quarta-feira, 26 de março de 2014

homens ilustres - péricles

Não, Leitor(a), não falaremos aqui sobre o popstar pagodeiro. Trata-se de seu homônimo (ou seria o inverso?) estadista, general e exímio orador - conhecido como o primeiro cidadão ateniense, por seus feitos, a seguir resumidos, há 2.500 anos atrás.

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Péricles descendia de uma das mais antigas, nobres  e tradicionais estirpes atenienses. Conta a lenda que a mãe, Agaristo, sonhou que tinha dado à luz um leão. Semanas depois nasceu Péricles.

Era um lindo bebê, tão bem proporcionado nas partes que nada se podia criticar, exceto uma cabeça um pouco longa e desproporcionada no tamanho em relação ao resto. Os mais maldosos apelidaram-no cabeça de cebola. Por isso, para amenizar-lhe o defeito para a posteridade, os escultores da época produziram todas as estátuas de Péricles portando capacete.

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Na época de Plutarco, o homem nobre aprendia de tudo um pouco. Mas algumas coisas lhe eram interditas. Por exemplo, podia apreciar, entender e discutir a arte (escultura, pintura, música), mas nunca executá-la. As artes eram consideradas atividades inúteis, baixas e vis. Deviam ser exercidas por obreiros de origem plebeia. Ou seja: a arte era elevada, mas quem a executava era desprezível.

Por isso Péricles aprendeu música escondido, com Pitóclides. Para o público em geral, Pitóclides era o professor de luta e esgrima e ainda ensinava política e administração pública. O segredo foi logo descoberto, e o pobre Pitóclides foi banido de Atenas por 10 anos.

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Péricles foi também discípulo e ouvinte do filósofo Zenon, aquele do paradoxo da corrida entre Aquiles e a tartaruga. Zenon fazia profissão de contradizer todo mundo e alegar tantas oposições quando discutia, que levava seu antagonista a não saber como responder nem ao que resolver-se.

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Péricles foi o responsável por transformar Atenas na cidade-estado mais poderosa do Peloponeso e no pólo cultural mais importante da antiguidade. Promoveu a literatura, as artes, a educação. Construiu os mais lindos templos e edificações, cujas ruínas nos extasiam até hoje. Embelezou a cidade com esculturas dos maiores artistas da época, cujo mais famoso representante foi seu amigo íntimo Fídias. Lutou na guerra do Peloponeso. Foi o maior defensor da democracia ateniense. Et cétera.

Talvez por tantos feitos, Péricles tinha fama de soberbo e arrogante. Foi alvo de infindáveis chacotas, a maioria de muito mau gosto e hoje politicamente incorretas, da corja de poetas cômicos e autores de comédias patrocinados pelo próprio Péricles.

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Plutarco gasta alguns capítulos descrevendo a magnificência das construções atenienses. O trecho acima resume o deslumbramento que sobreviveu aos séculos:

Porque, cada uma delas em sua perfeição, revelava já antiguidade em sua beleza, e quanto à graça e vigor parece até hoje, terem sido feitas e concluídas há pouco, de tal forma há em tudo não sei quê de florescente novidade, impedindo que o tempo perturbar a sua visão, como se cada uma dessas obras tivesse, por dentro, um espírito sempre rejuvenescente e uma alma jamais envelhecida que as mantivesse com esse vigor.

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As más línguas atenienses caíram de pau em Péricles por sua amizade com Aspásia, uma influente dama ateniense. A moça era uma mulher cheia de sabedoria, muito entendida em matéria de governo estatal. Muitos a procuravam para aprender a arte da retórica. Até o próprio Sócrates a ia ver de vez em quando com seus amigos, para um bate-papo cabeça. O único problema de Aspásia era o fato de unir o útil ao agradável para a elite masculina hétero ateniense: a dama não levava uma vida nada bela nem honesta porque mantinha em sua casa jovens raparigas que comerciavam com o corpo.

(Quem sabe não tenha vindo de Aspásia a Maria Machadão e os frequentadores ilustres do Bataclã, na Ilhéus de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado?).

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Depois de muito lutar na guerra do Peloponeso e contra seus antagonistas e inimigos políticos, Péricles foi contagiado por um tipo de peste, fraca e lenta, que por longo tempo foi-lhe amortecendo a pouco e pouco a força e o vigor do corpo e superando a sua coragem serena e o seu discernimento seguro. No fim da vida, ficou à mercê da vontade da esposa e das damas da casa que, por pândega ou para controlar-lhe a impetuosidade, prenderam-lhe uma humilhante coleira, presa à cabeceira da cama.

Morto Péricles, Atenas entrou em acelerado processo de decadência, assolada por tiranos malévolos e políticos corruptos, que Péricles, durante sua existência, tinha conseguido manter afastados.

sábado, 22 de março de 2014

diário com forró & conto de fadas

Frase ressentida ouvida na fila do supermercado: "Não me venha dizer que precisa de um tempo para aproveitar a vida. Duvido que aproveitará mais do que já aproveitou estando tanto tempo comigo".

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O novo amor exausto depois de duas noites em claro dorme & nem meus beijos apaixonados o fazem despertar das 12 horas de sono quase eterno.

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Embevecido com a beleza do novo amor adormecido.

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Festança na vizinha desde ontem. Garotos bonitos de sunga à beira da piscina & periguetes de cabelo pintado & alto-falantes automotivos no último volume tocando música de um mau gosto inenarrável.

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A elegância da escrita de Machado chega a doer. Tanta sutileza & grandeza & dor & mesquinhez & ridículo humano em um aparentemente novelesco triângulo amoroso.

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Marinês, Coco da mãe do mar - ouvida no rádio do carro hoje pela manhã:

É uma roda de jamanta na banguela
É mais ou menos assim o meu amor por ela


quarta-feira, 19 de março de 2014

diário da mentira

História ouvida em um jantar: o cara era tão solitário que uma vez por semana enviava flores para si próprio. Com cartão e tudo. Fiz parecido recentemente Presenteei a mim mesmo a edição comemorativa do Grande Sertão.


O que terá maior poder de destruir a confiança: uma única grande terrível avassaladora mentira ou uma série de mentirinhas banais, cotidianas, inconsequentes e risíveis que vão se acumulando e quando se percebe se está irremediavelmente soterrado?


Elaborando listas intermináveis de afazeres. Priorizando bobagens em detrimento aos compromissos importantes. Sensação ruim & genérica indefinida. Como se fizesse muita coisa sem no entanto constatar resultados. Estado eufórico negativo apesar da serenidade (ou passividade?) de espírito. Ai, meu deus, queria tanto que passasse logo...


Tratei hoje o canal do dente infeccionado. As gérberas cada vez mais lindas. A invasão das lagartas & um ou outro casulo se formando pelos cantos. Chuva delicada & dourada ao amanhecer. Tesão incontrolado como se fosse adolescente. Sentindo na pele a pele & na boca o gosto & no travesseiro o cheiro do novo amor.


História absurda & assustadora a da moça sendo arrastada no porta-malas aberto da viatura da PM.




sábado, 15 de março de 2014

diário do sábado estranho

as gérberas amarelas refloridas & a vermelha rebrotando. a azaleia da renata. os pequenos botões de rosa quase púrpura. os dois cachos exuberantes de orquídeas verde-amarelas.

o lado trikster de exu. aquele que adora brincar & desencontrar & de confundir & de quizumba. sonho com a serpente fina lembra bessen. luz dourada da tarde de oxum. música de aganju no rádio. agora a conversa com um filho de omolu. atotô meu pai. a pantera kpo & os gêmeos ibeji & virgínia rodrigues cantando para nanã & rita ribeiro para a ciganinha & dona quelé para as crianças do mato.

estudando debret.

o sábado estranho & confuso. me sentindo esquisito & excêntrico & oco & fora de órbita. o domingo será de resguardo & recolhimento.

a quase-viagem tensa & tumultuada até a esquina da casa onde mora o novo amor. a pouca conversa & o telefone & as notícias boas. na volta o banco do passageiro & o coração vazios.

na noite azul petróleo pontilhada de raspas de estrelas é a lua cheia que me guia.

sexta-feira, 14 de março de 2014

diário com uma pitada pornô

devorando rapidamente mais 1000 calorias só no sanduíche com nuggets & suco de laranja industrializado no lanche noturno no estacionamento deserto do macdonalds morrendo de medo de sequestro-relâmpago.

ouvindo muito rock'n roll datado no rádio do carro & curtindo horrores. mas agora caía bem um cold play.

bundas & paus & cus & corpos sarados & bocas & línguas & penetrações & felações homéricas & orgasmos múltiplos & gozos solitários & virtuais.

as palavras-escorpiões esvaziadas & o lodo negro das palavras sob o leito branco do papel & a cárie & a escara & os ocos das palavras em haroldo de campos. o félix-casanova apaixonado de machado. as pranchas da viagem pitoresca ao brasil de debret explicadas. o gordo de lionel flagrado comendo a colheradas todo o açúcar (inclusive o açúcar-de-confeiteiro) da casa. a baboseira templária sem dizer ao que veio. as peripécias peripatéticas de berta ruck. barthes & saroyan, uma espécie de pessimista do bem.

a juíza era bonita & simpática. o advogado do reclamado era um gato mas pôs tudo a perder quando sorriu aquele sorriso malévolo. a audiência não durou mais que 3 minutos mas saí exausto como se ela tivesse durado séculos.

nadei sob o sol cancerígeno próximo ao meio-dia do verão dos trópicos. almoço no restaurante das bruxas. sem conseguir pegar no sono na sesta. fazendo piadas de mau gosto.

saudade da amiga de floripa mas mantendo o mínimo de dignidade para não escrever para ela depois do último fora (pra lá de escroto) que ela me deu depois do ano novo.

assando pão colonial & escrevendo este diário & matando a terceira e última cerveja long-neck e já me preparando pra dormir porque amanhã de madrugada é hora de buscar o novo amor.


quinta-feira, 13 de março de 2014

namor o príncipe submarino


diário apressado

comendo empadas de camarão & ouvindo conversa atravessada & preconceituosa & repleta de clichês sobre a profissão mais antiga do mundo em versão contemporânea.

as duas putas louras tinturadas sentadas no meio-fio em pleno eixão norte em plena tarde de quinta-feira.

nadando entre quasímodo a esquerda & o príncipe namor à direita.

apreensivo com audiência de amanhã. é inevitável me sentir um bolo fecal diante do poder quase divino do juiz. que decide a vida do litigante ou do réu por mero jogo de palavras. ou seja: ao invés da fluição/fruição a fria colocação.

me envolvendo em questões domésticas alheias & rasteiras. a eterna questão: a empregada roubou ou não o dinheiro trocado guardado na gaveta?

hora de deixar a chatice de lado & tomar banho & ficar bem bonito para encontrar o novo amor.

quarta-feira, 12 de março de 2014

diário do jardineiro & do eletricista

abscesso purulento. dores bucais imaginárias. dentista interessante: aperto de mão forte & cara de psicopata.

pane elétrica doméstica. tubulações cheias de água & fios podres & lâmpadas queimadas ou piscando descontroladas. idas & vindas às lojas de material elétrico. eletricista gago & ajudante comível. ando mesmo muito tarado. por mais que o homem explicasse eu não entendi a diferença entre monofásico & trifásico. quem mandou matar as aulas de física do professor hélio azambuja no segundo grau?

dia de jardineiro. o gramado ficou quase britânico. toneladas de folhas secas. acerolas reproduzindo-se em progressão geométrica. goiabas esborrachando-se como gengivas. frutos ainda verdes na laranjeira exótica. bananeira venezuelana. a lenta despedida do pé de jambosa. a linda muda de mirra transplantada para o jardim.

era uma vez 5 araticuns. 4 deles caíram ainda verdes por causa de alguma doença. a esperança concentrada no único restante.

leituras & jogos eletrônicos imbecis antes do dia nascer. muitos projetos de escrita (os contos paralelos de berta ruck; os homens ilustres; o purgatório & o paraíso da divina comédia; dentre outros). também os projetos de pintura (a piscina vazia; o mosaico pornográfico; a retomada das colagens). mas nenhuma produção.

dinheiro & amores & viagens como diria a cartomante. por falar em amores ele estava tão lindo hoje.

dormindo com as galinhas & acordando com os primeiros pios dos pardais. ouvindo muita televisão & telefonemas alheios. exercitando a paciência & a humildade & a resignação. me deixando ser explorado. docemente.

tem horas que o galáxias é pernóstico. mas tem horas que o sublime se sobrepõe e faz valer o título. revoada de palavras. miríades. lionel por sua vez é puro gozo. machado classudo. uma bobajada sobre dante. um lindo & edificante saroyan. outra berta ruck para completar a coleção.

transmissão de pensamento. ou comunicação no etéreo. pensando na mãe-de-santo & toca o celular. adivinhe quem era? a própria queridíssima.

continuam os sonhos cinematográficos impossíveis de serem lembrados ao acordar.

quase como o wolverine de ontem. imagens & argumento maravilhosos. pena que havia um hiato (um gap / um delay) incorrigível entre imagem & legenda. sorry, baby, meu inglês de pernas bambas. desisti mais uma vez dos filmes baixados no computador.

citação do dia

[...] passava boa parte do tempo navegando na internet, o grande matador de tempo que havia substituído a televisão, conspicuamente passiva, por sua ilusão sedutora de produtividade [...]

(Lionel Shriver, O grande irmão)