Para não fazer peso na bagagem só levei 3 livros: "Extremamente alto, incrivelmente perto", de Jonathan Safran Foer; "Itinerância dos artistas - a
construção do campo das artes visuais em Brasília - 1958-2008", de
Angélica Madeira; e "Mala na mão & asas pretas" - vol. 2 das Obras reunidas, de Roberto Piva.
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| (Extremamente alto, incrivelmente perto. Jonathan Safran Foer. Editora Rocco. 2011. Tradução de Daniel Galera) |
Safran Foer surpreende. Eu já tinha lido dele (e gostado)
o "Tudo se ilumina", sobre um jovem americano que a partir de uma foto
antiga, vai procurar suas origens na Ucrânia. "Extremamente alto" é a
história de um garoto, judeu, que perdeu o pai no ataque às torres
gêmeas, no histórico 11 de setembro. Talvez seja politicamente incorreto
dizer isso: o livro, como em 99,9% da literatura feita por judeus,
dedica um longo capítulo sobre o holocausto (o bombardeio de Dresden).
Muito bem escrito, por sinal, mas meio forçado.
O que mais
me impressionou foi a estrutura do romance. Por onde a narrativa flui,
sem bloqueios. Creio que a estrutura sólida faça uma analogia, contraponto (consciente ou inconsciente) à sólida e ao mesmo tempo frágil dos edifícios gêmeos destruídos por Osama Bin Laden.
O autor utiliza com grande propriedade de vários recursos
gráficos - textos sublinhados em vermelho, sequências de imagens,
fontes sobrepostas, etc, como se fosse um caderno de diário. Há 3 personagens-narradores: Oskar, o garoto de
9 anos que perdeu o pai no 11/09; a avó; e o avô mudo que só se comunica
escrevendo frases em um caderno ou longas cartas para o filho
(abandonado antes de nascer e depois morto). Sendo que os avós são uma espécie de desdobramento do personagem Oskar.
Me pareceu que o
livro é uma homenagem ou referência a "O Tambor", filme de Volker
Schlöndorf (Polônia, Alemanha, França, Ioguslávia, 1979). Os personagens
principais possuem muitas semelhanças e o mesmo nome: Oskar. O Oskar de
"Extremamente alto toca um pandeiro nos momentos de tensão interna; o
de "O Tambor" toca tambor. O Oskar de Foer não quer que a mãe se
relacione com outro homem. Oskar de "O Tambor" parou de crescer por ter
descoberto o amante da mãe. O universo interno dos dois é infinitamente
rico e angustiado. Há nos dois Oskar um impulso ou necessidade de busca de sentido existencial. As duas histórias referem-se ou se desenrolam sob o pano de fundo do nazismo.
Assim por diante.
O capítulo final de "Extremamente alto" é impressionante.
Talvez fosse mais adequado chamá-lo de sequência, por sua proximidade do
cinema. Foer/Oskar mergulham em uma vertiginosa sequência, como o
efeito de inverter o rolo do filme e consequentemente inverter a
sequência natural dos acontecimentos - a queda transforma-se em
ascensão, a destruição em construção, o fim em começo, o começo em fim.
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| (Itinerância dos artistas - a construção do campo das artes visuais em Brasília 1958-2008. Angélica Madeira. Editora UnB, 2013) |
A
segunda leitura da noite e madrugada foi "Itinerância dos artistas", de
Angélica Madeira. O livro conta a história das artes visuais na cidade.
Angélica escreve de uma forma erudita e ao mesmo tempo muito agradável
de ler. Começa, como os textos acadêmicos, apresentando a metodologia de pesquisa, as fontes de referência, as opções de direcionamento. Para em seguida abandonar esse formalismo (necessário) e embarcar em um texto fluente e agradabilíssimo de ler.
Os primeiro capítulo fala dos primeiros tempos, anteriores à inauguração da cidade até o final da década de 1960. Angélica transforma fatos históricos em um texto quase literário, de tão imagético. Sem abrir mão do rigor histórico, da análise estética e sociológica e da elegância da escrita.
É
como se estivéssemos lá, no descampado de uma cidade em construção, presenciando fatos históricos - as encomendas oficiais de
monumentos/esculturas para os espaços públicos, o preparo da terra para o
plantio dos jardins e espelhos d'água de Burle Marx, Athos Bulcão coordenando a
disposição dos cubos da fachada do Teatro Nacional, Ferreira Gullar
organizando a festa do primeiro aniversário da cidade, o encontro das grandes arte-educadoras Mirtes Macdowell, Renee Simas, Laís Aderne e Ana Mae Barbosa, a Escola-Parque, os ateliês nos
barracões de obra na construção da Universidade de Brasília, as
palestras do Congresso da Aica (Associação Internacional dos Críticos de Arte) - enfim, pura História - e viva.
"Itinerância dos artistas", juntamente com "Entre poéticas e políticas", de Renata Azambuja são os livros pioneiros em organizar, definir, registrar e delimitar os fatos dispersos e às vezes quase perdidos da história da arte brasiliense.
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| (Mala na mão & asas pretas. Obras reunidas. Volume 2. Roberto Piva. Editora Globo. 2006) |
Por fim, o deslumbramento dos poemas de Roberto Piva. "Mala na mão" reúne "Abra os olhos e diga ah!", "Coxas", "20 poemas com brócoli"e "Quizumba", escritos entre 1976 e 1983.
Ler Piva é gozar (metaforicamente talvez) a cada poema. É puro tesão deixa-se levar pela sequência vertiginosa das palavras, dos versos truncados, sincopados. Das imagens improváveis,
eróticas, pornográficas, sonoras, contundentes, intergaláticas. Piva cria sentidos
inusitados, desloca o tempo todo o sentido dos conceitos, rompe qualquer possibilidade de interpretação de significados preestabelecidos.
Muito além do surrealismo ou da escrita automática, a
poesia de Piva é mística e primordial. Extremamente erudito - mistura milhares de referências clássicas, filosóficas, textos sagrados - Dante da Divina comédia à frente - à pornografia dos michês e de garotos sodomizados em saunas de periferia, praticando várias modalidades de sexo em praças públicas, ninhos-de-amor-quitinetes ou coberturas de edifícios da Avenida Paulista, etc.
Para além da escrita automática dos surrealistas, a poesia de Piva aciona os
mecanismos internos do inconsciente, impulsionando o leitor, como se estivesse no primeiro carro de uma montanha russa radical a se conectar com o telúrico, o dionsíaco, a kundalini, energia sexual, a ejaculação cósmica.
(Como brinde, as análises da obra de Piva por Alcir Pécora no prefácio e Eliane Robert Moraes, no posfácio).