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sábado, 22 de fevereiro de 2014

da série: educação infantil - água é só pra se beber

Encontrei hoje restos de uma coleção de livros infantis lidos e folheados à exaustão por mim há quase meio século, depois por meus irmãos e depois ainda por alguns sobrinhos e filho. As ilustrações são lindas, cores vivas, paisagens, animaizinhos fofos, etc. Porém, só 50 anos depois, pude perceber a mensagem subliminar dos diálogos (na maioria das vezes negativa e conservadora) e os valores incutidos nas nossas cabecinhas. Os medos, as inseguranças, os preconceitos, o controle, estava tudo lá. Alguns, creio, superei, superamos. Outros permanecem, e exigem vigilância contínua para que não se manifestem ou que sejam minimizados. Por isso a série inaugurada e concluída hoje mesmo: educação infantil.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

bela adormecida

A princesinha picou-se no fuso envenenado da roca que se encontrava na sala mais isolada do castelo. Desceu escadarias em espiral de três em três degraus. O roçar da seda das saias da princesinha nas paredes de pedra da escadaria deslocou o ar parado e desencadeou uma ventania de coincidências.

A princesinha esbarrou logo em mim e me pediu socorro. Mesmo tendo tanto o que fazer eu sosseguei-lhe o desespero. Eu me fiz todo dela e a conduzi ao salvamento.

Enquanto aguardávamos na antessala da fada-madrinha nós conversávamos. Sobre os amores irreais e irrealizados dela e meus.

Mal eu nomeei, à toa, um que há tempos me tirava do sério, aproximou-se, vindo do fundo do corredor e materializou-se à nossa frente - tão surpreso quanto nós - o antagônico, o complemento, o amante dele.

Uma gargalhada tripla ecoou uníssona pelos paredões do purgatório.

Em 7 segundos a fada-madrinha curou a picada da princesinha. Tirou de mim e devolveu ao amante aquele que me atazanava a alma.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

bela adormecida

Meu nome é Aurora. Odeio. Nome de velha. Ok. Tecnicamente sou uma centenária.

Contaram-me. O resto são reminiscências. E recortes dos jornais da época. Afinal, dormi 100 anos. Começarei do princípio. O batizado.

Mamãe tinha tirado os 7 pratos de ouro, as 7 colheres, os 7 garfos, as 7 facas e os 7 talheres de sobremesa de prata, as 7 taças de cristal, os 7 guardanapos de linho, as 7 sopeiras de porcelana chinesa da cristaleira.

Para servir as 7 tias-madrinhas. Por ato falho mamãe começou a festa antes da tia-madrinha Setênia chegar. Solteirona. Problemática. Turrona. Ressentida. Ok. Se não fosse ela, não haveria história.

Ah, já me esquecia: as 7 tias-madrinhas eram fadas. Os presentes eram virtudes: bondade, beleza, inteligência, temperança, diligência, riqueza e humildade.

Tia Setênia chegou atrasada. Armando o maior barraco com o manobrista, o segurança, a recepcionista. O chefe do cerimonial interveio. Imaginem quando ela viu a festa acontecendo sem ela?

Ficou furiosa. Fora de si. Xingou. As piores imprecações. E a praga: eu morreria aos 15 anos, picada por agulha de máquina de costura.

Máquina de costura? Já naquela época era tão antiquado que ninguém se preocupou. Aqueles risonhos disfarçados, o promoter anunciando a próxima atração, o brinde. A festa seguiu como se quase nada tivesse acontecido.

As 6 tias-madrinhas boazinhas deram os presentes diante dos convidados. Em seguida reuniram-se com mamãe e papai em reservado. Impossível anular a maldição. Só amenizar. Tia Setênia era mesmo do babado.

Sono ao invés da morte. Dormir até ser despertada pelo verdadeiro amor. Na semana seguinte, 50 anos depois ou, sabe-se lá quando… Ou seja: parecido com morrer.

Por precaução (o seguro morreu de velho) papai fechou as fábricas, proibiu a importação e determinou a destruição de todas as máquinas de costura do reino.

Eu crescia cada vez mais bondosa, linda, inteligente, equilibrada, diligente, rica, humilde, modesta. E ignorante da minha sina.

Foi na semana da festa de 15 anos. Chovia horrores. Os amiguinhos (filhos e filhas dos criados) ajudavam nos afazeres dos pais. Mamãe não desgrudava do celular. Nada a fazer.

Eu nunca antes tinha notado aquela escadaria. Em espiral. Com cheiro de mofo e xixi de gato. Do alto vinha um barulho indefinível. Tipo um besouro. Ou videogame. Subi. No fim da escada havia uma porta. Entrei.

Estava lá uma velhota. Debruçada em um objeto esquisito. De onde saía o barulhinho. Tecidos por todos os lados. Curiosa, fui com a mão – o que é isso? – apontando para a agulha. A velhota não teve tempo de explicar. A agulha me picou (ou eu me piquei na agulha?).

Depois eu não me lembro. Só o lido nos recortes de jornal. Caí desmaiada. Provavelmente a velhota gargalhou, metamorfoseou-se em morcego ou mariposa e esvoaçou pela janela.

Legal esse trecho: “Adormeceram no trono o rei e a rainha, recém-chegados da partida de caça. Adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinhas no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado. Adormeceu o cozinheiro que assava a carne e o servente que lavava as louças; adormeceram os cavaleiros com as espadas na mão e as damas que enrolavam seus cabelos. Também o fogo que ardia nos braseiros e nas lareiras parou de queimar, parou também o vento que assobiava na floresta. Nada e ninguém se mexia no palácio, mergulhado em profundo silêncio”.

Cresceu um matagal em volta do castelo. A notícia se espalhou. Virei conto de fadas. Eu e o resto da galera despertaríamos assim que me beijassem um beijo de amor verdadeiro.

Dezenas de aventureiros tentaram desbravar o matagal intransponível e despertar a bela adormecida. Desistiam ou morriam. Passaram-se 100 anos.

Foi um garoto. 17 anos. Bonito como um modelo. Filipe. Soube de mim em um texto da apostila do pré-vestibular. Bobinho, Cheio de fantasias. Apaixonou-se. Para minha sorte.

Cortou o mato. Entrou no castelo. Tudo e todos congelados. Afazeres interrompidos pelo sono. Subiu a torre. Me achou afundada nos tecidos. Disse que eu era idêntica à ilustração da apostila. Me beijou.

Acordei. O garoto beijava gostoso. Meu hálito devia estar um horror. Com licença, querido, vou escovar os dentes.

Veio com a conversa de casar felizes para sempre.

Casar? Depois de dormir 100 anos? Eu queria aproveitar a vida. Me atualizar. Sair. Fazer amigos. Balada. Festinha. Acampar. Fazer teatro. Intercâmbio. Etc.

A paixão dele passou rápido. Agora, namora meu pajem. Uma graça os dois juntos. Apesar da diferença de idade ficamos amigos.

Ele me ensina como me comportar nos tempos atuais. Tenho muito o que aprender. Ano que vem visitarei as primas em Barcelona. Papai quer que eu estude direito. Mamãe, me levar para fazer compras em Miami. As tias telefonam de vez em quando.

Papai e mamãe ficam horrorizados: eu morro de vontade de conhecer tia Setênia. Eu me identifico com ela. Esquisitona. Temperamental. Diferente. Voluntariosa. Tenho a impressão que a gente vai se entender super-bem.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

podem me chamar de meg, a medonha

Ele refém voluntário no castelo. Tecendo desculpas & justificativas & mentiras. Banho tomado & perfume & desodorante. Protelando a fuga. Ou esperando o salvador. Ou pronto para ser devorado. O que lhe importa é o papel de vítima.

Lá fora o príncipe-palhaço. Envelhecendo sem obter êxito na empreitada auto-imposta. Os ramos de espinhos crescendo em dobro a cada golpe da espada. Como as cabeças da hidra. Ingênuo ignorando a má vontade do prisioneiro em se ver livre.

...

Hoje estou doido para cometer pelo menos duas das atrocidades psicanalíticas abaixo:
- Barbazul: roer o cotoco de braço ou uns artelhos tenros do ladrão da rosa branca;
- Bruxa: empurrar o príncipe usurpador da virgindade de Rapunzel janela abaixo;
- Madrasta: convencer o pai a dar o sumiço nos pentelhos João & Maria;
- Rainha má: oferecer a maçã envenenada à tola Branca de Neve.

...

Quisera, agora, ter mesmo essa verve. Assumo, admito, bato no peito 3 vezes: estou mais para o incauto Dom Ratão. Que caiu na panela de feijoada na véspera do casamento com a Dona Baratinha que tinha dinheiro na caixinha.

...

Oremos:
Santa-Meg-das-personagens-críveis, se ele acordar e me beijar eu prometo tentar ser uma criatura melhor de agora em diante.
Santo-Máicon-dos-bons-enredos, eu vos suplico: dai-me hoje um final feliz.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

lindinha

As matronas concentradas no jogo:
- Lindinha, busca o cigarro e o isqueiro na bolsa da tia?
Volta com o cigarro aceso.
- Que graça! 5 aninhos e já sabe acender... Qualquer dia a tia te ensina a tragar.

sábado, 18 de junho de 2011

A linda rosa juvenil

Tentava abrir a porta do caixa eletrônico. Ela, dentro, veio ajudar. "Você é Gladstone?", perguntou. "Eu sou E..." "Nós já fomos princesa e príncipe um dia". Eu me lembrei. Da foto. Na segunda série. A linda rosa juvenil juvenil juvenil. Perguntei como ela tinha me reconhecido. Ela não soube explicar. Falamos sobre o que fizemos durante essas mais de 4 décadas. O tempo suficiente para a máquina entregar o dinheiro dela, o meu extrato. Haveria algo mais a dizer? Nós nos separamos. Felizes, talvez. Com um aperto de mão.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Wonderland

Acordei cedo para fotografar o coelho. Tarde demais. Ou foi recapturado pelo dono, ou devorado pelo cão ou pela coruja, ou simplesmente foi tomar chá com o chapeleiro e a lebre maluca.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Ventos que já se foram


Cenário de Os Saltimbancos, adaptação de Chico Buarque, direção de Marcelo Ferreira, com os alunos do Ginasiano Escola de Dança, em Vila Nova de Gaia, 2005. Sobre imagens de Tarsila, autorizadas.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Memórias da Emília

A tem me enviado histórias. Desagradáveis. Ela diz que quando as ouve lembra-se de mim. A primeira foi sobre uma criança atropelada enquanto a mãe fazia oferenda aos orixás na prainha do Lago Paranoá. A segunda foi sobre uma menina e sua cenoura. As histórias dela estão rendendo, pelo menos o título do próximo livro: "Sete histórias do Além e outras mais próximas". Mas hoje ela mandou o lindo trecho abaixo, das Memórias da Emília, de Monteiro Lobato:

...A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela ultima vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?
O visconde teve que concordar que era.

domingo, 11 de julho de 2010

Sessão cenários

É uma história longa. Começou em 1985/86, com a ida do amigo M para o Porto. Fui em seguida. Trabalhamos três meses no projeto Capuchinho Vermelho. Junto com W fizemos o cenário (a ideia era perfeita, mas o resultado uma catástrofe: um livrão gigante horroroso, de papelão, no meio do palco, cujas folhas eram passadas por duendes no decorrer do espetáculo). Dei aula de arte para crianças da pré-escola (lá chamados de "putos", merecidamente...). Tenho uma ou duas fotos do espetáculo, qualquer hora disponibilizo.

Voltei várias vezes: Borralheira (Cinderela), O Quebra-Nozes, O Patinho Feio, e, por último, A Bela Adormecida. Alguns cenários foram feitos no Brasil e despachados, outros foram feitos lá, com envolvimento integral de uma porção de gente. Alguns processos de criação foram coletivos, outros mais direcionados, é interessante resumir cada um - e postar imagens - ao longo do blog.

Sessão cenários - A Bela Adormecida

Esses abaixo foram projetos. A versão definitiva (arquivo perdido para sempre) foi feita em 2007, numa linda casa de montanha, na Serra da Estrela, no norte de Portugal, já quase Espanha. Eu me lembro dos vinhos, da bacia de cerejas, dos pães e do bacalhau assado, e da trilha sonora nas madrugadas, basicamente Gal Costa e Vander Lee.

Sessão cenários - projeto da Bela Adormecida 2

Sessão cenários - projeto da Bela Adormecida 1

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sessão cenários - A Gata Borralheira

Abaixo, dois telões feitos para o cenário do Balé A Bela Adormecida, pelo Ginasiano Escola de Dança, em Vila Nova de Gaia, Portugal, 2005. Foram impressos em lona vinílica, a partir de colagem de imagens obtidas na net. Mediam, cada um, 12 x 6 metros. M, o diretor e coreógrafo, acabou usando só o do primeiro ato, que eu gosto mais...

A Gata Borralheira, primeiro ato

A Gata Borralheira, segundo ato

sexta-feira, 2 de julho de 2010

The tale of Peter Rabbit

Recebi ontem uma linda história desagradável de E, meu eterno professor de inglês. Li quinhentas mil vezes, dos cinco aos quinze anos (precoce e retardado ao mesmo tempo). A imagem abaixo é dela, escaneada da volume 3 da coleção O Mundo da Criança (texto de Beatrix Potter, sem crédito do ilustrador).