Depois
do julgamento e absolvição do chefe inimigo Zé Bebelo, era o fim da guerra. Os mais
de 500 jagunços vencedores, comandados por Joca Ramiro dividem-se em grupos menores e
se dirigem para regiões diferentes do sertão.
Joca
Ramiro segue com Hermógenes e Ricardão. Riobaldo e Reinaldo-Diadorim
seguem no bando de Titão Passos. Por 2 meses, trégua entre uma guerra e outra, o bando acampa em um lugar
paradisíaco (e fatídico, como se verá mais tarde) chamado Guararavacã do
Guaicuí:
Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada. [...]
O que, por começo, corria desino para a gente, ali era: bondosos dias.
Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro
rexenxão - que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes,
amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a
sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de
acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro,
como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha
todo forte. Todo dia se comia bom peixe novo, pescado fácil. [...]
Nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. Dormir sestas inteiras,
por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. [...] O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha a ideia de tudo só ser o passado no futuro.
Foi
nesse jardim do éden sertanejo que pela primeira vez Riobaldo
assumiu para si mesmo o amor e o desejo por Diadorim:
Aquele lugar, o ar. Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. [...] O
nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei
com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor...". [...] Um Diadorim só para mim. [...]
Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra
pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de
mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo,
que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.
Depois do enlevo, do êxtase, quase epifania do amor revelado, vem o bote e o veneno da serpente da culpa:
"Se
é o que é" - eu pensei - "eu estou meio perdido..." Acertei minha
ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia por
paz de honra e tenência sacar esquecimento daquilo de mim. Se não,
pudesse não, ah, mas então eu devia quebrar o morro: acabar comigo! -
com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo.
Porém
os acontecimentos tomam outro rumo quando chega a notícia da morte de
Joca Ramiro, à traição, pelos judas Hermógenes e Ricardão.
...
Exceto uma dica lá pela terça parte do livro, Rosa leva o amor gay do jagunço Riobaldo pelo jagunço Reinaldo-Diadorim em suspense crescente até as últimas páginas quando, com sua morte, revela-se a identidade feminina de Diadorim.
Parte dos críticos não admite o desfecho. Consideram covardia de Rosa encobrir a homossexualidade estrutural do Grande Sertão. Afinal, a grosso modo, o conflito das mais de 500 páginas da tentativa de Riobaldo sair do armário, estaria irremediavelmente aniquilado com o absurdo da solução encontrada pelo autor: adaptar o romance à conformidade moral & social vigentes, transmutando em mulher o objeto de desejo homoafetivo no narrador.
Sem negar o deslumbre renovado pelo GS:V a cada tresleitura, eu faço parte desse coro. Querendo ou não, o Grande sertão é, além de um dos mais maravilhosos textos da língua portuguesa, talvez o mais importante romance gay escrito até hoje.
E lanço dúvidas: A magnificência, a grandiosidade, a universalidade do GS:V estaria comprometida se, no fim - ao lado do cego Borromeu e do menino Guirigó e diante da jagunçada - se, diante do corpo morto e nu do amado, o narrador Riobaldo assumisse o amor-estrela, o amor-guia, o amor-transformação - o amor que ele, o jagunço Riobaldo sentiu pelo jagunço Reinaldo-Diadorim?
Ou isso estaria muito além do alcance de Rosa e da própria época em que o romance foi escrito?
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terça-feira, 6 de maio de 2014
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
estado de coma
Estado de Coma foi meu primeiro livro. De poesias e desenhos. Ambos hoje sofríveis, mas com a força e a vida de um adolescente confuso, perdido e no mínimo corajoso. Isso foi em 1979.
Era uma tiragem ambiciosa: 500 exemplares. Parte do livro foi impressa em mimeógrafo. Outra, clandestina, nas máquinas xerox da empresa onde eu trabalhava como office-boy. A única edição esgotou-se. Alguns exemplares foram vendidos nas mesas do Beirute e do Arabeske. A grande maioria foi distribuída para a multidão de pedestres, camelôs, hippies, travestis, funcionários públicos, vagabundos, etc que circulavam no calçadão da plataforma superior da rodoviária.
O lançamento foi uma quase-performance (naquela época eu nem sabia que isso existia): eu, cabeleira à la Doces Bárbaros, vestido de bata indiana e calçado com sandálias de corda, declamando e lançando folhas dos poemas ao vento, no mirante da Torre de Televisão. Nem é preciso dizer que fui retirado à força, pelo segurança do local, por parecer menos um performer e poeta promissor que um suicida potencial.
Que eu saiba, ainda existem 2 exemplares. Um deles foi colorido à mão e transmitido como herança intelectual ao filho. O outro (descobri outro dia), está com um amigo artista plástico que, à época da publicação, trabalhava como escriturário na mesma empresa onde eu era boy, e que em algum momento foi espelho para a minha trajetória artística.
Mas a grande surpresa foi o bilhete acima. Minha mãe me entregou, emocionadíssima, outro dia. Quase 35 anos depois de escrito. Eu nunca soube dele, ocultado por ela sabe-se lá os motivos. Só elogios, em linguagem simples, coloquial, carinhosa. Não conheci o autor (Antônio Geraldo Ramos Jubé, poeta goiano falecido em 2010) e nem faço ideia de quem seja o destinatário Edison.
A primeira crítica será muito bem guardada. Pois, além do conteúdo histórico-afetivo, foi datilografada por tia Hemicênia, que sempre deu todo o apoio às manifestações canhestras do sobrinho.
sábado, 19 de outubro de 2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
dicionários
Em um post de novembro do ano passado (sobre gripe e cinema) comentei sobre o documentário "Raízes do Brasil", dirigido por Nelson Pereira dos Santos, sobre a vida do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Chamou a atenção a parte em que Chico Buarque (filho do cinebiografado) conta como ganhou do pai o Dicionário Analógico e de Ideias Afins.
Invejei na hora. Perdi o sono desejando o tal dicionário. Procurei na internet, nos sebos virtuais e só encontrei um, aparentemente interessante, porém por preço astronômico, muito além do meu poder aquisitivo.
...
Alguns dias depois, em uma conversa sobre outros assuntos, sem mais nem menos, meu filho (que, duvido muito, acompanha este blog), me falou que tinha encontrado, por preço razoável, em uma megalivraria - adivinhem o quê? - o Dicionário Analógico e de Ideias Afins, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Com apresentação de Chico Buarque.
Só não encerrei a conversa na hora e corri para a livraria porque estávamos em uma expedição, no meio do nada, a pelo menos 1000 quilômetros de qualquer civilização.
...
Assim que desembarquei em Brasília, mal desfiz as malas, descambei para a livraria. Estava lá, ele, novinho em folha, 2a. edição. Meu coração disparou.
A apresentação de Chico Buarque conta a mesma história narrada no documentário citado acima. Porém com detalhes engraçados. Transcrever as primeiras frases é o mais eficaz para descrever a emoção boba que me tomou:
"Pouco antes de morrer, meu pai me chamou no escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferrreira dos Santos Azevedo. Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete (...). Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido".
...
Na mesma prateleira, ao lado do "Ideias Afins" (ah, as armadilhas do capitalismo selvagem!) estava o Dicionário de Sinônimos e Antônimos, de Antônio Houaiss.
Não resisti ao impulso consumista. Comprei os dois. Ok, em 10 vezes, sem juros, no cartão.
Ainda na fila para pagar o estacionamento do shopping eu não disfarçava o estado de beatitude. Manuseava os livros como se fossem relíquias.
...
Fiz como o pai do Chico. Coloquei o Francisco Ferreira ao lado dos 5 volumes (capa azul-marinho e letras douradas desbotadas na lombada) do Caldas Aulete. Junto, os sinônimos e antônimos do Houaiss. Como se estivessem em um altar.
É ridículo, mas vou confessar. Possuir o Dicionário Analógico me fez sentir como se tivesse compartilhado aquele momento, quando o carrancudo pai-Sérgio passasse um bastão que de alguma forma o filho-Francisco tivesse que levar adiante. Como se nele, no dicionário, eu pudesse encontrar chaves que destrancariam (e destrancarão) portas insondáveis.
...
(Não acabou. Bisbilhotando, de bobeira, um sebo virtual, encontrei e encomendei, em capa preta e dura, com relevo, por inacreditáveis 4 reais [acrescidos de 16 reais de frete], a 1a. edição (em bom estado de conservação, páginas e lombadas amareladas pelo tempo). Que, permitam os deuses, chegará nos próximos dias, para se juntar ao meu tesouro inofensivo de representações.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
O Pato que queria ser o Tio Patinhas - Fim parte 1: O peixe
O raio na água, a luz estroboscópica e a música marcial que sucederam o insight do peixe na parte 8 mudaram tanto a vida do pato quanto do peixe.
O peixe tinha percebido que o capitalismo selvagem não valia a pena. Que se continuasse dando murro em ponta de faca morreria de estresse, infarto, câncer nas guelras.
Imaginou os paramédicos empurrando a maca com ele em cima pelo corredor verde fosforescente do hospital. A porta da sala de cirurgia com 2 escotilhas redondas. Os tubos nas veias. A máscara de oxigênio. As linhas verdes do gráfico e o bip contínuo do monitor cardíaco da UTI.
Não pretendia esse fim.
Demitiu-se. Casou-se com o namorado na Argentina. Os dois vestidos de fraque. Ao fim da cerimônia protagonizaram o primeiro beijo gay do blog.
Viveram felizes para sempre. Agora mesmo estão sentados os dois, abraçados, na janela da casa em um condomínio cercado de algas e vegetação subaquática, com muito lodo para as piabas gêmeas adotadas brincarem.
sábado, 30 de outubro de 2010
Notícias de Recife
Teve materiazinha de jornal sobre o lançamento das Histórias Desagradáveis em Recife. Sempre o inusitado! Leiam no link ao lado - Matérias publicadas.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Lançamento na Cultura, segunda à noite
Da esquerda para a direita: Marinês, Júlio, Rogério, Danuza e Lucinha Lucena
Eu com o plexo solar torrado como o de um siri na lata e Marcos
Suzy e Lucinha
Júlio
Rogério
domingo, 17 de outubro de 2010
Extra! Extra!
Manchete de capa do jornal Aqui-DF de hoje (17/10). Adorei! Leiam a íntegra da matéria clicando no link ao lado - Matérias publicadas.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Adiamento
Surpresa! Depois de ter divulgado para Deus e o Mundo, recebi agora pouco a notícia do adiamento do evento. Será no sábado. Polyanna Moça me consolou: "não se irrite, o motivo é justo". Ela soube que Ana Maria Miranda me substituirá na sexta. Agradeço aos fiéis leitores que se reprogramarão e se esforçarão ao máximo para se despencarem de casa, em pleno sábado à noite para prestigiar este que vos escreve...
domingo, 3 de outubro de 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
À greve, companheiros!
Dear Madame,
Como já deve saber, estou em greve. Você também sabe, sou trabalhador consciente, responsável, semipolitizado – frequento as assembleias, voto contra ou a favor, sigo as decisões da maioria – mas de forma pouco ortodoxa. Sem falsos escrúpulos aproveito o período livre para colocar em dia os assuntos paralelos.
Assuntos paralelos hoje significa – produção das Histórias Desagradáveis. Madame sabe, produção independente é um trabalho dos infernos. Ontem, por exemplo, além de resolver questões pessoais (levar cão no veterinário, organizar a papelada empilhada na escrivaninha, buscar cartão no banco – em greve!), consegui lançar o livro em Recife, fui convidado para a Feira do Livro de Brasília, mandei e-mail pra Leda Nagle (já pensou falar no Sem Censura?), pedi espaço na Leonardo da Vinci no Rio de Janeiro.
Hoje a lista de atividades não é menor. Comprar os remédios receitados pelo veterinário, levar o terno de trabalho pra lavanderia, comprar roupinhas pra academia serão as atividades pessoais; doar livros, agendar evento no Açougue Cultural e verificar a venda, oferecer consignações nas livrarias serão os literários. Assim segue a vida de grevista e autor organizado no mesmo invólucro.
domingo, 19 de setembro de 2010
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
Lançamento do livro
Muita gente, colegas do trabalho, família, amigos da velha e da jovem guarda, muitos autógrafos. Todos os participantes do projeto lá: a revisora, a fotógrafa, o designer gráfico, o modelo da capa e do banner do blog. Faltou só a produtora/assessora de imprensa, a trabalho no Rio. Foi alegre, animado, descontraído, graças à simpatia, eficiência e atenção do pessoal do Café Savana. E eu feliz, desmanchado em sorrisos.
Frase hilária da médica cardiologista que me examinou recentemente (presente no evento por coincidência, tinha ido só comer um quiche), e que me deixou acima das nuvens, por dois motivos: se você escreve tão bem quanto está o seu coração, logo logo teremos um novo expoente na literatura brasileira. Que os deuses a ouçam. Tanto pelo coração quanto pela escrita...
O fotógrafo encomendado distraiu-se com as fartas taças de prosecco servidas e conversas mais agradáveis e esqueceu-se de fotografar o evento. No fim, dois ou três cliques oficiais pra compor o processo do FAC e ilustrar o blog (Em breve, aguardem!).
O objeto livro ficou lindo – bem impresso, bem acabado, pronto para a segunda e mais difícil parte da história que é inserir no mercado, distribuir de porta em porta, divulgar na mídia especializada, mandar para pessoas, esperar críticas, fazer outros eventos, etc. E ainda escrever e produzir as histórias novas.
Na segunda-feira cedo resolverei os problemas burocráticos com o patrocinador. Depois arrumar as malas e tomar o rumo de Paraty. Como penetra, turista, para bisbilhotar. E quem sabe, superar a timidez e mostrar as Histórias Desagradáveis.
Frase hilária da médica cardiologista que me examinou recentemente (presente no evento por coincidência, tinha ido só comer um quiche), e que me deixou acima das nuvens, por dois motivos: se você escreve tão bem quanto está o seu coração, logo logo teremos um novo expoente na literatura brasileira. Que os deuses a ouçam. Tanto pelo coração quanto pela escrita...
O fotógrafo encomendado distraiu-se com as fartas taças de prosecco servidas e conversas mais agradáveis e esqueceu-se de fotografar o evento. No fim, dois ou três cliques oficiais pra compor o processo do FAC e ilustrar o blog (Em breve, aguardem!).
O objeto livro ficou lindo – bem impresso, bem acabado, pronto para a segunda e mais difícil parte da história que é inserir no mercado, distribuir de porta em porta, divulgar na mídia especializada, mandar para pessoas, esperar críticas, fazer outros eventos, etc. E ainda escrever e produzir as histórias novas.
Na segunda-feira cedo resolverei os problemas burocráticos com o patrocinador. Depois arrumar as malas e tomar o rumo de Paraty. Como penetra, turista, para bisbilhotar. E quem sabe, superar a timidez e mostrar as Histórias Desagradáveis.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Sobre o título Histórias Desagradáveis
O título surgiu não me lembro mais como. É sonoro, irônico, direto, atrai e repele ao mesmo tempo. Da família das Histórias Hediondas, das Histórias Extraordinárias, de Glauco Mattoso e Poe. Combinou com o clima dos contos, com a imagem da capa, até com a fonte escolhida por G.
Mas...
Foi a amiga C que descobriu: “você já leu Leon Bloy?” Não, eu nunca tinha ouvido falar. Pois é. Escritor e (mau) pintor francês da segunda metade do século XIX (Wikipedia, Infopedia). Filho de fervorosa mãe católica. Funcionário público medíocre (!), iconoclasta, socialista. Em algum momento da vida converteu-se ao catolicismo: a) por influência do escritor d'Aurevilly (também nunca tinha ouvido falar); b) por casar-se com uma prostituta ensandecida que previa o apocalipse; ou c) por amor a sua segunda esposa paupérima dinamarquesa). Entre 1893 e 1894 escreveu uma série de contos cruéis: Sueur de Sang (Suor de Sangue?) e Histoires désobligeantes (Histórias Desagradáveis). Morreu em Paris, em 1917, “delirando num fervor religioso exagerado e o seu imaginário invadido por imagens pavorosas do Apocalipse”, nas palavras da Infopedia.
Além dessa história trágica, achei também outro título igual: A Face Cruel e outras Histórias Desagradáveis, de David Nasser, jornalista da revista O Cruzeiro, publicado em 1961.
De Bloy há uma edição esgotada em português (Estampa Editorial). Opções: 1. tentar ler no meu francês neandertal, e vai durar séculos; 2. tentar encomendar no site da Estampa, em Portugal, que também pode durar uma eternidade; ou 3. Garimpar nos sebos virtuais do planeta (já encomendei o David Nasser na Estante Virtual)...
Mas...
Foi a amiga C que descobriu: “você já leu Leon Bloy?” Não, eu nunca tinha ouvido falar. Pois é. Escritor e (mau) pintor francês da segunda metade do século XIX (Wikipedia, Infopedia). Filho de fervorosa mãe católica. Funcionário público medíocre (!), iconoclasta, socialista. Em algum momento da vida converteu-se ao catolicismo: a) por influência do escritor d'Aurevilly (também nunca tinha ouvido falar); b) por casar-se com uma prostituta ensandecida que previa o apocalipse; ou c) por amor a sua segunda esposa paupérima dinamarquesa). Entre 1893 e 1894 escreveu uma série de contos cruéis: Sueur de Sang (Suor de Sangue?) e Histoires désobligeantes (Histórias Desagradáveis). Morreu em Paris, em 1917, “delirando num fervor religioso exagerado e o seu imaginário invadido por imagens pavorosas do Apocalipse”, nas palavras da Infopedia.
Além dessa história trágica, achei também outro título igual: A Face Cruel e outras Histórias Desagradáveis, de David Nasser, jornalista da revista O Cruzeiro, publicado em 1961.
De Bloy há uma edição esgotada em português (Estampa Editorial). Opções: 1. tentar ler no meu francês neandertal, e vai durar séculos; 2. tentar encomendar no site da Estampa, em Portugal, que também pode durar uma eternidade; ou 3. Garimpar nos sebos virtuais do planeta (já encomendei o David Nasser na Estante Virtual)...
domingo, 11 de julho de 2010
Lançamento das Histórias Desagradáveis
Finalmente posso divulgar o lançamento do livro:
Será a partir das 19h do dia 22.07.2010, no Café Savana, 116 Norte
Agora é só segurar a ansiedade e esperar que encha de gente...
(Foto: Carolina Vianna; arte: Gabriel Menezes)
Será a partir das 19h do dia 22.07.2010, no Café Savana, 116 Norte
Agora é só segurar a ansiedade e esperar que encha de gente...
(Foto: Carolina Vianna; arte: Gabriel Menezes)
sexta-feira, 2 de julho de 2010
"Para ler ouvindo"- retificação
Por excesso de zelo, retifico o último parágrafo da postagem anterior:
Isso prova a teoria do capricorniano amigo A: "A leitura é uma experiência única, individual e exclusiva, não venha me engabelar com essa história de projeto interdisciplinar. Literatura é literatura, música é música, fotografia é fotografia, blog é blog, e ponto final". Assim, caro leitor, resistirei à tentação e não vos darei o caminho musical das Histórias Desagradáveis. Apenas algumas dicas na coluna ao lado...
Isso prova a teoria do capricorniano amigo A: "A leitura é uma experiência única, individual e exclusiva, não venha me engabelar com essa história de projeto interdisciplinar. Literatura é literatura, música é música, fotografia é fotografia, blog é blog, e ponto final". Assim, caro leitor, resistirei à tentação e não vos darei o caminho musical das Histórias Desagradáveis. Apenas algumas dicas na coluna ao lado...
"Para ler ouvindo" (nas palavras de A)
É uma tentação indicar as trilhas imaginárias e não explicitadas das Histórias Desagradáveis. Eu sei, perde a graça, direciona a leitura, cerceia a capacidade imaginativa do leitor. A seguir duas historinhas bobas e uma moral-da-história no final.
1. Lá pelos idos anos 90 (ou fim dos 80?) eu participava de um grupo de artistas múltiplos (teatro, dança, poesia, pintura, grafite, etc). Em um encontro nós lemos Dodecaedro, de Caio Fernando Abreu (O Triângulo das Águas). Seguindo a indicação do conto, B (o autor do verso-epígrafe de Sangue e Cristais) colocou para tocar o Kohln Concert, e começamos a ler em voz alta. Talvez pela inspiração provocada pela associação de vodca & canabis, talvez pela beleza da música, (os gemidos de Jarrett), talvez pelo encadeamento do texto, talvez por causa da lua cheia, a leitura musical funcionou perfeitamente. O piano respirava junto com o texto, nós junto com tudo. Foi tão intenso até o segundo, terceiro fragmento. Quando tentamos continuar no dia seguinte não deu certo: o texto desencontrado, a música não encaixava, as palavras não combinavam com os acordes, nada. Foi horrível.
2. Nos últimos meses do século XX, na varanda da casa de I (professora de música). I tentava repetir um experimento singular, feito anteriormente com os filhos. Colocou o CD do Carnaval dos Animais e começou a ler (não me lembro mais se Cecília Meireles ou Miguel Torga - alguém que escreveu sobre bichos), tentando encaixar o animal da leitura ao trecho correspondente da peça musical (para dois pianos e orquestra). Era hilário. Muito pedagógica, I forçava a barra, voltava o CD, contava, 1, 2, 3, 4 para entrar com o texto, relia o trecho, mudava a entonação. Nada de funcionar. Resultado: o evento foi pro brejo e I jogada na piscina, de roupa e tudo, quase junto com o Saint-Saënz.
Isso prova a teoria de M: "A leitura é uma experiência única, individual e exclusiva. Não venha me engabelar com essa história de projeto interdisciplinar. Literatura é literatura, música é música, e ponto final". Assim, caro leitor, resistirei à tentação e não vos darei o caminho musical das Histórias Desagradáveis. Apenas algumas dicas na coluna ao lado...
1. Lá pelos idos anos 90 (ou fim dos 80?) eu participava de um grupo de artistas múltiplos (teatro, dança, poesia, pintura, grafite, etc). Em um encontro nós lemos Dodecaedro, de Caio Fernando Abreu (O Triângulo das Águas). Seguindo a indicação do conto, B (o autor do verso-epígrafe de Sangue e Cristais) colocou para tocar o Kohln Concert, e começamos a ler em voz alta. Talvez pela inspiração provocada pela associação de vodca & canabis, talvez pela beleza da música, (os gemidos de Jarrett), talvez pelo encadeamento do texto, talvez por causa da lua cheia, a leitura musical funcionou perfeitamente. O piano respirava junto com o texto, nós junto com tudo. Foi tão intenso até o segundo, terceiro fragmento. Quando tentamos continuar no dia seguinte não deu certo: o texto desencontrado, a música não encaixava, as palavras não combinavam com os acordes, nada. Foi horrível.
2. Nos últimos meses do século XX, na varanda da casa de I (professora de música). I tentava repetir um experimento singular, feito anteriormente com os filhos. Colocou o CD do Carnaval dos Animais e começou a ler (não me lembro mais se Cecília Meireles ou Miguel Torga - alguém que escreveu sobre bichos), tentando encaixar o animal da leitura ao trecho correspondente da peça musical (para dois pianos e orquestra). Era hilário. Muito pedagógica, I forçava a barra, voltava o CD, contava, 1, 2, 3, 4 para entrar com o texto, relia o trecho, mudava a entonação. Nada de funcionar. Resultado: o evento foi pro brejo e I jogada na piscina, de roupa e tudo, quase junto com o Saint-Saënz.
Isso prova a teoria de M: "A leitura é uma experiência única, individual e exclusiva. Não venha me engabelar com essa história de projeto interdisciplinar. Literatura é literatura, música é música, e ponto final". Assim, caro leitor, resistirei à tentação e não vos darei o caminho musical das Histórias Desagradáveis. Apenas algumas dicas na coluna ao lado...
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Mariazinha e a coincidência
Mariazinha é a segunda história desagradável. Escrita há muitos anos atrás, a partir de um texto horroroso de um programa/libreto de peça da amiga S. Foi dificílimo colocá-la no livro, encontrar o tom certo, as palavras. Ontem, procurando as músicas da trilha sonora alternativa das histórias no Youtube, encontrei a pérola, As Aventuras de Pedro Malazarte, do Mazzaropi, 1959. Tudo a ver com Mariazinha. Provavelmente devo ter visto o filme na infância (Cine Itapoã, no Gama-DF, depois de 1962, óbvio), não me lembro, reminiscências, subconsciente. O trecho do filme é exatamente como eu enxergo Mariazinha...
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