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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

reescrevendo o passado (ode assimétrica)

Passei toda a tarde trabalhando um texto que me acompanha há mais de 30 anos, nunca concluído. Ou melhor, concluido, sim. Em etapas, períodos de vida específicos. Superado e vivido o período, o texto, como se fosse vivo, passava a exigir ajustes, reformulações de pensamento que se adequassem ao novo período iniciado. Perdi a conta das versões e revisões definitivas. Por sorte ou azar eu perdi as versões intermediárias, entre a original e a atual.

Trata-se de um poema. Longo. Escrito entre o final dos anos 70 e o comecinho dos anos 80. Até ganhou um concurso de poesia. Foi publicado no jornal do Departamento de Letras da universidade. Ficou guardado durante anos. Ressurgiu algumas vezes, inteiro ou aos pedaços, em concursos perdidos ou antologias que ninguém leu. Voltou para a gaveta. Finalmente foi publicado (e modificado) logo nas primeiras postagens deste blog.

Era o final da adolescência tardia. Eu vivia em uma espécie de limbo mental e emocional, esquizofrenia branda e inofensiva. Estava na universidade. Integrava um grupo de teatro. Era virgem. Tímido. Estava apaixonado. Pela primeira vez. Paixão platônica. Daquelas de se jogar da torre, cortar os pulsos ou beber formicida com refrigerante.

Convidei a pessoa amada (tecnicamente o melhor amigo) para visitarmos outro amigo, poeta, que se mudara para o Maranhão. A viagem foi intensa. Dias e noites insones, enlouquecidos, vivendo, sentindo, experenciando. Eu escrevia cadernos e cadernos, desenhava blocos e blocos de papel canson A3. Um dia tomei coragem: enchi a cara de cachaça misturada com guaraná Jesus, e me declarei. O cara era hetero, enrustido, babaca, fazia charme, me esnobava, ou, sei lá, simplesmente não estava a fim. Não rolou.

Como diz o lugar-comum, só o tempo para cicatrizar as feridas. Depois de uns 3 anos (!) a paixão padeceu, foi crucificada, morta e sepultada. Os cadernos-testemunhos foram queimados em um surto posterior. Os desenhos sobreviveram e hoje estão protegidos em pastas, no quartinho de depósito.

Sobreviveu também o poema. Uma ode. Inspirada no Poema Sujo (Ferreira Gullar), que na época eu sabia quase todo decorado.

No blog, a ode mudou várias vezes. As construções iam tornando-se mais elaboradas. O vocabulário mais caprichado. As imagens da paixão e do tesão adolescente permaneciam, pulsantes ainda, porém mais depuradas, pretensiosamente requintadas, sofisticadas. Era ainda bruto, porém reescrito sob o crivo da maturidade e da consciência dos fatos e dos motivos. O que se distiguia era outra paixão, mais ampla e intensa, pela vida vivida na cidade de São Luís.

Estava escuro (às 20h30 no horário de verão) quando eu desempaquei a última parte. Manca, disforme, incompatível, assimétrica, aquém das versões anteriores. Me perdi no final. Perdi o sentido daquilo. Conclusão? Fechamento? nenhuns. Afinal, São Luís está irreconhecível hoje. A praia deserta do Calhau virou bairro nobre. O casario azulejado desmoronando. A pobreza expandiu-se, cercou a cidade. O objeto da paixão virou executivo de uma empresa de mineração na África do Sul. Só o amigo poeta continua poeta.

Gastei tanto tempo e energia ao reviver e recuperar aquilo tudo. Eu estava exausto. E faminto. Desliguei o computador. Juntei todos os restos de comida da geladeira: arroz com açafrão, feijão, salada de batata com cenoura, mini-beterrabas pré-cozidas, um tomate, tirada a parte podre e carne moída. Juntei 2 ovos, molho barbecue, farinha, azeite e pimenta. Levei ao fogo mexendo sempre. E me empanturrei. Até quase explodir. Até não caber mais o poema.

(clique aqui para ler a Ode Assimétrica)

domingo, 4 de dezembro de 2011

escritos arqueológicos última parte

Enclausurado em um 3 metros cúbicos de matéria. Mármore, madeira, cimento, metal, porcelana, papel, água, ar. Carne e osso circundados de matéria. Dentro e fora. Presos por fios de aço ao espaço, ao mundo, ao real. 3 metros cúbicos de existência dentro do nada.
...
Luz branca. Zumbido em si-bemol. Ininterruptamente.
...
Fora, o fogo das entranhas, dos vulcões, do inferno. Ou vácuo, o neutro, o nada do purgatório. O paraíso é dentro.
...
O arco das asas brancas do voo. Da subida e da queda. Sonho.
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A deusa-deus negra da morte e da vida vagueia. Sonâmbulo-sonâmbula. Nunca-agora. O nome, o eco. Por vales, abismos e montanhas. Tremor. Trovão. Treva.
...
Depois, a volta ao começo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

escritos arqueológicos parte 9

Aquele que não tem pele. Aquele em carne viva. Aquele das madrugadas insones. Das bolhas de sangue, das secreções que supuram o quarto. Aquele que escorre, gota a gota, pelas escadas do prédio. Até rua. Aquele que inunda de si a cidade inteira.
...
O menino nu. Espirais crescentes de trechos melódicos. Fantasmas atrás dos vidros. Atrás das lentes das máquinas fotográficas. Carros em alta velocidade riscando a escuridão de vermelho e mercúrio. Livros nas prateleiras. O menino mudo. Ossos, manuscritos e restos de comida no porão. Baratas nos cantos do quarto. O menino morto.
...
Minha vida de transeunte. Engulo o vulcão de mim. Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Desespero.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

escritos arqueológicos parte 8

Tudo está envolto em hipersensibilidade. Meus olhos cegos, meus ouvidos obstruídos. Ajoelho-me aos pés de um deus anônimo, pagão e invisível que sou eu mesmo do lado de dentro.
 ...
A raiz brotou. A ramagem espalhou-se, viçosa, e floresceu. Os frutos de vidro vermelho trincavam nos caules antes de se espatifar no chão, espalhando centelhas de eletricidade.
 ...
Insetos gigantes pululam. Amebas e protozoários nos pântanos. No céu o sobrevôo dos pterodáctilos. Ictiossauros e plesiosauros nas profundezas. Cordilheira de vulcões eruptos no horizonte. Sou o primeiro homem antes do amanhecer no jardim do éden.
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O que você procura está nas entrelinhas. Você me instiga a te provocar. Não te ensinarei o rumo sinuoso das palavras. Vagueia desgovernado direto para o abismo, manada, multidão, rebanho-um.
 ...
A próxima palavra-armadilha cobre o fosso com estacas fincadas no fundo.
 ...
Você me cria e eu te destruo. Você a luz, eu o negro. Quando eu te mato, você me renasce. Prisioneiros do ciclo perpétuo. O sol nasce.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 7

Eu te amo pelo que você é e não sabe.
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O impulso para o outro é impreciso. Eu me lanço às cegas, aos solavancos, tateio no escuro, sigo, volto, hesito, vou, paro. Seguro as chaves do proibido e não sei onde usá-las. 
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Predestinado a quê? A possuir a inutilidade? A nulidade? A sequência entre o tempo presente e o tempo futuro? Será necessário descer do pedestal e me atirar, águia, pomba, anjo, harpia, abutre - asas de cera derretendo-se com o calor do sol.
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Porém o agora é difuso e nebuloso. O caos de dentro refletido fora. Erupção, nuvem de cinza e enxofre, lava, fezes, vômito. Quando renascerão as fênix?
...
Serei terrível. A mão direita a trucidar e a esquerda a redimir. 
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O cavalo corre no campo de girassóis. Os demônios, os deuses do sonho. Gerar-se e se enterrar a cada novo segundo. O medo habita a dúvida.
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Ansioso por não conseguir dar nomes às novas sensações: o escrito aquém da verdade. Aprenderei humildade, paciência e resignação?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 6

enquanto os homens desbravavam a terra eu fiquei junto com as mulheres o menino dormindo no meu colo cuidávamos do fogo gritávamos com as crianças na água fervíamos o óleo falávamos sobre aleitamento sangramento fertilidade até os homens voltarem heróis de barba e cabelos enlameados guerreiros distribuindo a caça a pesca caçadores bebendo todo o vinho conquistadores triunfantes rindo inventando as lendas apoderando-se dos mitos fecundando as fêmeas e o leite e o mênstruo e os óvulos e a lua os meus despojos as minhas oferendas eu eunuco nulo entre eles entre elas eu nenhuma barriga parideira nenhum sêmen nenhum peito que amamente nenhum escalpo no cinto o zero o inútil o único a intersecção tão longe e tão preciso e tão essencial quanto o resto daquilo tudo

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 5

O músculo mais delicado estensão ao máximo. Você, o arco. Meu corpo pede música. Toca!

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Escrevo curto e nervoso. Fui esticado até quase arrebentar. Padeço de reconstituição. Os gatos brincam na grama atrás do play-ground. Sou infinitamente só. Sombra solene a olhar, da janela, a tua criação.

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Escuto a tua voz e não entendo. Nem agora. Também não. Agora mais próximo. Mais. Eu quase ouço. Pronto. Agora eu escuto até teu coração pulsando. Você disse: eu nada sei. Eu ri. Eu era mais feliz com as tuas mentiras.

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Há milhões de anos-luz. Antes eu não sei. Quando a bola de energia, a bola de Nada explodiu e se dividiu e dividiu e dividiu e se transformou em neutron, próton, elétron. Por um instante estávamos só você e eu.

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Pega a estrela e vai. Cristal envolto em névoa. Amanhece na metade ocidental do planeta.

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Estou cansado. Confuso. Perdido. Falando a uma pessoa ausente. Ainda o cheiro carbônico da tua despedida nas pontas dos dedos. Você viaja, mudo, só, escuro, no silêncio do espaço exterior. Para além de Saturno e seus anéis gasosos.

domingo, 27 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 4


Eu, você. Imagem, reflexo, ímãs. Você fruto vermelho-alaranjado. Eu, monstro-boca, monstro-garganta, monstro-dentes-devoradores. Beijo, mordida, casca rompida, polpa, monstro-língua em tua carne doce, gozo.
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O cansaço do começo. De não saber dizer o que se passa.  Traduzir. Pausa de tempo. De espaço. Eu parado, atento, olhando. Você parado, alheio, fazendo.  Eu, rio invisível a te ver. Você, lago envolto em azul.
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Caquis sob a chuva. Mangas apodrecidas no chão. Mosquitos. Besouros. Mariposas. Vermes.
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Ecos das horas vazias. Os caquis no quase-explode.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 3

Eu te forçarei a me ver. Para isto eu me faço fosforescente. Olha. Meu corpo é todo holofotes. Eu te direi em letras de gás néon que se acendem e apagam: hoje eu te direi apenas o essencial. Agora desligarei os luminosos. Você me verá pelo que sou; não pela luz irradiada.

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Sejamos simplesmente intuição na razão.

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A partir de agora o tom do das palavras será azul. Palavras-chaves. Palavras-claves.

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A mulher toca violoncelo. No deserto. O azul é o som do instrumento a se perder nas dunas. Música azul.

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Aracne: Tecerei. Uma teia de fios de cristal azulados. Para envolver o mundo. Para me envolver ao mundo. Para me humanizar. Para te aprisionar quando voares perto.

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Eu, prisioneiro de mim mesmo. Quando a gente se repete se repete se repete, resta fazer.

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Agora a precisão de instrumentos é indispensável. O mínimo desvio da lâmina pode ser irreversível. Quase. Tento abrir meu centro vital. Uma centelha elétrica descarrega-se. O centro vital origina a centelha que me faz todo sentidos. Me mantém vivo. Como corpo. Ente. Ser. Morrerei por um instante. E o som de violoncelo ocupará o espaço.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 2

Você é eu e eu sou você nesse nosso jogo de espelhos. Eu me enraizo e você floresce no galho mais alto da árvore do desenho amassado. Eu broto vegetação rasteira. Você, fruto maduro prestes a arrebentar. Somos o princípio das coisas. Desde o princípio. Também o término.

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Toca-me o corpo com teu corpo inteiro, pois meu tato é morto. Com gritos, pois meus sons são surdos. Com luz e fogo, pois costurei meus olhos. Com teu cheiro de flor e súlfur. Com tua língua que me abre e te deposita inteiro em mim.

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Tudo em volta brilha e me obscurece. Sou a imagem oposta ao que vem de fora no espelho. Eu me abro. Antes que a força do acaso - regente de todas as outras - me aniquile. Antes que o tempo me engula.

...

Concordo: é preciso esgotar nosso diálogo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

escritos arqueológicos

Jogamos o jogo de encher e esvaziar formas. Eu lanço palavras vazias e você as preenche com argamassa. Eu recolho as palavras preenchidas. Modelo as palavras preenchidas em novas formas vazias. Você as preenche. Etcétera.

Minha vez: da janela duas mulheres sorriem e um vidro transparente nos separa.
Tua vez: uma delas sofre por envelhecer e a outra tem o riso oco de mãe satisfeita.
Minha vez: o vidro permite a imagem delas atravessá-lo mas também me reflete.
Tua vez: porque elas estão mais em ti do que tu nelas.

Eu: como o homem e a mulher do violoncelo no deserto.
Você: e você deserto, homem, mulher, música, vento.
Eu: a mulher atrás do dia.
Você: desde o princípio dos tempos.

...

A dissonância arranha teu ouvido. O mais agudo do violoncelo. Hipnotiza. E o som mais grave do órgão ecoa na nave da catedral. Eu me entrego.

...

A antepenúltima coisa a dizer é batiscafo. A palavra chega com vento de deserto. Mergulhar.

...

A penúltima coisa é: isto é uma sinfonia; escuta:

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Continuação da Peça (do Livro dos Cacos)

Galerias repletas no teatro. Monóculos a postos, os rapazes, doidos de ópio e absinto, fumam cigarrilhas nos camarotes e flertam-se entre si e com as moçoilas do entreato. A Menina Loura sobe ao palco e dança o primeiro número. Stockhausen. Satie. Ou Chopin. Desce pela escada lateral e senta no colo do Pai, na primeira fileira da plateia. O Pai abraça a menina. Sufoca-a contra si. A Mãe da Menina, vestida de vermelho e dourado, loura como a filha, olhos sombreados de azul, contornados por cílios postiços longuíssimos, aguarda na coxia. Entra em cena segurando um punhal apontado para a plateia. Finca o punhal no peito. Grita. E morre. Fecham as cortinas. Somente o tempo de retirarem o corpo e mudarem os cenários para o número dos espelhos. Que rangem por trás do ciclorama. Presos a cordas de aço, descem pelas traquitanas uma Virgem de Guadalupe de isopor, em tamanho natural e trinta e dois atores-anjos, nus, duplicados pelos espelhos. A Virgem de Guadalupe ao mesmo tempo esconjura os demônios na plateia e acena na direção do camarote da Matriarca Grávida. O Pai, sentado na primeira fila da plateia, com a Menina Loura ao colo, tem um ataque epiléptico. Do canto da boca do Pai escorre uma baba branca que a Menina Loura enxuga com lencinhos Kleenex. A Menina Loura sobe novamente ao palco e ajoelha-se aos pés da Virgem de Guadalupe. Os 32 atores-anjos em carne e osso e os 32 reflexos dos atores-anjos nos espelhos despem-se em movimentos lentos. Totalmente nus, os 64 atores-anjos voltam-se, simultaneamente, para a Menina Loura. O movimento brusco e a ereção visível dos 64 atores-anjos provoca suspiros e rebuliço entre as moçoilas e na maioria dos rapazes da plateia. As senhoras casadas remexem-se nas cadeiras de palhinha. Os respectivos maridos levantam-se indignados e puxam suas esposas na direção da saída. Uma moçoila ensandecida, vestida apenas com o espartilho, sobe ao palco. Atira-se aos braços do primeiro ator-anjo da fila. Outras moçoilas e a maioria dos rapazes apagam as cigarrilhas e seguem o exemplo da desvairada. Instala-se o caos orgíaco. A Virgem de Guadalupe é içada da cena. A Menina Loura ajoelhada diante da Virgem de Guadalupe levanta-se. Pisa com cuidado sobre os corpos engendrados dos 32 atores-anjos de carne e da quantidade indefinível de moçoilas e rapazes da plateia na orgia. A Menina Loura volta para o lugar do Pai, na primeira fileira da plateia. O pano cai . Fim do primeiro ato e o intervalo. A plateia se levanta para se refrescar no saguão e/ou tomar café expresso com água gasosa na bombonière. Menos o Pai. O Pai dorme e ronca com o libreto sobre a barriga. A cigarra toca a primeira, a segunda e a terceira vez. A plateia acomoda-se para assistir ao segundo ato. Que começa com som estereofônico de guitarra elétrica que estoura as caixas de som e os ouvidos dos casais respeitáveis que não  saíram antes do fim do primeiro ato. Apagam-se as luzes do lustre de cristal. Depois do barulho da guitarra elétrica faz-se silêncio. Tão grande que ouve-se o bater das asas das mariposas no vidro das lâmpadas do lustre de cristal. Um grito vindo do camarote da Matriarca Grávida quebra o silêncio. O grito dura o tempo do abrir das cortinas. A bolsa do líquido amniótico da Matriarca Grávida rompe-se. A Matriarca Grávida entra em trabalho de parto. O Médico de Plantão acorre ao camarote e salva o Prematuro. O Prematuro nasce todo roxo. O Prematuro é tirado das entranhas da Matriarca Grávida a fórceps. Depois de muitos tapas na bundinha o Prematuro chora. O Pai acorda assustado com o choro do Prematuro. “Pena que não existam leões”, a Menina Loura murmura. O Pai não compreende o sentido da fala da Menina Loura. "Leões para devorar o Prematuro", a menina explica. O papel do Prematuro é interpretado por um ator-anão de grandes dotes. artísticos. O Prematuro pede a bênção da Matriarca Grávida que já não estava mais grávida. O Prematuro desce do camarote. O prematuro caminha na direção da Menina Loura pela mão. Puxa a Menina Loura pelas escadas de veludo do saguão do teatro até o último andar. Que era uma espécie de torre com terraço. O Pai tenta resgatar a Menina Loura das mãos do Prematuro. O Pai tropeça e parte a perna antes de alcançar o Prematuro e a Menina Loura. O Prematuro segura a Menina Loura com uma chave de braço. O Prematuro ameaça empurrar a Menina Loura do parapeito do terraço no alto da torre. A altura aproximada do parapeito do terraço ao chão é de pelo menos 50 metros. A Menina Loura vê a cidade descortinada e os automóveis estacionados, como uma maquete. O Prematuro empurra a Menina Loura. O Pai aproxima-se mancando. Mas é tarde demais. É só o tempo do Pai ver o vôo no vazio da Menina Loura. E ouvir o som oco do corpo da Menina Loura espatifar-se. Depois de 50 metros de queda livre. O Pai trucida o Prematuro e joga o corpo do parapeito. O corpo do Prematuro cai por sobre o corpo da Menina Loura. Enquanto isso, no palco, anjos, moçoilas e a maioria dos rapazes gozam orgasmos múltiplos. Os contrarregras trazem de novo a Virgem de Guadalupe para o centro do palco. É o sinal para o fim próximo do segundo ato. As moçoilas e a maioria dos rapazes limpam-se com lencinhos Kleenex. O gozo dos atores-anjos, da maioria dos rapazes e das moçoilas afoitas escorre pelo linóleo. O pano cai definitivamente. O público remanescente aplaude sem entusiasmo. As moçoilas afoitas e a maioria dos rapazes passam pela fenda entre as cortinas e descem do palco. As cortinas abrem-se novamente para os agradecimentos dos atores-anjos. Tomado de pânico súbito, a plateia remanescente atropela-se e se debate-se à porta da saída. Um velho morre pisoteado. Outro, alheio ao movimento, toma glóbulos homeopáticos apertando a bula ao monóculo. Fora do teatro chove chuva tropical. A chuva tropical lava o sangue da Menina Loura e do Prematuro estendidos na calçada. O rosto da Menina Loura está lívido, porém sereno. Como o rosto de uma santa-mártir. O rosto do Prematuro continua roxo. O público remanescente abre os guarda-chuvas. Pisa os corpos da Menina Loura e do Prematuro atravessados entre a saída do teatro e os tílburis e demais veículos estacionados. Fim de ato.

Errata

O link do post de 28.05 - (Do Livro dos Cacos - ode assimétrica) - direcionava para somente uma parte do texto. Só hoje consegui corrigir. Agora, finalmente, o leitor pode clicar aqui para acessar a versão completa do poema.

sábado, 28 de maio de 2011

(do Livro dos Cacos)


(para ler o texto integral clique aqui)

ode assimétrica
(impressões de tarde clara em são luís)

“cavamos a palavra. sob o seu lustro, a cal; e cavamos a cal”

(ferreira gullar)

a ilha navega
acima do que os olhos podem ver

acima do vômito dos mendigos bêbados nas soleiras
entre as folhas das bíblias debaixo do braço dos evangélicos
no meio do lixo & dos camelôs interrompendo o fluxo dos pedestres no calçamento
no sono dos garis debaixo das jaqueiras
misturada ao cheiro de comida vindo das venezianas dos casarões depredados
invadidos pela horda de flagelados
impregnada no suor dos marinheiros fodendo travestis menores de idade nos vãos escuros
nas sacolas de compras dos turistas dinamarqueses holandeses franceses japoneses alemães americanos
admirando & fotografando & filmando tudo
nas roupas dependuradas nas janelas
cobrindo de cores berrantes os azulejos descascados
no mato dos quintais
nos muros pichados

a ilha navega
às duas horas e meia da tarde
em meias palavras
o poema serve para descrever

as mulatinhas magras saídas da escola que nos olham e riem
o amarelo amargo dos vitrais da catedral lavando em fel os santos os fiéis fantasmagóricos
a passagem das horas no quarto do hotel com frigobar e ar condicionado
a rua grande
esteira estreita onde se anda e anda e anda sem chegar a lugar algum
os canhões apontados para a baía sem defender nada
os peixes mortos entre os barcos do cais da praia grande
o catamarã para alcântara
as moscas pousadas no verdume da carne ao sol
os olhos esgazeados o grunhido do porco preto no mercado
o riso os peitos os olhos a bunda grande da preta do beiju de tapioca
as bilhas de água morna
os amores mornos
o calor cozinhando a tarde em banho-maria
o cavalo fugido desenhando frases vermelhas no asfalto

a ilha navega
enquanto aguardamos
as horas
no mormaço da tarde

sobrescrevendo postais
sobre o mangue
a temporada teatral
as falcatruas dos políticos
sobre a mudança da lua
a tabela das marés
o calor da paisagem
sobre as preocupações das mães distantes
o romantismo & o contemporâneo
os olhos azuis-verdes de holanda
sobre as omoplatas as coxas as nádegas do garoto de programa

papagaios grasnam nos beirais
oculto em um casarão antigo
hoje biblioteca
um busto de schiller espreita


(para ler o texto integral clique aqui)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ezequiel

como o xamã da tribo pré-histórica retornando da caça antes da neve ele expressou pela primeira vez o nosso assombro pelo mundo que surgia, os nossos terrores ainda não experimentados, as nossas visões, ele invocou forças protetoras antes de nos dispersarmos nas direções dos 4 pontos cardeais, para originar as nações, os povos da Noite e das grutas de Caracala, os plantadores de cânhamo do mar Morto, os navegadores ruivos dos oceanos de gelo, os devoradores de carne humana da floresta amazônica, nas terras férteis da Mesopotâmia, da Namíbia ao rio Congo, às margens do rio Nilo e do rio Ganges, nas estepes, dos Grandes Lagos à Terra Nova, ventres prenhes, a terra a ser cultivada, cidades a serem construídas, represas, túneis, pontes sobre corredeiras, redes de comunicação submarinas, aparelhos de guerra e destruição, transatlânticos, bolsas de valores, poemas, espelhos, projeções, reflexos, miragens, e nós, na verdade há milênios-luz daquilo, por meio dele nós tocamos o desconhecido, a sensação era incômoda, flor de pedra arrancada, farpa, espinho dos séculos sob a pele, cristal crescendo na víscera, a dor nos mantinha despertos, atentos, nós ouvíamos as histórias, as aventuras interiores dele, o brilho do fogo das palavras dele, nós tentávamos compreender o princípio, o âmago, o primordial de onde ele veio, nós nem intuíamos, os insetos translúcidos, a mariposa emaranhada nos cabelos despenteados dele, estrelas, às vezes havia lua, as palavras dele sedimentavam-se, depositavam-se sobre a areia, debaixo das ondas, turvas, no mais profundo de nós mesmos, e