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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 22 - fim


Até Chiquinho telefonar. À meia-noite. À cobrar. Nem deu tempo para Francisquinho perguntar nada. Muita chuva na serra. Estavam ilhados. Só voltariam, se estiasse, na terça-feira.

Francisquinho acreditou.


Chiquinho ligou de novo. Só na terça-feira. Dizendo que tinha acontecido muita coisa naqueles dias. Que tinha pensado muito. Que precisavam conversar. Que não voltaria para casa. Ainda. Que Francisquinho entendesse.

Francisquinho entendeu. 

Segurou o portarretratos dourado. A foto dos dois em Guarapari. O cartão com a frase sobre superação de crise ainda sobre o aparador. O boné de Chiquinho largado no sofá. Pensou em consolar-se com Donald. Desistiu de ligar. Abriu a geladeira. Fechou. Abriu de novo. Foi até a janela. Voltou. Ao quarto. A cama. A escova de dentes de Chiquinho na bancada do banheiro. Uma bola de estopa entalada na garganta. As lágrimas, o choro que não vinham.

Nem se deu conta de Bob, abanando o rabo, seguindo-o como sombra, por todos os cômodos do apartamento.

Era mesmo o fim.

Chiquinho e Francisquinho - 21


Não precisou. O filho de Sêmele estava bem humorado. Primeiro não deu bola para a promessa, que ele sabia, mortal nenhum seria capaz de cumprir. Bonachão, o deus-brother foi intempestivo. Como se se materializasse do outro lado da parede. Na sala onde a galera conversava alto. Colocou, literalmente, palavras. Justo na boca de Chiquinho: Caramba, que calor. Que tal terminar o trabalho no boteco da praia?

Ufa!

Foram. Donald inventou um imbróglio para Francisquinho vestir-se enquanto que o pessoal saía.

Francisquinho perdeu a noção do tempo. Vagou a esmo uma eternidade pelo bairro retomando o fôlego, recobrando as forças, processando os fatos. Chegou em casa à noite.

Como não havia no armário os doze bois prometidos a Apolo, Francisquinho assistiu o fim do Bergman no DVD. Os Kurossawa. O Win Wenders. Os Fassbinder. Os iranianos. Prestou atenção a cada sílaba pronunciada, mesmo sem entender sueco, alemão, japonês, iídiche, árabe. Cada entrelinha das legendas. Até o último crédito em letras ilegíveis.

Chiquinho e Francisquinho - 19


Foi quando Francisquinho se deu conta. Segurava o celular. Ligado. Gelou-se-lhe o sangue pela segunda vez. Era como se portasse uma granada com o pino puxado. Tremeu. Temeu. Se algum infeliz, ou o próprio Chiquinho, sentisse saudades e ligasse, justo naquela hora, e o danado do celular tocasse?

Francisquinho tremia tanto que tinha medo até de, ao desligar o aparelho fazer qualquer movimento brusco e denunciar o esconderijo. Derrubar sem querer, por exemplo, a caixa de sabão em pó. Imaginava o flagrante, O Peninha, o Mickey e a Minnie, A Maga e a Min – e Chiquinho! – afastando os lençóis e dando de cara com ele ali, pelado como um pinto molhado, tremendo mais que vara verde.

Respirou fundo várias vezes. Até se acalmar. Com muito cuidado desligou o aparelho.

Crente que dessa ele tinha escapado. 

Ledo engano. As desventuras de Francisquinho estavam longe de terminar.

Chiquinho e Francisquinho - 20


Apolo tinha mesmo tomado conta da situação. Castigava Francisquinho por ter libado tanto a Dionisos, a Afrodite, a Eros e se esquecido dele, representado pela pilha de filmes cult não vistos durante o feriadão.

De repente Francisquinho ouviu a voz de Min, na sala, elogiando: Que apartamento legal! Em seguida, Donald, empolgado enumerando as vantagens: área comercial, sobreloja, aluguel barato, boa vizinhança, apartamento espaçoso, ponto central, perto de tudo. O assunto rendeu: Dois quartos? Sala grande! Tem cozinha?

Donald respondeu: Tem até área de serviço!

Francisquinho gelou pela terceira vez. A vista escureceu. O coração parou de bater. O peito, uma bola de chumbo. O estômago quis sair pela garganta. Quase desmaiou Pasmo. Pálido. Pronto para subir os degraus do cadafalso. Já sentindo o frio da lâmina da guilhotina decepando-lhe o pescoço. O áspero da corda apertando. O punhal afiado da pitonisa arrancando-lhe as vísceras. A espada fulgurante do anjo expulsando-o do paraíso. O dedo acusador de Chiquinho.

Donald, o mesmo que há instantes compartilhava os fluidos amorosos, esquecera? O local objeto do assunto era justo o esconderijo do amante, do traidor. E se Donald resolvesse mostrar o apartamento aos colegas?

Francisquinho orou com todo fervor ao patrono daqueles dias turbulentos. Prometeu a Dionisos que seria a primeira e a última traição de toda a existência. Ofereceu vinho, uvas verdes, comilança, vela em cachoeira, despacho em encruzilhada, tudo o que o semideus quisesse. Até a alma.

A Apolo prometeu sacrificar 12 bois. Nos moldes de filme trágico com o velho Sir Lawrence Olivier. Assistiria aos 12 filmes.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 18


A galera subiu como uma avalanche invertida. Entrou no apartamento na maior balbúrdia. Os olhos de Donald tinham sido obnubilados pela vingança do irascível Apolo? Era a única explicação para o fato dele não só não ter dispensado as visitas mas de convidar todo mundo para sentar.

Donald entrou na onda eufórica deles. Abandonou Francisquinho à própria sorte. Pelado, encostado no tanque, coração disparado, prendendo a respiração, debaixo dos lençóis estendidos, com cheiro de amaciante.

Francisquinho ouvia perfeitamente o que diziam. Com dor lancinante escutava os risos, a voz de Chiquinho sobressaindo-se às vozes dos outros. Uma lágrima furtiva escorreu. Por causa do ridículo daquela situação toda. Criada tão somente pela falta de diálogo. Pelo desgaste da relação. Os jogos de poder. A manipulação. O sufocamento mútuo. A codependência. Etc. Etc. Etc.

Chiquinho e Francisquinho - 17


Donald insistiu. Que Chiquinho se vestisse e fosse embora. Que tinha adorado o final de semana. Que queria ver Francisquinho de novo. Que combinassem a caminhada no parque para qualquer hora. Que andasse depressa.

Antes de Francisquinho esboçar qualquer gesto, o celular de Donald tocou. Era Margarida. Colega do TCC. Para dizer que o grupo estava indo para a casa do Donald. Aliás, já estavam chegando. Ou, melhor, estavam debaixo do prédio. O Peninha, o Gastão, a Minnie, a Maga e a Min. Para Donald descer, abrir a portaria, o interfone estragado.

O pior: Chiquinho estava entre eles.

A pândega de Dionsisos passava dos limites. E Apolo era mesmo cruel.

- Como assim? Francisquinho ainda perguntou. Chiquinho não estava na serra?

Donald não teve tempo de explicar.

- Junta tuas coisas e te esconde na área de serviço. Vou dispensar o pessoal.

Depois de tanto amor, sexo, surpresas e culpa Francisquinho nem discutiu. Não havia no quarto armário para entrar. Pular a janela era alto demais. Francisquinho rememorou todos os chavões de comédia conhecidos.

Juntou as roupas, a sandália havaiana, as chaves de casa e do carro, o celular. Enfiou os invólucros dos preservativos debaixo do colchão. Escondeu-se na área de serviço. Atrás das roupas estendidas no varal. Enquanto Donald descia para abrir a portaria.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 16

-  Por que você não foi para o ensaio?

-  Que ensaio?

-  Da performance. Diversidade estética e de gênero nas artes performática contemporâneas.

-  Esse é o título do nosso trabalho de formatura. Como você sabe?

-  Chiquinho. Meu namorado. Você conhece?
  
-  Claro. Do meu grupo.

-  Mas não o ensaio foi cancelado. O professor iria viajar. Porto Seguro.

Francisquinho já estava pálido. Empalideceu ainda mais. Mais branco que o lençol. Se estivesse em pé, cairia desmaiado.

- Tem certeza? Chiquinho foi para a serra. Com o professor. Para ensaiar.

Donald levantou-se. Vestiu-se. Entregou a roupa de Francisquinho. Olhou o relógio:

- Você tem que ir. Lembrei que tenho um compromisso.
- Nenhum problema. Nossa relação é aberta.

Francisquinho mentia. Cego de ódio. O mesmo ódio de Medeia por Jasão. Sem demonstrar o mínimo sinal externo. A sirene, a luz laranja deu lugar a um único pensamento. Um ditado. Uma frase bíblica. Primitiva. Velha. Sábia. Egoísta. Cruel. Demasiado humana:

Olho por olho. Dente por dente.

Chiquinho e Francisquinho - 15

Toda a tarde juntos. Tudo muito engraçado. Tudo muito bom. Depois ficaram deitados no colchão, muito tempo, de mãos dadas, olhando para o teto.

Cabeça vazia é oficina do diabo. Já dizia a avó de Francisquinho. Que não conseguia ficar parado. Necessidade de ação, movimento. Deitado no colchão estendido no chão, Francisquinho olhava o ambiente, prestar atenção. Registro visual do local onde tinha cometido a primeira traição. A primeira não. A segunda.

Apartamento pequeno. Fotos coladas com durex na parede do corredor. Crianças, um palhaço. Crianças, Arlequim. Crianças, um príncipe. Crianças, um duende. Crianças e Donald. Animador de festas. Livros de teatro sobre a cadeira que servia de criado mudo. Teatro? Ator?

Uma luz laranja e uma sirena começaram a piscar e soar intermitentes no cérebro de Francisquinho.

Donald desfez com os dedos a testa franzida de Francisquinho. Alisou os cabelos. Preocupado? Ainda não.

Mas a luzinha laranja e a sirena insistiam. Havia algo errado. E não era só culpa. Talvez paranóia?

Francisquinho fechou os olhos. Depois abriu. Como se assim apagasse de vez o mau pressentimento.

E eis que o olhar fixou-se em um pedaço de papel. Grudado também com durex. Na parede ao lado da cama.

Um horário de escola.

Francisquinho perguntou:

-        Você estuda?

Resposta óbvia:

-        Sim. Teatro.

A luz laranja piscou mais rápido. O volume da sirena era ensurdecedor.

-        Onde?

Francisquinho sentiu o mesmo que Jocasta quando descobriu ser mãe de Édipo. Julieta ao acordar e ver Romeu morto de verdade (ou foi o inverso?) Surpresa, susto, temor. O chão fugiu-lhe dos pés. Ou, melhor, das costas, uma vez que estavam deitados. Francisquinho não deveria ter perguntado. Donald estudava na mesma escola onde Chiquinho estudava.

Chiquinho e Francisquinho - 14


À tarde Donald ligou. Chamando Francisquinho para almoçar. Comida improvisada. Francisquinho levaria o refrigerante.

A ficha de Francisquinho tinha caído. Traíra Chiquinho. Pela primeira vez. Em 5 anos de casamento. Culpa, culpa, culpa. Aliviada, em parte, pelo ciúme. Tentou encontrar desculpas. Justificativas para o deslize. Havia algo errado com Chiquinho. Não tinha sido ele quem falou pela primeira vez em privacidade? Que tinha até proposto uma relação aberta? Que afirmava não acreditar em traição quando fosse só sexo?

Ainda havia a história mal contada das manchas roxas no pescoço. Do professor orientador. A raiva contida de Francisquinho por causa do final de semana inteiro longe.

Sim, não havia como negar. Mesmo nos três meses de tranquilidade aparente, o casamento de Chiquinho e Francisquinho vivia sob a crise.

Dividido entre a culpa e a desforra, Francisquinho foi almoçar com Donald.

Chiquinho e Francisquinho - 13


Francisquinho já embarcava no dilema intimista de Bergman quando o telefone tocou. O coração disparou. Seria Chiquinho? Com saudades?

Correu para atender. Não podia ser Chiquinho. Na chácara do professor orientador não pegava celular.

Era Donald. Convidando Chiquinho para dançar. Festa óootima. DJ australiano. Gogo-boys de BH. Hostess divertidíssima. Convite imperdível!

Francisquinho estava com preguiça. Outro banho, arrumar-se, acordar tarde no dia seguinte? Sábado na Dreepsy é horrível. E o passeio no parque amanhã cedo? Donald riu do outro lado: a gente passeia outro dia.

Foram no carro de Donald. A festa estava mesmo boa. Dançaram a noite toda. Francisquinho divertiu-se como há muito tempo não se divertia com Chiquinho.

De manhã tomaram café na padaria. Donald convidou Francisquinho para subir.

Francisquinho aceitou.

Nessa hora desmoronaram o bom senso, os valores morais, a responsabilidade apolíneos. Balançou a estrutura o amor que Francisquinho jurava sentir por Chiquinho. O poder do semideus Dionisos veio como uma avalanche arrastando tudo. O instinto humano, animal de Francisquinho revelou-se ali mesmo, no banco de carona do carro de Donald. O super-herói, o super-homem sob a capa do pacato cidadão.

Não perderam tempo. O primeiro beijo, sôfrego, foi no elevador mesmo. No corredor, nem se importando em acordar a vizinha. Difícil abrir a porta, a mão, os braços, a boca ocupados.

Foi intenso. Depois de recolher os escombros, Francisquinho foi embora cuidar de Bob.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 12


Francisquinho amava tomar banho. Mesmo que só sentado na minibanheira que Chiquinho fez questão de instalar no box. Com hidromassagem. Colocou Cassandra Wilson bem alto. Acendeu a vela aromática. A luz azul. Relembrando os bons momentos vespertinos.

Donald tinha tudo a ver. Tão legal, tão gente fina. Que sorriso! e os olhos verdes então? Podiam ser mesmo bons amigos. Chiquinho também gostaria dele?

Assou uma pizza. Abriu outro vinho. Pronto para a pilha dos filmes cult aguardando sobre o aparelho de DVD.

Chiquinho e Francisquinho - 11


Francisquinho engoliu a comida. Nem quis sobremesa. Deixou o troco com o garçom. Mascou dois chicletes e foi atrás do conhecido.

Que, por acaso, perambulava por ali. Fazendo a digestão. Como quem não quer nada. Sem camiseta sob o sol escaldante do sábado. Surpreendeu-se em rever Francisquinho em intervalo tão curto.

Ah, desígnios misteriosos os de Dionisos! Fazer nascer, do dia para a noite, de dentro da casca do pacato, comportado, fiel e apaixonado Francisquinho um predador implacável... Só podia ser pândega...

Donald, muito prazer. Nunca se tinham visto antes. Mudara-se há pouco.

Francisquinho propôs ao vizinho apresentar o melhor café. O melhor sorvete. Quem sabe o melhor chopinho do bairro. Donald topou. Também sem nada para fazer no feriadão. A mudança ainda não tinha chegado.

Conversaram toda a tarde. Como se se conhecessem há séculos.

Francisquinho olhou o relógio: caracas! nem vi o tempo passar... Tenho que passear com o Bob. Donald não se fez de rogado. Amava bichos. Principalmente cães: se quiser, te acompanho.

Na portaria do prédio, Francisquinho pensou em convidar Donald para subir. Mas havia os filmes cult pagos adiantado. A louça suja da noite anterior enchendo a pia. O retrato dele e Chiquinho emoldurado. A dignidade, a fidelidade, a sensação de errado. Trocaram os números de celular. Um aperto de mão. Donald abraçou forte o novo amigo. Combinaram uma corrida no parque para o dia seguinte.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 10


Francisquinho dormiu até a 1 da tarde do sábado. Acordou estranhamente bem disposto. Um novo homem.

Faminto como um leão. Necessitado de carboidratos, proteínas e líquidos, como um beduíno. Fraco como uma cadela velha no cio. O único resquício da depressão da noite anterior era um sentimentozinho de culpa, quase imperceptível, por menoscabar o vetusto Apolo (representado pela pilha dos filmes cult intocados) e libar em excesso a Dionisos, os filmes pornôs.

Brigou com Bob. Que tinha se aliviado no tapete, coitadinho, não aguentou. Tomou um banho gelado. Com preguiça de comer macarrão de novo, colocou os óculos escuros, a bermuda branca, os fones de ouvido, o boné. Para almoçar no self-service do outro quarteirão.

O mais incrível: até aquela hora nem tinha se lembrado ou pensado em Chiquinho.

O restaurante estava vazio. Sentou-se de frente para a rua. Para ver o movimento. Quase nenhum. Bairro sossegado. Nem notou a entrada do outro freguês. Que sentou-se, sozinho, na mesa ao lado. Em ângulo de visão perfeito para observar e ser notado por Francisquinho.

Francisquinho retribuiu o sorriso. Era péssimo para fisionomias. Conhecia? Provavelmente das caminhadas com Bob. Do Parque. Da academia. Da praia. Do elevador do prédio. Do clube.

Na falta de Chiquinho, Francisquinho não desperdiçaria, sozinho, a dose de felicidade extra proporcionada por Dionisos. Após alguns instantes de hesitação o novo Francisquinho iria ousar. Oferecer-se, pasme!, para sentar-se à mesa do freguês: Posso? É tão ruim comer sozinho. Lindo dia! A gente se conhece de onde? Muito prazer.

Bem na hora de se levantar para a ousadia suprema o freguês simpático e bonitão pediu a o café e a conta. E deu um tchauzinho...

Chiquinho e Francisquinho - 9


Francisquinho não se deixaria levar pela minidepressão instalada. Chiquinho estava longe e pronto. Só 4 dias. Ligou para Lalá, Lelé e Lili. Em Búzios. Vem pra cá, está óoootimo!, Lalá chamou. A gente tá fazendo bobó, Lelé falou. Tá cheio de gente linda, disse Lili. Mas Francisquinho morria de preguiça de pegar estrada àquela hora.

Durante o banho desistiu de dançar. Sem Chiquinho. A Dreepsy devia estar deserta. Todo mundo viajando. Vestiu o pijama. Estourou pipoca. Trouxe coca-cola no balde de gelo. O resto do chocolate na caixa. Os filmes.

Começou pelo Kurossawa. A comédia romântica. Por fim o 1º pornô do fundo da sacola. Às 22h.

Terminou de assistir ao 4º filme às 3 da madrugada. Reviu as melhores cenas do 1º. Do 2º. Assim por diante. Só parou quando, totalmente exaurido pelo esforço físico e mental repetitivo, reparou, às 5h30min, a 1ª claridade do alvorecer através da cortina de voal.

Contabilizou na mesinha de cabeceira:

6 pacotes de pipoca;
1 ½ garrafa de coca-cola;
¾ do resto do vinho do almoço;
1 caixa de lenços de papel.

Colocou ração e água para Bob. Para não ter que se levantar mais tarde. Ainda zapeou. Apagou. Com o controle remoto na mão.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 8


Francisquinho guardou os cogumelos, os tomates e o refrigerante na geladeira. O sorvete e as pizzas no congelador. O macarrão e o molho no armário. As tangerinas na fruteira. Coçou a barriga de Bob estatelado no tapete da sala. Levou os filmes e a caixa de chocolates para o quarto. Tomar uma ducha, assistir um filme e depois preparar o almoço.

Começou por Priscila. Parou na metade. Cochilou nos primeiros 10 minutos do Kurossawa indicado pelo chefe. Trocou por uma das comédias. Evitando os pornôs, reservados para a insônia na madrugada. Para quando a saudade de Chiquinho apertasse. Quem disse que prestava atenção? Tudo chato. Demorado. Lento. O drama, o rosto de Ingrid, as rugas de Catherine, as roupas e as piadas sem graça de Bernadette, Mitzi e Felicia. Ah, como a vida sem Chiquinho era vazia.


Quase 3 da tarde. O estômago roncava. Preparou peine ao funghi e ervas. Maravilhoso. Do jeito que Chiquinho gostava. Colocou os dois pratos na mesa, talheres, dois copos, dois guardanapos. Serviu-se, se muito, três garfadas e quase meio litro de coca-cola. Tão triste. A ponto de chorar.

Assim passou a tarde. O início da noite. Entre o quarto e a geladeira. O banheiro e a varanda. O chocolate, as batatas pringles e a coca-cola. Entre um trecho de filme e o zapping na TV a cabo. Entre o passeio vespertino de Bob e o prato de macarrão aquecido no microondas. Entre o primeiro cálice de vinho, outro e outro e a segunda garrafa de vinho aberta.

Vontade de ligar para Chiquinho, mandar uma mensagem, volta, tô com saudade. Não, aquilo não podia continuar.

Chiquinho e Francisquinho - 7

Francisquinho voltou para a cama. Para sentir o restinho do calor de Chiquinho debaixo do cobertor. Do cheiro de Chiquinho no travesseiro. Do gosto de Chiquinho ainda na boca. Rolou na cama muito tempo, tentando pegar no sono de novo.

Levantou-se por volta das 9. Com Bob arranhando a porta do quarto. Desceu com o cão. Deu uma volta no quarteirão deserto. Subiu, serviu ração e água, tomou banho, preparou o café. Entrando no clima do retiro espiritual forçado.

Bateu uma preguiça enorme de sair, o parque, a piscina, o shopping. Sem Chiquinho tudo perdia a graça. Porque não recolher-se? Enfrentar a solidão forçada? Metódico, anotou as opções na caderneta de recados:

1.     locar filmes;
2.     separar na estante os livros ainda não lidos;
3.     arrumar o quartinho das tralhas;
4.     separar as fotos;
5.     comprar comida;
6.     ligar para Lalá, Lelé e Lili;
7.     dançar?

2, 3 e 4 podiam ser feitos a qualquer hora de qualquer dia do feriadão.
7 seguido de interrogação dependia do estado de espírito, do desenrolar dos acontecimentos.
6, quem sabe?
1, 2 e 5 era o mais urgente. As lojas do bairro fechavam ao meio dia. Nem precisava tirar o carro da garagem.

Primeiro o mercadinho. Depois a locadora. 15 filmes. Para devolver só na segunda-feira. Clássicos em preto-e-branco. Comédias românticas. Priscila a Rainha do Deserto para rever pela enésima vez. E escondidos no fundo do pacote, após alguma hesitação, 4 pornôs.

As lentes dos óculos de Francisquinho eram tão escuras que ele nem percebeu, enquanto caminhava cheio de sacolas plásticas de volta para a caverna, em como o dia estava lindo.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 6


Francisquinho reprogramou-se. Com o apoio de Chiquinho. Além de cuidar de Bob, poderia ocupar-se no feriado. No clube. No parque. No telefone. Na feira de orquídeas. Assistir TV a cabo. DVDs. Tirar o atraso do sono. Almoçar no shopping. Cineminha. Lanchar na creperia. Pizza com Lalá, Lelé e Lili, as colegas do trabalho. Quem sabe a matinê da Yellow. O bate-estaca da Dreepsy.

Chiquinho jurou de novo fidelidade e amor eternos. Tinha até pensado em desistir do passeio – ato falho!, do ensaio – mas não podia, a apresentação marcada para os próximos dias. Disse que sentiria saudades. Advertiu Francisquinho para comportar-se. Para não dar mole a ninguém na boate. Para esperar por ele.

A noite foi de chamego e carinhos. Francisquinho fingiu não ter visto a mancha roxa no ombro de Chiquinho. No pescoço. Coitado, a pele sensível, deve ter batido em algum lugar. Até o interfone tocar, de madrugada, antes das 8. Francisquinho não resistiu. Olhou pela janela Chiquinho entrando no carro. Provavelmente o carrão do professor orientador.

Chiquinho e Francisquinho - 5


Aconteceu na quarta-feira, às vésperas do feriadão. No carro. Na volta do trabalho. Francisquinho dirigindo, Chiquinho no banco do passageiro. Chiquinho falou que passaria o feriado fora. Ensaio. Tipo concentração. Na chácara do professor orientador. Na serra. Onde o celular não pegava. Sairiam cedo no dia seguinte. Voltariam na segunda-feira depois do almoço. Ou talvez na terça.

Francisquinho sentiu uma pontada. Engoliu em seco. Chácara? Professor? Suportaria passar a eternidade do feriado sem Chiquinho? Era dependência? carência? ciúme? Desconfiança? Era tudo junto.

Chiquinho aumentou o volume do rádio. Mesmo sendo hora da Voz do Brasil. Não trocaram palavra até entrar em casa. Francisquinho ligou a TV. Chiquinho abriu uma lata de cerveja. Não ofereceu a Francisquinho. Arrumou a mochila.

Chiquinho, impiedoso, jogara Francisquinho na jaula das feras da solidão.

Autocontrole era essencial. Cena de ciúmes àquela altura só pioraria as coisas. Francisquinho tentava compreender. Aceitar. Era a hora de provar ser um exímio piloto para o aviãozinho do amor não embicar de vez e explodir no solo matando o tripulante, o comissário de bordo e o passageiro canino. Francisquinho Respirou fundo. Desligou a TV. Afinal de contas, era o trabalho de formatura de Chiquinho. A chave de ouro que abriria as portas da carreira do namorado.

Só traiu-se ao deixar escapar, cara e voz desamparadas: eu vou cuidar do Bob sozinho? Pergunta desnecessária. Óbvio que sim.

Chiquinho tomou o controle. A tempo. Um rasante minutos antes do aviãozinho esborrachar-se e, ufa!, entrar de novo nas nuvens rosadas. Abraçou Francisquinho. Deu um beijo estralado na bochecha. Não fica assim, meu neguinho, são só 5 dias!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 4

Chiquinho cursava o último semestre. Teatro. Estava empolgadíssimo com o TCC. Cujo tema Francisquinho achou o máximo: a diversidade estética e de gênero nas artes performáticas contemporâneas. Trabalho de grupo. A parte teórica estava quase pronta. A prática seria, é óbvio, uma performance. Em espaço cultural alternativo. Com registro fotográfico, filmagem, projeções, trilha sonora e transmissão pela internet.

Francisquinho dava a maior força. Pesquisava. Imprimia imagens. Sugeria detalhes de figurino. Morto de vontade de colaborar. Como se o TCC fosse dele também.

Chiquinho agradeceu. Mas foi categórico: nada a ver. Francisquinho compreendeu. Só queria ajudar.

Os ensaios começaram. No espaço cultural alternativo. Em um bairro afastado. Quase periferia. Chiquinho recusou a oferta de Francisquinho levá-lo. Não precisava. Ia de carona com o grupo. De ônibus. De metrô.

Ensaio de teatro sempre atrasa. Demora para acabar. Ensaio de performance então nem se fala. Nos primeiros ensaios Francisquinho esperava Chiquinho chegar. Preocupado com os assaltos, os traficantes, as balas perdidas. Nem prestava atenção ao filme, à notícia do jornal da noite, ao entrevistado do talk-show. Só se deitava porque precisava acordar cedo no dia seguinte. Mas não dormia. Ansioso esperando ouvir o barulho da chave na porta. 3h. 3h:30min.

Os dois eram adultos. Cada um conhecia suas responsabilidades. Longe de Francisquinho ser chato. Controlador. Podar o impulso criativo de Chiquinho. Por isso, fingia dormir quando Chiquinho entrava debaixo do lençol. Com cheiro de suor, bebida e cigarro amargando a madrugada.

Chiquinho e Francisquinho - 3

Mas a crise engendrava-se. Os sinais cada vez mais evidentes. Contrariedades bobas no começo: café fervendo na cafeteira; torrada passada do ponto; tênis jogados na sala; cocô de Bob que alguém esqueceu de limpar; etc.

Chiquinho achava normal. Coisas cotidianas. Problemas de casal. Francisquinho procurava cabelo em ovo. Francisquinho sentia-se culpado. Na obrigação de mudar atitudes. Mudar demandava esforço hercúleo.

Mesmo com a certeza do poder do amor que um sentia pelo outro. Mesmo com fé e perseverança supera-se qualquer obstáculo, frase transcrita por Francisquinho do horóscopo da internet diretamente para o cartão do presente de quinto aniversário do casamento: o cão. O filhote de São Bernardo. Tentativa desesperada. A última antes de apertar o botão para ejetar o banco do aviãozinho. E puxar a cordinha do paraquedas.

Assim, Chiquinho, Francisquinho e Bob viveram felizes. Para sempre. Ou quase. Por mais 3 meses. Até algumas semanas antes do final do período letivo.

Sim, havia Bob. Que ocupava cada vez mais espaço. Na relação entre Chiquinho e Francisquinho. Na varanda do apartamento de frente para o mar. Bob exigia tempo, disposição, atenção. Exigia descer 3 vezes por dia. Exigia veterinário, vacina, reclamação de vizinho. Bob ameaçava as férias no Caribe.

Onde deixar o pobre cãozinho? Os amigos desculpavam-se. Bob era muito grande. Hotel para bicho Chiquinho nem cogitava. Além disso, havia o TCC - trabalho de conclusão de curso.