrelas.
...
o teu corpo coberto de galáxias no centro do oco de dentro. que se expande até a garganta & que me veda a voz. o pesadelo do teu corpo estrela. antares. pictor. procion. o teu corpo estendido dentro do meu escuro.
o teu corpo deitado sobre a lâmina branca da lua crescente.
...
cancer serpens ursa hydra lupus centaurus eu te cavalgo. o teu corpo-bicho. corpo-equus, as tuas ancas cravejadas de estrelas. no oco no escuro no dentro dos meus dentros.
...
o vazio que se expande no teu no meu corpo-cúpula.
...
o teu corpo coberto de galáxias no centro do oco de dentro. que se expande até a garganta & que me veda a voz. o pesadelo do teu corpo estrela. antares. pictor. procion. o teu corpo estendido dentro do meu escuro.
o teu corpo deitado sobre a lâmina branca da lua crescente.
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cancer serpens ursa hydra lupus centaurus eu te cavalgo. o teu corpo-bicho. corpo-equus, as tuas ancas cravejadas de estrelas. no oco no escuro no dentro dos meus dentros.
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o vazio que se expande no teu no meu corpo-cúpula.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
abolerado
Na véspera havia a possibilidade. Eu me esmerei em salamaleques, nobreza, generosidade e solicitude inúteis. Pois que tudo isso revelava, ao invés de encobrir as verdadeiras intenções:
meu coração era uma flor carnívora (ou, se existisse) um grande fruto úmido, escancarado, exsudando aquele líquido viscoso, aquele cheiro inebriante e pestilento e intenso de paixão, de desejo, de tesão, de amor mesmo. Mil tentáculos-pistilos prontos para envolver & te abraçar, para engolir o corpo-ave, o corpo-coleóptero, o corpo-carne suado que era o teu, que eu via estendido, que eu desejava e me desesperava por tocar sem tocar, por não possuir, por saber ser interdito, mesmo antes, para sempre.
Depois, a possibilidade que havia deu lugar ao vazio, ao silêncio & à solidão. Tratei de encharcar o vazio de dentro da flor-fruto morta com vinho. De ressecar os pruridos com cinzas & tocos de cigarro do cinzeiro. De preencher o silêncio com poemas lidos à meia voz pastosa & arrastada & antipática. De ocupar a solidão trocando a água dos vasos, conversando com as fotografias dos porta-retratos, pulverizando inseticida, esfregando óleo de peroba no verniz velho das cadeiras, rabiscando o teu nome & o teu falo & os dias que nunca mais virão na parede de gesso & limo da prisão da tua ausência.
Restou um gozo choco. Povoado de fantasmas com rostos & corpos misturados, o teu inclusive, indistinguível, projetados no teto. E uma nódoa fosforescente, em forma de caveira ou coração, no meio do lençol.
...
O alvorecer foi melancólico. Por causa da noite mal dormida, do calor de verão, da brisa morna do céu muito azul e sem nuvens avistado pela fresta da janela. Aquela vontade de permanecer imóvel, olhos fechados, o corpo lasso e suarento resistindo ao contato desagradável do lençol. Um morto-vivo esperando uma bala de prata no peito, uma estaca fincada no coração, um copo de cicuta com coca-cola corroendo as entranhas - ou uma simples chamada telefônica (a cobrar, que fosse) para me restituir a existência.
meu coração era uma flor carnívora (ou, se existisse) um grande fruto úmido, escancarado, exsudando aquele líquido viscoso, aquele cheiro inebriante e pestilento e intenso de paixão, de desejo, de tesão, de amor mesmo. Mil tentáculos-pistilos prontos para envolver & te abraçar, para engolir o corpo-ave, o corpo-coleóptero, o corpo-carne suado que era o teu, que eu via estendido, que eu desejava e me desesperava por tocar sem tocar, por não possuir, por saber ser interdito, mesmo antes, para sempre.
Depois, a possibilidade que havia deu lugar ao vazio, ao silêncio & à solidão. Tratei de encharcar o vazio de dentro da flor-fruto morta com vinho. De ressecar os pruridos com cinzas & tocos de cigarro do cinzeiro. De preencher o silêncio com poemas lidos à meia voz pastosa & arrastada & antipática. De ocupar a solidão trocando a água dos vasos, conversando com as fotografias dos porta-retratos, pulverizando inseticida, esfregando óleo de peroba no verniz velho das cadeiras, rabiscando o teu nome & o teu falo & os dias que nunca mais virão na parede de gesso & limo da prisão da tua ausência.
Restou um gozo choco. Povoado de fantasmas com rostos & corpos misturados, o teu inclusive, indistinguível, projetados no teto. E uma nódoa fosforescente, em forma de caveira ou coração, no meio do lençol.
...
O alvorecer foi melancólico. Por causa da noite mal dormida, do calor de verão, da brisa morna do céu muito azul e sem nuvens avistado pela fresta da janela. Aquela vontade de permanecer imóvel, olhos fechados, o corpo lasso e suarento resistindo ao contato desagradável do lençol. Um morto-vivo esperando uma bala de prata no peito, uma estaca fincada no coração, um copo de cicuta com coca-cola corroendo as entranhas - ou uma simples chamada telefônica (a cobrar, que fosse) para me restituir a existência.
primeiro dia (verdadeiramente) útil do ano
Dia de inaugurar a agenda & listar os planos & projetos. Como os tecnocratas, que adoram o prefixo -re:
- reescalonar as metas;
- readequar a planilha de deveres & haveres;
- reciclar os desperdícios;
- reduzir os gastos;
- reorganizar os objetivos;
- rever as atitudes impensadas & inconsequentes;
- repensar as frustrações; e
- rejeitar tudo aquilo que eu insisto em permanecer, por mais que saiba que não vai dar em nada.
- reescalonar as metas;
- readequar a planilha de deveres & haveres;
- reciclar os desperdícios;
- reduzir os gastos;
- reorganizar os objetivos;
- rever as atitudes impensadas & inconsequentes;
- repensar as frustrações; e
- rejeitar tudo aquilo que eu insisto em permanecer, por mais que saiba que não vai dar em nada.
domingo, 5 de janeiro de 2014
diário gerúndio beatnik
erotizando. deserotizando. assistindo on the road do walter salles & relembrando a época dos longos textos exaustivos escritos em fitas de papel de máquinas calculadoras. jogando candy crush. conversando on line sobre fotografia & urbanismo & joyce & salinger & south park no site de sexo & sobre sexo no site de literatura & artes visuais. encontrando velhos amigos. esperando o calor arrefecer para pegar no sono. respeitando os augúrios dúbios do oráculo. condescendendo, sabe-se lá até quando.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
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