Mãe é muito mais mãe no sertão.
...
O texto a seguir era uma homenagem ao dia das mães. Servia para mostrar que na ética rude dos jagunços, a mãe de cada um ocupa o lugar sagrado, santificado. Falar mal da mãe e ser chamado de ladrão são as piores ofensas, e dessas não há saída nem perdão. A obrigação do ofendido era lutar até vingar a ofensa com a morte do ofensor.
Abandonei pelo meio e a ideia se perdeu. Perdeu-se também o sentido da tentativa de recuperá-la. Porém, para não desperdiçar o trabalho, vale a pena ler nem que seja pela beleza dos trechos transcritos.
...
O julgamento de Zé Bebelo é um trecho é seminal do romance. A partir dele Riobaldo assume para si mesmo o amor físico e carnal por Diadorim, e a malignidade do Hermógenes revela-se quando este, juntamente com o Ricardão, assassinam Joca Ramiro à traição.
É um julgamento sem lei. Ou melhor, na lei inexorável do sertão.
Riobaldo
narra de forma a confundir o interlocutor, disfarçando o limite entre o
trágico e o cômico, o puro lorotal de Zé Bebelo. O trecho me faz lembrar o chá da lebre de Março, em Alice no país das maravilhas:
O julgamento? Digo: aquilo foi coisa séria de importante. [...] "O que
nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e
destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão..." -
o senhor dirá. [...] Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às
vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!
[...]
"Homem engraçado, homem dôido!" - Diadorim ainda achava.
[...]
Tinha sido aquilo: Joca Ramiro chegando, real, em seu alto cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo à pé, rasgado e sujo, sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro por dois homens. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo empinou o queixo, inteirou de olhar aquele, cima a baixo. Daí disse"
- "Dê respeito, chefe. O senhor diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!"
- "O senhor se acalme. O senhor está preso..." - Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.
Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:
- "Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver..."
[...]
Assim isso. Tolêimas todas? Não por não.
Assim por diante.
...
Joca Ramiro reúne os maiorais Sô Candelário, Hermógenes, Ricardão, Titão Passos e João Goanhá numa confa. Trazem Zé Bebelo, que se senta no tamborete de Joca Ramiro, colocado no centro do círculo formado pela jagunçada. Sugere, com a maior cara de pau, que os outros sentem-se no chão. Os jagunços se eriçam com tamanha ousadia. Joca Ramiro aceita o displante. Só então Zé Bebelo abandona o banquinho, sentando-se ao mesmo nível dos outros.
Então começam a falar os maiorais, principiado pelas acusações e sentença de morte cruel, pelo Hermógenes:
- "Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar esse cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele - a ver se a vida sobrava, para não sobrar!"
Depois da fala do Hermógenes Zé Bebelo pira de vez. Ironiza, achincalha a fala com gestos e interjeições debochadas. Encara e enfrenta o olhar do Hermógenes. Faz a raiva do Hermógenes ferver. Ao ponto dele exigir, numa voz rachada em duas, voz torta e entortada (a voz do demo?):
- "Tibes, trapo, o desgraçado desse canalha que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso. Meu direito é acabar com ele, Chefe!"
Os jagunços se eriçam. Resmungam em aprovação. Os do bando do Hermógenes incitam a vingança em voz alta. Mas Joca Ramiro era mesmo um líder, um tutùmumbuca, grande maioral. Contrapôs:
- "Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo..."
E era verdade. Todo o mundo concordou. [...] Só para o nome-da-mãe ou de "ladrão" era que não havia remédio, por ser a ofensa grave.
...
Fato inquestionável. O Hermógenes foi obrigado a engolir a raiva. E provavelmente amadurecer a ideia da traição e assassinato de Joca Ramiro, dando então início à verdadeira saga do romance.
terça-feira, 20 de maio de 2014
praia do futuro, o filme
Vi, no sábado, Praia do Futuro, filme recente de Karim Aïnouz, com Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa.
Junto com o público mal-educado característico de shopping no sábado à noite: barulho de papel amassado dos sacos de pipoca, muita conversa em voz alta, celulares tocando ou piscando ao lado e aquelas ridículas e insuportáveis expressões de surpresa das mocinhas quando apareceu algo tão chocante como bunda de homem ou pior, ostensivamente reprovadoras quando rolou a primeira cena de sexo entre os protagonistas.
...
Não entendo essa surpresa das moçoilas. Nem o motivo pelo qual elas têm que a expressar - e expressar seu repúdio de maneira tão veemente. Será que não sabiam a sinopse? Não viram o trailer? Não leram nas redes sociais? Ou será elas imaginarem - nas profundezas de seus inconscientes - se é possuem - e não quererem admitir - os seus próprios namorados nos braços ou sob o charmoso alemão motoqueiro?
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Dizem que o grande público frustra-se ao não rever as proezas metrossexuais do super-herói Capitão Nascimento, personagem que Wagner Moura imortalizou em Tropa de Elite I e II. E se enfurece ao constatar que o estereótipo do soldado machão brasileiro esvazia-se e se contradiz na crise de identidade do quase atormentado e frágil bombeiro salva-vidas gay ao se defrontar (e lutar por) uma paixão por outro homem.
Será?
...
As conversas em voz alta e um ou outro "psiu" na plateia prosseguem. Para felicidade daqueles gatos pingados que queriam assistir ao filme, os jovens casais hetero chocados vão saindo da sala ao rolar o beijo (depois da primeira transa) entre os protagonistas. Na 2a. cena de sexo (cru e quase explícito), lá pelo meio do filme, finalmente a sala está quase vazia e silenciosa.
...
É um lindo filme. Poético, contundente, essencial. Áspero, intenso, visceral, como disse o jornalista de O Globo. A fotografia é primorosa. A música, perfeita. Os atores de primeira. Ao contrário da maioria dos filmes nacionais, a direção de ator foi bem feita. Roteiro, cortes, ritmo - tudo é impecável.
Longos silêncios, diálogos essenciais, trilha sonora, texto e subtexto perfeitamente encadeados entre palavra, som e imagem.
Daqueles filmes que você sai com a impressão de ter vivido toda uma existência paralela durante as 2 horas da projeção.
...
Apesar do diretor propositadamente utilizar-se de vários clichês românticos gays (um melodrama de macho, como afirma o título da matéria na Folha de São Paulo), Praia do Futuro está muito além dessa generalização. Desenrola-se no filme uma grandiosa e ao mesmo tempo ridícula história de amor humano.
A sensação foi a mesma de quando vi pela primeira vez Brokeback Mountain. Com vontade de que não terminasse. Com vontade de ver de novo. Com vontade de que todo mundo visse e se emocionasse e mergulhasse e saísse do cinema transtornado e transformado. Arrebatado.
...
Pena as moças e moços mencionados no segundo parágrafo não terem ficado até o fim do filme. Pena não terem se esforçado para entender que o nojo e o horror que faziam tanta questão de expressar era estupidez, ignorância, estreiteza de espírito. Era puro medo de encararem-se a si mesmos no espelho onde perderam a oportunidade vivenciar uma experiência estética para além das conversas bobas, das mensagens vazias do celular, do saco de pipoca e do copo de refrigerante.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
diário do dia nublado com trecho clássico
Acordo sempre cedo. Geralmente de mau-humor. Preciso de um tempo sozinho até me acostumar com o dia. Hoje tive que acordar bem mais cedo. Às correrias, por conta de levar a senhora X ao médico. Na outra extremidade da cidade. O trânsito nesse horário é intenso.
Sou relativamente calmo, não me estresso no trânsito. Mas ultimamente, dirigir em horários de pico ou em pistas movimentadas também tem me deixado de mau-humor.
Para completar, a senhora X matraqueava incessantemente uma porção de assuntos dos quais eu não tinha o menor interesse. Em um tom de voz alterado, irritante. Isso também me deixa irritado. Resumindo: eu estava uma pilha de nervos.
A certa altura, mudei de pista na forma correta: verificar o espaço existente, olhar pelo retrovisor e dar seta. Então ouço buzinadas e piscadas de luz do carro que vinha atrás, me admoestando por e ter ocupado o espaço que poderia ser dele. O idiota ainda alinhou-se ao meu e carro me olhou de cara feia. Foi a gota d'água. Minha adrenalina explodiu. Abri o vidro e - coisa que nunca fiz antes - encarei de volta e, furioso e berrei vários palavrões.
Eu me assustei comigo mesmo. Acho que se o trânsito estivesse menos complicado, o cara teria parado o carro para tirar satisfações ou me dado um tiro. Ou provocado um ataque cardíaco na senhora X.
Que nada. A senhora X, nem tchuns. Deu uma pausa assustada de 30 segundos. Depois prosseguiu palreando por todo o Eixão, Norte e Sul, até a porta do consultório.
...
Enquanto esperava o fim da consulta da senhora X, o trecho abaixo, de Iaiá Garcia, me vez pensar:
O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.
(Para quem não sabe ou não se lembra, Pangloss é o mentor de Cândido, na novela Cândido, ou o Otimismo, de Voltaire. O principal lema de Pangloss é: "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis").
...
Que o mau-humor dê um tempo no almoço do dia das mães.
Sou relativamente calmo, não me estresso no trânsito. Mas ultimamente, dirigir em horários de pico ou em pistas movimentadas também tem me deixado de mau-humor.
Para completar, a senhora X matraqueava incessantemente uma porção de assuntos dos quais eu não tinha o menor interesse. Em um tom de voz alterado, irritante. Isso também me deixa irritado. Resumindo: eu estava uma pilha de nervos.
A certa altura, mudei de pista na forma correta: verificar o espaço existente, olhar pelo retrovisor e dar seta. Então ouço buzinadas e piscadas de luz do carro que vinha atrás, me admoestando por e ter ocupado o espaço que poderia ser dele. O idiota ainda alinhou-se ao meu e carro me olhou de cara feia. Foi a gota d'água. Minha adrenalina explodiu. Abri o vidro e - coisa que nunca fiz antes - encarei de volta e, furioso e berrei vários palavrões.
Eu me assustei comigo mesmo. Acho que se o trânsito estivesse menos complicado, o cara teria parado o carro para tirar satisfações ou me dado um tiro. Ou provocado um ataque cardíaco na senhora X.
Que nada. A senhora X, nem tchuns. Deu uma pausa assustada de 30 segundos. Depois prosseguiu palreando por todo o Eixão, Norte e Sul, até a porta do consultório.
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Enquanto esperava o fim da consulta da senhora X, o trecho abaixo, de Iaiá Garcia, me vez pensar:
O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.
(Para quem não sabe ou não se lembra, Pangloss é o mentor de Cândido, na novela Cândido, ou o Otimismo, de Voltaire. O principal lema de Pangloss é: "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis").
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Que o mau-humor dê um tempo no almoço do dia das mães.
terça-feira, 6 de maio de 2014
a enciclopédia
| Imagem do verbete: Jardim, Reinaldo - na Delta Larousse recuperada. 1970. |
Pois é. Herdei involuntariamente duas delas quando mudei para a atual casa: uma Delta Larousse em 12 volumes e uma Larousse Cultural, 20 volumes. O que fazer com elas? Doar? só se fosse para reciclagem, uma vez que foram recusadas pelas bibliotecas públicas consultadas. Deu pena, guardei. A Larousse Cultural que estava em melhor forma foi para a estante. A Delta, muito detonada, foi encaixotada e guardada de qualquer jeito no quartinho de tralhas.
Acordei hoje incorporado no bicho-arrumadeiro. Tirei os volumes da caixa, limpei com pano seco um a um. O volume do fundo estava em pior estado. Páginas coladas pela umidade e muito mofo. Coloquei-o no sol. Desgrudei folha a folha, com muito cuidado. 1 hora ou 2 de trabalho braçal. Enquanto descolava e limpava as folhas, todo o projeto do livro novo que estava bloqueado no pensamento veio fluindo, definindo-se, se esclarecendo, junto com as lembranças e a leitura de um verbete ou outro, quase intacto ou semi-encoberto pelo mofo preto do esquecimento.
diário cinematográfico
Assisti hoje ao Jardim Atlântico, filme nacional de Jura Capela, com Sylvia Prado, Mariano Mattos e outros. Apelidaram o filme de musical por causa da presença e performance de competentes instrumentistas e cantoras da nova geração em grande parte da fita.
Filme experimental (!?) com imagens fortes: as tomadas submarinas do início, o minotauro emergindo da carcaça do navio naufragado, o Jardim Botânico, o erotizado carnaval de Olinda, etc.
Porém, a certa altura, lá pela metade, comecei a bocejar. Motivo: o filme padece de dois males incuráveis de grande parte da produção nacional. Falta trabalho de ator e esmero nos diálogos.
...
Lindo o Cine Brasília reformado. Som estéreo, ar condicionado, escadaria vermelha, tela nova, poltronas confortáveis, cadeiras de design no hall (no lugar dos incômodos, porém exóticos praticáveis hexagonais recobertos por carpete marrom), torneiras e bancadas tinindo nos banheiros, etc.
Como nos velhos tempos: na sessão das 15 horas, o luxo daquela sala enorme só para mim e para a amiga gueixa.
...
Ontem a pasmaceira foi geral. Liguei a TV cedo para terminar de ver o filme iniciado na noite anterior e não desliguei mais. Saldo: um filme bacaninha sobre a vida das esposas de Malcolm X e Martin Luther King, um documentário sobre o projeto dos irmãos Roberto, não selecionado para a construção de Brasília, um romance-suspense-idiota inglês dos anos 80 com um galã gostoso protagonizando cenas picantes de sexo hetero com uma loira platinada e, para completar, uma ficção muito mal arranjada mas eletrizante sobre o final do mundo que não aconteceu em 2012.
...
Ao contrário da pasmaceira de ontem, o dia hoje foi intenso: marquei consulta com o dentista, visita do marceneiro e encomenda de projeto de puxadinho para o arquiteto; reservei vaga em um curso e um seminário; li mais de 20 páginas dos livros de cabeceira, postagens e e-mails de amigos; escrevi este e outro texto; escovei a gata; listei os afazeres da semana; coloquei o lixo na rua; fiz um brainstorm frutífero para o projeto das possíveis novas publicações; fui ao cinema, e lanchei com a amiga, como descrito nos parágrafos acima; e até agora não liguei a TV.
...
Já com relação aos temas afetivos, parodiando príncipe brother: há algo de indecifrável pairando no ar do reino da Dinamarca.
Filme experimental (!?) com imagens fortes: as tomadas submarinas do início, o minotauro emergindo da carcaça do navio naufragado, o Jardim Botânico, o erotizado carnaval de Olinda, etc.
Porém, a certa altura, lá pela metade, comecei a bocejar. Motivo: o filme padece de dois males incuráveis de grande parte da produção nacional. Falta trabalho de ator e esmero nos diálogos.
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Lindo o Cine Brasília reformado. Som estéreo, ar condicionado, escadaria vermelha, tela nova, poltronas confortáveis, cadeiras de design no hall (no lugar dos incômodos, porém exóticos praticáveis hexagonais recobertos por carpete marrom), torneiras e bancadas tinindo nos banheiros, etc.
Como nos velhos tempos: na sessão das 15 horas, o luxo daquela sala enorme só para mim e para a amiga gueixa.
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Ontem a pasmaceira foi geral. Liguei a TV cedo para terminar de ver o filme iniciado na noite anterior e não desliguei mais. Saldo: um filme bacaninha sobre a vida das esposas de Malcolm X e Martin Luther King, um documentário sobre o projeto dos irmãos Roberto, não selecionado para a construção de Brasília, um romance-suspense-idiota inglês dos anos 80 com um galã gostoso protagonizando cenas picantes de sexo hetero com uma loira platinada e, para completar, uma ficção muito mal arranjada mas eletrizante sobre o final do mundo que não aconteceu em 2012.
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Ao contrário da pasmaceira de ontem, o dia hoje foi intenso: marquei consulta com o dentista, visita do marceneiro e encomenda de projeto de puxadinho para o arquiteto; reservei vaga em um curso e um seminário; li mais de 20 páginas dos livros de cabeceira, postagens e e-mails de amigos; escrevi este e outro texto; escovei a gata; listei os afazeres da semana; coloquei o lixo na rua; fiz um brainstorm frutífero para o projeto das possíveis novas publicações; fui ao cinema, e lanchei com a amiga, como descrito nos parágrafos acima; e até agora não liguei a TV.
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Já com relação aos temas afetivos, parodiando príncipe brother: há algo de indecifrável pairando no ar do reino da Dinamarca.
conjecturas sobre o grande sertão (erguendo bandeiras)
Depois
do julgamento e absolvição do chefe inimigo Zé Bebelo, era o fim da guerra. Os mais
de 500 jagunços vencedores, comandados por Joca Ramiro dividem-se em grupos menores e
se dirigem para regiões diferentes do sertão.
Joca Ramiro segue com Hermógenes e Ricardão. Riobaldo e Reinaldo-Diadorim seguem no bando de Titão Passos. Por 2 meses, trégua entre uma guerra e outra, o bando acampa em um lugar paradisíaco (e fatídico, como se verá mais tarde) chamado Guararavacã do Guaicuí:
Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada. [...] O que, por começo, corria desino para a gente, ali era: bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão - que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte. Todo dia se comia bom peixe novo, pescado fácil. [...] Nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. Dormir sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. [...] O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha a ideia de tudo só ser o passado no futuro.
Foi nesse jardim do éden sertanejo que pela primeira vez Riobaldo assumiu para si mesmo o amor e o desejo por Diadorim:
Aquele lugar, o ar. Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. [...] O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor...". [...] Um Diadorim só para mim. [...] Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.
Depois do enlevo, do êxtase, quase epifania do amor revelado, vem o bote e o veneno da serpente da culpa:
"Se é o que é" - eu pensei - "eu estou meio perdido..." Acertei minha ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia por paz de honra e tenência sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia quebrar o morro: acabar comigo! - com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo.
Porém os acontecimentos tomam outro rumo quando chega a notícia da morte de Joca Ramiro, à traição, pelos judas Hermógenes e Ricardão.
...
Exceto uma dica lá pela terça parte do livro, Rosa leva o amor gay do jagunço Riobaldo pelo jagunço Reinaldo-Diadorim em suspense crescente até as últimas páginas quando, com sua morte, revela-se a identidade feminina de Diadorim.
Parte dos críticos não admite o desfecho. Consideram covardia de Rosa encobrir a homossexualidade estrutural do Grande Sertão. Afinal, a grosso modo, o conflito das mais de 500 páginas da tentativa de Riobaldo sair do armário, estaria irremediavelmente aniquilado com o absurdo da solução encontrada pelo autor: adaptar o romance à conformidade moral & social vigentes, transmutando em mulher o objeto de desejo homoafetivo no narrador.
Sem negar o deslumbre renovado pelo GS:V a cada tresleitura, eu faço parte desse coro. Querendo ou não, o Grande sertão é, além de um dos mais maravilhosos textos da língua portuguesa, talvez o mais importante romance gay escrito até hoje.
E lanço dúvidas: A magnificência, a grandiosidade, a universalidade do GS:V estaria comprometida se, no fim - ao lado do cego Borromeu e do menino Guirigó e diante da jagunçada - se, diante do corpo morto e nu do amado, o narrador Riobaldo assumisse o amor-estrela, o amor-guia, o amor-transformação - o amor que ele, o jagunço Riobaldo sentiu pelo jagunço Reinaldo-Diadorim?
Ou isso estaria muito além do alcance de Rosa e da própria época em que o romance foi escrito?
Joca Ramiro segue com Hermógenes e Ricardão. Riobaldo e Reinaldo-Diadorim seguem no bando de Titão Passos. Por 2 meses, trégua entre uma guerra e outra, o bando acampa em um lugar paradisíaco (e fatídico, como se verá mais tarde) chamado Guararavacã do Guaicuí:
Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada. [...] O que, por começo, corria desino para a gente, ali era: bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão - que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte. Todo dia se comia bom peixe novo, pescado fácil. [...] Nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. Dormir sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. [...] O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha a ideia de tudo só ser o passado no futuro.
Foi nesse jardim do éden sertanejo que pela primeira vez Riobaldo assumiu para si mesmo o amor e o desejo por Diadorim:
Aquele lugar, o ar. Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. [...] O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor...". [...] Um Diadorim só para mim. [...] Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.
Depois do enlevo, do êxtase, quase epifania do amor revelado, vem o bote e o veneno da serpente da culpa:
"Se é o que é" - eu pensei - "eu estou meio perdido..." Acertei minha ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia por paz de honra e tenência sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia quebrar o morro: acabar comigo! - com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo.
Porém os acontecimentos tomam outro rumo quando chega a notícia da morte de Joca Ramiro, à traição, pelos judas Hermógenes e Ricardão.
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Exceto uma dica lá pela terça parte do livro, Rosa leva o amor gay do jagunço Riobaldo pelo jagunço Reinaldo-Diadorim em suspense crescente até as últimas páginas quando, com sua morte, revela-se a identidade feminina de Diadorim.
Parte dos críticos não admite o desfecho. Consideram covardia de Rosa encobrir a homossexualidade estrutural do Grande Sertão. Afinal, a grosso modo, o conflito das mais de 500 páginas da tentativa de Riobaldo sair do armário, estaria irremediavelmente aniquilado com o absurdo da solução encontrada pelo autor: adaptar o romance à conformidade moral & social vigentes, transmutando em mulher o objeto de desejo homoafetivo no narrador.
Sem negar o deslumbre renovado pelo GS:V a cada tresleitura, eu faço parte desse coro. Querendo ou não, o Grande sertão é, além de um dos mais maravilhosos textos da língua portuguesa, talvez o mais importante romance gay escrito até hoje.
E lanço dúvidas: A magnificência, a grandiosidade, a universalidade do GS:V estaria comprometida se, no fim - ao lado do cego Borromeu e do menino Guirigó e diante da jagunçada - se, diante do corpo morto e nu do amado, o narrador Riobaldo assumisse o amor-estrela, o amor-guia, o amor-transformação - o amor que ele, o jagunço Riobaldo sentiu pelo jagunço Reinaldo-Diadorim?
Ou isso estaria muito além do alcance de Rosa e da própria época em que o romance foi escrito?
domingo, 4 de maio de 2014
diário do primeiro domingo do outono
Ouvindo Mozart na rádio Câmara. Depois de lavar a louça do almoço. Do almoço sempre agradável, os agradáveis amigos de sempre. Muita comida e muitas muitas histórias dos tempos antigos e dos tempos que virão.
Mais a priminha, de 4 anos, super astral, cantando a triste e longa romanza da Dona Baratinha e Dom Ratão, que caiu na feijoada justo no dia do casamento. Para esquecer a tragédia, Dona Baratinha foi ao shopping comprar umas coisinhas e lá encontrou o Baratão. Viveram felizes para sempre.
...
A propósito de Mozart, vai a frase ouvida no rádio ontem: Einstein afirmou acreditar no homem porque Mozart existiu, e Mozart era um ser humano.
...
Ainda fascinado pela beleza das cores do novo prato/bandeja/saladeira pop adquirido por uma pechincha em um stand de refugos do hipermercado.
...
Dúvida existencial: continuar a ouvir Mozart no rádio ou assistir reprises dos programas do Chacrinha e depois um especial sobre Cartola na TV a cabo recém-instalada?
...
Sessão literatura: saboreando frase a frase, palavra a palavra, concomitantemente, dois dos mais tocantes trechos da literatura em língua portuguesa: o julgamento de Zé Bebelo no Grande Sertão e a revelação do segredo de Helena, em Machado.
Mais a priminha, de 4 anos, super astral, cantando a triste e longa romanza da Dona Baratinha e Dom Ratão, que caiu na feijoada justo no dia do casamento. Para esquecer a tragédia, Dona Baratinha foi ao shopping comprar umas coisinhas e lá encontrou o Baratão. Viveram felizes para sempre.
...
A propósito de Mozart, vai a frase ouvida no rádio ontem: Einstein afirmou acreditar no homem porque Mozart existiu, e Mozart era um ser humano.
...
Ainda fascinado pela beleza das cores do novo prato/bandeja/saladeira pop adquirido por uma pechincha em um stand de refugos do hipermercado.
...
Dúvida existencial: continuar a ouvir Mozart no rádio ou assistir reprises dos programas do Chacrinha e depois um especial sobre Cartola na TV a cabo recém-instalada?
...
Sessão literatura: saboreando frase a frase, palavra a palavra, concomitantemente, dois dos mais tocantes trechos da literatura em língua portuguesa: o julgamento de Zé Bebelo no Grande Sertão e a revelação do segredo de Helena, em Machado.
sábado, 3 de maio de 2014
diário da dor de cotovelo
Com pouca ou nenhuma vontade de escrever. Me esforçando. Mais ou menos. Debruçado na autópsia de um texto-imagem pronto, das antigas, meio nonsense, meio difícil de ressuscitar. Daqueles textos que só publicando para desapegar de vez.
Aliás, o projeto seria grandioso se a vontade permitisse. 3 livros de uma vez só: esse da autópsia; o dos Cacos; e um de fotografias. Que as musas intervenham.
...
Helena foi localizada (para quem não sabe, o volume 3 da obra completa de Machado, esquecida na sede da Receita Federal). Quem localizou foi uma simpática e prestativa funcionária da segurança. Não satisfeita em não encontrar o dito cujo nos achados e perdidos, a moça perquiriu em todos os guichês de atendimento. Acabou por encontrar. No fundo da gaveta. De um dentre as dezenas de atendentes. Meu sorriso de regozijo ao receber o livro iluminou o lugar. A moça retribuiu o sorriso com a mesma intensidade. Sintonias espontâneas & ocasionais. Eternamente grato.
...
Parei parte em que o pai de Helena revela o mistério implacável e cruel ao imaturo Estácio. Machado arrasa. Para sempre.
...
Vi ontem o filme Yves Saint Laurent. Bonzinho, sim. Mas não me pegou. Parecia filme de encomenda. Apesar do maravilhoso & glamouroso do mundo da moda parisiense e da genialidade indubitável da personagem. Anti-herói, pra mim, tem que ser mesmo muito radical.
...
Preparando com todo cuidado & delicadeza o prato para o almoço de amanhã. Com amigos queridos, frequentes, constantes. Os de sempre. Faltam ainda as folhas da salada e as rosas. Muitas rosas amarelas.
...
Ouvindo Tracy Capmann de um tempo que felizmente não retornará. Ouvindo rock’n’roll pedrada eterno na Kiss FM. Ouvindo clássicos selecionados anunciados pela voz fantasmagórica de Mário Garófalo.
...
Questões contemporâneas: é possível discutir relação afetiva quase sólida com a troca de 4 frases no whatsapp?
...
Só mesmo recorrendo a Macalé em horas de sofrimento insuportável: é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais.
...
Desculpem, leitores, o sentimentalismo & as inevitáveis rimas adjetivas & adverbiais.
...
End game again?
...
Reset and restart.
Aliás, o projeto seria grandioso se a vontade permitisse. 3 livros de uma vez só: esse da autópsia; o dos Cacos; e um de fotografias. Que as musas intervenham.
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Helena foi localizada (para quem não sabe, o volume 3 da obra completa de Machado, esquecida na sede da Receita Federal). Quem localizou foi uma simpática e prestativa funcionária da segurança. Não satisfeita em não encontrar o dito cujo nos achados e perdidos, a moça perquiriu em todos os guichês de atendimento. Acabou por encontrar. No fundo da gaveta. De um dentre as dezenas de atendentes. Meu sorriso de regozijo ao receber o livro iluminou o lugar. A moça retribuiu o sorriso com a mesma intensidade. Sintonias espontâneas & ocasionais. Eternamente grato.
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Parei parte em que o pai de Helena revela o mistério implacável e cruel ao imaturo Estácio. Machado arrasa. Para sempre.
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Vi ontem o filme Yves Saint Laurent. Bonzinho, sim. Mas não me pegou. Parecia filme de encomenda. Apesar do maravilhoso & glamouroso do mundo da moda parisiense e da genialidade indubitável da personagem. Anti-herói, pra mim, tem que ser mesmo muito radical.
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Preparando com todo cuidado & delicadeza o prato para o almoço de amanhã. Com amigos queridos, frequentes, constantes. Os de sempre. Faltam ainda as folhas da salada e as rosas. Muitas rosas amarelas.
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Ouvindo Tracy Capmann de um tempo que felizmente não retornará. Ouvindo rock’n’roll pedrada eterno na Kiss FM. Ouvindo clássicos selecionados anunciados pela voz fantasmagórica de Mário Garófalo.
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Questões contemporâneas: é possível discutir relação afetiva quase sólida com a troca de 4 frases no whatsapp?
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Só mesmo recorrendo a Macalé em horas de sofrimento insuportável: é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais.
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Desculpem, leitores, o sentimentalismo & as inevitáveis rimas adjetivas & adverbiais.
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End game again?
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Reset and restart.
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