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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
pedido ao papai-noel na noite de natal
o pior de tudo é a sensação de solidão que se sucede ao fastio da gula, que se sobrepõe aos abraços, às conversas adiadas o ano todo, às vezes sérias e profundas, diluídas na cerveja, nos vinhos especiais ou na cidra cereser, os afetos sublimados na gordura do pernil, no mel karo do tender, na pele tostada do chester, na calda de açúcar queimado dos pudins, nos cremes de chocolate e abacaxi do pavê, nos presentes de R$1,99, nos abraços, nos votos de feliz natal & próspero ano novo, que só se repetirão (felizmente) daqui a 365 dias. o que eu queria mesmo era dormir com você.
crônica de natal da infância
Já devo ter escrito várias vezes antes: acho um saco as festividades do fim de ano. Principalmente o natal. Não entendo como a maioria das pessoas se deixa levar pela euforia histérica das compras de presentes, das comidas exageradas, das confraternizações nos bares, dos amigos-ocultos. Do ano novo, os ingressos a preços exorbitantes das festas sem-graça de reveion, das roupas brancas, as homenagens alcoólicas às divindades afro-brasileiras nas praias, beiras de rio, de lago, etc, os fogos de artifício, a cueca amarela para atrair dinheiro ou a calcinha vermelha para o amor (e/ou vice-versa).
Normalmente eu tenho pânico de shoppings. Enfeites e luzes não me agradam, músicas pior ainda, papais-noéis, decorações com duendes, renas, fitas verdes, vermelhas, douradas, cartões de natal on line, lojas abarrotadas, filas nos caixas, disputa de vagas nos estacionamentos, empurra-empurra, crianças berrando - quando sou obrigado enfrentar isso, se eu demorar mais que 15 minutos, é o verdadeiro desespero.
...
Não, leitor(a), não é trauma de infância. Na infância os meus natais foram mágicos.
...
No começo de dezembro íamos com a mãe em excursão ao cerrado. Colhíamos uma árvore seca, daquelas bem retorcidas, o enfiávamos em uma lata com areia, envolta por papel laminado vermelho e estrelinhas douradas coladas em volta. Cobríamos os galhos com algodão e dependurávamos os enfeites - lindas bolas de vidro coloridas, muito antigas, a maioria não maiores que uma uva. Tinha também um papai-noel maiorzinho, meio descascado, também de vidro, que disputava com a estrela (essa sim, era o máximo) o galho mais alto da árvore.
Aos pés da lata de areia montávamos o presépio, forrado com limo colhido no quintal. Meus pendores artísticos revelaram-se cedo - eu construía uma gruta com papel kraft amassado (sacos de pão), culminando com um cometa meio torto recortado na cartolina, fazendo as vezes de estrela dos reis magos.
Os presentes eram poucos e sóbrios. Pequenos embrulhos repousando sob a árvore: carrinhos de plástico, canetas hidrocor e cadernos de desenho e - sempre detestávamos - camisetas, cuecas, meias e/ou sapatos.
Houve um ano, talvez de vacas mais gordas, que eu ganhei um carro de bombeiros com reservatório de água e mangueiras, o irmão do meio um transatlântico com botes salva-vidas e tudo, e o caçula um velocípede em forma de jipe.
...
O melhor do natal daquela época, e só agora eu percebo, era a festa. Além dos parentes de Minas, com muitos primos, vinha tia Madalena e tio Zeca, de Goiânia (traziam um saco de bala toffee coberta com chocolate). Vinham também os vizinhos libaneses - Seu Mohamed com a esposa e os filhos Nasser e duas meninas que não me lembro os nomes, Youssuf, que deixara a esposa no Líbano e Abdel, o mais novo, solteiro, bonito - cabelos castanhos e cacheados como os do anjo do presépio. Traziam arak e pratos esquisitos, que para o meu paladar inculto sabiam a terra.
O mais legal porém era o povo da roça. Começavam a chegar 1 semana, 10 dias antes. Vinham para consultas médicas, resolver problemas de cartório, heranças, partilhas, demarcações, etc, e ficavam para o natal ou até o dia de reis. Os mais velhos e velhas dormiam nas nossas camas. Os mais novos, em colchões. E a criançada toda misturada, irmãos, primos, roceiros - em um grande dormitório de colchonetes estendidos na sala.
Traziam de tudo: pequi, jaboticaba, guariroba, farinha, carne, feijão, biscoitos, queijo, galinhas vivas, ovos de pata, leitão, até um cabrito. A casa ficava com um aroma peculiar, que até hoje me lembro, mistura dos suores, do perfume de tia Madalena, da loção de barba do tio Zeca, dos temperos do oriente, das comidas sendo preparadas, dos assados, o arroz com pequi, os bifes, da cachacinha do avô antes do almoço, do cheiro de galinha depenada.
Era tanta farra nos dias antecedentes ao natal que a ceia propriamente dita era quase frugal. Os mais velhos ou mais beatos iam à missa do galo, celebrada pelos capuchinhos (padre Luiz e irmão Miguel) na igreja de tábuas devotada a São Sebastião. As crianças ficavam acordadas, farreando, ou esperando a comida.
Enquanto isso, eu (e meus precoces pendores artísticos) arrebanhava alguns figurantes (geralmente contra a vontade deles), cobria-lhes com lençóis, colchas e cobertores à guisa de véus e túnicas para encenar um presépio vivo, para a plateia menos religiosa: o pai, o avô e os tios socialistas, tia Hemicênia intelectual, os roceiros sonolentos que não tinham ido à missa, e Bilô, a empregada.
...
Com o passar dos anos o ardor da festa foi diminuindo. O povo da roça deixou de vir. Os tios e primos vinham cada vez menos. Os libaneses mudaram-se. As crianças cresceram. Tio Zeca morreu. Mas meu pai fazia questão de reunir o máximo de parentes possível. Passou-se a ligar a TV (Roberto Carlos, retrospectiva do Fantástico, depois Xuxa) ao invés do teatrinho e das histórias e das conversas.
Depois morte do pai, o natal em família acabou de vez. A gente ainda se reúne - irmãos, cunhadas, sobrinhos e primos mais próximos. Fazemos um almoço tardio - cada um traz um prato, refrigerante, vinho, cerveja. A avó distribui envelopes com dinheirinho (acho que notas de R$ 20 para cada neto) e panos de prato para as noras. O irmão monta a mesa de pingue-pongue e frita espetinhos. Joga-se um pouco de conversa fora. Às 8 da noite acaba. Cada um vai para casa se preparar para as verdadeiras festas de natal nas casas das respectivas sogras.
E eu vou dormir. Enfeitando a lembrança de tempos que talvez só na minha memória tenham sido tão luminosos e mágicos.
...
E esperando que o próximo fim-de-ano capitalista e consumista demore muito a chegar.
Normalmente eu tenho pânico de shoppings. Enfeites e luzes não me agradam, músicas pior ainda, papais-noéis, decorações com duendes, renas, fitas verdes, vermelhas, douradas, cartões de natal on line, lojas abarrotadas, filas nos caixas, disputa de vagas nos estacionamentos, empurra-empurra, crianças berrando - quando sou obrigado enfrentar isso, se eu demorar mais que 15 minutos, é o verdadeiro desespero.
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Não, leitor(a), não é trauma de infância. Na infância os meus natais foram mágicos.
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No começo de dezembro íamos com a mãe em excursão ao cerrado. Colhíamos uma árvore seca, daquelas bem retorcidas, o enfiávamos em uma lata com areia, envolta por papel laminado vermelho e estrelinhas douradas coladas em volta. Cobríamos os galhos com algodão e dependurávamos os enfeites - lindas bolas de vidro coloridas, muito antigas, a maioria não maiores que uma uva. Tinha também um papai-noel maiorzinho, meio descascado, também de vidro, que disputava com a estrela (essa sim, era o máximo) o galho mais alto da árvore.
Aos pés da lata de areia montávamos o presépio, forrado com limo colhido no quintal. Meus pendores artísticos revelaram-se cedo - eu construía uma gruta com papel kraft amassado (sacos de pão), culminando com um cometa meio torto recortado na cartolina, fazendo as vezes de estrela dos reis magos.
Os presentes eram poucos e sóbrios. Pequenos embrulhos repousando sob a árvore: carrinhos de plástico, canetas hidrocor e cadernos de desenho e - sempre detestávamos - camisetas, cuecas, meias e/ou sapatos.
Houve um ano, talvez de vacas mais gordas, que eu ganhei um carro de bombeiros com reservatório de água e mangueiras, o irmão do meio um transatlântico com botes salva-vidas e tudo, e o caçula um velocípede em forma de jipe.
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O melhor do natal daquela época, e só agora eu percebo, era a festa. Além dos parentes de Minas, com muitos primos, vinha tia Madalena e tio Zeca, de Goiânia (traziam um saco de bala toffee coberta com chocolate). Vinham também os vizinhos libaneses - Seu Mohamed com a esposa e os filhos Nasser e duas meninas que não me lembro os nomes, Youssuf, que deixara a esposa no Líbano e Abdel, o mais novo, solteiro, bonito - cabelos castanhos e cacheados como os do anjo do presépio. Traziam arak e pratos esquisitos, que para o meu paladar inculto sabiam a terra.
O mais legal porém era o povo da roça. Começavam a chegar 1 semana, 10 dias antes. Vinham para consultas médicas, resolver problemas de cartório, heranças, partilhas, demarcações, etc, e ficavam para o natal ou até o dia de reis. Os mais velhos e velhas dormiam nas nossas camas. Os mais novos, em colchões. E a criançada toda misturada, irmãos, primos, roceiros - em um grande dormitório de colchonetes estendidos na sala.
Traziam de tudo: pequi, jaboticaba, guariroba, farinha, carne, feijão, biscoitos, queijo, galinhas vivas, ovos de pata, leitão, até um cabrito. A casa ficava com um aroma peculiar, que até hoje me lembro, mistura dos suores, do perfume de tia Madalena, da loção de barba do tio Zeca, dos temperos do oriente, das comidas sendo preparadas, dos assados, o arroz com pequi, os bifes, da cachacinha do avô antes do almoço, do cheiro de galinha depenada.
Era tanta farra nos dias antecedentes ao natal que a ceia propriamente dita era quase frugal. Os mais velhos ou mais beatos iam à missa do galo, celebrada pelos capuchinhos (padre Luiz e irmão Miguel) na igreja de tábuas devotada a São Sebastião. As crianças ficavam acordadas, farreando, ou esperando a comida.
Enquanto isso, eu (e meus precoces pendores artísticos) arrebanhava alguns figurantes (geralmente contra a vontade deles), cobria-lhes com lençóis, colchas e cobertores à guisa de véus e túnicas para encenar um presépio vivo, para a plateia menos religiosa: o pai, o avô e os tios socialistas, tia Hemicênia intelectual, os roceiros sonolentos que não tinham ido à missa, e Bilô, a empregada.
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Com o passar dos anos o ardor da festa foi diminuindo. O povo da roça deixou de vir. Os tios e primos vinham cada vez menos. Os libaneses mudaram-se. As crianças cresceram. Tio Zeca morreu. Mas meu pai fazia questão de reunir o máximo de parentes possível. Passou-se a ligar a TV (Roberto Carlos, retrospectiva do Fantástico, depois Xuxa) ao invés do teatrinho e das histórias e das conversas.
Depois morte do pai, o natal em família acabou de vez. A gente ainda se reúne - irmãos, cunhadas, sobrinhos e primos mais próximos. Fazemos um almoço tardio - cada um traz um prato, refrigerante, vinho, cerveja. A avó distribui envelopes com dinheirinho (acho que notas de R$ 20 para cada neto) e panos de prato para as noras. O irmão monta a mesa de pingue-pongue e frita espetinhos. Joga-se um pouco de conversa fora. Às 8 da noite acaba. Cada um vai para casa se preparar para as verdadeiras festas de natal nas casas das respectivas sogras.
E eu vou dormir. Enfeitando a lembrança de tempos que talvez só na minha memória tenham sido tão luminosos e mágicos.
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E esperando que o próximo fim-de-ano capitalista e consumista demore muito a chegar.
domingo, 1 de setembro de 2013
canção de temporadas antigas: bijouterias
Em setembro
Se Vênus me ajudar
Virá alguém
Eu sou de Virgem
E só de imaginar
Me dá vertigem
Minha pedra é ametista
Minha cor, o amarelo
Mas sou sincero
Necessito ir
Urgente ao dentista
Tenho alma de artista
E tremores nas mãos
Ao meu bem mostrarei
No coração
Um sopro e uma ilusão
Eu sei
Na idade em que estou
Aparecem os tiques
As manias
Transparentes
Transparentes
Feito bijuterias
Pelas vitrines
Da Slopper da alma
(João Bosco / Aldir Blanc)
Virá alguém
Eu sou de Virgem
E só de imaginar
Me dá vertigem
Minha pedra é ametista
Minha cor, o amarelo
Mas sou sincero
Necessito ir
Urgente ao dentista
Tenho alma de artista
E tremores nas mãos
Ao meu bem mostrarei
No coração
Um sopro e uma ilusão
Eu sei
Na idade em que estou
Aparecem os tiques
As manias
Transparentes
Transparentes
Feito bijuterias
Pelas vitrines
Da Slopper da alma
(João Bosco / Aldir Blanc)
sexta-feira, 8 de março de 2013
meninas
Marta tinha a postura de quem sempre soube mandar. Usava roupas finas e brincos de pérolas. Gostava de gritar de madrugada. Xingava a torto e a direito, invocava satanás, fazia o sinal da cruz de cinco em cinco minutos. As filhas levaram-na embora, a contragosto.
...
Toninha passa o dia sentadinha. Penteadinha, cheirosinha, carinha de bruxinha boazinha das histórias infantis. Fraseava ditongos, tritongos e hiatos ininteligíveis, coçava as mãos, apontava para o nada. O tempo todo levantava a saia, procurando o calor das brasas de um fogo apagado sabe-se lá há quantas eras.
...
Dulcina, como o próprio nome, era a mais cordata de todas. Velha como um pajé, magra como um grilo, enrugada como um maracujá. Confundia qualquer visitante masculino com o neto. Convidava-os invariavelmente para um chope com batata frita e bolinho de bacalhau em um botequim de Copacabana.
...
Potira era a mais esperta. Pra lá e pra cá, bolsinha preta debaixo do braço, cheia de contas para pagar. Coordenava o abrir e o fechar do portão eletrônico. Conversadeira, alegre, bem-disposta, negociava o imóvel com as visitas. Com o dinheiro da venda compraria uma casinha em Manaus.
...
Aos 100 anos Zulmira continuava lúcida e independente. Dicção perfeita, os erres e esses dos plurais e das concordâncias. Só conversava com a enfermeira, a cozinheira e a diretora. Passava o tempo todo no quarto, só dela, bordando panos de prato. Esperando o filho que prometeu tirá-la dali assim que terminasse a interminável reforma do apartamento.
...
Toninha passa o dia sentadinha. Penteadinha, cheirosinha, carinha de bruxinha boazinha das histórias infantis. Fraseava ditongos, tritongos e hiatos ininteligíveis, coçava as mãos, apontava para o nada. O tempo todo levantava a saia, procurando o calor das brasas de um fogo apagado sabe-se lá há quantas eras.
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Dulcina, como o próprio nome, era a mais cordata de todas. Velha como um pajé, magra como um grilo, enrugada como um maracujá. Confundia qualquer visitante masculino com o neto. Convidava-os invariavelmente para um chope com batata frita e bolinho de bacalhau em um botequim de Copacabana.
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Potira era a mais esperta. Pra lá e pra cá, bolsinha preta debaixo do braço, cheia de contas para pagar. Coordenava o abrir e o fechar do portão eletrônico. Conversadeira, alegre, bem-disposta, negociava o imóvel com as visitas. Com o dinheiro da venda compraria uma casinha em Manaus.
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Aos 100 anos Zulmira continuava lúcida e independente. Dicção perfeita, os erres e esses dos plurais e das concordâncias. Só conversava com a enfermeira, a cozinheira e a diretora. Passava o tempo todo no quarto, só dela, bordando panos de prato. Esperando o filho que prometeu tirá-la dali assim que terminasse a interminável reforma do apartamento.
domingo, 9 de dezembro de 2012
necrológio atrasado
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| Praça da Soberania |
Todo mundo escreveu sobre Niemeyer no dia da sua morte. Toneladas de elogios.
Eu também escrevi. Um texto ranzinza, implicante, do-contra, chato, estraga-prazer, reclamão. Por isso eu o guardei nos rascunhos. Agora que o assunto deixou de ser manchete, aí vai.
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Niemeyer foi um dos grandes homens do século. Um herói brasileiro. Humanista. Comunista. Ateu. Sua arquitetura monumental é pura poesia de formas e linhas curvas. Trabalhou até os últimos momentos, aos quase 105 anos de existência. Levou a arquitetura brasileira, junto com o samba, a bossa-nova e o futebol para o resto do mundo admirar.
Isso foi dito e redito, escrito e reescrito, até a exaustão. No rádio. Na tevê. Na internet. Nas revistas e nos jornais: do Le Figaro ao Washington Post, do El País ao Corriere Della Sera, do Estadão ao Diário de São Raimundo Nonato.
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Meu pai foi candango. Veio trabalhar na construção de Brasília, em 1957. Na certa trabalhou em algum dos edifícios-monumentos de Niemeyer. Meu tio perdeu a mão em outro deles. Assim, sou daqueles brasilienses que, como disse um político daqui, respiro Niemeyer, tenho Niemeyer no sangue.
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100% das matérias que li (e ouvi) elogiavam a arquitetura poética de Niemeyer. Citando: Palácio da Alvorada, 3 Poderes, Catedral, Igreginha, em Brasília; Pampulha, em Belo Horizonte; Ministério da Educação (hoje Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro; Edifício Copan em São Paulo; e inúmeros outros.
Mas todos calaram-se sobre as obras polêmicas. É natural. Os defeitos dos mortos são rapidamente esquecidos e as qualidades ressaltadas.
Admito, leitor: a partir daqui eu me exponho aos impropérios e ao apedrejamento estético-ideológico. Por entrar no campo do gosto pessoal.
Niemeyer (como humano que foi) também teve seus defeitos. Também criou obras de estética duvidosa. Ruins mesmo.
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Algumas obras polêmicas de Niemeyer têm sua graça. Transitam no grupo das grandes citadas acima. Exemplos? a Passarela do Samba, no limite do aceitável; o Museu da República, pesadão, mas integrado à paisagem sci-fi de Brasília: (Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. - Clarice Lispector); o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, ferindo ou harmonizado com a paisagem; o Museu de Arte de Curitiba, olhão desajeitado, tanto por dentro quanto por fora, mas instigante.
No entanto, tem muita obra que, mesmo com boa vontade, pouca gente consegue defender: os "vulcões"do Centro Cultural de Le Havre, na França; a mão sangrando do Memorial da América Latina, em São Paulo; a "tulipa do cerrado" da Torre Digital; as linhas retas destoantes, hoje encobertas pelas árvores, do hotel em Ouro Preto; e basta.
(Ia me esquecendo do projeto da grotesca Praça da Soberania, contendo, dentre outros, o memorial dos presidentes e um obelisco de 100 metros que, graças a um grupo de arquitetos e cidadãos brasilienses, teve sua construção vetada).
Não que seja culpa do arquiteto. A fama internacional, a competência, a maestria, a produção incessante, as articulações políticas, o discurso, a respeitabilidade da idade, a ocasião, a demagogia, tudo foi motivo para Niemeyer projetar. Foi convidado pelos governantes e aceitou. Quem não aceitaria?
Mas, em se tratando de obra pública, de monumento para a posteridade, de patrimônio histórico, a hegemonia Niemeyer não se justifica. Por que sempre ele? não se deveria consultar antes especialistas? trazer a discussão a público? chamar gente nova? promover concursos, como o próprio, junto com Lúcio Costa ganharam para construir Brasília? perguntar se a população quer e concorda?
...
Não quis em nenhum momento denegrir Niemeyer. Reafirmo sua genialidade. O arquiteto foi o máximo. E, humano, além de maravilhas, também legou criações infelizes.
Passear pela primeira ou milionésima vez, à noite, no Eixo Monumental, da Rodoviária até a Praça dos 3 Poderes é um deleite para o olhar. Uma epifania clariceana. Porém, é uma agressão para o mesmo olhar tropeçar, até o fim dos tempos, na feiosa e desproporcional Torre Digital.
Concluo, então, com uma prece agnóstica aos deuses (?): que Oscar Niemeyer descanse em paz. Que seja eterna e que inspire as gerações futuras a beleza e a harmonia das curvas dos edifícios-esculturas dele. E que livrem Brasília do desengavetamento do projeto da Praça da Soberania.
domingo, 12 de agosto de 2012
sábado, 21 de abril de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
diário gerúndio anti-dia-da-mulher
nadando contra a enxurrada de congratulações. decapitando estereótipos. resmungando contra a hipocrisia reinante. varrendo os glóbulos de isopor da efeméride. jogando a flor-homenagem & o cartão-baboseira na lixeira dos não-recicláveis. abrindo & fechando as pernas quando der vontade. desrespeitando o código social. recusando compactuar com o sexo frágil. invocando as iyabás & as demais iáiás. beijando a mão da matriarca & altercando por bobagens. maquiando a feminilidade. borrifando talco de rosáceas & rosmaninhos no bumbum do neném. descartando a mulher como objeto de consumo. parindo manipansos & bichos de pelúcia & ferramentas para construções futuras. atirando a primeira pedra no telhado de vidro alheio. rejeitando as dualidades pobres & desprovidas de criatividade. lendo clarice & hilda logo de manhã. ouvindo as divas.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
diário gerúndio de carnaval
sacrificando palomas blancas aos penates & aos lares. decapitando a cabra preta ao rei-dionisos-momo. tomando vinho de palmeira & água de rosas com a sereia desalojada. lendo sobre a origem dos ewe-fon. ouvindo o rei roberto.
...
invocando os préstimos de são lázaro. aplicando mosha nas articulações da cadela. fotografando corujinhas sarapintadas. acolhendo o cão sarnento. engasgando com os marimbondos. ouvindo o mavioso canto da cotovia.
...
flanando com benjamin. bebendo com baudelaire no café zurrapa no largo da lapa. fofocando com simone & jean-paul. fodendo com as escravas e os escravos brancos de arthur rimbaud na orgia do beco do mijo. batucando na caixinha um samba antigo. vestindo o saiote do faraó & ouvindo margareth.
...
ofertando paçoquinhas diet ao erê no portão logo cedo.
...
lendo sobre o ahunguelê das princesas-meninas. pescando estrelas com tarrafa. restaurando constelações de nenúfares. vascolejando os balangandãs da baiana. equilibrando as bananas & o abacaxi & o cacho de uvas no cocuruto. revirando os olhos & arremedando os trejeitos & os meneios da brazilian bombshell. pulando no bloco dos mal-lavados. dançarinando afoxé & maracatu & bumba-meu-boi. sentindo falta da marrom & vadeando com clementina.
...
assistindo à decadência dos galãs de hollywood. amando loucamente a namoradinha de um amigo meu. sonhando com keanu reeves & acordando coberto de margaridinhas & peônias & mini-copos-de-leite. tomando umas & outras com a velha-guarda & atravessando o samba da contemporaneidade. ouvindo a saga do anel dos nibelungos.
...
invocando os préstimos de são lázaro. aplicando mosha nas articulações da cadela. fotografando corujinhas sarapintadas. acolhendo o cão sarnento. engasgando com os marimbondos. ouvindo o mavioso canto da cotovia.
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flanando com benjamin. bebendo com baudelaire no café zurrapa no largo da lapa. fofocando com simone & jean-paul. fodendo com as escravas e os escravos brancos de arthur rimbaud na orgia do beco do mijo. batucando na caixinha um samba antigo. vestindo o saiote do faraó & ouvindo margareth.
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ofertando paçoquinhas diet ao erê no portão logo cedo.
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lendo sobre o ahunguelê das princesas-meninas. pescando estrelas com tarrafa. restaurando constelações de nenúfares. vascolejando os balangandãs da baiana. equilibrando as bananas & o abacaxi & o cacho de uvas no cocuruto. revirando os olhos & arremedando os trejeitos & os meneios da brazilian bombshell. pulando no bloco dos mal-lavados. dançarinando afoxé & maracatu & bumba-meu-boi. sentindo falta da marrom & vadeando com clementina.
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assistindo à decadência dos galãs de hollywood. amando loucamente a namoradinha de um amigo meu. sonhando com keanu reeves & acordando coberto de margaridinhas & peônias & mini-copos-de-leite. tomando umas & outras com a velha-guarda & atravessando o samba da contemporaneidade. ouvindo a saga do anel dos nibelungos.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
carnaval com gata em telhado de zinco quente
- qual a vitória da gata em teto de zinco quente?
- permanecer em cima dele, acho. O maior tempo possível.
- me dê a minha muleta.
- apoie-se em mim, querido.
- esqueceu as condições de vivermos juntos?
- não vivemos juntos, só dividimos a mesma jaula.
carnaval com a gata em teto de zinco quente
- ele não prestava! talvez eu também não, ninguém presta.
- você é uma criança de 30 anos. Logo será uma de 50.
(...) heróis de verdade são 24 horas por dia, não durante um jogo!
(...) a verdade é dor, suor pagar contas...
- a verdade é algo irremediável, e ela a tem!
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