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terça-feira, 4 de março de 2014

das galáxias

                                                                                    [...] quando o
escrever se trava no escrever quando o escrever é travo é cravo é
amargo no escrever e é tinta e treva é tinta e febre é tanta e fezes
que a escrita agora se reescreve se reenerva se refebra onde o visto
se conserva [...]

(Haroldo de Campos, Galáxias, 1974/1984)

sábado, 30 de novembro de 2013

inferno de dante - o sexto fosso do círculo oitavo

Para finalizar o tema do Inferno dantesco falta falar do sexto fosso do círculo oitavo. Onde eu mais me identifiquei.

...

Como dito anteriormente, o sexto fosso do círculo oitavo é destinado aos hipócritas.

Como nos outros sítios, o sexto fosso é povoado por gente importante e famosa da época. Gente que usou e abusou da hipocrisia para alcançar Fama, Glória e Poder.

Mas não nos iludamos. A hipocrisia não é privilégio das altas esferas. Ela também (e como!) grassa entre nós, reles mortais. Sabe aquela maledicênciazinha inconsequente? tipo fofoca? apontar os defeitos do melhor amigo para o segundo melhor amigo, sem que o primeiro melhor amigo saiba? utilizar-se de um discurso e comportamento legal, compreensivo, contemporizador, mas no fundo desejando que o circo pegue fogo? manipular sentimentos alheios? Como no ditado: usar 2 pesos e 2 medidas em benefício próprio? Ou, no popular: dar uma de santinho, de bom moço (ou moça) só para se dar bem na fita?

Pois isso é pecado. Dos graves. Isso é hipocrisia.

Se você, Leitor(a), se enquadra em um ou mais dos exemplos acima e não se arrepender - o nosso destino será o sexto fosso do oitavo círculo. Estaremos condenados a vestir por toda a eternidade uma linda capa dourada com capuz - cujo forro de chumbo pesará toneladas e tornará qualquer movimento ou deslocamento nosso um verdadeiro suplício.

...

A imagem usada por Dante para a expiação dos pecados dos hipócritas é das mais sutis em sua tragicidade. Ali não há as óbvias lacerações de tridentes dos capetas, chuva de fogo, caldeiras de piche ardente, serpentes peçonhentas, cães ou diabos estraçalhando a carne. Só a lentidão, o peso dos movimentos. Por toda a eternidade

...

À primeira vista o personagem Dante não compreende o martírio. A visão da multidão de almas cobertas de elegantes mantos dourados andando muito lentamente, devido ao peso do chumbo, compunge (mais uma vez) o poeta:

Gente encontramos, fúlgida, dourada,
a desfilar em torno, lentamente
mostrando a face triste e macerada.

Capas trajava, de capuz à frente
dos olhos, (...)
(...)

Ah, manto eterno, fatigante e rico!

(Conforme a nota explicativa do tradutor, Cristiano Martins: O manto que revestia os hipócritas era eterno, porque eterno é o castigo do Inferno; fatigante, porque seu peso deixava extenuados os seus portadores; e rico, porque, dourado externamente, parecia de ouro).

Dante ainda duvida do suplício. Mas prosseguem os versos, para deixar indubitável o sofrimento:

Mas vós, quem sois, que aos olhos vos estila
o pranto, na aflição desesperada?
E que castigo é o vosso, que cintila?

E um deles: Esta túnica dourada,
de chumbo que é, pesou-nos tanto às vezes
que fez ranger, pendente, a nossa ossada.

...

A hipocrisia, talvez seja o pecado mais acessível, mais genérico a nós, mortais. Talvez seja o que tenhamos mais consciência e ao mesmo tempo maior dificuldade em nos livrarmos.

...

Vejamos o que o velho Caldas Aulete impresso tem a dizer sobre:

Hipocrisia. s. f. vício pelo qual se manifesta uma piedade, virtude ou sentimento que se não tem; afetação de qualidades que se não possuem; fingimento, falsidade. 

O Dicionário Priberam virtual é mais liberal. Hipocrisia vem do grego Hupokrísia, que significa desempenho de um papel. Depois segue o convencional: fingimento de bondade de ideias ou opiniões apreciáveis; devoção fingida.
Fingimento de bondade de .ideias ou de opiniões apreciáveis.

2. Devoção fingida.

"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].

hi·po·cri·si·a
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)

"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
...

Quem de vós, Leitor, por exemplo, elogiou fingida, desabrida ou educadamente a estreia sofrível de uma atriz amiga (com segundas sedutoras intenções); ou um pintor bonitinho mas ordinário em sua primeira exposição; ou um jantar mal temperado mas oferecido por alguém influente que lhe promoverá no trabalho, uma roupa, uma maquiagem desconjuntada do(a) acompanhante, um texto confuso e repleto de incorreções gramaticais - só para se eximir da crítica honesta, só por interesse próprio, ou para evitar ser colocado em uma berlinda ou incômodo desnecessários?

...

 (Arrependei-vos, ou nos encontraremos em breve...)
hi·po·cri·si·a
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)

substantivo feminino

1. Fingimento de bondade de .ideias ou de opiniões apreciáveis.

2. Devoção fingida.

Palavras relacionadas:
.

"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].
hi·po·cri·si·a
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)

substantivo feminino

1. Fingimento de bondade de .ideias ou de opiniões apreciáveis.

2. Devoção fingida.

Palavras relacionadas:
.

"hipocrisia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/hipocrisia [consultado em 30-11-2013].

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Há alguns dias terminei de tresler o apoteótico Inferno. Impressionado, sempre, com tudo o que acontece lá. Certo de me arrepender, qualquer hora dessas, e me livrar de qualquer motivo ser conduzido àquelas paragens.

Meu propósito era encerrar a releitura da Divina Comédia no Inferno. Só para sentir de novo na pele os infortúnios dos pecadores.

Mas prossegui. Acompanhei Dante e Virgílio na complicada passagem para o Purgatório.


O Purgatório é o lugar onde as almas que se arrependeram expiam seus pecados. É um lugar de imagens belíssimas (o mar ao alvorecer, revoadas de anjos, painéis pintados na rocha pelo próprio Deus, etc - mas é bastante chatinho - repleto de longos discursos morais relativos ao arrependimento.

A penitência no Purgatório dura o tempo em que as almas viveram em pecado, antes de se arrependerem - ou seja - viveu até os 80 anos? Serão mais 80 de expiação. Convenhamos, tempo curtíssimo se tomarmos como parâmetro a Eternidade.

Há ali muitas outras possibilidades de alojamento pós-mortem. Talvez numa próxima pós-tagem. Em breve.

E depois, quem sabe, um ou outro sobressalto que possa vir a ocorrer no Paraíso (que não seja o exagero de anjos, o encontro com um santo a cada esquina ou amor extático e às vezes repetitivo, do poeta por Beatriz).

domingo, 17 de novembro de 2013

ainda sobre o inferno dantesco - o sétimo círculo

Recapitulando:

No sétimo círculo do inferno expiam aqueles que praticaram violência: homicidas, suicidas e violentos contra deus. Para cada tipo de violência é delimitado um giro, vale ou sessão.

No primeiro giro (banhado pelo Flagetonte, rio de sangue fervente) estão os homicidas.

Os suicidas (violentos contra si mesmos) expiam no segundo giro. É um local sem vida. Árvores secas e sem folhas, onde inúmeras harpias fazem ninhos, são as almas dos suicidas.

No terceiro giro estão 3 categorias de violentos contra deus: os blasfemos, os usurários e os sodomitas. Os habitantes do terceiro giro estão condenados a permanecer em um grande areal ardente, sob constante chuva de fogo.

Os blasfemos recebem o castigo deitados; os usurários, sentados; os sodomitas são obrigados a caminhar sem descanso.

 ...

A título ilustrativo, vale aqui um conceito etimológico (e seu desdobramento) pra lá de caducos:

Sodomita: adj. e s.m. e s.f. Habitante ou natural de Sodoma. / s.m. e s.f. Pessoa que pratica a sodomia. Natural de Sodoma. so·do·mi·ta (latim sodomitae, -arum, do latim Sodoma, -orum, .topônimo [cidade palestiniana]) adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros"sodomita". Sodomia: s.f. Perversão sexual; coito anal; pederastia.
(in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

...

Isso era no ano de 1300. O imaginário católico era bastante restrito quanto ao tema da diversidade sexual. Felizmente, de Dante para a quase metade da segunda década do século XXI as coisas mudaram. Talvez não tão rápido quanto o necessário, mas mudaram. Apesar da corja dos malafaias, dos felicianos, et cetera. Quem diria que o atual Papa gostaria de saber o que pensam os fiéis sobre o aborto, o casamento e a adoção por casais gays?

...

O sentido da palavra sodomita perdeu quaisquer resquícios de credibilidade. Passou, de pecado mortal para, no mínimo, mote de programa humorístico politicamente incorreto de TV aberta domingueiro.

Dessa forma, com o fechamento do terceiro giro do sétimo círculo do inferno, o guardião Minos, os centauros e os capetas concursados serão demitidos ou remanejados. Ou aumentarão as estatísticas do desemprego local, nacional e mundial. As atividades daquele setor se encerrarão para sempre. As almas ali remanescentes deverão procurar em 6 meses outro círculo para habitar. Ou deverão adaptar-se à redução de quadro e às estratégias propostas pelos novos gestores.

...

Mas não nos iludamos, pecadores! Há ainda que se temer o sexto fosso do círculo oitavo, aquele onde a última moda é a sobrecapa longa com capuz, toda em chumbo e revestida de ouro.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

estado de coma


Estado de Coma foi meu primeiro livro. De poesias e desenhos. Ambos hoje sofríveis, mas com a força e a vida de um adolescente confuso, perdido e no mínimo corajoso. Isso foi em 1979.

Era uma tiragem ambiciosa: 500 exemplares. Parte do livro foi impressa em mimeógrafo. Outra, clandestina, nas máquinas xerox da empresa onde eu trabalhava como office-boy. A única edição esgotou-se. Alguns exemplares foram vendidos nas mesas do Beirute e do Arabeske. A grande maioria foi distribuída para a multidão de pedestres, camelôs, hippies, travestis, funcionários públicos, vagabundos, etc que circulavam no calçadão da plataforma superior da rodoviária.

O lançamento foi uma quase-performance (naquela época eu nem sabia que isso existia): eu, cabeleira à la Doces Bárbaros, vestido de bata indiana e calçado com sandálias de corda, declamando e lançando folhas dos poemas ao vento, no mirante da Torre de Televisão. Nem é preciso dizer que fui retirado à força, pelo segurança do local, por parecer menos um performer e poeta promissor que um suicida potencial.

Que eu saiba, ainda existem 2 exemplares. Um deles foi colorido à mão e transmitido como herança intelectual ao filho. O outro (descobri outro dia), está com um amigo artista plástico que, à época da publicação, trabalhava como escriturário na mesma empresa onde eu era boy, e que em algum momento foi espelho para a minha trajetória artística.

Mas a grande surpresa foi o bilhete acima. Minha mãe me entregou, emocionadíssima, outro dia. Quase 35 anos depois de escrito. Eu nunca soube dele, ocultado por ela sabe-se lá os motivos. Só elogios, em linguagem simples, coloquial, carinhosa. Não conheci o autor (Antônio Geraldo Ramos Jubé, poeta goiano falecido em 2010) e nem faço ideia de quem seja o destinatário Edison.

A primeira crítica será muito bem guardada. Pois, além do conteúdo histórico-afetivo, foi datilografada por tia Hemicênia, que sempre deu todo o apoio às manifestações canhestras do sobrinho.

sábado, 2 de novembro de 2013

divina comédia - inferno - sétimo círculo (2)

David Carroll and Daniel Heald. Em: http://www.tabula-rasa.info/Horror/Inferno.html
A Divina Comédia foi escrita a partir de conceitos filosóficos avançados para o século XIII. É estruturada em elementos do imaginário cristão medieval. O Inferno e está repleto de personagens e elementos da mitologia grega. Para atravessar a fantástica geografia do inferno e compartilhar com Dante e Virgílio da riqueza das imagens e símbolos é necessário abstrair daqueles conceitos primitivos do pecado e da culpa cristãos e considerar pecados e pecadores como espelhos das nossas falhas e defeitos, demasiado humanos.

A entrada do inferno dantesco era próxima a Jerusalém, onde Lúcifer caiu quando foi expulso do céu. A queda abriu um enorme buraco afunilado, formando 9 círculos (uma espécie de vales ou degraus), sendo o último deles no centro do planeta onde Lúcifer está enterrado, de cabeça para baixo, mastigando por toda a eternidade Judas, Brutus e Cássio, os 3 traidores mais famosos de todos os tempos.

Transposto o portal de entrada do inferno (onde encontra-se inscrito: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”), chega-se a uma espécie de vestíbulo, onde os tíbios, os ignavos, os covardes e os indecisos

Vegetam como os sáurios indolentes;
eu os via desnudos, aguilhoados
por vespas e por moscas renitentes.


Então chega-se às margens do rio Aqueronte, onde aguarda-se o barqueiro Caronte para a travessia.

O primeiro círculo chama-se Limbo. Nele habitam aqueles que não foram batizados e os que nasceram antes de Cristo. Ali encontram-se os filósofos Sócrates, Platão, Demócrito, Empédocles, Anaxágoras e tantos outros; os poetas Homero, Ovídio, Lucano, Horácio e o próprio Virgílio, o guia de Dante naquelas paragens.

Do segundo ao quinto círculo encontram-se os pecadores cujos pecados foram cometidos sem culpa, pela inconsciência humana. No segundo círculo são punidos os luxuriosos, jogados num turbilhão de vento violento. No terceiro, o cão tricéfalo Cérbero espanca os gulosos jogados na lama sob uma chuva incandescente. O quarto círculo é defendido por Plutão. Ali são punidos os avaros e pródigos, condenados a empurrar enormes pesos. Prosseguindo a descida chega-se ao rio Estige, de sangue fervente, que banha o quinto círculo. Os irados estão nele mergulhados. No sexto círculo está a cidade de Dite. Ela divide os pecados sem culpa e os realizados com consciência. Ali são queimados os hereges, dentro de tumbas desprovidas de tampas.

O sétimo círculo é guardado pelo Minotauro de Creta. É banhado pelo rio Flegetonte. O sétimo círculo é dividido em três vales, onde estão os pecadores por violência. No primeiro vale estão os homicidas, no segundo os suicidas e no terceiro os violentos contra Deus.

O oitavo círculo é onde são punidos os fraudulentos. Ele é dividido em dez fossos, ligados por meio de pontes. São eles: 1) os rufiões e sedutores, açoitados pelos demônios; 2) os aduladores mergulhados em fezes; 3) os simoníacos (que traficaram com as coisas sagradas) enterrados de cabeça para baixo, os pés para fora, envolvidos por chamas; 4) os mágicos, adivinhos e outros embusteiros e intrujões do mesmo gênero, condenados a não olhar para a frente, caminhando com o rosto virado para as costas; 5) os corruptos, prevaricadores e trapaceiros, mergulhados em betume fervente; 6) os hipócritas, vestindo  pesadas capas de chumbo revestidas de ouro; 7) os ladrões picados por enormes serpentes; 8) os maus conselheiros ou fraudulentos imersos em chamas; 9) os promotores de cismas religiosos, os semeadores de ódios, divisões e discórdia entre pessoas e povos, sendo mutilados por terríveis golpes de espada; e  por fim 10), os falsários, subdivididos em alquimistas (falsificaram metais preciosos) - cobertos de lepra, os impostores, tomados de loucura, os falsificadores de dinheiro, atacados por hidropsia e os de palavra - consumidos pela febre.

Na parte mais funda está o nono círculo, onde são punidos os traidores.Ali desaguam os rios Estige, Flegetonte e Aqueronte, formando o rio Cocito. É um local frio ao extremo. O nono círculo é dividido em quatro esferas: a Caína (onde estão os traidores do próprio sangue), Antenora (para os traidores da pátria), a Ptoloméia (os traidores dos amigos) e Judeca (para os que atraiçoaram os chefes ou benfeitores). Na Judeca encontra-se Lúcifer, como já dito, aprisionado da cintura para baixo.

Nas próximas postagens: sobre o terceiro vale do sétimo círculo e o sexto fosso  do círculo oitavo.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

poemas portugueses - casimiro de brito

Caverna. Praia do Benagil. Portugal. De: http://jp-lugaresfantasticos.blogspot.com.br

Ao cimo da Fóia

Lá muito ao longe os olhos decifram
o perfil dos rios a gramática
ora suntuosa ora
seca
das praias
enquanto na memória se concentram
páginas de areia armas
sem gume símbolos da noite

Branca desesperada


...


Templo submerso
(Benagil)

O mar descobre em seu tempo
de aridez

Templo onde brilha a lenta
madrugada do mundo pedras desprendidas de
formadas
pelos elementos em isita
vigilante

Pedras ou pássaros gravados na sombra barcos
de rosto humano

Essa é a outra face da ferida
talhada no centro da terra no centro
do sol pelo fulgor das marés pela ternura
de armas marítimas

O mar o alimenta com seus frutos
de plena infinitude

O tempo a paciência


...


Os três castelos
(Praia da Rocha)

O perfil sereno o metal desprendido esculpido
nestas rochas a desolada confiança
no tempo no vínculo da morte
em movimento

A ternura generosa do
silêncio

Depuram

O nosso orgulho desmedido os nossos passos
de cinza as nossas guerras
em círculo

Dentro do pó


...


(Casimiro de Brito, de Mesa do Amor, 1977)

(Fóia é o nome do ponto mais alto do Algarve, na serra de Monchique, em Portugal. É acessível por estrada a partir de Monchique. Tem 902 m de altitude e uma proeminência topográfica de 739 m. Nos dias claros é possível ver o oceano Atlântico. Fonte: Google maps).

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

recorte de poema de roberto piva

...

o mundo continua sendo um breve colapso logo que as
       pálpebras baixem
& meu amor por ti uma profanação consciente de eternas
       estrelas de rapina

(de: o jardim das delícias)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

dois poemas portugueses

O amor

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos teus rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma vidros.

Estou a rodear de agulhas
a tua boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

(Eugénio de Andrade, Antologia Breve, 1972)


---


Soneto

Sebento abrigo, em fumo de manejo
até à sombra quente afeiçoada
ao brilho lento e vasto em que te vejo,
até a tarde atrás da madrugada,

até à noite porta sobre um tejo
distante na memória, onde encrespada
uma palavra morre e vive um beijo
que a boca não sabia ensinada

foi por calados ventos e desejo
- em fumo, em fome súbita e molhada
te sigo, te revisto e te protejo,

até o fim dos olhos ou da estrada,
amor possível, tacto, nó de ensejo,
destemida ternura resguardada.

(Pedro Tamen, Os Quarenta e Dois Sonetos, 1973)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

reescrevendo o passado (ode assimétrica)

Passei toda a tarde trabalhando um texto que me acompanha há mais de 30 anos, nunca concluído. Ou melhor, concluido, sim. Em etapas, períodos de vida específicos. Superado e vivido o período, o texto, como se fosse vivo, passava a exigir ajustes, reformulações de pensamento que se adequassem ao novo período iniciado. Perdi a conta das versões e revisões definitivas. Por sorte ou azar eu perdi as versões intermediárias, entre a original e a atual.

Trata-se de um poema. Longo. Escrito entre o final dos anos 70 e o comecinho dos anos 80. Até ganhou um concurso de poesia. Foi publicado no jornal do Departamento de Letras da universidade. Ficou guardado durante anos. Ressurgiu algumas vezes, inteiro ou aos pedaços, em concursos perdidos ou antologias que ninguém leu. Voltou para a gaveta. Finalmente foi publicado (e modificado) logo nas primeiras postagens deste blog.

Era o final da adolescência tardia. Eu vivia em uma espécie de limbo mental e emocional, esquizofrenia branda e inofensiva. Estava na universidade. Integrava um grupo de teatro. Era virgem. Tímido. Estava apaixonado. Pela primeira vez. Paixão platônica. Daquelas de se jogar da torre, cortar os pulsos ou beber formicida com refrigerante.

Convidei a pessoa amada (tecnicamente o melhor amigo) para visitarmos outro amigo, poeta, que se mudara para o Maranhão. A viagem foi intensa. Dias e noites insones, enlouquecidos, vivendo, sentindo, experenciando. Eu escrevia cadernos e cadernos, desenhava blocos e blocos de papel canson A3. Um dia tomei coragem: enchi a cara de cachaça misturada com guaraná Jesus, e me declarei. O cara era hetero, enrustido, babaca, fazia charme, me esnobava, ou, sei lá, simplesmente não estava a fim. Não rolou.

Como diz o lugar-comum, só o tempo para cicatrizar as feridas. Depois de uns 3 anos (!) a paixão padeceu, foi crucificada, morta e sepultada. Os cadernos-testemunhos foram queimados em um surto posterior. Os desenhos sobreviveram e hoje estão protegidos em pastas, no quartinho de depósito.

Sobreviveu também o poema. Uma ode. Inspirada no Poema Sujo (Ferreira Gullar), que na época eu sabia quase todo decorado.

No blog, a ode mudou várias vezes. As construções iam tornando-se mais elaboradas. O vocabulário mais caprichado. As imagens da paixão e do tesão adolescente permaneciam, pulsantes ainda, porém mais depuradas, pretensiosamente requintadas, sofisticadas. Era ainda bruto, porém reescrito sob o crivo da maturidade e da consciência dos fatos e dos motivos. O que se distiguia era outra paixão, mais ampla e intensa, pela vida vivida na cidade de São Luís.

Estava escuro (às 20h30 no horário de verão) quando eu desempaquei a última parte. Manca, disforme, incompatível, assimétrica, aquém das versões anteriores. Me perdi no final. Perdi o sentido daquilo. Conclusão? Fechamento? nenhuns. Afinal, São Luís está irreconhecível hoje. A praia deserta do Calhau virou bairro nobre. O casario azulejado desmoronando. A pobreza expandiu-se, cercou a cidade. O objeto da paixão virou executivo de uma empresa de mineração na África do Sul. Só o amigo poeta continua poeta.

Gastei tanto tempo e energia ao reviver e recuperar aquilo tudo. Eu estava exausto. E faminto. Desliguei o computador. Juntei todos os restos de comida da geladeira: arroz com açafrão, feijão, salada de batata com cenoura, mini-beterrabas pré-cozidas, um tomate, tirada a parte podre e carne moída. Juntei 2 ovos, molho barbecue, farinha, azeite e pimenta. Levei ao fogo mexendo sempre. E me empanturrei. Até quase explodir. Até não caber mais o poema.

(clique aqui para ler a Ode Assimétrica)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

poema-prosa da incapacidade

eu te tenho escrito tão melado, tão excessivo, tão encharcado, tão sentimental - o excesso de imagens, metáforas de gosto questionável, adjetivos e advérbios, frases intermináveis intercaladas, separadas por vírgulas, elipses e anacolutos como fibroses na pele do texto

eu tenho te escrito como se soluçasse, como se tartamudeasse ditongos e hiatos, como se não soubesse o que dizer e dissesse assim mesmo, como se repetisse, apenas invertendo a ordem, sequências monocórdias de signos, de palavras esquisitas do dicionário, como se encobrisse o cheiro azedo da angústia com óleo de pétalas de rosas ou raspasse o ouro que reveste os retábulos das lamúrias e das indecências

eu te tenho escrito como se enfiasse a mão no fundo lodoso para trazer à superfície objetos caídos ali há muito tempo: um porta-joias em forma de bailarina com o fecho enferrujado, uma lata de costura chacoalhando botões que não se usam mais, uma caixa de tampa marchetada de guardar rapé ou cocaína

o que tenho te escrito (horror e pesadelo) são pedaços podres daquilo que eu não consigo expressar: a mão de mulher cortada à altura do punho, ainda com a aliança no dedo anular em decomposição; um braço roído de vermes; a cabeleira de uma cabeça decepada que, depois de lavada, reconheço como tua

eu te queria escrever grandiloquente, profundo, evoluído - sobre a essência dos seres e das coisas  - por exemplo, sobre a alma, os temores que afligem a humanidade, as estrelas, os holocaustos, a fome, as migrações dos grandes mamíferos, a vida dos santos, dos criminosos ou dos revolucionários 
 
eu não suporto mais te escrever como se o vazio e a perda e o abandono provocados pela tua falta fossem a única força que mantêm o universo em movimento

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

poeminha rancoroso (da série separação de corpos)

te faça menos dano o abraço frio da serpente
que os pensamentos peçonhentos
com os quais te asfixio

desde o primeiro
até o último
de todos os instantes sem você


sexta-feira, 13 de abril de 2012

ítaca

Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
e que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.

(Konstantinos Kavafis traduzido por Haroldo de Campos)

sábado, 17 de março de 2012

(leminski)

um dia sobre nós também
vai cair o esquecimento
como a chuva no telhado
e sermos esquecidos
será quase a felicidade

(la vie en close, 1994)

(leminski - lápide 2 - epitáfio para a alma)

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

(la vie en close, 1994)

(leminski - lápide 1 - epitáfio para o corpo)

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.

(la vie en close, 1994)

(leminski)

A morte, a gente comemora.
No meu peito, cai a Roma,
que, caída embora,
nenhum bárbaro doma.

As romas que assim tivermos
e os esplendores da pessoa,
a impropriedade dos termos,
a quem doer, doa.

(de: la vie en close, 1994)