Constate que os roncos da tua barriga são sinal de fome. E que você está imobilizado uma preguiça mortal de enfrentar o trânsito e a espera no restaurante, às 13 horas do domingo. Verifique as hipóteses parcas da despensa e da geladeira: 1 porção de arroz congelado; um pedaço de gorgonzola restante do último evento, há uns 15 dias atrás; meia dúzia de castanhas-do-Pará que sobraram do preparo da granola; 3 dentes de alho meio murchos resgatados de uma cabeça esquecida; sal, azeite; orégano; pimenta-do-reino moída; pimenta dedo-de-moça; queijo goiano ralado no lugar de parmesão.
Corte os dentes de alho em fatias finas. Retire as sementes da pimenta dedo-de-moça e corte-a em rodelas. Refogue no azeite. Junte o orégano e a pimenta-do-reino, sal a gosto e deixe dourar. Despeje aos poucos o arroz previamente descongelado no micro-ondas. Mexa bem. Quando estiver bem quente, misture as castanhas picadas e o gorgonzola esfarelado e desligue o fogo.
Unte a travessa refratária ou de inox com azeite. Despeje a mistureba. Cubra com o queijo ralado e leve ao forno até dourar. Retire e sirva com a salada de agrião e alface que sobreviveram milagrosamente por 2 semanas na gaveta da geladeira.
Convide alguém muito especial, tipo o filho mais legal do mundo, e espere que ele que te ofereça para colaborar com o almoço improvisado. Levando, por exemplo, um tupperware cheio de strogonoff de frango, um saco de batata-palha e uma coca-cola 600 ml.
Deguste o prato e repita se quiser. Guarde as sobras para o dia seguinte (nunca se sabe). Permita que o filho lave a louça. E passe a tarde mais agradável dos últimos tempos jogando conversa fora e sendo feliz na companhia de quem você tanto ama.
domingo, 1 de junho de 2014
sexta-feira, 30 de maio de 2014
pelópidas e o batalhão sagrado
O general Pelópidas (séc. IV a.C) venceu uma das batalhas contra os espartanos com a ajuda do Batalhão Sagrado, uma tropa de elite do exército tebano que consistia de 150 pares organizados por idade. Vale a pena ressuscitar os 3 capítulos que Plutarco dedica a esse amoroso batalhão:
[...] compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público. [...] Outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros. [...]
Plutarco cita o filósofo Parmênides que, com base na formação do Batalhão Sagrado tebano, criticou jocosamente a Ilíada de Homero, ao aconselhar os gregos a estratégia de se alinharem nas batalhas por nação ou linhagem:
Era necessário, dizia ele [Parmênides] colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.
No capítulo seguinte Plutarco discorre sobre aquele exemplo gay heróico clássico:
[...] se é verdade que os amorosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar.
Plutarco prossegue falando dos amores entre Hércules e Iolau, de Laio (o pai de Édipo) e Crísipo (filho de Pelópidas) e de Platão, que chama o amante de amigo divino ou inspirado dos deuses.
Por fim o Batalhão Sagrado foi derrotado pelos exércitos de Filipe o Grande, da Macedônia. Quando Filipe percorreu o campo da batalha e deparou os trezentos homens do Batalhão Sagrado deitados por terra, todos perfurados por grandes golpes de lança através do estômago, e colocados, ainda cobertos com suas armas, uns junto dos outros, do que assombrou-se enormemente [...] e começou a chorar de piedade, dizendo: - "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto".
Plutarco encerra o excerto sobre o Batalhão Sagrado explicando as razões dessas estratégias militares pouco comuns:
[...]
Em suma, o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres. [...] Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens. [...] isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.
...
Ou seja, o útil e o agradável para a felicidade geral da nação.
[...] compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público. [...] Outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros. [...]
Plutarco cita o filósofo Parmênides que, com base na formação do Batalhão Sagrado tebano, criticou jocosamente a Ilíada de Homero, ao aconselhar os gregos a estratégia de se alinharem nas batalhas por nação ou linhagem:
Era necessário, dizia ele [Parmênides] colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.
No capítulo seguinte Plutarco discorre sobre aquele exemplo gay heróico clássico:
[...] se é verdade que os amorosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar.
Plutarco prossegue falando dos amores entre Hércules e Iolau, de Laio (o pai de Édipo) e Crísipo (filho de Pelópidas) e de Platão, que chama o amante de amigo divino ou inspirado dos deuses.
Por fim o Batalhão Sagrado foi derrotado pelos exércitos de Filipe o Grande, da Macedônia. Quando Filipe percorreu o campo da batalha e deparou os trezentos homens do Batalhão Sagrado deitados por terra, todos perfurados por grandes golpes de lança através do estômago, e colocados, ainda cobertos com suas armas, uns junto dos outros, do que assombrou-se enormemente [...] e começou a chorar de piedade, dizendo: - "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto".
Plutarco encerra o excerto sobre o Batalhão Sagrado explicando as razões dessas estratégias militares pouco comuns:
[...]
Em suma, o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres. [...] Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens. [...] isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.
...
Ou seja, o útil e o agradável para a felicidade geral da nação.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
diário das palavras-imagens
Atônito diante da esfinge. Dancei com lobisomens. Entre parêntesis. Os dióscuros. Neblina. Calabouço. Ossos.
...
As palavras ocas. Zumbidos. A areia do deserto nos meus olhos. Travessia do Letes. Cérbero. Morcegos-lâminas entre os dentes. No oco do crânio. Vermes.
...
A flor negra da morte em Baudelaire & Augusto dos Anjos. O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
...
Ruem os pilares que sustentam as abóbadas dos meus dentros. Rugem o mar, a besta tricórnea, a tempestade de granizo.
...
A lentidão das horas. As palavras imprecisas. O fogo-fátuo das ideias. Haverá mesmo alma?
...
O príncipe imerso. O jorro dos vulcões-falos. No aquário das almas-anêmonas.
...
Sangria.
...
Escuridão.
..
Silêncio.
...
As palavras ocas. Zumbidos. A areia do deserto nos meus olhos. Travessia do Letes. Cérbero. Morcegos-lâminas entre os dentes. No oco do crânio. Vermes.
...
A flor negra da morte em Baudelaire & Augusto dos Anjos. O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
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Ruem os pilares que sustentam as abóbadas dos meus dentros. Rugem o mar, a besta tricórnea, a tempestade de granizo.
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A lentidão das horas. As palavras imprecisas. O fogo-fátuo das ideias. Haverá mesmo alma?
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O príncipe imerso. O jorro dos vulcões-falos. No aquário das almas-anêmonas.
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Sangria.
...
Escuridão.
..
Silêncio.
terça-feira, 27 de maio de 2014
autoajuda com bacalhau
Outro dia convidei para almoçar uma amiga que há muitos anos não via. Chamei outros amigos da época. Tentei caprichar no almoço. Pão de centeio e de farinha de arroz para os celíacos, pasta de grão-de-bico e berinjela de entrada. Salada bonita e saudável, com mussarela de búfala ou tofu grelhado para os intolerantes à lactose. Arroz milagrosamente soltinho. Arranjo de rosas-chá, margaridas, papos-de-anjo e lírios amarelos.
Fruteira no centro da mesa ao ar livre, sobre a toalha rendada, quase como uma natureza-morta abstracionista (existe?), quase Kandinski quase Mondrian. Suco de uvas verdes, Incenso de alecrim - tudo perfeito. Exceto o
prato principal.
Era uma receita nova. Os ingredientes eram de primeira. Bacalhau do Porto com muitos centímetros de espessura. Coloquei para dessalgar desde a manhã do dia anterior, trocando a água gelada a cada 4 horas. Fervi as postas no leite, depositei-as com a maior delicadeza sobre o leito de batatas cozidas e amassadas à mão, cobri com a camada de maionese e queijo parmesão, calculei o tempo e temperatura exatos para gratinar - e por fim espalhei naquela casquinha dourada ovos cozidos esfarelados e azeitonas pretas do tamanho de ovos de codorna.
Foi unânime o regozijo ao colocar o prato na mesa. A aparência era de dar água na boca. Mas na hora de comer, todos em silêncio. Nenhum elogio, nem por educação. O que o prato tinha de lindo, tinha de salgado. Muito salgado. Salgado mesmo. Intragável. De queimar a língua e os lábios.
Os convivas resolveram da melhor forma. Se empanturraram de arroz com azeite ou sanduíches feitos com os pães sem glúten recheados com as saladas e muito suco de uva.
O bacalhau especial salgadérrimo quase intocado rendeu risotos, escondidinhos, sopas e otras cositas más durante a semana seguinte ao evento.
...
Mais recentemente houve outro evento especial, também em homenagem à amizades antigas. Devido a restrições orçamentárias e à falta de tempo, a receita foi elaborada com o que havia na geladeira e despensa: Azeite, 2 bandejas de peixe desfiado tipo bacalhau - aqueles vendidos a granel no supermercado por 1/5 do preço do verdadeiro. Só precisei comprar cebolas, brócolis congelado, batatas e pimentões coloridos - vermelho, verde, amarelo - um de cada.
Era o infalível bacalhau à portuguesa, tipo cozidão, tudo misturado, em camadas, receita que faço há anos, e nunca deu errado:
Untar a forma refratária com azeite; espalhar uma camada de batatas pré-cozidas, fatiadas mais ou menos com a espessura de 1cm; regar com azeite; espalhar uma camada de cebolas cortadas em pétalas; mais azeite; espalhar o bacalhau desfiado e dessalgado em pedaços não muito pequenos; mais uma regada de azeite; cobrir com outra camada de batatas; levar ao forno pré-aquecido a 250 graus por 30 a 40 minutos; depois de assado, enfeitar com tiras de pimentão colorido e flores de brócolis previamente refogadas no azeite, para amolecer; e espalhar as azeitonas.
Para evitar a problemática do prato anterior, eu coloquei de molho com mais um dia de antecedência. Foi o erro. Os tais peixinhos tipo bacalhau (acho que são feitos de filé de merluza) são delgados e não absorvem tão profundamente o sal quanto o verdadeiro e espesso bacalhau português-norueguês. O sal saiu todo. Ou seja, mais uma vez o prato ficou lindo, mas completamente insosso.
Pelo menos era mais fácil remediar. Nunca o saleiro foi tão utilizado.
...
Uma das convidadas dos dois eventos era uma amiga que, além de gueixa é artista, filósofa, pitonisa e cozinheira de mão cheia. Ela tem um ditado mais ou menos assim: você pode saber as técnicas mais maravilhosas, os equipamentos mais sofisticados, cozinhar com os melhores ingredientes mas se não estiver inspirado não adianta por que algo vai dar errado.
Essa inspiração, segundo ela, tem a ver com amor e desprendimento. Você tem que vivenciar cada momento, desde os preparativos - as escolha dos ingredientes, a ida ao supermercado, o preparo, a arrumação da casa, a disposição dos pratos e dos talheres na mesa - aí tudo acontece, tudo flui, a comida ficará sempre deliciosa.
...
E daí? Qual a moral, a conclusão da postagem?
Confesso, não sei bem. Realizar os dois eventos foi um esforço grande de sair da casca (ou, melhor, de trazer companhia para a casca, uma vez que está difícil sair dela), onde tenho permanecido mais tempo que o recomendável. Apesar do orgulho ferido do cozinheiro, no fim das contas pouco ou quase nada importou se a comida era boa ou ruim, chique ou trivial, salgada ou insossa. O que valeu - e vale sempre - é reunir as pessoas. Falar bobagens, rir, relaxar, deixar de lado as formalidades. Compartilhar com elas momentos de felicidade que, mesmo ínfimos, são únicos e perdurarão muito tempo, quem sabe até o final das nossas existências.
...
Isso me faz lembrar o conto de Clarice sobre um almoço de sábado.
Era uma receita nova. Os ingredientes eram de primeira. Bacalhau do Porto com muitos centímetros de espessura. Coloquei para dessalgar desde a manhã do dia anterior, trocando a água gelada a cada 4 horas. Fervi as postas no leite, depositei-as com a maior delicadeza sobre o leito de batatas cozidas e amassadas à mão, cobri com a camada de maionese e queijo parmesão, calculei o tempo e temperatura exatos para gratinar - e por fim espalhei naquela casquinha dourada ovos cozidos esfarelados e azeitonas pretas do tamanho de ovos de codorna.
Foi unânime o regozijo ao colocar o prato na mesa. A aparência era de dar água na boca. Mas na hora de comer, todos em silêncio. Nenhum elogio, nem por educação. O que o prato tinha de lindo, tinha de salgado. Muito salgado. Salgado mesmo. Intragável. De queimar a língua e os lábios.
Os convivas resolveram da melhor forma. Se empanturraram de arroz com azeite ou sanduíches feitos com os pães sem glúten recheados com as saladas e muito suco de uva.
O bacalhau especial salgadérrimo quase intocado rendeu risotos, escondidinhos, sopas e otras cositas más durante a semana seguinte ao evento.
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Mais recentemente houve outro evento especial, também em homenagem à amizades antigas. Devido a restrições orçamentárias e à falta de tempo, a receita foi elaborada com o que havia na geladeira e despensa: Azeite, 2 bandejas de peixe desfiado tipo bacalhau - aqueles vendidos a granel no supermercado por 1/5 do preço do verdadeiro. Só precisei comprar cebolas, brócolis congelado, batatas e pimentões coloridos - vermelho, verde, amarelo - um de cada.
Era o infalível bacalhau à portuguesa, tipo cozidão, tudo misturado, em camadas, receita que faço há anos, e nunca deu errado:
Untar a forma refratária com azeite; espalhar uma camada de batatas pré-cozidas, fatiadas mais ou menos com a espessura de 1cm; regar com azeite; espalhar uma camada de cebolas cortadas em pétalas; mais azeite; espalhar o bacalhau desfiado e dessalgado em pedaços não muito pequenos; mais uma regada de azeite; cobrir com outra camada de batatas; levar ao forno pré-aquecido a 250 graus por 30 a 40 minutos; depois de assado, enfeitar com tiras de pimentão colorido e flores de brócolis previamente refogadas no azeite, para amolecer; e espalhar as azeitonas.
Para evitar a problemática do prato anterior, eu coloquei de molho com mais um dia de antecedência. Foi o erro. Os tais peixinhos tipo bacalhau (acho que são feitos de filé de merluza) são delgados e não absorvem tão profundamente o sal quanto o verdadeiro e espesso bacalhau português-norueguês. O sal saiu todo. Ou seja, mais uma vez o prato ficou lindo, mas completamente insosso.
Pelo menos era mais fácil remediar. Nunca o saleiro foi tão utilizado.
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Uma das convidadas dos dois eventos era uma amiga que, além de gueixa é artista, filósofa, pitonisa e cozinheira de mão cheia. Ela tem um ditado mais ou menos assim: você pode saber as técnicas mais maravilhosas, os equipamentos mais sofisticados, cozinhar com os melhores ingredientes mas se não estiver inspirado não adianta por que algo vai dar errado.
Essa inspiração, segundo ela, tem a ver com amor e desprendimento. Você tem que vivenciar cada momento, desde os preparativos - as escolha dos ingredientes, a ida ao supermercado, o preparo, a arrumação da casa, a disposição dos pratos e dos talheres na mesa - aí tudo acontece, tudo flui, a comida ficará sempre deliciosa.
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E daí? Qual a moral, a conclusão da postagem?
Confesso, não sei bem. Realizar os dois eventos foi um esforço grande de sair da casca (ou, melhor, de trazer companhia para a casca, uma vez que está difícil sair dela), onde tenho permanecido mais tempo que o recomendável. Apesar do orgulho ferido do cozinheiro, no fim das contas pouco ou quase nada importou se a comida era boa ou ruim, chique ou trivial, salgada ou insossa. O que valeu - e vale sempre - é reunir as pessoas. Falar bobagens, rir, relaxar, deixar de lado as formalidades. Compartilhar com elas momentos de felicidade que, mesmo ínfimos, são únicos e perdurarão muito tempo, quem sabe até o final das nossas existências.
...
Isso me faz lembrar o conto de Clarice sobre um almoço de sábado.
zeugma, em breve
Zeugma é a figura de linguagem pela qual se subentendem, em uma ou mais frases ou orações, palavras expressas em outra frase ou oração que com essas está ligada. Ex.: foi lançado o satélite, e [foram] capturados os seus sinais.
...
Zeugma é o nome de uma antiga cidade romana, às margens do rio Eufrates, na Ásia Menor. Conta Plínio, o Velho, que a cidade era um ponto estratégico na rota da seda, que estabelecia o comércio do ocidente com a China. Em suas ruínas foram recuperados os famosos Mosaicos de Zeugma, hoje expostos no Museu de História da cidade de Gaziantep. As ruínas de Zeugma estão hoje encobertas pelas águas de uma represa de Birecik, ao sul da Turquia, próxima à fronteira com a Síria.
...
Zeugma é também o título de um texto-imagem pop-enciclopédico que, queiram os deuses, será brevemente publicado, junto com O Livro dos Cacos, em primorosa, requintada, cuidadosa edição, para o deleite de leitores e admiradores.
...
Zeugma é o nome de uma antiga cidade romana, às margens do rio Eufrates, na Ásia Menor. Conta Plínio, o Velho, que a cidade era um ponto estratégico na rota da seda, que estabelecia o comércio do ocidente com a China. Em suas ruínas foram recuperados os famosos Mosaicos de Zeugma, hoje expostos no Museu de História da cidade de Gaziantep. As ruínas de Zeugma estão hoje encobertas pelas águas de uma represa de Birecik, ao sul da Turquia, próxima à fronteira com a Síria.
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Zeugma é também o título de um texto-imagem pop-enciclopédico que, queiram os deuses, será brevemente publicado, junto com O Livro dos Cacos, em primorosa, requintada, cuidadosa edição, para o deleite de leitores e admiradores.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
a mensagem
Há algum tempo recebi pelo celular a seguinte mensagem:
"Desculpa por interromper vc a essa hora. Meu nome e Deus. Pq vc nao se importa comigo??? Eu tenho protegido vc desde o dia q vc nasceu. tenho abencoado vc, quero essa msg no mundo inteiro, antes da meia noite, nao ignore, vc esta sendo testado (a), se vc fizer isso , eu irei corrigir 2 grandes erros em sua vida e vou ajudalo em algo que estas em necessidade e seu dia que segue sera muito abencoado, entao envia essa msg para 14 pessoaa em 10 minutos".
Minha primeira providência foi checar o número na lista de contatos. Não constava. Só podia ser engano. Ou será que ele recorrera ao superpoder da onisciência?
Senti um calafrio. Mesmo com toda formação ateia socialista pelo lado paterno, havia resquício daquele temor e culpa ancestral, católico apostólico português, espanhol, mineirinho do resto da família. Nunca um clichê se encaixou tão bem: yo no creo, pero...
A essa altura os neurônios responsáveis pelo materialismo dialético histórico do cérebro tinham entrado em curto-circuito. Empiricamente liguei para o número registrado na mensagem.
Ainda tive coragem de esperar o primeiro sinal de chamada. Desliguei em seguida. Vai que ele atende? Eu gaguejaria: Senhor? Milord? Vossa Excelência? Vossa Santidade? Pai? E o que eu diria depois?
Quem dera eu tivesse a desenvoltura da amiga que bate altos papos com ele, via e-mail.
...
Deixei a taquicardia passar, o temor esfriar, tentei me acostumar com o sobrenatural. Fui cuidar da vida. Editar uns depoimentos para a pesquisa, pensar em soluções para o trabalho encalacrado, estudar a lição de inglês, pagar umas contas pela internet, ligar para o novo amor, tomar uma taça de vinho para relaxar, ver um filme, tomar banho e dormir.
Para só no dia seguinte pensar na mensagem divina.
...
Muito antigamente o formato utilizado por Deus chamava-se corrente. A pessoa recebia uma carta (geralmente anônima) com a mesmíssima estrutura formal do texto em tela. Podia ser da parte de um devoto de santo, de pessoa necessitada (geralmente estrangeira). Prometiam benefícios, materiais ou, menos comuns, espirirtuais. Pediam em troca dinheiro, selos, preces - depósitos em fé ou espécie. Quase todas encerravam-se com a ameaça:
Frau Helga, de Munich, quebrou a corrente e perdeu todo o dinheiro aplicado na poupança. Mariazinha Silva, de Belém do Pará, quebrou a perna. Bob Wilson, do Texas, rasgou a carta e no mesmo dia a esposa o abandonou. Então resgatou a mesma e a reenviou para 55 pessoas e no dia seguinte a esposa voltou trazendo 1 milhão de dólares. Assim por diante.
O destinatário deveria copiar e remeter a referida carta para a quantidade de pessoas nela especificadas e, na calada da noite ou à primeiras luzes do alvorecer, enfiava cada uma das cópias nas caixas de correio ou pelas frestas das portas das casas da vizinhança. Depois era só aguardar a benesse, a vantagem ou o milagre prometido.
Passado o período pré-histórico das cartas manuscritas e depois xerocadas, veio a moda das correntes por e-mail. Teve uma época em que as caixas postais eletrônicas ficavam abarrotadas delas. Modernizadas e potencializadas e disseminadas ao extremo, porém totalmente estagnadas no que se refere ao estilo: as mesmas explicações, ameaças, exemplos, apelos e ordens.
Agora a novidade: corrente via celular.
...
Insone madrugada afora, resolvi analisar a mensagem.
Ao invés daquelas intervenções épicas (oceanos se abrindo, vozes estereofônicas vindas das nuvens, relâmpagos, ventanias ou eclipses) ele optou pela simplicidade da modernidade, utilizando-se de uma ferramenta tecnológica tão banal e eficaz quanto o messenger. Criatividade celestial.
1. Apesar da qualidade questionável, o texto criado pelo publicitário dono da conta Divina atingiu os objetivos: ser extremamente pessoal abrangendo ao mesmo tempo o máximo de ovelhas desgarradas do rebanho. (Se não fosse a possibilidade dos dois gêneros na palavra testado(a), eu juraria que a mensagem era exclusiva).
2. Se a mensagem foi digitada sem a ajuda do publicitário, ele se esqueceu de ativar o corretor automático.
3. Ou então estava com muita pressa para não se demorar nos acentos, nas cedilhas e nas concordâncias. Pressa justificável para quem construiu o universo em 6 dias.
4. Ou então, ainda e mais plausível, não era obrigado a conhecer a fundo o português, uma língua tão complicada e não tão sagrada quanto o hebraico (sua língua original) nem tão universal quanto o inglês.
5. O provável dedo do provável publicitário, atualizando e adaptando a velha mensagem (a mesma desde o tempo em que a serpente ofereceu o fruto proibido a Eva) à informalidade das síncopes utilizadas pelos usuários das redes sociais: vc, pq, msg.
...
Empaquei. Ou caí no peguinha preparado por ele. Afinal, quais os 2 erros eu elegeria para serem corrigidos, dentre os tantos grandes erros cometidos em mais de meio século de existência?
...
Por fim rascunhei a resposta:
Prezado Deus,
Espero não magoá-lo por não levar a diante vossa corrente. Por 3 motivos: primeiro, por não ter suficientes amigos íntimos quanto os exigidos para apontar-lhes os erros e assim disseminar e tornar eficaz a vossa campanha publicitária. Segundo por não conseguir decidir quais seriam os dois, dentre os tantos erros pelos quais vós corrigiríeis. Por último, sem ser desrespeitoso, por eu ser daqueles pessimistas negativistas agnósticos que não acreditam em destino e muito menos na possibilidade de sua mudança. E que, apesar do apego ferrenho à vida, apregoa que viver é o nosso maior erro.
PS.: se achar que vale a pena posso vos indicar um excelente e barateiro revisor ortográfico-gramatical-estilístico.
...
Mandei? óbvio que não. E se ele não entendesse o gracejo? se considerasse blasfêmia essa postagem? se se enfurecesse a ponto de bloquear o sinal ou clonar meu celular, por exemplo, enviando à revelia, a mensagem para todos os meus centos de contatos?
Ou atirasse um raio para rachar minha soberba ao meio?
...
(O castigo veio. Não como raio, vírus virtual, bloqueio de sinal. Veio na forma da crise criativa que se estende desde o dia em que rascunhei a resposta à interpelação divina até sabe-se lá quando - crise de tal proporção que me obriga a publicar este texto ruinzinho só para não deixar os preciosos 4 seguidores do blog abandonarem-no, deixando-o morrer à míngua).
"Desculpa por interromper vc a essa hora. Meu nome e Deus. Pq vc nao se importa comigo??? Eu tenho protegido vc desde o dia q vc nasceu. tenho abencoado vc, quero essa msg no mundo inteiro, antes da meia noite, nao ignore, vc esta sendo testado (a), se vc fizer isso , eu irei corrigir 2 grandes erros em sua vida e vou ajudalo em algo que estas em necessidade e seu dia que segue sera muito abencoado, entao envia essa msg para 14 pessoaa em 10 minutos".
Minha primeira providência foi checar o número na lista de contatos. Não constava. Só podia ser engano. Ou será que ele recorrera ao superpoder da onisciência?
Senti um calafrio. Mesmo com toda formação ateia socialista pelo lado paterno, havia resquício daquele temor e culpa ancestral, católico apostólico português, espanhol, mineirinho do resto da família. Nunca um clichê se encaixou tão bem: yo no creo, pero...
A essa altura os neurônios responsáveis pelo materialismo dialético histórico do cérebro tinham entrado em curto-circuito. Empiricamente liguei para o número registrado na mensagem.
Ainda tive coragem de esperar o primeiro sinal de chamada. Desliguei em seguida. Vai que ele atende? Eu gaguejaria: Senhor? Milord? Vossa Excelência? Vossa Santidade? Pai? E o que eu diria depois?
Quem dera eu tivesse a desenvoltura da amiga que bate altos papos com ele, via e-mail.
...
Deixei a taquicardia passar, o temor esfriar, tentei me acostumar com o sobrenatural. Fui cuidar da vida. Editar uns depoimentos para a pesquisa, pensar em soluções para o trabalho encalacrado, estudar a lição de inglês, pagar umas contas pela internet, ligar para o novo amor, tomar uma taça de vinho para relaxar, ver um filme, tomar banho e dormir.
Para só no dia seguinte pensar na mensagem divina.
...
Muito antigamente o formato utilizado por Deus chamava-se corrente. A pessoa recebia uma carta (geralmente anônima) com a mesmíssima estrutura formal do texto em tela. Podia ser da parte de um devoto de santo, de pessoa necessitada (geralmente estrangeira). Prometiam benefícios, materiais ou, menos comuns, espirirtuais. Pediam em troca dinheiro, selos, preces - depósitos em fé ou espécie. Quase todas encerravam-se com a ameaça:
Frau Helga, de Munich, quebrou a corrente e perdeu todo o dinheiro aplicado na poupança. Mariazinha Silva, de Belém do Pará, quebrou a perna. Bob Wilson, do Texas, rasgou a carta e no mesmo dia a esposa o abandonou. Então resgatou a mesma e a reenviou para 55 pessoas e no dia seguinte a esposa voltou trazendo 1 milhão de dólares. Assim por diante.
O destinatário deveria copiar e remeter a referida carta para a quantidade de pessoas nela especificadas e, na calada da noite ou à primeiras luzes do alvorecer, enfiava cada uma das cópias nas caixas de correio ou pelas frestas das portas das casas da vizinhança. Depois era só aguardar a benesse, a vantagem ou o milagre prometido.
Passado o período pré-histórico das cartas manuscritas e depois xerocadas, veio a moda das correntes por e-mail. Teve uma época em que as caixas postais eletrônicas ficavam abarrotadas delas. Modernizadas e potencializadas e disseminadas ao extremo, porém totalmente estagnadas no que se refere ao estilo: as mesmas explicações, ameaças, exemplos, apelos e ordens.
Agora a novidade: corrente via celular.
...
Insone madrugada afora, resolvi analisar a mensagem.
Ao invés daquelas intervenções épicas (oceanos se abrindo, vozes estereofônicas vindas das nuvens, relâmpagos, ventanias ou eclipses) ele optou pela simplicidade da modernidade, utilizando-se de uma ferramenta tecnológica tão banal e eficaz quanto o messenger. Criatividade celestial.
1. Apesar da qualidade questionável, o texto criado pelo publicitário dono da conta Divina atingiu os objetivos: ser extremamente pessoal abrangendo ao mesmo tempo o máximo de ovelhas desgarradas do rebanho. (Se não fosse a possibilidade dos dois gêneros na palavra testado(a), eu juraria que a mensagem era exclusiva).
2. Se a mensagem foi digitada sem a ajuda do publicitário, ele se esqueceu de ativar o corretor automático.
3. Ou então estava com muita pressa para não se demorar nos acentos, nas cedilhas e nas concordâncias. Pressa justificável para quem construiu o universo em 6 dias.
4. Ou então, ainda e mais plausível, não era obrigado a conhecer a fundo o português, uma língua tão complicada e não tão sagrada quanto o hebraico (sua língua original) nem tão universal quanto o inglês.
5. O provável dedo do provável publicitário, atualizando e adaptando a velha mensagem (a mesma desde o tempo em que a serpente ofereceu o fruto proibido a Eva) à informalidade das síncopes utilizadas pelos usuários das redes sociais: vc, pq, msg.
...
Empaquei. Ou caí no peguinha preparado por ele. Afinal, quais os 2 erros eu elegeria para serem corrigidos, dentre os tantos grandes erros cometidos em mais de meio século de existência?
...
Por fim rascunhei a resposta:
Prezado Deus,
Espero não magoá-lo por não levar a diante vossa corrente. Por 3 motivos: primeiro, por não ter suficientes amigos íntimos quanto os exigidos para apontar-lhes os erros e assim disseminar e tornar eficaz a vossa campanha publicitária. Segundo por não conseguir decidir quais seriam os dois, dentre os tantos erros pelos quais vós corrigiríeis. Por último, sem ser desrespeitoso, por eu ser daqueles pessimistas negativistas agnósticos que não acreditam em destino e muito menos na possibilidade de sua mudança. E que, apesar do apego ferrenho à vida, apregoa que viver é o nosso maior erro.
PS.: se achar que vale a pena posso vos indicar um excelente e barateiro revisor ortográfico-gramatical-estilístico.
...
Mandei? óbvio que não. E se ele não entendesse o gracejo? se considerasse blasfêmia essa postagem? se se enfurecesse a ponto de bloquear o sinal ou clonar meu celular, por exemplo, enviando à revelia, a mensagem para todos os meus centos de contatos?
Ou atirasse um raio para rachar minha soberba ao meio?
...
(O castigo veio. Não como raio, vírus virtual, bloqueio de sinal. Veio na forma da crise criativa que se estende desde o dia em que rascunhei a resposta à interpelação divina até sabe-se lá quando - crise de tal proporção que me obriga a publicar este texto ruinzinho só para não deixar os preciosos 4 seguidores do blog abandonarem-no, deixando-o morrer à míngua).
post scriptum para a postagem sobre o praia do futuro
Há
de se ficar atento quando não há unanimidade de opiniões, como está
sendo o Praia do Futuro. É um filme provocador. Não vejo as lacunas, a
falta de ritmo, as cenas maçantes que alguns críticos, leigos ou não, apontam. Nem senti falta de enredos
mirabolantes, emoções avassaladoras, personagens heroicos. É um filme
sobre as nossas vidas medianas, as nossas inseguranças diárias, nossas
indecisões, as nossas paixões sempre turbulentas no começo (como as
ondas da Praia do Futuro, em Fortaleza) mas fadadas ao frio invernal
cinzento em Berlim ou em qualquer cidade que possa representar o desterro existencial ao qual estamos fadados.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
história de verão insular 3
Era a tua última semana e você já se sentia seguro para voltar para o hotel no último ônibus, o da meia-noite. O ônibus estava cheio e você não contava com isso.
Você estava exausto após 10 horas de caminhadas em lugares e vistas exóticas e exuberantes e alguns gins-tônica durante o jantar. Você estava distraído, isolado pela música alta dos fones de ouvido. Você colocou a mochila no chão, entre as pernas, para não atrapalhar as pessoas.
Você sentiu que alguém parou ao seu lado e segurou a barra de apoio e encostou de leve a mão na tua mão. Você afastou a mão alguns milímetros. O ônibus sacolejou na curva e a mão alheia voltou a encostar na tua. A mão era fina e delicada mas indubitavelmente uma mão de homem.
Você voltou um pouco a cabeça na direção mas não conseguiu ver muita coisa. Você tinha tirado as férias para esquecer o passado amoroso recente e ainda não estava preparado, não estava a fim de aventuras aleatórias. Você retirou a mão da barra e segurou a correia individual que pendia da barra presa ao teto. A mão fina e delicada pegou a correia mais próxima e a fez deslizar até encostar de novo na tua mão.
Você se voltou inteiro para olhar de frente o dono da mão. Deparou-se com o rosto mais lindo e angelical e viril ao mesmo tempo de toda a tua estadia. Cílios longos, sobrancelhas negras e espessas, barba por fazer e uma boquita vermelha capaz de te tirar qualquer um do sério, de arrancar pela raiz a tua intenção das férias interiorizadas e celibatárias.
Você relaxou a postura. Deixou a mão junto da mão fina e delicada. Sentiu o dedo mindinho da mão fina e delicada acariciar delicadamente o teu dedo mindinho carente segurando a correia de apoio do ônibus. Sentiu outra mão roçando muito de leve, quase sem encostar, as tuas costas, naquele lugar sensível à altura da lombar.
Fechou os olhos imaginando um futuro de areias cor-de-rosa, ondas verde-esmeralda e nuvens de algodão flutuando no límpido céu azul-bebê. Nos braços, é óbvio, do dono das mãos ousadas.
Você abriu os olhos pouco antes da parada em frente ao hotel. Você se perguntou: Será que foi um sonho?
Não havia mais mão, nem dono da mão, nem ninguém parecido por perto. Também não havia a mochila entre os seus pés nem o passaporte, o cartão de passe e a carteira com muitos dólares e o bilhete do voo de volta, para dali a 2 dias, no bolso de trás da calça.
Você estava exausto após 10 horas de caminhadas em lugares e vistas exóticas e exuberantes e alguns gins-tônica durante o jantar. Você estava distraído, isolado pela música alta dos fones de ouvido. Você colocou a mochila no chão, entre as pernas, para não atrapalhar as pessoas.
Você sentiu que alguém parou ao seu lado e segurou a barra de apoio e encostou de leve a mão na tua mão. Você afastou a mão alguns milímetros. O ônibus sacolejou na curva e a mão alheia voltou a encostar na tua. A mão era fina e delicada mas indubitavelmente uma mão de homem.
Você voltou um pouco a cabeça na direção mas não conseguiu ver muita coisa. Você tinha tirado as férias para esquecer o passado amoroso recente e ainda não estava preparado, não estava a fim de aventuras aleatórias. Você retirou a mão da barra e segurou a correia individual que pendia da barra presa ao teto. A mão fina e delicada pegou a correia mais próxima e a fez deslizar até encostar de novo na tua mão.
Você se voltou inteiro para olhar de frente o dono da mão. Deparou-se com o rosto mais lindo e angelical e viril ao mesmo tempo de toda a tua estadia. Cílios longos, sobrancelhas negras e espessas, barba por fazer e uma boquita vermelha capaz de te tirar qualquer um do sério, de arrancar pela raiz a tua intenção das férias interiorizadas e celibatárias.
Você relaxou a postura. Deixou a mão junto da mão fina e delicada. Sentiu o dedo mindinho da mão fina e delicada acariciar delicadamente o teu dedo mindinho carente segurando a correia de apoio do ônibus. Sentiu outra mão roçando muito de leve, quase sem encostar, as tuas costas, naquele lugar sensível à altura da lombar.
Fechou os olhos imaginando um futuro de areias cor-de-rosa, ondas verde-esmeralda e nuvens de algodão flutuando no límpido céu azul-bebê. Nos braços, é óbvio, do dono das mãos ousadas.
Você abriu os olhos pouco antes da parada em frente ao hotel. Você se perguntou: Será que foi um sonho?
Não havia mais mão, nem dono da mão, nem ninguém parecido por perto. Também não havia a mochila entre os seus pés nem o passaporte, o cartão de passe e a carteira com muitos dólares e o bilhete do voo de volta, para dali a 2 dias, no bolso de trás da calça.
história de verão insular 2
Ventava um pouco mas o sol da manhã te aquecia a pele. Você deixou
partir o barco anterior só para ser o primeiro da fila do próximo e
escolher a melhor cadeira do convés, no andar superior, para
fotografar o mar azul turquesa durante a travessia do canal.
Você preparou a máquina fotográfica mas se distraiu admirando a paisagem: um bloco de rocha corroída da altura de um edifício de muitos andares emergindo do mar, gaivotas sobrevoando, ao fundo o cone do vulcão extinto e alguma neblina.
O rapaz vestido com jeans justos e casaco de couro e óculos rayban que você tinha notado no cais subiu a escada. Posicionou-se de pé, em frente às cadeiras ocupadas pelos passageiros, te obstruindo a visão.
O rapaz passava displicentemente a mão na região do baixo ventre. Como se o gesto fosse involuntário. Quem sabe um tique nervoso? Você desviou o olhar. Ligou e desligou a máquina fotográfica esquecida no colo. Pensou mas logo desistiu de se levantar e se encostar na amurada para sair do ângulo de visão do rapaz. Por fim guardou a máquina na mochila.
Você não conseguiu evitar olhar de rabo-de-olho. Constatou que o rapaz estava excitado. Você imaginou que ele tentava manter contato visual com você. Por detrás das lentes verde-escuras dos óculos. Você se constrangeu. Corou como uma virgenzinha.
Apesar de sexo casual não ser o seu propósito marinho matinal você tirou conclusões apressadas. A partir de incertezas. Encarou. Autojustificou-se: "vamos ver onde vai dar".
Sorriu maroto e discreto.
Coincidentemente a luz da cena mudou: uma nuvem encobriu o sol por alguns instantes. Justo o tempo de o rapaz franzir o cenho. Fazer cara de surpresa, aversão e desprezo, nessa sequência. Avançar na tua direção, você imaginou - que ele te fosse cuspir.
Mas ele sorriu e te estendeu o celular e te pediu para tirar uma foto dele, com o rochedo, o mar azul turquesa, as gaivotas e o cume do vulcão oculto pelas nuvens, ao fundo.
Você preparou a máquina fotográfica mas se distraiu admirando a paisagem: um bloco de rocha corroída da altura de um edifício de muitos andares emergindo do mar, gaivotas sobrevoando, ao fundo o cone do vulcão extinto e alguma neblina.
O rapaz vestido com jeans justos e casaco de couro e óculos rayban que você tinha notado no cais subiu a escada. Posicionou-se de pé, em frente às cadeiras ocupadas pelos passageiros, te obstruindo a visão.
O rapaz passava displicentemente a mão na região do baixo ventre. Como se o gesto fosse involuntário. Quem sabe um tique nervoso? Você desviou o olhar. Ligou e desligou a máquina fotográfica esquecida no colo. Pensou mas logo desistiu de se levantar e se encostar na amurada para sair do ângulo de visão do rapaz. Por fim guardou a máquina na mochila.
Você não conseguiu evitar olhar de rabo-de-olho. Constatou que o rapaz estava excitado. Você imaginou que ele tentava manter contato visual com você. Por detrás das lentes verde-escuras dos óculos. Você se constrangeu. Corou como uma virgenzinha.
Apesar de sexo casual não ser o seu propósito marinho matinal você tirou conclusões apressadas. A partir de incertezas. Encarou. Autojustificou-se: "vamos ver onde vai dar".
Sorriu maroto e discreto.
Coincidentemente a luz da cena mudou: uma nuvem encobriu o sol por alguns instantes. Justo o tempo de o rapaz franzir o cenho. Fazer cara de surpresa, aversão e desprezo, nessa sequência. Avançar na tua direção, você imaginou - que ele te fosse cuspir.
Mas ele sorriu e te estendeu o celular e te pediu para tirar uma foto dele, com o rochedo, o mar azul turquesa, as gaivotas e o cume do vulcão oculto pelas nuvens, ao fundo.
história de verão insular 1
Eram 10 horas e você estava sentado sozinho com cara de sono na mesa mais ao fundo da padaria lotada de gente. Levando a xícara à boca com cuidado para não deixar pingar o café-com-leite que a garçonete deixou derramar no pires. E planejar o passeio do dia, o primeiro dia de férias.
A mesa em frente estava ocupada por uma família de também turistas: pai, mãe, 2 filhos. A mãe estava de costas, os filhos um de cada lado da mesa e o pai diante de você, em ângulo impossível de se evitar olhares cruzados.
Você tentava, mas não conseguia parar olhar. Você tentava, mas não conseguia deixar de ouvir: a mãe queria passear de barco. O pai preferia ficar na praia. O casal de filhos jogava em aparelhos de minigame, indiferentes. O pai não disfarçava a irritação diante da proposta da mãe. Que falava incessantemente, como se não necessitasse de interlocutor.
Você tentava não inventar enredos. Tentava não pensar em quanto tempo durariam e como seriam tediosas as férias daquela família.
Ops!, você notou o olhar fixo do pai em você. Bem dentro dos teus olhos. Você se desconcertou. Desviou o olhar pelas outras mesas, pelo balcão de vidro, pela garçonete, pela recorte da rua emoldurado pela porta. Você cogitou: o olhar do pai estaria pedindo cumplicidade? Você olhou de novo para ter certeza. Franziu suave a testa, e quase sorriu, simpático, como se dissesse: "o que eu posso fazer?"
Você demorou a perceber: o pai passava carinhosamente o dedo na borda interna da xícara e a ponta da língua nos cantos da boca enquanto te devorava com o olhar.
A mesa em frente estava ocupada por uma família de também turistas: pai, mãe, 2 filhos. A mãe estava de costas, os filhos um de cada lado da mesa e o pai diante de você, em ângulo impossível de se evitar olhares cruzados.
Você tentava, mas não conseguia parar olhar. Você tentava, mas não conseguia deixar de ouvir: a mãe queria passear de barco. O pai preferia ficar na praia. O casal de filhos jogava em aparelhos de minigame, indiferentes. O pai não disfarçava a irritação diante da proposta da mãe. Que falava incessantemente, como se não necessitasse de interlocutor.
Você tentava não inventar enredos. Tentava não pensar em quanto tempo durariam e como seriam tediosas as férias daquela família.
Ops!, você notou o olhar fixo do pai em você. Bem dentro dos teus olhos. Você se desconcertou. Desviou o olhar pelas outras mesas, pelo balcão de vidro, pela garçonete, pela recorte da rua emoldurado pela porta. Você cogitou: o olhar do pai estaria pedindo cumplicidade? Você olhou de novo para ter certeza. Franziu suave a testa, e quase sorriu, simpático, como se dissesse: "o que eu posso fazer?"
Você demorou a perceber: o pai passava carinhosamente o dedo na borda interna da xícara e a ponta da língua nos cantos da boca enquanto te devorava com o olhar.
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