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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

o escriturário (trechos - anotações a lápis no verso da folha 27)

Assim, além de solitário, o ser físico e animado compartilha seus planos modulares com seres imateriais.

Em termos comuns, a solidão do ser é povoada de fantasmas, aos quais erroneamente são denominados semelhantes.

A diferença entre o primeiro e o segundo plano modular é, basicamente, relacionada à alterações temporais quase imperceptíveis.


(palavras ilegíveis), a não ser, por exemplo, por um cansaço maior ao atravessar uma praça que parece maior do que realmente é, ou a sensação de já ter vivido aquela situação específica, provocada por alguma redução abrupta.

tensão do tempo, que se acelera ou e, às vezes, distorções espaciais sutis.

o escriturário (trechos - finalizações)

Com a morte física do ser as membranas dos planos modulares fundem-se e se desintegram sem deixar vestígios.

Um erro comum é acreditar que os planos modulares acompanham a alma do ser em outras esferas de existência.

Não há outras esferas de existência a não ser aquelas delimitadas pelos planos modulares.

Os planos modulares encerram todas as possibilidades.

Com a morte física, os seres animados passam existir, na forma de projeção, em quaisquer planos modulares de quaisquer outros seres animados ou inanimados.

domingo, 13 de novembro de 2011

o escriturário (trechos - modelações)

Por analogia ao plano modular material acessível à totalidade dos seres animados e inanimados, os campos modulares podem ser comparados a campos magnéticos esferóides, de amplitude e diâmetro variáveis, delimitados exteriormente por membranas também magnéticas, porém em frequência energética oposta ao do plano nela contido.

É essa inversão bipolar que define a propriedade delimitadora das membranas.

As membranas dos planos modulares do ser e entre os planos modulares de seres distintos são assim denominadas unicamente pela função delimitadora.

O ser em seus planos modulares é sempre solitário.

Nas interseções, geralmente aleatórias, entre planos modulares de seres distintos, o contato direto acontecido no plano modular da realidade palpável repercute nos demais planos da mesma forma que as ondas provocadas pela pedra atirada no meio do lago, perdendo paulatinamente a intensidade à medida que se afastam do epicentro.

O ser só possui materialidade no primeiro plano modular, o da realidade palpável. Porém, só interage, mesmo nos primeiros planos modulares de outros seres, por meio de uma projeção virtual de sua própria materialidade.

o escriturário (trechos - intercomunicações)

Cada ser, e somente um, habita um conjunto de planos modulares, e transita livremente naqueles que lhe são destinados.

Define-se projeção como uma representação, com todas as características sensoriais do ser, exceto sua materialidade.

O trânsito entre planos modulares próprios de cada ser não obedece à regra específica.

Os trânsitos entre os planos modulares são impulsionados pelos estados de ânimo do ser. Tanto psicológicos quanto fisiológicos: por exemplo, sonolência, tristeza, euforia, inquietude, apatia. Esses estados impulsionam o ser romper a camada que delimita um plano modular do outro.

O trânsito entre planos modulares de seres distintos ocorre somente quando há, no plano modular da realidade palpável, qualquer tipo de interação entre os seres.

Porém, a interação não se dá por compartilhamento de planos modulares. Há, sim, interseções entre as membranas que separam os planos de cada ser.

A única exceção ao postulado anterior é a morte física do ser.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

o escriturário (trechos - os seres pensantes)

Tanto os seres pensantes quanto os não pensantes habitam planos modulares. O número de planos modulares varia de ser para ser. Nunca ocorrem menos que três para os seres não pensantes. A quantidade de planos modulares de cada ser pensante raramente ultrapassa o 9º plano.

Ao contrário do senso comum, a categoria dos seres pensantes não abrange somente a espécie humana.

Da mesma forma, e como confirmação da regra, dentre a espécie humana encontram-se seres não pensantes.

o escriturário (trechos - os seres inanimados)

Os seres inanimados são aqueles cuja vida existe em estado latente.

Define-se ser inanimado o ser desprovido das características essenciais da vida, desde o nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade e do pensamento.

Em razão da sua estabilidade, os seres inanimados restringem-se ao primeiro plano modular do ser.

Em razão de sua estabilidade e imutabilidade, os seres inanimados podem ser reunidos em uma única categoria.

Os seres inanimados somente se transformam por ações físicas exteriores a eles.

Os seres inanimados habitam apenas o primeiro plano modular e são apenas projetados nos demais planos dos seres animados.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

o escriturário - parte 3

A história do escriturário não deu ibope. Nenhum acesso no post. Sequer um “curti” no Facebook. Assim, à moda das telenovelas inadimplentes (redução dos capítulos, extermínio de personagens secundários, mudança de caráter de protagonistas, revelação de segredos mornos ou assassinatos) aborta-se o projeto e anuncia-se, insistentemente, os últimos capítulos e cenas picantes da próxima.

O paper do escriturário suicida caiu nas mãos do chefe do Departamento de Pessoal da repartição. O chefe era um cara legal. Gostava de arte. Literatura. Era espiritualista. Escrevia versos. Tomava aulas de francês. E visitaria os grandes museus da Europa quando se aposentasse.

Além disso o chefe do Departamento de Pessoal redigia, editava, publicava e distribuía, de mesa em mesa, “O Farol”, semanário interno da repartição. Impressionou-se com a profundidade dos escritos do escriturário suicida. Condensou a coluna “causos” (onde publicava as cada vez mais escassas narrativas curiosas enviadas pelos funcionários) para inserir trechos dos escritos filosóficos do ex-servidor, classificados, segundo ele, por “focos temáticos”, a cada semana.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

o escriturário - parte 2

(Despacho do supervisor da repartição, aposto em meia folha de papel quadriculado, grampeado às anotações do escriturário falecido)

Trata-se de anotações de cunho alheio aos processos conduzidos nesta repartição.
As anotações encontram-se em verso de 31 folhas em formato A4, provindas de expurgo de impressões relativas a diversos relatórios da repartição, conforme anexos.
O material foi encontrado pelo funcionário F... em data posterior ao sinistro ocorrido.
A caligrafia das anotações sugere tratar-se de autoria do referido sinistrado.
O suposto autor das anotações foi desligado do quadro de funcionários em razão de falecimento, na data ...
Tendo em vista o acima disposto, sugerimos encaminhar ao Departamento de Pessoal para providências cabíveis.

sábado, 29 de outubro de 2011

o escriturário - parte 1

Esquisitão. Doido manso, disseram. Ligava o micro sem falar com ninguém. Até o fim do expediente. Não participava do aniversariante do mês; do happy hour; do cafezinho; do amigo oculto. Vez em quando sumia. 2 semanas de atestado. Mas era muito inteligente. Talento desperdiçado.

Até chegar a notícia. Mais ou menos esperada. Suicídio. Mais cedo ou mais tarde, disseram. Rei morto, rei posto. Promoveram-me. Para ocupar a vaga.

O serviço é relativamente simples. Cada escriturário é responsável por analisar e emitir parecer técnico em uma quantidade X de processos por mês. Perfurar o processo; encadernar o processo em uma pasta de capa dura; carimbar o protocolo na folha de rosto do processo; ler o processo; sublinhar com caneta marca-texto partes importantes do processo; emitir um parecer de 5 linhas na última folha do processo; encaminhar o processo para conferência do supervisor; receber o processo homologado; arquivar o processo.

A quantidade é fixa e razoável. Arquivados todos os processos do mês, fica-se à toa. Ou na Internet, quando funciona. Só não se pode ir para casa. A maioria dos colegas "estica" o processo ao máximo. De forma a preencher todo o expediente. Até o recebimento de novos processos.

Eu ainda não aprendera o artifício. Meu primeiro mês terminou no décimo dia útil. Cuidado para não ficar como seu antecessor, disseram. Ele terminava rápido. Depois passava dias, horas inteiras parado. Diante do computador. Ou diante da mesma página do livro aberto dentro da gaveta. Também escrevia. À mão. No verso de páginas e páginas do refugo da máquina xerox. Ao final do dia picotadas no triturador de papel.

Minha primeira função foi verificar o arquivamento os processos dele. Em perfeita ordem. Então juntar os clipes. Reabastecer o grampeador. Recarregar a tinta dos carimbos. Separar as canetas por cor e tamanho. Arrancar as folhas do calendário. Arrumar as gavetas.

No fundo havia um envelope de papel pardo tamanho A4. Contendo 31 folhas impressas de um lado e manuscritas no verso. Com a letra do meu antecessor. Li rapidamente. Espécie de sistema filosófico. Filosofia nunca foi meu forte. Sem razão aparente, xeroquei as folhas antes de entregar o envelope ao supervisor.

Reli no ônibus. De novo em casa, depois do banho e do lanche. Instigante.