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sexta-feira, 20 de junho de 2014

ainda sobre a correspondência de machado de assis

Machado responde uma semana depois. A carta publicada no jornal onde trabalhava é a própria crítica solicitada.

A introdução é sobre a incipiente e árdua tarefa da crítica literária, da qual era um precursor no Brasil. Esbraveja contra a futilidade e a vaidade dos contemporâneos e contra a malévola influência estrangeira.

É elegante nos elogios a Alencar. Ironiza sutilmente as adjetivações da descrição da Tijuca, pelo autor consagrado. Para não ficar atrás, também ilustra o texto com personagens e passagens mitológicas.

Elogia Castro Alves. Minimiza os senões e as imperfeições de Gonzaga, justificando-os com a pouca idade do autor. Vislumbra um futuro brilhante ao poeta.

Futuro esse que só se materializou postumamente. Um ano depois da visita a Alencar e Machado, Castro Alves fere o pé com um tiro, em uma caçada. A ferida agrava-se, até a amputação da perna (sem anestesia, segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda). Seu estado de saúde é delicado, devido à fragilidade provocada pela amputação e pela tuberculose. Volta para a Bahia. Morre em 1871, com 24 anos.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

leitura clássica: correspondência de machado de assis

José de Alencar escreve a Machado pedindo que este publique uma crítica sobre o jovem poeta Castro Alves, vindo direto da Bahia. É uma carta toda empolada, o oposto do estilo do destinatário. Como não podia deixar de ser, para conseguir o intento, Alencar finaliza a missiva com uma bajulação descarada:

Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter o foro de cidade na imprensa da Corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera um cantor.

Seu melhor título, porém é outro. O senhor foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria.

Do senhor, pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária, que se revelou com tanto vigor.

Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.

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A carta é rebuscada. Alencar cita o tempo o todo os clássicos, em uma erudição empoeirada aceitável no século XIX mas quase hilária na pós-contemporaneidade. Em 8 páginas, são inúmeras as figuras, trocadilhos, aforismos e eruditismos pérolas que Alencar pontua o texto. Vale a pena:

Nasceu na Bahia, terra de tão belos talentos; a Atenas Brasileira que não se cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros.

A genealogia dos poetas começa com seu primeiro poema.

O talento é uma religião, a palavra um sacerdócio - para elogiar o caráter do Dr. Fernandes da Cunha - um dos pontífices da tribuna brasileira.

Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloquência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora.

Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete de inteligência.

Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família? Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera.

Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia d'aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os voos.

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Sobre a Tijuca, no Rio de Janeiro, onde Alencar morava:

O senhor conhece essa montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para almas cansadas de pousar no chão.

Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul.

Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade de berço.

A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por esse genuflexório, para se prostrar aos pés do Onipotente, conta três degraus: em cada um deles, uma contrição.

A chuva borrifou de aljôfares; as névoas delgadas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã.

O primeiro degrau seria o Alto da Boa Vista, de onde se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, etc etc. O segundo degrau é para as bandas da Gávea, em um lugar chamado Vista Chinesa. Ali, escreve Alencar, Deus entregou a um de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. O terceiro degrau é o Pico da Tijuca, de onde os olhos deslumbrados veem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter.

Prossegue:

Nessas paragens não podia meu hóspede [Castro Alves] sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio.

A natureza da terra de Castro Alves era comparável à exuberância da Tijuca. Lá, ela abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta.

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Depois dessa breve introdução, Alencar desmancha-se em elogios às excelências da língua portuguesa no estilo de Castro Alves. Afirma que o poeta é discípulo de Vitor Hugo. Chama-o de Ticiano da Literatura. Fala que os moldes ousados da frase de Castro Alves são como os de Bevenuto Cellini. Afirma faltar maturidade e de pequenos senões em alguns trechos da peça Gonzaga, justificáveis pela tenra idade do poeta. Assim por diante.

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Alencar, aos 40 anos, era já um escritor consagrado. Machado, aos 30, era um jornalista reconhecido mas ainda não tinha alcançado o auge literário. Castro Alves, 21 anos, apresentava ao grande Alencar os manuscritos da peça Gonzaga, encenada algumas vezes mas só publicada postumamente, 3 anos depois da visita ao Rio de Janeiro.

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Dever de casa para o leitor que conseguiu ler até aqui: pesquisar na Wikipedia os nomes próprios citados nos trechos extraídos da carta escrita por José de Alencar a Machado de Assis, em fevereiro de 1868.

terça-feira, 27 de maio de 2014

zeugma, em breve

Zeugma é a figura de linguagem pela qual se subentendem, em uma ou mais frases ou orações, palavras expressas em outra frase ou oração que com essas está ligada. Ex.: foi lançado o satélite, e [foram] capturados os seus sinais.

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Zeugma é o nome de uma antiga cidade romana, às margens do rio Eufrates, na Ásia Menor. Conta Plínio, o Velho, que a cidade era um ponto estratégico na rota da seda, que estabelecia o comércio do ocidente com a China. Em suas ruínas foram recuperados os famosos Mosaicos de Zeugma, hoje expostos no Museu de História da cidade de Gaziantep. As ruínas de Zeugma estão hoje encobertas pelas águas de uma represa de Birecik, ao sul da Turquia, próxima à fronteira com a Síria.

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Zeugma é também o título de um texto-imagem pop-enciclopédico que, queiram os deuses, será brevemente publicado, junto com O Livro dos Cacos, em primorosa, requintada, cuidadosa edição, para o deleite de leitores e admiradores.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

história de verão insular 1

Eram 10 horas e você estava sentado sozinho com cara de sono na mesa mais ao fundo da padaria lotada de gente. Levando a xícara à boca com cuidado para não deixar pingar o café-com-leite que a garçonete deixou derramar no pires. E planejar o passeio do dia, o primeiro dia de férias.

A mesa em frente estava ocupada por uma família de também turistas: pai, mãe, 2 filhos. A mãe estava de costas, os filhos um de cada lado da mesa e o pai diante de você, em ângulo impossível de se evitar olhares cruzados.

Você tentava, mas não conseguia parar olhar. Você tentava, mas não conseguia deixar de ouvir: a mãe queria passear de barco. O pai preferia ficar na praia. O casal de filhos jogava em aparelhos de minigame, indiferentes. O pai não disfarçava a irritação diante da proposta da mãe. Que falava incessantemente, como se não necessitasse de interlocutor.

Você tentava não inventar enredos. Tentava não pensar em quanto tempo durariam e como seriam tediosas as férias daquela família.

Ops!, você notou o olhar fixo do pai em você. Bem dentro dos teus olhos. Você se desconcertou. Desviou o olhar pelas outras mesas, pelo balcão de vidro, pela garçonete, pela recorte da rua emoldurado pela porta. Você cogitou: o olhar do pai estaria pedindo cumplicidade? Você olhou de novo para ter certeza. Franziu suave a testa, e quase sorriu, simpático, como se dissesse: "o que eu posso fazer?"

Você demorou a perceber: o pai passava carinhosamente o dedo na borda interna da xícara e a ponta da língua nos cantos da boca enquanto te devorava com o olhar.

terça-feira, 20 de maio de 2014

dia das mães no grande sertão

Mãe é muito mais mãe no sertão.

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O texto a seguir era uma homenagem ao dia das mães. Servia para mostrar que na ética rude dos jagunços, a mãe de cada um ocupa o lugar sagrado, santificado. Falar mal da mãe e ser chamado de ladrão são as piores ofensas, e dessas não há saída nem perdão. A obrigação do ofendido era lutar até vingar a ofensa com a morte do ofensor.

Abandonei pelo meio e a ideia se perdeu. Perdeu-se também o sentido da tentativa de recuperá-la. Porém, para não desperdiçar o trabalho, vale a pena ler nem que seja pela beleza dos trechos transcritos.

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O julgamento de Zé Bebelo é um trecho é seminal do romance. A partir dele Riobaldo assume para si mesmo o amor físico e carnal por Diadorim, e a malignidade do Hermógenes revela-se quando este, juntamente com o Ricardão, assassinam Joca Ramiro à traição.

É um julgamento sem lei. Ou melhor, na lei inexorável do sertão.

Riobaldo narra de forma a confundir o interlocutor, disfarçando o limite entre o trágico e o cômico, o  puro lorotal de Zé Bebelo. O trecho me faz lembrar o chá da lebre de Março, em Alice no país das maravilhas:

O julgamento? Digo: aquilo foi coisa séria de importante. [...] "O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão..." - o senhor dirá. [...] Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!


[...]

"Homem engraçado, homem dôido!" - Diadorim ainda achava.
[...]
Tinha sido aquilo: Joca Ramiro chegando, real, em seu alto cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo à pé, rasgado e sujo, sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro por dois homens. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo empinou o queixo, inteirou de olhar aquele, cima a baixo. Daí disse"
- "Dê respeito, chefe. O senhor diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!"
- "O senhor se acalme. O senhor está preso..." - Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.
Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:
- "Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver..."
[...]
Assim isso. Tolêimas todas? Não por não.

Assim por diante.

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Joca Ramiro reúne os maiorais Sô Candelário, Hermógenes, Ricardão, Titão Passos e João Goanhá numa confa. Trazem Zé Bebelo, que se senta no tamborete de Joca Ramiro, colocado no centro do círculo formado pela jagunçada. Sugere, com a maior cara de pau, que os outros sentem-se no chão. Os jagunços se eriçam com tamanha ousadia. Joca Ramiro aceita o displante. Só então Zé Bebelo abandona o banquinho, sentando-se ao mesmo nível dos outros.

Então começam a falar os maiorais, principiado pelas acusações e sentença de morte cruel, pelo Hermógenes:

- "Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar esse cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele - a ver se a vida sobrava, para não sobrar!"

Depois da fala do Hermógenes Zé Bebelo pira de vez. Ironiza, achincalha a fala com gestos e interjeições debochadas. Encara e enfrenta o olhar do Hermógenes. Faz a raiva do Hermógenes ferver. Ao ponto dele exigir, numa voz rachada em duas, voz torta e entortada (a voz do demo?):

- "Tibes, trapo, o desgraçado desse canalha que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso. Meu direito é acabar com ele, Chefe!"

Os jagunços se eriçam. Resmungam em aprovação. Os do bando do Hermógenes incitam a vingança em voz alta. Mas Joca Ramiro era mesmo um líder, um tutùmumbuca, grande maioral. Contrapôs:

- "Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo..."
E era verdade. Todo o mundo concordou. [...] Só para o nome-da-mãe ou de "ladrão" era que não havia remédio, por ser a ofensa grave.

...

Fato inquestionável. O Hermógenes foi obrigado a engolir a raiva. E provavelmente amadurecer a ideia da traição e assassinato de Joca Ramiro, dando então início à verdadeira saga do romance.

terça-feira, 6 de maio de 2014

conjecturas sobre o grande sertão (erguendo bandeiras)

Depois do julgamento e absolvição do chefe inimigo Zé Bebelo, era o fim da guerra. Os mais de 500 jagunços vencedores, comandados por Joca Ramiro dividem-se em grupos menores e se dirigem para regiões diferentes do sertão.

Joca Ramiro segue com  Hermógenes e Ricardão. Riobaldo e Reinaldo-Diadorim seguem no bando de Titão Passos. Por 2 meses, trégua entre uma guerra e outra, o bando acampa em um lugar paradisíaco (e fatídico, como se verá mais tarde) chamado Guararavacã do Guaicuí:

Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada. [...] O que, por começo, corria desino para a gente, ali era: bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão - que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade nenhuma, a sobre. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açúcar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte. Todo dia se comia bom peixe novo, pescado fácil. [...] Nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. Dormir sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. [...] O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha a ideia de tudo só ser o passado no futuro. 

Foi nesse jardim do éden sertanejo que pela primeira vez Riobaldo assumiu para si mesmo o amor e o desejo por Diadorim:


Aquele lugar, o ar. Primeiro fiquei sabendo que gostava de Diadorim - de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei - na hora. [...] O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - "Diadorim, meu amor...". [...] Um Diadorim só para mim. [...] Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.

Depois do enlevo, do êxtase, quase epifania do amor revelado, vem o bote e o veneno da serpente da culpa:

"Se é o que é" - eu pensei - "eu estou meio perdido..." Acertei minha ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. Ia por paz de honra e tenência sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia quebrar o morro: acabar comigo! - com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo.

Porém os acontecimentos tomam outro rumo quando chega a notícia da morte de Joca Ramiro, à traição, pelos judas Hermógenes e Ricardão.

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Exceto uma dica lá pela terça parte do livro, Rosa leva o amor gay do jagunço Riobaldo pelo jagunço Reinaldo-Diadorim em suspense crescente até as últimas páginas quando, com sua morte, revela-se a identidade feminina de Diadorim.

Parte dos críticos não admite o desfecho. Consideram covardia de Rosa encobrir a homossexualidade estrutural do Grande Sertão. Afinal, a grosso modo, o conflito das mais de 500 páginas da tentativa de Riobaldo sair do armário, estaria irremediavelmente aniquilado com o absurdo da solução encontrada pelo autor: adaptar o romance à conformidade moral & social vigentes, transmutando em mulher o objeto de desejo homoafetivo no narrador.

Sem negar o deslumbre renovado pelo GS:V a cada tresleitura, eu faço parte desse coro. Querendo ou não, o Grande sertão é, além de um dos mais maravilhosos textos da língua portuguesa, talvez o mais importante romance gay escrito até hoje.

E lanço dúvidas: A magnificência, a grandiosidade, a universalidade do GS:V estaria comprometida se, no fim - ao lado do cego Borromeu e do menino Guirigó e diante da jagunçada - se, diante do corpo morto e nu do amado, o narrador Riobaldo assumisse o amor-estrela, o amor-guia, o amor-transformação - o amor que ele, o jagunço Riobaldo sentiu pelo jagunço Reinaldo-Diadorim? 

Ou isso estaria  muito além do alcance de Rosa e da própria época em que o romance foi escrito?

segunda-feira, 31 de março de 2014

homens ilustres - fábio máximo

Outro dia levei uma bronca de um Leitor pela falta de rigor histórico no resumo da vida de Péricles (leia aqui). O Leitor indignado, além de descendente direto dos heróis, deuses, filósofos e matemáticos gregos, ainda era profundo conhecedor dos fatos que eu manhosamente distorci.

Justifiquei. Dei o braço a torcer. Para falar de temas árduos e empoeirados e ainda manter a multidão dos 4 leitores-seguidores do blog, a estratégia é fazer fofoca. Fofoca sobre gente famosa (mesmo que mortos há mais de 2 mil anos) rende mais popularidade do que os grandes feitos desses ilustres. Agô, Ibrahim Sued.

Assim, com o perdão do helênico Leitor amigo, prossigo a tarefa de resenhar Plutarco. Hoje para falar de Fábio Máximo, o biografado paralelo a Péricles.

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A árvore genealógica dos Fabianos é extensa e mitológica (dizem que o primeiro Fábio foi gerado pelo semideus Hércules no ventre de uma ninfa, à beira do rio Tibre).

Os antepassados de Fábio eram conhecidos por um nome não tão chique: Fodianos. A wikipédia explica, com uma pitada de malícia:

[...] pois eles [os Fodianos] capturavam animais selvagens em buracos-armadilhas; à época de Plutarco, a palavra latina fossae significava fossa, e o verbo fodere significava cavar; com o tempo, por uma troca de letras, a família passou a se chamar Fabii.

Como brinde do texto, uma nota de rodapé:

O verbo em latim fodere não deve ser confundido com o latim vultar futuere, que deu origem ao verbo em português foder; alguns analistas, porém, consideram que fodere e futere eram o mesmo verbo.

Como diria a amiga traveca: aff!
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Antes de ter recebido o apelido de Máximo, por seus grandes feitos, na adolescência Fábio ficou conhecido pelos colegas como Fábio Rulo (não me perguntem a razão); na juventude ele foi Fábio Verrugoso, por causa de um sinal semelhante a uma pequena verruga que lhe apareceu nos lábios. Mas talvez o apelido mais difícil dele conviver tenha sido Fábio Ovícula (= ovelhazinha). 

Plutarco faz questão de enumerar os motivos da pecha):
- doçura excessiva, lentidão e peso do modo de Fábio agir desde a infância;
- natureza lenta, tranquila e repousada, atitude taciturna;
- ter sido visto poucas vezes brincando nos jogos infantis;
- ser duro de entendimento, tendo dificuldade em compreender o que lhe ensinavam;
- excessiva obediência a todos com quem andava.

Porém as aparências enganaram. Vistos de perto, a aparente tolice era uma gravidade inalterável; a timidez era prudência; o fato de não ser precipitado e inquieto era firmeza e constância. Ou seja, a renca de defeitos escondia a natureza imutável e a magnanimidade de leão - o futuro mais que promissor do garoto.

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Apesar dos grandes feitos e inúmeras batalhas vencidas, com os deuses intervindo a favor dos romanos, e de ter sido eleito Cônsul por 5 vezes, a sessão "fofoca" na vida de Fábio Máximo encerra-se logo no início. Depois do capítulo V, estendem-se 54 capítulos entediantes descrevendo escaramuças de guerra e negociatas políticas.

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Vale a pena descrever uma cena terrível, estratagema bélico em uma batalha entre cartagineses e romanos, nas famosas Guerras Púnicas:

O exército comandado pelo general cartaginês Aníbal tinha sido sitiado pelos romanos. Aníbal então determinou que fossem escolhidos 2 mil bois, dentre os capturados nas pilhagens, e fez amarrarem-lhes nos chifres tochas fabricadas com ramos de salgueiro e videiras secos. Quando veio a noite, Aníbal ordenou aos soldados que pusessem fogo aos feixes e tocassem os bois na direção dos romanos. Enquanto o fogo na cabeça dos bois era fraco, eles caminhavam calmamente pela encosta das montanhas. Porém quando os chifres foram queimados até a raiz e o fogo penetrou a carne viva, os bois começaram a debater-se e a sacudir as cabeças, espalhando entre si o fogo, cada vez mais. Movidos pela dor e pelo terror, começaram a correr de um lado para o outro, ateando fogo a tudo onde passavam.

De longe e no escuro, os sentinelas romanos pensaram serem os soldados inimigos avançando com archotes para cercá-los por todos os lados. Debandaram apavorados, deixando o caminho livre para o exército cartaginês que, aproveitando a confusão e a escuridão, avançou em linha reta para o acampamento romano, ganhando assim a batalha.

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Com isso, Fábio foi destituído do cargo pelo povo romano que, como já se viu antes, era volúvel. Um dia amava seus dirigentes, no outro o condenava. Mas quando a situação ficou preta de novo, o povo mandou chamar e reempossou Fábio; novamente o destituiu; assim, sucessivamente, por 5 vezes.

Depois da quinta demissão e da perda dos bens (dessa vez tinha sido condenado pelos senadores), Fábio seguiu para o exílio. Contraiu uma doença e morreu antes de ver o fim da guerra e a derrota de Aníbal. O povo romano (sempre do contra) reconheceu o heroísmo do biografado. Cada cidadão contribuiu com uma menor moeda existente, para render uma enorme homenagem à sua vida e virtude.




segunda-feira, 3 de março de 2014

leituras do carnaval: doris lessing - a terrorista


The good terrorist. Doris Lessing. 1985. Romance.

Por falar em solteironas inglesas, a personagem principal desse livro é Alice. 30 e poucos anos. Em um relacionamento estéril com o gay enrustido, meio cafetão (e bem mais novo que ela) Jasper.

Alice e Jasper fazem parte de um grupo de jovens, classe média, envolvidos com política de esquerda radical, que busca associação com o IRA. Ou contra o que chamam de fascismo capitalista. O grupo ocupa uma casa abandonada nos subúrbios de Londres.

Ao mesmo tempo que a autora esmiúça em detalhes os meandros do dia a dia de um grupo político clandestino formado por jovens de origem burguesa, demonstrando grande conhecimento da causa, Doris Lessing exagera, de forma proposital, nos jargões de esquerda proferidos pelas personagens, revelando uma ironia, ácida, tipicamente inglesa, com evidentes pinceladas conservadoras no entretexto.

A personagem Alice é muito bem construída. É uma espécie de mãe, provedora, protetora dos demais demais moradores da comunidade são delineados de forma quase caricatural.

O livro desenrola-se em dois focos antagônicos. Alice não vê limites morais (tudo em nome do ideal revolucionário) para transformar a casa abandonada em um típico lar inglês. Em vão, pois Jasper e Bert, líderes da comunidade, apesar de usufruírem do conforto proporcionado por Alice, menosprezam-na, criticando-lhe os valores pequeno burgueses.

Enquanto a casa é "reerguida" pelo esforço de Alice, ela própria vai se esvaziando, desmoronando internamente, anulando-se, acomodando-se.

O anticlímax do final é um ato terrorista mal planejado pelos habitantes da casa sem a participação de Alice, cuja opinião sensata certamente esfriaria os ânimos e estragaria a brincadeira.

domingo, 2 de março de 2014

leituras do carnaval: da biblioteca das moças - a solteirona


Trata-se de outro romance de Berta Ruck. A Solteirona. Volume 116 da Biblioteca das Moças.

Susie Brown tem 18 anos. É linda, prendada e inteligente. Órf ã de mãe, sente-se responsável por cuidar do pai, do irmão Maurício e dos amigos do irmão, frequentadores assíduos de "Os lilases", a casa onde vivem.

Slim, um soldado canadense gatíssimo, amigo de Maurício, de passagem pela casa, apaixona-se por ela. Susie recusa o pedido de casamento por achar que o pai e o irmão não sobreviveriam sem ela.

Passam-se os anos. Tomada pelos afazeres domésticos, Susie não pensa em casamento, ocupadíssima com as tarefas domésticas. Então mudam-se para a casa ao lado Mrs. Lane, uma viúva fogosa e sua filha Rose, de 18 anos (a descrição de Mrs. Lane por Berta Ruck faz lembrar a Divine, de Pink flamingo).

Para surpresa geral, Papai (o pai de Susie) casa-se, não previsivelmente com a viúva Mrs. Lane, mas com Rose, a filha teen desmiolada. Susie perde espaço na casa (que passa a ser controlada pela viúva-sogra) e decide mudar-se.

Emprega-se como aia de Mrs. Moss, outra viúva riquérrima e mal-humorada. Mrs. Moss tem um único parente e herdeiro: o ator de 2a. linha Ronnie Vincent. Que passa a assediar Susie. Susie apaixona-se por Ronnie Vincent. Até que a verdade se revela. Mrs. Moss morre subitamente. Ao conhecer o teor do testamento de Mrs. Moss, Ronnie despreza Susie. Usou a empregada para reaproximar-se da tia rica e com isso apossar-se da fortuna.

Nisso, Susie já tem 30 e poucos anos. Vai-se desleixando mais e mais. Descuida da pele, dos cabelos. Usa roupas e chapéus horrorosos comprados em brechós. Mora em espeluncas de solteironas melancólicas. Como se fosse o fim da linha.

Com a morte de Mrs. Moss, ela emprega-se como secretária particular "faz-tudo" da irascível Miss Lavallière, cantora, estrela de teatro e de cinema.

Estoura a 2a. Guerra Mundial. Miss Lavallière tem que fazer um pronunciamento no rádio, para os soldados aliados. Ocorre um imprevisto, impossibilitando Miss Lavallière de falar. Susie, dona de uma linda voz, é encarregada pelos empresários da popstar, de ler o discurso da patroa.

O discurso terceirizado traz consigo surpresas. No dia seguinte, Susie recebe flores, com um cartão, adivinhem de quem? de Slim, de tantos anos atrás.  Slim lutava com os aliados, no exército canadense. Tinha ouvido a leitura radiofônica e se apaixonado pela voz de Susie, sem saber que era aquela Susie do passado remoto.

A essa altura, Susie está com 40 anos, mas com cara e corpinho de 50. O próprio estereótipo da solteirona desmazelada.

Porém, ao constatar que seria sua última oportunidade, a chama da vida e da juventude reacende nela. Procura a sobrinha, proprietária de um salão de beleza chiquérrimo, que a produz (ou a transforma).  Susie rejuvenesce pelo menos 15 anos.

Final feliz: Slim, também na faixa dos 40, continua gato. O melhor de tudo: divorciado. Nunca esqueceu Susie que, por obra e graça da sobrinha, estava deslumbrante.

Finalmente, mais de 20 anos depois, Susie aceita o pedido de casamento de Slim. Pelo jeito, vivem até hoje felizes. Nas plagas geladas do Canadá. Talvez para sempre.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas

aprendi tudo ao contrário depois, ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito,  um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minissaia erótica tão adequada à ingenuidade das crianças. o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.

valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

curiosidades do mundo antigo - homens ilustres - temístocles


Temístocles é o primeiro biografado do segundo volume da Vida dos homens ilustres, de Plutarco. Foi um general e político ateniense que viveu entre 526 e 463 a.C. Seus maiores feitos foram transformar Atenas na maior potência naval helênica e vencer Xerxes, o rei dos persas, na famosa batalha de Salamina.

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Desde a infância Temístocles era ambicioso de grandes realizações e nascido para o manejo dos negócios. Achava um saco estudar as artes de entretenimento honesto e elegante (como a música), mas quando o assunto era política ou negócios públicos ele tinha orgasmos. Nas folgas dos estudos, jamais brincava nem permanecia ocioso, como faziam as demais crianças, mas era sempre encontrado decorando ou compondo sozinho algum discurso.

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Até o capítulo XXXIII são descritas as peripécias de guerra que culminaram com a derrota de Xerxes e dos persas em Salamina. Porém, vamos logo ao que interessa nessas postagens cobertas pela poeira dos séculos: fofocas.

Temístocles foi adversário político de Aristides. Dizem as más línguas que as divergências começaram em razão da disputa pelo amor do belo Estesislau. Depois desse ciúme inicial (parece que o bonitão escolheu Aristides), ambos continuaram para sempre a tomar partidos contrários até, a certa altura, Temístocles banir para sempre Aristides de Atenas e finalmente pegar Estesislau.

Certa vez, depois da fama adquirida com a vitória contra os persas, outro gatão sarado chamado Antifates, que esbanjara (se recusara, altivamente a ele, sem dar-lhe importância) Temístocles na época em que ele era desconhecido, veio fazer-lhe a corte. Temístocles dispensou o bofe, mais ou menos assim: querido, quando eu quis você não me deu bola; gora que estou por cima da carne seca, vai ver se eu estou lá na esquina. Essa frase atravessou os séculos. Sendo recriada e revivida recentemente na voz do Félix da novela.

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Mais um pouco de história séria:

O povo grego era muito volúvel. Em um dia amavam e idolatravam um homem público. No dia seguinte, por qualquer mexerico, passavam a odiá-lo com todas as forças, geralmente condenando-o ao ostracismo, que significava exílio por no mínimo 5 anos. Foi o que se sucedeu a Temístocles. Depois de ter feito tanto pela glória ateniense, depois de muita perambulação, foi chegar ao seio do povo persa, os antigos inimigos.

Porém, como bom político que era, logo conquistou a graça do sucessor de Xerxes. Passou a trabalhar para o rei, conquistou cidades, aconselhou, legislou. Mas quando foi obrigado a lutar contra os gregos, Temístocles ofereceu um solene sacrifício aos deuses, no qual festejou seus amigos de quem se despediu, pondo fim à vida ao beber sangue de touro junto com uma espécie de veneno que mata o homem dentro de 24 horas.

O rei persa admirou a lealdade do grego, ordenando construir-lhe uma sepultura magnífica na praça da cidade de Magnésia, e fixando algumas honrarias para os descendentes do homenageado, que duraram muitos séculos.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

omissão proposital

(Duas páginas depois da citação sobre a questão da grande diferença de idade no amor (para ler, clique aqui), Berta Ruck desfaz o encanto: Mr. Nickolls era um sedutor barato. Era casado e não se divorciava porque a esposa era a sócia majoritária da empresa. Só queria aproveitar da beleza e juventude da secretária. Por isso não pediu a inocente e jovem Febe em casamento. Porém no capítulo seguinte a autora volta à carga com o tema. O pai viúvo de Susie e avô de Febe pediu em casamento Rosa, a filha da vizinha Mrs. Lane. A noiva tinha completado 17 anos).

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

para vestir a carapuça e/ou calar a boca de muita gente

A jovem Febe está apaixonada por um homem misterioso. Tenta fazer com que a tia solteirona Susie descubra a identidade do seu primeiro e verdadeiro amor. Eis o diálogo:

- Já desisti de adivinhar, Febe. Quem é, pelo amor de Deus?
- Ninguém que alguém aqui já tenha visto. Chama-se Mr. Nickolls. Há um mês que trabalho no escritório particular dele. É o chefe da firma.
Susie se levantou, de golpe.
- Mas filha, ele não é muito mais velho que você?
- Se é! E muitos anos, graças ao Céu, suspirou a moça de 18 anos, enlevada. É um desses galanteadores de cabelos cinzentos, experientes, que fazem os outros rapazes parecerem toscos. E contudo, às vezes, é igual a um cabrito: um Peter Pan. Mas seja lá como for, quando estamos juntos eu nem me lembro a idade dele - se são 15 ou 50 anos. É o que acontece quando se gosta de um homem, titia.

de:
Berta Ruck, A solteirona
Vol. 118 da Biblioteca das Moças
Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1955

sábado, 25 de janeiro de 2014

primeiras leituras concomitantes & complementares do ano


Leituras para identificar o DNA artístico/poético:

Catálogo da exposição Onde está você, Geração 80? - CCBB, 2004/2005. A exposição é um resgate da histórica Como vai você, Geração 80?, ocorrida no Parque Lage, Rio de Janeiro, em 1984, de onde surgiram os expoentes da arte brasileira contemporânea: Alex Flemming, Alex Valauri, Ana Miguel, Beatriz Milhazes, Chico Cunha, Cristina Salgado, Jadir Freire, Jorge Duarte, Leda Catunda, Leonilson, Maurício Bentes, Nuno Ramos, Vitor Arruda e tantos outros. O catálogo contém textos curatoriais de Marcus Lontra Costa, Ascânio MMM, Daniela Name e entrevistas com Luiz Áquila e Nelson Leirner.

Ao mesmo tempo o maravilhoso presente de aniversário - Poesia marginal palavra e livro, organizada por Eucanaã Ferraz e publicado pelo Instituto Moreira Salles - nem precisa dizer - sobre a poesia marginal dos anos 70/80. De Cacaso a Ana Cristina César, de Chacal a Wally Salomão, muito Nicolas Behr e mais outros tantos. Material maravilhoso e raro em uma edição super bem cuidada.

(Depois disso encarar o livro de ouro Oficina 50+ - autografado pelo Zé Celso (outro presente dos deuses) comemorativo dos 50 anos do Uzyna Uzona).

sábado, 11 de janeiro de 2014

homens ilustres: numa pompílio, parte final


(A primeira parte foi publicada em 7 de dezembro de 2013. Acesse: curiosidades do mundo antigo: numa pompílio)

Recapitulando, para encerrar:

Numa sucedeu Rômulo, o primeiro governante de Roma. O povo sabino e romano acreditava que ele tinha desposado uma ninfa, coisa absurda até para Plutarco, o autor da biografia. Ao invés de desmentir, Numa soube tirar proveito político do boato.

Manipulação das massas, como denominou o velho Marx muitos séculos depois.

Plutarco explica seu descrédito: Não é verossímil que os deuses os tenham frequentado [a alguns homens ilustres] cientemente, para inspirar-lhes tão belas coisas. [...] tendo que manejar povos rudes e ferozes, e querendo introduzir grandes novidades nos governos de seus respectivos países, sabiamente fingiram ter comunicação com os deuses, pois tal ficção era útil e salutar àqueles mesmos aos quais o faziam crer [ou seja - o crédulo povão].

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Sabe aquele clã de políticos que alardeava aos quatro ventos a proteção de poderosas mães-de-santo baianas? Aquele outro, da terra de Gonçalves Dias, posando de amigo íntimo dos terecozeiros do Codó? Ou esses, da geração nova, que esbravejam contra o casamento gay, contra a liberação da mulher, que se dizem representantes diretos de deus, que cantam hinos de igreja no plenário,  aqueles que se elegem e se mantêm no poder às custas da salvação e do dízimo do rebanho de ovelhas desgarradas? Pois é. Até hoje tem político fazendo igual...

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Mas não sejamos injustos. Há uma grande diferença os políticos de hoje e o nosso biografado. O interesse político de Numa tinha um objetivo louvável. Pacificar o belicoso (e excessivamente crédulo) povo romano. E conseguiu. Tanto, que ainda é lembrado, quase 3.000 anos depois de sua morte. 

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Nunca se viu tanto sacrifício aos deuses quanto os realizados durante a posse (coroação?). Mesmo tendo sido aclamado por unanimidade popular, Numa (em uma grande jogada de marketing) interrompeu a cerimônia. Antes de ser coroado, era necessário ser confirmado pelos deuses. Foi um rito curioso e talvez bastante demorado:

[Numa] chamou então os adivinhos e os presbíteros, e com eles subiu ao Capitólio [...] e lá o principal dos adivinhos voltou-o para o meio-dia, com a face velada, e plantou-se de pé atrás dele, tocando-lhe a cabeça com a mão direita e fazendo preces aos deuses para que lhes aprouvesse, pelo voo dos pássaros e outros indícios, declarar sua vontade no tocante a essa eleição, [...] até que à mão direita lhes apareceram pássaros de bom presságio, confirmando a eleição.

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Os romanos eram um povo difícil. Roma era chamada por Platão de cidade fervente. Foi fundada por vagabundos, expatriados, mercenários, ladrões, etc (como vimos em Rômulo) - homens mais corajosos, audaciosos e beligerantes do mundo antigo. O império crescera e se expandira em razão das conquistas e saques resultantes das guerras contínuas.

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Os primeiros momentos do governo de Numa (com a ajuda dos deuses) foram dedicados a amolecer e adocicar esse povo. Obteve sucesso. Utilizando-se, à farta, do temor religioso.

Foi um político performático. Oficiou tantos sacrifícios, danças e procissões - às vezes vestindo máscaras aterrorizantes - onde afirmava ouvir vozes sobrenaturais e visões que advertiam e ameaçavam o povo de grandes calamidades caso não se comportasse bem.

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Os efeitos da política religiosa de Numa não tardaram a se manifestar: a cidade de Roma tornou-se aos poucos tão manejável [...] que recebeu por verdadeiros contos onde não havia mais aparência do que nas fábulas muito simplesmente inventadas. 

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Como todo político que se preza, Numa esmerou-se em criar cargos religiosos, nomear correligionários para esses cargos e favorecer os empreiteiros com a execução de obras públicas grandiosas:

1) nstituiu o Colégio dos Pontífices, nomeando-se a si próprio o chefe deles (os Pontífices eram responsáveis por manter, guardar, fiscalizar e legislar sobre os preceitos das cerimônias públicas e particulares aos deuses, inclusive os ritos fúnebres);

2) fundou a congregação das virgens chamadas Vestais, responsáveis por guardar o fogo sagrado dos deuses (as Vestais eram obrigadas a guardar a virgindade e servir aos deuses por 30 anos. Depois desse tempo podiam requerer aposentadoria. Mas, segundo Plutarco, não se tem notícia de nenhuma que o tenha feito);

3) instituiu vários prebíteros, dentre eles o dos Sálios e a dos Feciais - ambos com funções de apaziguar as querelas tanto entre as cidades vizinhas (evitando-se a guerra) quanto entre os cidadãos;

4) mandou construir o templo redondo da deusa Vesta (cujas ruínas podem ser vistas até hoje no Forum da Roma antiga); ao lado do templo Numa mandou construir sua casa, onde ficava a maior parte do tempo, vacando ou sacrificando aos deuses, ou para ensinar aos presbíteros o que deviam fazer, ou para dedicar-se com eles à contemplação das coisas divinas.

5) construiu também o templo à Fé e ao Termo (deus dos limites, homenageado nas festas Terminais) onde se sacrificava sem efusão de sangue.

Bem, leitor(a), isso está ficando por demais aborrecido. Dentre tantos feitos legais de Numa (entre muitos sacrifícios e preces - os principais foram a demarcação da cidade de Roma, união entre Sabinos e Romanos, limitação da lei que permitia aos pais venderem os filhos. Uma consulta à wikipédia esclarecerá os detalhes.

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Numa morreu em idade avançada, e realizado, depois do grande sucesso de seu governo. O velório foi concorridíssimo. Foi enterrado com os livros sagrados que ele mesmo escreveu, pois eram tão sagradas que não poderiam ser conhecidas por outros, menos capazes. Assim, o registro do conhecimento de Numa morreu com ele, restando apenas a prática institucionalizada desses conhecimentos e a memória de seus feitos.

E assim chegamos ao fim (tão arduamente) de mais uma vida de homem ilustre. As demais, caro leitor(a), eu prometo, serão mais sintéticas.