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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

da série portfólio: o triunfo da morte

O triunfo da morte: sobre Brueghel (foto: Rui Faquini)
Título: O triunfo da morte: sobre Brueghel
Dimensões: 210cm x 160cm
Técnica: acrílica e tinta automotiva sobre compensado
Ano: 1991
Prêmio aquisição do XII Salão Nacional de Artes Plásticas - Prêmio Brasília.
Acervo do Museu de Arte de Brasília - MAB

sábado, 25 de janeiro de 2014

primeiras leituras concomitantes & complementares do ano


Leituras para identificar o DNA artístico/poético:

Catálogo da exposição Onde está você, Geração 80? - CCBB, 2004/2005. A exposição é um resgate da histórica Como vai você, Geração 80?, ocorrida no Parque Lage, Rio de Janeiro, em 1984, de onde surgiram os expoentes da arte brasileira contemporânea: Alex Flemming, Alex Valauri, Ana Miguel, Beatriz Milhazes, Chico Cunha, Cristina Salgado, Jadir Freire, Jorge Duarte, Leda Catunda, Leonilson, Maurício Bentes, Nuno Ramos, Vitor Arruda e tantos outros. O catálogo contém textos curatoriais de Marcus Lontra Costa, Ascânio MMM, Daniela Name e entrevistas com Luiz Áquila e Nelson Leirner.

Ao mesmo tempo o maravilhoso presente de aniversário - Poesia marginal palavra e livro, organizada por Eucanaã Ferraz e publicado pelo Instituto Moreira Salles - nem precisa dizer - sobre a poesia marginal dos anos 70/80. De Cacaso a Ana Cristina César, de Chacal a Wally Salomão, muito Nicolas Behr e mais outros tantos. Material maravilhoso e raro em uma edição super bem cuidada.

(Depois disso encarar o livro de ouro Oficina 50+ - autografado pelo Zé Celso (outro presente dos deuses) comemorativo dos 50 anos do Uzyna Uzona).

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

30 desenhos



Essas são as imagens e texto do convite da exposição 30 desenhos, minha primeira individual, no Espaço Cultural 508 Sul e em Goiânia, no ano longínquo de 1994.

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O resgate disso se deu em razão de uma brincadeira de internet: povoar o Facebook com imagens de arte, ao invés de pratos de restaurantes, eventos festivos ou animais de estimação. Fui provocado: eu deveria publicar uma imagem de trabalho do artista/escultor Maurício Bentes.

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Vamos aos fatos históricos.

Era 1994. Eu vivia um momento de reflexão, e só agora eu me dei conta disso. Do tipo: bonança depois da tempestade. Paz e tranquilidade depois do tumulto dos salões, das vernissages, das pinturas em grandes formatos, das visitas aos ateliês, das viagens, dos contatos profissionais promissores, que todo artista iniciante vive e almeja.

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Minha existência artística sustentava-se pela atuação paralela como caixa de banco. Eu trabalhava em uma agência recém-inaugurada em um órgão público. Por isso havia pouquíssimo movimento, exceto no período de pagamento.

Como bom capricorniano, eu não suportava os longos períodos de ócio forçado da agência. Então tive a ideia: cortar meus blocos de desenho em pequenos formatos (15 x 15 cm), comprar meia dúzia de novas canetas nanquim e levar tudo para o guichê do caixa. Eu preenchia o tempo desenhando nas longas horas do expediente bancário.

Assim surgiram, às centenas, os pequenos bicos de pena.

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Eram desenhos despojados e despretensiosos. Inspirados na anatomia fantástica de Ambroise Paré e nas ilustrações dos livros de ciência escolares.

Alguém gostou dos desenhos. Esse alguém comentou com fulano e sicrano e beltrano. Mesmo não havendo redes sociais, o material chegou às mãos de Maurício Bentes, artista que eu gostava muito, mas que só conhecia superficialmente. Naquele tempo as coisas eram mais fáceis, descomplicadas.

Maurício gostou dos desenhos. Incentivou. Sugeriu a exposição. Eu consegui o espaço. Na maior cara-de-pau, pedi: pô, Maurício, escreve pra mim! Ele escreveu.

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(Das centenas de desenhos, foram escolhidos e emoldurados 30, para a exposição. O resto foi queimado junto com muitos outros trabalhos, em um surto de loucura coletivo-doméstico. Restaram alguns, guardados para a posteridade em caixas de madeira fabricadas por mim, graças aos também dotes de marceneiro).

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A curadoria foi fundamental (agradecimentos eternos ao ex-!). Os desenhos foram valorizados pela moldura impecável, passe-partout importado, com filigrana dourada, com apoio da Casa da Moldura e do salário de bancário. A gráfica Charbel patrocinou o papel laminado do convite, gramatura 300 g/m2 (no mesmo formato dos desenhos emoldurados). O Espaço Cultural 508 Sul estava no auge, sob a direção e apoio irrestrito da dupla TT Catalão/Wagner Barja. A exposição na Galeria Parangolé foi um sucesso. Saiu até matéria em Jornal (Marcus Savini). Almir Israel fotografou os trabalhos (fotos perdidas).

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Foi a primeira (e única) vez que vendi trabalhos. Hoje dependurados nas paredes das casas das pessoas de gosto estético mais sofisticado da cidade.

Mas o mais importante foi a amizade com Maurício Bentes. Que durou pouco, mas foi intensa e frutificou. Deixando muitas saudades.


(Agradecimentos ao Leôncio Mário por resgatar esse momento)

domingo, 17 de novembro de 2013

obscuro/brilhante



 Performance de William Ferreira. Mezanino da sala Villa Lobos, Teatro Nacional, Brasília. 1991.



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

sábado, 2 de novembro de 2013

(2 trechos para sempre perdidos)

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Paralelo ao reinado das mulheres na cozinha havia o desgoverno das crianças e do cachorro, desde muito cedo até bem tarde da noite, em todas as partes da casa (só nos era proibido o quarto dos pais), no jardim, entre as galinhas, com os pombos, o cabrito no quintal, a leitoa no chiqueiro improvisado, em volta dos pés de tangerina, na goiabeira, a gameleira em frente ao portão, no muro alto dos fundos ou na mureta baixa da rua, nas casas dos vizinhos.

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Livres da escola, dos cadernos e dos livros, éramos completamente soltos. Comíamos aos grupos, depois das mães, tias, agregadas se esgoelarem de tanto nos chamar. Havia tombos, machucados, brigas, amores secretos e até segurar, fortuito, a mão da prima ou do primo. Havia dois tonéis de metal, quase da nossa altura (acho que eram usados como reservatórios de combustível), cheios de água, onde, em fila, tomávamos banho. Dormíamos todos em colchões espalhados pela sala, os meninos e meninas da roça, os primos e primas maiores e os menores, os irmãos e os amigos que se juntavam à festa.

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

itaúnas

foto obtida em: http://paixaocapixaba.com.br

Itaúnas é um povoado, originalmente de pescadores, no norte do Espírito Santo, quase divisa com a Bahia. Pertence ao município de Conceição da Barra. A vila antiga erguia-se entre as dunas e o rio. Foi coberta pela areia nos anos 1960/70. Construíram outra, mais afastada do mar, na outra margem do rio, próxima aos manguezais.

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Era uma epopeia chegar a Itaúnas. 2 dias dentro de ônibus interestaduais (Brasília/BH/Vitória) ou trem (BH/Vitória) e mais a metade de outro dia no pinga-pinga (Vitória/Conceição da Barra ou São Mateus). Dependendo dos atrasos, arriscava-se ainda passar uma noite na rodoviária de Conceição, até pegar carona ou a primeira jardineira às 6:30 da manhã.

A estrada entre Conceição e a vila era de areia e terra batida. Atravessava uns 30 quilômetros de eucaliptais que se estendiam por todo o Espírito Santo até o sul da Bahia. Tudo propriedade da Aracruz e/ou poderosas multinacionais produtoras de celulose.

Quando chovia a estrada era intransponível. Naquela época os carros 4x4 eram raros. Por isso, ficava-se isolado. O único a fazer era esperar a estiada. Podia demorar dias.

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Mas valia a pena. O lugar era paradisíaco. A água do rio era escura e transparente, da cor de caramelo. As margens e o fundo eram de areia. Atravessava-se o rio por uma ponte estreita de madeira ou a nado. Depois, mais ou menos menos 1 km de caminhada pelas dunas (brancas ou às vezes amareladas) até chegar à praia de areia grossa, escura, que se estendia por 18 (ou 12?) quilômetros, ondas fortes. Na volta, ao final da tarde, o banho de água doce na lagoa entre as dunas e o rio.

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A praia era local de desova de tartarugas. Ao caminhar pelas dunas podia-se encontrar cacos de cerâmica, ossos, fragmentos de roupas, botões - provavelmente da vila soterrada ou de civilizações precolombianas.

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Além de nós, mochileiros riporongas, com o passar dos anos vieram hordas de turistas convencionais, chamados pelos nativos de paulistas. 

Junto com eles a degradação acelerada do ecossistema e dos sítios arqueológicos, a poluição (da última vez que estive lá a lagoa estava imprópria para banho devido à concentração elevada de coliformes fecais), a especulação imobiliária, a proliferação de pousadas, campings e casas chiques, as diferenças sociais,  e a exclusão gradativa (alcoolismo e crack) dos nativos economicamente inviáveis, enfim, a violência.

Além de um forró universitário misturado com dance e axé music ensurdecedores que varava as noites de quinta-feira a domingo.

Os inevitáveis bens e males do progresso.

(Tive notícias que o forró virou tradição e as coisas melhoraram depois da criação do Parque Estadual e de associações de moradores).

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Certa vez fomos ver a lua cheia nascer nas dunas. Na volta sentimos o chão tremer. O tremor aumentava, e com ele o barulho crescente de um tropel. Mal tivemos tempo de nos proteger entre as moitas da restinga. Era um estouro de boiada. No meio da areia, saído do nada. Surreal, fantasmagórico, assustador. A boiada desapareceu da mesma forma: no nada.

No dia seguinte nenhum vestígio - rastros, bosta, galhos quebrados. Quando comentávamos, os nativos misteriosamente disfarçavam e mudavam de assunto. Nunca descobrimos se fora real ou alucinação coletiva.

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De outra vez estive lá (ainda nos anos 1980), no período dos festejos natalinos. Presenciei (e participei de) uma das mais lindas manifestações culturais brasileiras  - o ticumbi, no dia-de-reis.

Começou bem cedo. Na igreja, pequena, caiada, plantada em um descampado no centro da vila, que servia de praça. Não havia padre. A missa era celebrada pelos membros mais antigos da comunidade. O sol raiava e a luz entrava pelas janelas abertas, misturando-se com a luz das velas.

As mulheres cobriam as cabeças com lenços desbotados, uma ou outra com mantilha. Os homens estavam descalços, camisas com mangas arregaçadas, olhos baixos, compenetrados. Homens e mulheres cantavam forte, com fé, hinos religiosos muito antigos, esquecidos.

Depois saíram em procissão, levando um menino Jesus esculpido em madeira, tosco, depositado com toda delicadeza em uma manjedoura acolchoada com tiras de papel crepom verde e amarelo. A procissão levava o menino Jesus de casa em casa, na rua principal. Onde se rezava o terço, tomava-se água, um gole de cachaça, às vezes um copo de cerveja, e cantava-se.

Lá pelas 10 horas os tambores e a cantoria do ticumbi irromperam no fim da vila. Os homens vinham vestidos com roupas coloridas de chita, chapéus com fitas. As mulheres vestiam de branco, turbantes ou lenços nos cabelos e/ou saias coloridas. Cantavam e dançavam, menos sacras, mais dionisíacas. Uma delas levava o estandarte bordado não me lembro mais com qual santo. E o batuque contagiante, ensurdecedor, catártico, dionisíaco.

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Pirei geral. O ritmo me pegava pela alma. Era a ancestralidade do escravo, o caboclo de penas, das pedreiras e das matas, o bacante, os bisavôs mulatos, o exu-legbara, os mártires cristãos, tudo junto. Diluídos nos borbotões de lágrimas e soluços descontrolados. Catarse pura brotada das vísceras.

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Estive em Itaúnas pela última vez lá há uns 15 anos. Já maduro e careta. Mais para paulista que para riporonga. Em viagem familiar: a mãe, eu e o filho. Foi outra, a última talvez, experiência fundamental lá. Depois eu me esqueci. (Como se a areia tivesse soterrado as lembranças).

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Itaúnas foi o que São Tomé das Letras, Penedo, Macchu-Picchu, Canoa Quebrada, Jericoacoara, Ilha do Mel, Arembepe, etc foram para a geração anterior à minha. Lugares iniciáticos, sagrados, locais onde ocorriam ritos de passagem, fundamentais. Uma espécie de limiar. Portal de mudanças, transformações, crescimento.

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Enquanto escrevo cai uma chuva fora de época. Com intensidade, trovões e relâmpagos. Semelhantes aos das chuvas dos verões em Itaúnas. A luz acaba. Acendemos velas no lugar das lamparinas daquele tempo. Uma boiada silenciosa estoura nas dunas, à luz embaçada da lembranças.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

avós (11)

A avó paterna Mãe-Tiana era filha do bisavô Pai-Totó e da bisavó Mariquinha. Tinha muitos irmãos, mas eu só me lembro dos nomes de tia Nhazita e tio Somiro, pai de Benzica, minha primeira babá, no tempo em que as vacas eram gordas.

Mãe-Tiana nasceu em um lugar chamado Goiabal. Mas morou muito tempo em São Domingos do Prata, de onde lhe veio o apelido abreviado.

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Mãe-Tiana parecia-se com uma índia velha. Ou uma cigana de algum filme registrado no inconsciente. Sobressaíam-lhe em todas as fotos e na memória os olhos vivazes, quase pretos, sob a testa alta, de um lado e do outro do narigão adunco, a pele morena toda enrugada. Sempre vestida com o mesmo vestido cor-de-rosa apagado, cinto e fivela, e sapatinhos de meio-salto, fechados, pouco mais escuros que o vestido.

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Ela era a própria alegria de viver. Quando não havia ninguém por perto, ou quando ninguém (a não ser eu) prestava a atenção, ela arregalava os olhos e fazia um movimento rápido com a língua, projetava a dentadura para fora da boca e a recolocava no lugar. Concluía o gesto com uma piscada marota, que só nós dois entendíamos. Aquilo constrangia e ao mesmo tempo me fazia me acabar de rir.

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Mãe-Tiana acordava antes do sol nascer. Para lavar (por dentro e por fora) o táxi de Padrinho, preparar-lhe o café da manhã, e só então acordá-lo. Todos os dias, inclusive aos domingos. Anos seguidos. Décadas. Frio ou sol, chuva ou calor, saúde ou doença, até que a morte os separasse.

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Para ela, abaixo da autoridade divina só havia o marido. Padrinho era tudo. Para ele era tudo: o prato servido, enquanto ela comia de pé, entre a mesa e o fogão; as coxas, a moela e o fígado do frango ao molho-pardo (o coração era meu, primeiro neto); a fatia mais grossa do queijo com goiabada; o canal do telejornal ao invés do da novela; o insuportável futebol no rádio de pilha no volume máximo. De Padrinho era, para todo o sempre, a poltrona mais confortável para o jogo de damas, a cadeira de balanço, o último cigarro do maço, o crédito para as desculpas esfarrapadas, a palavra final em quaisquer situações.

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Ningém picava couve mais fina do que ela. O angu com taioba ou ora-pro-nobis era dos deuses. Leitoa à pururuca no natal estalava ao ser mordida. Recheada com farofa dourada de fubá de milho. Bife acebolado. Feijão amassado. Rabada. Canjiquinha com linguiça e costela de porco. Até o ovo que ela fritava tinha gosto diferente. Eu me lembro dela toda vez que sinto o cheiro de alho frito e ouço o chiado da água fervente despejada no arroz que ela me ensinou a refogar.

Foi com Mãe-Tiana que comi pela primeira (e última) vez miolo de boi tostado (antigamente não se usava a palavra grelhado) na frigideira. E gostei.

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

história de natal - parte 1

Dezembro inteiro era só festa. O povo da roça começava a chegar uma semana antes do natal. Os muito velhos, os mais velhos e as crianças. Geralmente ficavam até bem depois do ano-novo. Traziam todo tipo de mantimento: feijão novo em saco de estopa; dúzias de ovos enrolados em palha de milho seca; pequi, jurubeba, jabuticaba, palmito, guariroba, milho verde; rapadura, queijo fresco, queijo curado; pamonha, curau; frangos, leitoa, até cabrito vivos para sacrificar na véspera.

A cozinha virava um espaço comunitário: dia e noite mulheres amamentando, depenando frangos, descascando réstias de alho, mexendo doce de abóbora, de mamão, de figo, de leite no fogão; assando bolo, biscoito, brevidade, lavando e secando a louça, servindo o almoço em gamelas, pratos e canecas esmaltados, coando inesgotáveis bules de café, chá de losna para a má digestão dos velhos, de quebra-pedra para as complicações menstruais ou de camomila, erva-doce ou capim cidereira para as cólicas dos bebês.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

sem título

hoje de manhã eu preenchi duas páginas da agenda com os afazeres. uns imediatos, como por exemplo, engraxar os sapatos e escolher meias novas para qualquer eventualidade. outros diáfanos e abstratos e tão longínquos como elevar o espírito e sublimar os desejos da carne.

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dirijo aos trancos, desatento. sonolento por causa da noite em claro vendo filmes de terror. eu me perco nos retornos, nas entradas, abaixo da velocidade média da pista. no momento seguinte, eufórico, acelero além do limite permitido e canto alto com o rádio do carro, descabelado, os vidros abertos.

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durante o dia eu me ocupo de banalidades. procuro documentos no meio da papelada. jogo cartas comigo mesmo e perco sempre. folheio o velho romance para moças. para não pensar na ausência, no esvaziamento de qualquer sentido da morte que à noite ronda.

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tramito na fronteira. em constante estado gerúndio. como um zumbido contínuo em baixa frequência.

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desinfecto as mãos com álcool gel. toco-lhe de leve a mão inchada. falo com ela superficialidades: do telefonema às 2 da manhã. da discussão com o síndico. do prêmio que ainda não ganharemos. do jantar com os figurões da política. depois pergunto ao médico, o clichê: é grave, doutor?

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chove. hoje li um conto, quase sonho, sobre mãe, irmãos, rio e pai distante. eu tenho sonhado sonhos intensos. ontem mesmo eram cômodos que eu não imaginava existirem na casa. acordei com os olhos pesados. como se levasse um óbolo em cada pálpebra.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

lugares - chiloé & pedro lemebel

Trauco
Fiz como nos filmes: girei o globo terrestre sobre a escrivaninha e, de olhos fechados, parei o movimento com o dedo indicador, no destino-surpresa escolhido pelo acaso: Tombuctu, Reykjavik, Tangulla, Kilauea, lugares exóticos, nomes impronunciáveis.

Caiu em Chiloé. No meio do Chile. Eu nunca tinha ouvido falar.

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Primeira parada, Santiago: pontos turísticos, shopping, museus, parques, cerros, vinho, teleféricos, baladas e o rio Mapocho cascateando rápido, gelado, direto da Cordilheira, pano de fundo majestoso da cidade.

Segunda parada, Valparaiso: pontos turísticos, museus, cerros, vinho, baladas, casas de madeira em cores vivas contra o mar azul-escuro ao fundo, pelas janelas dos ascensores.

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Chiloé uma linda região. Conhecida pelo Parque Nacional, pelos vulcões cobertos de neve e pelas igrejas de madeira, delicadas como brinquedos de outro tempo (segundo os guias turísticos, elas foram erguidas por encaixe das peças, sem utilizar pregos). Vi e ouvi rappers-índios em uma praça com o mar azul-cinzento ao fundo. Comi curanto (mariscos, charque, carne de porco, e batatas assados em um buraco na terra coberto por folhas gigantes de uma planta local, preparado por pescadores mapuches). Escrevi postais e diário na plaza  de Ancud, rodeado por seres mitológicos chilotas. Conheci uma trupe de teatro. Dormi com eles no sótão de uma palafita. Quase me apaixonei. Etcétera.

Mas foi em Castro, enquanto esperava a barca que me levaria de volta ao continente, já no fim da viagem, que a viagem propriamente dita aconteceu. Em uma livraria de shopping.

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Eu conhecia pouco mais que o escolar da literatura chilena: Neruda, Gabriela Mistral e Isabel Allende (que é limenha de nascimento). Desta, tinha lido a Casa dos Espíritos e comprado Eva Luna e Hija de La Fortuna para ler na viagem.

Revirando as estantes, chamou atenção uma capa com coração vermelho preenchido com balas douradas de fuzil: Tengo miedo torero, de Pedro Lemebel. Além dele, Adiós Mariquita linda (Lemebel maquiado de Frida Kahlo na capa); Loco afan - crônicas de sidario (Lemebel e Francisco Casas - que formavam o grupo performático Las Yeguas del apocalipsis - posando de “As duas Fridas”) .

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Pedro Lemebel é um dos grandes autores chilenos. Nasceu na metade dos anos 50. Viveu a contracultura, o fim do sonho socialista de Allende, a ditadura de Pinochet. La loca militante: homossexual; comunista; poeta; performer; travesti.

Eu me identifiquei de imediato. Primeiro por causa dos títulos: Tengo miedo torero e Adiós Mariquita linda são canções populares, bolerões, típico gosto queer latino.  Depois por causa do texto em si: fluente, fácil, verdadeiro, intenso, político, contundente, excessivo, trágico, rude, barroco e acima de tudo, humano e bem humorado.

Os últimos momentos de uma loca sidosa (assim mesmo, no dialeto cru dos travestis, “mona aidética”) em "El último beso de Loba Lamar" é considerada uma das mortes mais cômicas da literatura.

Em uma cena do documentário Corazon en fuga (Veronica Quense, 2008), Lemebel fala sobre ela (a morte), enquanto gravavam seu nome em um epitáfio, no túmulo dos pais. “É estranho colocar o nome de uma pessoa viva ao lado dos nomes dos mortos”, mais ou menos o que ele diz; “na verdade, eu nunca saí daqui”.

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Há lugares que desenham roteiros sensoriais na geografia da memória. Colorem os trajetos com sensações, paisagens, aromas, temperos, sonoridades.  Os 10 dias em Chiloé percorreram trajeto menos exuberante. Era como se a cada trecho de estrada percorrido, a cada parada à beira de um precipício, a cada mirada ao vulcão ao longe, a cada pouso após a jornada, a cada beijo do amante ocasional, a cada crônica lida, fossem encravadas na carne da alma os minúsculos traucos, sirenas e  pincoyas de pedra concágua das metáforas e das imagens do Chile de Pedro Lemebel.


sábado, 5 de maio de 2012

degustando uma madeleine


Depois da primeira tentativa frustrada de sair de casa, aos 17 anos (morar com Cassandra - melhor amiga do segundo grau - e o namorado dela, em um apê de 2 quartos na 411 Norte), surgiu a oportunidade: vestibular para Artes em Uberlândia. Às cegas: Nem imaginava para que lado ficava Uberlândia. Nenhuma informação sobre a qualidade do curso. A única certeza era o nome do reitor da universidade, o linguista Gladstone Chaves de Melo, meu xará. 

O que importava era ir.

Para evitar problemas em casa, menti que tinha passado para Arquitetura. Furei as duas orelhas (no final dos anos 70 no Brasil só hippies e gays usavam brincos; eu me enquadrava na primeira categoria). Desfiei a barra das calças UsTop (liberdade é uma calça velha, azul e desbotada). Comprei batas indianas, sandália de couro cru na feira de artesanato da Torre, uma flauta doce e um caderno de de papel Canson A3. Fechei a mochila de lona e parti sem olhar pra trás.

O pai acionou os contatos e conseguiu minha transferência para a agência do BB de lá (eu era menor aprendiz). Conseguiu também alojamento em uma pensão, sob a supervisão do João Rosa, amigo da família, fazendeiro e comerciante de queijos da cidade vizinha de Catalão.

Logo na primeira noite, a primeira experiência fundamental, tipo rito de passagem tardio para um período indefinido entre a adolescência e a idade adulta: vi, ao vivo, um rapaz pelado. O colega de quarto, exibicionista, ostensivamente enxugando-se. Fiquei confuso, constrangido e ao mesmo tempo curioso. Fui para a varanda tocar flauta (para desespero da filha da pensão, que queria ver a novela) e só voltei ao quarto quando tive certeza que o cara já estava vestido e dormindo. 

Não houve professores na primeira semana de aulas. O trote consistiu em cortarem uma mecha do meu black power, farinha, ovo e festa da calourada. Passava o tempo na praça (não me lembro mais o nome), no centro da cidade ainda provinciana, tocando flauta, lendo Rimbaud, sonhando ter um mico-leão no ombro, fazer artesanato e virar hippie de verdade.

Foi quando conheci Renato. Calouro do curso de Psicologia. De Cajuru, cidade vizinha, em São Paulo. Tocava piano. Usava cabelos curtos, óculos de aro grosso, testa larga com entradas. Estereótipo do cdf. Parecidíssimo com Mário de Andrade.

Nossa identificação foi imediata. Era como se nos conhecêssemos de outras encarnações. Renato era pouco menos esquisito que eu. O visual dele era certinho: calça social, sapato, camisa polo. Além de esquisitos, éramos magrelos, compridos, e cem vezes mais sensíveis e delicados que os calouros da veterinária.


Foi morar na pensão. Compartilhamos o quarto com o bofão exibicionista. Nem duas semanas depois resolvemos montar uma república. Com uns conterrâneos de Renato e uma moça da Música.

A dona da pensão encarregou-se de fazer o inferninho. Ligou para o pai. Dizendo que eu tinha me juntado a maconheiros e pederastas. E eu totalmente inocente, virgem ainda, sem nenhuma expectativa sexual a não ser a visão do peladão secando as partes e a idealização da amizade helênica encarnada em Renato.

O pai foi verificar in loco a perdição do filho. Descobriu a mentira da Arquitetura. Renato tentou argumentar: pelo menos esperasse terminar o semestre e trancar a matrícula. Pedir transferência para a UnB. As negociações para a permanência não se concluíram. O pai foi irredutível: abandonar o curso e voltar imediatamente para Brasília.

A segunda tentativa de sair de casa também tinha fracassado. Ou nem tanto. Tinham sido os 4 meses mais intensos da minha vida até então.

(Renato me levou para um grupo de ioga. Me fez respirar incenso pela primeira vez. Me fez pensar que tinha entrado em transe. Questionar a existência de Deus. Me apresentou Freud, Jung e os antropofágicos. Me fez gostar de Villa-Lobos, Doces Bárbaros e Fernando Pessoa. E amar os dicionários).

Para agradar ao pai, fiz vestibular para arquitetura na UnB. Levei pau. Passei para a 2a opção: Artes Cênicas. Entrei para um grupo de dança. Fui iniciado sexualmente. Virei funcionário. Saí de casa definitivamente.

Renato e eu trocamos algumas cartas. (nos anos 80 não havia e-mail). Eram lindas. Poesias, citações, Clarice, Rilke, Hesse - que me fazia viajar, entrar em transe semelhante ao dos incensos e da ioga em Uberlândia. A última foi só uma palavra: "moenza". Seguida de um trecho contextualizante, talvez Mário ou Guimarães Rosa (os dicionários traziam exemplos de uso literário dos verbetes).

Perdemos o contato. Há alguns anos senti saudade dele. Achei no Google. Era cantor lírico. Morava na Europa. Tinha engordado. Cantava umas coisas contemporâneas, dodecafônicas, declamativas, estranhíssimas, textos de Oswald, Mário, Pagu, Jorge de Lima.

Ou seja, nós continuávamos esquisitos. Cada um a seu jeito. Eu muito menos espalhafatoso, grisalho, escrevendo em blog, só resquícios do pezinho na sociedade alternativa. Ele com as músicas compridas, o empresário alemão e a herança antropofágica.

Até pensei em entrar em contato. Desisti. Depois de 35 anos de silêncio e esquecimento é difícil sobreviver alguma identificação entre nós. Talvez ele nem se lembrasse mais de mim. Talvez o encontro improvável servisse só para confirmarmos que continuávamos mais sensíveis e delicados que os caras da veterinária.

Ou talvez não teríamos nada a dizer um ao outro. A não ser tentar recuperar fragmentos irrecuperáveis daquele tempo de escombros.

Mas isso é coisa que se faz somente quando se está sozinho. Diante da janela. Na tarde azul, fria, brilhante, transparente, de um sábado não marcado no calendário, não precedido da sexta-feira nem sucedido do domingo. Um sábado amarrando a lembrança dos dias vividos às possibilidades improváveis dos que poderão vir.

(moenza é uma árvore utilizada para fazer tamancos e canoas).