[...] sabes que os peixes têm uma memória de segundos. aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação.
(Valter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis)
quarta-feira, 5 de março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
das galáxias
[...] quando o
escrever se trava no escrever quando o escrever é travo é cravo é
amargo no escrever e é tinta e treva é tinta e febre é tanta e fezes
que a escrita agora se reescreve se reenerva se refebra onde o visto
se conserva [...]
(Haroldo de Campos, Galáxias, 1974/1984)
escrever se trava no escrever quando o escrever é travo é cravo é
amargo no escrever e é tinta e treva é tinta e febre é tanta e fezes
que a escrita agora se reescreve se reenerva se refebra onde o visto
se conserva [...]
(Haroldo de Campos, Galáxias, 1974/1984)
segunda-feira, 3 de março de 2014
leituras do carnaval: doris lessing - a terrorista
The good terrorist. Doris Lessing. 1985. Romance.
Por falar em solteironas inglesas, a personagem principal desse livro é Alice. 30 e poucos anos. Em um relacionamento estéril com o gay enrustido, meio cafetão (e bem mais novo que ela) Jasper.
Alice e Jasper fazem parte de um grupo de jovens, classe média, envolvidos com política de esquerda radical, que busca associação com o IRA. Ou contra o que chamam de fascismo capitalista. O grupo ocupa uma casa abandonada nos subúrbios de Londres.
Ao mesmo tempo que a autora esmiúça em detalhes os meandros do dia a dia de um grupo político clandestino formado por jovens de origem burguesa, demonstrando grande conhecimento da causa, Doris Lessing exagera, de forma proposital, nos jargões de esquerda proferidos pelas personagens, revelando uma ironia, ácida, tipicamente inglesa, com evidentes pinceladas conservadoras no entretexto.
A personagem Alice é muito bem construída. É uma espécie de mãe, provedora, protetora dos demais demais moradores da comunidade são delineados de forma quase caricatural.
O livro desenrola-se em dois focos antagônicos. Alice não vê limites morais (tudo em nome do ideal revolucionário) para transformar a casa abandonada em um típico lar inglês. Em vão, pois Jasper e Bert, líderes da comunidade, apesar de usufruírem do conforto proporcionado por Alice, menosprezam-na, criticando-lhe os valores pequeno burgueses.
Enquanto a casa é "reerguida" pelo esforço de Alice, ela própria vai se esvaziando, desmoronando internamente, anulando-se, acomodando-se.
O anticlímax do final é um ato terrorista mal planejado pelos habitantes da casa sem a participação de Alice, cuja opinião sensata certamente esfriaria os ânimos e estragaria a brincadeira.
domingo, 2 de março de 2014
leituras do carnaval: da biblioteca das moças - a solteirona
Trata-se de outro romance de Berta Ruck. A Solteirona. Volume 116 da Biblioteca das Moças.
Susie Brown tem 18 anos. É linda, prendada e inteligente. Órf ã de mãe, sente-se responsável por cuidar do pai, do irmão Maurício e dos amigos do irmão, frequentadores assíduos de "Os lilases", a casa onde vivem.
Slim, um soldado canadense gatíssimo, amigo de Maurício, de passagem pela casa, apaixona-se por ela. Susie recusa o pedido de casamento por achar que o pai e o irmão não sobreviveriam sem ela.
Passam-se os anos. Tomada pelos afazeres domésticos, Susie não pensa em casamento, ocupadíssima com as tarefas domésticas. Então mudam-se para a casa ao lado Mrs. Lane, uma viúva fogosa e sua filha Rose, de 18 anos (a descrição de Mrs. Lane por Berta Ruck faz lembrar a Divine, de Pink flamingo).
Para surpresa geral, Papai (o pai de Susie) casa-se, não previsivelmente com a viúva Mrs. Lane, mas com Rose, a filha teen desmiolada. Susie perde espaço na casa (que passa a ser controlada pela viúva-sogra) e decide mudar-se.
Emprega-se como aia de Mrs. Moss, outra viúva riquérrima e mal-humorada. Mrs. Moss tem um único parente e herdeiro: o ator de 2a. linha Ronnie Vincent. Que passa a assediar Susie. Susie apaixona-se por Ronnie Vincent. Até que a verdade se revela. Mrs. Moss morre subitamente. Ao conhecer o teor do testamento de Mrs. Moss, Ronnie despreza Susie. Usou a empregada para reaproximar-se da tia rica e com isso apossar-se da fortuna.
Nisso, Susie já tem 30 e poucos anos. Vai-se desleixando mais e mais. Descuida da pele, dos cabelos. Usa roupas e chapéus horrorosos comprados em brechós. Mora em espeluncas de solteironas melancólicas. Como se fosse o fim da linha.
Com a morte de Mrs. Moss, ela emprega-se como secretária particular "faz-tudo" da irascível Miss Lavallière, cantora, estrela de teatro e de cinema.
Estoura a 2a. Guerra Mundial. Miss Lavallière tem que fazer um pronunciamento no rádio, para os soldados aliados. Ocorre um imprevisto, impossibilitando Miss Lavallière de falar. Susie, dona de uma linda voz, é encarregada pelos empresários da popstar, de ler o discurso da patroa.
O discurso terceirizado traz consigo surpresas. No dia seguinte, Susie recebe flores, com um cartão, adivinhem de quem? de Slim, de tantos anos atrás. Slim lutava com os aliados, no exército canadense. Tinha ouvido a leitura radiofônica e se apaixonado pela voz de Susie, sem saber que era aquela Susie do passado remoto.
A essa altura, Susie está com 40 anos, mas com cara e corpinho de 50. O próprio estereótipo da solteirona desmazelada.
Porém, ao constatar que seria sua última oportunidade, a chama da vida e da juventude reacende nela. Procura a sobrinha, proprietária de um salão de beleza chiquérrimo, que a produz (ou a transforma). Susie rejuvenesce pelo menos 15 anos.
Final feliz: Slim, também na faixa dos 40, continua gato. O melhor de tudo: divorciado. Nunca esqueceu Susie que, por obra e graça da sobrinha, estava deslumbrante.
Finalmente, mais de 20 anos depois, Susie aceita o pedido de casamento de Slim. Pelo jeito, vivem até hoje felizes. Nas plagas geladas do Canadá. Talvez para sempre.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
sábado, 22 de fevereiro de 2014
da série: educação infantil - água é só pra se beber
Encontrei hoje restos de uma coleção de livros infantis lidos e folheados à exaustão por mim há quase meio século, depois por meus irmãos e depois ainda por alguns sobrinhos e filho. As ilustrações são lindas, cores vivas, paisagens, animaizinhos fofos, etc. Porém, só 50 anos depois, pude perceber a mensagem subliminar dos diálogos (na maioria das vezes negativa e conservadora) e os valores incutidos nas nossas cabecinhas. Os medos, as inseguranças, os preconceitos, o controle, estava tudo lá. Alguns, creio, superei, superamos. Outros permanecem, e exigem vigilância contínua para que não se manifestem ou que sejam minimizados. Por isso a série inaugurada e concluída hoje mesmo: educação infantil.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas
aprendi tudo ao contrário depois, ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito, um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minissaia erótica tão adequada à ingenuidade das crianças. o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.
valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis
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