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segunda-feira, 9 de junho de 2014

homens ilustres: coriolano


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A próxima vida ilustre de Plutarco é Caio Márcio, chamado Coriolano. Um grande e controverso general romano, que viveu no século V a.C.

É uma história empolgante, cheia de escaramuças bélicas e políticas. Pouco a se acrescentar. A não ser sugerir a leitura da peça homônima de Shakespeare (que pode ser baixada clicando aqui). Ou assistir Coriolanus, filme de Ralph Fiennes (Inglaterra, 2011), que traz a história antiga para a os dias atuais.



quarta-feira, 4 de junho de 2014

homens ilustres: alcibíades

Alcibíades & Sócrates
Alcibíades foi talvez o boy magia mais célebre da antiguidade clássica.

Até o vetusto Plutarco empolga-se ao descrever a beleza de Alcibíades:

Quanto a sua beleza, já não é necessário dizer nada. Direi somente, de passagem, que ela se manteve sempre florescente, na sua infância e adolescência, conservando-se perfeita em sua maturidade. Alcibíades se manteve assim, atraente e agradável em todas as estações de sua vida. [...] Foi essa porém uma característica peculiar de Alcibíades em virtude do equilívrio perfeitamente harmônico de seu corpo.

O único defeito era a língua presa. Mas nem isso foi motivo de chacota nem tirou-lhe a fama de bom orador. Pelo contrário. Os gregos achavam a pronúncia de Alcibíades um charme, uma certa graça ingênua e atraente.

Diz ainda o maledicente Plutarco que Alcibíades recusou-se a aprender a tocar flauta por que suas bochechas deformavam-se ao soprar o instrumento, estragando assim a harmonia de seu rostinho angelical.

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Além de ser o gato mais lindo do pedaço, Alcibíades:
a) pertencia a uma das famílias mais tradicionais da Grécia (dizem que descendia do guerreiro Ájax, um dos dióscuros, filho da mortal Leda fecundada por Zeus em forma de Cisne);
b) Foi criado por Péricles (governante responsável pelo período de maior esplendor artístico e cultural de Atenas);
c) era rico, inteligente, espirituoso, simpático, generoso, competente, visionário, sensato, queridinho do povo;
d) e pândego, esbanjador, mimado, vaidoso, intolerante, orgulhoso, arruaceiro, volúvel, mulherengo, ciumento, possessivo, vingativo, etc.

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Alcibíades rapidamente ascendeu na política. Foi eleito comandante de uma expedição contra Siracusa, na Sicília, e fracassou. Ao mesmo tempo foi acusado de estar envolvido em crime de profanação sacrílega de estátuas de Hermes. Com isso foi destituído do cargo e condenado ao exílio. Refugiou-se em Esparta, onde instigou a guerra contra os atenienses, que estavam sob o jugo de políticos de índole duvidosa. Alguns anos depois foi perdoado e retornou do exílio. Voltou a Atenas para comandar a esquadra ateniense. Conquistou importantes vitórias sobre Esparta e recolocou o domínio do Mar Egeu nas mãos de Atenas. Mas em razão de artimanhas políticas, foi novamente destituído do cargo, fugindo então para a Pérsia, onde ficou amigo do rei, tornando-se seu conselheiro. Porém os invejosos políticos arranjaram um jeito de assassiná-lo.

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A amizade (ou o romance tórrido) entre o belo Alcibíades e o horroroso Sócrates foi imortalizada em um dos Diálogos de O Banquete, de Platão. O resumo é da wikipedia:

Alcibíades irrompe pelo banquete já bêbado e no meio da discussão sobre eros. Alcibíades   enciumado arma o maior barraco ao ver Sócrates no banquete. Sócrates, por seu lado, implora a Ágaton que o defenda de Alcibíades: "Ele não larga do meu pé! Desde os tempos em que me apaixonei por ele eu não posso sequer olhar ou conversar com um único jovem belo!"

Alcibíades lança-se então em uma série de elogios a Sócrates, "logo que Sócrates começa a falar, fico fora de mim, o meu coração começa a saltar no meu peito, as lágrimas escorrem-me pelo rosto", e assim por diante. 

A certa altura Alcibíades revela como tentou seduzir Sócrates usando os seus encantos físicos: "Eis que o convido para jantar, muito simplesmente à maneira de um amante que prepara uma cilada ao seu bem-amado" para conseguir obter dele tudo o que ele sabia. Mas em vão, mesmo depois de todos se terem ido e de Alcibíades se ter deitado no leito de Sócrates, sob a sua capa, nada mais aconteceu "do que se tivesse dormido com o meu pai ou com um irmão mais velho".

No final do diálogo, Sócrates e Alcibíades permanecem distantes e Sócrates remata: "Julgas, é claro, que eu tenho obrigação de te amar a ti e a mais ninguém. Mas não, não me escapaste, essa tua comédia de sátiros e silenos foi por demais evidente"

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Apesar da porralouquice da juventude e dos excessos e excentricidades durante a maturidade, Alcibíades foi um estrategista muito competente e um grande político. Defendeu, lutou e realizou grandes conquistas para Atenas, mesmo tendo sido expulso por duas vezes. Quem sabe o único bofe-escândalo com conteúdo e grandiosidade suficientes para ser imortalizado pela história.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

pelópidas e o batalhão sagrado

O general Pelópidas (séc. IV a.C) venceu uma das batalhas contra os espartanos com a ajuda do Batalhão Sagrado, uma tropa de elite do exército tebano que consistia de 150 pares organizados por idade. Vale a pena ressuscitar os 3 capítulos que Plutarco dedica a esse amoroso batalhão:

[...] compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público. [...] Outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros. [...]

Plutarco cita o filósofo Parmênides que, com base na formação do Batalhão Sagrado tebano, criticou jocosamente a Ilíada de Homero, ao aconselhar os gregos a estratégia de se alinharem nas batalhas por nação ou linhagem:

Era necessário, dizia ele [Parmênides] colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.

No capítulo seguinte Plutarco discorre sobre aquele exemplo gay heróico clássico:


[...] se é verdade que os amorosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar.

Plutarco prossegue falando dos amores entre Hércules e Iolau, de Laio (o pai de Édipo) e Crísipo (filho de Pelópidas) e de Platão, que chama o amante de amigo divino ou inspirado dos deuses.

Por fim o Batalhão Sagrado foi derrotado pelos exércitos de Filipe o Grande, da Macedônia. Quando Filipe percorreu o campo da batalha e deparou os trezentos homens do Batalhão Sagrado deitados por terra, todos perfurados por grandes golpes de lança através do estômago, e colocados, ainda cobertos com suas armas, uns junto dos outros, do que assombrou-se enormemente [...] e começou a chorar de piedade, dizendo: - "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto".

Plutarco encerra o excerto sobre o Batalhão Sagrado explicando as razões dessas estratégias militares pouco comuns:

[...]
Em suma, o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres. [...] Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens.  [...] isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.

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Ou seja, o útil e o agradável para a felicidade geral da nação.

quarta-feira, 26 de março de 2014

homens ilustres - péricles

Não, Leitor(a), não falaremos aqui sobre o popstar pagodeiro. Trata-se de seu homônimo (ou seria o inverso?) estadista, general e exímio orador - conhecido como o primeiro cidadão ateniense, por seus feitos, a seguir resumidos, há 2.500 anos atrás.

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Péricles descendia de uma das mais antigas, nobres  e tradicionais estirpes atenienses. Conta a lenda que a mãe, Agaristo, sonhou que tinha dado à luz um leão. Semanas depois nasceu Péricles.

Era um lindo bebê, tão bem proporcionado nas partes que nada se podia criticar, exceto uma cabeça um pouco longa e desproporcionada no tamanho em relação ao resto. Os mais maldosos apelidaram-no cabeça de cebola. Por isso, para amenizar-lhe o defeito para a posteridade, os escultores da época produziram todas as estátuas de Péricles portando capacete.

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Na época de Plutarco, o homem nobre aprendia de tudo um pouco. Mas algumas coisas lhe eram interditas. Por exemplo, podia apreciar, entender e discutir a arte (escultura, pintura, música), mas nunca executá-la. As artes eram consideradas atividades inúteis, baixas e vis. Deviam ser exercidas por obreiros de origem plebeia. Ou seja: a arte era elevada, mas quem a executava era desprezível.

Por isso Péricles aprendeu música escondido, com Pitóclides. Para o público em geral, Pitóclides era o professor de luta e esgrima e ainda ensinava política e administração pública. O segredo foi logo descoberto, e o pobre Pitóclides foi banido de Atenas por 10 anos.

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Péricles foi também discípulo e ouvinte do filósofo Zenon, aquele do paradoxo da corrida entre Aquiles e a tartaruga. Zenon fazia profissão de contradizer todo mundo e alegar tantas oposições quando discutia, que levava seu antagonista a não saber como responder nem ao que resolver-se.

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Péricles foi o responsável por transformar Atenas na cidade-estado mais poderosa do Peloponeso e no pólo cultural mais importante da antiguidade. Promoveu a literatura, as artes, a educação. Construiu os mais lindos templos e edificações, cujas ruínas nos extasiam até hoje. Embelezou a cidade com esculturas dos maiores artistas da época, cujo mais famoso representante foi seu amigo íntimo Fídias. Lutou na guerra do Peloponeso. Foi o maior defensor da democracia ateniense. Et cétera.

Talvez por tantos feitos, Péricles tinha fama de soberbo e arrogante. Foi alvo de infindáveis chacotas, a maioria de muito mau gosto e hoje politicamente incorretas, da corja de poetas cômicos e autores de comédias patrocinados pelo próprio Péricles.

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Plutarco gasta alguns capítulos descrevendo a magnificência das construções atenienses. O trecho acima resume o deslumbramento que sobreviveu aos séculos:

Porque, cada uma delas em sua perfeição, revelava já antiguidade em sua beleza, e quanto à graça e vigor parece até hoje, terem sido feitas e concluídas há pouco, de tal forma há em tudo não sei quê de florescente novidade, impedindo que o tempo perturbar a sua visão, como se cada uma dessas obras tivesse, por dentro, um espírito sempre rejuvenescente e uma alma jamais envelhecida que as mantivesse com esse vigor.

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As más línguas atenienses caíram de pau em Péricles por sua amizade com Aspásia, uma influente dama ateniense. A moça era uma mulher cheia de sabedoria, muito entendida em matéria de governo estatal. Muitos a procuravam para aprender a arte da retórica. Até o próprio Sócrates a ia ver de vez em quando com seus amigos, para um bate-papo cabeça. O único problema de Aspásia era o fato de unir o útil ao agradável para a elite masculina hétero ateniense: a dama não levava uma vida nada bela nem honesta porque mantinha em sua casa jovens raparigas que comerciavam com o corpo.

(Quem sabe não tenha vindo de Aspásia a Maria Machadão e os frequentadores ilustres do Bataclã, na Ilhéus de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado?).

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Depois de muito lutar na guerra do Peloponeso e contra seus antagonistas e inimigos políticos, Péricles foi contagiado por um tipo de peste, fraca e lenta, que por longo tempo foi-lhe amortecendo a pouco e pouco a força e o vigor do corpo e superando a sua coragem serena e o seu discernimento seguro. No fim da vida, ficou à mercê da vontade da esposa e das damas da casa que, por pândega ou para controlar-lhe a impetuosidade, prenderam-lhe uma humilhante coleira, presa à cabeceira da cama.

Morto Péricles, Atenas entrou em acelerado processo de decadência, assolada por tiranos malévolos e políticos corruptos, que Péricles, durante sua existência, tinha conseguido manter afastados.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

curiosidades do mundo antigo - homens ilustres - camilo

A vida de Fúrio Camilo (389 a 308 a.C) é tão ou mais chata que a de Publícola (caso haja interesse, leia clicando aqui). Só que ao invés dos intermináveis malabarismos políticos, a vida de Camilo são capítulos e capítulos descrevendo detalhes de batalhas (sempre com muitos sacrifícios e preces aos deuses) contra os gauleses, definitivamente expulsos de Roma pelo biografado após a primeira bem sucedida e a segunda frustrada tentativas de invasão.

(Haverá motivo para os romanos ilustres serem tão desinteressantes em contrapartida aos surpreendentes helênicos? Ou será preconceito, preferência pessoal pelos últimos?).

Mesmo com toda a chatice, resolvi fazer uma releitura dinâmica para não deixar passar nenhuma fofoca. Nada. Nem um retrato desenhado... Passemos então para a vida de Péricles, que não deve ser confundido com pagodeiro nem com jogador de futebol. Em breve.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

curiosidades do mundo antigo - homens ilustres - temístocles


Temístocles é o primeiro biografado do segundo volume da Vida dos homens ilustres, de Plutarco. Foi um general e político ateniense que viveu entre 526 e 463 a.C. Seus maiores feitos foram transformar Atenas na maior potência naval helênica e vencer Xerxes, o rei dos persas, na famosa batalha de Salamina.

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Desde a infância Temístocles era ambicioso de grandes realizações e nascido para o manejo dos negócios. Achava um saco estudar as artes de entretenimento honesto e elegante (como a música), mas quando o assunto era política ou negócios públicos ele tinha orgasmos. Nas folgas dos estudos, jamais brincava nem permanecia ocioso, como faziam as demais crianças, mas era sempre encontrado decorando ou compondo sozinho algum discurso.

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Até o capítulo XXXIII são descritas as peripécias de guerra que culminaram com a derrota de Xerxes e dos persas em Salamina. Porém, vamos logo ao que interessa nessas postagens cobertas pela poeira dos séculos: fofocas.

Temístocles foi adversário político de Aristides. Dizem as más línguas que as divergências começaram em razão da disputa pelo amor do belo Estesislau. Depois desse ciúme inicial (parece que o bonitão escolheu Aristides), ambos continuaram para sempre a tomar partidos contrários até, a certa altura, Temístocles banir para sempre Aristides de Atenas e finalmente pegar Estesislau.

Certa vez, depois da fama adquirida com a vitória contra os persas, outro gatão sarado chamado Antifates, que esbanjara (se recusara, altivamente a ele, sem dar-lhe importância) Temístocles na época em que ele era desconhecido, veio fazer-lhe a corte. Temístocles dispensou o bofe, mais ou menos assim: querido, quando eu quis você não me deu bola; gora que estou por cima da carne seca, vai ver se eu estou lá na esquina. Essa frase atravessou os séculos. Sendo recriada e revivida recentemente na voz do Félix da novela.

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Mais um pouco de história séria:

O povo grego era muito volúvel. Em um dia amavam e idolatravam um homem público. No dia seguinte, por qualquer mexerico, passavam a odiá-lo com todas as forças, geralmente condenando-o ao ostracismo, que significava exílio por no mínimo 5 anos. Foi o que se sucedeu a Temístocles. Depois de ter feito tanto pela glória ateniense, depois de muita perambulação, foi chegar ao seio do povo persa, os antigos inimigos.

Porém, como bom político que era, logo conquistou a graça do sucessor de Xerxes. Passou a trabalhar para o rei, conquistou cidades, aconselhou, legislou. Mas quando foi obrigado a lutar contra os gregos, Temístocles ofereceu um solene sacrifício aos deuses, no qual festejou seus amigos de quem se despediu, pondo fim à vida ao beber sangue de touro junto com uma espécie de veneno que mata o homem dentro de 24 horas.

O rei persa admirou a lealdade do grego, ordenando construir-lhe uma sepultura magnífica na praça da cidade de Magnésia, e fixando algumas honrarias para os descendentes do homenageado, que duraram muitos séculos.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

curiosidades do mundo antigo - homens ilustres - publícola


Publícola significa "o amado do povo". Esse foi o codinome dado a Marco Valério, general e cônsul do Império Romano, por seis vezes, a partir de 350 a.C.

Foi uma leitura desatenta. Sabe quando você lê parágrafos e parágrafos e lá pela metade da próxima página percebe que não entendeu patavina do escrito? pois é. Assim foi a leitura da vida do ilustre Publícola. Eu só me lembro que o texto é uma sucessão de malabarismos políticos. Como pano de fundo, uma Roma beirando ao caos. Vivia-se um período de efervescência política e insatisfação popular e de terror. Tipo barril de pólvora com pavio curto. Tiranos revezavam-se no poder. Incêndios, traições, assassinatos. Foi Valério Publícola quem colocou ordem no barraco.

Nem uma fofoca, nem uma excentricidade. Tão sem-graça era a vida de Publícola que nem retrato tinha no livro. Só os acima: o de Vitélio, o tirano que deixou arder o templo de Júpiter Capitolino (o maior e o mais importante de Roma à época) e o de Vespasiano, que o mandou reconstruir.

Assim terminamos o primeiro volume. Quem abre o segundo é Temístocles, gerneral responsável por tornar a cidade de Atenas na maior potência naval do mundo helênico.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

curiosidades do mundo antigo - homens ilustres - sólon


Sólon, o biografado de hoje, é considerado um dos sete sábios da Grécia, junto com Tales de Mileto, Periandro de Corinto, Pítaco de Mililene, Bias de Priene, Cleóbulo de Lindos e Quílon de Esparta.

Pertencia à aristocracia, das mais nobres e mais antigas casas da cidade de Atenas. Como sempre, os aristocratas nada faziam. Porém Sólon dedicou-se ao comércio, no intuito de aprender coisas novas, principalmente com negociantes estrangeiros. Tornou-se depois um grande legislador.

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Mesmo com toda a sabedoria, Sólon tinha uma quedinha por rapazes bonitos. Plutarco o censura veladamente (e o expõe ao ridículo?):

Talvez o maior defeito de Sólon era não ser firme para resistir à beleza nem bastante valente campeão para combater o amor.

Por muito tempo Sólon foi caso de Pisístrato, um primo gentil e belo. Porém, ambos seguiram carreiras políticas divergentes. Assim, a certa altura do governo da coisa publica, houve controvérsia e eles se separaram, sem perderem a memória daquele amor, nem mais nem menos que de um fogo muito grande a chama ainda ardente.

Até Pisístrato aprontar.

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Tem uma passagem interessante, que vale a pena contar:

Quando os pescadores da ilha de Co recolheram a rede, encontrou-se nela enganchado um tripé de ouro maciço, que diziam ter sido jogado ao mar por Helena de Troia. Houve contenda: se o tripé pertenceria ao patrão (dono das redes) ou aos pescadores que os recolheram. A disputa ampliou-se entre as cidades - Mileto, onde o tripé fora encontrado ou Troia, da antiga Helena - e quase virou guerra se Pítia, a profetisa do templo de Apolo, não interviesse com o oráculo: o tripé deveria ser entregue ao mais sábio dentre os 7 acima mencionados. Tales (de Mileto) foi o escolhido. Porém Tales declinou o presente em favor de Bias, por considerá-lo o mais sábio de todos. Bias também não aceitou, enviando o tripé a Periandro. Assim por diante, o tripé de Helena de Troia passou de mão em mão até chegar de novo às mãos de Tales que, para não se comprometer, doou o tripé-batata-quente para o templo de Apolo em Delfos.

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São capítulos e mais capítulos sobre as leis promulgadas no governo de Sólon. Por exemplo: foram anuladas as famosas leis Draconianas, que puniam quaisquer crimes, independentemente da gravidade, com a pena de morte: os que roubavam frutas ou ervas eram tão severamente punidos como os sacrílegos ou os assassinos, diz Plutarco. Mas as mais curiosas são as relativas às mulheres, aos escravos e aos casamentos:

A mulher rica cujo marido não comparecesse carnalmente ao leito nupcial poderia habitar com quem lhe aprouver dentre os parentes próximos do marido. (Segundo Plutarco, essa lei inibiria os golpes do baú).

O marido era obrigado a visitar a esposa (leia-se: manter relações amorosas/sexuais)  no mínimo 3 vezes por mês. Isso evitaria brigas e descontentamentos.

Foi regulada e limitada a diferença de idade nos casamentos: um velho rico não poderia se casar com uma mocinha nem um rapagão pobre com uma velha podre de rica.

Era proibido falar mal dos mortos, para impedir que as inimizades fossem imortais.

Pagava multa de 3 dracmas de prata aquele que xingasse o outro em público - fosse nas igrejas, nos tribunais, nos palácios governamentais e nos teatros.

As mulheres só poderiam sair da cidade levando 3 vestidos. Tinham que levar o que fossem comer e beber. Não podiam sair à noite, à não ser de carreta. Não podiam se mortificar nos enterros nem fazerem lamentações em versos nem chorar em velórios de estrangeiros que não fossem seus parentes. Assim, eliminou-se toda a desordem e toda licença desregrada.

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No final da vida Sólon sofreu o pior golpe: o amado Pisístrato da juventude o atraiçoou de tantas e tais formas que acabou por destituí-lo do governo. Pisístrato fez com que o povo se voltasse contra Sólon, tornando-se assim o novo ditador. E Sólon morreu, não se sabe, de velhice ou desilusão.

sábado, 25 de janeiro de 2014

da série resenhas. bertha ruck. romance na ribalta


Depois de tanta leitura chique só mesmo um pouco de breguice para temperar. Leitura do vol. 173 da coleção Biblioteca das Moças: Romance na Ribalta:

O galã de cinema Roy Randall é noivo da fútil, egoísta e temperamental superstar Jewel Tempest. Porém a tímida, feiosa, apagada, super inteligente e super competente Maxie Dimmer é contratada por Jewel para secretária de Roy. Depois de mil desacertos provocados pela inconsequente Jewel, que troca Roy por um milionário norte-americano e prejudica-lhe a carreira artística. No processo de esquecer Jewel, Roy apaixona-se por Maxie, que revela-se uma surpreendente dramaturga. Conseguem patrocínio, montam a peça, Roy atuando no papel principal. Depois do sucesso estrondoso, Roy finalmente pede Maxie em casamento, e vivem felizes para sempre.


sábado, 7 de dezembro de 2013

curiosidades do mundo antigo: numa pompílio


Com tanta literatura moderna e contemporânea à mão nas prateleiras das melhores livrarias, eu mergulhando na leitura dos clássicos de sebos.

Como diz um amigo: perda de tempo. O mundo de hoje não tem nada a ver com essas velharias mortas e enterradas há mais de 2 mil anos.

(Note-se: o amigo incongruente que me critica é estudioso das tragédias gregas, deleita-se em ouvir Sófocles e Eurípides em grego arcaico e faz suas abluções secretas a Dionisos).

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Concordo com o amigo. A Problemática Humana (com maiúsculas mesmo) é infinitamente mais complexa e variada do que na época de Plutarco.

Mas dane-se. Trata-se de História. Eu gosto. Mesmo sendo taxado de anacrônico e alienado. Mesmo gastando um tempo enorme em decifrar inversões e elipses, na linguagem caduca de alguns trechos. Mesmo perdendo o bonde expresso da contemporaneidade.

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A Vida dos homens ilustres, em 15 volumes, foi adquirida por uma pechincha. Encadernação em capa dura azul marinho com apliques em dourado, ilustrações como as acima, folhas quebradiças, lombadas empoeiradas e costuras roídas pelas traças.

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A ideia inicial era uma postagem para cada uma das celebridades. Escrevi 3 textos: sobre Teseu, Rômulo e Licurgo. Abandonei o projeto por constatar que em parte o amigo acima tinha razão. Há pouco a dizer sobre eles no nosso mundo-vórtex de informação.

Mas, como exercício para romper o bloqueio criativo, prosseguirei. Vale como uma aulinha. Como se estivéssemos Leitor(a) e eu em uma sala de curso pré-vestibular.

Chega de justificativas.

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Hoje falaremos sobre o chato do Numa Pompílio. Conforme qualquer enciclopédia física ou virtual, Numa governou Roma entre 754 e 671 a.C. Sucedeu a Rômulo, o fundador e primeiro governante romano (Rememore ou saiba mais clicando aqui).

Numa foi responsável por uma grande reforma político-religiosa. Pelo que entendi, elementos dessa reforma serviram de esteio para o cristianismo primitivo surgido alguns séculos depois.

Nasceu no dia da fundação de Roma, em 21 de abril. Era tão perfeitamente disposto a toda virtude que não precisou de mestres para governar. Além disso, sendo naturalmente inclinado e dedicado a toda virtude, poliu-se ainda mais pelo estudo das boas disciplinas (quais seriam elas?) e pelo estudo da paciência e da filosofia.

Após a morte da esposa Tácia, com quem viveu por 13 anos, Numa isolou-se dos homens. Mudou-se para o campo e passou a frequentar as florestas e bosques consagrados aos deuses, nas terras dos sabinos. Lá (Plutarco afirma com uma certa ironia) conheceu a ninfa e deusa Egéria, que o recebeu como marido e o proveu de insights sobre o amor e o conhecimento das coisas celestes.

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O prudente Plutarco estende-se no tema para isentar-se ou justificar o descrédito. Lista fatos e evidências que poderiam reger o relacionamento entre humanos e divindades na época.


Exemplos:
1. As divindades preferem os homens aos pássaros ou os cavalos;
2. As divindades sentem prazer inenarrável em um papo cabeça com humanos. Desde que estes sejam perfeitamente bons ou os santos e religiosos;
3. Quanto ao relacionamento carnal propriamente dito, é bem difícil acreditar que as divindades sintam tesão nos humanos;
4. É plausível que uma divindade masculina se aproxime de uma mortal e a emprenhe. Mas um homem coabitar com uma divindade feminina e ter comistão corporal com ela é impossível (ele não explica a razão).

(Segundo o velho Caldas Aulete:
Comistão,  s.f. (ant.) mistura // F. lat. Commixtio.)

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Depois de arrazoar sobre a literalidade das relações deuses/deusas/homens /mulheres, Plutarco afirma que era tudo metáfora: as divindades trazem amizade aos homens puros e virtuosos; dessa amizade nasce o amor intelectual; por isso a dúbia denominação de amantes.

Ok, Plutarco, você me convenceu. Mas poderia ter parado aí. Para qual era a tua intenção em voltar à literalidade, enumerando os pouco espiritualizados e às vezes apimentados casos gays de deuses greco-romanos - Apolo e seus garotos Forbante, Jacinto, Admeto e Hipólito; Pã e seu boy-poeta Píndaro; Sófocles e Esculápio; et-cétera?

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A falsa prudência era firula estilística. No capítulo IX, Plutarco explica que os capítulos anteriores sobre sexualidade eram uma espécie de parêntesis. Uma pausa de efeito. A fim de criar impacto para a revelação bombástica humana demasiado humana:

Na verdade Numa era uma raposa velha. Aproveitou-se politicamente do diz-que-diz sobre seu envolvimento com a ninfa-desusa para obter vantagens políticas que propiciaram as reformas político-religiosas e o conduziram às páginas amareladas de Plutarco.

Veremos o assunto na próxima postagem.

sábado, 9 de março de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (epílogo e conclusão)

O assassinato de Rômulo. De: Makers of History - Romulus, By J. Abbot.
(www.gutenberg.org)
O divórcio era proibido às mulheres romanas. No entanto, o marido tinha licença para largar a esposa por qualquer motivo. Se a mulher envenenasse os filhos, falsificasse chaves ou cometesse adultério, era abandonada na rua da amargura, com a roupa do corpo. Falsificar chaves? plagiando o gaulês Asterix, esses romanos eram muito esquisitos.

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Finda a guerra, Rômulo compartilhou o governo de Roma com Tácio, rei dos sabinos. Tudo ia bem. Até ocorrer um incidente internacional: o assassinato de diplomatas laurentinos. Culparam Tácio. Pura armação. Como bom político, Rômulo fez cara de paisagem. Instigou a vingança dos parentes dos embaixadores. Que mataram Tácio e deixaram o caminho livre para que ele assumisse de novo, sozinho, o pedaço.

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À medida em que o poder crescia, Rômulo tornava-se mais e mais presunçoso, soberbo, odioso e tirânico. Aquilo tomava proporções incontroláveis. A ponto dos senadores intervirem. 

...

A morte de Rômulo é envolta em mistério. Simplesmente sumiu. Existem pelo menos 3 versões. A primeira é sem-graça. A segunda, mórbida. A terceira, fantástica:

1. Os senadores aproveitaram um descuido da guarda pessoal. Enquanto Rômulo banhava-se, afogaram-no no rio Tibre. Amarraram uma pedra ao corpo para que afundasse.

2. Enquanto fazia um sacrifício no templo de Vulcano, os senadores se precipitaram juntos sobre ele. Após esquartejarem o corpo, cada qual levou um pedaço dentro da dobra da própria túnica.

3. Rômulo discursava ao povo em um local chamado Brejo da Cabra. Subitamente o tempo virou. Começou uma ventania. O sol escureceu. O dia virou noite. As trevas não foram doces nem tranquilas, antes houve trovões horríveis, ventos impetuosos e borrascas de todos os lados, que fizeram sumir o poviléu.

Quando a tempestade passou e o dia ficou de novo claro, o poviléu reuniu-se para ouvir o fim do discurso. Mas Rômulo tinha sumido. O poviléu ficou indócil. Exigiu explicações. Os senadores então inventaram que Rômulo tinha sido visto vagando pelas redondezas, maior e mais belo, [...] vestido de branco com armaduras claras e luzentes como fogo. Mandara um recado: que o poviléu se acalmasse, porque ele tinha cumprido sua missão e se aposentaria, mudando-se para junto dos deuses. Não é que o poviléu acreditou?

...

Plutarco acha essa história de mortal morar com os deuses conversa pra boi dormir. Cita versos de Píndaro:

O corpo morre, certamente:
Viva fica a alma, tão somente,
Como sinal de eternidade.

Em seguida, discorre sobre o tema. Transcrevo um trecho:

[A alma] veio do céu e para lá retorna, não com o corpo, mas antes quando, mais distanciada e separada do corpo, está nítida e santa, nada mais possuindo da carne. [cita Heráclito:] A alma seca é a melhor alma, que se evola fora do corpo, nem mais nem menos que o raio fora da nuvem; mas aquela que se destempera com o corpo, cheia de paixões corporais, é como um vapor grosseiro, pesado e tenebroso, que não pode inflamar nem elevar. Portanto, não há necessidade de querer, contra a natureza, enviar ao céu os corpos dos homens virtuosos, juntamente com as almas; mas é preciso estimar e crer firmemente que suas virtudes e suas almas, segundo a natureza e segundo a justiça dos deuses, os tornam, de homens, santos; e de santos, semideuses; [...] estando livres de toda possibilidade e de toda mortalidade, tornam-se, não por nenhuma ordenança civil, mas em verdade e segundo razão verossímil, deuses completos e perfeitos.

...

Conclusão:

De Roma viemos nós, os latinos. Nossos avôs Rômulo e Remo nasceram de um caralho voador que, por artimanhas femininas, engravidou uma serva ao invés da filha do rei. Foram abandonados, amamentados por uma loba e criados por uma prostituta. Lideraram uma gangue de adolescentes de rua. Por disputa de poder, Rômulo trapaceou e assassinou o próprio irmão. Junto com a galera da adolescência, promovida a fundadores do império, raptou as mulheres dos vizinhos gente-boa. Fez acordos vantajosos, muita demagogia e poucos escrúpulos para alcançar objetivos: mais trapaças, mais assassinatos, mais agrados ao povo. Teve o destino dos tiranos: assassinado à traição. Seguido de endeusamento popular.

Não fica mais fácil entender o mundo em que vivemos?

sábado, 2 de março de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (último episódio antes do epílogo)

Jacques-Louis David, A Intervenção das Sabinas. 1799.

Os romanos raptaram as sabinas. Afugentaram os sabinos. Casaram-se com as raptadas e a vida seguiu na recém-fundada Roma.

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Os sabinos eram perfeccionistas. E lerdos. Enquanto preparavam-se para resgatar as filhas, esposas e mães, os romanos expandiam o império em velocidade vertiginosa.

Depois de longos anos, o exército dos sabinos ficou pronto. Era um exército grande, vistoso, bem treinado. No entanto havia um problema: como entrariam na inexpugnável Roma?


A solução foi a sabina Tarpéia. Ela estava até o pescoço com os romanos. Marcou um encontro secreto com o alto-comando do exército sabino. Tarpéia ficou fascinada com os braceletes de ouro que eles usavam. Negociou: abriria os portões, à traição, em troca do que os soldados traziam nos braços esquerdos.

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Tarpéia percebeu tarde a ambiguidade do acordo. Não sabia (ou não se lembrava) de que o que os sabinos amavam a traição enquanto ela era-lhes útil; odiavam-na logo que atingissem o objetivo.

Vale a pena ler a cena direto da fonte:

Assim fez então Tácio [o general]: pois, quando se viu dentro da fortaleza, ordenou aos sabinos que, de acordo com a promessa que fizera a Tarpéia, não lhe poupassem nem retivessem nada de tudo quanto traziam nos braços esquerdos; e tirando primeiro ele próprio de seu braço o bracelete que levava, atirou-lho, assim como depois o escudo: todos os outros fizeram outro tanto, de sorte que, lançada por terra a golpes de braceletes e de paveses, ela morreu sufocarda pelo fardo.

Corações de pedra o desses sabinos.
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O bicho pegou. A batalha no interior das muralhas foi difícil e demorada. Houve centenas de mortos de ambos os lados. Mesmo com Zeus-Júpiter encorajando os romanos.

De repente aconteceu o inesperado. As sabinas entraram no campo de batalha. Ensandecidas. Descabeladas. Aos prantos, aos gritos e aos clamores. Umas levando entre os braços filhinhos que ainda mamavam. Posicionavam-se diante das lanças e espadas, abraçavam os mortos e feridos.

Síntese do discurso delas: que já tinham sofrido horrores quando foram raptadas violentamente e contra as leis. Que os sabinos demoraram muito a resgatá-las. Que já tinham se acostumado e afeiçoado aos raptores. Que inclusive eram mães de filhos romanos. Que voltar para os sabinos e abandonar Roma seria mais doloroso que o rapto inicial. Enfim, que os sabinos aceitassem seus genros, cunhados e netos romanos e que os romanos fizessem as pazes com seus sogros e cunhados e acabassem de vez com a palhaçada.

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Sábias sabinas. Politizadas. Das primeiras defensoras dos direitos femininos. Pacificaram os litigiantes. Conquistaram o direito de ir-e-vir. A isenção de serviços domésticos chatos, exceto o de fiar. Dali em diante só usariam vestidos bordados (ou pintados?) de púrpura. Os cidadãos do sexo masculino seriam obrigados a ceder-lhes o assento nos transportes e lugares públicos. Foram proibidos de assediá-las, dizer piadinhas, palavrões, ou quaisquer coisas sujas e desonestas na presença delas.

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Epílogo:

O texto ficou comprido demais. Deixemos para amanhã o epílogo.



sexta-feira, 1 de março de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (penúltimo episódio)

(http://www.zazzle.com.br)

A história parou quando Rômulo fundou Roma após a morte do irmão Remo.

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O grosso da população da nova cidade era composta de todo tipo de  undergrounds da sociedade. Maioria esmagadora de homens. A escassez de mulheres era o abacaxi maior para o novo administrador Rômulo descascar. A velha questão da família célula da sociedade. Como vingaria a cidade sem o fenômeno da procriação?

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Os sabinos eram vizinhos dos romanos. Povo pacífico. Corria a boca larga a fama da beleza das mulheres sabinas. Junto com os estereótipos machistas de todas as épocas: boas mães, boas tecelãs, boas donas-de-casa, boas parideiras, boas de cama - umas Amélias.

Rômulo teve uma ideia. Tosca. Raptar as filhas, esposas e mães dos vizinhos do-bem. Inventou uma balela que só mesmo os crédulos sabinos caíram: que foi descoberto um novo deus nos subterrâneos de Roma; que haveria sacrifícios a esse deus; que depois dos sacrifícios, dar-se-ia uma festança, open-bar, três dias seguidos. Foi distribuída grande quantidade de ingressos grátis para todos os sabinos. Mulheres tinham direito a brinde-surpresa.

Compareceram em massa. Enquanto os sabinos enchiam a cara, Rômulo fez um sinal para que os romanos iniciassem uma balbúrdia. Corriam para todos os lados, aos gritos, lanças e espadas empunhadas. Puseram os sabinos pra correr e raptaram as sabinas.

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Plutarco era romanófilo. Justifica a gafe (eufemismo!) dos romanos com desculpas esfarrapadas:

Começa afirmando que foram raptadas apenas 30 sabinas, cujos nomes foram dados às 30 linhagens do povo Romano. Diz que Rômulo pegou apenas uma para si. Casou-se com ela para demonstrar que não teve intenção de injuriar os vizinhos. Que o rapto não era para satisfazer nenhum desordenado apetite, mas para conjugar os dois povos entre si com os mais estreitos laços existentes entre os homens. Por fim menciona, en passant, estatísticas comprometedoras: foram raptadas entre 527 e 783 mulheres.

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O rapto gerou o costume ocidental (que a gente só vê em filme) de o noivo atravessar pela primeira vez a porta da casa carregando a noiva no colo. O gesto seria um simulacro do rapto ancestral.



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (intervalo 2)

(de: http://www.folhadoes.com)

Como foi dito no primeiro capítulo da minissérie, Plutarco menciona várias versões sobre a origem de Roma. A maioria trata os gêmeos Rômulo e Remo como história da carochinha. Dentre as mais plausíveis, Roma teria sido fundada por famílias dos derrotados da guerra de Troia: Uma vez salvos da espada, embarcaram em navios ocasionalmente encontrados no porto e foram lançados pelos ventos à costa da Toscana, onde puseram âncoras perto do rio Tibre.

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A visão de futuro das mulheres é incomparavelmente mais abrangente que a dos homens. As troianas estavam exaustas de navegar sem rumo, ao sabor dos ventos. O local onde estavam acampados, à margem do rio Tibre, era aprazível; a terra era fértil; os vizinhos eram dóceis e obsequiosos; os negócios prosperavam. Lugar perfeito para criar os filhos e os netos em paz, segurança e tranquilidade.

Elas ousaram. Arriscaram. Piraram de vez. Enquanto os maridos dormiam, atearam fogo aos navios.

Os maridos ficaram muito putos. Afinal, eram eles que mandavam. Afinal, como desbravariam terras desconhecidas, guerreariam, conquistariam povos, saqueariam tesouros e estuprariam as mulheres dos vencidos? Afinal, como descarregariam a testosterona? No cabo da enxada? na foice, no forcado, na sega do arado? Afinal, plantar e colher era coisa de mulherzinha ou de gente desqualificada. Afinal... Rapazes limitados aqueles troianos.

Então veio o golpe de mestre das moças. Adivinhem o que inventaram para sossegar os pobrezinhos maridos que se sentiam emasculados? As troianas mães do futuro império romano inventaram o beijo na boca. Sério. Plutarco confirma:

E dizem que daí começou o costume, que ainda hoje dura em Roma, de saudarem as mulheres seus parentes e maridos beijando-os na boca, porque então essas damas troianas saudavam e acariciavam os maridos, depois de lhes haverem queimado os navios, pedindo-lhes que acalmassem sua cólera e má disposição contra elas.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (episódio 4)

(de: http://www.librosmalditos.com)

Começaram os trabalhos da construção de Roma. Sob a proteção de Apolo, que a toda hora metia o bedelho, via oráculo. Por exemplo: ordenou que se construísse um templo de refúgio para [abrigar] todos os afiltos e fugitivos, indiscriminadamente. Não precisava RG, CPF, atestado de bons antecedentes, curriculum vitae, entrevista, ficha de inscrição, nada. Era chegar e ficar. Boa estratégia. Mão-de-obra abundante. Desqualificada, porém barata.

Construir Roma era um sonho desenvolvimentista grandioso dos gêmeos. Necessitava-se de investimentos vultuosos, participação de capital internacional, empréstimos ao FMI da época, articulações políticas, concessões dúbias. 50 anos em 5, como se disse muito tempo depois.

Foi quando surgiu a primeira querela entre os gêmeos. Com resultado catastrófico.

Diz-se que o motivo era que Rômulo queria construir uma cidade plana, em forma de quadrado. Remo queria uma circular, sobre o o monte Aventino.

Ao invés de perguntar ao oráculo, consultar o agrimensor, o urbanista, o engenheiro ambiental ou decidir no par-ou-ímpar, escolheram decidir a pendenga pelo voo dos pássaros. Mais especificamente dos abutres. Quem enxergasse o maior número deles escolheria o local.

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Para os romanos da época o abutre era o animal menos malfazejo, que não prejudica nem arruina coisa nenhuma que os homens semeiam, plantam ou nutrem; visto como se alimenta somente de carniça e não fere nem mata jamais o que tenha vida; do mesmo modo não toca nos pássaros mortos pela conformidade do gênero existente entre eles.

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A sede de poder tira qualquer um do sério. Devia rolar também alguma questão relacionada à grana. Sabe-se lá. Nesses casos é sempre como no samba: Irmão desconhece irmão.

Remo era ingênuo. Falou primeiro. Tinha visto 6 abutres. Rômulo nem pensou duas vezes. Imaginou rápido: governar sozinho o futuro maior império da terra. Trapaceou. Afirmou ter visto o dobro. Remo duvidou. Rômulo jurou pela mãe mortinha atrás da porta. Discutiram. Brigaram feio. Rômulo segurou Remo de jeito. Fincou-lhe a peixeira no bucho. Matou Remo. Colocou a culpa em um tal de Céler, que sumiu do mapa celeremente sem deixar rastro.

(continua amanhã: o rapto das sabinas)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (episódio 3)

imagem de: http://www.picstopin.com
O episódio passado terminou na parte em que o porqueiro e a esposa Larência pegaram os meninos para criar.

Rômulo e Remo cresceram. Eram belos de corpo. Somente de se lhes verem o talhe e os traços do rosto, deduzia-se a sua origem real. 

Eram a dupla mais legal da vizinhança. Líderes natos de uma galera da pesada, composta de grande número de vagabundos sem lar nem lugar, e servos fugitivos que eles próprios incitavam a escaprem dos senhores.

Rômulo era mais do intelecto. Líder nato. Remo, puro impulso e emotividade. Um dia Rômulo estava ocupado, sacrificando a algum nume. Foi a deixa para Remo meter-se em encrenca. Briga de gangue. Levou a pior. Foi preso e conduzido a justificar-se ao ex-rei Numitor, dono do pedaço (mesmo destronado não perdeu a realeza).

Vou pular os quiproquós até vir à tona o segredo da origem dos gêmeos. Eram os netos de Numitor sequestrados por Amúlio que todo mundo pensava estarem mortos.

Amúlio foi morto pelos comparsas dos dois irmãos. Restituíram Numitor ao trono. Não receberam recompensa, agradecimento ou cargos importantes no novo governo. Quando anunciaram que partiriam para novas terras, o povo de Alba não insistiu para que ficassem. Aliás, ficaram aliviados. Imagine, quanto maior a distância daquela turma de banidos, vagabundos, criminosos impunes, ladrõezinhos, fugitivos, etc, melhor.

Então os gêmeos partiram. Dispostos a construr uma cidade no lugar onde primeiramente haviam sido nutridos. Isto é, às margens do rio Tibre. Essa cidade seria Roma.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e roma (intervalo comercial)

(Detalhe de vaso. Hetaira. De um site erótico russo intraduzível)
Plutarco conta uma história divertida sobre outra Larência, homônima e colega de profissão da mulher do porqueiro do episódio 2 (leia aqui).

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O movimento estava fraco no templo de Hércules, em Roma. O sacristão não tinha o que fazer. Por pilhéria, convidou o semideus para jogar damas (dados, no original). Falando sozinho, apostou que se ganhasse, Hércules teria de enviar-lhe alguma felicidade, sem explicitar qual. Se perdesse, prepararia um jantar chique e conduziria uma bela mulher para deitar-se com ele [com o herói divinizado].

Hércules ganhou a disputa imaginária. Melhor seria não arriscar o castigo divino, pensou o sacristão. Cumpriu a promessa. Mesmo sabendo ser uma pândega. Preparou para Hércules pasta com molho funghi, cordeiro assado com molho de hortelã, serviu vinho chileno de uma boa safra e musse de chocolate na sobremesa. Pra completar o pagamento da aposta, alugou essa cortesã Larência, que era muito bela, mas ainda não famosa.

O sacristão fez faxina, arrumou a mesa, a cama de casal e o banho na suíte do templo. Trancou lá a moça lá e foi para casa dormir. Assim que saiu, Hércules materializou-se. Fartou-se de comer. Elogiou o tempero da comida e as novidades eróticas de Larência. Ficaram juntos até de madrugada. Na despedida, Hércules ordenou que Larência cumprimentasse o primeiro homem que encontrasse na rua.

A moça não entendeu mas obedeceu. Afinal, era ordem de uma criatura divina. Cumpimentou o madrugador Tarrúcio, homem já muito idoso, que havia acumulado muitos bens e não tinha filhos, bem como nunca fora casado. Foi amor à primeira vista. Com a bênção de Hércules. Casaram-se e viveram felizes para sempre.

Sortuda Larência. Herdou a fortuna do idoso Tarrúcio, que bateu as botas no primeiro ano do casamento. Larência tornou-se uma senhora muito famosa e honrada. Ainda por cima Hércules no topo da lista de antigos clientes.

Quando Larência morreu, deixou a fortuna para o povo romano. Foi enterrada no mesmo lugar da xará, colega de profissão de outros tempos, e mãe postiça dos fundadores de Roma.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (episódio 2)

Picanço barateiro. Guache. http://historiasalapis.blogspot.com.br
Agora a emenda. Foram feitos pequenos ajustes às versões contadas por Plutarco. Para melhor entendimento, substitua o nome de Tarquécio do primeiro episódio (leia aqui) para Amúlio.

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Amúlio e Numitor eram descendentes do conhecidíssimo rei troiano Enéias. Herdaram um reino e certa quantia de ouro e dinheiro. Amúlio era malandro. Na divisão, ficou com o ouro e o dinheiro. Numitor com o reino. Com dinheiro e ouro Amúlio equipou um exército e conquistou o reino de Numitor.

Para garantir que a descendência do rei deposto não vingasse, Amúlio enviou a única filha de Numitor, chamada Reia Sílvia, para ser freira-sacerdotisa no templo-convento das Vestais. Não se sabe como (terá sido o caralho voador da primeira história?) Reia Sílvia engravidou.

Foi condenada à morte por isso (as sacerdotisas de Vesta eram virgens). Mas a prima Anto (filha de Amúlio) intercedeu. Escondeu a grávida em uma torre inacessível.

Quando nasceram os gêmeos maravilhosamente belos e grandes, Amúlio fez igual à madrasta de Branca de Neve. Entregou os meninos para o capataz matar. Exigiu que lhes arrancassem os coraçõezinhos e os trouxesse como prova do assassinato.

O capataz ficou com dó. Ajeitou os bebês em uma tina e jogou no rio. A tina flutuou na correnteza até encalhar. Ao invés dos 7 anões, uma loba encontrou e amamentou os pimpolhos. Um picanço colocava migalhas nas boquinhas deles.

Um porqueiro (vaqueiro na história anterior) encontrou e recolheu e adotou os gêmeos.

A mulher do porqueiro chamava-se Larência. Era daquelas profissionais que abandonam o corpo a todos os que aparecem, sob remuneração. Larência e o porqueiro criaram os meninos como se fossem seus filhos. Batizaram-nos Rômulo e Remo. Deram-lhe educação. Ensinaram-lhes todas as outras coisas honestas que se constuma mandar ensinar às crianças de boa e nobre casa.

(continua amanhã)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

curiosidades do mundo antigo: rômulo, remo e a fundação de roma (parte 1)

Rômulo e Remo mamando na loba. Imagem da wikipedia.

Na vida de Rômulo, Plutarco menciona várias versões sobre a fundação de Roma. A do rei Tarquécio e a dos irmãos Amúlio e Numitor são as minhas preferidas. O motivo? não passarem de fábulas e contos recreativos, onde não há nenhuma verossimilitude. O início das duas é idêntico (mudam os nomes dos personagens). A segunda história acrescenta o desfecho da primeira. Por isso tomei a licença poética de juntá-las.

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Era uma vez um rei cruel chamado Tarquécio. Certo dia apareceu no palácio uma forma de membro viril que ficou por ali, de bobeira, por vários dias. Parecia inofensivo, mas incomodava sobremaneira quando roçava em Tarquécio. Foi então o rei consultar o oráculo. Era um falo milagroso. A princesa transaria com ele. Geraria um filho valente e famoso que superaria todos de seu tempo.

Tarquécio obrigou a filha a ficar com monstruoso membro viril. Ou a cantada do falo era ruim ou não rolou química entre eles. A moça não estava a fim e pronto. Mandou uma serviçal representá-la. Tarquécio ficou pê da vida. Prendeu a filha e a empregada na torre mais alta do castelo e condenou-as à morte.

À noite, Vesta (deusa do fogo dos lares) apareceu em sonho a Tarquécio. Proibiu-o de matar as moças.

Tarquécio era mesmo muito malvado. Enganou a deusa. Determinou que as moças fossem libertadas com a condição de lhe tecerem um manto. As bobinhas acreditaram. Teciam o dia inteiro. Mas enquanto dormiam o serviço era desfeito por outras tecelãs, sob ordem de Tarquécio.

9 meses depois a criada deu à luz gêmeos. Filhos do membro viril sobrenatural. Tarquécio arrancou os bebês do peito da mãe. Entregou-os ao empregado Terácio, para que este os matasse. Terácio teve pena dos meninos. Abandonou-os à margem do rio Tibre. Onde uma loba e pássaros os alimentaram.

Passava pelo local um boiadeiro. O boiadeiro ficou maravilhado com a cena. Aproximou-se. Carregou consigo os meninos.

(continua amanhã)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

a crítica

Rainha de Copas. Do filme Alice, de Tim Burton. Imagem retirada de ego.globo.com

Crítica desfavorável é como chute no saco. Se você receber um em público, deixe a alma se contorcer mas mantenha a pose: corpo ereto, expressão neutra, se possível um sorriso. Finja (aproveitando o bordão infame) que nada vindo de baixo te atinge.

Aconteceu comigo. Hoje pela manhã. Ao abrir a internet. Não acreditei. Alguém indignado com minha versão engraçadinha da vida de Teseu. E não era a Leitora Impaciente.

Em 2011, vivi uma experiência semelhante. Eu era fã de um autor brasileiro contemporâneo, prolífico, novinho, bonitinho, inteligentérrimo e gay. Li os livros dele em pouco mais de uma semana. Louvava o rapaz aos 4 ventos. Criei um link do blog dele aqui. Enviava comentários elogiosos (ou apaixonados?). Assistia às entrevistas em talkshows gravados de canais alternativos. Seguia-lhe os passos e curtia até os puns que publicava nas redes sociais.

No dia da morte de Amy Winehouse o escritor do nariz empinado postou um comentário de mau-gosto no Facebook. Seus 25 mil seguidores curtiram. Menos eu. Eu nem era aficcionado pela Amy. Mas estava meio surtado. Retruquei. Em público. Chamei o autor de imaturo.

Eu sou mesmo muito errado.

Provoquei um pandemônio. 24.996 seguidores indignados. O autor detestou o puxão de orelha (eu também odiaria). Subiu nas tamancas. Me chamou de cafona. De velho gagá. Apagou o comentário.  Excluiu da lista de amizades a mim e aos 4 gatos pingados apoiadores da celeuma. Ainda me xingou e me desejou a morte em privado.

A adrenalina subiu. Perdi o sono. Apaguei o link dele do HD. Redigi uma tréplica irada (publicada na mesma madrugada e sabiamente retirada do ar no dia seguinte). Vendi a obra completa dele para um sebo. A indignação não era pelos xingamentos. Era por ele impedir que a opinião diversa criasse (ou não) polêmica. Ele agiu como a Rainha Copas da história de Alice. Ao primeiro sinal de contrariedade esperneou: cortem-lhes as cabeças!

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Tá, eu não sou santo. Engoli em seco o sapo matutino. Subiu aquela indignação. Aquela raiva básica (caraca, velho, eu fiquei escrevendo até as 4 da manhã e o cara não entendeu nada!)  Li, reli e treli a crítica avessa. Justifiquei educadamente. (Por trás da atitude Polyanna havia o lado interesseiro: nada melhor que uma polêmica para aumentar a quantidade de acessos ao blog).

Ao invés de deletar o instigador (como o bonitinho fez comigo) eu respirei fundo. Zen. Me coloquei no lugar do crítico. Para entender as razões, os argumentos dele. Admirei a coragem de se expor. Inclusive me alegrei: se ele se deu ao trabalho de materializar a crítica foi por que o texto o sensibilizou de alguma forma.

A discussão estava aberta. Pena que o crítico retraiu-se. Pena que ninguém aderiu para se solidarizar ou para atacar. Pena que a minha resposta (e a necessidade de explicações) restou soando no vazio da indiferença. Ou no oceano das inutilidades virtuais.