Muito trabalho, de novo. Será que nunca vou aprender a simplesmente desfrutar o ócio?
...
Na fisioterapia o assunto ontem era política. Um fisioterapeuta defendia a eleição do candidato corrupto. Com argumentos os mais sofríveis possíveis. Já ia me exasperar com a burrice reinante. Me contive a tempo. Concentrando na dolorida articulação do antebraço.
...
Engordando como uma leitoa.
...
Seriados novos:
- The office (por sugestão do Gabriel) - sobre o cotidiano de um escritório. Só quem já viveu sabe que o desespero que há por trás do humor grotesco e politicamente incorreto.
- Merlin (indicado pelo novo amor) - para adolescentes, sobre a adolescência dos heróis da távola redonda. Bonitinho.
- 24h - suspense sobre o dia a dia de uma agência secreta americana e seu agente meio paranóico. Clichês de sempre, mas o uma forma interessante de roteiro - pontuado por sincronia entre as situações e rigorosamente cronometrado por um relógio digital.
...
Hipersensibilidade: entrando em pânico (contido) em cenas de maldade, tais como as da personagem-feiticeira Cora, de Once upon a time. Ou, ridiculamente, as crianças alienígenas ocas e malvadérrimas do quase cômico Dr. Who.
..
Inferno zodiacal fora de época: agora é o celular dando pau (R$ 600 para trocar por um novo no duvidoso programa de garantia da marca).
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sexta-feira, 8 de agosto de 2014
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
diário - dia 4
Retomando. Revendo. Reformando. Remodulando. Reestruturando. Revolvendo. Reescrevendo. Respondendo. Resgatando. Refazendo. Retirando. Recalcitrando.
...
Ontem show de Hermeto Pascoal e banda, na Caixa Cultural. Telúrico e sublime. Músicos impecáveis. E a voz esquisitíssima da diva cabocla Aline Moreno.
Depois, sidra, omeletes e crepes à francesa com o amigo, o filho e a nora.
...
Inferno astral fora de época: quebrando toda a louça da casa; afundando a traseira do carro no container de entulhos; tossindo como um cachorro louco; curando a tendinite; driblando os estados depressivos; convivendo com uma pereba na ponta do nariz.
...
Tomando decisões contraproducentes, mas esteticamente imprescindíveis. Me preparando para o futuro próximo e o distante.
domingo, 29 de junho de 2014
diário-planilha
Contabilidade das 2 últimas semanas:
3 projetos planilhas justificativas somatórios formulários cronogramas orçamentos metas objetivos desdobramentos mapas currículos gráficos cifras ajustes portfolios e-mails etc. 1 hora imobilizado, entre 3 caminhões, aguardando a liberação da estrada. Muitos cigarros & nem uma gota de álcool. 2 míseras páginas do Machado e 1 ou outra página do Plutarco ou do Mãe antes de cair no sono. 1 pacote de doce de amendoim. 1 pote de doce de leite com pau de mamão. 1 garrafão de água mineral. Sensação de dúvida quanto a ter ou não valido a pena a trabalheira.
...
Sessão Netflix depois do estresse:
Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's): figurino impecável de Audrey Hepburn. cena do início impactante para justificar o título. A sexualidade obscurecida do michê-escritor. A festa quase feliniana. O quase-noivo rico brasileiro. O disco de aula de português de Portugal. O gato sem nome que rouba a cena. Imperdoável só ter visto agora.
Drop dead diva: hilário nos primeiros episódios, mas começando a ficar repetitivo.
O 13o. Guerreiro. Filminho ruim com o sempre sofrível Antonio Banderas interpretando um poeta árabe que se juntou a um grupo de vikings trash (!) para guerrear contra seres primitivos na Escandinávia.
Orange and black. Série também chatinha sobre a vida de presidiária de uma ex-lésbica chique. Parei no 2o. episódio.
Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson. Documentário sobre o escritor-jornalista que viveu intensa e ativamente os anos 70 nos EUA. Visto a conta-gotas.
Malévola. Linda Angelina Jollie, como sempre. Efeitos especiais de encher os olhos. Argumento legal. Só não entendi o motivo de ter achado o filme tão chato.
...
Ninguém para dançar a quadrilha de São Pedro.
...
Do novo amor, os óculos. E sono sempre atrasado.
3 projetos planilhas justificativas somatórios formulários cronogramas orçamentos metas objetivos desdobramentos mapas currículos gráficos cifras ajustes portfolios e-mails etc. 1 hora imobilizado, entre 3 caminhões, aguardando a liberação da estrada. Muitos cigarros & nem uma gota de álcool. 2 míseras páginas do Machado e 1 ou outra página do Plutarco ou do Mãe antes de cair no sono. 1 pacote de doce de amendoim. 1 pote de doce de leite com pau de mamão. 1 garrafão de água mineral. Sensação de dúvida quanto a ter ou não valido a pena a trabalheira.
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Sessão Netflix depois do estresse:
Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's): figurino impecável de Audrey Hepburn. cena do início impactante para justificar o título. A sexualidade obscurecida do michê-escritor. A festa quase feliniana. O quase-noivo rico brasileiro. O disco de aula de português de Portugal. O gato sem nome que rouba a cena. Imperdoável só ter visto agora.
Drop dead diva: hilário nos primeiros episódios, mas começando a ficar repetitivo.
O 13o. Guerreiro. Filminho ruim com o sempre sofrível Antonio Banderas interpretando um poeta árabe que se juntou a um grupo de vikings trash (!) para guerrear contra seres primitivos na Escandinávia.
Orange and black. Série também chatinha sobre a vida de presidiária de uma ex-lésbica chique. Parei no 2o. episódio.
Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson. Documentário sobre o escritor-jornalista que viveu intensa e ativamente os anos 70 nos EUA. Visto a conta-gotas.
Malévola. Linda Angelina Jollie, como sempre. Efeitos especiais de encher os olhos. Argumento legal. Só não entendi o motivo de ter achado o filme tão chato.
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Ninguém para dançar a quadrilha de São Pedro.
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Do novo amor, os óculos. E sono sempre atrasado.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
diário depois da invernada
O céu azul do inverno e a luz da tarde dourando tudo. Azul e ouro como a sala do palácio da Rainha Vitória, na Escócia, no filme visto outro dia.
...
Por falar em filme, a crueldade, a corrupção, a falta de escrúpulos durante toda a série e concentrada no último episódio de Os Bórgias: torturam e cortam o dedo do filho adolescente da inimiga Catarina Sforza. Cesare, o cardeal primogênito bastardo do papa Alexandre VI, assassina o irmão general do exército papal e sifilítico Juan Borgia. Antonetto, o capataz gay de Cesare, tortura até quase a morte, corta a língua, e auxilia a queimar na fogueira Savonarola, o frade florentino, visionário e louco. Por o próprio provador de alimentos consegue envenenar o papa.
Se eu acreditasse em reencarnação, certamente eu teria vivido por ali. Se soubesse ler e escrever, teria escrito um diário, perdido para sempre.
Ou, mais provável, teria sido analfabeto. Quem sabe um cavalariço, como o belo Paolo, um dos amantes de Lucrécia? uma prostituta romana? um peixeiro ou vendedor de batatas? um peregrino? um frade? um penitente fanático?
...
Ainda sobre poderes sobrenaturais:
Ele me telefonou reclamando de dor insuportável nas costas. Que eu fosse buscá-lo no trabalho dali a meia hora. Desliguei. Do nada minhas costas começaram a doer. Muito. 15 minutos depois ele liga de novo. Dizendo que eu não precisava me dar ao trabalho de me deslocar tantos quilômetros para buscá-lo, pois a dor que ele sentia desaparecera milagrosamente.
...
De manhã, no rádio do carro, tocou Construção, de Chico Buarque, cantada por Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit.
Eu tinha 15, 16 anos (lá pelo fim dos anos 70) mas era totalmente imaturo quando ouvi a música pela primeira vez.
Foi impactante. Talvez um dos elementos que contribuíram na passagem da infância para a adolescência. Comprei todos os discos dele, e de quebra, muita MPB. Depois dessa fase nunca mais ouvi a música.
Hoje, quando começou a tocar no rádio, parei o carro no acostamento. Para prestar atenção na letra. Primorosa. Nem precisa dizer que a letra é extensa e as rimas são todas com palavras proparoxítonas, isso a gente aprendeu no cursinho pré-vestibular. O maravilhoso é a poesia de cada verso.
Na primeira estrofe o texto é quase literal, situando a história na realidade concreta. A partir da segunda estrofe a estrutura dos versos é a mesma, alterando-se somente as últimas palavras (proparoxítonas), transportando o ouvinte (ou o leitor), degrau por degrau, da construção real para uma construção paralela, essencialmente mágica. Para, no último verso, fazer o leitor (ou o ouvinte) em queda livre, estatelar-se na contramão da realidade palpável. Atrapalhando o cotidiano do sábado.
...
Depois da carência exagerada da invernada, o dia de quase verão que fez hoje açulou os instintos de Zildinha. A bichana estava indomável. Não me deu bola. Nem um ronronar, um miado, sequer um olhar. Passou o tempo todo no quintal, entre as touceiras de plantas ou sob a jaboticabeira espreitando os pássaros. Nem fugiu de medo dos micos. Mal teve tempo para comer e fazer as necessidades na caixa de areia.
Agora mesmo pulou na escrivaninha. Eu, crente que ela ia sossegar, pedir cafuné no focinho. Que nada. Da mesa ela saltou para a janela e da janela para o jardim, de novo. Como um relâmpago. Agarrados na pele muitos carrapichos, folhas e ramos secos e um cocozinho que, talvez na pressa ela, sempre tão higiênica, tenha se esquecido de enterrar.
...
Lendo a correspondência de Machado. Mas isso será tema para outra postagem.
leitura imperdível da semana
de Berê Bahia
Edição do autor
2012
Uma reflexão sobre a história de Brasília através dos filmes que registram a saga da construção, da mudança da capital e seus desdobramentos políticos, culminando com o golpe militar de 1964, os anos de chumbo da ditadura, a abertura, a anistia, as eleições diretas para presidente, a volta da redemocratização e finalmente o cotidiano da cidade revelado pelas lentes dos brasileiros e brasilienses.
(do texto de apresentação, pela autora).
Leitura muito agradável. Desde os primeiros documentários feitos para cine-jornais da época da construção da cidade até os grandes clássicos do cinema brasileiro que passaram pelo Festival de Cinema de Brasília.
Paralelamente à exaustiva ficha técnica e sinopse dos filmes, Berê Bahia fala sobre a biografia dos diretores, atores e outros profissionais realizadores, narrando situações anedóticas de detalhes curiosos. Isso tudo situado e contextualizado aos fatos mais importantes da história brasileira no período.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
diário sangrento
Especulando. Escarafunchando. Instigando. Expondo podres poderes.
...
E eu fui embora sem olhar nos olhos e sem dizer que era ele, depois de tantos anos, finalmente.
...
Discursos. Hiatos. Poemas inconclusos ou inacabados. Descartáveis.
Fabricando cubos de gelo.
...
Poças de sangue, merda, lama & esgoto. Sexo & tortura no filme da sessão da tarde. Luna llena de leche y sangre. Tantos títulos tantos argumentos inócuos.
...
Como assim? Sob a lua cheia & ventos invernais.
...
Como um peixe fora do aquário.
...
E eu fui embora sem olhar nos olhos e sem dizer que era ele, depois de tantos anos, finalmente.
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Discursos. Hiatos. Poemas inconclusos ou inacabados. Descartáveis.
Fabricando cubos de gelo.
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Poças de sangue, merda, lama & esgoto. Sexo & tortura no filme da sessão da tarde. Luna llena de leche y sangre. Tantos títulos tantos argumentos inócuos.
...
Como assim? Sob a lua cheia & ventos invernais.
...
Como um peixe fora do aquário.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
diário sintético
Cada vez mais atento aos sinais.
...
Invento motivos e enredos e argumentos e acontecimentos
enquanto o texto não vem.
...
Restam fragmentos de memória talvez ainda viva &
pulsante. Soterrada por escombros compostos de invólucros mortos da própria memória.
...
A geometria obtusa da cidade. Edifícios sobrepostos
enquadrados por uma lente objetiva que aproxima tudo. Que tira a profundidade
de tudo. Que me achata o olhar ao bidimensional.
Quase como uma pintura construtivista.
...
Enxergo como os peixes cegos das águas profundas e das
cavernas. Como o sonar dos morcegos. Te vejo com olhos de raio-X.
...
Aguardo do lado de fora do mundo. Da existência. Da
realidade palpável.
...
Não, eu não quero me comprometer com esse agora turvo e
tardio e moroso que se me apresenta.
...
A minha essência evita aglomerações.
...
Preciso urinar. Preciso de um café bem forte. Preciso de um sinal impreciso.
Preciso morrer por enquanto.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
diário obtuso
Saldo da tarde na TV da sala-de-espera do oftalmologista: reportagem sobre
cultura no Maranhão; diz-que-diz-que da vida privada das divindades do
candomblé; voz de veludo da diva cantando seus maiores sucessos; notícias apocalípticas das greves espalhadas pelo país. No mundo real todos os pacientes mesmo aqueles com pupilas dilatadas debruçados em seus
aparelhos celulares. Ah, tinha também as coxas grossas sob o jeans justíssimo do
rapaz feioso.
...
Expectativas (frustradas).
...
Baratas sobrevoam o céu da minha boca. Morcegos pendem da abóboda da caverna-catedral do meu peito. Roedores solapam a base das estruturas conceituais do meu mundinho contemporâneo.
...
Tento concentrar ideias em orações com 2 ou 3 palavras. Pensamentos-acrobacias sobre a motocicleta no globo da morte.
...
Divagando rememorando recapitulando reorganizando pensamentos e imagens.
...
hoje eu não vi o novo amor
...
Ando obtuso além do normal.
...
Expectativas (frustradas).
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Baratas sobrevoam o céu da minha boca. Morcegos pendem da abóboda da caverna-catedral do meu peito. Roedores solapam a base das estruturas conceituais do meu mundinho contemporâneo.
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Tento concentrar ideias em orações com 2 ou 3 palavras. Pensamentos-acrobacias sobre a motocicleta no globo da morte.
...
Divagando rememorando recapitulando reorganizando pensamentos e imagens.
...
hoje eu não vi o novo amor
...
Ando obtuso além do normal.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
para morrer basta estar vivo
A boa escrita tem regras esquisitas. Por exemplo, a de se evitar os jargões, os lugares-comuns, as frases feitas, os ditos populares. Eu gosto e as utilizo, talvez para expor a ironia da pretensão, nata ou inata em todos nós, de criar algo novo e grandioso. Por trás da obviedade algumas dessas construções de mau gosto têm muita sabedoria. Como o título acima.
...
Moro em uma casa com portas largas de vidro transparente. Ver o tempo todo o verde e grande parte co céu do mundo exterior provoca uma sensação agradável de se estar integrado e ao mesmo tempo protegido de tamanha exuberância.
Porém o vidro não é bom para os pássaros. Quando as portas estão fechadas em certas horas do dia, a paisagem reflete-se com tanta nitidez nelas que os pássaros se confundem. Eles não enxergam a barreira invisível. E se esborracham no vidro. Geralmente o choque é tão forte que (talvez devido à oleosidade das penas) o contorno do pássaro fica desenhado na superfície transparente.
Desenho delicado e terrível do momento exato em que a morte veio. Súbita, fulminante e inexplicável.
...
Como agora pouco, o pombo. Ou a pomba, para dar mais dramaticidade à narrativa.
Eu estava me preparando para trabalhar (leia-se: jogando candy crush) quando ouvi o estrondo. Já conhecendo os precedentes, nem me assustei.
Tinha sido na varanda. Estava lá o corpo encolhido no chão. Uma pomba grande, silvestre, da cor de cinza e prateado. Patas vermelhas, olhos fechados, um fio de sangue escorrido pelo bico. Penugem e grãos de ração semidigeridos espalhados em volta. No vidro, ao invés do contorno, um borrão pastoso escorrendo.
Pobre pomba. Tinha acabado de se alimentar. Pelo visto uma refeição lauta, compartilhada da vasilha de comida de algum cão da vizinhança. Tinha bebido água. Provavelmente os grãos inteiros de ração ela levaria para os filhotes no ninho.
A pomba devia estar feliz. Voava distraída, satisfeita depois das responsabilidades cumpridas: barriga cheia, alimento para a prole. Devia estar pensando em tirar o dia de folga, para simplesmente existir, aproveitar o céu muito azul, a temperatura agradável, o verde da grama e das árvores revivido depois da chuva do dia anterior, algum fruto do pomar - enfim, a manhã tão linda, em toda a sua plenitude.
Devaneio interrompido bruscamente pela barreira implacável do vidro.
Para sorte da pomba (será coerente associar os sentidos de morte e sorte?) de tão violenta, a passagem da dimensão real para alguma outra inexplicavelmente paralela, deve ter sido imperceptível. Pouco mais que um soluço.
Afirmar que na dimensão paralela o céu é mais azul ainda, a temperatura ainda mais agradável, o verde mais verde, a manhã mais linda e, espalhados pelo chão, pululam milhares de vasilhas de cães transbordantes de ração é pura pieguice ou carolice.
Depois do soluço-morte, imagino, a pomba adentrou no nevoeiro cinzento, úmido e denso onde voará sem pouso ou descanso por toda a eternidade.
...
Moro em uma casa com portas largas de vidro transparente. Ver o tempo todo o verde e grande parte co céu do mundo exterior provoca uma sensação agradável de se estar integrado e ao mesmo tempo protegido de tamanha exuberância.
Porém o vidro não é bom para os pássaros. Quando as portas estão fechadas em certas horas do dia, a paisagem reflete-se com tanta nitidez nelas que os pássaros se confundem. Eles não enxergam a barreira invisível. E se esborracham no vidro. Geralmente o choque é tão forte que (talvez devido à oleosidade das penas) o contorno do pássaro fica desenhado na superfície transparente.
Desenho delicado e terrível do momento exato em que a morte veio. Súbita, fulminante e inexplicável.
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Como agora pouco, o pombo. Ou a pomba, para dar mais dramaticidade à narrativa.
Eu estava me preparando para trabalhar (leia-se: jogando candy crush) quando ouvi o estrondo. Já conhecendo os precedentes, nem me assustei.
Tinha sido na varanda. Estava lá o corpo encolhido no chão. Uma pomba grande, silvestre, da cor de cinza e prateado. Patas vermelhas, olhos fechados, um fio de sangue escorrido pelo bico. Penugem e grãos de ração semidigeridos espalhados em volta. No vidro, ao invés do contorno, um borrão pastoso escorrendo.
Pobre pomba. Tinha acabado de se alimentar. Pelo visto uma refeição lauta, compartilhada da vasilha de comida de algum cão da vizinhança. Tinha bebido água. Provavelmente os grãos inteiros de ração ela levaria para os filhotes no ninho.
A pomba devia estar feliz. Voava distraída, satisfeita depois das responsabilidades cumpridas: barriga cheia, alimento para a prole. Devia estar pensando em tirar o dia de folga, para simplesmente existir, aproveitar o céu muito azul, a temperatura agradável, o verde da grama e das árvores revivido depois da chuva do dia anterior, algum fruto do pomar - enfim, a manhã tão linda, em toda a sua plenitude.
Devaneio interrompido bruscamente pela barreira implacável do vidro.
Para sorte da pomba (será coerente associar os sentidos de morte e sorte?) de tão violenta, a passagem da dimensão real para alguma outra inexplicavelmente paralela, deve ter sido imperceptível. Pouco mais que um soluço.
Afirmar que na dimensão paralela o céu é mais azul ainda, a temperatura ainda mais agradável, o verde mais verde, a manhã mais linda e, espalhados pelo chão, pululam milhares de vasilhas de cães transbordantes de ração é pura pieguice ou carolice.
Depois do soluço-morte, imagino, a pomba adentrou no nevoeiro cinzento, úmido e denso onde voará sem pouso ou descanso por toda a eternidade.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
diário homeopático
(Do Netflix:) Aprendendo sobre as maravilhas da vida selvagem cidades inusitadas, centenas de etnias e seus costumes milenares da China. Sobre a ridícula problemática masculina quanto o tamanho do pênis. Prosseguindo o veio histórico: depois das primeiras temporadas do Da Vinci Demons e de Vikings, os episódios de The Borgias, com Jeremy Irons no papel do papa e roteiro e direção de Neil Jordan.
...
(Das leituras:) Agarrado no Plutarco, como dizem os mineiros.
Caindo na barriga do Grande Sertão, quando Riobaldo tenta fazer pacto com o diabo. (Barriga, no jargão teatral, é aquela parte da encenação que perde o ritmo ou o sentido, e onde fatalmente o espectador se distrai).
Procópio Dias é o primeiro personagem declaradamente cínico que encontrei na leitura de Machado (Iaiá Garcia).
Além disso: um romance para adolescentes interessante, onde o personagem vive cada dia no corpo de uma pessoa diferente. Um romance chatérrimo da biblioteca das moças intitulado Vendida! O Avesso da Cena, de Rômulo Avelar, bem legal, sobre produção e gestão cultural (para ficar afiado nos novos trabalhos). E o Antitratado de Cenografia, do Gianni Ratto, também para trabalhos futuros.
...
(Do corpo:) Sem malhar por conta da possível tendinite no braço direito.
Ontem eu nadei sobre a água gelada e sob as nuvens cinzentas & os relâmpagos da tempestade.
O salva-vidas tem nome de filósofo e corpo de estátua gregos.
...
(Da mente e da alma:) Estopim curto. Autocontrole para não rodar a baiana diante do monólogo materno interior exteriorizado, ininterrupto, às primeiras horas da manhã e das invasões de domicílio a qualquer hora do dia. Tentando administrar o tempo produtivo, controlar as crises de ansiedade e debelar a inércia. Para não degringolar de vez persisto na abstinência alcoólica. Até quando?
...
(Do coração:) Administrando a possessividade. Convivendo com crises de pânico e de identidade.
Enganou-se quem disse que amar é paraíso.
...
(Para um futuro próximo cor-de-rosa:) Igatia Amara; Lycopodium Clavatum; Carbo Vegetabilis.
...
(Das leituras:) Agarrado no Plutarco, como dizem os mineiros.
Caindo na barriga do Grande Sertão, quando Riobaldo tenta fazer pacto com o diabo. (Barriga, no jargão teatral, é aquela parte da encenação que perde o ritmo ou o sentido, e onde fatalmente o espectador se distrai).
Procópio Dias é o primeiro personagem declaradamente cínico que encontrei na leitura de Machado (Iaiá Garcia).
Além disso: um romance para adolescentes interessante, onde o personagem vive cada dia no corpo de uma pessoa diferente. Um romance chatérrimo da biblioteca das moças intitulado Vendida! O Avesso da Cena, de Rômulo Avelar, bem legal, sobre produção e gestão cultural (para ficar afiado nos novos trabalhos). E o Antitratado de Cenografia, do Gianni Ratto, também para trabalhos futuros.
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(Do corpo:) Sem malhar por conta da possível tendinite no braço direito.
Ontem eu nadei sobre a água gelada e sob as nuvens cinzentas & os relâmpagos da tempestade.
O salva-vidas tem nome de filósofo e corpo de estátua gregos.
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(Da mente e da alma:) Estopim curto. Autocontrole para não rodar a baiana diante do monólogo materno interior exteriorizado, ininterrupto, às primeiras horas da manhã e das invasões de domicílio a qualquer hora do dia. Tentando administrar o tempo produtivo, controlar as crises de ansiedade e debelar a inércia. Para não degringolar de vez persisto na abstinência alcoólica. Até quando?
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(Do coração:) Administrando a possessividade. Convivendo com crises de pânico e de identidade.
Enganou-se quem disse que amar é paraíso.
...
(Para um futuro próximo cor-de-rosa:) Igatia Amara; Lycopodium Clavatum; Carbo Vegetabilis.
domingo, 1 de junho de 2014
da série: na cozinha com lavoisier
Constate que os roncos da tua barriga são sinal de fome. E que você está imobilizado uma preguiça mortal de enfrentar o trânsito e a espera no restaurante, às 13 horas do domingo. Verifique as hipóteses parcas da despensa e da geladeira: 1 porção de arroz congelado; um pedaço de gorgonzola restante do último evento, há uns 15 dias atrás; meia dúzia de castanhas-do-Pará que sobraram do preparo da granola; 3 dentes de alho meio murchos resgatados de uma cabeça esquecida; sal, azeite; orégano; pimenta-do-reino moída; pimenta dedo-de-moça; queijo goiano ralado no lugar de parmesão.
Corte os dentes de alho em fatias finas. Retire as sementes da pimenta dedo-de-moça e corte-a em rodelas. Refogue no azeite. Junte o orégano e a pimenta-do-reino, sal a gosto e deixe dourar. Despeje aos poucos o arroz previamente descongelado no micro-ondas. Mexa bem. Quando estiver bem quente, misture as castanhas picadas e o gorgonzola esfarelado e desligue o fogo.
Unte a travessa refratária ou de inox com azeite. Despeje a mistureba. Cubra com o queijo ralado e leve ao forno até dourar. Retire e sirva com a salada de agrião e alface que sobreviveram milagrosamente por 2 semanas na gaveta da geladeira.
Convide alguém muito especial, tipo o filho mais legal do mundo, e espere que ele que te ofereça para colaborar com o almoço improvisado. Levando, por exemplo, um tupperware cheio de strogonoff de frango, um saco de batata-palha e uma coca-cola 600 ml.
Deguste o prato e repita se quiser. Guarde as sobras para o dia seguinte (nunca se sabe). Permita que o filho lave a louça. E passe a tarde mais agradável dos últimos tempos jogando conversa fora e sendo feliz na companhia de quem você tanto ama.
Corte os dentes de alho em fatias finas. Retire as sementes da pimenta dedo-de-moça e corte-a em rodelas. Refogue no azeite. Junte o orégano e a pimenta-do-reino, sal a gosto e deixe dourar. Despeje aos poucos o arroz previamente descongelado no micro-ondas. Mexa bem. Quando estiver bem quente, misture as castanhas picadas e o gorgonzola esfarelado e desligue o fogo.
Unte a travessa refratária ou de inox com azeite. Despeje a mistureba. Cubra com o queijo ralado e leve ao forno até dourar. Retire e sirva com a salada de agrião e alface que sobreviveram milagrosamente por 2 semanas na gaveta da geladeira.
Convide alguém muito especial, tipo o filho mais legal do mundo, e espere que ele que te ofereça para colaborar com o almoço improvisado. Levando, por exemplo, um tupperware cheio de strogonoff de frango, um saco de batata-palha e uma coca-cola 600 ml.
Deguste o prato e repita se quiser. Guarde as sobras para o dia seguinte (nunca se sabe). Permita que o filho lave a louça. E passe a tarde mais agradável dos últimos tempos jogando conversa fora e sendo feliz na companhia de quem você tanto ama.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
diário das palavras-imagens
Atônito diante da esfinge. Dancei com lobisomens. Entre parêntesis. Os dióscuros. Neblina. Calabouço. Ossos.
...
As palavras ocas. Zumbidos. A areia do deserto nos meus olhos. Travessia do Letes. Cérbero. Morcegos-lâminas entre os dentes. No oco do crânio. Vermes.
...
A flor negra da morte em Baudelaire & Augusto dos Anjos. O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
...
Ruem os pilares que sustentam as abóbadas dos meus dentros. Rugem o mar, a besta tricórnea, a tempestade de granizo.
...
A lentidão das horas. As palavras imprecisas. O fogo-fátuo das ideias. Haverá mesmo alma?
...
O príncipe imerso. O jorro dos vulcões-falos. No aquário das almas-anêmonas.
...
Sangria.
...
Escuridão.
..
Silêncio.
...
As palavras ocas. Zumbidos. A areia do deserto nos meus olhos. Travessia do Letes. Cérbero. Morcegos-lâminas entre os dentes. No oco do crânio. Vermes.
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A flor negra da morte em Baudelaire & Augusto dos Anjos. O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
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Ruem os pilares que sustentam as abóbadas dos meus dentros. Rugem o mar, a besta tricórnea, a tempestade de granizo.
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A lentidão das horas. As palavras imprecisas. O fogo-fátuo das ideias. Haverá mesmo alma?
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O príncipe imerso. O jorro dos vulcões-falos. No aquário das almas-anêmonas.
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Sangria.
...
Escuridão.
..
Silêncio.
terça-feira, 27 de maio de 2014
autoajuda com bacalhau
Outro dia convidei para almoçar uma amiga que há muitos anos não via. Chamei outros amigos da época. Tentei caprichar no almoço. Pão de centeio e de farinha de arroz para os celíacos, pasta de grão-de-bico e berinjela de entrada. Salada bonita e saudável, com mussarela de búfala ou tofu grelhado para os intolerantes à lactose. Arroz milagrosamente soltinho. Arranjo de rosas-chá, margaridas, papos-de-anjo e lírios amarelos.
Fruteira no centro da mesa ao ar livre, sobre a toalha rendada, quase como uma natureza-morta abstracionista (existe?), quase Kandinski quase Mondrian. Suco de uvas verdes, Incenso de alecrim - tudo perfeito. Exceto o
prato principal.
Era uma receita nova. Os ingredientes eram de primeira. Bacalhau do Porto com muitos centímetros de espessura. Coloquei para dessalgar desde a manhã do dia anterior, trocando a água gelada a cada 4 horas. Fervi as postas no leite, depositei-as com a maior delicadeza sobre o leito de batatas cozidas e amassadas à mão, cobri com a camada de maionese e queijo parmesão, calculei o tempo e temperatura exatos para gratinar - e por fim espalhei naquela casquinha dourada ovos cozidos esfarelados e azeitonas pretas do tamanho de ovos de codorna.
Foi unânime o regozijo ao colocar o prato na mesa. A aparência era de dar água na boca. Mas na hora de comer, todos em silêncio. Nenhum elogio, nem por educação. O que o prato tinha de lindo, tinha de salgado. Muito salgado. Salgado mesmo. Intragável. De queimar a língua e os lábios.
Os convivas resolveram da melhor forma. Se empanturraram de arroz com azeite ou sanduíches feitos com os pães sem glúten recheados com as saladas e muito suco de uva.
O bacalhau especial salgadérrimo quase intocado rendeu risotos, escondidinhos, sopas e otras cositas más durante a semana seguinte ao evento.
...
Mais recentemente houve outro evento especial, também em homenagem à amizades antigas. Devido a restrições orçamentárias e à falta de tempo, a receita foi elaborada com o que havia na geladeira e despensa: Azeite, 2 bandejas de peixe desfiado tipo bacalhau - aqueles vendidos a granel no supermercado por 1/5 do preço do verdadeiro. Só precisei comprar cebolas, brócolis congelado, batatas e pimentões coloridos - vermelho, verde, amarelo - um de cada.
Era o infalível bacalhau à portuguesa, tipo cozidão, tudo misturado, em camadas, receita que faço há anos, e nunca deu errado:
Untar a forma refratária com azeite; espalhar uma camada de batatas pré-cozidas, fatiadas mais ou menos com a espessura de 1cm; regar com azeite; espalhar uma camada de cebolas cortadas em pétalas; mais azeite; espalhar o bacalhau desfiado e dessalgado em pedaços não muito pequenos; mais uma regada de azeite; cobrir com outra camada de batatas; levar ao forno pré-aquecido a 250 graus por 30 a 40 minutos; depois de assado, enfeitar com tiras de pimentão colorido e flores de brócolis previamente refogadas no azeite, para amolecer; e espalhar as azeitonas.
Para evitar a problemática do prato anterior, eu coloquei de molho com mais um dia de antecedência. Foi o erro. Os tais peixinhos tipo bacalhau (acho que são feitos de filé de merluza) são delgados e não absorvem tão profundamente o sal quanto o verdadeiro e espesso bacalhau português-norueguês. O sal saiu todo. Ou seja, mais uma vez o prato ficou lindo, mas completamente insosso.
Pelo menos era mais fácil remediar. Nunca o saleiro foi tão utilizado.
...
Uma das convidadas dos dois eventos era uma amiga que, além de gueixa é artista, filósofa, pitonisa e cozinheira de mão cheia. Ela tem um ditado mais ou menos assim: você pode saber as técnicas mais maravilhosas, os equipamentos mais sofisticados, cozinhar com os melhores ingredientes mas se não estiver inspirado não adianta por que algo vai dar errado.
Essa inspiração, segundo ela, tem a ver com amor e desprendimento. Você tem que vivenciar cada momento, desde os preparativos - as escolha dos ingredientes, a ida ao supermercado, o preparo, a arrumação da casa, a disposição dos pratos e dos talheres na mesa - aí tudo acontece, tudo flui, a comida ficará sempre deliciosa.
...
E daí? Qual a moral, a conclusão da postagem?
Confesso, não sei bem. Realizar os dois eventos foi um esforço grande de sair da casca (ou, melhor, de trazer companhia para a casca, uma vez que está difícil sair dela), onde tenho permanecido mais tempo que o recomendável. Apesar do orgulho ferido do cozinheiro, no fim das contas pouco ou quase nada importou se a comida era boa ou ruim, chique ou trivial, salgada ou insossa. O que valeu - e vale sempre - é reunir as pessoas. Falar bobagens, rir, relaxar, deixar de lado as formalidades. Compartilhar com elas momentos de felicidade que, mesmo ínfimos, são únicos e perdurarão muito tempo, quem sabe até o final das nossas existências.
...
Isso me faz lembrar o conto de Clarice sobre um almoço de sábado.
Era uma receita nova. Os ingredientes eram de primeira. Bacalhau do Porto com muitos centímetros de espessura. Coloquei para dessalgar desde a manhã do dia anterior, trocando a água gelada a cada 4 horas. Fervi as postas no leite, depositei-as com a maior delicadeza sobre o leito de batatas cozidas e amassadas à mão, cobri com a camada de maionese e queijo parmesão, calculei o tempo e temperatura exatos para gratinar - e por fim espalhei naquela casquinha dourada ovos cozidos esfarelados e azeitonas pretas do tamanho de ovos de codorna.
Foi unânime o regozijo ao colocar o prato na mesa. A aparência era de dar água na boca. Mas na hora de comer, todos em silêncio. Nenhum elogio, nem por educação. O que o prato tinha de lindo, tinha de salgado. Muito salgado. Salgado mesmo. Intragável. De queimar a língua e os lábios.
Os convivas resolveram da melhor forma. Se empanturraram de arroz com azeite ou sanduíches feitos com os pães sem glúten recheados com as saladas e muito suco de uva.
O bacalhau especial salgadérrimo quase intocado rendeu risotos, escondidinhos, sopas e otras cositas más durante a semana seguinte ao evento.
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Mais recentemente houve outro evento especial, também em homenagem à amizades antigas. Devido a restrições orçamentárias e à falta de tempo, a receita foi elaborada com o que havia na geladeira e despensa: Azeite, 2 bandejas de peixe desfiado tipo bacalhau - aqueles vendidos a granel no supermercado por 1/5 do preço do verdadeiro. Só precisei comprar cebolas, brócolis congelado, batatas e pimentões coloridos - vermelho, verde, amarelo - um de cada.
Era o infalível bacalhau à portuguesa, tipo cozidão, tudo misturado, em camadas, receita que faço há anos, e nunca deu errado:
Untar a forma refratária com azeite; espalhar uma camada de batatas pré-cozidas, fatiadas mais ou menos com a espessura de 1cm; regar com azeite; espalhar uma camada de cebolas cortadas em pétalas; mais azeite; espalhar o bacalhau desfiado e dessalgado em pedaços não muito pequenos; mais uma regada de azeite; cobrir com outra camada de batatas; levar ao forno pré-aquecido a 250 graus por 30 a 40 minutos; depois de assado, enfeitar com tiras de pimentão colorido e flores de brócolis previamente refogadas no azeite, para amolecer; e espalhar as azeitonas.
Para evitar a problemática do prato anterior, eu coloquei de molho com mais um dia de antecedência. Foi o erro. Os tais peixinhos tipo bacalhau (acho que são feitos de filé de merluza) são delgados e não absorvem tão profundamente o sal quanto o verdadeiro e espesso bacalhau português-norueguês. O sal saiu todo. Ou seja, mais uma vez o prato ficou lindo, mas completamente insosso.
Pelo menos era mais fácil remediar. Nunca o saleiro foi tão utilizado.
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Uma das convidadas dos dois eventos era uma amiga que, além de gueixa é artista, filósofa, pitonisa e cozinheira de mão cheia. Ela tem um ditado mais ou menos assim: você pode saber as técnicas mais maravilhosas, os equipamentos mais sofisticados, cozinhar com os melhores ingredientes mas se não estiver inspirado não adianta por que algo vai dar errado.
Essa inspiração, segundo ela, tem a ver com amor e desprendimento. Você tem que vivenciar cada momento, desde os preparativos - as escolha dos ingredientes, a ida ao supermercado, o preparo, a arrumação da casa, a disposição dos pratos e dos talheres na mesa - aí tudo acontece, tudo flui, a comida ficará sempre deliciosa.
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E daí? Qual a moral, a conclusão da postagem?
Confesso, não sei bem. Realizar os dois eventos foi um esforço grande de sair da casca (ou, melhor, de trazer companhia para a casca, uma vez que está difícil sair dela), onde tenho permanecido mais tempo que o recomendável. Apesar do orgulho ferido do cozinheiro, no fim das contas pouco ou quase nada importou se a comida era boa ou ruim, chique ou trivial, salgada ou insossa. O que valeu - e vale sempre - é reunir as pessoas. Falar bobagens, rir, relaxar, deixar de lado as formalidades. Compartilhar com elas momentos de felicidade que, mesmo ínfimos, são únicos e perdurarão muito tempo, quem sabe até o final das nossas existências.
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Isso me faz lembrar o conto de Clarice sobre um almoço de sábado.
zeugma, em breve
Zeugma é a figura de linguagem pela qual se subentendem, em uma ou mais frases ou orações, palavras expressas em outra frase ou oração que com essas está ligada. Ex.: foi lançado o satélite, e [foram] capturados os seus sinais.
...
Zeugma é o nome de uma antiga cidade romana, às margens do rio Eufrates, na Ásia Menor. Conta Plínio, o Velho, que a cidade era um ponto estratégico na rota da seda, que estabelecia o comércio do ocidente com a China. Em suas ruínas foram recuperados os famosos Mosaicos de Zeugma, hoje expostos no Museu de História da cidade de Gaziantep. As ruínas de Zeugma estão hoje encobertas pelas águas de uma represa de Birecik, ao sul da Turquia, próxima à fronteira com a Síria.
...
Zeugma é também o título de um texto-imagem pop-enciclopédico que, queiram os deuses, será brevemente publicado, junto com O Livro dos Cacos, em primorosa, requintada, cuidadosa edição, para o deleite de leitores e admiradores.
...
Zeugma é o nome de uma antiga cidade romana, às margens do rio Eufrates, na Ásia Menor. Conta Plínio, o Velho, que a cidade era um ponto estratégico na rota da seda, que estabelecia o comércio do ocidente com a China. Em suas ruínas foram recuperados os famosos Mosaicos de Zeugma, hoje expostos no Museu de História da cidade de Gaziantep. As ruínas de Zeugma estão hoje encobertas pelas águas de uma represa de Birecik, ao sul da Turquia, próxima à fronteira com a Síria.
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Zeugma é também o título de um texto-imagem pop-enciclopédico que, queiram os deuses, será brevemente publicado, junto com O Livro dos Cacos, em primorosa, requintada, cuidadosa edição, para o deleite de leitores e admiradores.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
a mensagem
Há algum tempo recebi pelo celular a seguinte mensagem:
"Desculpa por interromper vc a essa hora. Meu nome e Deus. Pq vc nao se importa comigo??? Eu tenho protegido vc desde o dia q vc nasceu. tenho abencoado vc, quero essa msg no mundo inteiro, antes da meia noite, nao ignore, vc esta sendo testado (a), se vc fizer isso , eu irei corrigir 2 grandes erros em sua vida e vou ajudalo em algo que estas em necessidade e seu dia que segue sera muito abencoado, entao envia essa msg para 14 pessoaa em 10 minutos".
Minha primeira providência foi checar o número na lista de contatos. Não constava. Só podia ser engano. Ou será que ele recorrera ao superpoder da onisciência?
Senti um calafrio. Mesmo com toda formação ateia socialista pelo lado paterno, havia resquício daquele temor e culpa ancestral, católico apostólico português, espanhol, mineirinho do resto da família. Nunca um clichê se encaixou tão bem: yo no creo, pero...
A essa altura os neurônios responsáveis pelo materialismo dialético histórico do cérebro tinham entrado em curto-circuito. Empiricamente liguei para o número registrado na mensagem.
Ainda tive coragem de esperar o primeiro sinal de chamada. Desliguei em seguida. Vai que ele atende? Eu gaguejaria: Senhor? Milord? Vossa Excelência? Vossa Santidade? Pai? E o que eu diria depois?
Quem dera eu tivesse a desenvoltura da amiga que bate altos papos com ele, via e-mail.
...
Deixei a taquicardia passar, o temor esfriar, tentei me acostumar com o sobrenatural. Fui cuidar da vida. Editar uns depoimentos para a pesquisa, pensar em soluções para o trabalho encalacrado, estudar a lição de inglês, pagar umas contas pela internet, ligar para o novo amor, tomar uma taça de vinho para relaxar, ver um filme, tomar banho e dormir.
Para só no dia seguinte pensar na mensagem divina.
...
Muito antigamente o formato utilizado por Deus chamava-se corrente. A pessoa recebia uma carta (geralmente anônima) com a mesmíssima estrutura formal do texto em tela. Podia ser da parte de um devoto de santo, de pessoa necessitada (geralmente estrangeira). Prometiam benefícios, materiais ou, menos comuns, espirirtuais. Pediam em troca dinheiro, selos, preces - depósitos em fé ou espécie. Quase todas encerravam-se com a ameaça:
Frau Helga, de Munich, quebrou a corrente e perdeu todo o dinheiro aplicado na poupança. Mariazinha Silva, de Belém do Pará, quebrou a perna. Bob Wilson, do Texas, rasgou a carta e no mesmo dia a esposa o abandonou. Então resgatou a mesma e a reenviou para 55 pessoas e no dia seguinte a esposa voltou trazendo 1 milhão de dólares. Assim por diante.
O destinatário deveria copiar e remeter a referida carta para a quantidade de pessoas nela especificadas e, na calada da noite ou à primeiras luzes do alvorecer, enfiava cada uma das cópias nas caixas de correio ou pelas frestas das portas das casas da vizinhança. Depois era só aguardar a benesse, a vantagem ou o milagre prometido.
Passado o período pré-histórico das cartas manuscritas e depois xerocadas, veio a moda das correntes por e-mail. Teve uma época em que as caixas postais eletrônicas ficavam abarrotadas delas. Modernizadas e potencializadas e disseminadas ao extremo, porém totalmente estagnadas no que se refere ao estilo: as mesmas explicações, ameaças, exemplos, apelos e ordens.
Agora a novidade: corrente via celular.
...
Insone madrugada afora, resolvi analisar a mensagem.
Ao invés daquelas intervenções épicas (oceanos se abrindo, vozes estereofônicas vindas das nuvens, relâmpagos, ventanias ou eclipses) ele optou pela simplicidade da modernidade, utilizando-se de uma ferramenta tecnológica tão banal e eficaz quanto o messenger. Criatividade celestial.
1. Apesar da qualidade questionável, o texto criado pelo publicitário dono da conta Divina atingiu os objetivos: ser extremamente pessoal abrangendo ao mesmo tempo o máximo de ovelhas desgarradas do rebanho. (Se não fosse a possibilidade dos dois gêneros na palavra testado(a), eu juraria que a mensagem era exclusiva).
2. Se a mensagem foi digitada sem a ajuda do publicitário, ele se esqueceu de ativar o corretor automático.
3. Ou então estava com muita pressa para não se demorar nos acentos, nas cedilhas e nas concordâncias. Pressa justificável para quem construiu o universo em 6 dias.
4. Ou então, ainda e mais plausível, não era obrigado a conhecer a fundo o português, uma língua tão complicada e não tão sagrada quanto o hebraico (sua língua original) nem tão universal quanto o inglês.
5. O provável dedo do provável publicitário, atualizando e adaptando a velha mensagem (a mesma desde o tempo em que a serpente ofereceu o fruto proibido a Eva) à informalidade das síncopes utilizadas pelos usuários das redes sociais: vc, pq, msg.
...
Empaquei. Ou caí no peguinha preparado por ele. Afinal, quais os 2 erros eu elegeria para serem corrigidos, dentre os tantos grandes erros cometidos em mais de meio século de existência?
...
Por fim rascunhei a resposta:
Prezado Deus,
Espero não magoá-lo por não levar a diante vossa corrente. Por 3 motivos: primeiro, por não ter suficientes amigos íntimos quanto os exigidos para apontar-lhes os erros e assim disseminar e tornar eficaz a vossa campanha publicitária. Segundo por não conseguir decidir quais seriam os dois, dentre os tantos erros pelos quais vós corrigiríeis. Por último, sem ser desrespeitoso, por eu ser daqueles pessimistas negativistas agnósticos que não acreditam em destino e muito menos na possibilidade de sua mudança. E que, apesar do apego ferrenho à vida, apregoa que viver é o nosso maior erro.
PS.: se achar que vale a pena posso vos indicar um excelente e barateiro revisor ortográfico-gramatical-estilístico.
...
Mandei? óbvio que não. E se ele não entendesse o gracejo? se considerasse blasfêmia essa postagem? se se enfurecesse a ponto de bloquear o sinal ou clonar meu celular, por exemplo, enviando à revelia, a mensagem para todos os meus centos de contatos?
Ou atirasse um raio para rachar minha soberba ao meio?
...
(O castigo veio. Não como raio, vírus virtual, bloqueio de sinal. Veio na forma da crise criativa que se estende desde o dia em que rascunhei a resposta à interpelação divina até sabe-se lá quando - crise de tal proporção que me obriga a publicar este texto ruinzinho só para não deixar os preciosos 4 seguidores do blog abandonarem-no, deixando-o morrer à míngua).
"Desculpa por interromper vc a essa hora. Meu nome e Deus. Pq vc nao se importa comigo??? Eu tenho protegido vc desde o dia q vc nasceu. tenho abencoado vc, quero essa msg no mundo inteiro, antes da meia noite, nao ignore, vc esta sendo testado (a), se vc fizer isso , eu irei corrigir 2 grandes erros em sua vida e vou ajudalo em algo que estas em necessidade e seu dia que segue sera muito abencoado, entao envia essa msg para 14 pessoaa em 10 minutos".
Minha primeira providência foi checar o número na lista de contatos. Não constava. Só podia ser engano. Ou será que ele recorrera ao superpoder da onisciência?
Senti um calafrio. Mesmo com toda formação ateia socialista pelo lado paterno, havia resquício daquele temor e culpa ancestral, católico apostólico português, espanhol, mineirinho do resto da família. Nunca um clichê se encaixou tão bem: yo no creo, pero...
A essa altura os neurônios responsáveis pelo materialismo dialético histórico do cérebro tinham entrado em curto-circuito. Empiricamente liguei para o número registrado na mensagem.
Ainda tive coragem de esperar o primeiro sinal de chamada. Desliguei em seguida. Vai que ele atende? Eu gaguejaria: Senhor? Milord? Vossa Excelência? Vossa Santidade? Pai? E o que eu diria depois?
Quem dera eu tivesse a desenvoltura da amiga que bate altos papos com ele, via e-mail.
...
Deixei a taquicardia passar, o temor esfriar, tentei me acostumar com o sobrenatural. Fui cuidar da vida. Editar uns depoimentos para a pesquisa, pensar em soluções para o trabalho encalacrado, estudar a lição de inglês, pagar umas contas pela internet, ligar para o novo amor, tomar uma taça de vinho para relaxar, ver um filme, tomar banho e dormir.
Para só no dia seguinte pensar na mensagem divina.
...
Muito antigamente o formato utilizado por Deus chamava-se corrente. A pessoa recebia uma carta (geralmente anônima) com a mesmíssima estrutura formal do texto em tela. Podia ser da parte de um devoto de santo, de pessoa necessitada (geralmente estrangeira). Prometiam benefícios, materiais ou, menos comuns, espirirtuais. Pediam em troca dinheiro, selos, preces - depósitos em fé ou espécie. Quase todas encerravam-se com a ameaça:
Frau Helga, de Munich, quebrou a corrente e perdeu todo o dinheiro aplicado na poupança. Mariazinha Silva, de Belém do Pará, quebrou a perna. Bob Wilson, do Texas, rasgou a carta e no mesmo dia a esposa o abandonou. Então resgatou a mesma e a reenviou para 55 pessoas e no dia seguinte a esposa voltou trazendo 1 milhão de dólares. Assim por diante.
O destinatário deveria copiar e remeter a referida carta para a quantidade de pessoas nela especificadas e, na calada da noite ou à primeiras luzes do alvorecer, enfiava cada uma das cópias nas caixas de correio ou pelas frestas das portas das casas da vizinhança. Depois era só aguardar a benesse, a vantagem ou o milagre prometido.
Passado o período pré-histórico das cartas manuscritas e depois xerocadas, veio a moda das correntes por e-mail. Teve uma época em que as caixas postais eletrônicas ficavam abarrotadas delas. Modernizadas e potencializadas e disseminadas ao extremo, porém totalmente estagnadas no que se refere ao estilo: as mesmas explicações, ameaças, exemplos, apelos e ordens.
Agora a novidade: corrente via celular.
...
Insone madrugada afora, resolvi analisar a mensagem.
Ao invés daquelas intervenções épicas (oceanos se abrindo, vozes estereofônicas vindas das nuvens, relâmpagos, ventanias ou eclipses) ele optou pela simplicidade da modernidade, utilizando-se de uma ferramenta tecnológica tão banal e eficaz quanto o messenger. Criatividade celestial.
1. Apesar da qualidade questionável, o texto criado pelo publicitário dono da conta Divina atingiu os objetivos: ser extremamente pessoal abrangendo ao mesmo tempo o máximo de ovelhas desgarradas do rebanho. (Se não fosse a possibilidade dos dois gêneros na palavra testado(a), eu juraria que a mensagem era exclusiva).
2. Se a mensagem foi digitada sem a ajuda do publicitário, ele se esqueceu de ativar o corretor automático.
3. Ou então estava com muita pressa para não se demorar nos acentos, nas cedilhas e nas concordâncias. Pressa justificável para quem construiu o universo em 6 dias.
4. Ou então, ainda e mais plausível, não era obrigado a conhecer a fundo o português, uma língua tão complicada e não tão sagrada quanto o hebraico (sua língua original) nem tão universal quanto o inglês.
5. O provável dedo do provável publicitário, atualizando e adaptando a velha mensagem (a mesma desde o tempo em que a serpente ofereceu o fruto proibido a Eva) à informalidade das síncopes utilizadas pelos usuários das redes sociais: vc, pq, msg.
...
Empaquei. Ou caí no peguinha preparado por ele. Afinal, quais os 2 erros eu elegeria para serem corrigidos, dentre os tantos grandes erros cometidos em mais de meio século de existência?
...
Por fim rascunhei a resposta:
Prezado Deus,
Espero não magoá-lo por não levar a diante vossa corrente. Por 3 motivos: primeiro, por não ter suficientes amigos íntimos quanto os exigidos para apontar-lhes os erros e assim disseminar e tornar eficaz a vossa campanha publicitária. Segundo por não conseguir decidir quais seriam os dois, dentre os tantos erros pelos quais vós corrigiríeis. Por último, sem ser desrespeitoso, por eu ser daqueles pessimistas negativistas agnósticos que não acreditam em destino e muito menos na possibilidade de sua mudança. E que, apesar do apego ferrenho à vida, apregoa que viver é o nosso maior erro.
PS.: se achar que vale a pena posso vos indicar um excelente e barateiro revisor ortográfico-gramatical-estilístico.
...
Mandei? óbvio que não. E se ele não entendesse o gracejo? se considerasse blasfêmia essa postagem? se se enfurecesse a ponto de bloquear o sinal ou clonar meu celular, por exemplo, enviando à revelia, a mensagem para todos os meus centos de contatos?
Ou atirasse um raio para rachar minha soberba ao meio?
...
(O castigo veio. Não como raio, vírus virtual, bloqueio de sinal. Veio na forma da crise criativa que se estende desde o dia em que rascunhei a resposta à interpelação divina até sabe-se lá quando - crise de tal proporção que me obriga a publicar este texto ruinzinho só para não deixar os preciosos 4 seguidores do blog abandonarem-no, deixando-o morrer à míngua).
terça-feira, 20 de maio de 2014
diário dos dias sem nexo
Comédia dramática portenha para dormir & Cães de aluguel antes do café da manhã.
...
Dias de cão hidrófobo, dias de cachorro louco, dias taquicárdicos de lobisomem.
...
Julgamento. Catacumbas. Cactos & dracenas. Ciúmes & desconfiança. Inércia, vácuo, marasmo, death. Céu de apocalipse ao entardecer.
...
Sonhos intensos. Mais densos e reais que a realidade.
...
Dias de enterrar a cabeça na areia. De não atender o telefone. De faltar compromissos. De passar horas sentado diante do espelho ou da tela do computador. De apagar os rastros, os contornos. De pular do parapeito da varanda do primeiro andar. De desmaterializar.
...
Mas o novo amor veio e ficou e acendeu as luzes e arrumou a mesa dos papéis e varreu o chão e lavou a louça acumulada e tirou as teias de aranha dos cantos e cantou até que eu dormisse e apagou os sonhos ruins.
...
Monstros primordiais antecipando a catástrofe. A surpresa do fauno na manhã de ventania. As prostitutas & sexo & rock’n’roll na W3. O passado retorna e me joga de novo no mesmo ponto. A pedra de Sísifo, o fígado de Prometeu. Sabe onde fica a cidade de Zeugma?
...
Preciso encetar objetivos. Finalizar projetos, iniciar novos. Terminar leituras & releituras. Me esforçar. Superar o tédio e a falta de sentido de tudo. Plantar a roseira no chão da sala. Casar de novo ou comprar uma bicicleta.
...
Os vikings desembarcaram e incendiaram as paliçadas, as fortificações. A areia das minhas pálpebras ficou tingida de sangue & excrementos.
...
Dias de cão hidrófobo, dias de cachorro louco, dias taquicárdicos de lobisomem.
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Julgamento. Catacumbas. Cactos & dracenas. Ciúmes & desconfiança. Inércia, vácuo, marasmo, death. Céu de apocalipse ao entardecer.
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Sonhos intensos. Mais densos e reais que a realidade.
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Dias de enterrar a cabeça na areia. De não atender o telefone. De faltar compromissos. De passar horas sentado diante do espelho ou da tela do computador. De apagar os rastros, os contornos. De pular do parapeito da varanda do primeiro andar. De desmaterializar.
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Mas o novo amor veio e ficou e acendeu as luzes e arrumou a mesa dos papéis e varreu o chão e lavou a louça acumulada e tirou as teias de aranha dos cantos e cantou até que eu dormisse e apagou os sonhos ruins.
...
Monstros primordiais antecipando a catástrofe. A surpresa do fauno na manhã de ventania. As prostitutas & sexo & rock’n’roll na W3. O passado retorna e me joga de novo no mesmo ponto. A pedra de Sísifo, o fígado de Prometeu. Sabe onde fica a cidade de Zeugma?
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Preciso encetar objetivos. Finalizar projetos, iniciar novos. Terminar leituras & releituras. Me esforçar. Superar o tédio e a falta de sentido de tudo. Plantar a roseira no chão da sala. Casar de novo ou comprar uma bicicleta.
...
Os vikings desembarcaram e incendiaram as paliçadas, as fortificações. A areia das minhas pálpebras ficou tingida de sangue & excrementos.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
diário do dia nublado com trecho clássico
Acordo sempre cedo. Geralmente de mau-humor. Preciso de um tempo sozinho até me acostumar com o dia. Hoje tive que acordar bem mais cedo. Às correrias, por conta de levar a senhora X ao médico. Na outra extremidade da cidade. O trânsito nesse horário é intenso.
Sou relativamente calmo, não me estresso no trânsito. Mas ultimamente, dirigir em horários de pico ou em pistas movimentadas também tem me deixado de mau-humor.
Para completar, a senhora X matraqueava incessantemente uma porção de assuntos dos quais eu não tinha o menor interesse. Em um tom de voz alterado, irritante. Isso também me deixa irritado. Resumindo: eu estava uma pilha de nervos.
A certa altura, mudei de pista na forma correta: verificar o espaço existente, olhar pelo retrovisor e dar seta. Então ouço buzinadas e piscadas de luz do carro que vinha atrás, me admoestando por e ter ocupado o espaço que poderia ser dele. O idiota ainda alinhou-se ao meu e carro me olhou de cara feia. Foi a gota d'água. Minha adrenalina explodiu. Abri o vidro e - coisa que nunca fiz antes - encarei de volta e, furioso e berrei vários palavrões.
Eu me assustei comigo mesmo. Acho que se o trânsito estivesse menos complicado, o cara teria parado o carro para tirar satisfações ou me dado um tiro. Ou provocado um ataque cardíaco na senhora X.
Que nada. A senhora X, nem tchuns. Deu uma pausa assustada de 30 segundos. Depois prosseguiu palreando por todo o Eixão, Norte e Sul, até a porta do consultório.
...
Enquanto esperava o fim da consulta da senhora X, o trecho abaixo, de Iaiá Garcia, me vez pensar:
O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.
(Para quem não sabe ou não se lembra, Pangloss é o mentor de Cândido, na novela Cândido, ou o Otimismo, de Voltaire. O principal lema de Pangloss é: "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis").
...
Que o mau-humor dê um tempo no almoço do dia das mães.
Sou relativamente calmo, não me estresso no trânsito. Mas ultimamente, dirigir em horários de pico ou em pistas movimentadas também tem me deixado de mau-humor.
Para completar, a senhora X matraqueava incessantemente uma porção de assuntos dos quais eu não tinha o menor interesse. Em um tom de voz alterado, irritante. Isso também me deixa irritado. Resumindo: eu estava uma pilha de nervos.
A certa altura, mudei de pista na forma correta: verificar o espaço existente, olhar pelo retrovisor e dar seta. Então ouço buzinadas e piscadas de luz do carro que vinha atrás, me admoestando por e ter ocupado o espaço que poderia ser dele. O idiota ainda alinhou-se ao meu e carro me olhou de cara feia. Foi a gota d'água. Minha adrenalina explodiu. Abri o vidro e - coisa que nunca fiz antes - encarei de volta e, furioso e berrei vários palavrões.
Eu me assustei comigo mesmo. Acho que se o trânsito estivesse menos complicado, o cara teria parado o carro para tirar satisfações ou me dado um tiro. Ou provocado um ataque cardíaco na senhora X.
Que nada. A senhora X, nem tchuns. Deu uma pausa assustada de 30 segundos. Depois prosseguiu palreando por todo o Eixão, Norte e Sul, até a porta do consultório.
...
Enquanto esperava o fim da consulta da senhora X, o trecho abaixo, de Iaiá Garcia, me vez pensar:
O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes, nem tudo perfeições, como opina o doutor Pangloss; entendia que há larga ponderação de males e bens, e que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.
(Para quem não sabe ou não se lembra, Pangloss é o mentor de Cândido, na novela Cândido, ou o Otimismo, de Voltaire. O principal lema de Pangloss é: "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis").
...
Que o mau-humor dê um tempo no almoço do dia das mães.
terça-feira, 6 de maio de 2014
a enciclopédia
| Imagem do verbete: Jardim, Reinaldo - na Delta Larousse recuperada. 1970. |
Pois é. Herdei involuntariamente duas delas quando mudei para a atual casa: uma Delta Larousse em 12 volumes e uma Larousse Cultural, 20 volumes. O que fazer com elas? Doar? só se fosse para reciclagem, uma vez que foram recusadas pelas bibliotecas públicas consultadas. Deu pena, guardei. A Larousse Cultural que estava em melhor forma foi para a estante. A Delta, muito detonada, foi encaixotada e guardada de qualquer jeito no quartinho de tralhas.
Acordei hoje incorporado no bicho-arrumadeiro. Tirei os volumes da caixa, limpei com pano seco um a um. O volume do fundo estava em pior estado. Páginas coladas pela umidade e muito mofo. Coloquei-o no sol. Desgrudei folha a folha, com muito cuidado. 1 hora ou 2 de trabalho braçal. Enquanto descolava e limpava as folhas, todo o projeto do livro novo que estava bloqueado no pensamento veio fluindo, definindo-se, se esclarecendo, junto com as lembranças e a leitura de um verbete ou outro, quase intacto ou semi-encoberto pelo mofo preto do esquecimento.
diário cinematográfico
Assisti hoje ao Jardim Atlântico, filme nacional de Jura Capela, com Sylvia Prado, Mariano Mattos e outros. Apelidaram o filme de musical por causa da presença e performance de competentes instrumentistas e cantoras da nova geração em grande parte da fita.
Filme experimental (!?) com imagens fortes: as tomadas submarinas do início, o minotauro emergindo da carcaça do navio naufragado, o Jardim Botânico, o erotizado carnaval de Olinda, etc.
Porém, a certa altura, lá pela metade, comecei a bocejar. Motivo: o filme padece de dois males incuráveis de grande parte da produção nacional. Falta trabalho de ator e esmero nos diálogos.
...
Lindo o Cine Brasília reformado. Som estéreo, ar condicionado, escadaria vermelha, tela nova, poltronas confortáveis, cadeiras de design no hall (no lugar dos incômodos, porém exóticos praticáveis hexagonais recobertos por carpete marrom), torneiras e bancadas tinindo nos banheiros, etc.
Como nos velhos tempos: na sessão das 15 horas, o luxo daquela sala enorme só para mim e para a amiga gueixa.
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Ontem a pasmaceira foi geral. Liguei a TV cedo para terminar de ver o filme iniciado na noite anterior e não desliguei mais. Saldo: um filme bacaninha sobre a vida das esposas de Malcolm X e Martin Luther King, um documentário sobre o projeto dos irmãos Roberto, não selecionado para a construção de Brasília, um romance-suspense-idiota inglês dos anos 80 com um galã gostoso protagonizando cenas picantes de sexo hetero com uma loira platinada e, para completar, uma ficção muito mal arranjada mas eletrizante sobre o final do mundo que não aconteceu em 2012.
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Ao contrário da pasmaceira de ontem, o dia hoje foi intenso: marquei consulta com o dentista, visita do marceneiro e encomenda de projeto de puxadinho para o arquiteto; reservei vaga em um curso e um seminário; li mais de 20 páginas dos livros de cabeceira, postagens e e-mails de amigos; escrevi este e outro texto; escovei a gata; listei os afazeres da semana; coloquei o lixo na rua; fiz um brainstorm frutífero para o projeto das possíveis novas publicações; fui ao cinema, e lanchei com a amiga, como descrito nos parágrafos acima; e até agora não liguei a TV.
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Já com relação aos temas afetivos, parodiando príncipe brother: há algo de indecifrável pairando no ar do reino da Dinamarca.
Filme experimental (!?) com imagens fortes: as tomadas submarinas do início, o minotauro emergindo da carcaça do navio naufragado, o Jardim Botânico, o erotizado carnaval de Olinda, etc.
Porém, a certa altura, lá pela metade, comecei a bocejar. Motivo: o filme padece de dois males incuráveis de grande parte da produção nacional. Falta trabalho de ator e esmero nos diálogos.
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Lindo o Cine Brasília reformado. Som estéreo, ar condicionado, escadaria vermelha, tela nova, poltronas confortáveis, cadeiras de design no hall (no lugar dos incômodos, porém exóticos praticáveis hexagonais recobertos por carpete marrom), torneiras e bancadas tinindo nos banheiros, etc.
Como nos velhos tempos: na sessão das 15 horas, o luxo daquela sala enorme só para mim e para a amiga gueixa.
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Ontem a pasmaceira foi geral. Liguei a TV cedo para terminar de ver o filme iniciado na noite anterior e não desliguei mais. Saldo: um filme bacaninha sobre a vida das esposas de Malcolm X e Martin Luther King, um documentário sobre o projeto dos irmãos Roberto, não selecionado para a construção de Brasília, um romance-suspense-idiota inglês dos anos 80 com um galã gostoso protagonizando cenas picantes de sexo hetero com uma loira platinada e, para completar, uma ficção muito mal arranjada mas eletrizante sobre o final do mundo que não aconteceu em 2012.
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Ao contrário da pasmaceira de ontem, o dia hoje foi intenso: marquei consulta com o dentista, visita do marceneiro e encomenda de projeto de puxadinho para o arquiteto; reservei vaga em um curso e um seminário; li mais de 20 páginas dos livros de cabeceira, postagens e e-mails de amigos; escrevi este e outro texto; escovei a gata; listei os afazeres da semana; coloquei o lixo na rua; fiz um brainstorm frutífero para o projeto das possíveis novas publicações; fui ao cinema, e lanchei com a amiga, como descrito nos parágrafos acima; e até agora não liguei a TV.
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Já com relação aos temas afetivos, parodiando príncipe brother: há algo de indecifrável pairando no ar do reino da Dinamarca.
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