A boa escrita tem regras esquisitas. Por exemplo, a de se evitar os jargões, os lugares-comuns, as frases feitas, os ditos populares. Eu gosto e as utilizo, talvez para expor a ironia da pretensão, nata ou inata em todos nós, de criar algo novo e grandioso. Por trás da obviedade algumas dessas construções de mau gosto têm muita sabedoria. Como o título acima.
...
Moro em uma casa com portas largas de vidro transparente. Ver o tempo todo o verde e grande parte co céu do mundo exterior provoca uma sensação agradável de se estar integrado e ao mesmo tempo protegido de tamanha exuberância.
Porém o vidro não é bom para os pássaros. Quando as portas estão fechadas em certas horas do dia, a paisagem reflete-se com tanta nitidez nelas que os pássaros se confundem. Eles não enxergam a barreira invisível. E se esborracham no vidro. Geralmente o choque é tão forte que (talvez devido à oleosidade das penas) o contorno do pássaro fica desenhado na superfície transparente.
Desenho delicado e terrível do momento exato em que a morte veio. Súbita, fulminante e inexplicável.
...
Como agora pouco, o pombo. Ou a pomba, para dar mais dramaticidade à narrativa.
Eu estava me preparando para trabalhar (leia-se: jogando candy crush) quando ouvi o estrondo. Já conhecendo os precedentes, nem me assustei.
Tinha sido na varanda. Estava lá o corpo encolhido no chão. Uma pomba grande, silvestre, da cor de cinza e prateado. Patas vermelhas, olhos fechados, um fio de sangue escorrido pelo bico. Penugem e grãos de ração semidigeridos espalhados em volta. No vidro, ao invés do contorno, um borrão pastoso escorrendo.
Pobre pomba. Tinha acabado de se alimentar. Pelo visto uma refeição lauta, compartilhada da vasilha de comida de algum cão da vizinhança. Tinha bebido água. Provavelmente os grãos inteiros de ração ela levaria para os filhotes no ninho.
A pomba devia estar feliz. Voava distraída, satisfeita depois das responsabilidades cumpridas: barriga cheia, alimento para a prole. Devia estar pensando em tirar o dia de folga, para simplesmente existir, aproveitar o céu muito azul, a temperatura agradável, o verde da grama e das árvores revivido depois da chuva do dia anterior, algum fruto do pomar - enfim, a manhã tão linda, em toda a sua plenitude.
Devaneio interrompido bruscamente pela barreira implacável do vidro.
Para sorte da pomba (será coerente associar os sentidos de morte e sorte?) de tão violenta, a passagem da dimensão real para alguma outra inexplicavelmente paralela, deve ter sido imperceptível. Pouco mais que um soluço.
Afirmar que na dimensão paralela o céu é mais azul ainda, a temperatura ainda mais agradável, o verde mais verde, a manhã mais linda e, espalhados pelo chão, pululam milhares de vasilhas de cães transbordantes de ração é pura pieguice ou carolice.
Depois do soluço-morte, imagino, a pomba adentrou no nevoeiro cinzento, úmido e denso onde voará sem pouso ou descanso por toda a eternidade.
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quinta-feira, 5 de junho de 2014
sexta-feira, 30 de maio de 2014
pelópidas e o batalhão sagrado
O general Pelópidas (séc. IV a.C) venceu uma das batalhas contra os espartanos com a ajuda do Batalhão Sagrado, uma tropa de elite do exército tebano que consistia de 150 pares organizados por idade. Vale a pena ressuscitar os 3 capítulos que Plutarco dedica a esse amoroso batalhão:
[...] compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público. [...] Outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros. [...]
Plutarco cita o filósofo Parmênides que, com base na formação do Batalhão Sagrado tebano, criticou jocosamente a Ilíada de Homero, ao aconselhar os gregos a estratégia de se alinharem nas batalhas por nação ou linhagem:
Era necessário, dizia ele [Parmênides] colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.
No capítulo seguinte Plutarco discorre sobre aquele exemplo gay heróico clássico:
[...] se é verdade que os amorosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar.
Plutarco prossegue falando dos amores entre Hércules e Iolau, de Laio (o pai de Édipo) e Crísipo (filho de Pelópidas) e de Platão, que chama o amante de amigo divino ou inspirado dos deuses.
Por fim o Batalhão Sagrado foi derrotado pelos exércitos de Filipe o Grande, da Macedônia. Quando Filipe percorreu o campo da batalha e deparou os trezentos homens do Batalhão Sagrado deitados por terra, todos perfurados por grandes golpes de lança através do estômago, e colocados, ainda cobertos com suas armas, uns junto dos outros, do que assombrou-se enormemente [...] e começou a chorar de piedade, dizendo: - "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto".
Plutarco encerra o excerto sobre o Batalhão Sagrado explicando as razões dessas estratégias militares pouco comuns:
[...]
Em suma, o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres. [...] Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens. [...] isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.
...
Ou seja, o útil e o agradável para a felicidade geral da nação.
[...] compunha-se de trezentos homens escolhidos, assalariados e mantidos às expensas do erário público. [...] Outros querem dizer que era uma companhia de infantaria composta de homens enamorados uns dos outros. [...]
Plutarco cita o filósofo Parmênides que, com base na formação do Batalhão Sagrado tebano, criticou jocosamente a Ilíada de Homero, ao aconselhar os gregos a estratégia de se alinharem nas batalhas por nação ou linhagem:
Era necessário, dizia ele [Parmênides] colocar mais cedo um amante junto daquele que ama, porque os homens ordinariamente, ocupam-se bem pouco daqueles que são de sua nação nem de sua linhagem em perigo, mas um batalhão que seria composto de homens amorosos uns dos outros, não poderia jamais romper-se nem forçar, porque os amantes, pela afeição veemente que têm aos seus amados, tendo vergonha de fazer alguma coisa covarde ou desonesta diante de seus amantes, manter-se-iam uns por amor dos outros, até o fim.
No capítulo seguinte Plutarco discorre sobre aquele exemplo gay heróico clássico:
[...] se é verdade que os amorosos respeitam seus amores, mesmo quando estão ausentes, assim podem conhecer pelo exemplo, como daquele que, estando caído por terra, assim que seu inimigo levantou a espada para matá-lo, pediu-lhe que lhe desse o golpe de morte pela frente, com medo que seu amado vendo seu corpo morto, ferido nas costas, viesse a se envergonhar.
Plutarco prossegue falando dos amores entre Hércules e Iolau, de Laio (o pai de Édipo) e Crísipo (filho de Pelópidas) e de Platão, que chama o amante de amigo divino ou inspirado dos deuses.
Por fim o Batalhão Sagrado foi derrotado pelos exércitos de Filipe o Grande, da Macedônia. Quando Filipe percorreu o campo da batalha e deparou os trezentos homens do Batalhão Sagrado deitados por terra, todos perfurados por grandes golpes de lança através do estômago, e colocados, ainda cobertos com suas armas, uns junto dos outros, do que assombrou-se enormemente [...] e começou a chorar de piedade, dizendo: - "Que mal pode acontecer àqueles que julgam que tal gente faça alguma coisa de desonesto".
Plutarco encerra o excerto sobre o Batalhão Sagrado explicando as razões dessas estratégias militares pouco comuns:
[...]
Em suma, o inconveniente de Laio, que foi morto por seu próprio filho Édipo, não foi a causa primitiva deste costume que os tebanos tinham de serem amorosos uns com os outros, mas foram esses que primeiramente estabeleceram suas leis, os quais vendo que era uma nação corajosa e violenta por natureza, quiseram amortecer e adocicar um pouco a sua natureza, desde a infância e com esta intenção misturaram entre seus atos, o prazer e os deveres. [...] Igualmente também entre as diversões da juventude nos exercícios corporais, introduziram o uso do namoro, para temperar e adocicar os costumes e o natural de seus jovens. [...] isto dá a entender que, onde a força e a valentia militar estão unidas e conjuntas com a graça da aparência e da persuasão, todas as coisas são reduzidas por esta união, a um belo, esplêndido e perfeito governo.
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Ou seja, o útil e o agradável para a felicidade geral da nação.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
a mensagem
Há algum tempo recebi pelo celular a seguinte mensagem:
"Desculpa por interromper vc a essa hora. Meu nome e Deus. Pq vc nao se importa comigo??? Eu tenho protegido vc desde o dia q vc nasceu. tenho abencoado vc, quero essa msg no mundo inteiro, antes da meia noite, nao ignore, vc esta sendo testado (a), se vc fizer isso , eu irei corrigir 2 grandes erros em sua vida e vou ajudalo em algo que estas em necessidade e seu dia que segue sera muito abencoado, entao envia essa msg para 14 pessoaa em 10 minutos".
Minha primeira providência foi checar o número na lista de contatos. Não constava. Só podia ser engano. Ou será que ele recorrera ao superpoder da onisciência?
Senti um calafrio. Mesmo com toda formação ateia socialista pelo lado paterno, havia resquício daquele temor e culpa ancestral, católico apostólico português, espanhol, mineirinho do resto da família. Nunca um clichê se encaixou tão bem: yo no creo, pero...
A essa altura os neurônios responsáveis pelo materialismo dialético histórico do cérebro tinham entrado em curto-circuito. Empiricamente liguei para o número registrado na mensagem.
Ainda tive coragem de esperar o primeiro sinal de chamada. Desliguei em seguida. Vai que ele atende? Eu gaguejaria: Senhor? Milord? Vossa Excelência? Vossa Santidade? Pai? E o que eu diria depois?
Quem dera eu tivesse a desenvoltura da amiga que bate altos papos com ele, via e-mail.
...
Deixei a taquicardia passar, o temor esfriar, tentei me acostumar com o sobrenatural. Fui cuidar da vida. Editar uns depoimentos para a pesquisa, pensar em soluções para o trabalho encalacrado, estudar a lição de inglês, pagar umas contas pela internet, ligar para o novo amor, tomar uma taça de vinho para relaxar, ver um filme, tomar banho e dormir.
Para só no dia seguinte pensar na mensagem divina.
...
Muito antigamente o formato utilizado por Deus chamava-se corrente. A pessoa recebia uma carta (geralmente anônima) com a mesmíssima estrutura formal do texto em tela. Podia ser da parte de um devoto de santo, de pessoa necessitada (geralmente estrangeira). Prometiam benefícios, materiais ou, menos comuns, espirirtuais. Pediam em troca dinheiro, selos, preces - depósitos em fé ou espécie. Quase todas encerravam-se com a ameaça:
Frau Helga, de Munich, quebrou a corrente e perdeu todo o dinheiro aplicado na poupança. Mariazinha Silva, de Belém do Pará, quebrou a perna. Bob Wilson, do Texas, rasgou a carta e no mesmo dia a esposa o abandonou. Então resgatou a mesma e a reenviou para 55 pessoas e no dia seguinte a esposa voltou trazendo 1 milhão de dólares. Assim por diante.
O destinatário deveria copiar e remeter a referida carta para a quantidade de pessoas nela especificadas e, na calada da noite ou à primeiras luzes do alvorecer, enfiava cada uma das cópias nas caixas de correio ou pelas frestas das portas das casas da vizinhança. Depois era só aguardar a benesse, a vantagem ou o milagre prometido.
Passado o período pré-histórico das cartas manuscritas e depois xerocadas, veio a moda das correntes por e-mail. Teve uma época em que as caixas postais eletrônicas ficavam abarrotadas delas. Modernizadas e potencializadas e disseminadas ao extremo, porém totalmente estagnadas no que se refere ao estilo: as mesmas explicações, ameaças, exemplos, apelos e ordens.
Agora a novidade: corrente via celular.
...
Insone madrugada afora, resolvi analisar a mensagem.
Ao invés daquelas intervenções épicas (oceanos se abrindo, vozes estereofônicas vindas das nuvens, relâmpagos, ventanias ou eclipses) ele optou pela simplicidade da modernidade, utilizando-se de uma ferramenta tecnológica tão banal e eficaz quanto o messenger. Criatividade celestial.
1. Apesar da qualidade questionável, o texto criado pelo publicitário dono da conta Divina atingiu os objetivos: ser extremamente pessoal abrangendo ao mesmo tempo o máximo de ovelhas desgarradas do rebanho. (Se não fosse a possibilidade dos dois gêneros na palavra testado(a), eu juraria que a mensagem era exclusiva).
2. Se a mensagem foi digitada sem a ajuda do publicitário, ele se esqueceu de ativar o corretor automático.
3. Ou então estava com muita pressa para não se demorar nos acentos, nas cedilhas e nas concordâncias. Pressa justificável para quem construiu o universo em 6 dias.
4. Ou então, ainda e mais plausível, não era obrigado a conhecer a fundo o português, uma língua tão complicada e não tão sagrada quanto o hebraico (sua língua original) nem tão universal quanto o inglês.
5. O provável dedo do provável publicitário, atualizando e adaptando a velha mensagem (a mesma desde o tempo em que a serpente ofereceu o fruto proibido a Eva) à informalidade das síncopes utilizadas pelos usuários das redes sociais: vc, pq, msg.
...
Empaquei. Ou caí no peguinha preparado por ele. Afinal, quais os 2 erros eu elegeria para serem corrigidos, dentre os tantos grandes erros cometidos em mais de meio século de existência?
...
Por fim rascunhei a resposta:
Prezado Deus,
Espero não magoá-lo por não levar a diante vossa corrente. Por 3 motivos: primeiro, por não ter suficientes amigos íntimos quanto os exigidos para apontar-lhes os erros e assim disseminar e tornar eficaz a vossa campanha publicitária. Segundo por não conseguir decidir quais seriam os dois, dentre os tantos erros pelos quais vós corrigiríeis. Por último, sem ser desrespeitoso, por eu ser daqueles pessimistas negativistas agnósticos que não acreditam em destino e muito menos na possibilidade de sua mudança. E que, apesar do apego ferrenho à vida, apregoa que viver é o nosso maior erro.
PS.: se achar que vale a pena posso vos indicar um excelente e barateiro revisor ortográfico-gramatical-estilístico.
...
Mandei? óbvio que não. E se ele não entendesse o gracejo? se considerasse blasfêmia essa postagem? se se enfurecesse a ponto de bloquear o sinal ou clonar meu celular, por exemplo, enviando à revelia, a mensagem para todos os meus centos de contatos?
Ou atirasse um raio para rachar minha soberba ao meio?
...
(O castigo veio. Não como raio, vírus virtual, bloqueio de sinal. Veio na forma da crise criativa que se estende desde o dia em que rascunhei a resposta à interpelação divina até sabe-se lá quando - crise de tal proporção que me obriga a publicar este texto ruinzinho só para não deixar os preciosos 4 seguidores do blog abandonarem-no, deixando-o morrer à míngua).
"Desculpa por interromper vc a essa hora. Meu nome e Deus. Pq vc nao se importa comigo??? Eu tenho protegido vc desde o dia q vc nasceu. tenho abencoado vc, quero essa msg no mundo inteiro, antes da meia noite, nao ignore, vc esta sendo testado (a), se vc fizer isso , eu irei corrigir 2 grandes erros em sua vida e vou ajudalo em algo que estas em necessidade e seu dia que segue sera muito abencoado, entao envia essa msg para 14 pessoaa em 10 minutos".
Minha primeira providência foi checar o número na lista de contatos. Não constava. Só podia ser engano. Ou será que ele recorrera ao superpoder da onisciência?
Senti um calafrio. Mesmo com toda formação ateia socialista pelo lado paterno, havia resquício daquele temor e culpa ancestral, católico apostólico português, espanhol, mineirinho do resto da família. Nunca um clichê se encaixou tão bem: yo no creo, pero...
A essa altura os neurônios responsáveis pelo materialismo dialético histórico do cérebro tinham entrado em curto-circuito. Empiricamente liguei para o número registrado na mensagem.
Ainda tive coragem de esperar o primeiro sinal de chamada. Desliguei em seguida. Vai que ele atende? Eu gaguejaria: Senhor? Milord? Vossa Excelência? Vossa Santidade? Pai? E o que eu diria depois?
Quem dera eu tivesse a desenvoltura da amiga que bate altos papos com ele, via e-mail.
...
Deixei a taquicardia passar, o temor esfriar, tentei me acostumar com o sobrenatural. Fui cuidar da vida. Editar uns depoimentos para a pesquisa, pensar em soluções para o trabalho encalacrado, estudar a lição de inglês, pagar umas contas pela internet, ligar para o novo amor, tomar uma taça de vinho para relaxar, ver um filme, tomar banho e dormir.
Para só no dia seguinte pensar na mensagem divina.
...
Muito antigamente o formato utilizado por Deus chamava-se corrente. A pessoa recebia uma carta (geralmente anônima) com a mesmíssima estrutura formal do texto em tela. Podia ser da parte de um devoto de santo, de pessoa necessitada (geralmente estrangeira). Prometiam benefícios, materiais ou, menos comuns, espirirtuais. Pediam em troca dinheiro, selos, preces - depósitos em fé ou espécie. Quase todas encerravam-se com a ameaça:
Frau Helga, de Munich, quebrou a corrente e perdeu todo o dinheiro aplicado na poupança. Mariazinha Silva, de Belém do Pará, quebrou a perna. Bob Wilson, do Texas, rasgou a carta e no mesmo dia a esposa o abandonou. Então resgatou a mesma e a reenviou para 55 pessoas e no dia seguinte a esposa voltou trazendo 1 milhão de dólares. Assim por diante.
O destinatário deveria copiar e remeter a referida carta para a quantidade de pessoas nela especificadas e, na calada da noite ou à primeiras luzes do alvorecer, enfiava cada uma das cópias nas caixas de correio ou pelas frestas das portas das casas da vizinhança. Depois era só aguardar a benesse, a vantagem ou o milagre prometido.
Passado o período pré-histórico das cartas manuscritas e depois xerocadas, veio a moda das correntes por e-mail. Teve uma época em que as caixas postais eletrônicas ficavam abarrotadas delas. Modernizadas e potencializadas e disseminadas ao extremo, porém totalmente estagnadas no que se refere ao estilo: as mesmas explicações, ameaças, exemplos, apelos e ordens.
Agora a novidade: corrente via celular.
...
Insone madrugada afora, resolvi analisar a mensagem.
Ao invés daquelas intervenções épicas (oceanos se abrindo, vozes estereofônicas vindas das nuvens, relâmpagos, ventanias ou eclipses) ele optou pela simplicidade da modernidade, utilizando-se de uma ferramenta tecnológica tão banal e eficaz quanto o messenger. Criatividade celestial.
1. Apesar da qualidade questionável, o texto criado pelo publicitário dono da conta Divina atingiu os objetivos: ser extremamente pessoal abrangendo ao mesmo tempo o máximo de ovelhas desgarradas do rebanho. (Se não fosse a possibilidade dos dois gêneros na palavra testado(a), eu juraria que a mensagem era exclusiva).
2. Se a mensagem foi digitada sem a ajuda do publicitário, ele se esqueceu de ativar o corretor automático.
3. Ou então estava com muita pressa para não se demorar nos acentos, nas cedilhas e nas concordâncias. Pressa justificável para quem construiu o universo em 6 dias.
4. Ou então, ainda e mais plausível, não era obrigado a conhecer a fundo o português, uma língua tão complicada e não tão sagrada quanto o hebraico (sua língua original) nem tão universal quanto o inglês.
5. O provável dedo do provável publicitário, atualizando e adaptando a velha mensagem (a mesma desde o tempo em que a serpente ofereceu o fruto proibido a Eva) à informalidade das síncopes utilizadas pelos usuários das redes sociais: vc, pq, msg.
...
Empaquei. Ou caí no peguinha preparado por ele. Afinal, quais os 2 erros eu elegeria para serem corrigidos, dentre os tantos grandes erros cometidos em mais de meio século de existência?
...
Por fim rascunhei a resposta:
Prezado Deus,
Espero não magoá-lo por não levar a diante vossa corrente. Por 3 motivos: primeiro, por não ter suficientes amigos íntimos quanto os exigidos para apontar-lhes os erros e assim disseminar e tornar eficaz a vossa campanha publicitária. Segundo por não conseguir decidir quais seriam os dois, dentre os tantos erros pelos quais vós corrigiríeis. Por último, sem ser desrespeitoso, por eu ser daqueles pessimistas negativistas agnósticos que não acreditam em destino e muito menos na possibilidade de sua mudança. E que, apesar do apego ferrenho à vida, apregoa que viver é o nosso maior erro.
PS.: se achar que vale a pena posso vos indicar um excelente e barateiro revisor ortográfico-gramatical-estilístico.
...
Mandei? óbvio que não. E se ele não entendesse o gracejo? se considerasse blasfêmia essa postagem? se se enfurecesse a ponto de bloquear o sinal ou clonar meu celular, por exemplo, enviando à revelia, a mensagem para todos os meus centos de contatos?
Ou atirasse um raio para rachar minha soberba ao meio?
...
(O castigo veio. Não como raio, vírus virtual, bloqueio de sinal. Veio na forma da crise criativa que se estende desde o dia em que rascunhei a resposta à interpelação divina até sabe-se lá quando - crise de tal proporção que me obriga a publicar este texto ruinzinho só para não deixar os preciosos 4 seguidores do blog abandonarem-no, deixando-o morrer à míngua).
quarta-feira, 21 de maio de 2014
história de verão insular 3
Era a tua última semana e você já se sentia seguro para voltar para o hotel no último ônibus, o da meia-noite. O ônibus estava cheio e você não contava com isso.
Você estava exausto após 10 horas de caminhadas em lugares e vistas exóticas e exuberantes e alguns gins-tônica durante o jantar. Você estava distraído, isolado pela música alta dos fones de ouvido. Você colocou a mochila no chão, entre as pernas, para não atrapalhar as pessoas.
Você sentiu que alguém parou ao seu lado e segurou a barra de apoio e encostou de leve a mão na tua mão. Você afastou a mão alguns milímetros. O ônibus sacolejou na curva e a mão alheia voltou a encostar na tua. A mão era fina e delicada mas indubitavelmente uma mão de homem.
Você voltou um pouco a cabeça na direção mas não conseguiu ver muita coisa. Você tinha tirado as férias para esquecer o passado amoroso recente e ainda não estava preparado, não estava a fim de aventuras aleatórias. Você retirou a mão da barra e segurou a correia individual que pendia da barra presa ao teto. A mão fina e delicada pegou a correia mais próxima e a fez deslizar até encostar de novo na tua mão.
Você se voltou inteiro para olhar de frente o dono da mão. Deparou-se com o rosto mais lindo e angelical e viril ao mesmo tempo de toda a tua estadia. Cílios longos, sobrancelhas negras e espessas, barba por fazer e uma boquita vermelha capaz de te tirar qualquer um do sério, de arrancar pela raiz a tua intenção das férias interiorizadas e celibatárias.
Você relaxou a postura. Deixou a mão junto da mão fina e delicada. Sentiu o dedo mindinho da mão fina e delicada acariciar delicadamente o teu dedo mindinho carente segurando a correia de apoio do ônibus. Sentiu outra mão roçando muito de leve, quase sem encostar, as tuas costas, naquele lugar sensível à altura da lombar.
Fechou os olhos imaginando um futuro de areias cor-de-rosa, ondas verde-esmeralda e nuvens de algodão flutuando no límpido céu azul-bebê. Nos braços, é óbvio, do dono das mãos ousadas.
Você abriu os olhos pouco antes da parada em frente ao hotel. Você se perguntou: Será que foi um sonho?
Não havia mais mão, nem dono da mão, nem ninguém parecido por perto. Também não havia a mochila entre os seus pés nem o passaporte, o cartão de passe e a carteira com muitos dólares e o bilhete do voo de volta, para dali a 2 dias, no bolso de trás da calça.
Você estava exausto após 10 horas de caminhadas em lugares e vistas exóticas e exuberantes e alguns gins-tônica durante o jantar. Você estava distraído, isolado pela música alta dos fones de ouvido. Você colocou a mochila no chão, entre as pernas, para não atrapalhar as pessoas.
Você sentiu que alguém parou ao seu lado e segurou a barra de apoio e encostou de leve a mão na tua mão. Você afastou a mão alguns milímetros. O ônibus sacolejou na curva e a mão alheia voltou a encostar na tua. A mão era fina e delicada mas indubitavelmente uma mão de homem.
Você voltou um pouco a cabeça na direção mas não conseguiu ver muita coisa. Você tinha tirado as férias para esquecer o passado amoroso recente e ainda não estava preparado, não estava a fim de aventuras aleatórias. Você retirou a mão da barra e segurou a correia individual que pendia da barra presa ao teto. A mão fina e delicada pegou a correia mais próxima e a fez deslizar até encostar de novo na tua mão.
Você se voltou inteiro para olhar de frente o dono da mão. Deparou-se com o rosto mais lindo e angelical e viril ao mesmo tempo de toda a tua estadia. Cílios longos, sobrancelhas negras e espessas, barba por fazer e uma boquita vermelha capaz de te tirar qualquer um do sério, de arrancar pela raiz a tua intenção das férias interiorizadas e celibatárias.
Você relaxou a postura. Deixou a mão junto da mão fina e delicada. Sentiu o dedo mindinho da mão fina e delicada acariciar delicadamente o teu dedo mindinho carente segurando a correia de apoio do ônibus. Sentiu outra mão roçando muito de leve, quase sem encostar, as tuas costas, naquele lugar sensível à altura da lombar.
Fechou os olhos imaginando um futuro de areias cor-de-rosa, ondas verde-esmeralda e nuvens de algodão flutuando no límpido céu azul-bebê. Nos braços, é óbvio, do dono das mãos ousadas.
Você abriu os olhos pouco antes da parada em frente ao hotel. Você se perguntou: Será que foi um sonho?
Não havia mais mão, nem dono da mão, nem ninguém parecido por perto. Também não havia a mochila entre os seus pés nem o passaporte, o cartão de passe e a carteira com muitos dólares e o bilhete do voo de volta, para dali a 2 dias, no bolso de trás da calça.
história de verão insular 2
Ventava um pouco mas o sol da manhã te aquecia a pele. Você deixou
partir o barco anterior só para ser o primeiro da fila do próximo e
escolher a melhor cadeira do convés, no andar superior, para
fotografar o mar azul turquesa durante a travessia do canal.
Você preparou a máquina fotográfica mas se distraiu admirando a paisagem: um bloco de rocha corroída da altura de um edifício de muitos andares emergindo do mar, gaivotas sobrevoando, ao fundo o cone do vulcão extinto e alguma neblina.
O rapaz vestido com jeans justos e casaco de couro e óculos rayban que você tinha notado no cais subiu a escada. Posicionou-se de pé, em frente às cadeiras ocupadas pelos passageiros, te obstruindo a visão.
O rapaz passava displicentemente a mão na região do baixo ventre. Como se o gesto fosse involuntário. Quem sabe um tique nervoso? Você desviou o olhar. Ligou e desligou a máquina fotográfica esquecida no colo. Pensou mas logo desistiu de se levantar e se encostar na amurada para sair do ângulo de visão do rapaz. Por fim guardou a máquina na mochila.
Você não conseguiu evitar olhar de rabo-de-olho. Constatou que o rapaz estava excitado. Você imaginou que ele tentava manter contato visual com você. Por detrás das lentes verde-escuras dos óculos. Você se constrangeu. Corou como uma virgenzinha.
Apesar de sexo casual não ser o seu propósito marinho matinal você tirou conclusões apressadas. A partir de incertezas. Encarou. Autojustificou-se: "vamos ver onde vai dar".
Sorriu maroto e discreto.
Coincidentemente a luz da cena mudou: uma nuvem encobriu o sol por alguns instantes. Justo o tempo de o rapaz franzir o cenho. Fazer cara de surpresa, aversão e desprezo, nessa sequência. Avançar na tua direção, você imaginou - que ele te fosse cuspir.
Mas ele sorriu e te estendeu o celular e te pediu para tirar uma foto dele, com o rochedo, o mar azul turquesa, as gaivotas e o cume do vulcão oculto pelas nuvens, ao fundo.
Você preparou a máquina fotográfica mas se distraiu admirando a paisagem: um bloco de rocha corroída da altura de um edifício de muitos andares emergindo do mar, gaivotas sobrevoando, ao fundo o cone do vulcão extinto e alguma neblina.
O rapaz vestido com jeans justos e casaco de couro e óculos rayban que você tinha notado no cais subiu a escada. Posicionou-se de pé, em frente às cadeiras ocupadas pelos passageiros, te obstruindo a visão.
O rapaz passava displicentemente a mão na região do baixo ventre. Como se o gesto fosse involuntário. Quem sabe um tique nervoso? Você desviou o olhar. Ligou e desligou a máquina fotográfica esquecida no colo. Pensou mas logo desistiu de se levantar e se encostar na amurada para sair do ângulo de visão do rapaz. Por fim guardou a máquina na mochila.
Você não conseguiu evitar olhar de rabo-de-olho. Constatou que o rapaz estava excitado. Você imaginou que ele tentava manter contato visual com você. Por detrás das lentes verde-escuras dos óculos. Você se constrangeu. Corou como uma virgenzinha.
Apesar de sexo casual não ser o seu propósito marinho matinal você tirou conclusões apressadas. A partir de incertezas. Encarou. Autojustificou-se: "vamos ver onde vai dar".
Sorriu maroto e discreto.
Coincidentemente a luz da cena mudou: uma nuvem encobriu o sol por alguns instantes. Justo o tempo de o rapaz franzir o cenho. Fazer cara de surpresa, aversão e desprezo, nessa sequência. Avançar na tua direção, você imaginou - que ele te fosse cuspir.
Mas ele sorriu e te estendeu o celular e te pediu para tirar uma foto dele, com o rochedo, o mar azul turquesa, as gaivotas e o cume do vulcão oculto pelas nuvens, ao fundo.
história de verão insular 1
Eram 10 horas e você estava sentado sozinho com cara de sono na mesa mais ao fundo da padaria lotada de gente. Levando a xícara à boca com cuidado para não deixar pingar o café-com-leite que a garçonete deixou derramar no pires. E planejar o passeio do dia, o primeiro dia de férias.
A mesa em frente estava ocupada por uma família de também turistas: pai, mãe, 2 filhos. A mãe estava de costas, os filhos um de cada lado da mesa e o pai diante de você, em ângulo impossível de se evitar olhares cruzados.
Você tentava, mas não conseguia parar olhar. Você tentava, mas não conseguia deixar de ouvir: a mãe queria passear de barco. O pai preferia ficar na praia. O casal de filhos jogava em aparelhos de minigame, indiferentes. O pai não disfarçava a irritação diante da proposta da mãe. Que falava incessantemente, como se não necessitasse de interlocutor.
Você tentava não inventar enredos. Tentava não pensar em quanto tempo durariam e como seriam tediosas as férias daquela família.
Ops!, você notou o olhar fixo do pai em você. Bem dentro dos teus olhos. Você se desconcertou. Desviou o olhar pelas outras mesas, pelo balcão de vidro, pela garçonete, pela recorte da rua emoldurado pela porta. Você cogitou: o olhar do pai estaria pedindo cumplicidade? Você olhou de novo para ter certeza. Franziu suave a testa, e quase sorriu, simpático, como se dissesse: "o que eu posso fazer?"
Você demorou a perceber: o pai passava carinhosamente o dedo na borda interna da xícara e a ponta da língua nos cantos da boca enquanto te devorava com o olhar.
A mesa em frente estava ocupada por uma família de também turistas: pai, mãe, 2 filhos. A mãe estava de costas, os filhos um de cada lado da mesa e o pai diante de você, em ângulo impossível de se evitar olhares cruzados.
Você tentava, mas não conseguia parar olhar. Você tentava, mas não conseguia deixar de ouvir: a mãe queria passear de barco. O pai preferia ficar na praia. O casal de filhos jogava em aparelhos de minigame, indiferentes. O pai não disfarçava a irritação diante da proposta da mãe. Que falava incessantemente, como se não necessitasse de interlocutor.
Você tentava não inventar enredos. Tentava não pensar em quanto tempo durariam e como seriam tediosas as férias daquela família.
Ops!, você notou o olhar fixo do pai em você. Bem dentro dos teus olhos. Você se desconcertou. Desviou o olhar pelas outras mesas, pelo balcão de vidro, pela garçonete, pela recorte da rua emoldurado pela porta. Você cogitou: o olhar do pai estaria pedindo cumplicidade? Você olhou de novo para ter certeza. Franziu suave a testa, e quase sorriu, simpático, como se dissesse: "o que eu posso fazer?"
Você demorou a perceber: o pai passava carinhosamente o dedo na borda interna da xícara e a ponta da língua nos cantos da boca enquanto te devorava com o olhar.
segunda-feira, 31 de março de 2014
homens ilustres - fábio máximo
Outro dia levei uma bronca de um Leitor pela falta de rigor histórico no resumo da vida de Péricles (leia aqui). O Leitor indignado, além de descendente direto dos heróis, deuses, filósofos e matemáticos gregos, ainda era profundo conhecedor dos fatos que eu manhosamente distorci.
Justifiquei. Dei o braço a torcer. Para falar de temas árduos e empoeirados e ainda manter a multidão dos 4 leitores-seguidores do blog, a estratégia é fazer fofoca. Fofoca sobre gente famosa (mesmo que mortos há mais de 2 mil anos) rende mais popularidade do que os grandes feitos desses ilustres. Agô, Ibrahim Sued.
Assim, com o perdão do helênico Leitor amigo, prossigo a tarefa de resenhar Plutarco. Hoje para falar de Fábio Máximo, o biografado paralelo a Péricles.
...
A árvore genealógica dos Fabianos é extensa e mitológica (dizem que o primeiro Fábio foi gerado pelo semideus Hércules no ventre de uma ninfa, à beira do rio Tibre).
Os antepassados de Fábio eram conhecidos por um nome não tão chique: Fodianos. A wikipédia explica, com uma pitada de malícia:
[...] pois eles [os Fodianos] capturavam animais selvagens em buracos-armadilhas; à época de Plutarco, a palavra latina fossae significava fossa, e o verbo fodere significava cavar; com o tempo, por uma troca de letras, a família passou a se chamar Fabii.
Como brinde do texto, uma nota de rodapé:
O verbo em latim fodere não deve ser confundido com o latim vultar futuere, que deu origem ao verbo em português foder; alguns analistas, porém, consideram que fodere e futere eram o mesmo verbo.
Como diria a amiga traveca: aff!
...
Antes de ter recebido o apelido de Máximo, por seus grandes feitos, na adolescência Fábio ficou conhecido pelos colegas como Fábio Rulo (não me perguntem a razão); na juventude ele foi Fábio Verrugoso, por causa de um sinal semelhante a uma pequena verruga que lhe apareceu nos lábios. Mas talvez o apelido mais difícil dele conviver tenha sido Fábio Ovícula (= ovelhazinha).
Plutarco faz questão de enumerar os motivos da pecha):
- doçura excessiva, lentidão e peso do modo de Fábio agir desde a infância;
- natureza lenta, tranquila e repousada, atitude taciturna;
- ter sido visto poucas vezes brincando nos jogos infantis;
- ser duro de entendimento, tendo dificuldade em compreender o que lhe ensinavam;
- excessiva obediência a todos com quem andava.
Porém as aparências enganaram. Vistos de perto, a aparente tolice era uma gravidade inalterável; a timidez era prudência; o fato de não ser precipitado e inquieto era firmeza e constância. Ou seja, a renca de defeitos escondia a natureza imutável e a magnanimidade de leão - o futuro mais que promissor do garoto.
...
Apesar dos grandes feitos e inúmeras batalhas vencidas, com os deuses intervindo a favor dos romanos, e de ter sido eleito Cônsul por 5 vezes, a sessão "fofoca" na vida de Fábio Máximo encerra-se logo no início. Depois do capítulo V, estendem-se 54 capítulos entediantes descrevendo escaramuças de guerra e negociatas políticas.
...
Vale a pena descrever uma cena terrível, estratagema bélico em uma batalha entre cartagineses e romanos, nas famosas Guerras Púnicas:
O exército comandado pelo general cartaginês Aníbal tinha sido sitiado pelos romanos. Aníbal então determinou que fossem escolhidos 2 mil bois, dentre os capturados nas pilhagens, e fez amarrarem-lhes nos chifres tochas fabricadas com ramos de salgueiro e videiras secos. Quando veio a noite, Aníbal ordenou aos soldados que pusessem fogo aos feixes e tocassem os bois na direção dos romanos. Enquanto o fogo na cabeça dos bois era fraco, eles caminhavam calmamente pela encosta das montanhas. Porém quando os chifres foram queimados até a raiz e o fogo penetrou a carne viva, os bois começaram a debater-se e a sacudir as cabeças, espalhando entre si o fogo, cada vez mais. Movidos pela dor e pelo terror, começaram a correr de um lado para o outro, ateando fogo a tudo onde passavam.
De longe e no escuro, os sentinelas romanos pensaram serem os soldados inimigos avançando com archotes para cercá-los por todos os lados. Debandaram apavorados, deixando o caminho livre para o exército cartaginês que, aproveitando a confusão e a escuridão, avançou em linha reta para o acampamento romano, ganhando assim a batalha.
...
Com isso, Fábio foi destituído do cargo pelo povo romano que, como já se viu antes, era volúvel. Um dia amava seus dirigentes, no outro o condenava. Mas quando a situação ficou preta de novo, o povo mandou chamar e reempossou Fábio; novamente o destituiu; assim, sucessivamente, por 5 vezes.
Depois da quinta demissão e da perda dos bens (dessa vez tinha sido condenado pelos senadores), Fábio seguiu para o exílio. Contraiu uma doença e morreu antes de ver o fim da guerra e a derrota de Aníbal. O povo romano (sempre do contra) reconheceu o heroísmo do biografado. Cada cidadão contribuiu com uma menor moeda existente, para render uma enorme homenagem à sua vida e virtude.
Justifiquei. Dei o braço a torcer. Para falar de temas árduos e empoeirados e ainda manter a multidão dos 4 leitores-seguidores do blog, a estratégia é fazer fofoca. Fofoca sobre gente famosa (mesmo que mortos há mais de 2 mil anos) rende mais popularidade do que os grandes feitos desses ilustres. Agô, Ibrahim Sued.
Assim, com o perdão do helênico Leitor amigo, prossigo a tarefa de resenhar Plutarco. Hoje para falar de Fábio Máximo, o biografado paralelo a Péricles.
...
A árvore genealógica dos Fabianos é extensa e mitológica (dizem que o primeiro Fábio foi gerado pelo semideus Hércules no ventre de uma ninfa, à beira do rio Tibre).
Os antepassados de Fábio eram conhecidos por um nome não tão chique: Fodianos. A wikipédia explica, com uma pitada de malícia:
[...] pois eles [os Fodianos] capturavam animais selvagens em buracos-armadilhas; à época de Plutarco, a palavra latina fossae significava fossa, e o verbo fodere significava cavar; com o tempo, por uma troca de letras, a família passou a se chamar Fabii.
Como brinde do texto, uma nota de rodapé:
O verbo em latim fodere não deve ser confundido com o latim vultar futuere, que deu origem ao verbo em português foder; alguns analistas, porém, consideram que fodere e futere eram o mesmo verbo.
Como diria a amiga traveca: aff!
...
Antes de ter recebido o apelido de Máximo, por seus grandes feitos, na adolescência Fábio ficou conhecido pelos colegas como Fábio Rulo (não me perguntem a razão); na juventude ele foi Fábio Verrugoso, por causa de um sinal semelhante a uma pequena verruga que lhe apareceu nos lábios. Mas talvez o apelido mais difícil dele conviver tenha sido Fábio Ovícula (= ovelhazinha).
Plutarco faz questão de enumerar os motivos da pecha):
- doçura excessiva, lentidão e peso do modo de Fábio agir desde a infância;
- natureza lenta, tranquila e repousada, atitude taciturna;
- ter sido visto poucas vezes brincando nos jogos infantis;
- ser duro de entendimento, tendo dificuldade em compreender o que lhe ensinavam;
- excessiva obediência a todos com quem andava.
Porém as aparências enganaram. Vistos de perto, a aparente tolice era uma gravidade inalterável; a timidez era prudência; o fato de não ser precipitado e inquieto era firmeza e constância. Ou seja, a renca de defeitos escondia a natureza imutável e a magnanimidade de leão - o futuro mais que promissor do garoto.
...
Apesar dos grandes feitos e inúmeras batalhas vencidas, com os deuses intervindo a favor dos romanos, e de ter sido eleito Cônsul por 5 vezes, a sessão "fofoca" na vida de Fábio Máximo encerra-se logo no início. Depois do capítulo V, estendem-se 54 capítulos entediantes descrevendo escaramuças de guerra e negociatas políticas.
...
Vale a pena descrever uma cena terrível, estratagema bélico em uma batalha entre cartagineses e romanos, nas famosas Guerras Púnicas:
O exército comandado pelo general cartaginês Aníbal tinha sido sitiado pelos romanos. Aníbal então determinou que fossem escolhidos 2 mil bois, dentre os capturados nas pilhagens, e fez amarrarem-lhes nos chifres tochas fabricadas com ramos de salgueiro e videiras secos. Quando veio a noite, Aníbal ordenou aos soldados que pusessem fogo aos feixes e tocassem os bois na direção dos romanos. Enquanto o fogo na cabeça dos bois era fraco, eles caminhavam calmamente pela encosta das montanhas. Porém quando os chifres foram queimados até a raiz e o fogo penetrou a carne viva, os bois começaram a debater-se e a sacudir as cabeças, espalhando entre si o fogo, cada vez mais. Movidos pela dor e pelo terror, começaram a correr de um lado para o outro, ateando fogo a tudo onde passavam.
De longe e no escuro, os sentinelas romanos pensaram serem os soldados inimigos avançando com archotes para cercá-los por todos os lados. Debandaram apavorados, deixando o caminho livre para o exército cartaginês que, aproveitando a confusão e a escuridão, avançou em linha reta para o acampamento romano, ganhando assim a batalha.
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Com isso, Fábio foi destituído do cargo pelo povo romano que, como já se viu antes, era volúvel. Um dia amava seus dirigentes, no outro o condenava. Mas quando a situação ficou preta de novo, o povo mandou chamar e reempossou Fábio; novamente o destituiu; assim, sucessivamente, por 5 vezes.
Depois da quinta demissão e da perda dos bens (dessa vez tinha sido condenado pelos senadores), Fábio seguiu para o exílio. Contraiu uma doença e morreu antes de ver o fim da guerra e a derrota de Aníbal. O povo romano (sempre do contra) reconheceu o heroísmo do biografado. Cada cidadão contribuiu com uma menor moeda existente, para render uma enorme homenagem à sua vida e virtude.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
das estrelas
sirius. canopus. canis. eu nunca saberei onde se escondem onde se formam as tuas constelações na noite pontilhada de estrelas.
...
o teu corpo coberto de galáxias no centro do oco de dentro. que se expande até a garganta & que me veda a voz. o pesadelo do teu corpo estrela. antares. pictor. procion. o teu corpo estendido dentro do meu escuro.
o teu corpo deitado sobre a lâmina branca da lua crescente.
...
cancer serpens ursa hydra lupus centaurus eu te cavalgo. o teu corpo-bicho. corpo-equus, as tuas ancas cravejadas de estrelas. no oco no escuro no dentro dos meus dentros.
...
o vazio que se expande no teu no meu corpo-cúpula.
...
o teu corpo coberto de galáxias no centro do oco de dentro. que se expande até a garganta & que me veda a voz. o pesadelo do teu corpo estrela. antares. pictor. procion. o teu corpo estendido dentro do meu escuro.
o teu corpo deitado sobre a lâmina branca da lua crescente.
...
cancer serpens ursa hydra lupus centaurus eu te cavalgo. o teu corpo-bicho. corpo-equus, as tuas ancas cravejadas de estrelas. no oco no escuro no dentro dos meus dentros.
...
o vazio que se expande no teu no meu corpo-cúpula.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
abolerado
Na véspera havia a possibilidade. Eu me esmerei em salamaleques, nobreza, generosidade e solicitude inúteis. Pois que tudo isso revelava, ao invés de encobrir as verdadeiras intenções:
meu coração era uma flor carnívora (ou, se existisse) um grande fruto úmido, escancarado, exsudando aquele líquido viscoso, aquele cheiro inebriante e pestilento e intenso de paixão, de desejo, de tesão, de amor mesmo. Mil tentáculos-pistilos prontos para envolver & te abraçar, para engolir o corpo-ave, o corpo-coleóptero, o corpo-carne suado que era o teu, que eu via estendido, que eu desejava e me desesperava por tocar sem tocar, por não possuir, por saber ser interdito, mesmo antes, para sempre.
Depois, a possibilidade que havia deu lugar ao vazio, ao silêncio & à solidão. Tratei de encharcar o vazio de dentro da flor-fruto morta com vinho. De ressecar os pruridos com cinzas & tocos de cigarro do cinzeiro. De preencher o silêncio com poemas lidos à meia voz pastosa & arrastada & antipática. De ocupar a solidão trocando a água dos vasos, conversando com as fotografias dos porta-retratos, pulverizando inseticida, esfregando óleo de peroba no verniz velho das cadeiras, rabiscando o teu nome & o teu falo & os dias que nunca mais virão na parede de gesso & limo da prisão da tua ausência.
Restou um gozo choco. Povoado de fantasmas com rostos & corpos misturados, o teu inclusive, indistinguível, projetados no teto. E uma nódoa fosforescente, em forma de caveira ou coração, no meio do lençol.
...
O alvorecer foi melancólico. Por causa da noite mal dormida, do calor de verão, da brisa morna do céu muito azul e sem nuvens avistado pela fresta da janela. Aquela vontade de permanecer imóvel, olhos fechados, o corpo lasso e suarento resistindo ao contato desagradável do lençol. Um morto-vivo esperando uma bala de prata no peito, uma estaca fincada no coração, um copo de cicuta com coca-cola corroendo as entranhas - ou uma simples chamada telefônica (a cobrar, que fosse) para me restituir a existência.
meu coração era uma flor carnívora (ou, se existisse) um grande fruto úmido, escancarado, exsudando aquele líquido viscoso, aquele cheiro inebriante e pestilento e intenso de paixão, de desejo, de tesão, de amor mesmo. Mil tentáculos-pistilos prontos para envolver & te abraçar, para engolir o corpo-ave, o corpo-coleóptero, o corpo-carne suado que era o teu, que eu via estendido, que eu desejava e me desesperava por tocar sem tocar, por não possuir, por saber ser interdito, mesmo antes, para sempre.
Depois, a possibilidade que havia deu lugar ao vazio, ao silêncio & à solidão. Tratei de encharcar o vazio de dentro da flor-fruto morta com vinho. De ressecar os pruridos com cinzas & tocos de cigarro do cinzeiro. De preencher o silêncio com poemas lidos à meia voz pastosa & arrastada & antipática. De ocupar a solidão trocando a água dos vasos, conversando com as fotografias dos porta-retratos, pulverizando inseticida, esfregando óleo de peroba no verniz velho das cadeiras, rabiscando o teu nome & o teu falo & os dias que nunca mais virão na parede de gesso & limo da prisão da tua ausência.
Restou um gozo choco. Povoado de fantasmas com rostos & corpos misturados, o teu inclusive, indistinguível, projetados no teto. E uma nódoa fosforescente, em forma de caveira ou coração, no meio do lençol.
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O alvorecer foi melancólico. Por causa da noite mal dormida, do calor de verão, da brisa morna do céu muito azul e sem nuvens avistado pela fresta da janela. Aquela vontade de permanecer imóvel, olhos fechados, o corpo lasso e suarento resistindo ao contato desagradável do lençol. Um morto-vivo esperando uma bala de prata no peito, uma estaca fincada no coração, um copo de cicuta com coca-cola corroendo as entranhas - ou uma simples chamada telefônica (a cobrar, que fosse) para me restituir a existência.
sábado, 2 de novembro de 2013
(2 trechos para sempre perdidos)
...
Paralelo ao reinado das mulheres na cozinha havia o desgoverno das crianças e do cachorro, desde muito cedo até bem tarde da noite, em todas as partes da casa (só nos era proibido o quarto dos pais), no jardim, entre as galinhas, com os pombos, o cabrito no quintal, a leitoa no chiqueiro improvisado, em volta dos pés de tangerina, na goiabeira, a gameleira em frente ao portão, no muro alto dos fundos ou na mureta baixa da rua, nas casas dos vizinhos.
...
Livres da escola, dos cadernos e dos livros, éramos completamente soltos. Comíamos aos grupos, depois das mães, tias, agregadas se esgoelarem de tanto nos chamar. Havia tombos, machucados, brigas, amores secretos e até segurar, fortuito, a mão da prima ou do primo. Havia dois tonéis de metal, quase da nossa altura (acho que eram usados como reservatórios de combustível), cheios de água, onde, em fila, tomávamos banho. Dormíamos todos em colchões espalhados pela sala, os meninos e meninas da roça, os primos e primas maiores e os menores, os irmãos e os amigos que se juntavam à festa.
...
Paralelo ao reinado das mulheres na cozinha havia o desgoverno das crianças e do cachorro, desde muito cedo até bem tarde da noite, em todas as partes da casa (só nos era proibido o quarto dos pais), no jardim, entre as galinhas, com os pombos, o cabrito no quintal, a leitoa no chiqueiro improvisado, em volta dos pés de tangerina, na goiabeira, a gameleira em frente ao portão, no muro alto dos fundos ou na mureta baixa da rua, nas casas dos vizinhos.
...
Livres da escola, dos cadernos e dos livros, éramos completamente soltos. Comíamos aos grupos, depois das mães, tias, agregadas se esgoelarem de tanto nos chamar. Havia tombos, machucados, brigas, amores secretos e até segurar, fortuito, a mão da prima ou do primo. Havia dois tonéis de metal, quase da nossa altura (acho que eram usados como reservatórios de combustível), cheios de água, onde, em fila, tomávamos banho. Dormíamos todos em colchões espalhados pela sala, os meninos e meninas da roça, os primos e primas maiores e os menores, os irmãos e os amigos que se juntavam à festa.
...
sábado, 26 de outubro de 2013
resmungos do velho implicante
Não sou o que se pode chamar engajado em termos de políticas ambientais. Faço a minha parte - o básico: sou contra o desmatamento, a favor da proteção dos lençóis hídricos, separo o lixo orgânico do seco, fecho a torneira enquanto me ensaboo no banho ou escovo os dentes, não deixo luz acesa sem necessidade, escolho eletrodomésticos que consomem menos energia elétrica, etc.
É chato constatar, mas sou do time dos desesperançados com a humanidade consumista e imediatista. Ou seja, acho que as coisas só vão piorar para os nossos filhos, netos, descendência em geral. Vale citar o pensamento de uma amiga também desesperançada: é muita pretensão humana acreditar que temos o poder de destruir o planeta. Nós somos insignificantes perante a Natureza (com Maiúscula) - que se adapta e mais cedo ou mais tarde nos fará desaparecer para sempre - como a dona-de-casa acaba, por exemplo, com um formigueiro debaixo da pia.
Bem, o pessimismo não é à toa. Hoje, durante as 2 horas que permaneci no clube (frequentado por gente esclarecida, politizada, com acesso à informação, bom poder aquisitivo) onde nado, ocorreram 4 situações críticas:
1.
Na entrada da piscina tem o lava-pés. Vigiado pelo salva-vidas. O lava-pés estava tão cheio que transbordava. E o encanamento continuava jorrando. O salva-vidas nem aí, teclando no celular. Não encontrei o registro para eu mesmo fechá-lo. Então me atrevi: você pode fechar o registro? parece que já encheu faz tempo. Ele me olhou com a pior cara. Puro desdém. Pensei que não tinha entendido. Mudei o enfoque: a água está transbordando. Você pode me dizer onde é o registro? Ele voltou à telinha. Grunhiu algo que eu entendi como: isso é da sua conta, velho chato? quando eu me desocupar eu fecho.
2.
No vestiário dos tenistas tem uns chuveiros bons, ducha forte, água farta. Perfeito para relaxar depois do treino. Eu cheguei, tinha um tenista tomando banho. Urinei, guardei na bolsa os apetrechos da natação, separei o xampu, o sabonete, os cremes, a toalha, tirei e torci a sunga, entrei no box e o tenista continuava no banho. Olhei, sem segundas intenções. O cara estava se alongando. Muito devagar, como deve ser. Só que debaixo do chuveiro. Deixando a água (quente e abundante) correr sobre as costas, os ombros, o corpo. Terminei o banho e o cara alongava os braços e a água ainda corria. Me enxuguei, passei hidratante, desodorante, penteei os cabelos, vesti a roupa, assoei o nariz e o tenista lá, sob a cachoeira particular. Centenas, milhares (?) de litros de água escoando pelo ralo enquanto milhões de seres humanos como ele sobrevivem da água lamacenta de cacimbas ou de esporádicos caminhões-tanque.
3.
Há na parte seca do vestiário 2 ventiladores de parede. Para refrescar os tenistas exaustos e suarentos enquanto trocam de roupa, depois dos jogo. Os rapazes e senhores chegam, a sós, em duplas ou, mais raramente, em trios - e merecidamente ligam os ventiladores no máximo. Refrescam-se enquanto se despem para o banho, conversam animados sobre a partida, os lances, as raquetes, a mulherada. Nem precisa dizer que depois de tudo, vão embora e deixam os ventiladores ligados, ventilando o vazio - ou os espíritos dos espíritos-de-porco que os utilizaram e não se preocuparam em desligá-los. Aí vou eu, o velho ranzinza, dar descanso às hélices e reduzir o gasto da água das hidrelétricas.
4.
Há no clube uma academia, onde costumo malhar depois do treino. Na academia, outro vestiário. Nele há um mictório coletivo. Antigo, daqueles de concreto azulejado, com um cano cheio de furos despejando gotas de água quando se abre a torneira. O que você faria, leitor consciente do sexo masculino, depois de urinar no mictório meio nojento? Abriria a torneira, o tempo de escorrer o xixi pelo ralo e a fecharia em seguida. Não lá. A torneira fica constantemente aberta, no máximo. Os marombeiros urinam, balançam, guardam, abotoam a braguilha, etc, vão embora e deixam a água correr. Outro dia eu falei com a faxineira. Ela explicou. Ficava constantemente aberto por causa do cheiro forte. Pode? O velho chato (eu) vai lá e fecha. Lembrando-se todas as vezes daquela história piegas do beija-flor que carregava no bico uma gota d'água de cada vez para apagar o incêndio da floresta.
Entendeu agora, leitor?
Mesmo desesperançado eu me esforço. Reclamei por e-mail com a diretoria do clube. Se não tomarem providências, eu mesmo imprimirei daqueles avisos chatos, mas necessários - desligue / feche a torneira depois de usar / seja consciente -, colarei os avisos nos azulejos diante do mictório, nos mármores próximos às duchas, aos ventiladores - até que a umidade os apague - torcendo, do âmago do ser, para despertar a consciência de ao menos uma dessas criaturas.
É, estou mesmo ficando cada vez mais gagá.
É chato constatar, mas sou do time dos desesperançados com a humanidade consumista e imediatista. Ou seja, acho que as coisas só vão piorar para os nossos filhos, netos, descendência em geral. Vale citar o pensamento de uma amiga também desesperançada: é muita pretensão humana acreditar que temos o poder de destruir o planeta. Nós somos insignificantes perante a Natureza (com Maiúscula) - que se adapta e mais cedo ou mais tarde nos fará desaparecer para sempre - como a dona-de-casa acaba, por exemplo, com um formigueiro debaixo da pia.
Bem, o pessimismo não é à toa. Hoje, durante as 2 horas que permaneci no clube (frequentado por gente esclarecida, politizada, com acesso à informação, bom poder aquisitivo) onde nado, ocorreram 4 situações críticas:
1.
Na entrada da piscina tem o lava-pés. Vigiado pelo salva-vidas. O lava-pés estava tão cheio que transbordava. E o encanamento continuava jorrando. O salva-vidas nem aí, teclando no celular. Não encontrei o registro para eu mesmo fechá-lo. Então me atrevi: você pode fechar o registro? parece que já encheu faz tempo. Ele me olhou com a pior cara. Puro desdém. Pensei que não tinha entendido. Mudei o enfoque: a água está transbordando. Você pode me dizer onde é o registro? Ele voltou à telinha. Grunhiu algo que eu entendi como: isso é da sua conta, velho chato? quando eu me desocupar eu fecho.
2.
No vestiário dos tenistas tem uns chuveiros bons, ducha forte, água farta. Perfeito para relaxar depois do treino. Eu cheguei, tinha um tenista tomando banho. Urinei, guardei na bolsa os apetrechos da natação, separei o xampu, o sabonete, os cremes, a toalha, tirei e torci a sunga, entrei no box e o tenista continuava no banho. Olhei, sem segundas intenções. O cara estava se alongando. Muito devagar, como deve ser. Só que debaixo do chuveiro. Deixando a água (quente e abundante) correr sobre as costas, os ombros, o corpo. Terminei o banho e o cara alongava os braços e a água ainda corria. Me enxuguei, passei hidratante, desodorante, penteei os cabelos, vesti a roupa, assoei o nariz e o tenista lá, sob a cachoeira particular. Centenas, milhares (?) de litros de água escoando pelo ralo enquanto milhões de seres humanos como ele sobrevivem da água lamacenta de cacimbas ou de esporádicos caminhões-tanque.
3.
Há na parte seca do vestiário 2 ventiladores de parede. Para refrescar os tenistas exaustos e suarentos enquanto trocam de roupa, depois dos jogo. Os rapazes e senhores chegam, a sós, em duplas ou, mais raramente, em trios - e merecidamente ligam os ventiladores no máximo. Refrescam-se enquanto se despem para o banho, conversam animados sobre a partida, os lances, as raquetes, a mulherada. Nem precisa dizer que depois de tudo, vão embora e deixam os ventiladores ligados, ventilando o vazio - ou os espíritos dos espíritos-de-porco que os utilizaram e não se preocuparam em desligá-los. Aí vou eu, o velho ranzinza, dar descanso às hélices e reduzir o gasto da água das hidrelétricas.
4.
Há no clube uma academia, onde costumo malhar depois do treino. Na academia, outro vestiário. Nele há um mictório coletivo. Antigo, daqueles de concreto azulejado, com um cano cheio de furos despejando gotas de água quando se abre a torneira. O que você faria, leitor consciente do sexo masculino, depois de urinar no mictório meio nojento? Abriria a torneira, o tempo de escorrer o xixi pelo ralo e a fecharia em seguida. Não lá. A torneira fica constantemente aberta, no máximo. Os marombeiros urinam, balançam, guardam, abotoam a braguilha, etc, vão embora e deixam a água correr. Outro dia eu falei com a faxineira. Ela explicou. Ficava constantemente aberto por causa do cheiro forte. Pode? O velho chato (eu) vai lá e fecha. Lembrando-se todas as vezes daquela história piegas do beija-flor que carregava no bico uma gota d'água de cada vez para apagar o incêndio da floresta.
Entendeu agora, leitor?
Mesmo desesperançado eu me esforço. Reclamei por e-mail com a diretoria do clube. Se não tomarem providências, eu mesmo imprimirei daqueles avisos chatos, mas necessários - desligue / feche a torneira depois de usar / seja consciente -, colarei os avisos nos azulejos diante do mictório, nos mármores próximos às duchas, aos ventiladores - até que a umidade os apague - torcendo, do âmago do ser, para despertar a consciência de ao menos uma dessas criaturas.
É, estou mesmo ficando cada vez mais gagá.
receita de risoto saturday by night antissocial
Corte em fatias finas 6 tomates secos desidratados mais parecidos com solas de sapato (que você colocou em azeite sem hidratá-los antes). Pique em pedaços pequenos a metade da cebola que resiste firme e forte na geladeira desde o último domingo. Esquarteje em cubos o bacon e em rodelas também finas a pimenta-de-cheiro - surpresa! - que você encontrou no fundo do congelador.
Refogue tudo no azeite da frustrada conserva de tomate-seco desidratado, com uma pitada generosa de orégano e daquela erva em pó mumificada, sem rótulo, que você imagina ser manjericão, sálvia, hortelã, salsa ou, quem sabe, um banho de ervas. Quando o bacon estiver derretido e a cebola bem dourada, capriche no sal, quebre um ovo e mexa sempre. Para não grudar no fundo da panela (e amolecer as tiras de tomate-seco), despeje uma ou duas colheres de sopa de leite.
Enquanto a coisa frita (em fogo baixo), ligue o rádio, de preferência em um programa de blues e jazz. Abra aquele vinho com nome da santa melhor amiga, que você comprou na promoção do supermercado sem saber se era bom, só por causa do preço. (Admita, o vinho é mesmo bom). Volte ao fogão depressa, senão queima.
Quando a gororoba estiver consistente, despeje o arroz que sobrou da última galinhada. Se tiver sorte, pode vir junto um pedaço de frango, porém fique atento aos prováveis ossinhos misturados. Despeje mais leite, mexendo sempre. Torça para não virar sopa.
Retire da panela o mais fumegante possível. Despeje no prato chique, previamente enfeitado com a folha de alface que sobrou do almoço. Polvilhe muito queijo parmesão. Deguste cada garfada. Se for daqueles que posta fotos de comida nas redes sociais, aproveite para tirar uma.
Se sobrar na panela coma até acabar, pois provavelmente estará intragável na próxima refeição e desperdiçar comida é pecado.
Refogue tudo no azeite da frustrada conserva de tomate-seco desidratado, com uma pitada generosa de orégano e daquela erva em pó mumificada, sem rótulo, que você imagina ser manjericão, sálvia, hortelã, salsa ou, quem sabe, um banho de ervas. Quando o bacon estiver derretido e a cebola bem dourada, capriche no sal, quebre um ovo e mexa sempre. Para não grudar no fundo da panela (e amolecer as tiras de tomate-seco), despeje uma ou duas colheres de sopa de leite.
Enquanto a coisa frita (em fogo baixo), ligue o rádio, de preferência em um programa de blues e jazz. Abra aquele vinho com nome da santa melhor amiga, que você comprou na promoção do supermercado sem saber se era bom, só por causa do preço. (Admita, o vinho é mesmo bom). Volte ao fogão depressa, senão queima.
Quando a gororoba estiver consistente, despeje o arroz que sobrou da última galinhada. Se tiver sorte, pode vir junto um pedaço de frango, porém fique atento aos prováveis ossinhos misturados. Despeje mais leite, mexendo sempre. Torça para não virar sopa.
Retire da panela o mais fumegante possível. Despeje no prato chique, previamente enfeitado com a folha de alface que sobrou do almoço. Polvilhe muito queijo parmesão. Deguste cada garfada. Se for daqueles que posta fotos de comida nas redes sociais, aproveite para tirar uma.
Se sobrar na panela coma até acabar, pois provavelmente estará intragável na próxima refeição e desperdiçar comida é pecado.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
deus, a gata, a morte, o pássaro e mais uma sobre o ridículo de existir
Cedo, outro dia, mal abri a porta, a gata escapuliu para o jardim. Voltou com um pássaro vivo na boca. Enfiaram-se debaixo da mesa. Puxei-a pelo rabo. Tirei-lhe o brinquedo. Era mínimo. Asas cinzentas e penugem esverdeada no peito. Unhas delicadíssimas agarradas à pele da minha mão. Mais morto que vivo.
Depositei-o no alto, entre as folhas da trepadeira. Esqueci dele enquanto preparava o café da manhã. Depois de algum tempo voltei para olhá-lo. Ele ainda estava enganchado nas folhas. Mexeu-se ao ser tocado. Pensei: outra criatura salva pelas minhas mãos.
Minutos depois ouvi o farfalhar de asas. O pássaro tinha caído da folhagem. Debatia-se descontrolado no chão. A inevitável luta interna final. Nada a fazer.
Constatei então que participávamos - a gata, o pássaro, eu - de um jogo, no mínimo, estúpido. O pássaro era a vítima. O perdedor irreversível. Morria sem motivo. Talvez por um descuido, vacilo de fração de segundos.
A gata - pretensa vitoriosa - pobre coitada!, estava à mercê do irracional e do mero instinto - para nós, humanos, adjetivado de "assassino". Inocente, a gata regozijava-se com o troféu estrebuchando no chão.
E eu? inteligente? consciente? racional? Mais que testemunha - naquela manhã luminosa de verão (parafraseando Clarice) eu era também juiz. Parcial. Pior: meu papel na brincadeira era o papel do deus onipotente (mas não onisciente) que tanto aprendi a questionar. Um deus pretensioso e babaca.
Por interferir, sem medir consequências, na existência dos seres e das coisas.
Primeiro, simplesmente por criar um felino (exterminador de pássaros). Segundo, como se a dupla tentativa de salvar aquele pássaro minúsculo me redimisse da culpa de sua morte. Ou amenizasse, desculpasse, perdoasse o instinto assassino da gata.
Constatado o irreversível, havia duas opções:
a) Deixar o pássaro agonizar até a morte natural.
b) abreviar com uma pedrada certeira o sofrimento do bicho.
(Caramba, adentrei pelos caminhos insondáveis da metafísica e filosofia).
"A" ou "b" eram únicas opções possíveis. Eram a própria regra do jogo do deus cruel. Regras ridículas. Melhor dizer: falácias.
Escolhi "b". Por compaixão. Sadismo. Covardia. Curiosidade.
A agonia do pássaro era delicada. Só o farfalhar descontrolado das asas contra o cimento.
A gata, saciada, observava de longe.
Eu, deus-canastrão, observava o tédio da gata contraposto ao desespero do pássaro.
Por fim o pássaro morreu. A gata - a mais esperta do jogo - há muito tinha encontrado outro interesse, dentre tantos, no quintal: grilos, folhas secas, lagartixas, besouros - ou a própria sonolência de existir.
Eu - deus ridículo - naquela hora, sem saber, o mais inferior - ali parado, só de cueca, arrotando o café-com-leite, humano, demasiado humano, tirando com a língua os restos de pão grudados nos dentes, vassoura e pá de lixo a postos, diante do minúsculo cadáver do pássaro que obscurecia a luminosidade da manhã. A luz e a alegria de todas as manhãs futuras da minha existência.
Depositei-o no alto, entre as folhas da trepadeira. Esqueci dele enquanto preparava o café da manhã. Depois de algum tempo voltei para olhá-lo. Ele ainda estava enganchado nas folhas. Mexeu-se ao ser tocado. Pensei: outra criatura salva pelas minhas mãos.
Minutos depois ouvi o farfalhar de asas. O pássaro tinha caído da folhagem. Debatia-se descontrolado no chão. A inevitável luta interna final. Nada a fazer.
Constatei então que participávamos - a gata, o pássaro, eu - de um jogo, no mínimo, estúpido. O pássaro era a vítima. O perdedor irreversível. Morria sem motivo. Talvez por um descuido, vacilo de fração de segundos.
A gata - pretensa vitoriosa - pobre coitada!, estava à mercê do irracional e do mero instinto - para nós, humanos, adjetivado de "assassino". Inocente, a gata regozijava-se com o troféu estrebuchando no chão.
E eu? inteligente? consciente? racional? Mais que testemunha - naquela manhã luminosa de verão (parafraseando Clarice) eu era também juiz. Parcial. Pior: meu papel na brincadeira era o papel do deus onipotente (mas não onisciente) que tanto aprendi a questionar. Um deus pretensioso e babaca.
Por interferir, sem medir consequências, na existência dos seres e das coisas.
Primeiro, simplesmente por criar um felino (exterminador de pássaros). Segundo, como se a dupla tentativa de salvar aquele pássaro minúsculo me redimisse da culpa de sua morte. Ou amenizasse, desculpasse, perdoasse o instinto assassino da gata.
Constatado o irreversível, havia duas opções:
a) Deixar o pássaro agonizar até a morte natural.
b) abreviar com uma pedrada certeira o sofrimento do bicho.
(Caramba, adentrei pelos caminhos insondáveis da metafísica e filosofia).
"A" ou "b" eram únicas opções possíveis. Eram a própria regra do jogo do deus cruel. Regras ridículas. Melhor dizer: falácias.
Escolhi "b". Por compaixão. Sadismo. Covardia. Curiosidade.
A agonia do pássaro era delicada. Só o farfalhar descontrolado das asas contra o cimento.
A gata, saciada, observava de longe.
Eu, deus-canastrão, observava o tédio da gata contraposto ao desespero do pássaro.
Por fim o pássaro morreu. A gata - a mais esperta do jogo - há muito tinha encontrado outro interesse, dentre tantos, no quintal: grilos, folhas secas, lagartixas, besouros - ou a própria sonolência de existir.
Eu - deus ridículo - naquela hora, sem saber, o mais inferior - ali parado, só de cueca, arrotando o café-com-leite, humano, demasiado humano, tirando com a língua os restos de pão grudados nos dentes, vassoura e pá de lixo a postos, diante do minúsculo cadáver do pássaro que obscurecia a luminosidade da manhã. A luz e a alegria de todas as manhãs futuras da minha existência.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
piano
Dona Cilene era professora de piano. Clara, óculos grossos, cabelo liso e farto preso em um coque. Esposa do pastor Otávio.
...
Os livros de exercício eram grandes (do tamanho A4) e eram chamados métodos. Havia também as peças musicais com 2 ou 3 páginas impressas em tinta azul-escuro. Mais os cadernos pautados encapados, os gatinhos, cães, pássaros e flores que decalcávamos no topo de cada exercício do método ou ao lado dos títulos das peças. Tudo, inclusive os lápis-de-cor e a pasta de elástico Dona Cilene encomendava de São Paulo.
...
Depois das aulas eu estudava horas seguidas em um piano de brinquedo que pertencia à Fabiane, a filha da vizinha Dona Marli.
...
Aprender piano era uma tarefa árdua. Dona Cilene ensinava também notação musical, solfejo e história da música.
Cada nota tinha uma cor, cada linha da pauta era da cor da nota correspondente. O dó era vermelho; o ré, verde; o mi-amarelo; fá, roxo; sol, laranja; lá, azul-claro; si, marrom.
Breves e semibreves (as notas vazadas) eram preenchidas. Mínimas, semínimas, colcheias, semicolcheias, fusas e semifusas (as notas pretas com hastes) recebiam, cada uma, na parte inferior, um ponto na cor devida. Grande parte do horário da aula era gasto em colorir as notas e as pautas musicais.
Solfejo era outra dificuldade. Especificamente para mim, canhoto e desprovido de coordenação motora. Enquanto cantávamos no tom da nota, marcávamos os ritmos - binário (1-2), terciário (1-2-3) e quaternário (1-2-3-4) - com movimentos da mão/braço direitos cruzando o ar nas 4 direções.
História da música era a parte mais chata. Bach, Berlioz, Brahms, Chopin eram nomes impronunciáveis de seres além da nossa compreensão. Percebendo isso, Dona Cilene falava deles por alto. Para nosso deleite, a certa altura da aula ela desistia do bla-bla-blá. Sentava-se ao piano e exemplificava, tocando trechos das obras de um ou outro.
...
Toquei pela primeira vez em público a peça musical Minha jangada de vela/que o vento pode levar/de dia vento de terra/de noite vento de mar. Só isso mesmo. Foi em um culto especial da igreja do Pastor Otávio. Usei o terno xadrês marrom e uma gravata-borboleta, roupa usada no casamento da Tia Madalena.
Eu, ainda católico (aos 9 anos!), estava terrificado com o pecado de participar do culto da igreja concorrente. E morto de sono. Aquilo era aborrecidíssimo. Tão diferente da missa. Aleluias! e exclamações extáticas vindas da plateia interrompiam o tempo todo a interminável pregação do pastor Otávio.
A apresentação era depois do culto. Nem é preciso dizer que eu errei duas vezes. Travei. Quis desistir. Mas o olhar fuzilante de Dona Cilene por trás da cortina do templo me obrigou a continuar. Terminei debulhado em lágrimas.
...
A segunda e última apresentação foi na televisão. No programa do Titio Darlan, na TV Brasília. Titio Darlan comandava um programa infantil, ao vivo. Fomos nós, os melhores alunos da escola da Dona Cilene, do Gama. Eu tocaria a dificílima A vendedora de flores. Tinha ensaiado dia e noite (no pianinho da Fabiane ou em um teclado de papel, em tamanho natural, que acompanhava um dos métodos).
Quando chegou a minha vez, mal comecei os acordes, Titio Darlan interrompeu o programa para os comerciais.
Foi a primeira pá de cal jogada sobre as minhas pretensões artístico-musicais.
...
A última pá foi logo depois. Com a transferência do Pastor Otávio (que também era missionário) para outra cidade. Foram-se Dona Cilene, os 2 pianos e as cançonetas marteladas nas tardes de canícula. Nunca mais aulas de piano. Nunca mais solfejar, desenhar claves de sol, colorir métodos. Nunca mais os exercícios dos deveres-de-casa.
Para alívio de Dona Marli, ouvidos finalmente libertados dos meus estudos no pianinho estridente da Fabiane.
sábado, 7 de setembro de 2013
diário doente
Pediu um rádio. Não aguentava ouvir os gemidos dos doentes, os barulhos dos
aparelhos, o zumbido da máquina da hemodiálise, as conversinhas atravessadas
das enfermeiras na UTI.
...
Sugeriu ao padre do domingo instalarem autofalantes com música clássica. Para a elevação do espírito e a salvação da alma que sobrevivesse aos tormentos daquele purgatório.
...
Coitadinho, desenganado. Chamassem os familiares. Urrou a noite inteira que o tirassem daquele inferno. Arrancou os tubos, fez um estrago, não deixou a enfermeira dormir. Amanheceu resignado. As mãos amarradas na grade da cama. No relatório o plantonista omitiu a dose tripla de sossega-leão misturada ao soro direto na veia.
...
Reclamou com as visitas: que matavam-no, aos poucos, de fome e de sede. Na cabeceira da cama o coquetel diurético, a vitamina, o iogurte diet e a garrafa de água pela metade.
...
Pediu que o enterrassem com o terno cinza, da formatura. E que cancelassem a galinhada do almoço de aniversário, encomendada um dia antes da internação.
...
Reivindica morte digna. Com água que não seja pela sonda, banho que não seja de gato e o pessoal do teatro para aplaudir o grand finale.
...
Pensamento positivo: sair da UTI a tempo de assistir em casa ao final da novela.
...
Sugeriu ao padre do domingo instalarem autofalantes com música clássica. Para a elevação do espírito e a salvação da alma que sobrevivesse aos tormentos daquele purgatório.
...
Coitadinho, desenganado. Chamassem os familiares. Urrou a noite inteira que o tirassem daquele inferno. Arrancou os tubos, fez um estrago, não deixou a enfermeira dormir. Amanheceu resignado. As mãos amarradas na grade da cama. No relatório o plantonista omitiu a dose tripla de sossega-leão misturada ao soro direto na veia.
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Reclamou com as visitas: que matavam-no, aos poucos, de fome e de sede. Na cabeceira da cama o coquetel diurético, a vitamina, o iogurte diet e a garrafa de água pela metade.
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Pediu que o enterrassem com o terno cinza, da formatura. E que cancelassem a galinhada do almoço de aniversário, encomendada um dia antes da internação.
...
Reivindica morte digna. Com água que não seja pela sonda, banho que não seja de gato e o pessoal do teatro para aplaudir o grand finale.
...
Pensamento positivo: sair da UTI a tempo de assistir em casa ao final da novela.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
luxúria
Suspendeu-se ontem o interdito. Tomei ímpetos e arrulhos, prometi mundos e
fundos, invoquei forças telúricas, aticei a kundalini, desembainhei a lança, encetei em vão a espada na carne da luxúria. Mas mesmo assim hesitei em atravessar os portões do segundo círculo do inferno.
bela adormecida
A princesinha picou-se no fuso envenenado da roca que se encontrava na sala mais isolada do castelo. Desceu escadarias em espiral de três em três degraus. O roçar da seda das saias da princesinha nas paredes de pedra da escadaria deslocou o ar parado e desencadeou uma ventania de coincidências.
A princesinha esbarrou logo em mim e me pediu socorro. Mesmo tendo tanto o que fazer eu sosseguei-lhe o desespero. Eu me fiz todo dela e a conduzi ao salvamento.
Enquanto aguardávamos na antessala da fada-madrinha nós conversávamos. Sobre os amores irreais e irrealizados dela e meus.
Mal eu nomeei, à toa, um que há tempos me tirava do sério, aproximou-se, vindo do fundo do corredor e materializou-se à nossa frente - tão surpreso quanto nós - o antagônico, o complemento, o amante dele.
Uma gargalhada tripla ecoou uníssona pelos paredões do purgatório.
Em 7 segundos a fada-madrinha curou a picada da princesinha. Tirou de mim e devolveu ao amante aquele que me atazanava a alma.
A princesinha esbarrou logo em mim e me pediu socorro. Mesmo tendo tanto o que fazer eu sosseguei-lhe o desespero. Eu me fiz todo dela e a conduzi ao salvamento.
Enquanto aguardávamos na antessala da fada-madrinha nós conversávamos. Sobre os amores irreais e irrealizados dela e meus.
Mal eu nomeei, à toa, um que há tempos me tirava do sério, aproximou-se, vindo do fundo do corredor e materializou-se à nossa frente - tão surpreso quanto nós - o antagônico, o complemento, o amante dele.
Uma gargalhada tripla ecoou uníssona pelos paredões do purgatório.
Em 7 segundos a fada-madrinha curou a picada da princesinha. Tirou de mim e devolveu ao amante aquele que me atazanava a alma.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
balança mas não cai - final
(Na primeira parte foram apresentados os personagens e introduzida a cena, ocorrida em um edifício em bairro nobre de uma cidade litorânea. Na segunda parte descreveu-se uma festa na cobertura desse edifício. A seguir a narrativa desenrola-se até o desfecho. Leia as partes iniciais clicando nos links em vermelho acima).
...
Era o fogo cruzado. Tentarei descrever de forma menos chata possível.
Primeiro foram as cantadas da condessa de Z para com a minha pessoa. (Na verdade a condessa de Z nem queria nada concreto. Era mais para impressionar a dona da casa). Eu fazia questão de negar e recusar categoricamente, em alto e bom tom (querida, eu adooooro você, mas só como amiga).
Frustrada, a condessa passou a atacar Marilu. com piadas cáusticas sobre a falta de grana, o saudosismo das pompas, a ousadia exagerada no decote e nos ajustes da roupa, dúvidas sobre o comparecimento nas obrigações conjugais de Otavinho - enfim - sobre a decadência da elite da cidade de R.
Marilu perdeu as estribeiras. Com o dedo encostado no nariz da condessa de Z, intimou-a a mudar de conversa. Estava exausta e não aturava mais aquela horda de bêbados, desde o começo da tarde até àquela hora da noite. Além disso, que a condessa de Z pagasse os 50 reais devidos desde tempos remotos ou se retirasse dali imediatamente.
Inconsolada por ninguém tomar-lhe as dores e injustiçada pela cobrança pública da dívida, a condessa de Z telefonou para a condessinha. Mal passados 15 minutos chega a condessinha para defender a mãe. Veio acompanhada de um grupo de funkeiros e uma caixa de isopor repleta de cervejas geladérrimas.
A outra frente de combate era comandada por Carmencita. O alvo éramos o amante Claudinho e eu, a celebridade do momento.
O ódio de Carmencita embananou-lhe a razão. Explodiu de ciúmes. Sem se preocupar se o barraco revelava a todos (principalmente a Benzinho) seus amores extraconjugais com Claudinho. Metralhou o bofe de impropérios - que ela nunca tinha imaginado aquilo (impressionante ela não saber que Claudinho era gay); que ele devia dar-se ao respeito, fazer aquelas safadezas (segurar a minha mão?) na frente de gente da laia dele, que ela não era qualquer uma, para ser desfrutada, chupada como uma laranja, até o bagaço e depois jogada fora - etc.
Os olhos do marido-síndico Benzinho arregalavam-se à medida em que compreendia a fala da esposa. Ah, Carmencita... É efeito do álcool... seu fígado é fraquinho, bastam 2 copos pra você perder a noção (Carmencita tinha bebido pelo menos 2 dúzias de copos).
Paulo César era o único com o juízo no lugar. Finérrimo, contemporizava. Mudava de assunto. Pena que de modo cada vez mais desastrado. Por exemplo: achava um absurdo todas aquelas obras de arte importantíssimas para a história da arte brasileira escondidas do grande público, dependuradas nas paredes da cobertura. Ou: que poderia colaborar com Otavinho em trechos árduos da tradução de Hannah Arendt. Ou ainda: Que concordava com a taxa extra astronômica, pois somente assim o condomínio poderia fazer as reformas do salão de jogos.
Piorou quando (equivocado e desnecessário) entrou no tema: o amor que não ousa dizer seu nome. Que concordava com os direitos iguais de pessoas do mesmo sexo, mas casamento na igreja e no papel era demais. Que ele mesmo, nos bons tempos (olhando para Claudinho e eu), gostava de escandalizar a sociedade, mas agora o certo era esse tipo de coisas ficar entre quatro paredes, no recôndito do lar.
Era demais. Ao invés de seguir Claudinho com a desculpa de ver uma Tarsila na sala, eu soltei os bichos para cima de Paulo César. Aquele discurso era incongruente. Ainda mais saído da boca de um intelectual de esquerda. Ele era preconceituoso, burguês elitista decadente. Na verdade ele estava roendo-se de ciúmes. Que o refrão feito em parceria com Chico Buarque era sofrível e que a música era uma das piores do repertório dele. Etc.
...
Quando tudo parecia caminhar para o caos, os amigos da condessinha ligaram Mc Daleste na maior altura: Mais amor, menos recalque / Sai do pé morre pra lá.
Foi a salvação. A música (deixemos de lado as considerações estéticas e sociológicas) era contagiante.
A primeira a entrar na roda foi Marilu. Sabia os passos mais complicados, até aquele de descer rebolando até quase encostar a bundinha no chão. Aos 70 anos!
Claudinho me puxou. Mesmo sem o mínimo jeito eu me deixei levar. Em seguida Benzinho conseguiu arrastar Carmencita para a pista improvisada na varanda.
A condessa de Z, amuada e com o orgulho ferido, sentada sozinha, depois de colocar e tirar a bolsa e o casaco para ir embora umas 3 vezes, cedeu aos encantos do ritmo do morro. Ela, Carmencita e Marilu disputavam com as funkeiras amigas da condessinha requebros e remelexos mais provocantes.
Só Otavinho não se deixou arrebatar. Roncava alto, alheio ao barulho, certamente misturando nos sonhos de Rivotril o gosto duvidoso das letras do funk e os trechos dificílimos e intraduzíveis da filósofa alemã.
...
E a balada rolou na cobertura mais chique da cidade de R até o dia raiar.
...
Era o fogo cruzado. Tentarei descrever de forma menos chata possível.
Primeiro foram as cantadas da condessa de Z para com a minha pessoa. (Na verdade a condessa de Z nem queria nada concreto. Era mais para impressionar a dona da casa). Eu fazia questão de negar e recusar categoricamente, em alto e bom tom (querida, eu adooooro você, mas só como amiga).
Frustrada, a condessa passou a atacar Marilu. com piadas cáusticas sobre a falta de grana, o saudosismo das pompas, a ousadia exagerada no decote e nos ajustes da roupa, dúvidas sobre o comparecimento nas obrigações conjugais de Otavinho - enfim - sobre a decadência da elite da cidade de R.
Marilu perdeu as estribeiras. Com o dedo encostado no nariz da condessa de Z, intimou-a a mudar de conversa. Estava exausta e não aturava mais aquela horda de bêbados, desde o começo da tarde até àquela hora da noite. Além disso, que a condessa de Z pagasse os 50 reais devidos desde tempos remotos ou se retirasse dali imediatamente.
Inconsolada por ninguém tomar-lhe as dores e injustiçada pela cobrança pública da dívida, a condessa de Z telefonou para a condessinha. Mal passados 15 minutos chega a condessinha para defender a mãe. Veio acompanhada de um grupo de funkeiros e uma caixa de isopor repleta de cervejas geladérrimas.
A outra frente de combate era comandada por Carmencita. O alvo éramos o amante Claudinho e eu, a celebridade do momento.
O ódio de Carmencita embananou-lhe a razão. Explodiu de ciúmes. Sem se preocupar se o barraco revelava a todos (principalmente a Benzinho) seus amores extraconjugais com Claudinho. Metralhou o bofe de impropérios - que ela nunca tinha imaginado aquilo (impressionante ela não saber que Claudinho era gay); que ele devia dar-se ao respeito, fazer aquelas safadezas (segurar a minha mão?) na frente de gente da laia dele, que ela não era qualquer uma, para ser desfrutada, chupada como uma laranja, até o bagaço e depois jogada fora - etc.
Os olhos do marido-síndico Benzinho arregalavam-se à medida em que compreendia a fala da esposa. Ah, Carmencita... É efeito do álcool... seu fígado é fraquinho, bastam 2 copos pra você perder a noção (Carmencita tinha bebido pelo menos 2 dúzias de copos).
Paulo César era o único com o juízo no lugar. Finérrimo, contemporizava. Mudava de assunto. Pena que de modo cada vez mais desastrado. Por exemplo: achava um absurdo todas aquelas obras de arte importantíssimas para a história da arte brasileira escondidas do grande público, dependuradas nas paredes da cobertura. Ou: que poderia colaborar com Otavinho em trechos árduos da tradução de Hannah Arendt. Ou ainda: Que concordava com a taxa extra astronômica, pois somente assim o condomínio poderia fazer as reformas do salão de jogos.
Piorou quando (equivocado e desnecessário) entrou no tema: o amor que não ousa dizer seu nome. Que concordava com os direitos iguais de pessoas do mesmo sexo, mas casamento na igreja e no papel era demais. Que ele mesmo, nos bons tempos (olhando para Claudinho e eu), gostava de escandalizar a sociedade, mas agora o certo era esse tipo de coisas ficar entre quatro paredes, no recôndito do lar.
Era demais. Ao invés de seguir Claudinho com a desculpa de ver uma Tarsila na sala, eu soltei os bichos para cima de Paulo César. Aquele discurso era incongruente. Ainda mais saído da boca de um intelectual de esquerda. Ele era preconceituoso, burguês elitista decadente. Na verdade ele estava roendo-se de ciúmes. Que o refrão feito em parceria com Chico Buarque era sofrível e que a música era uma das piores do repertório dele. Etc.
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Quando tudo parecia caminhar para o caos, os amigos da condessinha ligaram Mc Daleste na maior altura: Mais amor, menos recalque / Sai do pé morre pra lá.
Foi a salvação. A música (deixemos de lado as considerações estéticas e sociológicas) era contagiante.
A primeira a entrar na roda foi Marilu. Sabia os passos mais complicados, até aquele de descer rebolando até quase encostar a bundinha no chão. Aos 70 anos!
Claudinho me puxou. Mesmo sem o mínimo jeito eu me deixei levar. Em seguida Benzinho conseguiu arrastar Carmencita para a pista improvisada na varanda.
A condessa de Z, amuada e com o orgulho ferido, sentada sozinha, depois de colocar e tirar a bolsa e o casaco para ir embora umas 3 vezes, cedeu aos encantos do ritmo do morro. Ela, Carmencita e Marilu disputavam com as funkeiras amigas da condessinha requebros e remelexos mais provocantes.
Só Otavinho não se deixou arrebatar. Roncava alto, alheio ao barulho, certamente misturando nos sonhos de Rivotril o gosto duvidoso das letras do funk e os trechos dificílimos e intraduzíveis da filósofa alemã.
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E a balada rolou na cobertura mais chique da cidade de R até o dia raiar.
domingo, 1 de setembro de 2013
balança mas não cai - parte 2
Resumo da parte 1, postada em 05 de agosto (leia aqui):
Eu estava hospedado em casa da condessa de Z, em um edifício chamado Balança mas não cai - em bairro classe-média-alta-decadente, em uma linda cidade litorânea. Fomos convidados para um happy hour na cobertura babilônica do edifício. A cobertura pertencia a Marilu Venegas, filha de um famoso pintor modernista já falecido e casada com um autor e tradutor. Havíamos bebido muitas cervejas durante a tarde no apartamento da condessa de Z e já chegamos bastante calibrados na festinha.
...
Mas não havia mais festa. Ou, melhor, já tinha acontecido. Ou, melhor ainda, tinha sido um brunch iniciado às 13 horas.
Mesmo assim Marilu, depois de um suspiro e de um olhar desesperado para o bando de bêbados à porta, convidou-nos a entrar. Pura cortesia.
Marilu era lourérrima. Plásticas visíveis no rosto e pescoço e muito botox aplicado nas rugas dos seus prováveis setenta anos. Vestia um macacão de piloto de fórmula 1 em couro vermelho muito justo e decotadíssimo.
Apresentou-nos Otavinho, o marido. Que, segundo ela, traduzia um texto inédito de Hannah Arendt.
Enorme de gordo era o Otavinho. Ocupava todos os 4 lugares do sofá da sala. Mergulhado na penumbra. Iluminado apenas pela luz da tevê ligada no Faustão. Deitado estava, deitado Otavinho ficou. Sem nos olhar, emitiu uma espécie de grunhido como cumprimento generalizado.
...
Enquanto Marilu foi até a cozinha para buscar cerveja, a condessa de Z, fofoqueira que era, desmentiu a história da tradução. Otavinho vivia em estado semi-letárgico. Mal articulava uns gemidos além daqueles grunhidos. Passava dia e noite deitado no sofá rabiscando ziguezagues em resmas e resmas de papel A4. Tudo isso provocado pelas doses cavalares de remédios controlados ministrados a bel prazer de Marilu.
...
Sentamo-nos à varanda. Onde já estavam o quadrângulo amoroso formado por Claudinho (o bofe gostosão), Carmencita (a esposa do síndico e amante de Claudinho), Benzinho (o síndico) e Paulo César (a tia velha intelectual podre de rica e amante-patrocinadora de Claudinho).
...
Claudinho ofereceu-se para me mostrar os jardins suspensos da cobertura. Mal saímos do campo de visão das pessoas na varanda - não entrarei em detalhes. Retornarmos meia hora depois - levemente despenteados, amarrotados, riso bobo na cara, sob uma chuva de zombarias e o olhar fuzilante de Carmencita.
...
Eu era uma espécie de celebridade no Balança mas não cai: tinha lançado um livro na mesma livraria onde Clarice Lispector costumava autografar. E conseguido uma minúscula resenha (10 linhas distribuídas em 5 cm2) no caderno 2 do Jornal do Brasil da segunda-feira. Por isso, a Condessa de Z enchia minha bola mais que o merecido, diante de gente tão ilustre como Marilu e de Paulo César que, além de podre de rico, compusera o refrão de uma música com Chico Buarque.
...
Marilu conduzia a conversa. Falava sobre os velhos tempos: quando o pai era vivo; quando era recebida pelo prefeito, cortejada pelo governador, deputados e senadores, até por um vice-presidente americano; quando foi aplaudida de pé no Municipal (não me lembro mais o motivo); etc, etc.
A condessa de Z, a essa altura sob os efeitos de altíssimo grau etílico, todo o tempo atravessava a conversa. Primeiro tentou me promover à sua mais recente conquista amorosa.
Ao perceber que ninguém deu bola (vide a cena anterior, da visita guiada aos jardins suspensos de Babilônia), ela passou a agredir Marilu: tanta pompa antigamente e hoje (pobre Marilu) alimentando-se às custas de salgadinhos de vernissagens e cafezinhos das salas-de-espera dos gabinetes de vereadores. Assim por diante
Enquanto isso, Claudinho segurava minha mão e me fazia cafuné independentemente do olhar furibundo de Carmencita. Que estava a ponto de explodir com a nossa pouca-vergonha.
Para piorar a situação eu, também semi-alcoolizado, falei mal do ChicoBuarque. Critiquei sem piedade logo a música feita em parceria com Paulo César (a tia velha intelectual podre de rica).
Ou seja: o clima social em ebulição e o pandemônio instalado.
(continua)
Eu estava hospedado em casa da condessa de Z, em um edifício chamado Balança mas não cai - em bairro classe-média-alta-decadente, em uma linda cidade litorânea. Fomos convidados para um happy hour na cobertura babilônica do edifício. A cobertura pertencia a Marilu Venegas, filha de um famoso pintor modernista já falecido e casada com um autor e tradutor. Havíamos bebido muitas cervejas durante a tarde no apartamento da condessa de Z e já chegamos bastante calibrados na festinha.
...
Mas não havia mais festa. Ou, melhor, já tinha acontecido. Ou, melhor ainda, tinha sido um brunch iniciado às 13 horas.
Mesmo assim Marilu, depois de um suspiro e de um olhar desesperado para o bando de bêbados à porta, convidou-nos a entrar. Pura cortesia.
Marilu era lourérrima. Plásticas visíveis no rosto e pescoço e muito botox aplicado nas rugas dos seus prováveis setenta anos. Vestia um macacão de piloto de fórmula 1 em couro vermelho muito justo e decotadíssimo.
Apresentou-nos Otavinho, o marido. Que, segundo ela, traduzia um texto inédito de Hannah Arendt.
Enorme de gordo era o Otavinho. Ocupava todos os 4 lugares do sofá da sala. Mergulhado na penumbra. Iluminado apenas pela luz da tevê ligada no Faustão. Deitado estava, deitado Otavinho ficou. Sem nos olhar, emitiu uma espécie de grunhido como cumprimento generalizado.
...
Enquanto Marilu foi até a cozinha para buscar cerveja, a condessa de Z, fofoqueira que era, desmentiu a história da tradução. Otavinho vivia em estado semi-letárgico. Mal articulava uns gemidos além daqueles grunhidos. Passava dia e noite deitado no sofá rabiscando ziguezagues em resmas e resmas de papel A4. Tudo isso provocado pelas doses cavalares de remédios controlados ministrados a bel prazer de Marilu.
...
Sentamo-nos à varanda. Onde já estavam o quadrângulo amoroso formado por Claudinho (o bofe gostosão), Carmencita (a esposa do síndico e amante de Claudinho), Benzinho (o síndico) e Paulo César (a tia velha intelectual podre de rica e amante-patrocinadora de Claudinho).
...
Claudinho ofereceu-se para me mostrar os jardins suspensos da cobertura. Mal saímos do campo de visão das pessoas na varanda - não entrarei em detalhes. Retornarmos meia hora depois - levemente despenteados, amarrotados, riso bobo na cara, sob uma chuva de zombarias e o olhar fuzilante de Carmencita.
...
Eu era uma espécie de celebridade no Balança mas não cai: tinha lançado um livro na mesma livraria onde Clarice Lispector costumava autografar. E conseguido uma minúscula resenha (10 linhas distribuídas em 5 cm2) no caderno 2 do Jornal do Brasil da segunda-feira. Por isso, a Condessa de Z enchia minha bola mais que o merecido, diante de gente tão ilustre como Marilu e de Paulo César que, além de podre de rico, compusera o refrão de uma música com Chico Buarque.
...
Marilu conduzia a conversa. Falava sobre os velhos tempos: quando o pai era vivo; quando era recebida pelo prefeito, cortejada pelo governador, deputados e senadores, até por um vice-presidente americano; quando foi aplaudida de pé no Municipal (não me lembro mais o motivo); etc, etc.
A condessa de Z, a essa altura sob os efeitos de altíssimo grau etílico, todo o tempo atravessava a conversa. Primeiro tentou me promover à sua mais recente conquista amorosa.
Ao perceber que ninguém deu bola (vide a cena anterior, da visita guiada aos jardins suspensos de Babilônia), ela passou a agredir Marilu: tanta pompa antigamente e hoje (pobre Marilu) alimentando-se às custas de salgadinhos de vernissagens e cafezinhos das salas-de-espera dos gabinetes de vereadores. Assim por diante
Enquanto isso, Claudinho segurava minha mão e me fazia cafuné independentemente do olhar furibundo de Carmencita. Que estava a ponto de explodir com a nossa pouca-vergonha.
Para piorar a situação eu, também semi-alcoolizado, falei mal do ChicoBuarque. Critiquei sem piedade logo a música feita em parceria com Paulo César (a tia velha intelectual podre de rica).
Ou seja: o clima social em ebulição e o pandemônio instalado.
(continua)
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
balança mas não cai - parte 1
Nos primórdios televisivos (lá pelos anos 60) havia um programa humorístico semanal chamado Balança mas não cai. Tratava-se de um edifício residencial onde os comediantes mais exóticos contracenavam, cada cena ou quadro correspondendo aos moradores dos apartamentos. A velha fórmula de teatro-chanchada, cujos personagens, alguns, sobreviveram até pouco tempo, nos decadentes Escolinhas do professor Raimundo, Praça da Alegria, Sai de baixo, e tantos outros.
...
A história de hoje é longa. Por isso será contada em várias partes. Tem a ver com o Balança mas não cai e com o texto do outro dia, sobre hospedar, hospedagem, etc. Para não ser obrigado a usar aquele velho chavão - qualquer semelhança com fatos e acontecimentos reais é mera coincidência - que seria só meia verdade, serei chique como Flaubert: aconteceu em 19..., na cidade de R... na rua de M... com a condessa de Z... assim por diante.
Pois bem. Aconteceu em 19.... Eu estava hospedado no apartamento 10... de em um prédio residencial elegante, em um bairro classe média alta, na cidade de R. A hospedeira era a condessa de Z e sua única filha, a condessinha de M.
A condessa de Z é uma figura exótica e engraçadíssima, Voz meio rouca, fala gingada, puxada nos esses chiados e nos jeitos e trejeitos do falar das transformistas. Apesar de mais tímida, a condessinha de M herdara a simpatia da mãe. Além de mim havia outra hóspede, a marquesa de C.
Em pleno verão, na maior farra, enchendo a cara de manhã à noite, comendo os deliciosos pratos preparados pela condessa de Z e morrendo de rir das histórias que ela contava.
O apartamento da condessa era frequentado por quase todos os moradores do prédio, a qualquer hora do dia ou da noite. A seguir, os principais:
1. Carmencita, espanhola de nome, carioca de coração, maranhense de nascença. Balzaqueana, corpo em cima, loira tinturada. Esposa do síndico e amante de Claudinho.
2. Zé Maria, conhecido por Benzinho, síndico do prédio, inocente esposo de Carmencita.
3. Claudinho, trinta-e-tantos anos, bonitão, bronzeado de praia, corpo sarado, apesar da barriguinha de cerveja. Pernambucano, funcionário público, amante de Carmencita e de Paulo César, uma tia velha intelectual chiquérrima e podre de rica, moradora do apartamento 20...
4. Paulo César, a tia velha intelectual chiquérrima, e nem mais tão podre de rica assim, amante de Claudinho e dona de pelo menos meia dúzia de apartamentos no prédio.
5. Marilu Venegas, moradora da cobertura, tradicionalérrima, filha de um pintor modernista, herdeira do acervo desse pintor, esposa de Otavinho.
6. Otavinho, tradutor, desempregado, vivendo de rendas, esposo de Marilu Venegas.
...
Os 2 últimos andares do prédio eram um apartamento tipo cobertura. Não uma simples. Uma puta cobertura. Tipo jardins suspensos de Babilônia: pitangueiras, amoreiras, jaboticabeiras - até um abacateiro frutificavam lá. Fora os bichos - pássaros engaiolados, um casal de jabutis, marrecos, uma arara. Inacreditável. Um paraíso perdido com vista para o mar, em plena avenida de N..., no coração da cidade de R.
A cobertura pertencera ao pintor modernista, pai de Marilu Venegas. Por isso estavam dependurados nas paredes da sala quase a metade de um acervo de museu de arte brasileira de médio porte. Na biblioteca do mezanino, milhares de livros. O projeto arquitetônico da cobertura era do Oscar Niemeyer e o paisagismo (sim, havia até projeto paisagístico na cobertura) era do Burle Marx. Falecido o pintor, habitavam ali a filha herdeira e seu esposo Otavinho.
...
Enquanto esperávamos a hora da festa, desde as 10 da manhã nós bebíamos as dezenas de cervejas geladas que a condessa de Z mandava vir pelo tele-entrega. Assim, às 20 horas (o horário presumido do início do evento), colocadíssimos (totalmemente bêbados), tocamos a campainha da cobertura.
(continua)
...
A história de hoje é longa. Por isso será contada em várias partes. Tem a ver com o Balança mas não cai e com o texto do outro dia, sobre hospedar, hospedagem, etc. Para não ser obrigado a usar aquele velho chavão - qualquer semelhança com fatos e acontecimentos reais é mera coincidência - que seria só meia verdade, serei chique como Flaubert: aconteceu em 19..., na cidade de R... na rua de M... com a condessa de Z... assim por diante.
Pois bem. Aconteceu em 19.... Eu estava hospedado no apartamento 10... de em um prédio residencial elegante, em um bairro classe média alta, na cidade de R. A hospedeira era a condessa de Z e sua única filha, a condessinha de M.
A condessa de Z é uma figura exótica e engraçadíssima, Voz meio rouca, fala gingada, puxada nos esses chiados e nos jeitos e trejeitos do falar das transformistas. Apesar de mais tímida, a condessinha de M herdara a simpatia da mãe. Além de mim havia outra hóspede, a marquesa de C.
Em pleno verão, na maior farra, enchendo a cara de manhã à noite, comendo os deliciosos pratos preparados pela condessa de Z e morrendo de rir das histórias que ela contava.
O apartamento da condessa era frequentado por quase todos os moradores do prédio, a qualquer hora do dia ou da noite. A seguir, os principais:
1. Carmencita, espanhola de nome, carioca de coração, maranhense de nascença. Balzaqueana, corpo em cima, loira tinturada. Esposa do síndico e amante de Claudinho.
2. Zé Maria, conhecido por Benzinho, síndico do prédio, inocente esposo de Carmencita.
3. Claudinho, trinta-e-tantos anos, bonitão, bronzeado de praia, corpo sarado, apesar da barriguinha de cerveja. Pernambucano, funcionário público, amante de Carmencita e de Paulo César, uma tia velha intelectual chiquérrima e podre de rica, moradora do apartamento 20...
4. Paulo César, a tia velha intelectual chiquérrima, e nem mais tão podre de rica assim, amante de Claudinho e dona de pelo menos meia dúzia de apartamentos no prédio.
5. Marilu Venegas, moradora da cobertura, tradicionalérrima, filha de um pintor modernista, herdeira do acervo desse pintor, esposa de Otavinho.
6. Otavinho, tradutor, desempregado, vivendo de rendas, esposo de Marilu Venegas.
...
Os 2 últimos andares do prédio eram um apartamento tipo cobertura. Não uma simples. Uma puta cobertura. Tipo jardins suspensos de Babilônia: pitangueiras, amoreiras, jaboticabeiras - até um abacateiro frutificavam lá. Fora os bichos - pássaros engaiolados, um casal de jabutis, marrecos, uma arara. Inacreditável. Um paraíso perdido com vista para o mar, em plena avenida de N..., no coração da cidade de R.
A cobertura pertencera ao pintor modernista, pai de Marilu Venegas. Por isso estavam dependurados nas paredes da sala quase a metade de um acervo de museu de arte brasileira de médio porte. Na biblioteca do mezanino, milhares de livros. O projeto arquitetônico da cobertura era do Oscar Niemeyer e o paisagismo (sim, havia até projeto paisagístico na cobertura) era do Burle Marx. Falecido o pintor, habitavam ali a filha herdeira e seu esposo Otavinho.
...
Enquanto esperávamos a hora da festa, desde as 10 da manhã nós bebíamos as dezenas de cervejas geladas que a condessa de Z mandava vir pelo tele-entrega. Assim, às 20 horas (o horário presumido do início do evento), colocadíssimos (totalmemente bêbados), tocamos a campainha da cobertura.
(continua)
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