quarta-feira, 12 de março de 2014

citação do dia

[...] passava boa parte do tempo navegando na internet, o grande matador de tempo que havia substituído a televisão, conspicuamente passiva, por sua ilusão sedutora de produtividade [...]

(Lionel Shriver, O grande irmão)

segunda-feira, 10 de março de 2014

diário depois do fim de semana

caco de vidro na carne até o osso. esguichos de sangue pela cozinha e no elevador. desmaio & cirurgia.

no meio do dilúvio iniciado às 19 horas do sábado. os rios-ruas da cidade-cenário da cidade-fantasma da cidade-faroeste. os fantasmas os zumbis os comerciários aglomerados nas marquises das lojas fechadas & nas paradas de ônibus.

o mar que se abre para a passagem do povo escolhido e em seguida se fechando para os egípcios maus. deus vingativo.

o filme nacional chato e ruim e fraco só para passar o tempo. disfarçadamente homoerótico. hipócrita.

desejar o amor próximo mais próximo. sentir tesão só de pensar em. só em pronunciar o nome. falar sobre o amor & a paixão & a vontade de estar junto. estabelecer pontes. dialogar. me aventurar pelo campo do desconhecido. verso de samba: aguardando ansioso a quinta-feira chegar para ver o meu amor.

amar?

baldes & baldes de frutos vermelho-rubi supervitaminados à espera de serem distribuídos & transformados em suco. pão de banana & chocolate. pasta com alho em conserva & ervilhas & tomates-cereja.

a tevê ligada. o vômito da gata. o voo rasante do morcego roçando minha orelha. piolhos nas crianças.

sono & inércia. esperando o eletricista-godot que nunca virá.

preocupado com questões jurídicas. com a perda de popularidade virtual. com a ansiedade & a gula. dormindo cedo. para esquecer que o mundo existe.

sexta-feira, 7 de março de 2014

um quase diário gerúndio revelador

nadando sob o sol saudável. malhando coxa & sobrecoxa & coxinha da asa.

os víveres & os supérfluos & os livros encalhados em promoção no supermercado.

almoçando dobradinha. comendo inteiro o pote de doce de leite com ameixa & meia caixa de bis na sobremesa. tomando cafés cafeinados que não fazem mais efeito.

jogando fora conversa fiada ao celular com a amiga que rompeu os ligamentos do joelho.

eventos artísticos. eventos sociais. eventos comerciais.

de novo yayoi kusama, dessa vez acompanhando a gueixa apressada, que passava sem ver pelos trabalhos até chegar ao vídeo escuro e desfocado. depois, no café, fofocando sobre o existir ao vento gélido. sanduíche com nome de artista plástico local & chocolate quente. olhando insistente & romântica & saudosa & invejosamente para o lindo & angélico & sensual & comportado casal de adolescentes gays.

ansiedade no grau máximo. sexo compulsivo mental & solitário. aprisionado por lembranças & paixão que nunca existiram.

chuva incessante.

agora tentando não perder o pique. não perder a ginga. não perder o rebolado. hesitando em colocar um ponto final no romance esquivo & fugidio.

fazendo pão de milho. tomando uma cerveja para relaxar.


diário de um dia agitado

o amigo que morreu de cirrose ontem.

a linda manhã de verão & a preguiça de recolher os frutos podres do pomar & as intermináveis idas & vindas na piscina do clube sob o sol & o sentimento de culpa por deixar sozinha em casa a mãe imobilizada por uma fratura na bacia.

o supermercado classe a com seus produtos de primeira. os bofes sarados nas filas do caixa ouvindo tecnohouse em seus phones de ouvido & cestas recheadas de tomates-cereja & filés de peito de frango orgânicos & pão de centeio & cogumelos de formatos fálicos para o pequeno-almoço.

o almoço chique da gueixa: pepinos ao molho de missô, salada verde, arroz com pimentas de cheiro e escondidinho de proteína de soja. sobre a toalha estampada com bolinhas coloridas de yayoi kusama e surplats com naturezas mortas de monet. fotos de japinhas nos portarretratos. flores de plástico & santos de gesso & samambaia que parecia de plástico. máquina de lavar pratos. arrumadeira de manhuaçu puxando assunto.

a burocracia & a papelada & a atenção exagerada do atendente gay & a chuva inundando o asfalto & o estacionamento no meio dos buracos.

lendo barthes & machado & saroyan & haroldo de campos & sobre artistas feministas dos anos 80 & passando de nível candy crush.

presente de aniversário. café expresso. o rosa & o mãe & o musil abandonado no balcão por ser muito caro. o outro rosa em edição especial (mais caro ainda) a caminho. os tantos os milhares de livros que nunca lerei por falta de tempo.

o jantar de aniversário. salada verde & escondidinho árabe & torta de frutas vermelhas. os templos na indonésia. a dança de shiva. heliogábalo nos anos 80. araticum & jaca & fruta do conde. macunaíma do antunes filho. ritos iniciáticos & tokio & califórnia & alicante & nélson rodrigues & kazuo ohno.

ouvindo marcelo genessi & morrendo de sono & sentindo saudade no namorado distante.


quarta-feira, 5 de março de 2014

raul seixas - o início, o fim e o meio

da máquina de fazer espanhóis

[...] sabes que os peixes têm uma memória de segundos. aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação.

(Valter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis)

terça-feira, 4 de março de 2014

das galáxias

                                                                                    [...] quando o
escrever se trava no escrever quando o escrever é travo é cravo é
amargo no escrever e é tinta e treva é tinta e febre é tanta e fezes
que a escrita agora se reescreve se reenerva se refebra onde o visto
se conserva [...]

(Haroldo de Campos, Galáxias, 1974/1984)

segunda-feira, 3 de março de 2014

leituras do carnaval: doris lessing - a terrorista


The good terrorist. Doris Lessing. 1985. Romance.

Por falar em solteironas inglesas, a personagem principal desse livro é Alice. 30 e poucos anos. Em um relacionamento estéril com o gay enrustido, meio cafetão (e bem mais novo que ela) Jasper.

Alice e Jasper fazem parte de um grupo de jovens, classe média, envolvidos com política de esquerda radical, que busca associação com o IRA. Ou contra o que chamam de fascismo capitalista. O grupo ocupa uma casa abandonada nos subúrbios de Londres.

Ao mesmo tempo que a autora esmiúça em detalhes os meandros do dia a dia de um grupo político clandestino formado por jovens de origem burguesa, demonstrando grande conhecimento da causa, Doris Lessing exagera, de forma proposital, nos jargões de esquerda proferidos pelas personagens, revelando uma ironia, ácida, tipicamente inglesa, com evidentes pinceladas conservadoras no entretexto.

A personagem Alice é muito bem construída. É uma espécie de mãe, provedora, protetora dos demais demais moradores da comunidade são delineados de forma quase caricatural.

O livro desenrola-se em dois focos antagônicos. Alice não vê limites morais (tudo em nome do ideal revolucionário) para transformar a casa abandonada em um típico lar inglês. Em vão, pois Jasper e Bert, líderes da comunidade, apesar de usufruírem do conforto proporcionado por Alice, menosprezam-na, criticando-lhe os valores pequeno burgueses.

Enquanto a casa é "reerguida" pelo esforço de Alice, ela própria vai se esvaziando, desmoronando internamente, anulando-se, acomodando-se.

O anticlímax do final é um ato terrorista mal planejado pelos habitantes da casa sem a participação de Alice, cuja opinião sensata certamente esfriaria os ânimos e estragaria a brincadeira.

domingo, 2 de março de 2014

leituras do carnaval: da biblioteca das moças - a solteirona


Trata-se de outro romance de Berta Ruck. A Solteirona. Volume 116 da Biblioteca das Moças.

Susie Brown tem 18 anos. É linda, prendada e inteligente. Órf ã de mãe, sente-se responsável por cuidar do pai, do irmão Maurício e dos amigos do irmão, frequentadores assíduos de "Os lilases", a casa onde vivem.

Slim, um soldado canadense gatíssimo, amigo de Maurício, de passagem pela casa, apaixona-se por ela. Susie recusa o pedido de casamento por achar que o pai e o irmão não sobreviveriam sem ela.

Passam-se os anos. Tomada pelos afazeres domésticos, Susie não pensa em casamento, ocupadíssima com as tarefas domésticas. Então mudam-se para a casa ao lado Mrs. Lane, uma viúva fogosa e sua filha Rose, de 18 anos (a descrição de Mrs. Lane por Berta Ruck faz lembrar a Divine, de Pink flamingo).

Para surpresa geral, Papai (o pai de Susie) casa-se, não previsivelmente com a viúva Mrs. Lane, mas com Rose, a filha teen desmiolada. Susie perde espaço na casa (que passa a ser controlada pela viúva-sogra) e decide mudar-se.

Emprega-se como aia de Mrs. Moss, outra viúva riquérrima e mal-humorada. Mrs. Moss tem um único parente e herdeiro: o ator de 2a. linha Ronnie Vincent. Que passa a assediar Susie. Susie apaixona-se por Ronnie Vincent. Até que a verdade se revela. Mrs. Moss morre subitamente. Ao conhecer o teor do testamento de Mrs. Moss, Ronnie despreza Susie. Usou a empregada para reaproximar-se da tia rica e com isso apossar-se da fortuna.

Nisso, Susie já tem 30 e poucos anos. Vai-se desleixando mais e mais. Descuida da pele, dos cabelos. Usa roupas e chapéus horrorosos comprados em brechós. Mora em espeluncas de solteironas melancólicas. Como se fosse o fim da linha.

Com a morte de Mrs. Moss, ela emprega-se como secretária particular "faz-tudo" da irascível Miss Lavallière, cantora, estrela de teatro e de cinema.

Estoura a 2a. Guerra Mundial. Miss Lavallière tem que fazer um pronunciamento no rádio, para os soldados aliados. Ocorre um imprevisto, impossibilitando Miss Lavallière de falar. Susie, dona de uma linda voz, é encarregada pelos empresários da popstar, de ler o discurso da patroa.

O discurso terceirizado traz consigo surpresas. No dia seguinte, Susie recebe flores, com um cartão, adivinhem de quem? de Slim, de tantos anos atrás.  Slim lutava com os aliados, no exército canadense. Tinha ouvido a leitura radiofônica e se apaixonado pela voz de Susie, sem saber que era aquela Susie do passado remoto.

A essa altura, Susie está com 40 anos, mas com cara e corpinho de 50. O próprio estereótipo da solteirona desmazelada.

Porém, ao constatar que seria sua última oportunidade, a chama da vida e da juventude reacende nela. Procura a sobrinha, proprietária de um salão de beleza chiquérrimo, que a produz (ou a transforma).  Susie rejuvenesce pelo menos 15 anos.

Final feliz: Slim, também na faixa dos 40, continua gato. O melhor de tudo: divorciado. Nunca esqueceu Susie que, por obra e graça da sobrinha, estava deslumbrante.

Finalmente, mais de 20 anos depois, Susie aceita o pedido de casamento de Slim. Pelo jeito, vivem até hoje felizes. Nas plagas geladas do Canadá. Talvez para sempre.