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quinta-feira, 5 de junho de 2014

para morrer basta estar vivo

A boa escrita tem regras esquisitas. Por exemplo, a de se evitar os jargões, os lugares-comuns, as frases feitas, os ditos populares. Eu gosto e as utilizo, talvez para expor a ironia da pretensão, nata ou inata em todos nós, de criar algo novo e grandioso. Por trás da obviedade algumas dessas construções de mau gosto têm muita sabedoria. Como o título acima.

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Moro em uma casa com portas largas de vidro transparente. Ver o tempo todo o verde e grande parte co céu do mundo exterior provoca uma sensação agradável de se estar integrado e ao mesmo tempo protegido de tamanha exuberância.

Porém o vidro não é bom para os pássaros. Quando as portas estão fechadas em certas horas do dia, a paisagem reflete-se com tanta nitidez nelas que os pássaros se confundem. Eles não enxergam a barreira invisível. E se esborracham  no vidro. Geralmente o choque é tão forte que (talvez devido à oleosidade das penas) o contorno do pássaro fica desenhado na superfície transparente.

Desenho delicado e terrível do momento exato em que a morte veio. Súbita, fulminante e inexplicável.

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Como agora pouco, o pombo. Ou a pomba, para dar mais dramaticidade à narrativa.

Eu estava me preparando para trabalhar (leia-se: jogando candy crush) quando ouvi o estrondo. Já conhecendo os precedentes, nem me assustei.

Tinha sido na varanda. Estava lá o corpo encolhido no chão. Uma pomba grande, silvestre, da cor de cinza e prateado. Patas vermelhas, olhos fechados, um fio de sangue escorrido pelo bico. Penugem e grãos de ração semidigeridos espalhados em volta. No vidro, ao invés do contorno, um borrão pastoso escorrendo.

Pobre pomba. Tinha acabado de se alimentar. Pelo visto uma refeição lauta, compartilhada da vasilha de comida de algum cão da vizinhança. Tinha bebido água. Provavelmente os grãos inteiros de ração ela levaria para os filhotes no ninho.

A pomba devia estar feliz. Voava distraída, satisfeita depois das responsabilidades cumpridas: barriga cheia, alimento para a prole. Devia estar pensando em tirar o dia de folga, para simplesmente existir, aproveitar o céu muito azul, a temperatura agradável, o verde da grama e das árvores revivido depois da chuva do dia anterior, algum fruto do pomar - enfim, a manhã tão linda, em toda a sua plenitude.

Devaneio interrompido bruscamente pela barreira implacável do vidro.

Para sorte da pomba (será coerente associar os sentidos de morte e sorte?) de tão violenta, a passagem da dimensão real para alguma outra inexplicavelmente paralela, deve ter sido imperceptível. Pouco mais que um soluço.

Afirmar que na dimensão paralela o céu é mais azul ainda, a temperatura ainda mais agradável, o verde mais verde, a manhã mais linda e, espalhados pelo chão, pululam milhares de vasilhas de cães transbordantes de ração é pura pieguice ou carolice.

Depois do soluço-morte, imagino, a pomba adentrou no nevoeiro cinzento, úmido e denso onde voará sem pouso ou descanso por toda a eternidade.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

a mensagem

Há algum tempo recebi pelo celular a seguinte mensagem:

"Desculpa por interromper vc a essa hora. Meu nome e Deus. Pq vc nao se importa comigo??? Eu tenho protegido vc desde o dia q vc nasceu. tenho abencoado vc, quero essa msg no mundo inteiro, antes da meia noite, nao ignore, vc esta sendo testado (a), se vc fizer isso , eu irei corrigir 2 grandes erros em sua vida e vou ajudalo em algo que estas em necessidade e seu dia que segue sera muito abencoado, entao envia essa msg para 14 pessoaa em 10 minutos".

Minha primeira providência foi checar o número na lista de contatos. Não constava. Só podia ser engano. Ou será que ele recorrera ao superpoder da onisciência?

Senti um calafrio. Mesmo com toda formação ateia socialista pelo lado paterno, havia resquício daquele temor e culpa ancestral, católico apostólico português, espanhol, mineirinho do resto da família. Nunca um clichê se encaixou tão bem: yo no creo, pero...

A essa altura os neurônios responsáveis pelo materialismo dialético histórico do cérebro tinham entrado em curto-circuito. Empiricamente liguei para o número registrado na mensagem.

Ainda tive coragem de esperar o primeiro sinal de chamada. Desliguei em seguida. Vai que ele atende? Eu gaguejaria: Senhor? Milord? Vossa Excelência? Vossa Santidade? Pai? E o que eu diria depois?

Quem dera eu tivesse a desenvoltura da amiga que bate altos papos com ele, via e-mail.

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Deixei a taquicardia passar, o temor esfriar, tentei me acostumar com o sobrenatural. Fui cuidar da vida. Editar uns depoimentos para a pesquisa, pensar em soluções para o trabalho encalacrado, estudar a lição de inglês, pagar umas contas pela internet, ligar para o novo amor, tomar uma taça de vinho para relaxar, ver um filme, tomar banho e dormir.

Para só no dia seguinte pensar na mensagem divina.

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Muito antigamente o formato utilizado por Deus chamava-se corrente. A pessoa recebia uma carta (geralmente anônima) com a mesmíssima estrutura formal do texto em tela. Podia ser da parte de um devoto de santo, de pessoa necessitada (geralmente estrangeira). Prometiam benefícios, materiais ou, menos comuns, espirirtuais. Pediam em troca dinheiro, selos, preces - depósitos em fé ou espécie. Quase todas encerravam-se com a ameaça:  

Frau Helga, de Munich, quebrou a corrente e perdeu todo o dinheiro aplicado na poupança. Mariazinha Silva, de Belém do Pará, quebrou a perna. Bob Wilson, do Texas, rasgou a carta e no mesmo dia a esposa o abandonou. Então resgatou a mesma e a reenviou para 55 pessoas e no dia seguinte a esposa voltou trazendo 1 milhão de dólares. Assim por diante.

O destinatário deveria copiar e remeter a referida carta para a quantidade de pessoas nela especificadas e, na calada da noite ou à primeiras luzes do alvorecer, enfiava cada uma das cópias nas caixas de correio ou pelas frestas das portas das casas da vizinhança. Depois era só aguardar a benesse, a vantagem ou o milagre prometido.

Passado o período pré-histórico das cartas manuscritas e depois xerocadas, veio a moda das correntes por e-mail. Teve uma época em que as caixas postais eletrônicas ficavam abarrotadas delas. Modernizadas e potencializadas e disseminadas ao extremo, porém totalmente estagnadas no que se refere ao estilo: as mesmas explicações, ameaças, exemplos, apelos e ordens.

Agora a novidade: corrente via celular.

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Insone madrugada afora, resolvi analisar a mensagem.

Ao invés daquelas intervenções épicas (oceanos se abrindo, vozes estereofônicas vindas das nuvens, relâmpagos, ventanias ou eclipses) ele optou pela simplicidade da modernidade, utilizando-se de uma ferramenta tecnológica tão banal e eficaz quanto o messenger. Criatividade celestial.

1. Apesar da qualidade questionável, o texto criado pelo publicitário dono da conta Divina atingiu os objetivos: ser extremamente pessoal abrangendo ao mesmo tempo o máximo de ovelhas desgarradas do rebanho. (Se não fosse a possibilidade dos dois gêneros na palavra testado(a), eu juraria que a mensagem era exclusiva).

2. Se a mensagem foi digitada sem a ajuda do publicitário, ele se esqueceu de ativar o corretor automático.

3. Ou então estava com muita pressa para não se demorar nos acentos, nas cedilhas e nas concordâncias. Pressa justificável para quem construiu o universo em 6 dias.

4. Ou então, ainda e mais plausível, não era obrigado a conhecer a fundo o português, uma língua tão complicada e não tão sagrada quanto o hebraico (sua língua original) nem tão universal quanto o inglês.

5. O provável dedo do provável publicitário, atualizando e adaptando a velha mensagem (a mesma desde o tempo em que a serpente ofereceu o fruto proibido a Eva) à informalidade das síncopes utilizadas pelos usuários das redes sociais: vc, pq, msg.

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Empaquei. Ou caí no peguinha preparado por ele. Afinal, quais os 2 erros eu elegeria para serem corrigidos, dentre os tantos grandes erros cometidos em mais de meio século de existência?

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Por fim rascunhei a resposta:

Prezado Deus,

Espero não magoá-lo por não levar a diante vossa corrente. Por 3 motivos: primeiro, por não ter suficientes amigos íntimos quanto os exigidos para apontar-lhes os erros e assim disseminar e tornar eficaz a vossa campanha publicitária. Segundo por não conseguir decidir quais seriam os dois, dentre os tantos erros pelos quais vós corrigiríeis. Por último, sem ser desrespeitoso, por eu ser daqueles pessimistas negativistas agnósticos que não acreditam em destino e muito menos na possibilidade de sua mudança. E que, apesar do apego ferrenho à vida, apregoa que viver é o nosso maior erro.

PS.: se achar que vale a pena posso vos indicar um excelente e barateiro revisor ortográfico-gramatical-estilístico.

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Mandei? óbvio que não. E se ele não entendesse o gracejo? se considerasse blasfêmia essa postagem? se se enfurecesse a ponto de bloquear o sinal ou clonar meu celular, por exemplo, enviando à revelia, a mensagem para todos os meus centos de contatos?

Ou atirasse um raio para rachar minha soberba ao meio?

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(O castigo veio. Não como raio, vírus virtual, bloqueio de sinal. Veio na forma da crise criativa que se estende desde o dia em que rascunhei a resposta à interpelação divina até sabe-se lá quando - crise de tal proporção que me obriga a publicar este texto ruinzinho só para não deixar os preciosos 4 seguidores do blog abandonarem-no, deixando-o morrer à míngua).

 

sexta-feira, 7 de março de 2014

diário de um dia agitado

o amigo que morreu de cirrose ontem.

a linda manhã de verão & a preguiça de recolher os frutos podres do pomar & as intermináveis idas & vindas na piscina do clube sob o sol & o sentimento de culpa por deixar sozinha em casa a mãe imobilizada por uma fratura na bacia.

o supermercado classe a com seus produtos de primeira. os bofes sarados nas filas do caixa ouvindo tecnohouse em seus phones de ouvido & cestas recheadas de tomates-cereja & filés de peito de frango orgânicos & pão de centeio & cogumelos de formatos fálicos para o pequeno-almoço.

o almoço chique da gueixa: pepinos ao molho de missô, salada verde, arroz com pimentas de cheiro e escondidinho de proteína de soja. sobre a toalha estampada com bolinhas coloridas de yayoi kusama e surplats com naturezas mortas de monet. fotos de japinhas nos portarretratos. flores de plástico & santos de gesso & samambaia que parecia de plástico. máquina de lavar pratos. arrumadeira de manhuaçu puxando assunto.

a burocracia & a papelada & a atenção exagerada do atendente gay & a chuva inundando o asfalto & o estacionamento no meio dos buracos.

lendo barthes & machado & saroyan & haroldo de campos & sobre artistas feministas dos anos 80 & passando de nível candy crush.

presente de aniversário. café expresso. o rosa & o mãe & o musil abandonado no balcão por ser muito caro. o outro rosa em edição especial (mais caro ainda) a caminho. os tantos os milhares de livros que nunca lerei por falta de tempo.

o jantar de aniversário. salada verde & escondidinho árabe & torta de frutas vermelhas. os templos na indonésia. a dança de shiva. heliogábalo nos anos 80. araticum & jaca & fruta do conde. macunaíma do antunes filho. ritos iniciáticos & tokio & califórnia & alicante & nélson rodrigues & kazuo ohno.

ouvindo marcelo genessi & morrendo de sono & sentindo saudade no namorado distante.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

inferno zodiacal

Expressão do período 1: "se arrependimento matasse".
Sensação física: cólica cerebral.
Sensação psicológica: imobilidade.
Vontade 1: enfiar a cabeça na areia, deixar ladrarem os cães e esperar a caravana passar.
Autoestima: zero.
Expressão do período 2: "o cocô do cavalo do bandido".
Constatação: como se as rugas, a flacidez, a papada, a pança, as olheiras tivessem surgido ontem.
Irritabilidade: com tudo que se move e se expressa por meio de palavra falada ou escrita. Em especial se o contato ocorrer nas primeiras 24 horas do dia.
Frustração: ouvir: "por consideração" ao invés de: "por paixão e tesão".
Vontade 2: tomar chá de sumiço.
Defeito  potencializado 1: falar demais na hora de ficar calado. silenciar na hora de colocar a boca no trombone.
Defeito potencializado 2: meter o bedelho onde não fui chamado.
Desejo 1: estar com ele.
Vontade 3: não ser minha a cara refletida no espelho.
Sonho 1: dormir e só acordar daqui a 100 anos, de preferência com o beijo do príncipe encantado.
Sonho 2: voltar 20 ou 30 anos no tempo. Se não for possível, pelo menos algumas horas.
Vontade 4: tomar um porre homérico.
Desejo 2: estar mais um pouquinho com ele.
Desejo 3: estar o tempo todo com ele. e que tudo mais vá pro inferno.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

diário fotográfico / proposições para o novo ano


Papai Noel só veio hoje, mas arrasou: Trouxe Graciliano Ramos, que tenho protelado a (re)leitura há anos e a obra completa de Machado, em 33 volumes (capa dura, apliques dourados, folhas amarelas, ortografia antiga, do jeito que eu gosto). Fiquei bobo de felicidade, igual criança. Milhares de agradecimentos ao querido professor.

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Mandingas para o novo e para os próximos cem anos: diversificados livros de cabeceira & natrium muriaticum do Dr. Basílio; mosha de artemísia para ativar os meridianos e aliviar futuros reumatismos & torcicolos; incenso & mirra para espantar os maus eflúvios nos cantos da casa; e me espelhar na serenidade do Buda. O tempo todo. Ou sempre que puder.

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Bichos-totens desde o Princípio. O leão do ascendente no mapa astrológico. O veado guardião da entrada da casa. A cadela saudosa, coberta de pó de mármore no jardim. A gata antissocial com alma de onça, defendendo nosso território dos invasores-gatões-brancos. As abelhas da cerca viva produzindo mel para lambuzar a cara dos caretas. A girafa e os flamingos do filme. 2014 será o ano do cavalo no horóscopo chinês. 

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Por fim, como no jingle televisivo da infância: "muito [eu me contento com "algum"] dinheiro no bolso, saúde [visual, inclusive - para ler todo o Machado & o Plutarco & o que vier] e amigos pra dar e vender". Se não for pedir demais, também (como na música do Cazuza): a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida.

Além disso, suplicar às Eumênides: que Cloto não se canse de cardar; que Láquesis escolha as melhores futuras atribuições e projetos; e que Átropos protele ao máximo a hora de cortar o fio.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

crônica de natal da infância

Já devo ter escrito várias vezes antes: acho um saco as festividades do fim de ano. Principalmente o natal. Não entendo como a maioria das pessoas se deixa levar pela euforia histérica das compras de presentes, das comidas exageradas, das confraternizações nos bares, dos amigos-ocultos. Do ano novo, os ingressos a preços exorbitantes das festas sem-graça de reveion, das roupas brancas, as homenagens alcoólicas às divindades afro-brasileiras nas praias, beiras de rio, de lago, etc, os fogos de artifício, a cueca amarela para atrair dinheiro ou a calcinha vermelha para o amor (e/ou vice-versa).

Normalmente eu tenho pânico de shoppings. Enfeites e luzes não me agradam, músicas pior ainda, papais-noéis, decorações com duendes, renas, fitas verdes, vermelhas, douradas, cartões de natal on line, lojas abarrotadas, filas nos caixas, disputa de vagas nos estacionamentos, empurra-empurra, crianças berrando - quando sou obrigado enfrentar isso, se eu demorar mais que 15 minutos, é o verdadeiro desespero.

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Não, leitor(a), não é trauma de infância. Na infância os meus natais foram mágicos.

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No começo de dezembro íamos com a mãe em excursão ao cerrado. Colhíamos uma árvore seca, daquelas bem retorcidas, o enfiávamos em uma lata com areia, envolta por papel laminado vermelho e estrelinhas douradas coladas em volta. Cobríamos os galhos com algodão e dependurávamos os enfeites - lindas bolas de vidro coloridas, muito antigas, a maioria não maiores que uma uva. Tinha também um papai-noel maiorzinho, meio descascado, também de vidro, que disputava com a estrela (essa sim, era o máximo) o galho mais alto da árvore.

Aos pés da lata de areia montávamos o presépio, forrado com limo colhido no quintal. Meus pendores artísticos revelaram-se cedo - eu construía uma gruta com papel kraft amassado (sacos de pão), culminando com um cometa meio torto recortado na cartolina, fazendo as vezes de estrela dos reis magos.

Os presentes eram poucos e sóbrios. Pequenos embrulhos repousando sob a árvore: carrinhos de plástico, canetas hidrocor e cadernos de desenho e - sempre detestávamos - camisetas, cuecas, meias e/ou sapatos.

Houve um ano, talvez de vacas mais gordas, que eu ganhei um carro de bombeiros com reservatório de água e mangueiras, o irmão do meio um transatlântico com botes salva-vidas e tudo, e o caçula um velocípede em forma de jipe.

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O melhor do natal daquela época, e só agora eu percebo, era a festa. Além dos parentes de Minas, com muitos primos, vinha tia Madalena e tio Zeca, de Goiânia (traziam um saco de bala toffee coberta com chocolate). Vinham também os vizinhos libaneses - Seu Mohamed com a esposa e os filhos Nasser e duas meninas que não me lembro os nomes, Youssuf, que deixara a esposa no Líbano e Abdel, o mais novo, solteiro, bonito - cabelos castanhos e cacheados como os do anjo do presépio. Traziam arak e pratos esquisitos, que para o meu paladar inculto sabiam a terra.

O mais legal porém era o povo da roça. Começavam a chegar 1 semana, 10 dias antes. Vinham para consultas médicas, resolver problemas de cartório, heranças, partilhas, demarcações, etc, e ficavam para o natal ou até o dia de reis. Os mais velhos e velhas dormiam nas nossas camas. Os mais novos, em colchões. E a criançada toda misturada, irmãos, primos, roceiros - em um grande dormitório de colchonetes estendidos na sala.

Traziam de tudo: pequi, jaboticaba, guariroba, farinha, carne, feijão, biscoitos, queijo, galinhas vivas, ovos de pata, leitão, até um cabrito. A casa ficava com um aroma peculiar, que até hoje me lembro, mistura dos suores, do perfume de tia Madalena, da loção de barba do tio Zeca, dos temperos do oriente, das comidas sendo preparadas, dos assados, o arroz com pequi, os bifes, da cachacinha do avô antes do almoço, do cheiro de galinha depenada.

Era tanta farra nos dias antecedentes ao natal que a ceia propriamente dita era quase frugal. Os mais velhos ou mais beatos iam à missa do galo, celebrada pelos capuchinhos (padre Luiz e irmão Miguel) na igreja de tábuas devotada a São Sebastião. As crianças ficavam acordadas, farreando, ou esperando a comida.

Enquanto isso, eu (e meus precoces pendores artísticos) arrebanhava alguns figurantes (geralmente contra a vontade deles), cobria-lhes com lençóis, colchas e cobertores à guisa de véus e túnicas para encenar um presépio vivo, para a plateia menos religiosa: o pai, o avô e os tios socialistas, tia Hemicênia intelectual, os roceiros sonolentos que não tinham ido à missa, e Bilô, a empregada.

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Com o passar dos anos o ardor da festa foi diminuindo. O povo da roça deixou de vir. Os tios e primos vinham cada vez menos. Os libaneses mudaram-se. As crianças cresceram. Tio Zeca morreu. Mas meu pai fazia questão de reunir o máximo de parentes possível. Passou-se a ligar a TV (Roberto Carlos, retrospectiva do Fantástico, depois Xuxa) ao invés do teatrinho e das histórias e das conversas.

Depois morte do pai, o natal em família acabou de vez. A gente ainda se reúne - irmãos, cunhadas, sobrinhos e primos mais próximos. Fazemos um almoço tardio - cada um traz um prato, refrigerante, vinho, cerveja. A avó distribui envelopes com dinheirinho (acho que notas de R$ 20 para cada neto) e panos de prato para as noras. O irmão monta a mesa de pingue-pongue e frita espetinhos. Joga-se um pouco de conversa fora. Às 8 da noite acaba. Cada um vai para casa se preparar para as verdadeiras festas de natal nas casas das respectivas sogras.

E eu vou dormir. Enfeitando a lembrança de tempos que talvez só na minha memória tenham sido tão luminosos e mágicos.

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E esperando que o próximo fim-de-ano capitalista e consumista demore muito a chegar.


domingo, 20 de outubro de 2013

divina comédia - inferno - sétimo círculo (1)

(Gustave Doré, Inferno, XIV)
O amor de Dante por Beatriz era tão sublime que o poeta nem se abalou quando soube que a amada se casaria com um rico negociante florentino. No século XIV as coisas funcionavam assim. Porém Beatriz morreu em seguida ao casamento. Dante não mais pronunciou o nome da amada. Desafiando-se, propôs imortalizar Beatriz. Em uma obra artística nunca antes imaginada. Assim surgiu a Divina Comédia.

(Escrevi essa introdução para falar sobre casamentos. A ideia inicial perdeu-se. Tive pena de apagar o parágrafo, que permaneceu arquivado - ou perdido na pasta dos rascunhos - sabe-se lá quanto tempo).

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Outro dia me propuseram um trabalho inspirado na Divina Comédia. Mais especificamente no Inferno. Sei, já há milhões de trabalhos artísticos, performáticos, teatrais, midiáticos sobre. Sei também que Madame torcerá mais uma vez o nariz para o projeto (Madame é aquela que vive me admoestando para deixar de lado as velharias e me permitir novidades).

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O projeto gorou. Mesmo assim retomei pela quarta ou quinta vez a descida aos círculos do Inferno. O texto é emocionante. Agora a maturidade possibilita acompanhar com mais empenho os poetas, degrau a degrau, na descida assombrosa.

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Assim, ao invés de amores e casamentos, falarei sobre o terrível Sétimo Círculo. Aquele onde se encontram os violentos contra deus, a arte e a natureza. Continuamente fustigados por uma chuva de fogo.

O Sétimo Círculo do Inferno é guardado pelo Minotauro. É dividido em 3 sessões, ou "giros". No primeiro encontram-se os violentos contra o próximo: tiranos, assassinos, salteadores. Submersos em um rio de sangue fervente. Os tiranos estão imersos até à venta; Os assaltantes, até o peito. Os assassinos, a cabeça, acima do pescoço.

O giro segundo é o dos violentos contra si mesmos e/ou violentos contra os próprios bens: os suicidas, transformados em árvores; e os dissipadores, perseguidos e estraçalhados por cães ferozes.

O terceiro giro é onde se encontram os violentos contra deus, a arte e a natureza, continuamente fustigados por uma chuva de fogo. São eles os blasfemos, condenados a vagar por um deserto de areias incandescentes, sob chuva de fogo (um temporal de lâminas ardentes). Os violentos contra a arte, dobrados sobre si mesmos, e carregando uma bolsa bordada com os brasões de suas famílias e contendo os objetos por eles destruídos eram os usurários.

E os os pecadores contra a natureza, ou seja: os sodomitas. Objeto e tema da próxima postagem.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

diário repetitivo

Finalmente (às 22:53) a sexta-feira chegou para ficar. Saiba as razões da demora a seguir:

1.
Lembram-se do post sobre a crise convulsiva da cadela? Que eu pensava serem-lhe aqueles os derradeiros dias de vida? (se não se lembram, releiam aqui). Pois a situação inverteu-se. É como se aquilo nunca tivesse acontecido. Pandora, aos 12 anos, retomou a integral e irrestrita disposição da juventude.

Mais uma vez a lição reaprendida com ela: viver vale a pena. Sempre. A qualquer instante. A todo custo.

2.
As infiltrações apareceram logo na primeira chuva após terminada a reforma da casa nova. Deixei passar. Até o limite do suportável. Ou seja, 2 anos de goteiras, manchas de mofo no teto do quarto e cascas de pintura caindo na cabeça dos convidados.

Então pedi indicação de mão-de-obra confiável.

Veio o Kleyton. Alardeando o tempo todo a própria honestidade e a qualidade do serviço. Oferecendo garantia irrestrita. Prometendo mundos e fundos.

Kleyton quebrou, descascou, impermeabilizou, sujou, substituiu. Me fez gastar em material pelo menos 2 vezes o dinheiro que eu não tinha. Faltou, atrasou, me enrolou e me infernizou a vida por 30 dias. Como de praxe, 2 dias após a entrega do serviço (e consequente pagamento), choveu a primeira chuva da primavera no cerrado - e com ela a mesmíssima infiltração.

Kleyton detectou novos problemas. Na quarta-feira arrancou as portas e as janelas do local afetado. Na quinta-feira, após os meus pedidos desesperados, mandou o ajudante cobrir os vãos com lona plástica. Pois que estava a terminar outra obra e viria me socorrer assim que pudesse.

A lona plástica foi mal colocada. O vento arrancou-a na madrugada. Liguei ao Kleyton hoje cedo. Receando a chuva prometida para o final de semana. Ele veio ao final do dia. Prometendo solução definitiva até, no máximo, a segunda-feira próxima. Mas o plástico - ouço o farfalhar ao vento agora, na madrugada - descolou (talvez irremediavelmente) de novo.

Que os deuses e as iabás velhas segurem a chuva prometida pelo menos até segunda-feira cedo.


3.
Ainda tem a praga dos besouros. Como no Egito bíblico. É impossível acender a luz sem o ataque da horda desses coleópteros (do tamanho de uma mosca) cuja razão de existir resume-se a uma noite esvoaçando em torno de qualquer foco de luz, seguido de uma manhã de estertor com as perninhas pra cima, uma vassoura e uma pá de lixo que os varram à primeira claridade do alvorecer e um sepultamento coletivo (milhares de semelhantes ainda vivos e esperneantes) na lixeira da cozinha.

Mais as baratas voadoras que me perseguem desde a ancestralidade remota.

4.
Há também o cenário. E a burocracia infinda e kafkiana do projeto cultural. Preencho recibos, guias, cheques, formulários. Visito o teatro, converso com o técnico, pechincho, negocio, compro material, devolvo, peço notas fiscais, penso e repenso, abandono, retomo soluções. Como no diário-gerúndio de ontem:eu não vejo a hora de acabar.

5.
Os meses de julho e agosto próximos-passados (adoro essa expressão) foram punks. Jet-leg, gripe, inércia e depressão prolongadas (vide a escassa produção no blog).

A cura deu-se à base da milagrosa homeopatia do Dr. Basílio, do floral anti-pânico-social e da atividade física beirando à neurastenia. Cujas consequências são um possível cancro de pele em decorrência do excesso de sol, o latejar constante da musculatura das costas, o ombro prestes a travar de vez e o desgaste da articulação do fêmur.

6.
Adquiri uma panificadora doméstica. Daquelas que é só despejar os ingredientes e acordar na manhã seguinte com um super-pão quentinho e perfumado esperando para ser devorado.

Fazer o próprio pão é uma experiência ancestral. Sagrada.

Experimento. Invento. Subverto as regras das receitas. Pão da aveia, pão integral, pão de gergelim, pão caseiro, pão rápido, pão demorado, pão que cresce, pão que sola, pão de goiaba, pão com besouro para ser jogado fora. Ad infinitum.

Por isso eu me esmero nas atividades físicas descritas no item anterior para compensar os possíveis excessos.

7.
Para completar, o convite para participar da antologia.

Confesso: sem tempo, pique ou disposição para produzir textos novos e consistentes. Dignos dos demais autores. Apesar de toda a compreensão e condescendência do organizador do projeto.  Propus o caminho aparentemente fácil: resgatar textos do blog.

Levei adiante. Acha que é fácil escolher 25 entre quase 1.200 postagens ao longo dos 3 últimos anos?

(Resultado da primeira repescagem: 159).

8.
Ia me esquecendo do projeto Saia-da-solidão-e-tire-o-atraso-em-2-cliques-e-uma-carinha.sorridente-no-skype (para bom entendedor, meia-palavra basta). Projeto este adiado indefinidamente. Por falta de quorum.

9.
Por tudo isso dei um tempo. Comprei um espumante agora há pouco. Bebido até a última gota no exato instante em que te escrevo.

Sei que falta fazer uma infinidade de coisas. Ligar para a amiga operada. Para a que iria operar. Para a amiga cujo pai está doente. Para o provável e quase impossível namorado. Para a futura nora. Para a diretora da peça. Para seduzir o protagonista da peça. Para organizar o almoço de aniversário dos 90 anos da mãe. Para adiar a aula de alemão da próxima terça-feira. Para marcar a vistoria no Detran. Renovar o seguro. Procurar receitas na internet. Preparar o material da montagem. Agradecer à veterinária. Pedir nova receita ao homeopata. Marcar a acupunturista.O massagista. O dentista. O acompanhante.

10.
Na repescagem dos textos para a antologia encontrei um que se encaixa perfeitamente no momento atual (são 0h07min). O título é "Libações". Para quem não leu ou quiser reler, clique aqui.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

pandora



Pandora é uma cadela labrador. Adora passear, tanto à pé quanto de carro. É dócil, simpática e sociável, faz amizade com todo mundo. É gentil, obediente, educada, feliz - se fosse gente - gente-boa. Aos 12 anos já superou uma infecção mortal, uma quase cegueira, convive com uma doença provocada por parasitas, com a dispasia nas 4 patas e osteofitose (bico de papagaio) na lombar, que dificulta terrivelmente sua mobilidade.

Mesmo assim, mantém 24 horas o astral lá em cima. 24 horas pronta para a farra.

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Tenho notado os efeitos da idade nela. Mais lenta e comedida, menos impetuosa, mais cansada, movimentando-se menos, às vezes fazendo as necessidades fora do lugar, dormindo demais - dentre outros sintomas.

Primeiro foram as caminhadas. Mesmo com as dores na coluna e articulações ela adorava andar longas distâncias. Porém, nos últimos meses nosso trajeto encurta-se dia a dia. De 3 quadras para apenas o final da rua. Até que na semana passada ela empacou. Recusou-se a passar do portão.

Depois apareceu uma espécie de transgressão obstinada. Logo ela, que sempre foi educadíssima nesse sentido - passava batido por qualquer iguaria largada na calçada, no gramado ou na beira da água - fossem restos de comida, peixes ou pássaros em decomposição, lama ou outros dejetos duvidosos. De repente surgiu o hábito novo: eu não podia descuidar da coleira que ela deliciava-se com a porcaria.

Por último foi a água. Ela sempre amou nadar. Se pudesse ela passava o dia inteiro buscando gravetos ou bolinhas de tênis atiradas no fundo. Sábado passado, um dia lindo, eu a levei à beira do lago. Estranhei a falta de empolgação dela. Só para me agradar ela molhou os pés, deitou-se uns instantes, sacudiu-se e foi se secar no gramado. Olhando firme, como que pedindo para ir embora.

Quando os weimaranes dos vizinhos aproximaram ela levantou-se irritada e saiu andando, sem me esperar, no rumo de casa.

Nós os humanos rimos inconsequentes: senilidade, caduquice, essas coisas.

...

De uns 3 dias para cá a coisa piorou. Nos poucos momentos em que permanecia acordada ela não desgrudava de mim. Choramingava. Respirava forte, ofegante. Gania sem motivo visível, aparentemente atacada por alguma dor insuportável.

Liguei para a acupunturista. Dei aspirina, dipirona, floral, essência de flor de laranjeira. Acendi incenso e defumador, conversei com espíritos ancestrais, mentalizei boas energias. Até reiki eu arrisquei para aliviar o desespero dela.

Funcionou. Até hoje de madrugada.

...

Eram 4 da manhã. Acordei com a respiração ofegante dela. Que acelerava-se. Até tornar-se um chiado. Depois ronco. Ela estava com um lado do corpo todo molhado de saliva. Gania. Agitava as patas para levantar-se. As traseiras paralisadas. O corpo não obedecia o comando.

Entrei em pânico. Socorrê-la (como?) - ou procurar na internet alguma clínica veterinária com plantão 24 horas. Carreguei-a para o jardim. Ela firmou-se. Mas andava pelo gramado desvairada, em círculos, passando por cima das plantas, tropeçando na mangueira, em galhos secos, topando nas árvores e nos cactos espinhentos.

Quando eu a conduzia para perto da casa ela encostava-se e seguia a caminhada obstinada rente às paredes, batendo-se nos vasos, pilastras como se aqueles obstáculos não existissem.

Toda essa cena acontecia em ritmo acelerado, muita energia desprendida, ela cega, alucinada.

Pensei que ela ia morrer.

Carreguei-a até o carro e segui para o plantão veterinário, do outro lado da cidade.

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Ela ainda gania acomodada no porta-malas, mas com menos frequência. Parei o carro em um descampado no meio do caminho. Ela desceu. Farejou o ambiente, as moitas de capim, o orvalho. Andou, dessa vez com direção. Pensei: ao invés de cruzar a cidade até o veterinário, por que não levá-la para um lugarzinho que ela gosta, mais ou menos próximo, à beira do lago?

O dia amanhecia e estava lindo. Ela não entrou na água. Ficou por ali andando, respirando o ar frio, reconhecendo o espaço, o mundo, recompondo-se internamente. Permanecemos lá por volta de uma hora. Quando eu a coloquei no carro de novo ela estava mais calma. Quase serena.

Em casa comeu dose dupla da ração e dormiu o resto da manhã.

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Só à tarde ela foi examinada pela veterinária que a acompanha há alguns anos. Diagnóstico: convulsão. Pode ocorrer em alguns cães com a idade dela. Ou por intoxicação. Ou ainda por causa da doença parasitária. Ou tudo junto.

Tomará remédio tarja-preta o resto da vida. Ganhará peso. Ficará lenta, sonolenta, apática, desenergizada. Perderá talvez o gosto pelas caminhadas, pela água, pelas pessoas, pelos brinquedos dela, por mim.

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É triste demais. Mas é preciso resignar-me. Não me deixar abater. Ter disposição e dedicação para tornar a vida dela nem que seja um reflexo do que foi durante os últimos 12 anos. Manter (é piegas e apelativo, eu sei) viva a chama de vitalidade dela. E preservar a alegria de viver que ela sempre se esmerou em me ensinar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

sem título

hoje de manhã eu preenchi duas páginas da agenda com os afazeres. uns imediatos, como por exemplo, engraxar os sapatos e escolher meias novas para qualquer eventualidade. outros diáfanos e abstratos e tão longínquos como elevar o espírito e sublimar os desejos da carne.

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dirijo aos trancos, desatento. sonolento por causa da noite em claro vendo filmes de terror. eu me perco nos retornos, nas entradas, abaixo da velocidade média da pista. no momento seguinte, eufórico, acelero além do limite permitido e canto alto com o rádio do carro, descabelado, os vidros abertos.

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durante o dia eu me ocupo de banalidades. procuro documentos no meio da papelada. jogo cartas comigo mesmo e perco sempre. folheio o velho romance para moças. para não pensar na ausência, no esvaziamento de qualquer sentido da morte que à noite ronda.

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tramito na fronteira. em constante estado gerúndio. como um zumbido contínuo em baixa frequência.

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desinfecto as mãos com álcool gel. toco-lhe de leve a mão inchada. falo com ela superficialidades: do telefonema às 2 da manhã. da discussão com o síndico. do prêmio que ainda não ganharemos. do jantar com os figurões da política. depois pergunto ao médico, o clichê: é grave, doutor?

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chove. hoje li um conto, quase sonho, sobre mãe, irmãos, rio e pai distante. eu tenho sonhado sonhos intensos. ontem mesmo eram cômodos que eu não imaginava existirem na casa. acordei com os olhos pesados. como se levasse um óbolo em cada pálpebra.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

dia a dia da pátria

roll clouds over winscosin / roll over beethoven / chuck berry fields forever / alice cooper / alice in chains / alice in the wonderland / alice quem diria acabou no irajá / no encantado / aracy é outra história
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otto, o zumbi gay na madrugada & o existencialismo anticonsumo / dali & lorca & bruñuel / romancinho triangular fracote no caribe / dia da pátria & secura & filminhos gays água-com-açúcar / vinde a mim os medíocres / de todos os quadrantes da rosa-dos-ventos / sementes de sucupira & psicanálise dos sonhos na gaveta da penteadeira
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desenhando pornografia no tablet / pirateando pornoclips para todas as idades / separando as gêmeas siamesas chamadas vontade & impossibilidade / perscrutando os desafetos virtuais / diferenciando os trezentos e sessenta e cinco heterônimos / mapeando o dark side of the moon
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os cravos da cruz de cristo / os cravos do olho de sogra / os cravinhos da georgette / & enlouquecerás pelo que hás de ver com os teus olhos / puritano como um quacker / às portas do inferninho / mais dois passos para chegar ao paraíso
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raposas rompem as fronteiras do possível / papéis de sonho-de-valsa sobre o corpo do garoto-pombinha / roçados de rosas / aos pés do pássaro-roca / rodoendro / rostos de vidro / pororoca parangolé preto-velho / arroz-doce com poejo & rapadura

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

dia a dia 01 e 02-09

G. Doré - ilustração para a Balada do Velho Marinheiro
surfando nas ondas da insônia / na cabeleira de posídon / músculos revestidos de neoprene do garoto-sereia / desencalhando os bebês-cachalotes no calçadão de copacabana / seduzido pelo boto nos bancos de areia da ilha de marajó / coberto apenas com o lençol de seda & rendas cor-de-carne / aprendendo os primeiros passos da dança de acasalamento dos albatrozes / coleridge & a morte ganhando almas no carteado / no convés do navio fantasma / tempestade & nevoeiro & mar impróprio para banho / olhos de ressaca / tubarões devoradores de homens / leviatã / kraken / ceto / basilosaurus / megalodon & a galera do imaginário submarino


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globo ocular & globo da morte / motociclistas pelados na madrugada da megalópole / a pele esfacelada do anjo-motoqueiro / beijo no asfalto / esvaindo-se em sangue no asfalto / fratura exposta & morte no semáforo da próxima hora / blinded / crash! / clepsidra / estilhaços de vidro cravejando a pele-noite do motorista-fantasma / rugidos do leão-máquina rachando a cúpula iridescente dos sonhos

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

dia a dia - 31/08

piquenique da galera do golden bough no lago de nemi / pescando sardinhas na ilha de stromboli / bijouterias / semijoias & outros balagandãs no tabuleiro de vulcano / desvio das rotas aéreas para evitar o etna / alerta vermelho na região do vesúvio / campi / masili & mais mil e um hot places para se conhecer antes de morrer / erupção ao som de sirenas e orquestra de ennio morriconi / há que se lembrar da paisagem pré-histórica do havaí / chile / puerto rico / eldorado também tiveram seus momentos de glória no quesito telúrico / voyage au centre de la terre / hospedagem grátis & visita guiada aos géiseres da islândia / rock progressivo nos autofalantes do hades

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bebês bilíngues tropeçam no briqueabraque das conjugações imperfeitas / omoplatas do garoto-sísifo sustentando o lado obscuro das ilusões perdidas / demônios-da-tasmânia procriam na cobertura do casal de escritoras lésbicas

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new york / new jersey / vermont inundadas pelo orgasmo da mulher-furacão / ator pornô distribuindo esgares na hurricane party / katcha / irina / anna / valentina / diretamente das páginas da literatura russa para os anais metereológicos / incêndios criminosos destroem milhares de hectares de plantações de nuvens / & santuários ecológicos & animais em vias de extinção / o mundo se acabando em terra & água & fogo & ar

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

dia a dia - 30-08

respingos de sangue no raiban do caudilho canastrão / estupros / massacres / sequestros / escudos humanos / & outras estratégias menos populares de guerra suja / guerra é sempre suja / mil e uma mulheres mortas em sabha sirte e misrata / as saídas do labirinto da primavera-verão no outono árabe segundo robert fisk / explosões de mil e um bebês-bomba na maternidade de murgub / o sol se põe mil e uma vezes no machrek / crescente cravejando de prata o azul do entardecer / berberes e tuaregues / nas mil e uma colinas do magreb / noventa e nove nomes do misericordioso ecoam do alto da mesquita / welcome to the desert of the real

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

6 - qual foi a experiência de vida que mais me fortaleceu?

Gastrite, insônia e pressão alta. A dentista arrancou sem querer o dente sadio. A melhor amiga roubou o namorado. Furou o pneu da moto no domingo. Cancelaram a viagem na última hora. A passadeira Queimou o paletó do único terno apresentável. O porteiro pediu 100 reais emprestado. Desabou o toró. Descobriu que era adotado. O colega reclamou do mau-hálito. Depositaram antes do dia o cheque predatado. Perdeu a ação por vacilo do advogado. Perdeu o último ônibus para Guarapari. Perdeu a receita do antibiótico. Apareceu uma pereba na virilha. Vai ter que usar aparelho. Perdeu 100 reais no metrô. A mãe fala pelos cotovelos. O vaso sanitário entupiu. O desodorante e o creme dental acabaram. O colesterol está nas alturas. O namorado nunca tem tempo. O vírus corrompeu os arquivos. O paquera do site não apareceu. O vizinho ouve pagode no último volume. A imunidade anda baixa. Discutiu com a caixa do supermercado. O segurança mandou baixar o tom de voz. Clonaram o cartão de crédito. Bloquearam a internet na repartição. O chefe passou o pior serviço. A mãe-de-santo mandou se benzer.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

dia a dia mitológico & festivo

cochilar no leito de procusto pode ser fatal para quem tem pernas compridas / ninguém deve roubar as ovelhas do ciclope / pense duas vezes antes de vestir casaquinhos tricotados por dejanira / espelho espelho meu existe alguém mais narciso do que eu? / não se esqueça de convidar as bibinhas teen para a rave no monte olimpo / ganimedes & jacinto & calisto confirmaram presença? / quem convidou a chata da eco? / todo mundo a fim de azarar o coroa barbudo do feixe de raios / por mais linda que seja não diga que seu penteado é mais bonito que o de afrodite / cuidado para não cair na velha cantada da chuva de ouro / abaixe os olhos ao conversar com a górgona / leve preservativos para a orgia das bacantes / drag queens e travecas cuidado com as mênades no melhor da festa / se a festa for em creta é bom levar um novelo

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dia a dia com Shakespeare

o perigo de reler romeu & julieta aos 50 é constatar a idiotice das paixões adolescentes / lady macbeth nós amamos você / regane & goneril & as irmãs invejosas da gata borralheira / lear nós também te amamos de paixão / hamleto hoje você não passa de outro nome riscado no meu caderninho / alguém perguntou sobre ofélia? / sexo drogas & rock´n roll no forrobodó da noite de verão / ah como é falha a comunicação humana suspirou o mouro enquanto asfixiava a branquela / verona veneza mântua & a o lado latino da geografia da tragédia

domingo, 1 de maio de 2011

Dia a dia (com Augusto dos Anjos)

429. assombro e brilho na passagem dos séculos / sinastria dos pólipos nas eras recônditas / ostras agarradas aos cascos das naves de espectros / harpias espreitam das escarpas / lutando contra as ondas encapeladas do mar do medo / ruínas do pensamento ocidental / altares maculados pelo mênstruo das bacantes / espalhando aos quatro ventos os mistérios de elêusis / hierofantes lúgubres sambando na madrugada / saudades da aurora / incisão solar na retina do touro sagrado / conúbio dos numes velhos ecoa no vale de lágrimas / piquenique das fúrias nos jardins do capitólio / céu doirado e auroreal de vênus / quem pode explicar o significado de gusla creba das sereias?


430. almas virgens vagueiam entre os carros estacionados no drive-in / buracos negros na fotosfera / cloreto de sódio hidrogênio e albumina no veneno dos dias / água radioativa / chagas de cristo & tamarindos / musaranhos  refastelando-se nas cinzas sagradas da pira da pitonisa / choramingar dos pásssaros nas 25 janelas da igreja do juazeiro / devastação nas arcadas dentárias das ossadas / catedral de nuvens nas plagas do planeta mongo / relâmpagos / monstros de plástico / faxina semanal no templo de apolo / saudade ancestral que nos manteve dentro & e vivos / palavras prenhes de quimeras

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dia a dia 427 e 428

Vincent Van Gogh - Ronda de prisioneiros
427. prisioneiros políticos aguardam a vez sob o sol de outono / caminhando em círculos no pátio congelado / cadafalso / pétalas de sangue nas cabeças dos peregrinos / ao som de adoniran cantando tiro ao álvaro / face bexiguenta do deus da guerra / tortura & varíola & sangue & areia / bebês suicidas espalham terror em estacionamento de shopping / forrobodó e furdunço no baile do sindicato dos homens-bomba / chip subcutâneo reduz até 90% da produção de adrenalina / de testosterona / tolstoi em doses homeopáticas para garantir a paz das gerações futuras / asas de anjos guerreiros cobrem nossos corações desnudados


428. caminho em espiral até a porta de vidro temperado do fim dos tempos / bolinhas de turquesa marcando o passar dos dias em shangrilá /pulando 6 casas no jogo de ludo / tempestade de areia nos cabelos da diva morta / luxo / miserê / purpurina no desfile das escolas campeãs / máquinas de bingo eletrônico mastigam dados viciados / caixas eletrônicos cospem notas de 100 dólares em agências bancárias da periferia / caçaníqueis defecam jujubas e moedas de 1 real / velhinhas atentas ao próximo clic da roleta russa / engolido pela boca escancarada da fonte dos prazeres

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Dia a dia (411 a 615)

Cabinet des Dr. Caligari, Robert Wiene, 1920
411. flechando coraçõezinhos teen enquanto as luzes permanecem acesas / atirando em todas as direções no jardim de infância da cultura pop / rock´n roll e catimbó na mesa de jurema / oxum na cachoeira dos porões da universidade / rio de granizo no vale das tuas coxas / beijo com gosto de sorvete de baunilha / e cobertura de chocolate derretido / e casquinha crocante / blowjob e tapioca no café da manhã

432. gordinhos sequestrados / gordinhos baleados / gordinhos explodindo / cadáveres de gordinhos bicados por abutres / gordinhos cavalgados por esqueletos / gordinhos respingados de gotas de orvalho / de sangue / gordinhos molhados pela chuva de sangue / gordinhos chapinhando em poças de sangue / na trilha da floresta sobrenatural de bierce / antígona aimará / arrastando o corpo do hermano pela passarela / algumas veias da américa latina insistem em permanecer abertas

434. o buraco da revolução cultural da china era muito mais embaixo / madame mao quem diria acabou na 25 / desagradáveis personagens de leon bloy / 2 litros de silicone nos peitos / 2 nos quadris / e 3,5 nas nádegas / com direito a necrose dos tecidos / internação / tratamento vip na enfermaria da santa casa / e enterro de indigente em vala comum / rayanna shangrilá passou por aqui

531. levando no ombro o peso dos séculos / entubado pelo poema-enema / lavando a roupa suja da história recente / seguindo as pegadas do bêbado de terebentina / atravessando os territórios indômitos da escrita / coleção de escalpos no gabinete do doutor caligari / estourando bolhas de sabão com a machadinha da vovó donalda / tomar umas e outras com arp / tzara / schwitters / ray no cabaré voltaire

615. anjos de pelúcia violentados na orgia das tubaínas / moicanos de sílex aguardando a vez nos portões de sodoma / garotos de sal fazendo ponto no calçadão da avenida atlântica / diadorim dando mole para riobaldo na vereda da cabeça do veado / bundinhas de veludo dos deuses nórdicos / estalactites de carne brotam nas paredes do túnel do intestino grosso