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terça-feira, 24 de setembro de 2013

pergunta da caixinha: qual a melhor idade, e por quê?

A infância ficou envolta pela névoa translúcida da memória. Contaminada pelo sonho, retocada pelas cores psicodélicas da fantasia e da ficção e das lembranças de veracidade duvidosa. A adolescência foi só sofrimento, rejeição, desajuste, inadequação. A primeira etapa da idade adulta (dos 20 aos 30) foi uma árdua passagem da adolescência. Acrescentada de paixões, ideias, ideais utópicos. Depois dos 30 anos veio uma espécie de inquietação ainda tênue. Lado a lado com a psicanálise, as realizações, os amores e desilusões grandiosos. Veio também a pressa em adquirir, ter, produzir, mostrar, transmitir perpetuar. Aos 40 a inquietação dos 30 germinou em uma promissora consciência do ridículo de existir. Sim, o amadurecimento, como um parto a fórceps.

Perder para sempre a pureza, a inocência, a impetuosidade, a beleza, o frescor, a vitalidade, etc da juventude com a passagem para os 50 anos provocou uma crise intensa. (Em alguns casos a crise é irrevogável). Caiu a ficha da consciência da finitude.

Porém, superada a crise, a pessoa floresce. Sem arroubos, ímpetos, com menos contradições. Mudam gradualmente o olhar, a perspectiva, o horizonte. O que era esmaecido revigora-se. A essência sobrepuja-se à aparência. Mais silêncio do que forma. Arrebatamentos pequenos, médios ou grandes vêm e vão, como vão e vêm, de vez em quando, uns lampejos lúcidos de loucura. E aos 60, 70, 80? Há que se chegar lúcido e razoavelmente saudável aos 90? Só queria que daqui por diante o passar pelos dias fosse cada vez mais suave e doce e intenso e cheio de novidades.

domingo, 6 de janeiro de 2013

caixinha-de-perguntas

exercício para responder nos próximos dias:

1. se você fosse partir numa jornada espiritual, iria para onde? fazer o quê?
2. quem são seus heróis da vida real?
3. sem pensar nos custos, que tipo de festa você daria, e onde?
4. que acontecimento do presente, passado ou futuro você gostaria de testemunhar?
5. o que você mudaria na sua personalidade?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

5 continhos-boleros

Arrasto os móveis. Varro os cantos. Espalho naftalina nas gavetas. Pulverizo inseticida nos ralos. Estendo os cobertores ao sol. Para expurgar o mofo do inferno dos dias da tua ausência.

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Foi com o vidro quebrado do teu retrato – aquele com cachecol vermelho e sorriso com todos os dentes – que rabisquei na carne do braço este bilhetinho de adeus.

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Despregassem as geleiras do teu sarcasmo. Engolisse-me a avalanche das tuas falácias. Esguichasse na minha cara o gozo do teu descaso - e eu continuaria ali, cão, atento, pastorando, do lado de fora, a porta de nosso corpo-casa.

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Não disfarço a ansiedade ao buscar, entre as chaves do carro e as moedas do troco da padaria largadas na mesa-de-centro, o cheiro, o pó, os resquícios, os cacos, os sachês do paraíso-céu de onde você chega e me proíbe imaginar.

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Não, eu não espero nada mais que isso. Eu construo pontes das migalhas que você espalha no meu tapetinho de dormir.

sábado, 21 de julho de 2012

lugares (2)


Desde a infância, as descrições dos lugares me fascinavam mais que os enredos das histórias. Enquanto ouvia (e depois lia), eu reconstruía, detalhe por detalhe, o quintal da choupana de João e Maria, a silhueta do Hispaniola ancorado em uma enseada da Ilha do Tesouro, a aurora boreal na abóbada da caverna, descrita por Axel na Viagem ao Centro da Terra, os lustres e o papel de parede do salão de baile da Gata Borralheira, as vielas do mercado árabe percorridas por Aladim, os telhados de ouro dos pagodes das Viagens de Marco Polo – estímulos e informações que redesenhavam, expandiam e transformavam, a cada narrativa, a cartografia da imaginação.
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Era uma viagem sem roteiro ou prazos preestabelecidos. Para comemorar os quarenta anos.
Perambulando por Roterdam, vi o anúncio: passagem e 1 semana em Marrakech por quase o preço de um bilhete semanal de tram.
A prévia do mundo mourisco tinha sido a Espanha: primeiro, em Toledo. Depois, no trajeto do ônibus pinga-pinga e do trem repleto de ciganos e paisagens planas e áridas pela janela, as mesmas dos filmes de Bigas Luna, pontilhadas de moinhos à la Dom Quixote e/ou silhuetas-outdoors de touros negros (marca de cerveja que virou identidade visual espanhola), no caminho entre Madri e as cidades e vilas da Andaluzia.
Já na alfândega do Marrakech Menara atravessei o primeiro umbral: o uniforme cáqui e os bigodes do policial com cara de Humprhey Bogart, o guichê de madeira torneada e vidros bisotados com as armas e a bandeira do país, a gavetinha encardida para passar o passaporte, até o carimbo me transportaram para um filme preto-e-branco da década de 1940.
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Os golinhos do chá, sorvidos na varanda de um café em frente à praça, ajudaram a atravessar o segundo portal para aquele lugar das histórias da infância, revisitado em tantos filmes e leituras da adolescência e idade adulta.
A viagem meio psicodélica era estimulada pela velocidade das imagens e das sensações, a luz do entardecer, os barulhos da rua, as rodas de metal das charretes no calçamento de pedra, as buzinas dos carros, os versos do corão distorcidos pelos autofalantes da mesquita, as túnicas escuras, os turbantes, as barbas brancas dos velhos caminhando de mãos dadas, os véus, os arabescos de henna desenhados nas mãos das mulheres, os balaios e flautas dos encantadores de serpentes e macacos, a roupa esquisita dos aguadeiros, tudo me fazia sentir como em outra dimensão, outro tempo, outro planeta, como se a qualquer momento passasse a diligente Morgiana a marcar com carvão o “X” nas portas das casas da vizinhança, como se pudesse tropeçar nas muletas de Rimbaud apoiadas na mesa ao lado, ou se fizesse parte da projeção em 3D de cena de cidade do deserto de um episódio de Guerra nas Estrelas.
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Os outros dias foram também intensos. Transpus outros portais, tanto os de adobe e pedra quanto os sensoriais. Eu vivenciava a realidade e ao mesmo tempo me transportava para camadas profundas da memória, da imaginação e do inconsciente.
Eu andava desde cedo até muito depois do anoitecer, pelos pontos turísticos marcados no guia e pelas ruas comuns, do lado de fora da medina, no labirinto do souk, regateando em francês constrangedor o preço de bugigangas, dando papo para os malandros que me ofereciam, em árabe, chás exóticos, hashish, relógios coreanos e jantares típicos, em bares esquisitos com rapazes-odaliscas a preços módicos, os roseirais floridos nos muros, jardins e canteiros, as cegonhas nos postes e no alto das ruínas, minaretes, janelas rendilhadas, fontes, espelhos d’água, camelos e cabras nos jardins do palácio, litros de chá de hortelã adoçados com quilos de açúcar e servidos em lindas chaleiras de bronze, tudo – nem precisa dizer que voltei para o Brasil surtado.
Surtado, no bom sentido. Melhor: inebriado. A readaptação demorou. Noites seguidas sonhando com o Marrocos, sentindo os cheiros, hortelã, especiarias, mijo, excrementos de animais, tanino, índigo, os barulhos, as vozes, a toada dos imãs, as cores, os arabescos, o céu.
Preocupada com o meu estado quase delirante, a amiga mística explicou: eu tinha vivido ali em encarnações passadas.
A explicação não convencia. Não era assim tão simples. Conhecer Marrakech tinha sido um mergulho muito profundo e eu estava encharcado de sensações. Eu tinha percorrido paisagens de sonho e de memória, locais imaginários e remotos surgidos das primeiras leituras, uterinas, ancestrais, arquetípicas, eu tinha atravessado territórios habitados pela alma.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

lugares (1)

Li: todas as memórias são memórias de memórias. A frase será o mote da resposta à pergunta nº 1 da caixinha-de-perguntas: “qual o lugar mais lindo que você já viu na vida”.

O autor explica: o cérebro não é um álbum no qual memórias são guardadas discretamente como fotografias imutáveis. Uma memória é, em vez disso, de acordo com uma frase do psicólogo Daniel L. Schacter, uma “constelação temporária” de atividade – uma certa excitação dos circuitos neurais que aglutina um conjunto de imagens sensoriais e informações semânticas numa sensação momentânea de um todo relembrado. Essas imagens e informações raras vezes são propriedade exclusiva de uma memória particular. (Jontathan Franzen, O cérebro de meu pai).
 
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Nosso pai era intuitivo no que se tratava da formação perceptiva e sensorial dos filhos. Houve um período (eu devia ter 7, 8 anos) em que ele nos acordava de madrugada para assistir o alvorecer no alto do morro, ouvir a vibração da eletricidade nos fios estendidos entre as torres de alta tensão que margeavam a estrada, caminhar pelas trilhas no meio do mato, ou nadar no córrego, enquanto o sol nascia.
 
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Aqueles lugares, ofuscados pela luz do sol surgindo no horizonte, ou desbotados pela mesma luz amarelada - efeito do tempo sobre uma velha foto polaroid - constituem uma beleza única, certamente não vivenciada no sentido literal, mas alimentada e potencializada pelos estímulos semânticos e sensoriais mencionados na citação.

Seriam ainda os mesmos estímulos os que alimentam as memórias dos lugares vistos depois, ao longo dos anos, criando conexões intrincadas, e quase sempre indistinguíveis, com aquelas primeiras memórias, originais. Como se na essência fossem sempre os mesmos lugares da infância mais remota, realimentados, recriados e transformados na memória de todos os lugares novos.
 
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1.
O córrego fazia uma curva, onde se formava um poço. A areia da margem era quase branca. A água refletia uma luz prateada, vinda não sabia bem de onde, talvez da primeira claridade do alvorecer, talvez apenas da luz embaçada da memória. A margem oposta era ainda uma mancha escura de mato, neblina e restos de noite. Havia cheiro de mato, umidade, cânticos religiosos quase murmurados e trinados dos pássaros. Espalhados na margem, e também na água, de pé, quase imóveis, homens, mulheres, crianças, vestidos com túnicas brancas. Extáticos, aguardavam em fila o batismo. O pastor, com água até a cintura, segurava a cabeça do fiel, mergulhava-a na água e pronunciava algumas palavras, trazia de novo a cabeça do batizado à superfície. 

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O objetivo é escrever sobre o lugar mais lindo já visto. Os lugares lindos estão sempre ligados a situações carregadas de significados. É impossível escolher “o” lugar. Optei por lugares. 

Lugares que se escondem atrás dos lugares-comuns dos cartões postais, dos guias e das máquinas fotográficas dos turistas. Lugares insuspeitados, daqueles que a gente nunca antes tinha ido, mas se sentiu como se sempre tivesse vivido ali. Mesmos lugares, renovados pelas recargas de estímulos e significados nos repositórios da memória.
 
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O jeito então será estender a resposta. Pensei em dez lugares. Diminuí para seis. Até agora, escrevi sobre três: o primeiro é o lugar-origem, a reminiscência da infância, numerada com o 1. aí atrás. Os demais, na ordem caótica pela qual emergiram da memória, virão dia a dia:
  
    •    Marrakesh
    •    Itaúnas
    •    Lagoa do Peri e Pântano do Sul
    •    Chapada dos Guimarães
    •    Aguda

domingo, 17 de junho de 2012

deus/deuses

Jason Shawn Alexander em: http://quam-nos-animadverto.tumblr.com/
Mesmo a gente sendo obrigado a frequentar a missa aos domingos, o catolicismo familiar era proforma. Os conceitos teológicos eram diversificados: pai marxista; avô ateu; ufólogo amigo do pai; tio ex-seminarista; tia kardecista; preta-velha benzedeira, vizinha da avó; inquilinos muçulmanos; professora de piano casada com o pastor dos crentes (naquela época não se conhecia o termo “evangélico”); terreiro de macumba na rua de baixo; etc.

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Nas aulas de catecismo representávamos Deus matematicamente: na forma de um triângulo isósceles amarelo, no meio de uma nuvem tosca emanando raios pela parte de baixo. Ainda havia a pomba, dificílima de ser desenhada, asas abertas, pousada no vértice do triângulo. Aos 7 anos era impossível entender o deus-tríplice dos cristãos: pai, filho e espírito, tão mais abstrato que aquele senhor vestido com um camisolão branco, de barbas brancas muito compridas, esvoaçantes, apoiado em um cajado, geralmente sentado ou deitado (na mesma nuvem onde repousava o triângulo amarelo), das ilustrações dos livros infantis da professora de piano.

Triângulo ou velhote, aquele deus estava em todos os lugares. Vigiava as minhas transgressões (ou travessuras?) 24 horas por dia. Conhecia todos os meus pensamentos atravessados. E era mais poderoso que qualquer outro personagem dos gibis.

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Lá pelos 10 anos, o onisciente-onipresente-onipotente Jeová passou a compartilhar espaço no imaginário com uma turma bem mais variada: os deuses e semideuses olímpicos (apresentados pela boneca Emília) e, claro, os super-heróis da TV e das histórias em quadrinhos. Havia preferências, mas nunca hierarquias: os esguios Apolo e Hermes; o louraço Thor; o fortão Heracles; Atena ao invés de Afrodite; Diana ao invés da ciumenta Hera; Odin a Zeus; etc. Todos no mesmo patamar que os vilões Loki, o irmão torto de Thor; o outro torto Hefaístos; o irracional o Minotauro. Heróis, deuses, gênios, vilões, muito além do bem e do mal.

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Na adolescência o panteão expandiu-se. Descobri os deuses zoomorfos egípcios e hindus; o gorducho Buda; o semidivino Sidarta.

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Mas Jeová retomou a primazia. Com a sofisticação renascentista. Trocou o camisolão branco dos crentes por uma túnica rosada que lhe permitia maior liberdade de movimentos e mostrar o peitoral. Penteou as cãs, a cabeleira, aparou as sobrancelhas. Continuava deitado na nuvem (agora macia, 2.0, coberta por um toldo de seda vermelho, mais confortável que as garatujadas na infância). E bem mais próximo: tocava com o dedo indicador, o dedo indicador de um rapaz peladão e sonolento chamado Adão.

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Aos 17, 18 anos, li que outro barbudo chamado Karl tinha matado Jeová e o resto da galera. Para ele, deus-deuses era lenga-lenga de capitalistas-selvagens no intuito de alienar & manipular a massa. Era empobrecedor: um mundo sem o sobrenatural era um mundo linear, sem-graça, desprovido de sentido e poesia. Claro que não compartilhei esses pensamentos secretos com o pessoal do DCE.

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Mais tarde, vieram Kierkegaard & Artaud & Nietzche.

Kierkegaard me fez entender o monoteísmo judaico-cristão. Culpa, castigo, sofrimento, redenção - só um povo acostumado à linearidade, à planura, à escassez visual do deserto seria capaz de criar um ser superior com aspecto tão irascível, tão temeroso e tão vingativo. Um ser que exigisse tanto de seus seguidores, em troca, apenas, de uma possibilidade.

Por Artaud, eu entendi que negar deus era sofrer. Cruz, cravos, chagas, vinagre, sangue, nada disso valia. Deus era carne, desejo, sexo, secreção, excremento – tudo o que fosse ou saísse do corpo. Porém, o empenho de Artaud em comprovar a teoria era o próprio paradigma, a contradição: a loucura e o sofrimento decorrente da loucura era a prova da existência, nele, daquele deus renegado.

Com Nietzche veio o sossego. Nada de culpa. Deus era prazer, era fruição, era plenitude. Aliás, deuses. Que corriam pelados pelas planícies ensolaradas da Grécia, dando & comendo todo mundo, indiscriminadamente, trepando feito cabritos pelos rochedos até o cume dos picos, vislumbrando o mar azul-turquesa jônico descortinado. Qualquer mortal podia ser deus, desde que visse, que sentisse, que curtisse, que se entregasse àquilo.

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Reafirmar ou negar a existência dele/deles é temerário. Iconoclastia, nesses tempos tão agnósticos e ao mesmo tempo tão crédulos. Até hoje caminho sobre o muro, indefinido, ignorante, confuso - mescla do traçado e erigido pelo triângulo Kierkegaard-Artaud-Nietzche. E pela formação/informação caótica, desde a idade mais tenra. Sem maiores estratégias, definições, posicionamentos.

Por exemplo: não é além do humano ouvir Bach ou Brahms no carro, em pleno engarrafamento, as 7:30 da manhã? ou Ella Fitzgerald, ao amanhecer, voltando da balada? sentir a neblina na mata e ouvir o silêncio cirucundante da lagoa no meio da ilha ao entardecer? caminhar no mato molhado de orvalho?

Ou equilibrar-se, de olhos bem abertos, sem olhar para baixo, na corda que atravessa o precipício que liga o conhecido ao desconhecido.

sábado, 5 de maio de 2012

degustando uma madeleine


Depois da primeira tentativa frustrada de sair de casa, aos 17 anos (morar com Cassandra - melhor amiga do segundo grau - e o namorado dela, em um apê de 2 quartos na 411 Norte), surgiu a oportunidade: vestibular para Artes em Uberlândia. Às cegas: Nem imaginava para que lado ficava Uberlândia. Nenhuma informação sobre a qualidade do curso. A única certeza era o nome do reitor da universidade, o linguista Gladstone Chaves de Melo, meu xará

O que importava era ir.

Para evitar problemas em casa, menti que tinha passado para Arquitetura. Furei as duas orelhas (no final dos anos 70 no Brasil só hippies e gays usavam brincos; eu me enquadrava na primeira categoria). Desfiei a barra das calças UsTop (liberdade é uma calça velha, azul e desbotada). Comprei batas indianas, sandália de couro cru na feira de artesanato da Torre, uma flauta doce e um caderno de de papel Canson A3. Fechei a mochila de lona e parti sem olhar pra trás.

O pai acionou os contatos e conseguiu minha transferência para a agência do BB de lá (eu era menor aprendiz). Conseguiu também alojamento em uma pensão, sob a supervisão do João Rosa, amigo da família, fazendeiro e comerciante de queijos da cidade vizinha de Catalão.

Logo na primeira noite, a primeira experiência fundamental, tipo rito de passagem tardio para um período indefinido entre a adolescência e a idade adulta: vi, ao vivo, um rapaz pelado. O colega de quarto, exibicionista, ostensivamente enxugando-se. Fiquei confuso, constrangido e ao mesmo tempo curioso. Fui para a varanda tocar flauta (para desespero da filha da pensão, que queria ver a novela) e só voltei ao quarto quando tive certeza que o cara já estava vestido e dormindo. 

Não houve professores na primeira semana de aulas. O trote consistiu em cortarem uma mecha do meu black power, farinha, ovo e festa da calourada. Passava o tempo na praça (não me lembro mais o nome), no centro da cidade ainda provinciana, tocando flauta, lendo Rimbaud, sonhando ter um mico-leão no ombro, fazer artesanato e virar hippie de verdade.

Foi quando conheci Renato. Calouro do curso de Psicologia. De Cajuru, cidade vizinha, em São Paulo. Tocava piano. Usava cabelos curtos, óculos de aro grosso, testa larga com entradas. Estereótipo do cdf. Parecidíssimo com Mário de Andrade.

Nossa identificação foi imediata. Era como se nos conhecêssemos de outras encarnações. Renato era pouco menos esquisito que eu. O visual dele era certinho: calça social, sapato, camisa polo. Além de esquisitos, éramos magrelos, compridos, e cem vezes mais sensíveis e delicados que os calouros da veterinária.


Foi morar na pensão. Compartilhamos o quarto com o bofão exibicionista. Nem duas semanas depois resolvemos montar uma república. Com uns conterrâneos de Renato e uma moça da Música.

A dona da pensão encarregou-se de fazer o inferninho. Ligou para o pai. Dizendo que eu tinha me juntado a maconheiros e pederastas. E eu totalmente inocente, virgem ainda, sem nenhuma expectativa sexual a não ser a visão do peladão secando as partes e a idealização da amizade helênica encarnada em Renato.

O pai foi verificar in loco a perdição do filho. Descobriu a mentira da Arquitetura. Renato tentou argumentar: pelo menos esperasse terminar o semestre e trancar a matrícula. Pedir transferência para a UnB. As negociações para a permanência não se concluíram. O pai foi irredutível: abandonar o curso e voltar imediatamente para Brasília.

A segunda tentativa de sair de casa também tinha fracassado. Ou nem tanto. Tinham sido os 4 meses mais intensos da minha vida até então.

(Renato me levou para um grupo de ioga. Me fez respirar incenso pela primeira vez. Me fez pensar que tinha entrado em transe. Questionar a existência de Deus. Me apresentou Freud, Jung e os antropofágicos. Me fez gostar de Villa-Lobos, Doces Bárbaros e Fernando Pessoa. E amar os dicionários).

Para agradar ao pai, fiz vestibular para arquitetura na UnB. Levei pau. Passei para a 2a opção: Artes Cênicas. Entrei para um grupo de dança. Fui iniciado sexualmente. Virei funcionário. Saí de casa definitivamente.

Renato e eu trocamos algumas cartas. (nos anos 80 não havia e-mail). Eram lindas. Poesias, citações, Clarice, Rilke, Hesse - que me fazia viajar, entrar em transe semelhante ao dos incensos e da ioga em Uberlândia. A última foi só uma palavra: "moenza". Seguida de um trecho contextualizante, talvez Mário ou Guimarães Rosa (os dicionários traziam exemplos de uso literário dos verbetes).

Perdemos o contato. Há alguns anos senti saudade dele. Achei no Google. Era cantor lírico. Morava na Europa. Tinha engordado. Cantava umas coisas contemporâneas, dodecafônicas, declamativas, estranhíssimas, textos de Oswald, Mário, Pagu, Jorge de Lima.

Ou seja, nós continuávamos esquisitos. Cada um a seu jeito. Eu muito menos espalhafatoso, grisalho, escrevendo em blog, só resquícios do pezinho na sociedade alternativa. Ele com as músicas compridas, o empresário alemão e a herança antropofágica.

Até pensei em entrar em contato. Desisti. Depois de 35 anos de silêncio e esquecimento é difícil sobreviver alguma identificação entre nós. Talvez ele nem se lembrasse mais de mim. Talvez o encontro improvável servisse só para confirmarmos que continuávamos mais sensíveis e delicados que os caras da veterinária.

Ou talvez não teríamos nada a dizer um ao outro. A não ser tentar recuperar fragmentos irrecuperáveis daquele tempo de escombros.

Mas isso é coisa que se faz somente quando se está sozinho. Diante da janela. Na tarde azul, fria, brilhante, transparente, de um sábado não marcado no calendário, não precedido da sexta-feira nem sucedido do domingo. Um sábado amarrando a lembrança dos dias vividos às possibilidades improváveis dos que poderão vir.

(moenza é uma árvore utilizada para fazer tamancos e canoas).

quinta-feira, 26 de abril de 2012

jogo (da caixinha-de-perguntas)

Tranquei as portas que não sei onde vão dar. Fechei as cortinas das paisagens interiores. Bloqueei as frestas, os poros e os orifícios com fita crepe e jornais velhos e panos de prato e dormi sem apagar a lâmpada da cabeceira.
Acordei cheio de planos e de grandes metáforas. Disposto abandonar as naus do passado e seguir pelo continente em direção ao desconhecido.
Olhei para o relógio marcando 7 horas. Para o café esfriando no fundo da xícara. Para a fatia de pão saltando da torradeira. Para a faca lambuzada de manteiga. Para o jarro com tulipas murchas. Para os tufos de pelo de gato debaixo da mesa.
Voltei para a cama. Esperei a vontade passar. Ainda não estava preparado para cruzar a fronteira do corriqueiro e do lugar-comum.

domingo, 22 de abril de 2012

just perfect day (para m)

Abro outra cerveja. Recapitulo o dia, a semana, o semestre, os últimos cinco ou dez séculos. Projeto pontes pênseis para o próximo milênio. Para a próxima existência.

Replico universos paralelos e realidades divergentes. Escrevo ficções enquanto a existência se distrai. Sobreponho fatos que poderiam ter sido e incertezas que nunca se comprovarão.

"Focalize o lado claro das coisas". "Envenene-se antes". "Neutralize a negatividade". "Mergulhe na lama e na lava e na merda existencial". Definitivamente eu não devo dar ouvido aos conselhos contraditórios das Eumênides.

(Eumênides é um eufemismo para evitar escrever/pronunciar o verdadeiro nome das Erínias: Megera, o rancor. Alecto, a cólera. Tisífone, a vingança implacavel). Pronto, falei.

Constato, admito e bato três vezes no peito: os triângulos são inexoráveis.

Cumpro o programa. Queimo etapas. Supero metas. Finalizo roteiros. Mas falho nas proposições. Ontem mesmo eu deveria ter resistido às investidas do implausível e permanecido casto & puro & virginal até o próximo intervalo comercial.

Ando pobre de gramática e de vocabulário. Hesito na colocação dos pronomes. Atravesso na adequação dos tempos verbais. Locupleto adjetivos e advérbios como olhos-de-sogra e casadinhos.

Passa da uma hora. Melhor dormir e sonhar. E acordar como a doce Ofélia, cabelos embaraçados às algas e às raízes do fundo do regato.

sábado, 21 de abril de 2012

exercício

Exercício para os próximos dias: responder às questões abaixo (da caixinha-de-perguntas) de forma criativa.

1) Qual o lugar mais lindo que você viu na vida?

2) Que pergunta você faria a Deus?

3) O mundo vai estar melhor ou pior daqui a cem anos?

4) Quais são as qualidades mais importantes de um amigo?

5) O que você preferiria: ser o pior jogador de um time campeão ou o melhor jogador de um time fracassado?

6) Se você acredita que existe o paraíso, como acha que ele é?

7) Descreva um dia perfeito.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sidinei

Meu signo? Velho, eu não suporto essa conversa. Tá a fim de puxar assunto?  Pô, velho, eu perdi a mulher por causa disso. Sério. A Sula era dessas. Lia o horóscopo de tudo quanto era site da internet. A primeira coisa que a Sula perguntava quando conhecia alguém era o signo. Pra ver se combinava com o dela. A Sula chegou a recusar serviço porque a patroa era de Gêmeos. Sem noção, velho! A gente enfrentando a pior barra, ela grávida, aluguel atrasado, nome no Serasa, sem um puto na conta pra passar o mês e a doida faz essa maluquice. Deus me perdoe, mas ainda bem que ela perdeu o menino. Teve uma época que ela tava tão doida que ficava até de madrugada na internet fazendo o mapa astral da galera. Vendo quem combinava com quem. Caralho, velho, era foda. Velho, eu não aguentava: "capricorniano, sempre pastando sozinho no alto do morro"; "sagitário adora sexo não convencional"; "canceriano é amor pra toda a vida". Tou até ouvindo a voz dela. Desse jeitinho, velho. Eu não sei como eu consegui aguentar. 5 anos, velho, 5 anos ouvindo aquela bobajada. Um dia ela veio com um papo esquisito. Que o meu mapa com o dela não tinha nada a ver. Que era por isso que a gente não ia pra frente. Que ela se ela tivesse casado com o Sidinei, o cara que ela namorava antes da gente ficar junto, ela não estaria na merda que a gente estava. Velho, bastou. Eu mandei a Sula calar a boca. Levantei a mão, nem sei se bati na cara dela, de tanta raiva que eu tava. Abri o verbo. Que eu sempre dei o maior duro, que nunca faltou arroz nem feijão no prato dela, nem luz nem água nem internet nem cerveja no fim de semana. Que se a gente tava na merda a culpa era dela, que morria de preguiça de tudo, que deixava a casa naquela zona, que nem ovo sabia fritar direito. Que ela enfiasse o horóscopo no rabo, que ela fosse dar a xoxota dela pro Sidinei, que eu não tava nem aí. Que o prazo de validade dela tinha vencido. Que ela sumisse da minha frente. Velho, eu peguei pesado, mas foi a melhor coisa que eu fiz. A Sula não abriu a boca pra dizer um "a". Arrumou as coisas dela pianinho e se mandou sem nem olhar pra minha cara. Não deu duas semanas e já tava morando com o viadinho do Sidinei. Velho, foi rápido demais! Pô, velho, eu vou dizer isso só pra você, que é meu chegado. Será que a história do mapa deles combinando tinha mesmo a ver ou a Sula já me chifrava de muito tempo?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

6 - qual foi a experiência de vida que mais me fortaleceu?

Gastrite, insônia e pressão alta. A dentista arrancou sem querer o dente sadio. A melhor amiga roubou o namorado. Furou o pneu da moto no domingo. Cancelaram a viagem na última hora. A passadeira Queimou o paletó do único terno apresentável. O porteiro pediu 100 reais emprestado. Desabou o toró. Descobriu que era adotado. O colega reclamou do mau-hálito. Depositaram antes do dia o cheque predatado. Perdeu a ação por vacilo do advogado. Perdeu o último ônibus para Guarapari. Perdeu a receita do antibiótico. Apareceu uma pereba na virilha. Vai ter que usar aparelho. Perdeu 100 reais no metrô. A mãe fala pelos cotovelos. O vaso sanitário entupiu. O desodorante e o creme dental acabaram. O colesterol está nas alturas. O namorado nunca tem tempo. O vírus corrompeu os arquivos. O paquera do site não apareceu. O vizinho ouve pagode no último volume. A imunidade anda baixa. Discutiu com a caixa do supermercado. O segurança mandou baixar o tom de voz. Clonaram o cartão de crédito. Bloquearam a internet na repartição. O chefe passou o pior serviço. A mãe-de-santo mandou se benzer.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

5 - se eu vivesse até os 100 anos, acharia mais importante ter a mente lúcida ou o corpo em forma? (Mini-histórias daltônicas)

Roupinha lavada e passada, comidinha na hora, bolsa de água quente aos pés da cama de madrugada, mãozinhas de menina massageando as costas. Não fosse a pitada de vidro moído na comida dia sim dia não, chegava, fácil, aos 100 anos.


***

Apaixonada pelo Zorro da Sessão da Tarde. Café no copo, bolachas Maria na bandeja e o boa-noite, na ponta da língua, para oferecer ao repórter grisalho do jornal das 8.

***

Aos 60, corria 2 quilômetros e tomava banho frio no inverno. Aos 70 o substituiu a natação pela hidroginástica. Aos 80, caminhada leve e alongamentos para não forçar o joelho. Chegou aos 100 completamente lúcido. Roçando os peitinhos das meninas do retiro.

***

Novelos de cabelos embrulhados em papel de seda. Balas de leite derretidas, ainda do aniversário de 80 anos. Crucifixo faltando um braço e correntinha de ouro arrebentada. Vidros de remédio vazios. Sacos de pão tão bem dobradinhos que pareciam novos. Moedas velhas, fichas de telefone e arruelas na lata de Nescau escondida no fundo da mala.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

1 - se eu fizesse uma tatuagem, como ela seria e em que parte do corpo?

imagem de http://dream-exchange.blogspot.com

A Kelen tem verdadeiro pavor dele. O Wesley se mandou logo que pôde. Nem tinha completado 17. Nunca mais deu notícia. Eu tenho vontade de perguntar pra mãe. Ela não ia abrir o jogo. Ela tem é muito medo dele. A gente devia denunciar ele na delegacia do adolescente. Deixa pra lá. Um dia ele paga os pecados. É uma tatoo. Uma cobra. Tá, é pequena, sim. Pra não ter perigo dele ver. Eu queria fazer uma grande, no flanco, subindo pelo braço, ia arrasar. Mas se ele descobrisse, me matava. Me dava uma surra. Me expulsava de casa. Se foi aquele auê por causa do brinco, imagina se ele souber da tatoo.

3 e 7 - se eu pudesse escolher, que vista gostaria de enxergar de minha janela? - se eu ganhasse uma reforma na minha casa, o que mudaria primeiro?


Logo que o divórcio sair a gente muda pro apê em Guarapari. Já tava passando da hora. O Clóvis só quer o apê de Guarapari. Vai deixar a casa e o carro pros filhos. A gente vai começar vida nova. A gente vai reformar o apê. Colocar blindex na janela. Eu não conheço Guarapari. Eu preferia morar no Rio. Mas se vender o apartamento de Guarapari o Clóvis não comprava nem uma kit de fundos no Rio. Mesmo assim eu preferia. O Clóvis me chamou de burra. Em Guarapari só tem aposentado. Bom pro Clóvis. Ruim pra mim. Até o divórcio sair eu convenço o Clóvis. O Rio de Janeiro não tem nem comparação.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

7 temas para desenvolver nos próximos dias

(retirados da caixinha de perguntas de Madame A)

1 - se você (eu) fizesse uma tatuagem, como ela seria e em que parte do corpo?

2 - com que parente ou amigo já falecido você (eu) escolheria conversar?

3 - se você (eu) pudesse escolher, que vista gostaria de enxergar de sua (minha) janela?

4 - a pessoa que você (eu) mais detesta (detesto) tem algum traço positivo?

5 - se você (eu) fosse viver até os 100 anos, acharia mais importante ter a mente lúcida ou o corpo em forma?

6 - qual foi a experiência de vida que mais (me) fortaleceu você?

7 - se você (eu) ganhasse uma reforma na sua (minha) casa, o que mudaria primeiro?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Doutor Cezinha

Tenho duas perguntas que vêm rolando há dias, cujas respostas não consigo concluir. Porém, diante das atuais e alarmantes circunstâncias (a queda considerável de pontos de audiência, a crise existencial & depressiva, o sentimento de culpa por me sentir improdutivo e sem objetivos), aqui registro, a quem interessar possa. São elas: 1 - emitir opinião sobre as três políticas mais importantes; e 2 - dizer aos leitores qual é o meu grande dever para com o meu país. Quanto ao 1, por mais que eu tentasse eu não sairia do óbvio: as 3 políticas mais importantes são a política da educação, a política da saúde e a política da distribuição de renda. Sem o tripé social nenhuma outra proposta se sustenta. Quanto ao 2 eu reafirmo: Limites geográficos ou patriotismos pueris não me contêm. Deveres, se os tenho, são deveres de ser humano. De homem do mundo. Por falar nisso, será que ainda dá tempo de jogar na megassena?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Kiko

Médico. Eu prometi a vovó. Para curar os doentes. Para receitar remédio de pressão. Vovó tem pressão alta. Papai queria que eu fosse jogador. De futebol. Vôlei não. Vôlei é jogo de mariquinha. Papai que disse. Eu não gosto de futebol. Nem de vôlei. Eu gosto de jogar queimada. Queimada também é jogo de menina. Ou de mariquinha. Foi meu primo quem disse. Mamãe quer que eu seja artista de novela. Papai diz que novela é coisa de mulher. Que ator de novela é gay. Na novela tem um gay. Papai é do Corinthians. Eu sou do Botafogo. Aquele da estrela branca no meio do escudo preto. Eu acho a estrela linda. Eu sei desenhar estrela de 5 pontas. Só não sei direito ainda desenhar o escudo. Se eu for jogador eu quero ser goleiro. Goleiro tem a roupa mais bonita do time. Camisa de manga comprida. E luvas. Tudo preto. Com a estrela branca no peito. Se eu for médico eu só vou me vestir de branco. Jaleco, camiseta, calça, sapato, meia. Até cueca. Jaleco é aquele tipo de camisa comprida que o médico usa por cima da roupa. Vou ter um óculos de armação branca. E ouvir o coração das pessoas pelo estetoscópio. Es-te-tos-có-pio. Vovó me ensinou. Outro dia eu levei uma bolada. No jogo da escolinha. Eu quase desmaiei. Meu primo falou que quem desmaia é gay. Ainda bem que eu não desmaiei. Só fiquei tonto. O professor chamou meu pai. A gente foi para o hospital. Eu fiz todo tipo de exame. Radiografia raio xis. Raio xis é uma espécie de fotografia dos ossos. Tomografia computadorizada é para fotografar o cérebro. Não deu nada. O médico que me atendeu era muito legal. Perguntou o que eu queria ser quando crescer. Médico. Claro. Eu perguntei porque raio xis se chama raio xis. Ele me explicou mas eu me esqueci. Me deu alta. Dar alta é deixar o doente ir para casa depois de curado. Quando a gente saiu do hospital meu pai me disse que ia me dar uma camisa do Botafogo. Eu queria mesmo era outra coisa. Eu não vou contar o que é. Se eu pedir o meu pai vai me chamar de gayzinho. Eu não sou gayzinho não. Quando eu crescer eu vou ser médico. Pediatra ou veterinário. Vou me casar com uma esposa. E vou ter 2 filhos. Um menino e uma menina. Davi e Celina. Davi é o nome do médico que me atendeu. Celina é o da minha professora de música.  Eu não vou chamar o Davi de mariquinha se ele gostar de jogar queimada. A Celina podia ser loira.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Perazi

O garoto escreve bem. Melhor que eu, na idade dele. Nem se compara. Hoje eles começam cedo. Não há mais espaço para autodidatas. E-mail, telefone, foto, editora. Concordei de tanto insistirem. Bonito, sim. E convencido. Convencido que escreve bem. Que me seduzirá, se não pelo que escreve, pela beleza, pelas carnes firmes. Perguntou a razão de eu ter declarado na revista não gostar dos novos. Eu nem me lembrava. Jornalistas sempre fazem as mesmas perguntas, eu disse. Eu não gosto dos novos porque me irrita narrativa em primeira pessoa. Como se nada mais existisse para contar além do umbiguinho, dos pelinhos, da barriguinha definida e dos pentelhos macios recendendo a tutti-frutti. Como se todos os novos escrevessem em primeira pessoa. Riu. Ele, muito pelo contrário. Como se dissesse: Tiozinho ultrapassado, eu estou aqui para te seduzir em troca de meia dúzia de linhas elogiosas. Escreve em blogs. Meu filho, eu odeio internet. Trouxe Justiça ou Perdão para eu autografar. Edição antiga, ruim, horrorosa. Junto com uma caixa de chocolates caros e uma garrafa de vinho. Depois que se foi eu abri o vinho. Tomei a metade. Folheei o livro. Que diferença do Justiça ou Perdão. Eu quis criar uma atmosfera retrô, ele disse. Citando um Barthes óbvio na folha de rosto. Continhos razoáveis. Uns bons, outros menos. Li tudo. Até de madrugada. Ah, insônia de velho babão. Surpresas. O garoto vai aprender depressa. Realizar o sonho de todos eles: tornar-se um expoente da nova literatura. Não sei se foi o vinho ou as histórias ou os dois - eu me empolguei. Me imaginei comendo o garoto. A bundinha branquinha, lisa, empinada, oferecida. Exatamente como na cena de sexo do último conto.  Li o senhor aos 14 anos. Foi quando decidi ser escritor, ele disse. Gozo de velho mais parece soluço.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Patty

Foto: Yoan Valat no site www.limao.com.br
Na agência disseram que a velha falava inglês. Perguntei: in english? Ela simplesmente me ignorou: Nous parlons le français en France. A japa riu. Velha maluca essa. Primeiro proíbe a gente de usar a cozinha. Depois demora meia hora explicando como ligar e desligar o gás. Não pode abrir a janela. Senão Bridge foge. Bridge é a gata pulguenta da velha. Que fica deitada no sofá. Perfeito para a minha alergia. A velha não deu a chave da porta. A gente tem que chegar até as 10. Não esquecer de desligar o aquecedor. Nunca levar estranhos. Não fumar no quarto. Proibido usar a banheira. Não usar droga. Até o jeito certo de enrolar o absorvente no papel higiênico. Proibido sexo no quarto. Sexo? Só se a japa for lésbica. Ah, esqueci. A japa vai dividir o quarto comigo. Cabelo pintado. Nem tirou os fones de ouvido. A velha não deve ter enxergado os piercings, a tatuagem e a carinha de pervertida da japa. Senão, no mínimo teria recusado. Imagina a velha flagrando a gente pelada se pegando, dentro da banheira proibida? Seguro o riso. Penso em Raskolnikov. Rachar a cabeça da megera com o samovar. Incrível! A velha tem um samovar. A japa tarada perguntou para que servia. Cacilda, como pode uma estudante de literatura não saber o que é um samovar? A velha quase teve um troço. De emoção. Era lembrança do primeiro marido dela. Cinzas guardadas em uma espécie de caneco de chope gigante com duas alças em cima da lareira. Morreu na guerra. Deve ter sido na Guerra do Peloponeso. Eu devia ter batido o pé e ido para o albergue. Ou para o alojamento. Não, filhinha, em casa de família eu fico mais tranquila... Ou aceitava ou desistia da viagem. Se a mãe soubesse do gato, se visse a cara da japa, com certeza me deixava ir para o albergue. Estou morta de cansada. Meus pés estão duas bolas de inchados. Desfazer as malas. Ligar para a mãe. Tomar algum remédio para dormir, para passar o jet-leg. Chamo a japa pra comer na Pizza Hut? À noite eu ligo para a mãe. 4 horas a mais ou a menos?