domingo, 26 de janeiro de 2014
do fim de semana
Passei os últimos dias resgatando material para organizar um portfólio. Revirando caixas, ressuscitando lembranças, relendo cartas, bilhetes, separando fotografias e negativos, espirrando com a poeira e os ácaros dos recortes de jornal, encontrando catálogos de exposições caídas no poço sem fundo do esquecimento, me surpreendendo, alegrando, assustando, angustiando. Sensação de imobilidade diante da papelada: os tantos caminhos bem ou mal trilhados, os projetos e ideias abortados, originalidades ao lado de mediocridades, etc. Enfim, colocando em xeque (ou em evidência) quase 35 anos de existência artística.
...
Tenho mania de guardar convites e folderes de exposições, catálogos, impressos em geral com design interessante, cartões postais, etc - em caixas de papelão de modelos e formatos diversos. Na organização da papelada referida no parágrafo acima (sob o olhar atento da gata Zildinha), consegui esvaziar uma velha caixa de sapatos. Pois que a bichana ficou louca com a caixa. Pulou para dentro dela e aninhou-se, toda feliz. Permaneceu horas ali, como seria talvez o da volta ao útero da mãe-gata.
Lição do dia: tudo a ver o chavão: saber encontrar prazer nas coisas simples que aparecem na vida.
...
O horóscopo do período disse que viverei nos próximos dias uma fase de serenidade nas escolhas, de tranquilidade e certeza na tomada de decisões para o futuro a médio e longo prazo. E boas perspectivas na área amorosa.
...
Sim, são dias de produzir. Apesar do "emperro" na montagem do portfólio, hoje eu me superei no que se refere a trabalhos físicos. Substituí as telhas quebradas do telhado, remanescentes do serviço mal feito do último pedreiro. Depois, fragmentei as sobras com uma marreta, para encher os buracos do jardim.
Constatei que o sótão está tomado por morcegos e outros insetos. Providência para a primeira hora da segunda-feira: consultar o especialista da loja de produtos agrícolas sobre a melhor forma de acabar com os mamíferos voadores aninhados sobre a minha cabeça.
...
Me sentindo emocionalmente imaturo. Quase idiota, para melhor expressar. Como no texto antigo misturado com a música do Mautner: um vampiro velho e babão sugando gota a gota a jugular da juventude.
...
Projetos para 2014: voltar a pintar; fazer curso de marcenaria; recuperar/revitalizar os móveis velhos da casa; comprar uma bicicleta e cadeiras razoáveis para a mesa de jantar; publicar um livro-objeto só com imagens e fotografias; conseguir uma máquina fotográfica decente; voltar a escrever; participar de editais e concursos literários; ser mais social; produzir trabalhos interessantes alheios; perder as gordurinhas da barriga e cintura; reivindicar direitos; ler mais; propor um novo trabalho cenográfico para quem quiser; quem sabe atravessar de novo o oceano; quem sabe conhecer um lugar exótico; quem sabe bem acompanhado; quem sabe como a mocinha ou o mocinho de qualquer volume da Biblioteca das Moças.
sábado, 25 de janeiro de 2014
da série resenhas. bertha ruck. romance na ribalta
Depois de tanta leitura chique só mesmo um pouco de breguice para temperar. Leitura do vol. 173 da coleção Biblioteca das Moças: Romance na Ribalta:
O galã de cinema Roy Randall é noivo da fútil, egoísta e temperamental superstar Jewel Tempest. Porém a tímida, feiosa, apagada, super inteligente e super competente Maxie Dimmer é contratada por Jewel para secretária de Roy. Depois de mil desacertos provocados pela inconsequente Jewel, que troca Roy por um milionário norte-americano e prejudica-lhe a carreira artística. No processo de esquecer Jewel, Roy apaixona-se por Maxie, que revela-se uma surpreendente dramaturga. Conseguem patrocínio, montam a peça, Roy atuando no papel principal. Depois do sucesso estrondoso, Roy finalmente pede Maxie em casamento, e vivem felizes para sempre.
primeiras leituras concomitantes & complementares do ano
Leituras para identificar o DNA artístico/poético:
Catálogo da exposição Onde está você, Geração 80? - CCBB, 2004/2005. A exposição é um resgate da histórica Como vai você, Geração 80?, ocorrida no Parque Lage, Rio de Janeiro, em 1984, de onde surgiram os expoentes da arte brasileira contemporânea: Alex Flemming, Alex Valauri, Ana Miguel, Beatriz Milhazes, Chico Cunha, Cristina Salgado, Jadir Freire, Jorge Duarte, Leda Catunda, Leonilson, Maurício Bentes, Nuno Ramos, Vitor Arruda e tantos outros. O catálogo contém textos curatoriais de Marcus Lontra Costa, Ascânio MMM, Daniela Name e entrevistas com Luiz Áquila e Nelson Leirner.
Ao mesmo tempo o maravilhoso presente de aniversário - Poesia marginal palavra e livro, organizada por Eucanaã Ferraz e publicado pelo Instituto Moreira Salles - nem precisa dizer - sobre a poesia marginal dos anos 70/80. De Cacaso a Ana Cristina César, de Chacal a Wally Salomão, muito Nicolas Behr e mais outros tantos. Material maravilhoso e raro em uma edição super bem cuidada.
(Depois disso encarar o livro de ouro Oficina 50+ - autografado pelo Zé Celso (outro presente dos deuses) comemorativo dos 50 anos do Uzyna Uzona).
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
30 desenhos
Essas são as imagens e texto do convite da exposição 30 desenhos, minha primeira individual, no Espaço Cultural 508 Sul e em Goiânia, no ano longínquo de 1994.
...
O resgate disso se deu em razão de uma brincadeira de internet: povoar o Facebook com imagens de arte, ao invés de pratos de restaurantes, eventos festivos ou animais de estimação. Fui provocado: eu deveria publicar uma imagem de trabalho do artista/escultor Maurício Bentes.
...
Vamos aos fatos históricos.
Era 1994. Eu vivia um momento de reflexão, e só agora eu me dei conta disso. Do tipo: bonança depois da tempestade. Paz e tranquilidade depois do tumulto dos salões, das vernissages, das pinturas em grandes formatos, das visitas aos ateliês, das viagens, dos contatos profissionais promissores, que todo artista iniciante vive e almeja.
...
Minha existência artística sustentava-se pela atuação paralela como caixa de banco. Eu trabalhava em uma agência recém-inaugurada em um órgão público. Por isso havia pouquíssimo movimento, exceto no período de pagamento.
Como bom capricorniano, eu não suportava os longos períodos de ócio forçado da agência. Então tive a ideia: cortar meus blocos de desenho em pequenos formatos (15 x 15 cm), comprar meia dúzia de novas canetas nanquim e levar tudo para o guichê do caixa. Eu preenchia o tempo desenhando nas longas horas do expediente bancário.
Assim surgiram, às centenas, os pequenos bicos de pena.
...
Eram desenhos despojados e despretensiosos. Inspirados na anatomia fantástica de Ambroise Paré e nas ilustrações dos livros de ciência escolares.
Alguém gostou dos desenhos. Esse alguém comentou com fulano e sicrano e beltrano. Mesmo não havendo redes sociais, o material chegou às mãos de Maurício Bentes, artista que eu gostava muito, mas que só conhecia superficialmente. Naquele tempo as coisas eram mais fáceis, descomplicadas.
Maurício gostou dos desenhos. Incentivou. Sugeriu a exposição. Eu consegui o espaço. Na maior cara-de-pau, pedi: pô, Maurício, escreve pra mim! Ele escreveu.
...
(Das centenas de desenhos, foram escolhidos e emoldurados 30, para a exposição. O resto foi queimado junto com muitos outros trabalhos, em um surto de loucura coletivo-doméstico. Restaram alguns, guardados para a posteridade em caixas de madeira fabricadas por mim, graças aos também dotes de marceneiro).
...
A curadoria foi fundamental (agradecimentos eternos ao ex-!). Os desenhos foram valorizados pela moldura impecável, passe-partout importado, com filigrana dourada, com apoio da Casa da Moldura e do salário de bancário. A gráfica Charbel patrocinou o papel laminado do convite, gramatura 300 g/m2 (no mesmo formato dos desenhos emoldurados). O Espaço Cultural 508 Sul estava no auge, sob a direção e apoio irrestrito da dupla TT Catalão/Wagner Barja. A exposição na Galeria Parangolé foi um sucesso. Saiu até matéria em Jornal (Marcus Savini). Almir Israel fotografou os trabalhos (fotos perdidas).
...
Foi a primeira (e única) vez que vendi trabalhos. Hoje dependurados nas paredes das casas das pessoas de gosto estético mais sofisticado da cidade.
Mas o mais importante foi a amizade com Maurício Bentes. Que durou pouco, mas foi intensa e frutificou. Deixando muitas saudades.
(Agradecimentos ao Leôncio Mário por resgatar esse momento)
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
inferno zodiacal 2
Você sabe que está em pleno inferno zodiacal quando:
1. percebe, no meio de um e-mail longo e urgentíssimo, que a letra "v", o numeral "0" e a tecla "delete" do desktop deixaram de funcionar, porque você, mesmo sabendo que causaria danos irreparáveis, limpou a sujeira do teclado branco com veja multiuso.
2. decide viajar de última hora para um lugar distante (para fugir dos festejos do aniversário) e constata que as passagens aéreas custam os olhos da cara. Em razão disso, opta pelo romântico e saudoso ônibus interestadual. E só depois percebe que comprou a passagem no pior horário - serão horas de engarrafamento, tanto na ida quanto na volta.
3. escolhe a foto do grelhado mais suculento e os acompanhamentos mais bem servidos do cardápio do fast food do shopping e depois de 20 minutos de espera recebe um bife solado e gorduroso do tamanho de uma moeda de 1 real, uma porção de arroz com brócolis que caberia em um dedal cobertos por 3 mini-rodelas de cebola empanadas completamente murchas.
4. passa horas rastelando as folhas secas do jardim. Assim que termina, uma ventania improvável começa e espalha toneladas de novas folhas por toda a área. E pior: tem a maior trabalheira de esticar a mangueira para molhar as plantas distantes, para recolhê-la em seguida, pois a ventania improvável trouxe consigo além das folhas, uma tempestade.
5. detecta a necessidade de trocar 3 telhas quebradas e constata que emprestou a escada para o irmão e só a terá de volta quando acabarem as férias escolares.
6. resolve tomar um porre e descobre que, além daquela meia garrafa de vinho vinagrando há 15 dias na geladeira, só tem uma garrafa de cachaça de caboclo no armário e um Sangue de Boi de 2,5 litros pra temperar o assado. Mas o desespero é tanto que acaba por abrir uma champa duvidosa mais para sidra cereser, restante de algum despacho ou simpatia do ano novo.
7. sabe de antemão em que fria está se metendo, mas mesmo assim insiste em dar conselhos estéticos literários desnecessários, falar o que não deve e se meter onde não foi chamado, só pelo prazer de remoer o remorso e quem sabe perder a amizade por toda a eternidade.
8. resolve finalmente organizar o portfólio para se inscrever em um edital bacana e constata que o material necessário está espalhado em 500 caixas lacradas desde a pré-história, arquivadas no mais recôndito do quarto de despejo.
1. percebe, no meio de um e-mail longo e urgentíssimo, que a letra "v", o numeral "0" e a tecla "delete" do desktop deixaram de funcionar, porque você, mesmo sabendo que causaria danos irreparáveis, limpou a sujeira do teclado branco com veja multiuso.
2. decide viajar de última hora para um lugar distante (para fugir dos festejos do aniversário) e constata que as passagens aéreas custam os olhos da cara. Em razão disso, opta pelo romântico e saudoso ônibus interestadual. E só depois percebe que comprou a passagem no pior horário - serão horas de engarrafamento, tanto na ida quanto na volta.
3. escolhe a foto do grelhado mais suculento e os acompanhamentos mais bem servidos do cardápio do fast food do shopping e depois de 20 minutos de espera recebe um bife solado e gorduroso do tamanho de uma moeda de 1 real, uma porção de arroz com brócolis que caberia em um dedal cobertos por 3 mini-rodelas de cebola empanadas completamente murchas.
4. passa horas rastelando as folhas secas do jardim. Assim que termina, uma ventania improvável começa e espalha toneladas de novas folhas por toda a área. E pior: tem a maior trabalheira de esticar a mangueira para molhar as plantas distantes, para recolhê-la em seguida, pois a ventania improvável trouxe consigo além das folhas, uma tempestade.
5. detecta a necessidade de trocar 3 telhas quebradas e constata que emprestou a escada para o irmão e só a terá de volta quando acabarem as férias escolares.
6. resolve tomar um porre e descobre que, além daquela meia garrafa de vinho vinagrando há 15 dias na geladeira, só tem uma garrafa de cachaça de caboclo no armário e um Sangue de Boi de 2,5 litros pra temperar o assado. Mas o desespero é tanto que acaba por abrir uma champa duvidosa mais para sidra cereser, restante de algum despacho ou simpatia do ano novo.
7. sabe de antemão em que fria está se metendo, mas mesmo assim insiste em dar conselhos estéticos literários desnecessários, falar o que não deve e se meter onde não foi chamado, só pelo prazer de remoer o remorso e quem sabe perder a amizade por toda a eternidade.
8. resolve finalmente organizar o portfólio para se inscrever em um edital bacana e constata que o material necessário está espalhado em 500 caixas lacradas desde a pré-história, arquivadas no mais recôndito do quarto de despejo.
Assinar:
Postagens (Atom)























