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sábado, 11 de dezembro de 2010

Margareth com "th"


Trabalhar fora? nem pensar. A pele de bebê condenada a murchar no puxado do fundo da oficina.

Margareth. Com "th". Mas preferia Meg. Meg do Zé Borracheiro. Tão delicada. Sorriso de propaganda de creme dental.

Unha vermelha? Escova permanente? Tintura loira? Lingerie branca? Tudo coisa de puta. Não suportava mais ouvir.

Prisioneira do monstro.

Cada noite o bruto morria diferente. Pó de vidro no arroz. Veneno de rato na cerveja. Gilete na carótida. Chumbo derretido no ouvido. Explosão do compressor. Tiro. Incêndio. Homicídio.

No dia seguinte o mesmo café com pão. Arroz, feijão e bife. Sopa de legume, canja. No domingo, macarrão com frango e estupro.

Estupro sim. Es-tu-pro. A manicure horrorizada aumentou o volume do rádio.

Amiga libriana, corte da vida tudo que não te serve mais.

Tirou o dinheiro que pôde. Arrumou a mala. Daquelas vermelhas, antigas, de couro falso e forro de cetim. Duas mudas de roupa. Creme nívea. Estojo de maquiagem. Dentifrício.

Sentadinha no ponto de ônibus nem viu o Zé se aproximar por trás. Só o sopapo. O gosto de sangue. O povo juntando. Dois dentes. Logo os da frente.

O covarde gostou. Repetiu a dose. A sopa insossa. Ou salgada. A batata cortada grande. Cozida demais. Café fervido. Copo mal lavado.

Coitada. Queixar a quem? Proibida de telefonar. De ligar o rádio. Até de fazer as unhas. Delegacia da mulher só em Goiânia.

Nunca mais riu quando a chamavam de Meg. Vergonha dos dentes quebrados.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Le diable au corps

Tinha o diabo no corpo. Bebê, jogava-se da cadeirinha por nada, a sopa quente, ou fria, ou com beterraba, ou. Na escola, piscina do clube, barbeiro, dentista, birras, pirraça, convulsões. Dúzias de pediatras, psicólogos, homeopatas, alternativos. Inútil. Era mesmo o diabo. Adolescência de sexo, sexo e sexo. Aos 10, os lençóis e colchão manchados, a parede ao lado da cama; horas no chuveiro; no banheiro da escola; na matinê do cinema. Aos 12 aconteceu. No vestiário. Com um cara de 18. O primo? O faxineiro? O professor de educação física? O monitor do 3º ano? Seguiu-se a lista. Médico, tio, os caras da antena parabólica, da natação, etc. O diabo muito bem alojado no plexo sacro, sexo, pelve, nádegas, coxa, pernas, pés. Corpo modelado por arte e vontade dele. Aos 17, pleno dos poderes. Levava a boate à loucura, anjo erguido, Jônatas. Dançava e dançava e dançava, o peito liso, branco, suor de lavanda escorrendo pela fenda nas costas, o cós baixo da calça. Divindade de todos e de nenhum. 18,19, 20. Ritmo alucinado, prazer, desejo, beleza. Orgia de viver. Aos 23, fotos na revista, filme. Rei todo-poderoso, senhor de si, e dele, o diabo. O que viria aos 30? O escuro, o medo, o nada, o vazio? Pulou do 20º, no dia em completaria 25.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Suavidades cotidianas 1

Hoje saiu A Força, décimo primeiro arcano. Conselho: controlar a raiva. Influenciado pela nigeriana do post passado, comecei a escrever uma historinha raivosa que talvez venha a ser publicada. Sobre alguém que odeia a própria mãe! Ficção pura, adianto. Minha relação filial é resolvidíssima.
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Estou mais para a fragilidade da moçoila elegantérima ao lado tentando delicadamente enfiar-lhe goela abaixo uma jujuba que para a virilidade do bofão feioso, sarado e seminu abaixo, querendo sodomizar o choroso e sufocado leão.
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O mar não tem estado pra peixe. Tufões, tsunamis, erupções subaquáticas e mudanças abruptas das fases da lua. Então a mensagem da carta foi oportuna.
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Enquanto historinhas não vêm (são pelo menos 2 na linha de produção: a do filho e a de dois amigos) postarei suavidades cotidianas. Para o blog não fenecer. M que me perdoe se se misturarem nesses dias o público e o privado.
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Parafraseando as palavras da canção de Renato Mattos: "um telefone é muito pouco pra quem ama como um louco e mora no Plano Piloto. Se o cara que o cara ama tá pra lá do Gama, mata de desgosto".
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"A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; (...) Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a princípio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados à boca saborosíssimos."
Raul Pompeia (ou será Pompéia?), em O Ateneu.
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O que seria de mim sem os adjetivos e os advérbios?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Deixe o prazer fluir

A carta de hoje, o 3 de copas, vigésimo quinto arcano, me manda deixar o prazer fluir. Pergunta há quanto eu não faço coisas que gosto. Sugere que eu relaxe e curta mais a vida. Que eu me abra ao prazer para que ele flua na direção do mundo. Que eu saia com os amigos, conheça pessoas, permita-me estar no mundo. Só assim o mundo me atenderá, possibilitando desfrutar dias agradáveis. Só assim minha alma ficará mais leve. Só assim minha visão sobre as coisas se alargará.
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 Tenho feito aquilo que gosto, sim. Talvez não com tanta intensidade. Fazer o que se gosta é difícil. Exige uma porção de coisas chatas: planejamento, estratégia, tempo, calendário, cartão de crédito, etc. Sobre relaxar e curtir a vida, conselho dificílimo de ser seguido pelos capricornianos. Estranha é a imagem do prazer fluindo na direção do mundo. Lembra golfada, enxurrada, ejaculação. Talvez seja por aí.
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 As últimas semanas aconteceram no piloto automático. Energia mal mal para assistir filmes gays sofríveis baixados na internet - garotos bonitinhos e seus draminhas existenciais e sexuais mais ou menos intensos – amores impossibilitado pela droga, pelos laços familiares, pelo álcool, pela loucura, pela incompetência. Salvam-se as trilhas sonoras ultracult de uns e de vez em quando cena erótica digna de rewind. 
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 Leitura homeopática do romance-thriller da nigeriana Helen Oyeyemi, A menina Ícaro. Compra aleatória na promoção de R$ 9,90. Narrado por uma menina de 8 anos que lê Shakespeare, conversa sobre passagens bíblicas obscuras, escreve haicais, tem crises histéricas na escola  e – a parte previsível – encontra uma amiga imaginária ou do Além, malvadérrima. Morro de medo!
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 Poema da garota:

Quando ela se foi, fiquei vazia.
Pensei que a lembrança eu guardaria
Mas ao procurá-la em minha mente
Fiquei sabendo que ela estava morta
Pedi para ir bater à sua porta
Para me encontrar e seguir em frente.
Não me deixaram, pois seu intuito
Era prender-me para todo sempre.
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 Com a chuva veio a melancolia. Da secura de alguns dias atrás à umidade relativa de 99%. A cidade úmida, as roupas úmidas, a alma, tudo cinzento, vontade de dormir, acordar, dormir de novo, dormir até chegar de novo a seca: a eletricidade no ar, a estática, só o essencial, a síntese, o estéril, a poeira vermelha em oposição ao excesso, a fertilidade, a terra, úberes, as sementes inchadas. 
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 Para completar a histérica alegria consumista natalina. Preparar o fígado, o estômago o sorriso colgate para as incansáveis festas de confraternização.
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 Exposição de nus masculinos comportados na quinta-feira. Fotos daquelas que se dá pra mãe no aniversário, alguém disse. Faltou o espírito transgressor dos anos 80, pitada de Mapplethorpe? No sábado, teatro. Fragmentos do Desejo, da Cia Dos a Deux. Lindas cenas sem palavras sobre, como sempre, relacionamentos. Pedofilia, abuso e incesto tudo junto logo na segunda cena. Luz, marcação, ritmo, cenário, interpretação, figurino, ritmo, sonoplastia, objetos e movimentação cênicos, até programa impecáveis. Sobrou final. Sempre sobra. Sensação de “podia ter acabado antes”. Fim do domingo sozinho no café pensando na vida e assistindo o bêbado dormir por cima do copo de uísque.
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Deadly Friday


Depois de uma semana pra lá de hard, fabrico o momento light ouvindo música aleatória do I-tunes, tomando uísque em copo chiquérrimo tirado dos guardados de mammy e escrevendo o post. Pretensões literárias: apesar do cão deitado aos pés do computador não ser o Ulisses de Clarice, é a companhia mais que humana no embriagamento dos sentidos.
O tarô de quarta-feira passada aconselhou listar as coisas que gosto. Foi difícil. Primeiro porque tirei a carta durante o expediente de trabalho e a maioria dos itens relacionava-se justamente ao não-trabalho: ler, escrever, viajar, divagar, cachoeira, trilha, ouvir música dirigindo, assim por diante. Parei antes de me jogar da janela do décimo segundo ou pingar duas gotas de  cianureto no café ao invés de adoçante. Tentando uma terapia de choque, inventei de listar aquilo que não gostava: bardana, enterro, engarrafamento, funk, etc. Nem precisa dizer o resultado. Piorou.
Hoje, sexta-feira, 22 horas, terceira dose no copo chique, solitário, sem paciência com skype, facebook, msn, agradeço aos deuses por ter sobrevivido. Para não alugar os olhos, os ouvidos do leitor com desabafo, chorumela, reclamação, posto só a imagem antiga. E bye bye, good afternoon, good evening, good night, hasta luego.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O dinamismo é algo muito bom, mas é melhor ainda quando vem acompanhado de um senso de estratégia


 Era uma vez W. W vivia sozinho. O namorado de W tinha ido embora para sempre. Esta história aconteceu por volta das seis da manhã. W sonhava com planilhas excel, estagiários desnudos e ramais intermitentes. Tinha dormido ansioso aguardando Wlória, a nova faxineira, que, por telefone, no dia anterior, avisou que chegaria muito cedo.
A campainha tocou. W acordou sobressaltado. Levantou-se como uma mola. Vestiu a cueca, W dormia pelado. Correu a atender a porta. Feliz pela possibilidade de contratar uma profissional tão adiantada.
Mas ao invés de Wlória, era um rapaz. Conhecido, de vista. Andava pela quadra, entre o boteco com sinuca e a oficina de lanternagem. Era sempre visto acompanhado pelo mecânico com cara de ator pornô.
Pois, às seis da manhã de uma quinta-feira de verão, W abriu a porta da casa e ao invés de encontrar Wlória, a faxineira, viu o tal gajo, o amigo do mecânico. W tomou um susto. Pensou que podia ser continuação do sonho. Não beliscou o braço, pois achava ridículo, isso (beliscar o braço, príncipe encantado bater à porta) só acontecia em filme. Confirmou a realidade quando o rapaz falou:
"Estava voltando pra casa, pensei em você. Não quer companhia?"
Inocentemente W se perguntou: Como ele adivinhou? Como o rapaz soube que companhia era a necessidade mais básica de W naquelas primeiras semanas pós-divórcio? sim, W admitiu, W queria companhia. Não sabia porque, mas veio à mente de W a frase bíblica: quem nunca se sentiu sozinho às seis da manhã de uma quinta-feira que atirasse a primeira pedra.
Porém, mesmo com toda carência, àquela hora da madrugada W queria mesmo era aproveitar os próximos 30 minutos de sono.
Antes de qualquer atitude ou palavra proferida, W deveria ter raciocinado: a pessoa que está “voltando para casa” às seis da manhã de uma quinta-feira devia ter tido uma noite no mínimo pauleira.
Mas W era muito lerdo. Boi, no horóscopo chinês. O  cérebro de W precisava esquentar antes de concatenar uma idéia com a outra. Enquanto fantasiava a história (mandar o rapaz entrar, dar uns amassos, etc, e dispensá-lo antes de Wlória chegar) W permaneceu parado na porta de casa, perplexo, de cueca, diante da visita inesperada. Que esboçou um tipo de reverência japonesa (juntar as palmas das mãos à altura do peito e inclinar levemente a cabeça) e escafedeu-se quase da mesma forma como tinha surgido.
W fechou a porta. Mas continuou perplexo, parado, a mão esquecida segurando a maçaneta. Afinal de contas, tal acontecimento contradizia todas as fórmulas ditas e repetidas em todas as consultas aos psicólogos, mães-de-santo, amigos conselheiros, manuais de auto-ajuda - de que só nos contos de fadas os candidatos a príncipes consortes batiam à porta dos necessitados. Não que o rapaz que tocou a campainha da casa de W fosse um príncipe. Pelo contrário, tinha cara normal: baixinho e careca.
Alem do mais, havia o conselho da carta do tarô, o nono arcano, Cavaleiro de copas, para espanar a poeira, colocar a bola pra frente, atirar-se na direção de caminhos que lhe conduzirão, W, à novidade, os encontros, as novas aventuras. A carta mandava W “imprimir movimento à existência”, tudo a ver. Teria W deixado obedecer o conselho da carta? Esfregou os olhos (não tinha sido mesmo sonho), balançou a cabeça pra espantar a dúvida e caiu na real.
Fez um longo xixi meditativo. Depois fez as abluções matinais e alimentou Billie, a cocker. Mas a incerteza por não ter feito a coisa certa bimbalhava, blimblava, badalava, não permitindo a W concentrar-se nos preparativos para o trabalho. Ainda era muito cedo (6h:15min). W foi comprar pão. Respirar o ar frio da madrugada faria bem. Aproveitaria para passear com Billie.
E não é que lá estava ele, o rapaz, de novo, com cara de desamparado, debaixo de uma marquise, no bloco seguinte ao da casa de W? Quando o rapaz avistou W, de longe, repetiu a reverência japonesa. W aproximou-se. Explicou: era muito cedo; ia comprar pão; se ele quisesse, tomavam café juntos. O rapaz aceitou o convite. Repetiu a história de não chegar na casa dele àquela hora.
W comprou 2 pães. Billie fez as necessidades. No caminho de volta o rapaz estava na porta da casa esperando W. W convidou-o a entrar. Só então sentiu o cheiro de álcool e de acetona do bafo dele. Bingo! a noitada dele tinha sido mesmo hardcore: uísque, provavelmente nacional e muuuito pó.
O rapaz entrou. Balbuciou explicações, negando o tom sedutor da fala inicial (o papo da companhia). Foi mais honesto:
"estava numa farra com a galera. Sou fraco pra essas coisas. Moro com a família. Não queria chegar em casa desse jeito."
W compreendeu. O rapaz não queria compartilhar carinho, fazer companhia para o carente. Queria guarita até passar a lombra. W foi maquiavélico. Lembrou do dito popular: "** de bêbado não tem dono". Seria só sexual o desejo oculto de W? Controlou a libido. Foi educado. Explicou:
“Não vai dar pra você ficar. Estou esperando a Wlória, a faxineira. Hoje será o primeiro dia dela aqui. Saio pra trabalhar daqui a pouco”.
Ofereceu café (W sempre acreditou na cafeína como santo remédio para a maioria dos males). O rapaz recusou. Disse que precisava ir embora. W perguntou-lhe o nome: O rapaz grunhiu um som incompreensível, terminado em -ão. Marcão? Betão? Zezão? Aarão? Jedeão? W nunca descobria.
A negativa do rapaz tranquilizou W. Ele tinha feito direitinho o dever de casa existencial – estar aberto às oportunidades que o acaso oferecia. Para sorte de W (a eminência da chegada de Wlória, não atrasar-se para o trabalho), o próprio acaso tinha se encarregado de encontrar saída digna para a história.
W ainda pensou naquelas fábulas religiosas e místicas – Sidarta, os santos ou o próprio Jesus disfarçados em mendigo, leproso ou peregrino bater na porta da casa do pecador pedindo abrigo, pão ou curativos. Duvidou: será que Buda, Jesus ou qualquer outro santo se prestaria ao papel de se fantasiar de drogado para testar a capacidade de aceitação de uma pobre biba carente às seis da manhã de um dia útil?
Apesar da lentidão W não tinha se saído mal. Se fosse Jesus disfarçado, ele devia ter anotado no caderninho que W havia revisto seus conceitos (ao reencontrar o rapaz depois de deixá-lo ir e convidá-lo para tomar café) e certamente perdoou as malévolas segundas intenções de W (a fruição erótica, a sacanagem pensada).
Se não fosse Jesus, Sidarta ou outro santo qualquer a atitude de W também poderia ser justificada no Juízo Final, no Nirvana, no Paraíso. W tinha dado oportunidade ao doidão para se retratar. Respeitou o brio de macho dele, fingindo nem ter ouvido a oferta inicial (quer companhia = quer transar?).
Ão desapareceu nos meandros da rua. voltará?
Às sete em ponto Wlória chegou. Tinha cara de pombagira. W mostrou a casa, apontou os serviços. Depois de ter passado por tudo aquilo, era fichinha deixar a casa por conta dela, uma desconhecida. Wlória ficou feliz com os R$ 60 por dia de faxina, uma vez por semana. Que os deuses protegessem e guardassem o lar de W.

sábado, 18 de setembro de 2010

Pra que se desgastar? Sente-se e aguarde o momento propício

Era uma vez uma galinha chamada A. Uma galinha não. Uma perua. Solteira. Uma perua com quase 50. Apesar de viver no mesmo terreiro do galo O, ela não chegou a conhecê-lo. No tempo de A, além de falar os bichos ainda sabiam ler e escrever. A chegou ao terreiro ainda criança, junto com um peruzote destinado a ser seu esposo e perpetuador da espécie. Porém o destino foi diverso. O gavião pegou o peruzote. O peruzote gostou. Foram viver juntos. Deixando a perua ainda adolescente a ver navios.

A não se desesperou. Não se tornou uma perua-galinha. Não deu pra todo mundo. Não virou lésbica, freira, carola ou evangélica feia. Canalizou a libido para o intelecto. Dedicou-se aos estudos. Aos 19, estava formada e concursada de ministério. Aos 30, abandonou o interminável mestrado. Aos 40, contratava frangos de frete duas vezes ao ano. Aos 50 aposentava-se, no cargo de secretária do chefe do departamento de pessoal.

Aconteceu na festinha de despedida. Enquanto o chefe discursava, antes dos salgadinhos, da salada de frutas, dos refrigerantes, da torta e das latas de cerveja guardadas na geladeira da copa, para serem liberadas após o encerramento do expediente.

Enquanto o chefe elogiava a irrepreensível carreira de A, A notou o estagiário. Novinho, gostosinho, penugem arrepiada, carinha de bebê. A sentiu vontade de pegar o gansinho no colo, tão fofinho ele era. Levar pra casa, colocar pra dormir, dar de mamar, fazer sopinha de noite, andar de roda gigante no parque. Como assim? Tinha despertado o tardio sentimento materno? Qual mãe que nada, era a fúria contida da libido que despertava e queria se libertar. Queria mesmo era afogar o gansinho em seu seio, sentir o gansinho inteiro dentro dela. A estranhou-se. Perdeu o fio da meada do discurso do chefe e só despertou do devaneio com os aplausos, os colegas em coro exigindo: dis-cur-soo! dis-cur-soo!

O discurso saiu. Duas lágrimas. Abraços, piadas, lista com os telefones e os e-mails dos colegas – não se esqueça da gente! Presente: semi-jóia, bijuteria sofisticada, ah, que lindo, era isso mesmo que eu queria. Não tirava os olhos do gansinho-estagiário.

Ou pegava o gansinho ou se jogava dali mesmo, do terceiro andar. 18 horas, cerveja liberada. A tomou o primeiro copo, o segundo. Nem beliscou o sanduíche de metro. No terceiro copo, alegrinha, passou a beber na própria lata, achava sexy o barulho de abrir – ptssssssh! – ainda imitou, seguido da gargalhada que os colegas nunca tinham ouvido.

 O estagiário cantarolou Miss Suéter em homenagem à aposentada. Os colegas fizeram coro: “na boca dois pivôs tão graciosos entre jóias naturais e olhos tais minúsculos aquários de peixinhos tropicais”. A só pensou em  avançar. O raciocínio da perua embotado pela quarta, quinta lata de cerveja, estômago vazio. O senso de ridículo tinha ido para o espaço, que se danassem, era seu último dia.

 Ofereceu o primeiro pedaço da Martha Rocha adivinhem a quem? Ao gansinho. Oh!, murmuraram os colegas, misto de reprovação e de quem queria ver o circo pegar fogo. A foi rápida: para saudar o sangue mais novo, o futuro da repartição. Todos aplaudiram. Depois A não desgrudou os olhos dele, o gansinho amado. Esperou o melhor momento e crau! cantou o gansinho. Ali mesmo, na frente de todo mundo, sentada na mesa do chefe, danem-se de novo.  Mas a cantada foi tão sutil, tão poética, tão literária que o gansinho não entendeu. Ou fingiu não entender. Aquela perua bêbada com idade para ser mãe, quiçá avó dele.

Nem precisa dizer que A foi pra casa sozinha, de táxi, bêbada como uma perua de véspera. Despiu-se e se deitou, sem tomar banho, nuinha, nem tirou os sapatos vermelhos. Sonhou com o gansinho.

No dia seguinte A nem se lembrou da dor de cabeça, o gosto de guarda-chuva, a sede eterna da ressaca. Foi direto para o tarô da internet. A leu o texto do 6 de espadas – afastar-se da rotina, permitir-se conhecer pessoas, opiniões e lugares novos, arejar a mente; e do 9 de paus – economizar as forças, evitar desgastes, esperar sentada a tormenta passar. Procurou o nome do gansinho na lista dos e-mails, dos telefones dos colegas que veio junto com o cartão do presente. Ligou. Caiu na caixa postal. Deixou recado: olá, querido, preciso falar com você, me liga quando puder. A esperou até de noite. O gansinho ligou? Nem eu. A angustiou-se. Na dúvida em ligar de novo. Então tormenta era aquilo? Não seria a própria tormenta que A tinha esperado por tanto tempo, e agora, que vinha, tinha que esperar passar? Depois de muitos anos, A lembrou-se do peruzote da adolescência. Aquele que tinha fugido com o gavião. A sentiu inveja, o peruzote que não esperou. Que se entregou de corpo e alma ao sentir na cara o primeiro pingo da tormenta. Então ligou de novo. O estagiário atendeu. Combinaram tomar sorvete no shopping. Depois de desligar, A viveu feliz para sempre.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A roupa do rei

Rei de Copas

Deixei para tirar o tarô só hoje, segunda-feira. Descansar o leitor no final de semana. Saiu de novo o Rei de Copas. Bonita a roupa dele, chapelão esquisito compondo com a coroa. Sentado em seu troninho desconfortável, copaço de vinho na mão e cara entediada. Deu preguiça de escrever a história do dia. Mas sabe-se lá os desígnios secretos do além, reforçar a mensagem da carta. Pelo sim pelo não, transcrevo acima trechos do e-mail diário para M.

sábado, 11 de setembro de 2010

Aproveitar o período dinâmico


Hoje saiu o Mago, o primeiro arcano. Conselho: aproveitar o período dinâmico. Com as seguintes atitudes: a) quebrar a rotina; b) experimentar ideias novas; c) renovar, fazer diferente (em itálico!); d) tentar outro curso de ação; e) preparar-me para encontros inesperados e conversas libertadoras; f) espanar a poeira; g) abrir-me ao novo; h) bater um papo com pessoas que surgem do nada; i) libertar-me de uma forma antiga e superada de abordagem das situações. Cada alínea daria uma história. Que, por sua vez renderiam sub-histórias. Um post infinito, como em Borges.

Restringi as possibilidades. Comecei uma história sobre transformação. Antes da história foi necessário explanar sobre os setênios da antroposofia. A explicação estendeu-se e a história mais ainda. Se publicasse tudo junto, na certa M reclamaria: aff! você é tão prolixo! Por isso dividi em duas partes: hoje as noções holísticas e em breve oportunidade a historieta propriamente dita:

De acordo com a antroposofia, a vida humana é dividida em estágios de desenvolvimento que ocorrem de sete em sete anos. Esses estágios ou ciclos são chamados setênios. Ao final de cada setênio encerram-se processos transformadores fundamentais no indivíduo e iniciam-se outros.

A infância e adolescência estão compreendidas nos três primeiros, também conhecidos como os setênios do corpo: De 0 a 7 anos, nós estamos abertos ao mundo; nossa confiança é ilimitada; não somos capazes de julgar; não compreendemos o pensamento dos adultos; aprendemos por imitação. Dos 7 aos 14, a nossa anima desenvolve-se; nosso corpo emancipa-se; interagimos aos estímulos externos de maneira sistemática; interessamo-nos e admiramos as coisas do mundo; iniciamo-nos na área dos sentimentos; entramos na puberdade; e preparamo-nos para a iniciação sexual. Dos 14 aos 21, as forças anímicas liberam-se; enxergamos mundo de forma lógica, analítica e sintética; ansiamos por explicações conceituais e intelectuais; ansiamos sermos compreendidos; ansiamos a verdade; e estamos prontinhos para perpetuar a espécie.

Os três setênios seguintes, também denominados setênios da alma, compreendem a idade madura: De 21 a 28 anos nós completamos a formação moral, profissional, ética; transamos com todo mundo; pensamos que somos os donos no mundo. Dos 28 aos 35 nós já passamos por todas as experiências básicas da vida; é a hora de casar, ter filho, família, sogros, cachorro, papagaio; terminamos o mestrado; compramos casa financiada, carrinho básico; pensamos em escrever o primeiro livro; preparamo-nos para desfrutar as nossas realizações. Dos 35 aos 42 rolam alguns ajustes, as experiências profundas, as grandes responsabilidades do cidadão, a concretização do livro, o divórcio, etc. A partir dos 42 é a fase do usufruto pleno das conquistas.

Dos 49 em diante é a hora da espiritualidade. É quando querendo-se ou não, começa o declínio da matéria. É a corrida contra o tempo, e salve-se quem puder.

Pois bem. Meu sétimo setênio está chegando ao fim. Em breve adentrarei o oitavo. Vaidoso que sou, paranóico, pessimista, realista – já percebo os efeitos da passagem do tempo, a derrocada do corpinho, a irremediável idade provecta. Ainda não sei se o oitavo setênio será bom ou ruim. Enquanto descubro, contarei a história de O. O sempre seguiu os conselhos do Mago. Sua vida era o próprio momento dinâmico, e O aproveitava todos. O trecho a seguir narra a passagem do décimo setênio de O. Quando ele pintou os cabelos de preto, comprou um fusca vermelho e casou-se com uma franguinha de 18 anos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Necessidade de se abrir ao diálogo


O conselho de hoje do dois de copas, vigésimo quarto arcano, foi compreender o outro é o primeiro ato para atrair compreensão para si mesmo. O desenho é um dos mais bonitos do tarô. Pensei de manhã: o que escrever sobre isso, sem M achar chato? deixei para depois do almoço; com barriga cheia a história pessoal viria. Não veio. Então me lembrei de uma antiga, do tempo em que eu vivia tão sozinho e carente que chorava quando via beijo na novela, conversava com o espelho da porta do armário e acreditava no poder do pensamento positivo. Pode até não ter a ver com o conselho, ou ter a ver com o anterior, da roda da fortuna, ou ser uma mistura dos dois, não importa, vale pelo insólito da situação:

Era uma vez G. Nem precisa dizer que G era eu. G vivia um período de extrema solidão. Agravado por sobressaltado com a morte. Uma irritação de garganta, um torcicolo e G já pensava o pior: câncer nos gânglios linfáticos, na próstata, gripe suína ou coisa terrificante que o valesse.

G tentava amenizar a dor da solitude. Visitava os amigos, frequentava reuniões de colegas de trabalho, ia à missa, aos bares, fazia terapia 4 vezes por semana, telefonava dia sim dia não para a mãe, e nada de passar. Por fim, uma alma caridosa sugeriu fazer iôga. X. estranhou, pois na adolescência todo mundo pronunciava a palavra com a vogal aberta, ióga. Bobagem, questão fonética, a essência devia ser a mesma. Comprou roupas brancas, largas, folgadas, de fibras vegetais e matriculou-se. G precisava investir em si mesmo (o dois de ouros do tarô anterior), G precisava abrir-se ao diálogo.

Enquanto duraram a primeira e segunda aulas - posturas básicas, respiração, meditação ao final, G tranquilizou-se, só mesmo a pronúncia tinha mudado. Porém, na terceira aula, antes das posturas, a professora gordinha começou com uma digressão histórica e filosófica do sistema da iôga. Descreveu as esferas alimentares (os minerais, os vegetais, os animais). Os minerais estavam mais longe de nós e os animais mais próximos. No meio estavam os vegetais. Se G comesse um mineral, o máximo que lhe aconteceria era ele (o mineral) sentir-se comido, mas isso não teria problema, ninguém leva a sério os sentimentos dos minerais, isso não alteraria nada a existência eterna de G, o karma. Se G comesse um vegetal, o vegetal não apenas se sentiria comido mas reagiria. G imaginou: como seria uma beterraba esperneando ao ser refogada? uma cenoura implorando clemência diante do ralador?

Mas o horrível, o péssimo, o imperdoável era comer animal. Os animais possuem sangue, alma coletiva. Eles habitam um círculo evolutivo muito próximo do humano. Cada prato de moqueca, de galinha caipira, cada torresmo, orelha, costeleta de feijoada não-vegetariana comida por G equivaleria a 50 anos de atraso evolutivo. A professora gordinha concluiu a primeira parte da aula afirmando que ela, por exemplo, já tinha superado os grãos (o subestágio mais primitivo dos vegetais) e entrava nos tubérculos, o segundo. Falou sobre iogues tão elevados que somente se alimentam dos nutrientes suspensos no ar que respiramos, chamado de prana. Por fim, ensinou uma energização da água: encher o copo com água do filtro, de manhã, estender o copo na direção do sol, tomar um gole, bochechar, cuspir; tomar outro gole, gargarejar, cuspir; tomar o resto e engolir. Se tivesse à mão caneta e um caderninho, G teria anotado.

A segunda parte da explanação era sobre as quatro esferas do amor - o amor físico, animal, inferior, sexual (que só acontecia entre homem e mulher), o amor emocional, ainda humano, saído do coração, e que gerava os sentimentos (exemplificou: o ciúme, a posse, a paixão), o amor mental (óbvio, da mente) – que podia ser controlado, canalizado e utilizado como escada para a quarta, e inacessível esfera amorosa a nós, reles mortais - o amor espiritual (que apenas os iluminados alcançam: poder amar indistintamente o amigo e o inimigo, as coisas boas e as coisas ruins, etc).

Aí G fez os exercícios, as posturas. Depois a meditação. Quem disse que G relaxou? Pensava que sua entrada no nirvana estava definitiva e triplamente bloqueada: a) quantas reencarnações ainda teria que viver até recuperar o atraso do karma provocado pelas centenas de porcos, galinhas, perus e vacas, além dos caranguejos, das piabas, das lulas, dos salmões grelhados, dos camarões que já tinha comido? b) como poderia energizar o copo d’água matutino, sendo impossível vislumbrar o sol nascente das janelas da casa onde morava, de frente para a kit da loura cinquentona? e c) como poderia fazer ser aceita nas esferas superiores a modalidade amorosa que praticava, amar outro do mesmo sexo, que não se enquadrava nem no primeiro nível evolutivo?

Logo G que nunca tinha pensado sobre o assunto, queria só mesmo conhecer gente nova, esquecer a tristeza, passar o tempo, adquirir mais flexibilidade das articulações... Nem precisava dizer que depois daquele dia G não voltou. Deu as roupas brancas pra faxineira. Desistiu. Evoluir era difícil pra caramba. Decidiu fazer natação. Mesmo com a garganta ardente, o pescoço dolorido, os gânglios, o câncer, a hipoglicemia. Na água clorada e despranada G tinha esperança de parar de pensar sobre o ridículo que era sobreviver.