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quinta-feira, 19 de junho de 2014

leitura imperdível da semana

Brasília 5.2 cinema e memória
de Berê Bahia
Edição do autor
2012

Uma reflexão sobre a história de Brasília através dos filmes que registram a saga da construção, da mudança da capital e seus desdobramentos políticos, culminando com o golpe militar de 1964, os anos de chumbo da ditadura, a abertura, a anistia, as eleições diretas para presidente, a volta da redemocratização e finalmente o cotidiano da cidade revelado pelas lentes dos brasileiros e brasilienses.
(do texto de apresentação, pela autora).

Leitura muito agradável. Desde os primeiros documentários feitos para cine-jornais da época da construção da cidade até os grandes clássicos do cinema brasileiro que passaram pelo Festival de Cinema de Brasília.

Paralelamente à exaustiva ficha técnica e sinopse dos filmes, Berê Bahia fala sobre a biografia dos diretores, atores e outros profissionais realizadores, narrando situações anedóticas de detalhes curiosos.  Isso tudo situado e contextualizado aos fatos mais importantes da história brasileira no período.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

post scriptum para a postagem sobre o praia do futuro

Há de se ficar atento quando não há unanimidade de opiniões, como está sendo o Praia do Futuro. É um filme provocador. Não vejo as lacunas, a falta de ritmo, as cenas maçantes que alguns críticos, leigos ou não, apontam. Nem senti falta de enredos mirabolantes, emoções avassaladoras, personagens heroicos. É um filme sobre as nossas vidas medianas, as nossas inseguranças diárias, nossas indecisões, as nossas paixões sempre turbulentas no começo (como as ondas da Praia do Futuro, em Fortaleza) mas fadadas ao frio invernal cinzento em Berlim ou em qualquer cidade que possa representar o desterro existencial ao qual estamos fadados.

terça-feira, 20 de maio de 2014

praia do futuro, o filme


Vi, no sábado, Praia do Futuro, filme recente de Karim Aïnouz, com Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa. 

Junto com o público mal-educado característico de shopping no sábado à noite: barulho de papel amassado dos sacos de pipoca, muita conversa em voz alta, celulares tocando ou piscando ao lado e aquelas ridículas e insuportáveis expressões de surpresa das mocinhas quando apareceu algo tão chocante como bunda de homem ou pior, ostensivamente reprovadoras quando rolou a primeira cena de sexo entre os protagonistas.

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Não entendo essa surpresa das moçoilas. Nem o motivo pelo qual elas têm que a expressar - e expressar seu repúdio de maneira tão veemente. Será que não sabiam a sinopse? Não viram o trailer? Não leram nas redes sociais? Ou será elas imaginarem - nas profundezas de seus inconscientes - se é possuem - e não quererem admitir - os seus próprios namorados nos braços ou sob o charmoso alemão motoqueiro?

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Dizem que o grande público frustra-se ao não rever as proezas metrossexuais do super-herói Capitão Nascimento, personagem que Wagner Moura  imortalizou em Tropa de Elite I e II. E se enfurece ao constatar que o estereótipo do soldado machão brasileiro esvazia-se e se contradiz na crise de identidade do quase atormentado e frágil bombeiro salva-vidas gay ao se defrontar (e lutar por)  uma paixão por outro homem.

Será? 

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As conversas em voz alta e um ou outro "psiu" na plateia prosseguem. Para felicidade daqueles gatos pingados que queriam assistir ao filme, os jovens casais hetero chocados vão saindo da sala ao rolar o beijo (depois da primeira transa) entre os protagonistas. Na 2a. cena de sexo (cru e quase explícito), lá pelo meio do filme, finalmente a sala está quase vazia e  silenciosa.

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É um lindo filme. Poético, contundente, essencial. Áspero, intenso, visceral, como disse o jornalista de O Globo. A fotografia é primorosa. A música, perfeita. Os atores de primeira. Ao contrário da maioria dos filmes nacionais, a direção de ator foi bem feita. Roteiro, cortes, ritmo - tudo é impecável. 

Longos silêncios, diálogos essenciais, trilha sonora, texto e subtexto perfeitamente encadeados entre palavra, som e imagem. 

Daqueles filmes que você sai com a impressão de ter vivido toda uma existência paralela durante as 2 horas da projeção. 

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Apesar do diretor propositadamente utilizar-se de vários clichês românticos gays (um melodrama de macho, como afirma o título da matéria na Folha de São Paulo), Praia do Futuro está muito além dessa generalização. Desenrola-se no filme uma grandiosa e ao mesmo tempo ridícula história de amor humano. 

A sensação foi a mesma de quando vi pela primeira vez Brokeback Mountain. Com vontade de que não terminasse. Com vontade de ver de novo. Com vontade de que todo mundo visse e se emocionasse e mergulhasse e saísse do cinema transtornado e transformado. Arrebatado.

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Pena as moças e moços mencionados no segundo parágrafo não terem ficado até o fim do filme. Pena não terem se esforçado para entender que o nojo e o horror que faziam tanta questão de expressar era estupidez, ignorância, estreiteza de espírito. Era puro medo de encararem-se a si mesmos no espelho onde perderam a oportunidade vivenciar uma experiência estética para além das conversas bobas, das mensagens vazias do celular, do saco de pipoca e do copo de refrigerante.

domingo, 29 de dezembro de 2013

diário de fim de ano - sobre filmes

Escrevendo pouco e vendo muitos filmes. Desde quarta-feira.

Da internet foram baixados (e assistidos) os seguintes filmes de entretenimento:

"O Cavaleiro Solitário" (The lone ranger, Gore Verbinski, EUA, 2013). Adorável faroeste repleto de efeitos visuais e cenários legais. O roteiro convence - até a sequência final vertiginosa dos trens descarrilhados. O único porém é a interpretação estereotipada de Johnny Depp. Apesar de mais comedido, ele não consegue se libertar das caras & bocas do Pirata do Caribe 1, 2, 3, etc.

"Oz, Mágico e Poderoso" (Oz, the great and powerful, Sam Raimi, EUA, 2013). a versão contemporânea para O Mágico de Oz. Vale pela chegada do mágico trambiqueiro no reino encantado psicodélico. O resto achei pra boi dormir.

"O Grande Gatsby" (The great Gatsby, Baz Luhrmann, EUA, 2013). Quase a mesma crítica acima. Os primeiros 30 minutos subsequentes à depressiva introdução são uma sequência feérica de festas no palácio de Gatsby, misturando encenação e figurinos de época (anos 1920) com jazz e rap atuais e muitos efeitos especiais interessantes. Quando Gatsby-Di Caprio aparece, tudo faz crer que será um grande filme. Porém, passados os primeiros momentos, o filme descamba para lengas-lengas românticas americanas que provavelmente fizeram Scott Fitzgerald revirar no túmulo.

Agora pouco, o "Faroeste Caboclo" (René Sampaio, Brasil, 2013). Assistindo aos trancos e barrancos. Parando a cada 5 minutos. Parece bom. Mas difícil de ver na telinha. O sotaque paraguaio do Pablo e a canastrice do Jeremias maconheiro sem-vergonha é desestimulante. As "amarrações"entre as personagens - para justificar e enriquecer a trama - são interessantes. As tomadas de Brasília também, apesar de potencializadas poeticamente. Espero que valha a pena pelo enredo, inspirado na linda canção de Renato Russo.

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Na telona do cinema:

Na quinta-feira, sessão das 22h - só para os esquisitos insones - fui ver Um estranho no lago (L'inconnu du lac, de Alain Guiraudie 2012). Sobre pegação gay em um lago frequentado por naturistas. Aparentemente trash, com cenas de sexo homo explícitas, tomadas lentas, personagens-clichês, diálogos bobos e final beirando ao ridículo. Porém a superficialidade é só aparência. O filme é constrangedor, inquietante. Saí da sala como se acordasse de um pesadelo, daqueles que a gente tenta gritar e não consegue. Nem precisa dizer que perdi o sono.

O clima de pesadelo deveu-se (ou se deveu? - eu nunca sei) muito ao tom amarelado, desbotado do filme, que eu pensei ser proposital. Quando fui compartilhar o trailer do Youtube, constatei o engano. A água do lago, o céu e os olhos do assassino eram azuis, a toalha da vítima e as folhas do bosque eram verdes, as pedras e a areia eram brancas - cores vibrantes - não nos tons pastéis da projeção. Trata-se de problema (congênito) das salas do Liberty Mall. Sugestão ao leitor: só vá lá se o filme for imprescindível e não estiver passando em outra sala de cinema.

(Para quem quiser saber mais sobre o filme, encontrei uma boa resenha e análise no blog Monoflux - http://moonflux.com/filme-inconnu-du-lac/).

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Ontem foi a vez do italiano "A grande beleza" (La grande belezza, Paolo Sorrentino, Itália, 2013). Pouco a dizer sobre o filme. Simplesmente extasiante. Dos filmes mais belos que vi nos últimos tempos. O título é plenamente justificável. Imagens arrebatadoras de uma Roma. Personagens felinianos, bertoluccianos, pasolinianos. Música sublime. Cenas, longas ou curtas sequências de tirar o fôlego.

Daqueles filmes imprescindíveis, que subvertem, que nos revolvem por dentro. Fossem 3, 4 horas de projeção (imaginei o sofrimento do diretor durante os cortes da edição), a intensidade do filme seria a mesma. Arte no mais pleno sentido. Toca o mais profundo da alma.

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Na fila do download, para serem vistos ainda hoje: "O bebê de Rosemary", que não tive coragem de ver nos anos 70, quando foi liberado no Brasil (tenho pavor de filmes de suspense e terror), e On the road (2012), do Walter Salles.

sábado, 23 de novembro de 2013

waking life


"O hiato que há entre Platão ou Nietzche e o humano mediano é maior do que há entre o chimpanzé e o humano mediano".

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"Existem dois tipos de sofredores: aqueles que sofrem por falta de vida e os que sofrem da abundância excessiva da vida".

(Do filme Waking Life, 2001, Richard Linklater)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

cinema domiciliar

Passei o domingo diante da tela. Pausando as tarefas, os projetos, as responsabilidades. Permitindo-me a entrega à sensação e à emoção. Enfrentando a culpa injustificada pelo ócio, pela vagabundagem, pelo fazer nada, o laissez-faire.

Vendo filmes. Entre soluços descontrolados, crítica ao mesmo tempo política e emotiva, atenção média ou tédio avassalador. Entre surpresas (o filme mais incrível dos últimos tempos) e decepções (qual a razão daquilo ter-se tornado clássico?).

Antes do almoço foi a vez do Beasts of the southern wild (Indomável sonhadora, em tradução equivocada e comercial). Independentemente da crítica (uso e abuso de temática infantil). Beasts..., é grandioso. Imagens pré-apocalípticas, futuristas, contundentes, surreais, tão poéticas e políticas. Texto e subtexto essencial (literatura sulista de Faulkner, Flannery O'Connor, Alice Walker, etc), iterpretação irrepreensível da menina, do pai, das crtianças, dos demais coadjuvantes. Uma América, americanos aos quais nunca antes eu tinha visto ou estava acostumado. Êxtase (e choro) durante quase todas as cenas.

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Depois de ver o Beasts..., convenhamos, leitor, a gente fica exigente.

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Em seguida, a produção nacional-global Gonzaga, de pai para filho (Breno Silveira, 2011), sobre a vida do rei do baião Luiz Gonzaga e de seu filho Gonzaguinha. Filme bem-feito, bem dirigido, com atuações surpreendentes (e arrancadoras de lágrimas furtivas) de Chambinho do Acordeão (Nivaldo da Costa Filho), como Luiz Gonzaga jovem, Adélio Lima (Gonzaga velho) e o convincente Júlio Andrade (como Gonzaguinha. Apesar do formato televisivo, do final teledramático, de apelo popular previsível das produções globais, o filme é delicado e arrebatador.

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Depois do almoço e do cochilo foi a vez do clássico requentado À boute de souffle (Acossado, Jean Luc Godard, 1959). Li na Wikipedia: Foi o primeiro filme de Godard. Foi rodado em poucas semanas. Aproveitou-se dos imporovisos e da espontaneidade e talento dos atores e da beleza das locações em uma Paris de cartão postal. Jean Seberg faz a linda e charmosa mocinha americana controversa; o gostosão (que boca, que pernas!) Jean-Paul Belmondo faz o anti-herói. O filme me fez constatar que a nouvelle vague é chata. Para aguentar até o final insosso, só intercalando o joguinho no celular e as atualizações nas redes sociais.

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Intervalo: a gata trouxe na boca, aos meus pés, um pardal. Ao qual consegui salvar sem anular o brio da conquista da bichana.

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Por fim, o filme dinamarquês concorrente ao Oscar O amante da rainha (Nicolaj Arcel, 2012). Baseado em fatos históricos. Figurino e cenários impecáveis. Mas roteiro previsível. Que me perdoem a ignorância (ou prepoência), mas o filme é muito clichê. Desde a caracterização dos personagens (o rei louco, a rainha progressista, a madrasta má, as artimanhas da corte, o amante, entre idealista e oportunista) ao roteiro previsível e entediante do meio para o final - à canastrice (proposital no Acossados do bloco anterior, mas deslocada aqui). Contemporaneidade forçada, entretenimento.

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O cão sonha e ronca. A gata dorme entre as toalhas, no banheiro. Para concluir a páscoa cinematográfica experimentarei o trash nacional A fuga da mulher-gorila (Felipe Bragança e Marina Meliande), o cult político Hunger (Steve McQueen) ou quem sabe, um drama-comédia gls bem alienado, que me anestesie ou desencave novas lágrimas, soluços ou excitamentos durante as poucas horas entre o fim do domingo e as primeiras horas da segunda-feira.

sábado, 24 de novembro de 2012

sobre gripe e cinema


cena de cold fish (shion ono, 2010)
Minhas gripes são avassaladoras. Ocorrem em ciclos mais ou menos regulares, anuais. Culminam um processo lento que se inicia com a euforia dos primeiros meses do ano, os momentos de melancolia e isolamento intercalados no correr dos segundo e terceiro trimestres e a crise propriamente dita. Dura entre 7 e 10 dias. Nas semanas depressivas que precedem as festividades de fim-de-ano.

Tirando os sintomas (pressão arterial baixa, espirros, calafrios, tosse seca, nariz e garganta entupidos, dor no peito, sonolência, febre, moleza, mal-estar geral e dor de cabeça), a pausa causada pela gripe anual possibilita interiorização bastante produtiva.

Geralmente eu leio. Livros chatos, cujas leituras vêm se arrastando por meses (aquele sobre a vaidade), mas que eu não consigo largar de mão. Livros que ninguém mais lê (na louca, encomendei de um sebo virtual a vida dos homens ilustres, de Plutarco). Abro exceção para ler autores novos, novíssimos e revelações (sem citar impressões, nomes e títulos). Best-sellers, tops da lista dos mais vendidos, indicados pelos amigos (os hilários tons de cinza), etc.

A gripe atual está particularmente forte. Uma espécie de morte-em-vida (horas e horas deitado, sem energia nem para buscar um copo d'água na cozinha). Por isso, eu a dediquei ao cinema. Assisto filmes de manhã à noite. Cinema Nacional. Clássicos. Épicos. Japoneses. Gays. Trash. Comédias. Faroestes. Pornôs. Documentários. Ação. Romance. Aventura. Comédia. Animações. Com ou sem legenda, dependendo do idioma. Em tecnicolor ou preto-e-branco.

Ontem não houve concessão para besteirol. De uma enfiada, vi: Narradores de Javé (Eliane Caffé, 2003); Noite Vazia (Valter Hugo Khouri, 1964); Raízes do Brasil I e II (Nelson Pereira dos Santos, 2003); A hora e a vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1964); de quebra, o clássico Belle de jour (Luis Bruñuel, 1967). Obs.: A ostra e o vento (Walter Lima Júnior, 1997) eu desisti no início: era além das minhas forças.

Os "Narradores" e "A ostra" podem ser esteticamente enquadrados na categoria dos filmes nacionais não vistos dos anos 80 ou 90. A sensação final é de desperdício: ótimos atores. Fotografia e trilhas sonoras incríveis. Bons argumentos. Roteiros promissores mas mal alinhavados. Diálogos sofríveis. Direção a desejar e finalização apressada.

Exceção para o "Raízes" (subtítulo: uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda). Disfarçado em um daqueles filmes caseiros, de família. Com direito a cervejada, criançada na piscina (?) e churrascão. Só que "da" família. Cujos membros circulam, à vontade, em botequins, rodas de samba, ambientes acadêmicos e ministeriais. Até Carlinhos Brown (que nem conheceu o pai do sogro) depõe no documentário. A certa altura, o charmoso Chico folheia um "dicionário de termos afins", que ganhou do pai (deu vontade de ler). A primeira parte do documentário é envolvente, viva, muito graças à graça das falas das filhas e neta cantoras e da matriarca Memélia. A segunda é muito chata. A autobiografia cronológica de Sérgio é lida pelas filhas, entremeada de História do Brasil e trechos do Raízes do Brasil.

"Noite vazia" e "A hora e a vez" estão na categoria dos Clássicos do Cinema Nacional. "Noite vazia" tem um quê da estética nouvelle vague (longas tomadas, imagens paradas, expressões estáticas, maquiagem pesada, muita luz-e-sombra, alta tensão interna, excesso de cenas urbanas noturnas, silêncios e, como o próprio título sugere, o vazio existencial dos personagens e do próprio filme).

"A hora e a vez" é puro cinema novo. Arrebata. Primeiro, pela fidelidade ao conto de Guimarães Rosa. O cuidado com os diálogos, a caracterização dos personagens, as locações do sertão, a cenografia, figurinos, a música de Geraldo Vandré etc etc. A interpretação de Leonardo Villar e de Jofre Soares é de babar. Ruim só a cópia: borrada e com uma logo do site o tempo inteiro no canto inferior direito da tela.

Hoje, para começar, escolhi Cold Fish (Shion Sono, 2010). Talvez o Cafundó (Paulo Betti, 2005). Homem-aranha, Batman, A saga de Shrek (ainda não descobri onde baixar os 4 filmes) ou algum besteirol gls, dublado, do Coca-e-pipoca. E torcer para a gripe acabar. Pois segunda-feira a vida tem que voltar ao normal.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

iracema, uma transa amazônica



Outro dia recebi na rede social a indicação do site Filmes Brasileiros Completos. 160 clássicos, de Limite a Zé do Caixão, de Roberto Carlos a 300km/h a Mazaroppi, assim por diante (senti falta de Ana Carolina). Devo ter visto a modesta metade. O resto, ou eu era muito novo, não passou no circuito comercial ou eu não tive interesse.

Ontem resolvi me atualizar. Ou me desatualizar, uma vez que a maioria dos títulos é anterior à década de 1980. E preencher a imperdoável lacuna cinéfilo-cultural. Apesar da média ou baixa qualidade das reproduções.

O sentido capricorniano determinou a ordem da lista apresentada no site. Como já tinha visto mais de uma vez os dois primeiros (Estômago, Marcos Jorge, 2007 e Limite, Mário Peixoto, 1930), abri Iracema, uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzki e Orlando Senna, 1976).

O título sugere uma daquelas produções típicas do cinema brasileiro da época (ditadura, censura, repressão) - sexo, mulher pelada, roteiro esburacado, som ruim, canastrice, diálogos folhetinescos e uma sequência de adjetivos depreciativos.

Engano. O filme é puro estranhamento. Tributário do cinema novo - a preocupação dos diretores com o rigor dos enquadramentos e ao mesmo tempo a liberdade da câmera (o falso clichê glauberiano de "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça") - as conturbações poético-filosófico-existenciais viram pano de fundo apenas sugerido para o enfoque o social, antropológico e essencialmente político (mesmo com tantos prêmios internacionais a exibição foi proibida no Brasil até 1981).

Iracema, uma Transa Amazônica é uma mistura de documentário e ficção. A história do caminhoneiro Tião Brasil Grande (Paulo Cesar Pereio) e Iracema, uma prostituta menor de idade (Edna de Cássia) segue paralela à história da exploração econômica disfarçada em desenvolvimentismo da região amazônica e do megaprojeto de construção da rodovia Transamazônica.

Parêntesis: Edna de Cássia é (como se diz no jargão da crítica cinematográfica) magistral. Tinha 14 ou 15 anos quando fez o filme. O único. A mesma idade da prostituta Iracema. Hoje esse "recorte" de realidade seria inadequado, inadmissível, impossível: apologia à exploração sexual infantil.

As imagens, a fotografia são cruas e poéticas. Retratam além da realidade Iracema-prostituição, uma série de recortes (ainda estarrecedores) das realidades amazônica e brasileira, gritantes à época, e recorrentes 35 anos depois: grilagem de terras, comércio ilegal de madeira, queimadas e desmatamento e - talvez uma das cenas-imagens mais contundentes - o trabalho escravo.

Nesses tempos globalizados, nós nos deixamos bombardear por toneladas de informações - as problemáticas mundiais, as fofocas dos famosos, o reme-reme cotidiano, o exótico e o medíocre misturado. Conhecemos muito mais sobre o mundo e ao mesmo tempo somos cada vez mais inaptos em interagir nele.

Por isso, nada como um velho (e atualíssimo) filme para balançar as estruturas. Para questionar os pontos-de-vista razoavelmente estáveis. Fazer ver que a realidade é dinâmica, mas em muitos casos, demora a mudar.

...

O próximo da lista é o documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (autorretratos), de Paulo Sacramento, 2003. Rodado no extinto presídio do Carandiru. Alguém se habilita?






sábado, 18 de fevereiro de 2012

carnaval com gata em telhado de zinco quente

 - qual a vitória da gata em teto de zinco quente?
- permanecer em cima dele, acho. O maior tempo possível.


- me dê a minha muleta.
- apoie-se em mim, querido.


- esqueceu as condições de vivermos juntos?
- não vivemos juntos, só dividimos a mesma jaula.


carnaval com a gata em teto de zinco quente

- ele não prestava! talvez eu também não, ninguém presta.



- você é uma criança de 30 anos. Logo será uma de 50.
(...) heróis de verdade são 24 horas por dia, não durante um jogo!
(...) a verdade é dor, suor pagar contas...


- a verdade é algo irremediável, e ela a tem!


domingo, 2 de outubro de 2011

rock brasília - saudosismo, história ou pretensão?

Mesmo ultimamente avesso a grandes agitos, fui hoje ao Festival de Cinema assistir ao Rock Brasília, documentário de Vladmir Carvalho sobre o Capital Inicial, Plebe Rude e Legião Urbana, 3 bandas de rock que projetaram Brasília no cenário nacional da música (!) nos anos 80.

Nunca fui roqueiro. Nunca fui fã empolgado de nenhuma delas. Muito pelo contrário. Na época eu achava serem um bando de filhinhos de papai (expressão típica brasiliense) e de diplomatas bonitinhos fazendo um sonzinho inspirado em bandas inglesas debaixo do bloco. Exceto as letras quilométricas do Renato Russo, tudo era meio palha.

Mas me emocionei. Desde o discurso do diretor, antes do filme. Ou, melhor, do professor. Que ao invés de falar sobre o documentário, elogiou o trabalho de um dos alunos da época da universidade.

Sala lotada. Como nos velhos tempos, sentamo-nos na escada. Eu, uma amiga e meu filho.

O documentário começa com os pais e mães dos integrantes das bandas contando histórias sobre seus respectivos rebentos. Ops, um filme sobre rock com idosos? Em seguida os próprios popstars, hoje quarentões, lembrando de quando tinham 15 anos. Entrecaladas, cenas da história brasiliense recente. Ou nem tanto. Dos últimos 30 anos.

Para um não-fã, a fala dos roqueiros não era o principal. Eu nunca soube mesmo quem era quem, quem tocava o que, a qual banda pertencia um ou outro. O incrível era a sensação de ter estado presente. De ter participado. De também ter feito parte daquele momento da história.

E as cenas/entrevistas antológicas se desenrolando. Por exemplo, o depoimento de J. Pingo, que dirigiu Renato Russo em uma montagem teatral lá por 1985. O General Newton Cruz explicando porque brandia o chicotinho histérico sobre os motoristas na carreata pelas Diretas Já. Ou a manifestação contra a visita de Henri Kissinger à Universidade de Brasília.

É, eu estava lá. Em cada um daqueles momentos. Eu vivi aquilo. Frequentei aqueles lugares. Aqueles shows. Convivi com aquelas pessoas. A peça do Pingo. A carreata. A manifestação contra Kissinger (performático, rosto pintado de branco, mecha azul no cabelo, um torso de manequim envolto tule cor-de-abóbora, valham-me Apolo & Dionisos!). Era como se eu estivesse na tela.

Mas o mais emocionante ficou para o final. Vladmir pergunta a Briquet de Lemos, pai de dois homenageados, o que ele extraiu daquela época. Briquet sem palavras. Não se contém. Chora. Por fim consegue articular uma frase: que aquilo foi um aprendizado. Que ele aprendeu com os filhos.

E eu com meu filho ao lado. Emocionando-se comigo. Apre(e)ndendo aquele passado da mesma idade dele. Passado que o pai também fez acontecer. Passado que ele, mesmo sem entender bem, fez parte.

Saímos em silêncio. No meio da multidão barulhenta. Eu, a amiga, o filho. Chovia em Brasília.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Saló

Férias para o veio criativo. Ontem quase arranquei os cabelos por não ter postado nada. Hoje também está difícil. Fiz umas colagens fraquinhas para repor a falha. Pelo menos assisto aos filmes da pasta "filmes baixados" durante o ano. Tá, a maioria esmagadora é água-com-açúcar gay, pouco digna de comentários.

No meio, Saló, o Pasolini que revi, depois de décadas, no lugar da postagem de ontem. Sempre me fascinou o jeito meio trash, tosco, dos filmes dele. Vi pausado. Voltando por causa de um detalhe, o vestido da signora, a nudez do garoto, o enquadramento do cenário. Além de tentar entender o italiano por trás das legendas mal traduzidas.

Denso? Controverso? Maniqueísta? Indigesto? Equivocado? Cristão? Mais pelo menos uns 30 qualificativos e nenhum serve. Talvez único.

Perdi o sono. Passei o domingo mal (claro que ajudado pela seca e pelo calor). A sensação era parcecida com a que senti quando assisti o filme pela primeira vez. No começo dos anos 80 (Saló é de 1975). Eu não me lembrava de quase nada. A não ser a sensação ruim. Além, claro, das cenas escatológicas e de sexo (nem tão explícito assim).

Os atores veteranos são maravilhosos. As atrizes que narram suas experiências sexuais são divinas. Os jovens prisioneiro(a)s e os soldados são lindos. Alguns deles, dizem, Pasolini recrutava entre michês, garotas de programa, operários, faxineiras, vagabundos do Termini. Desde a primeira, até pouco antes do final (quando tudo começa a desandar), a composição das cenas é extremamente simétrica, rígida, pesada.

O horror não está nas imagens, mas sim nas palavras que as imagens descrevem. Um horror atual, inequívoco, escondido nas entranhas de cada um de nós.