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sábado, 22 de fevereiro de 2014
da série: educação infantil - água é só pra se beber
Encontrei hoje restos de uma coleção de livros infantis lidos e folheados à exaustão por mim há quase meio século, depois por meus irmãos e depois ainda por alguns sobrinhos e filho. As ilustrações são lindas, cores vivas, paisagens, animaizinhos fofos, etc. Porém, só 50 anos depois, pude perceber a mensagem subliminar dos diálogos (na maioria das vezes negativa e conservadora) e os valores incutidos nas nossas cabecinhas. Os medos, as inseguranças, os preconceitos, o controle, estava tudo lá. Alguns, creio, superei, superamos. Outros permanecem, e exigem vigilância contínua para que não se manifestem ou que sejam minimizados. Por isso a série inaugurada e concluída hoje mesmo: educação infantil.
segunda-feira, 11 de março de 2013
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
curiosidades do mundo antigo - teseu e o minotauro (2)
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| Ilustração de N. Mengden para a 1a. edição em português de As Vidas dos Homens Ilustres, de Plutarco. |
a) qualquer pessoa com letramento básico estaria careca de saber a história de Teseu e do minotauro;
b) o resumo do mito é confuso, incompleto e deixa a desejar em termos estilísticos;
c) é uma forçação (sic) de barra resgatar a realidade e as necessidades literárias de Plutarco (mortas com ele há pelo menos 2.000 anos) para os tempos atuais;
d) que é básico para um autor saber contar várias versões da mesma história sem perder o senso de veracidade.
e) que Plutarco foi esperto, tirando o c* da reta ao apresentar as várias interpretações sem em nenhum momento defender a sua própria visão dos fatos;
f) o texto é extenso, prolixo ao extremo e carece de conclusão.
Leitora Impaciente conclui com conselhos, advertências e admoestações:
g) que eu redirecionasse os investimentos financeiros - das velharias corroídas de traça e cheirando a mofo dos sebos físicos ou virtuais para a nova e novíssima produção literária, nacional e estrangeira (anexou à mensagem uma lista intitulada: 100 livros contemporâneos para se ler antes de morrer);
h) que eu me abstivesse de encher as caixas postais e as redes sociais dos milhões de leitores com esse tipo de pseudo-literatura cansativa e demodê.
i) caso eu insistisse em remexer e publicar aquela velharia sem sentido, em atualizar essas histórias arcaicas que nada ou quase nada interessariam às novas e novíssimas gerações digitais, eu perderia parcela considerável dos milhões de leitores arrebanhados nessas quase 3 décadas dedicadas à literatura e às artes em geral.
Tive a impressão de não uma ponta, mas um iceberg inteiro de ironia nas metáforas e nos superlativos de Leitora Impaciente. Não fosse a dúvida eu me magoaria com a contundência dos apontamentos. Porém compreendi-lhe o intuito. Puro e desinteressado desejo de ajudar a me libertar de amarras, do lastro inútil que me prende e me arrasta, como uma corrente subaquática, às profundezas do passado.
Agradeço-vos de coração e alma abertos, Leitora Impaciente. Envidarei todos os esforços a seguir-lhe os conselhos sábios e publicar de hoje em diante, apenas coisas novas. Permita-me no entanto um único pedido: sua condescendência em postar de vez em quando um comentário ou outro, até concluir a leitura dos 12 volumes do ensebado Plutarco. Prometo caprichar nas ilustrações...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
do diário anterior (5)
(...)
Quando nós nos esquecíamos e mencionávamos sem querer durante o almoço os dobrões de prata, os patacões de ouro, as gemas de cores e tamanhos variados, as correntinhas de ouro com seus respectivos escapulários ou camafeus, os braceletes em forma de serpente com olhos de rubis, os pingentes em forma de escaravelhos cor de esmeralda, os copaços de bronze marchetados, os medalhões do baú guardado no sótão, nossa mãe batia com mais força a colher de pau na borda do caldeirão, apagava o fogo, enxugava as mãos no pano de prato bordado com pimentas vermelhas, abria a gaveta de cima, tirava da bainha a faca de cabo preto das cebolas e riscava horizontalmente o ar três vezes, na altura dos nossos olhos, como se para cortar qualquer resquício, qualquer vínculo, qualquer tentáculo, qualquer âncora, qualquer amarra que nos arrastasse outra vez para o meio da tempestade onde embicava desgovernada a nau fantasma que sabíamos ter pertencido ao nosso pai.
Quando nós nos esquecíamos e mencionávamos sem querer durante o almoço os dobrões de prata, os patacões de ouro, as gemas de cores e tamanhos variados, as correntinhas de ouro com seus respectivos escapulários ou camafeus, os braceletes em forma de serpente com olhos de rubis, os pingentes em forma de escaravelhos cor de esmeralda, os copaços de bronze marchetados, os medalhões do baú guardado no sótão, nossa mãe batia com mais força a colher de pau na borda do caldeirão, apagava o fogo, enxugava as mãos no pano de prato bordado com pimentas vermelhas, abria a gaveta de cima, tirava da bainha a faca de cabo preto das cebolas e riscava horizontalmente o ar três vezes, na altura dos nossos olhos, como se para cortar qualquer resquício, qualquer vínculo, qualquer tentáculo, qualquer âncora, qualquer amarra que nos arrastasse outra vez para o meio da tempestade onde embicava desgovernada a nau fantasma que sabíamos ter pertencido ao nosso pai.
do diário anterior (4)
(...)
Quando ainda éramos capazes de nos equilibrar sobre as nossas próprias pernas e enxergarmos mais de um palmo adiante dos nossos narizes, pouco antes de anoitecer nós cavávamos um buraco na superfície do gelo sobre o lago, com diâmetro suficiente para que pudéssemos mergulhar. De madrugada nós abríamos as portas e as janelas da casa e deixávamos o vento e as cores cambiantes da aurora boreal cobrirem os nossos corpos. E quando a pele enregelava e os dentes trincavam de frio nós pulávamos da cama, descíamos correndo dos nossos quartos, atravessávamos a sala passando bem longe do fogo, cruzávamos o jardim (cuja grama congelada cortava os nossos pés), saltávamos a cerca até a superfície do lago e constatávamos que onde antes era o buraco cavado durante a tarde não passava de um círculo torto de gelo mais fino e transparente por onde só nos restava assistir ao movimento lento dos cabelos das algas no fundo da água.
Quando ainda éramos capazes de nos equilibrar sobre as nossas próprias pernas e enxergarmos mais de um palmo adiante dos nossos narizes, pouco antes de anoitecer nós cavávamos um buraco na superfície do gelo sobre o lago, com diâmetro suficiente para que pudéssemos mergulhar. De madrugada nós abríamos as portas e as janelas da casa e deixávamos o vento e as cores cambiantes da aurora boreal cobrirem os nossos corpos. E quando a pele enregelava e os dentes trincavam de frio nós pulávamos da cama, descíamos correndo dos nossos quartos, atravessávamos a sala passando bem longe do fogo, cruzávamos o jardim (cuja grama congelada cortava os nossos pés), saltávamos a cerca até a superfície do lago e constatávamos que onde antes era o buraco cavado durante a tarde não passava de um círculo torto de gelo mais fino e transparente por onde só nos restava assistir ao movimento lento dos cabelos das algas no fundo da água.
domingo, 18 de dezembro de 2011
do diário anterior (3)
(...)
Antes os mortos ainda não eram assustadores. Uma vez por semana vinham cear conosco na varanda ao anoitecer. Os gatos subiam para os telhados, os cães uivavam pouco e sem vontade e se enroscavam pelos cantos. Os mortos vinham e tiravam dos bolsos cheios de terra histórias misturadas a sementes, a fiapos de tecido podre, a botões de osso que há muito tempo não se fabricavam mais. Geralmente as histórias eram boas de serem ouvidas. Quando não valiam a pena e nós nos dispersávamos, os mortos tiravam os instrumentos das sacolas e cantavam e tocavam e dançavam músicas e danças tão alegres que nos faziam esquecer de que nós éramos os vivos e que mais cedo ou mais tarde seríamos nós os que tocariam e cantariam e dançariam e contariam histórias na varanda ao anoitecer.
Antes os mortos ainda não eram assustadores. Uma vez por semana vinham cear conosco na varanda ao anoitecer. Os gatos subiam para os telhados, os cães uivavam pouco e sem vontade e se enroscavam pelos cantos. Os mortos vinham e tiravam dos bolsos cheios de terra histórias misturadas a sementes, a fiapos de tecido podre, a botões de osso que há muito tempo não se fabricavam mais. Geralmente as histórias eram boas de serem ouvidas. Quando não valiam a pena e nós nos dispersávamos, os mortos tiravam os instrumentos das sacolas e cantavam e tocavam e dançavam músicas e danças tão alegres que nos faziam esquecer de que nós éramos os vivos e que mais cedo ou mais tarde seríamos nós os que tocariam e cantariam e dançariam e contariam histórias na varanda ao anoitecer.
do diário anterior (2)
(...)
Antes, na parte da frente havia janelas largas que se abriam para paisagens diurnas, mar de ressaca, praias ensolaradas emolduradas por coqueiros, picos cobertos de neve, ravinas de girassois ondulando ao vento, cânions, manadas de bisões emergindo de nuvem de poeira ou girafas, zebras e elefantes pastando no meio da savana. Nos fundos as janelas eram menores, quase respiradouros, basculantes, mais parecidas com escotilhas, de onde a noite se desenrolva suave, como uma névoa, um véu, um rolo de algodão negro envolvendo as coisas.
Antes, na parte da frente havia janelas largas que se abriam para paisagens diurnas, mar de ressaca, praias ensolaradas emolduradas por coqueiros, picos cobertos de neve, ravinas de girassois ondulando ao vento, cânions, manadas de bisões emergindo de nuvem de poeira ou girafas, zebras e elefantes pastando no meio da savana. Nos fundos as janelas eram menores, quase respiradouros, basculantes, mais parecidas com escotilhas, de onde a noite se desenrolva suave, como uma névoa, um véu, um rolo de algodão negro envolvendo as coisas.
do diário anterior (1)
(...)
Antes havia botões e depois flores e depois frutos a brotar nas pontas dos galhos, havia ovos de larvas a escovar das folhas, havia formigas subindo pelo tronco, havia até ninhos desajetiados que mal se sustentavam em duas ou três bifurcações de ramos. Havia a terra fofa de sereno logo de manhã, mosquitos a picar os tornozelos ou os ombros descobertos, réstias de sol ou quando muito gotas da chuva noturna pingando no nariz e respingando no rosto quando soprava o vento. Havia também o trabalho subterrâneo das larvas, as crisálidas enterradas durante anos para nascerem borboletas de apenas um dia, túneis das térmites aflorando tão delicados na superfície vermelha da terra, havia pedras quase lisas como ovos de avestruzes ou de répteis pré-históricos e debaixo delas ovos verdadeiros dos lagartos, centopeias enrolando-se em espirais, esporões bifurcados das lacraias, escorpiões vermelhos e besouros verde-esmeralda tão pequenos quanto broches que corroíam as folhas.
Antes havia botões e depois flores e depois frutos a brotar nas pontas dos galhos, havia ovos de larvas a escovar das folhas, havia formigas subindo pelo tronco, havia até ninhos desajetiados que mal se sustentavam em duas ou três bifurcações de ramos. Havia a terra fofa de sereno logo de manhã, mosquitos a picar os tornozelos ou os ombros descobertos, réstias de sol ou quando muito gotas da chuva noturna pingando no nariz e respingando no rosto quando soprava o vento. Havia também o trabalho subterrâneo das larvas, as crisálidas enterradas durante anos para nascerem borboletas de apenas um dia, túneis das térmites aflorando tão delicados na superfície vermelha da terra, havia pedras quase lisas como ovos de avestruzes ou de répteis pré-históricos e debaixo delas ovos verdadeiros dos lagartos, centopeias enrolando-se em espirais, esporões bifurcados das lacraias, escorpiões vermelhos e besouros verde-esmeralda tão pequenos quanto broches que corroíam as folhas.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
de que são feitos
De que são feitos os meninos?
De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis, rabinhos pequeninos.
Disso são feitos os meninos.
De que são feitas as meninas?
De que são feitas as meninas?
Doces, perfumes e outras coisinhas finas.
Disso são feitas as meninas.
de: O Mundo da Criança. Adap. M. L. Figueiredo.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Memórias da Emília
A tem me enviado histórias. Desagradáveis. Ela diz que quando as ouve lembra-se de mim. A primeira foi sobre uma criança atropelada enquanto a mãe fazia oferenda aos orixás na prainha do Lago Paranoá. A segunda foi sobre uma menina e sua cenoura. As histórias dela estão rendendo, pelo menos o título do próximo livro: "Sete histórias do Além e outras mais próximas". Mas hoje ela mandou o lindo trecho abaixo, das Memórias da Emília, de Monteiro Lobato:
...A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela ultima vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?
O visconde teve que concordar que era.
...A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela ultima vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?
O visconde teve que concordar que era.
domingo, 11 de julho de 2010
Sessão cenários
É uma história longa. Começou em 1985/86, com a ida do amigo M para o Porto. Fui em seguida. Trabalhamos três meses no projeto Capuchinho Vermelho. Junto com W fizemos o cenário (a ideia era perfeita, mas o resultado uma catástrofe: um livrão gigante horroroso, de papelão, no meio do palco, cujas folhas eram passadas por duendes no decorrer do espetáculo). Dei aula de arte para crianças da pré-escola (lá chamados de "putos", merecidamente...). Tenho uma ou duas fotos do espetáculo, qualquer hora disponibilizo.
Voltei várias vezes: Borralheira (Cinderela), O Quebra-Nozes, O Patinho Feio, e, por último, A Bela Adormecida. Alguns cenários foram feitos no Brasil e despachados, outros foram feitos lá, com envolvimento integral de uma porção de gente. Alguns processos de criação foram coletivos, outros mais direcionados, é interessante resumir cada um - e postar imagens - ao longo do blog.
Voltei várias vezes: Borralheira (Cinderela), O Quebra-Nozes, O Patinho Feio, e, por último, A Bela Adormecida. Alguns cenários foram feitos no Brasil e despachados, outros foram feitos lá, com envolvimento integral de uma porção de gente. Alguns processos de criação foram coletivos, outros mais direcionados, é interessante resumir cada um - e postar imagens - ao longo do blog.
Sessão cenários - A Bela Adormecida
Esses abaixo foram projetos. A versão definitiva (arquivo perdido para sempre) foi feita em 2007, numa linda casa de montanha, na Serra da Estrela, no norte de Portugal, já quase Espanha. Eu me lembro dos vinhos, da bacia de cerejas, dos pães e do bacalhau assado, e da trilha sonora nas madrugadas, basicamente Gal Costa e Vander Lee.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Sessão cenários - A Gata Borralheira
Abaixo, dois telões feitos para o cenário do Balé A Bela Adormecida, pelo Ginasiano Escola de Dança, em Vila Nova de Gaia, Portugal, 2005. Foram impressos em lona vinílica, a partir de colagem de imagens obtidas na net. Mediam, cada um, 12 x 6 metros. M, o diretor e coreógrafo, acabou usando só o do primeiro ato, que eu gosto mais...
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