Machado responde uma semana depois. A carta publicada no jornal onde trabalhava é a própria crítica solicitada.
A introdução é sobre a incipiente e árdua tarefa da crítica literária, da qual era um precursor no Brasil. Esbraveja contra a futilidade e a vaidade dos contemporâneos e contra a malévola influência estrangeira.
É elegante nos elogios a Alencar. Ironiza sutilmente as adjetivações da descrição da Tijuca, pelo autor consagrado. Para não ficar atrás, também ilustra o texto com personagens e passagens mitológicas.
Elogia Castro Alves. Minimiza os senões e as imperfeições de Gonzaga, justificando-os com a pouca idade do autor. Vislumbra um futuro brilhante ao poeta.
Futuro esse que só se materializou postumamente. Um ano depois da visita a Alencar e Machado, Castro Alves fere o pé com um tiro, em uma caçada. A ferida agrava-se, até a amputação da perna (sem anestesia, segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda). Seu estado de saúde é delicado, devido à fragilidade provocada pela amputação e pela tuberculose. Volta para a Bahia. Morre em 1871, com 24 anos.
Mostrando postagens com marcador autores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador autores. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 20 de junho de 2014
quinta-feira, 19 de junho de 2014
leitura clássica: correspondência de machado de assis
José de Alencar escreve a Machado pedindo que este publique uma crítica sobre o jovem poeta Castro Alves, vindo direto da Bahia. É uma carta toda empolada, o oposto do estilo do destinatário. Como não podia deixar de ser, para conseguir o intento, Alencar finaliza a missiva com uma bajulação descarada:
Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter o foro de cidade na imprensa da Corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera um cantor.
Seu melhor título, porém é outro. O senhor foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria.
Do senhor, pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária, que se revelou com tanto vigor.
Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.
...
A carta é rebuscada. Alencar cita o tempo o todo os clássicos, em uma erudição empoeirada aceitável no século XIX mas quase hilária na pós-contemporaneidade. Em 8 páginas, são inúmeras as figuras, trocadilhos, aforismos e eruditismos pérolas que Alencar pontua o texto. Vale a pena:
Nasceu na Bahia, terra de tão belos talentos; a Atenas Brasileira que não se cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros.
A genealogia dos poetas começa com seu primeiro poema.
O talento é uma religião, a palavra um sacerdócio - para elogiar o caráter do Dr. Fernandes da Cunha - um dos pontífices da tribuna brasileira.
Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora.
Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete de inteligência.
Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família? Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera.
Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia d'aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os voos.
...
Sobre a Tijuca, no Rio de Janeiro, onde Alencar morava:
O senhor conhece essa montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para almas cansadas de pousar no chão.
Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul.
Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade de berço.
A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por esse genuflexório, para se prostrar aos pés do Onipotente, conta três degraus: em cada um deles, uma contrição.
A chuva borrifou de aljôfares; as névoas delgadas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã.
O primeiro degrau seria o Alto da Boa Vista, de onde se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, etc etc. O segundo degrau é para as bandas da Gávea, em um lugar chamado Vista Chinesa. Ali, escreve Alencar, Deus entregou a um de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. O terceiro degrau é o Pico da Tijuca, de onde os olhos deslumbrados veem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter.
Prossegue:
Nessas paragens não podia meu hóspede [Castro Alves] sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio.
A natureza da terra de Castro Alves era comparável à exuberância da Tijuca. Lá, ela abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta.
...
Depois dessa breve introdução, Alencar desmancha-se em elogios às excelências da língua portuguesa no estilo de Castro Alves. Afirma que o poeta é discípulo de Vitor Hugo. Chama-o de Ticiano da Literatura. Fala que os moldes ousados da frase de Castro Alves são como os de Bevenuto Cellini. Afirma faltar maturidade e de pequenos senões em alguns trechos da peça Gonzaga, justificáveis pela tenra idade do poeta. Assim por diante.
...
Alencar, aos 40 anos, era já um escritor consagrado. Machado, aos 30, era um jornalista reconhecido mas ainda não tinha alcançado o auge literário. Castro Alves, 21 anos, apresentava ao grande Alencar os manuscritos da peça Gonzaga, encenada algumas vezes mas só publicada postumamente, 3 anos depois da visita ao Rio de Janeiro.
...
Dever de casa para o leitor que conseguiu ler até aqui: pesquisar na Wikipedia os nomes próprios citados nos trechos extraídos da carta escrita por José de Alencar a Machado de Assis, em fevereiro de 1868.
Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter o foro de cidade na imprensa da Corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera um cantor.
Seu melhor título, porém é outro. O senhor foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria.
Do senhor, pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária, que se revelou com tanto vigor.
Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.
...
A carta é rebuscada. Alencar cita o tempo o todo os clássicos, em uma erudição empoeirada aceitável no século XIX mas quase hilária na pós-contemporaneidade. Em 8 páginas, são inúmeras as figuras, trocadilhos, aforismos e eruditismos pérolas que Alencar pontua o texto. Vale a pena:
Nasceu na Bahia, terra de tão belos talentos; a Atenas Brasileira que não se cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros.
A genealogia dos poetas começa com seu primeiro poema.
O talento é uma religião, a palavra um sacerdócio - para elogiar o caráter do Dr. Fernandes da Cunha - um dos pontífices da tribuna brasileira.
Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora.
Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete de inteligência.
Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família? Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera.
Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia d'aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os voos.
...
Sobre a Tijuca, no Rio de Janeiro, onde Alencar morava:
O senhor conhece essa montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para almas cansadas de pousar no chão.
Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul.
Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade de berço.
A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por esse genuflexório, para se prostrar aos pés do Onipotente, conta três degraus: em cada um deles, uma contrição.
A chuva borrifou de aljôfares; as névoas delgadas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã.
O primeiro degrau seria o Alto da Boa Vista, de onde se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, etc etc. O segundo degrau é para as bandas da Gávea, em um lugar chamado Vista Chinesa. Ali, escreve Alencar, Deus entregou a um de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. O terceiro degrau é o Pico da Tijuca, de onde os olhos deslumbrados veem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter.
Prossegue:
Nessas paragens não podia meu hóspede [Castro Alves] sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio.
A natureza da terra de Castro Alves era comparável à exuberância da Tijuca. Lá, ela abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta.
...
Depois dessa breve introdução, Alencar desmancha-se em elogios às excelências da língua portuguesa no estilo de Castro Alves. Afirma que o poeta é discípulo de Vitor Hugo. Chama-o de Ticiano da Literatura. Fala que os moldes ousados da frase de Castro Alves são como os de Bevenuto Cellini. Afirma faltar maturidade e de pequenos senões em alguns trechos da peça Gonzaga, justificáveis pela tenra idade do poeta. Assim por diante.
...
Alencar, aos 40 anos, era já um escritor consagrado. Machado, aos 30, era um jornalista reconhecido mas ainda não tinha alcançado o auge literário. Castro Alves, 21 anos, apresentava ao grande Alencar os manuscritos da peça Gonzaga, encenada algumas vezes mas só publicada postumamente, 3 anos depois da visita ao Rio de Janeiro.
...
Dever de casa para o leitor que conseguiu ler até aqui: pesquisar na Wikipedia os nomes próprios citados nos trechos extraídos da carta escrita por José de Alencar a Machado de Assis, em fevereiro de 1868.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
segunda-feira, 9 de junho de 2014
algumas leituras recentes e recomendadas
1. Os rios profundos, José Maria Aguedas (Peru).
2. A avódezanove e o segredo do soviético. (Angola)
3. Cidades Rebeldes. Análise de diversos autores sobre as grandes manifestações populares ocorridas no Brasil a partir de junho de 2013.
2. A avódezanove e o segredo do soviético. (Angola)
3. Cidades Rebeldes. Análise de diversos autores sobre as grandes manifestações populares ocorridas no Brasil a partir de junho de 2013.
homens ilustres: coriolano
A próxima vida ilustre de Plutarco é Caio Márcio, chamado Coriolano. Um grande e controverso general romano, que viveu no século V a.C.
É uma história empolgante, cheia de escaramuças bélicas e políticas. Pouco a se acrescentar. A não ser sugerir a leitura da peça homônima de Shakespeare (que pode ser baixada clicando aqui). Ou assistir Coriolanus, filme de Ralph Fiennes (Inglaterra, 2011), que traz a história antiga para a os dias atuais.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
homens ilustres: alcibíades
![]() |
| Alcibíades & Sócrates |
Até o vetusto Plutarco empolga-se ao descrever a beleza de Alcibíades:
Quanto a sua beleza, já não é necessário dizer nada. Direi somente, de passagem, que ela se manteve sempre florescente, na sua infância e adolescência, conservando-se perfeita em sua maturidade. Alcibíades se manteve assim, atraente e agradável em todas as estações de sua vida. [...] Foi essa porém uma característica peculiar de Alcibíades em virtude do equilívrio perfeitamente harmônico de seu corpo.
O único defeito era a língua presa. Mas nem isso foi motivo de chacota nem tirou-lhe a fama de bom orador. Pelo contrário. Os gregos achavam a pronúncia de Alcibíades um charme, uma certa graça ingênua e atraente.
Diz ainda o maledicente Plutarco que Alcibíades recusou-se a aprender a tocar flauta por que suas bochechas deformavam-se ao soprar o instrumento, estragando assim a harmonia de seu rostinho angelical.
...
Além de ser o gato mais lindo do pedaço, Alcibíades:
a) pertencia a uma das famílias mais tradicionais da Grécia (dizem que descendia do guerreiro Ájax, um dos dióscuros, filho da mortal Leda fecundada por Zeus em forma de Cisne);
b) Foi criado por Péricles (governante responsável pelo período de maior esplendor artístico e cultural de Atenas);
c) era rico, inteligente, espirituoso, simpático, generoso, competente, visionário, sensato, queridinho do povo;
d) e pândego, esbanjador, mimado, vaidoso, intolerante, orgulhoso, arruaceiro, volúvel, mulherengo, ciumento, possessivo, vingativo, etc.
...
Alcibíades rapidamente ascendeu na política. Foi eleito comandante de uma expedição contra Siracusa, na Sicília, e fracassou. Ao mesmo tempo foi acusado de estar envolvido em crime de profanação sacrílega de estátuas de Hermes. Com isso foi destituído do cargo e condenado ao exílio. Refugiou-se em Esparta, onde instigou a guerra contra os atenienses, que estavam sob o jugo de políticos de índole duvidosa. Alguns anos depois foi perdoado e retornou do exílio. Voltou a Atenas para comandar a esquadra ateniense. Conquistou importantes vitórias sobre Esparta e recolocou o domínio do Mar Egeu nas mãos de Atenas. Mas em razão de artimanhas políticas, foi novamente destituído do cargo, fugindo então para a Pérsia, onde ficou amigo do rei, tornando-se seu conselheiro. Porém os invejosos políticos arranjaram um jeito de assassiná-lo.
...
A amizade (ou o romance tórrido) entre o belo Alcibíades e o horroroso Sócrates foi imortalizada em um dos Diálogos de O Banquete, de Platão. O resumo é da wikipedia:
Alcibíades irrompe pelo banquete já bêbado e no meio da discussão sobre eros. Alcibíades enciumado arma o maior barraco ao ver Sócrates no banquete. Sócrates, por seu lado, implora a Ágaton que o defenda de Alcibíades: "Ele não larga do meu pé! Desde os tempos em que me apaixonei por ele eu não posso sequer olhar ou conversar com um único jovem belo!"
Alcibíades lança-se então em uma série de elogios a Sócrates, "logo que Sócrates começa a falar, fico fora de mim, o meu coração começa a saltar no meu peito, as lágrimas escorrem-me pelo rosto", e assim por diante.
A certa altura Alcibíades revela como tentou seduzir Sócrates usando os seus encantos físicos: "Eis que o convido para jantar, muito simplesmente à maneira de um amante que prepara uma cilada ao seu bem-amado" para conseguir obter dele tudo o que ele sabia. Mas em vão, mesmo depois de todos se terem ido e de Alcibíades se ter deitado no leito de Sócrates, sob a sua capa, nada mais aconteceu "do que se tivesse dormido com o meu pai ou com um irmão mais velho".
No final do diálogo, Sócrates e Alcibíades permanecem distantes e Sócrates remata: "Julgas, é claro, que eu tenho obrigação de te amar a ti e a mais ninguém. Mas não, não me escapaste, essa tua comédia de sátiros e silenos foi por demais evidente"
...
Apesar da porralouquice da juventude e dos excessos e excentricidades durante a maturidade, Alcibíades foi um estrategista muito competente e um grande político. Defendeu, lutou e realizou grandes conquistas para Atenas, mesmo tendo sido expulso por duas vezes. Quem sabe o único bofe-escândalo com conteúdo e grandiosidade suficientes para ser imortalizado pela história.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
pelópidas e o batalhão sagrado
O general Pelópidas (séc. IV a.C) venceu uma das batalhas contra os espartanos com a ajuda do Batalhão Sagrado, uma tropa de elite do exército tebano que consistia de 150 pares organizados por idade. Vale a pena ressuscitar os 3 capítulos que Plutarco dedica a esse amoroso batalhão:
[...] compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público. [...] Outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros. [...]
Plutarco cita o filósofo Parmênides que, com base na formação do Batalhão Sagrado tebano, criticou jocosamente a Ilíada de Homero, ao aconselhar os gregos a estratégia de se alinharem nas batalhas por nação ou linhagem:
Era necessário, dizia ele [Parmênides] colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.
No capítulo seguinte Plutarco discorre sobre aquele exemplo gay heróico clássico:
[...] se é verdade que os amorosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar.
Plutarco prossegue falando dos amores entre Hércules e Iolau, de Laio (o pai de Édipo) e Crísipo (filho de Pelópidas) e de Platão, que chama o amante de amigo divino ou inspirado dos deuses.
Por fim o Batalhão Sagrado foi derrotado pelos exércitos de Filipe o Grande, da Macedônia. Quando Filipe percorreu o campo da batalha e deparou os trezentos homens do Batalhão Sagrado deitados por terra, todos perfurados por grandes golpes de lança através do estômago, e colocados, ainda cobertos com suas armas, uns junto dos outros, do que assombrou-se enormemente [...] e começou a chorar de piedade, dizendo: - "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto".
Plutarco encerra o excerto sobre o Batalhão Sagrado explicando as razões dessas estratégias militares pouco comuns:
[...]
Em suma, o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres. [...] Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens. [...] isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.
...
Ou seja, o útil e o agradável para a felicidade geral da nação.
[...] compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público. [...] Outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros. [...]
Plutarco cita o filósofo Parmênides que, com base na formação do Batalhão Sagrado tebano, criticou jocosamente a Ilíada de Homero, ao aconselhar os gregos a estratégia de se alinharem nas batalhas por nação ou linhagem:
Era necessário, dizia ele [Parmênides] colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.
No capítulo seguinte Plutarco discorre sobre aquele exemplo gay heróico clássico:
[...] se é verdade que os amorosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar.
Plutarco prossegue falando dos amores entre Hércules e Iolau, de Laio (o pai de Édipo) e Crísipo (filho de Pelópidas) e de Platão, que chama o amante de amigo divino ou inspirado dos deuses.
Por fim o Batalhão Sagrado foi derrotado pelos exércitos de Filipe o Grande, da Macedônia. Quando Filipe percorreu o campo da batalha e deparou os trezentos homens do Batalhão Sagrado deitados por terra, todos perfurados por grandes golpes de lança através do estômago, e colocados, ainda cobertos com suas armas, uns junto dos outros, do que assombrou-se enormemente [...] e começou a chorar de piedade, dizendo: - "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto".
Plutarco encerra o excerto sobre o Batalhão Sagrado explicando as razões dessas estratégias militares pouco comuns:
[...]
Em suma, o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres. [...] Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens. [...] isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.
...
Ou seja, o útil e o agradável para a felicidade geral da nação.
terça-feira, 20 de maio de 2014
dia das mães no grande sertão
Mãe é muito mais mãe no sertão.
...
O texto a seguir era uma homenagem ao dia das mães. Servia para mostrar que na ética rude dos jagunços, a mãe de cada um ocupa o lugar sagrado, santificado. Falar mal da mãe e ser chamado de ladrão são as piores ofensas, e dessas não há saída nem perdão. A obrigação do ofendido era lutar até vingar a ofensa com a morte do ofensor.
Abandonei pelo meio e a ideia se perdeu. Perdeu-se também o sentido da tentativa de recuperá-la. Porém, para não desperdiçar o trabalho, vale a pena ler nem que seja pela beleza dos trechos transcritos.
...
O julgamento de Zé Bebelo é um trecho é seminal do romance. A partir dele Riobaldo assume para si mesmo o amor físico e carnal por Diadorim, e a malignidade do Hermógenes revela-se quando este, juntamente com o Ricardão, assassinam Joca Ramiro à traição.
É um julgamento sem lei. Ou melhor, na lei inexorável do sertão.
Riobaldo narra de forma a confundir o interlocutor, disfarçando o limite entre o trágico e o cômico, o puro lorotal de Zé Bebelo. O trecho me faz lembrar o chá da lebre de Março, em Alice no país das maravilhas:
O julgamento? Digo: aquilo foi coisa séria de importante. [...] "O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão..." - o senhor dirá. [...] Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!
[...]
"Homem engraçado, homem dôido!" - Diadorim ainda achava.
[...]
Tinha sido aquilo: Joca Ramiro chegando, real, em seu alto cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo à pé, rasgado e sujo, sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro por dois homens. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo empinou o queixo, inteirou de olhar aquele, cima a baixo. Daí disse"
- "Dê respeito, chefe. O senhor diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!"
- "O senhor se acalme. O senhor está preso..." - Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.
Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:
- "Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver..."
[...]
Assim isso. Tolêimas todas? Não por não.
Assim por diante.
...
Joca Ramiro reúne os maiorais Sô Candelário, Hermógenes, Ricardão, Titão Passos e João Goanhá numa confa. Trazem Zé Bebelo, que se senta no tamborete de Joca Ramiro, colocado no centro do círculo formado pela jagunçada. Sugere, com a maior cara de pau, que os outros sentem-se no chão. Os jagunços se eriçam com tamanha ousadia. Joca Ramiro aceita o displante. Só então Zé Bebelo abandona o banquinho, sentando-se ao mesmo nível dos outros.
Então começam a falar os maiorais, principiado pelas acusações e sentença de morte cruel, pelo Hermógenes:
- "Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar esse cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele - a ver se a vida sobrava, para não sobrar!"
Depois da fala do Hermógenes Zé Bebelo pira de vez. Ironiza, achincalha a fala com gestos e interjeições debochadas. Encara e enfrenta o olhar do Hermógenes. Faz a raiva do Hermógenes ferver. Ao ponto dele exigir, numa voz rachada em duas, voz torta e entortada (a voz do demo?):
- "Tibes, trapo, o desgraçado desse canalha que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso. Meu direito é acabar com ele, Chefe!"
Os jagunços se eriçam. Resmungam em aprovação. Os do bando do Hermógenes incitam a vingança em voz alta. Mas Joca Ramiro era mesmo um líder, um tutùmumbuca, grande maioral. Contrapôs:
- "Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo..."
E era verdade. Todo o mundo concordou. [...] Só para o nome-da-mãe ou de "ladrão" era que não havia remédio, por ser a ofensa grave.
...
Fato inquestionável. O Hermógenes foi obrigado a engolir a raiva. E provavelmente amadurecer a ideia da traição e assassinato de Joca Ramiro, dando então início à verdadeira saga do romance.
...
O texto a seguir era uma homenagem ao dia das mães. Servia para mostrar que na ética rude dos jagunços, a mãe de cada um ocupa o lugar sagrado, santificado. Falar mal da mãe e ser chamado de ladrão são as piores ofensas, e dessas não há saída nem perdão. A obrigação do ofendido era lutar até vingar a ofensa com a morte do ofensor.
Abandonei pelo meio e a ideia se perdeu. Perdeu-se também o sentido da tentativa de recuperá-la. Porém, para não desperdiçar o trabalho, vale a pena ler nem que seja pela beleza dos trechos transcritos.
...
O julgamento de Zé Bebelo é um trecho é seminal do romance. A partir dele Riobaldo assume para si mesmo o amor físico e carnal por Diadorim, e a malignidade do Hermógenes revela-se quando este, juntamente com o Ricardão, assassinam Joca Ramiro à traição.
É um julgamento sem lei. Ou melhor, na lei inexorável do sertão.
Riobaldo narra de forma a confundir o interlocutor, disfarçando o limite entre o trágico e o cômico, o puro lorotal de Zé Bebelo. O trecho me faz lembrar o chá da lebre de Março, em Alice no país das maravilhas:
O julgamento? Digo: aquilo foi coisa séria de importante. [...] "O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão..." - o senhor dirá. [...] Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!
[...]
"Homem engraçado, homem dôido!" - Diadorim ainda achava.
[...]
Tinha sido aquilo: Joca Ramiro chegando, real, em seu alto cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo à pé, rasgado e sujo, sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro por dois homens. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo empinou o queixo, inteirou de olhar aquele, cima a baixo. Daí disse"
- "Dê respeito, chefe. O senhor diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!"
- "O senhor se acalme. O senhor está preso..." - Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.
Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:
- "Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver..."
[...]
Assim isso. Tolêimas todas? Não por não.
Assim por diante.
...
Joca Ramiro reúne os maiorais Sô Candelário, Hermógenes, Ricardão, Titão Passos e João Goanhá numa confa. Trazem Zé Bebelo, que se senta no tamborete de Joca Ramiro, colocado no centro do círculo formado pela jagunçada. Sugere, com a maior cara de pau, que os outros sentem-se no chão. Os jagunços se eriçam com tamanha ousadia. Joca Ramiro aceita o displante. Só então Zé Bebelo abandona o banquinho, sentando-se ao mesmo nível dos outros.
Então começam a falar os maiorais, principiado pelas acusações e sentença de morte cruel, pelo Hermógenes:
- "Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar esse cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele - a ver se a vida sobrava, para não sobrar!"
Depois da fala do Hermógenes Zé Bebelo pira de vez. Ironiza, achincalha a fala com gestos e interjeições debochadas. Encara e enfrenta o olhar do Hermógenes. Faz a raiva do Hermógenes ferver. Ao ponto dele exigir, numa voz rachada em duas, voz torta e entortada (a voz do demo?):
- "Tibes, trapo, o desgraçado desse canalha que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso. Meu direito é acabar com ele, Chefe!"
Os jagunços se eriçam. Resmungam em aprovação. Os do bando do Hermógenes incitam a vingança em voz alta. Mas Joca Ramiro era mesmo um líder, um tutùmumbuca, grande maioral. Contrapôs:
- "Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo..."
E era verdade. Todo o mundo concordou. [...] Só para o nome-da-mãe ou de "ladrão" era que não havia remédio, por ser a ofensa grave.
...
Fato inquestionável. O Hermógenes foi obrigado a engolir a raiva. E provavelmente amadurecer a ideia da traição e assassinato de Joca Ramiro, dando então início à verdadeira saga do romance.
terça-feira, 6 de maio de 2014
a enciclopédia
| Imagem do verbete: Jardim, Reinaldo - na Delta Larousse recuperada. 1970. |
Pois é. Herdei involuntariamente duas delas quando mudei para a atual casa: uma Delta Larousse em 12 volumes e uma Larousse Cultural, 20 volumes. O que fazer com elas? Doar? só se fosse para reciclagem, uma vez que foram recusadas pelas bibliotecas públicas consultadas. Deu pena, guardei. A Larousse Cultural que estava em melhor forma foi para a estante. A Delta, muito detonada, foi encaixotada e guardada de qualquer jeito no quartinho de tralhas.
Acordei hoje incorporado no bicho-arrumadeiro. Tirei os volumes da caixa, limpei com pano seco um a um. O volume do fundo estava em pior estado. Páginas coladas pela umidade e muito mofo. Coloquei-o no sol. Desgrudei folha a folha, com muito cuidado. 1 hora ou 2 de trabalho braçal. Enquanto descolava e limpava as folhas, todo o projeto do livro novo que estava bloqueado no pensamento veio fluindo, definindo-se, se esclarecendo, junto com as lembranças e a leitura de um verbete ou outro, quase intacto ou semi-encoberto pelo mofo preto do esquecimento.
conjecturas sobre o grande sertão (erguendo bandeiras)
Depois
do julgamento e absolvição do chefe inimigo Zé Bebelo, era o fim da guerra. Os mais
de 500 jagunços vencedores, comandados por Joca Ramiro dividem-se em grupos menores e
se dirigem para regiões diferentes do sertão.
Joca Ramiro segue com Hermógenes e Ricardão. Riobaldo e Reinaldo-Diadorim seguem no bando de Titão Passos. Por 2 meses, trégua entre uma guerra e outra, o bando acampa em um lugar paradisíaco (e fatídico, como se verá mais tarde) chamado Guararavacã do Guaicuí:
Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada. [...] O que, por começo, corria desino para a gente, ali era: bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão - que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte. Todo dia se comia bom peixe novo, pescado fácil. [...] Nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. Dormir sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. [...] O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha a ideia de tudo só ser o passado no futuro.
Foi nesse jardim do éden sertanejo que pela primeira vez Riobaldo assumiu para si mesmo o amor e o desejo por Diadorim:
Aquele lugar, o ar. Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. [...] O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor...". [...] Um Diadorim só para mim. [...] Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.
Depois do enlevo, do êxtase, quase epifania do amor revelado, vem o bote e o veneno da serpente da culpa:
"Se é o que é" - eu pensei - "eu estou meio perdido..." Acertei minha ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia por paz de honra e tenência sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia quebrar o morro: acabar comigo! - com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo.
Porém os acontecimentos tomam outro rumo quando chega a notícia da morte de Joca Ramiro, à traição, pelos judas Hermógenes e Ricardão.
...
Exceto uma dica lá pela terça parte do livro, Rosa leva o amor gay do jagunço Riobaldo pelo jagunço Reinaldo-Diadorim em suspense crescente até as últimas páginas quando, com sua morte, revela-se a identidade feminina de Diadorim.
Parte dos críticos não admite o desfecho. Consideram covardia de Rosa encobrir a homossexualidade estrutural do Grande Sertão. Afinal, a grosso modo, o conflito das mais de 500 páginas da tentativa de Riobaldo sair do armário, estaria irremediavelmente aniquilado com o absurdo da solução encontrada pelo autor: adaptar o romance à conformidade moral & social vigentes, transmutando em mulher o objeto de desejo homoafetivo no narrador.
Sem negar o deslumbre renovado pelo GS:V a cada tresleitura, eu faço parte desse coro. Querendo ou não, o Grande sertão é, além de um dos mais maravilhosos textos da língua portuguesa, talvez o mais importante romance gay escrito até hoje.
E lanço dúvidas: A magnificência, a grandiosidade, a universalidade do GS:V estaria comprometida se, no fim - ao lado do cego Borromeu e do menino Guirigó e diante da jagunçada - se, diante do corpo morto e nu do amado, o narrador Riobaldo assumisse o amor-estrela, o amor-guia, o amor-transformação - o amor que ele, o jagunço Riobaldo sentiu pelo jagunço Reinaldo-Diadorim?
Ou isso estaria muito além do alcance de Rosa e da própria época em que o romance foi escrito?
Joca Ramiro segue com Hermógenes e Ricardão. Riobaldo e Reinaldo-Diadorim seguem no bando de Titão Passos. Por 2 meses, trégua entre uma guerra e outra, o bando acampa em um lugar paradisíaco (e fatídico, como se verá mais tarde) chamado Guararavacã do Guaicuí:
Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada. [...] O que, por começo, corria desino para a gente, ali era: bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão - que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte. Todo dia se comia bom peixe novo, pescado fácil. [...] Nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. Dormir sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. [...] O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha a ideia de tudo só ser o passado no futuro.
Foi nesse jardim do éden sertanejo que pela primeira vez Riobaldo assumiu para si mesmo o amor e o desejo por Diadorim:
Aquele lugar, o ar. Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. [...] O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor...". [...] Um Diadorim só para mim. [...] Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.
Depois do enlevo, do êxtase, quase epifania do amor revelado, vem o bote e o veneno da serpente da culpa:
"Se é o que é" - eu pensei - "eu estou meio perdido..." Acertei minha ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia por paz de honra e tenência sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia quebrar o morro: acabar comigo! - com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo.
Porém os acontecimentos tomam outro rumo quando chega a notícia da morte de Joca Ramiro, à traição, pelos judas Hermógenes e Ricardão.
...
Exceto uma dica lá pela terça parte do livro, Rosa leva o amor gay do jagunço Riobaldo pelo jagunço Reinaldo-Diadorim em suspense crescente até as últimas páginas quando, com sua morte, revela-se a identidade feminina de Diadorim.
Parte dos críticos não admite o desfecho. Consideram covardia de Rosa encobrir a homossexualidade estrutural do Grande Sertão. Afinal, a grosso modo, o conflito das mais de 500 páginas da tentativa de Riobaldo sair do armário, estaria irremediavelmente aniquilado com o absurdo da solução encontrada pelo autor: adaptar o romance à conformidade moral & social vigentes, transmutando em mulher o objeto de desejo homoafetivo no narrador.
Sem negar o deslumbre renovado pelo GS:V a cada tresleitura, eu faço parte desse coro. Querendo ou não, o Grande sertão é, além de um dos mais maravilhosos textos da língua portuguesa, talvez o mais importante romance gay escrito até hoje.
E lanço dúvidas: A magnificência, a grandiosidade, a universalidade do GS:V estaria comprometida se, no fim - ao lado do cego Borromeu e do menino Guirigó e diante da jagunçada - se, diante do corpo morto e nu do amado, o narrador Riobaldo assumisse o amor-estrela, o amor-guia, o amor-transformação - o amor que ele, o jagunço Riobaldo sentiu pelo jagunço Reinaldo-Diadorim?
Ou isso estaria muito além do alcance de Rosa e da própria época em que o romance foi escrito?
sexta-feira, 18 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
crítica tardia (e presunçosa) para ninguém ler
| (Foto da foto de Dora Levy, no catálogo da instalação Grande sertão: veredas, concebida para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, março de 2006) |
Ganhei de presente outro dia uma edição especial comemorativa dos 50 anos do Grande sertão: veredas, acompanhada de um catálogo da instalação de Bia Lessa criada para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, em 2006. Eu vi a exposição mas por pão-durice ou falta de grana mesmo, não tinha comprado o pacote.
Depois de tantos anos, revendo o material, escrevi há pouco uma crítica retardatária e presunçosa. Dois trechos:
Elementos da instalação são um verdadeiro luxo: as 415 folhas dos originais, datilografadas e corrigidas pelo autor, foram reproduzidas e impressas em tecido, em grande formato, e dependuradas por todo o espaço, podendo ser manuseadas e lidas pelos visitantes por meio de um sistema de roldanas e contrapesos feitos com saquinhos de areia. A instalação podia ser percorrida seguindo-se 7 roteiros marcados no chão, representando trajetórias dos personagens (Riobaldo, Diadorim, Interlocutor, Diabo) e/ou eventos-acontecimentos do/sobre o romance (Estudos para Obra e Original, Fragmentos, Batalha).
Bia Lessa (diretora, atriz, artista multimídia) afirma no texto de apresentação a impossibilidade de trabalhar o Grande Sertão em imagens. Então ela borda, imprime ou projeta fragmentos do texto do romance aplicados a tecidos, tapetes e materiais de construção: pilhas de tijolos, andaimes, tambores, galões, baldes, cordas, terra vermelha, areia, restos e entulhos aproveitados da própria obra do recém-construído Museu.
Daí em diante meu texto foi só detonação. Abusei de palavras depreciativas: sujeira, equívoco, superficialidade, etc.
Antes de publicar, resolvi ver/ouvir o CDrom que acompanha o catálogo. Rememorei a visita há 8 anos.
Fiquei tão fixado no não-gostar dos materiais de construção e escombros e entulho usados como suportes dos fragmentos de texto que me esqueci da beleza da parte tecnológica da instalação - as projeções de vídeos; os depoimentos (Antonio Callado, Antonio Cândido, Décio Pignatari, Haroldo de Campos e vários outros); das fotografias; e da emocionante leitura do trecho final do romance, por Maria Bethania - presentes na instalação e no CDrom).
Então entendi que não tinha entendido nada. O simplista, o sujo, o equivocado, o superficial era eu. Eu me senti ridículo, idiota. Me arrependi. Só não apaguei o texto para guardar, para me lembrar, daqui para a frente, em pensar 100 vezes antes de falar mal de algo que a inteligência não alcança.
sábado, 5 de abril de 2014
segunda-feira, 31 de março de 2014
homens ilustres - fábio máximo
Outro dia levei uma bronca de um Leitor pela falta de rigor histórico no resumo da vida de Péricles (leia aqui). O Leitor indignado, além de descendente direto dos heróis, deuses, filósofos e matemáticos gregos, ainda era profundo conhecedor dos fatos que eu manhosamente distorci.
Justifiquei. Dei o braço a torcer. Para falar de temas árduos e empoeirados e ainda manter a multidão dos 4 leitores-seguidores do blog, a estratégia é fazer fofoca. Fofoca sobre gente famosa (mesmo que mortos há mais de 2 mil anos) rende mais popularidade do que os grandes feitos desses ilustres. Agô, Ibrahim Sued.
Assim, com o perdão do helênico Leitor amigo, prossigo a tarefa de resenhar Plutarco. Hoje para falar de Fábio Máximo, o biografado paralelo a Péricles.
...
A árvore genealógica dos Fabianos é extensa e mitológica (dizem que o primeiro Fábio foi gerado pelo semideus Hércules no ventre de uma ninfa, à beira do rio Tibre).
Os antepassados de Fábio eram conhecidos por um nome não tão chique: Fodianos. A wikipédia explica, com uma pitada de malícia:
[...] pois eles [os Fodianos] capturavam animais selvagens em buracos-armadilhas; à época de Plutarco, a palavra latina fossae significava fossa, e o verbo fodere significava cavar; com o tempo, por uma troca de letras, a família passou a se chamar Fabii.
Como brinde do texto, uma nota de rodapé:
O verbo em latim fodere não deve ser confundido com o latim vultar futuere, que deu origem ao verbo em português foder; alguns analistas, porém, consideram que fodere e futere eram o mesmo verbo.
Como diria a amiga traveca: aff!
...
Antes de ter recebido o apelido de Máximo, por seus grandes feitos, na adolescência Fábio ficou conhecido pelos colegas como Fábio Rulo (não me perguntem a razão); na juventude ele foi Fábio Verrugoso, por causa de um sinal semelhante a uma pequena verruga que lhe apareceu nos lábios. Mas talvez o apelido mais difícil dele conviver tenha sido Fábio Ovícula (= ovelhazinha).
Plutarco faz questão de enumerar os motivos da pecha):
- doçura excessiva, lentidão e peso do modo de Fábio agir desde a infância;
- natureza lenta, tranquila e repousada, atitude taciturna;
- ter sido visto poucas vezes brincando nos jogos infantis;
- ser duro de entendimento, tendo dificuldade em compreender o que lhe ensinavam;
- excessiva obediência a todos com quem andava.
Porém as aparências enganaram. Vistos de perto, a aparente tolice era uma gravidade inalterável; a timidez era prudência; o fato de não ser precipitado e inquieto era firmeza e constância. Ou seja, a renca de defeitos escondia a natureza imutável e a magnanimidade de leão - o futuro mais que promissor do garoto.
...
Apesar dos grandes feitos e inúmeras batalhas vencidas, com os deuses intervindo a favor dos romanos, e de ter sido eleito Cônsul por 5 vezes, a sessão "fofoca" na vida de Fábio Máximo encerra-se logo no início. Depois do capítulo V, estendem-se 54 capítulos entediantes descrevendo escaramuças de guerra e negociatas políticas.
...
Vale a pena descrever uma cena terrível, estratagema bélico em uma batalha entre cartagineses e romanos, nas famosas Guerras Púnicas:
O exército comandado pelo general cartaginês Aníbal tinha sido sitiado pelos romanos. Aníbal então determinou que fossem escolhidos 2 mil bois, dentre os capturados nas pilhagens, e fez amarrarem-lhes nos chifres tochas fabricadas com ramos de salgueiro e videiras secos. Quando veio a noite, Aníbal ordenou aos soldados que pusessem fogo aos feixes e tocassem os bois na direção dos romanos. Enquanto o fogo na cabeça dos bois era fraco, eles caminhavam calmamente pela encosta das montanhas. Porém quando os chifres foram queimados até a raiz e o fogo penetrou a carne viva, os bois começaram a debater-se e a sacudir as cabeças, espalhando entre si o fogo, cada vez mais. Movidos pela dor e pelo terror, começaram a correr de um lado para o outro, ateando fogo a tudo onde passavam.
De longe e no escuro, os sentinelas romanos pensaram serem os soldados inimigos avançando com archotes para cercá-los por todos os lados. Debandaram apavorados, deixando o caminho livre para o exército cartaginês que, aproveitando a confusão e a escuridão, avançou em linha reta para o acampamento romano, ganhando assim a batalha.
...
Com isso, Fábio foi destituído do cargo pelo povo romano que, como já se viu antes, era volúvel. Um dia amava seus dirigentes, no outro o condenava. Mas quando a situação ficou preta de novo, o povo mandou chamar e reempossou Fábio; novamente o destituiu; assim, sucessivamente, por 5 vezes.
Depois da quinta demissão e da perda dos bens (dessa vez tinha sido condenado pelos senadores), Fábio seguiu para o exílio. Contraiu uma doença e morreu antes de ver o fim da guerra e a derrota de Aníbal. O povo romano (sempre do contra) reconheceu o heroísmo do biografado. Cada cidadão contribuiu com uma menor moeda existente, para render uma enorme homenagem à sua vida e virtude.
Justifiquei. Dei o braço a torcer. Para falar de temas árduos e empoeirados e ainda manter a multidão dos 4 leitores-seguidores do blog, a estratégia é fazer fofoca. Fofoca sobre gente famosa (mesmo que mortos há mais de 2 mil anos) rende mais popularidade do que os grandes feitos desses ilustres. Agô, Ibrahim Sued.
Assim, com o perdão do helênico Leitor amigo, prossigo a tarefa de resenhar Plutarco. Hoje para falar de Fábio Máximo, o biografado paralelo a Péricles.
...
A árvore genealógica dos Fabianos é extensa e mitológica (dizem que o primeiro Fábio foi gerado pelo semideus Hércules no ventre de uma ninfa, à beira do rio Tibre).
Os antepassados de Fábio eram conhecidos por um nome não tão chique: Fodianos. A wikipédia explica, com uma pitada de malícia:
[...] pois eles [os Fodianos] capturavam animais selvagens em buracos-armadilhas; à época de Plutarco, a palavra latina fossae significava fossa, e o verbo fodere significava cavar; com o tempo, por uma troca de letras, a família passou a se chamar Fabii.
Como brinde do texto, uma nota de rodapé:
O verbo em latim fodere não deve ser confundido com o latim vultar futuere, que deu origem ao verbo em português foder; alguns analistas, porém, consideram que fodere e futere eram o mesmo verbo.
Como diria a amiga traveca: aff!
...
Antes de ter recebido o apelido de Máximo, por seus grandes feitos, na adolescência Fábio ficou conhecido pelos colegas como Fábio Rulo (não me perguntem a razão); na juventude ele foi Fábio Verrugoso, por causa de um sinal semelhante a uma pequena verruga que lhe apareceu nos lábios. Mas talvez o apelido mais difícil dele conviver tenha sido Fábio Ovícula (= ovelhazinha).
Plutarco faz questão de enumerar os motivos da pecha):
- doçura excessiva, lentidão e peso do modo de Fábio agir desde a infância;
- natureza lenta, tranquila e repousada, atitude taciturna;
- ter sido visto poucas vezes brincando nos jogos infantis;
- ser duro de entendimento, tendo dificuldade em compreender o que lhe ensinavam;
- excessiva obediência a todos com quem andava.
Porém as aparências enganaram. Vistos de perto, a aparente tolice era uma gravidade inalterável; a timidez era prudência; o fato de não ser precipitado e inquieto era firmeza e constância. Ou seja, a renca de defeitos escondia a natureza imutável e a magnanimidade de leão - o futuro mais que promissor do garoto.
...
Apesar dos grandes feitos e inúmeras batalhas vencidas, com os deuses intervindo a favor dos romanos, e de ter sido eleito Cônsul por 5 vezes, a sessão "fofoca" na vida de Fábio Máximo encerra-se logo no início. Depois do capítulo V, estendem-se 54 capítulos entediantes descrevendo escaramuças de guerra e negociatas políticas.
...
Vale a pena descrever uma cena terrível, estratagema bélico em uma batalha entre cartagineses e romanos, nas famosas Guerras Púnicas:
O exército comandado pelo general cartaginês Aníbal tinha sido sitiado pelos romanos. Aníbal então determinou que fossem escolhidos 2 mil bois, dentre os capturados nas pilhagens, e fez amarrarem-lhes nos chifres tochas fabricadas com ramos de salgueiro e videiras secos. Quando veio a noite, Aníbal ordenou aos soldados que pusessem fogo aos feixes e tocassem os bois na direção dos romanos. Enquanto o fogo na cabeça dos bois era fraco, eles caminhavam calmamente pela encosta das montanhas. Porém quando os chifres foram queimados até a raiz e o fogo penetrou a carne viva, os bois começaram a debater-se e a sacudir as cabeças, espalhando entre si o fogo, cada vez mais. Movidos pela dor e pelo terror, começaram a correr de um lado para o outro, ateando fogo a tudo onde passavam.
De longe e no escuro, os sentinelas romanos pensaram serem os soldados inimigos avançando com archotes para cercá-los por todos os lados. Debandaram apavorados, deixando o caminho livre para o exército cartaginês que, aproveitando a confusão e a escuridão, avançou em linha reta para o acampamento romano, ganhando assim a batalha.
...
Com isso, Fábio foi destituído do cargo pelo povo romano que, como já se viu antes, era volúvel. Um dia amava seus dirigentes, no outro o condenava. Mas quando a situação ficou preta de novo, o povo mandou chamar e reempossou Fábio; novamente o destituiu; assim, sucessivamente, por 5 vezes.
Depois da quinta demissão e da perda dos bens (dessa vez tinha sido condenado pelos senadores), Fábio seguiu para o exílio. Contraiu uma doença e morreu antes de ver o fim da guerra e a derrota de Aníbal. O povo romano (sempre do contra) reconheceu o heroísmo do biografado. Cada cidadão contribuiu com uma menor moeda existente, para render uma enorme homenagem à sua vida e virtude.
quarta-feira, 26 de março de 2014
da série: excertos inquestionáveis
1. para refletir sobre a própria e a produção alheia:
[...] enfim mais um reprovável expermemento da aliteratura
contempustânea em suas viciosas viagens à ronda do seu próprio nombigo
(Haroldo de Campos, Galáxias, 1963/1976)
2. sempre que possível:
[...] O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!
(João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas)
[...] enfim mais um reprovável expermemento da aliteratura
contempustânea em suas viciosas viagens à ronda do seu próprio nombigo
(Haroldo de Campos, Galáxias, 1963/1976)
2. sempre que possível:
[...] O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!
(João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas)
homens ilustres - péricles
Não, Leitor(a), não falaremos aqui sobre o popstar pagodeiro. Trata-se de seu homônimo (ou seria o inverso?) estadista, general e exímio orador - conhecido como o primeiro cidadão ateniense, por seus feitos, a seguir resumidos, há 2.500 anos atrás.
...
Péricles descendia de uma das mais antigas, nobres e tradicionais estirpes atenienses. Conta a lenda que a mãe, Agaristo, sonhou que tinha dado à luz um leão. Semanas depois nasceu Péricles.
Era um lindo bebê, tão bem proporcionado nas partes que nada se podia criticar, exceto uma cabeça um pouco longa e desproporcionada no tamanho em relação ao resto. Os mais maldosos apelidaram-no cabeça de cebola. Por isso, para amenizar-lhe o defeito para a posteridade, os escultores da época produziram todas as estátuas de Péricles portando capacete.
...
Na época de Plutarco, o homem nobre aprendia de tudo um pouco. Mas algumas coisas lhe eram interditas. Por exemplo, podia apreciar, entender e discutir a arte (escultura, pintura, música), mas nunca executá-la. As artes eram consideradas atividades inúteis, baixas e vis. Deviam ser exercidas por obreiros de origem plebeia. Ou seja: a arte era elevada, mas quem a executava era desprezível.
Por isso Péricles aprendeu música escondido, com Pitóclides. Para o público em geral, Pitóclides era o professor de luta e esgrima e ainda ensinava política e administração pública. O segredo foi logo descoberto, e o pobre Pitóclides foi banido de Atenas por 10 anos.
...
Péricles foi também discípulo e ouvinte do filósofo Zenon, aquele do paradoxo da corrida entre Aquiles e a tartaruga. Zenon fazia profissão de contradizer todo mundo e alegar tantas oposições quando discutia, que levava seu antagonista a não saber como responder nem ao que resolver-se.
...
Péricles foi o responsável por transformar Atenas na cidade-estado mais poderosa do Peloponeso e no pólo cultural mais importante da antiguidade. Promoveu a literatura, as artes, a educação. Construiu os mais lindos templos e edificações, cujas ruínas nos extasiam até hoje. Embelezou a cidade com esculturas dos maiores artistas da época, cujo mais famoso representante foi seu amigo íntimo Fídias. Lutou na guerra do Peloponeso. Foi o maior defensor da democracia ateniense. Et cétera.
Talvez por tantos feitos, Péricles tinha fama de soberbo e arrogante. Foi alvo de infindáveis chacotas, a maioria de muito mau gosto e hoje politicamente incorretas, da corja de poetas cômicos e autores de comédias patrocinados pelo próprio Péricles.
...
Plutarco gasta alguns capítulos descrevendo a magnificência das construções atenienses. O trecho acima resume o deslumbramento que sobreviveu aos séculos:
Porque, cada uma delas em sua perfeição, revelava já antiguidade em sua beleza, e quanto à graça e vigor parece até hoje, terem sido feitas e concluídas há pouco, de tal forma há em tudo não sei quê de florescente novidade, impedindo que o tempo perturbar a sua visão, como se cada uma dessas obras tivesse, por dentro, um espírito sempre rejuvenescente e uma alma jamais envelhecida que as mantivesse com esse vigor.
...
As más línguas atenienses caíram de pau em Péricles por sua amizade com Aspásia, uma influente dama ateniense. A moça era uma mulher cheia de sabedoria, muito entendida em matéria de governo estatal. Muitos a procuravam para aprender a arte da retórica. Até o próprio Sócrates a ia ver de vez em quando com seus amigos, para um bate-papo cabeça. O único problema de Aspásia era o fato de unir o útil ao agradável para a elite masculina hétero ateniense: a dama não levava uma vida nada bela nem honesta porque mantinha em sua casa jovens raparigas que comerciavam com o corpo.
(Quem sabe não tenha vindo de Aspásia a Maria Machadão e os frequentadores ilustres do Bataclã, na Ilhéus de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado?).
...
Depois de muito lutar na guerra do Peloponeso e contra seus antagonistas e inimigos políticos, Péricles foi contagiado por um tipo de peste, fraca e lenta, que por longo tempo foi-lhe amortecendo a pouco e pouco a força e o vigor do corpo e superando a sua coragem serena e o seu discernimento seguro. No fim da vida, ficou à mercê da vontade da esposa e das damas da casa que, por pândega ou para controlar-lhe a impetuosidade, prenderam-lhe uma humilhante coleira, presa à cabeceira da cama.
Morto Péricles, Atenas entrou em acelerado processo de decadência, assolada por tiranos malévolos e políticos corruptos, que Péricles, durante sua existência, tinha conseguido manter afastados.
...
Péricles descendia de uma das mais antigas, nobres e tradicionais estirpes atenienses. Conta a lenda que a mãe, Agaristo, sonhou que tinha dado à luz um leão. Semanas depois nasceu Péricles.
Era um lindo bebê, tão bem proporcionado nas partes que nada se podia criticar, exceto uma cabeça um pouco longa e desproporcionada no tamanho em relação ao resto. Os mais maldosos apelidaram-no cabeça de cebola. Por isso, para amenizar-lhe o defeito para a posteridade, os escultores da época produziram todas as estátuas de Péricles portando capacete.
...
Na época de Plutarco, o homem nobre aprendia de tudo um pouco. Mas algumas coisas lhe eram interditas. Por exemplo, podia apreciar, entender e discutir a arte (escultura, pintura, música), mas nunca executá-la. As artes eram consideradas atividades inúteis, baixas e vis. Deviam ser exercidas por obreiros de origem plebeia. Ou seja: a arte era elevada, mas quem a executava era desprezível.
Por isso Péricles aprendeu música escondido, com Pitóclides. Para o público em geral, Pitóclides era o professor de luta e esgrima e ainda ensinava política e administração pública. O segredo foi logo descoberto, e o pobre Pitóclides foi banido de Atenas por 10 anos.
...
Péricles foi também discípulo e ouvinte do filósofo Zenon, aquele do paradoxo da corrida entre Aquiles e a tartaruga. Zenon fazia profissão de contradizer todo mundo e alegar tantas oposições quando discutia, que levava seu antagonista a não saber como responder nem ao que resolver-se.
...
Péricles foi o responsável por transformar Atenas na cidade-estado mais poderosa do Peloponeso e no pólo cultural mais importante da antiguidade. Promoveu a literatura, as artes, a educação. Construiu os mais lindos templos e edificações, cujas ruínas nos extasiam até hoje. Embelezou a cidade com esculturas dos maiores artistas da época, cujo mais famoso representante foi seu amigo íntimo Fídias. Lutou na guerra do Peloponeso. Foi o maior defensor da democracia ateniense. Et cétera.
Talvez por tantos feitos, Péricles tinha fama de soberbo e arrogante. Foi alvo de infindáveis chacotas, a maioria de muito mau gosto e hoje politicamente incorretas, da corja de poetas cômicos e autores de comédias patrocinados pelo próprio Péricles.
...
Plutarco gasta alguns capítulos descrevendo a magnificência das construções atenienses. O trecho acima resume o deslumbramento que sobreviveu aos séculos:
Porque, cada uma delas em sua perfeição, revelava já antiguidade em sua beleza, e quanto à graça e vigor parece até hoje, terem sido feitas e concluídas há pouco, de tal forma há em tudo não sei quê de florescente novidade, impedindo que o tempo perturbar a sua visão, como se cada uma dessas obras tivesse, por dentro, um espírito sempre rejuvenescente e uma alma jamais envelhecida que as mantivesse com esse vigor.
...
As más línguas atenienses caíram de pau em Péricles por sua amizade com Aspásia, uma influente dama ateniense. A moça era uma mulher cheia de sabedoria, muito entendida em matéria de governo estatal. Muitos a procuravam para aprender a arte da retórica. Até o próprio Sócrates a ia ver de vez em quando com seus amigos, para um bate-papo cabeça. O único problema de Aspásia era o fato de unir o útil ao agradável para a elite masculina hétero ateniense: a dama não levava uma vida nada bela nem honesta porque mantinha em sua casa jovens raparigas que comerciavam com o corpo.
(Quem sabe não tenha vindo de Aspásia a Maria Machadão e os frequentadores ilustres do Bataclã, na Ilhéus de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado?).
...
Depois de muito lutar na guerra do Peloponeso e contra seus antagonistas e inimigos políticos, Péricles foi contagiado por um tipo de peste, fraca e lenta, que por longo tempo foi-lhe amortecendo a pouco e pouco a força e o vigor do corpo e superando a sua coragem serena e o seu discernimento seguro. No fim da vida, ficou à mercê da vontade da esposa e das damas da casa que, por pândega ou para controlar-lhe a impetuosidade, prenderam-lhe uma humilhante coleira, presa à cabeceira da cama.
Morto Péricles, Atenas entrou em acelerado processo de decadência, assolada por tiranos malévolos e políticos corruptos, que Péricles, durante sua existência, tinha conseguido manter afastados.
terça-feira, 18 de março de 2014
quarta-feira, 12 de março de 2014
citação do dia
[...] passava boa parte do tempo navegando na internet, o grande matador de tempo que havia substituído a televisão, conspicuamente passiva, por sua ilusão sedutora de produtividade [...]
(Lionel Shriver, O grande irmão)
(Lionel Shriver, O grande irmão)
quarta-feira, 5 de março de 2014
da máquina de fazer espanhóis
[...] sabes que os peixes têm uma memória de segundos. aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação.
(Valter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis)
(Valter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis)
terça-feira, 4 de março de 2014
das galáxias
[...] quando o
escrever se trava no escrever quando o escrever é travo é cravo é
amargo no escrever e é tinta e treva é tinta e febre é tanta e fezes
que a escrita agora se reescreve se reenerva se refebra onde o visto
se conserva [...]
(Haroldo de Campos, Galáxias, 1974/1984)
escrever se trava no escrever quando o escrever é travo é cravo é
amargo no escrever e é tinta e treva é tinta e febre é tanta e fezes
que a escrita agora se reescreve se reenerva se refebra onde o visto
se conserva [...]
(Haroldo de Campos, Galáxias, 1974/1984)
Assinar:
Postagens (Atom)







